Todos os artigos de José Mário Silva

Perseguidos e ultrajados

streetfighters.jpg

Se um marciano aterrasse neste belo planeta e tivesse o azar de ouvir Paulo Portas, José Manuel Fernandes e respectivos primos a falarem da”ditadura do politicamente correcto”, ficaria imediatamente convencido de estar perante gente corajosa que afirma as suas ideias subversivas, apesar de perseguidos pela polícia, escorraçados do ensino, despedidos dos seus empregos e excluídos da televisão. Tudo isto por afirmarem, correndo risco de vida, a superioridade do Ocidente, dos ricos e do engenheiro Belmiro.
Deus abençoe estes combatentes de rua e os guarde à sua ilharga e lhes dê para ler a colecção completa da “Revista Xis”.

Ódios de estimação

A Iberia tem os melhores especialistas de marketing do planeta. O slogan da companhia é: “a pontualidade é o nosso objectivo”. Uma forma elegante de desarmar os clientes furiosos, pelo riso desbragado. Dir-me-ão vocês: – não me diga que nunca houve nenhum voo da Iberia que tenha chegado a tempo? Houve claro, mas até um relógio parado dá, duas vezes por dia, a hora certa. Durante toda a minha vida, os grandes atrasos têm um nome: Iberia.
Eu quando tomo um avião da garbosa companhia castelhana acrescento mais três horas para ligações, para não me espalhar. Infelizmente, cada vez que compro um bilhete dessa companhia, dou um passo para o abismo: perdi o avião para Tutxla Gutierres, quase faltando a um encontro com a guerrilha zapatista, em 1996; foi difícil conseguir sair de uma Colômbia sufocante, numa guerra sem fim, entre guerrilha e paramilitares, em 2002.
Actualmente, os atrasos são menos emocionantes, apenas falto a reuniões, mas quando me falam que eu exagero e que há pessoas que não se queixam, nem sequer das sandochas duvidosas a cinco euros, eu lembro-lhes: também se diz que um grupo numeroso de macacos munidos de máquinas de escrever, com um tempo infinito, é capaz de escrever as obras completas de Shakespeare. Quando me interrogam o que é que isso tem a ver com o esforço da Iberia, eu respondo: dois macacos, cinco minutos…

OS NOSSOS FILHOS DA PUTA

Syriana_onesheet[1].jpg

Syriana é um filme que revela o óbvio: os regimes Ocidentais são cúmplices das ditaduras mais torpes e corrompidas do planeta em troca de petróleo. O Fundamentalismo religioso é um germe de uma doença grave que tem na falta de democracia, na miséria e no desespero o seu caldo de cultura. Em nenhuma região do mundo a democracia progrediu tão pouco como no Médio Oriente. O petróleo tornou-se numa maldição negra. Em troca destas reservas de combustível os Estados Unidos da América apoiam regimes feudais como o da Arábia Saudita, fazendo recordar a grande máxima da política internacional cínica e realista que sempre norteou esta grande potência: quando perguntaram, salvo erro, ao Presidente Truman o que pensava do líder da Nicarágua colocado pelos Estados Unidos, o Presidente Somoza Garcia (pai do Anastásio Somoza corrido pelos sandinistas), Truman respondeu com astúcia: “é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta.”

Memória auxiliada

Um amigo meu, de um um grupo que está contra a passagem da antiga sede da PIDE para condomínio de luxo, foi interrogado e vai a tribunal. O grupo dele pretende que as pessoas recordem o que foi a PIDE. Entre outros crime relevantes é acusado de ter interrompido a passagem de carros durante um minuto. Pode-se dizer que, para a memória, o ministério público é melhor que as pílulas de alho do Dr. Rogoff (?).

Sem acentos

Depois de entregar, no aeroporto das “baratas”, quinze bloquistas, para seguirem viagem para o Sahara Ocidental. Encontro-me no meio de Madrid num meio de um carnaval estranho de um bar alternativo,chamado “Ladinamo”. Está tudo mascarado. Eu “vou à internet”. O computador tem como sistema operativo o Linux, e eu, reformista de MAC, estou longe da vanguarda. Leio com estranheza o texto do Fernando sobre um Joel que nem sequer conheço. O mundo é pequeno e Portugal é minimo. Eu cá, até posso aceitar que o tipo é um excelente pai de família e que tem um canídeo que gosta muito dele. Eu estou farto é de entrevistas em tom de engraxatório e de textos sem raiva, nem nada. Mas ainda bem, Fernando, que tu o adoras. O amor é o sentimento mais belo do mundo.

TCHI BUMMMMM!

Atomic Bomb.gif

A facilidade com que se propõe a energia nuclear em Portugal é comovente. Já toda a gente percebeu que será um bom negócio para alguns, o que poucos parecem querer considerar são os riscos. Os defensores da solução nuclear afirmam que as probabilidades de acontecer um desastre são extremamente reduzidas, mas, pelo caminho, escamoteiam algo decisivo: o que é que aconteceria se tudo corresse mal?
A magnitude dessas implicações devia exigir cuidado. Calcular um risco de uma viagem de avião, que implica uma centena de pessoas, é diferente do que analisar as implicações da construção de uma central nuclear que, independentemente da probabilidade do desastre, envolve dezenas de milhões de pessoas.
Mesmo que a central nuclear não rebente e não tenha uma fuga de radiação, há sempre a interrogação do que fazer com detritos letais que ficam activos mais de 10 mil anos. A esse respeito é interessante ver um exemplo lateral, mas significativo, da dimensão do problema: o Congresso dos Estados Unidos da América criou uma comissão para discutir o problema da sinalização dos resíduos. O objectivo do grupo era resolver o seguinte desafio: Que sinais são possíveis de inventar para que a humanidade no espaço de 10 00 anos saiba que numa determinada área existem substâncias muito perigosas. O resultado desses trabalhos foi paradigmático: os cientistas concluíram ser impossível sinalizar eficientemente estes resíduos.
Esta conclusão devia levar-nos a pensar sobre a irresponsabilidade de um determinado tipo de decisões que põem em causa, de uma forma irresponsável, a vida de centenas de gerações.
Para deleite dos cépticos, aqui fica uma curta descrição que o sociólogo alemão Ulrich Beck fez desses trabalhos de Hércules:

Continuar a lerTCHI BUMMMMM!

Um conto de fadas

Eduardo Pitta expõe uma ideia esclarecedora: se a operação policial que foi sujeito o 24 Horas se tivesse passado com um jornal “sério”, teria caído o Carmo e a Trindade. Tenho, sobre este assunto, uma historieta lateral.
Eu que trabalho para viver, já fui jornalista no 24 Horas. Não me arrependo de lá ter estado, assim como fiquei aliviado quando sai. «Não entendia o “produto”», como diziam os directores, com a graça de quem faz “o jornal que mais subiu de vendas”. Mas o “produto” tinha uma regra admirável: não publicava mentiras. E quando se enganava, desmentia tudo com grandes parangonas. Claro, que não pretendo que a regra se aplique a alguns jornais de referência, estou de acordo que seria muito enfadonho ter que ler edições inteiras com desmentidos, mas podiam aprender com a ralé. O director do 24 Horas, Pedro Tadeu, antigo jornalista do Avante, actualmente, apostado em fazer o jornal mais alienante possível, assumia esta limitação, dizendo que o seu jornal não tinha credibilidade suficiente, para se dar ao luxo de publicar uma mentira.
Alguns meses depois, ajudei a organizar uma manifestação contra a ocupação do Iraque. Durante o desfile, a organização ambientalista GAIA tinha criado uma peça de rua, em que participavam figuras mascaradas de soldados norte-americanos, bombistas suicidas e vítimas civis. A encenação pretendia exprimir que a escalada da guerra era louca e assassina.
O jornal Público estampou nas suas páginas, para ilustrar a manifestação, uma fotografia com uma legenda que garantia que os manifestantes tinham-se vestido de bombistas suicidas. Em nenhum lugar da notícia era enquadrada e explicado esse acto.
Aproveitando a fotografia, o impoluto e imparcial José Manuel Fernandes fez mais um editorial a afirmar que os manifestantes contra a guerra eram apoiantes declarados do terrorismo internacional e escandalizou-se que os manifestantes tivessem permitido gente a homenagear os bombistas suicidas. A seguir do guru, as hienas menores replicaram o mesmo argumento em várias crónicas.
Identificando-me como um dos organizadores da manifestação, pedi esclarecimentos ao provedor do leitor da altura, o jornalista Joaquim Furtado.
Na semana seguinte, saiu a sentença salomónica :
1. Consultado o director José Manuel Fernandes, o próprio desmentiu ter tentado aproveitar uma fotografia enganadora para desqualificar a manifestação. A esse respeito, o Furtado garantiu que o seu director Fernandes era um modelo de virtudes.
2. Que as jornalistas responsáveis pela peça, consideravam correctas a legendagem da foto.
3. Apesar disso, o provedor teve que considerar que a fotografia não estava correctamente enquadrada. No final acrescentou ufano: “disseram-me que Nuno Ramos de Almeida é jornalista do 24 Horas”. Assim como dissesse: “Como é que uma puta pode queixar-se de ser violada?”.

Confesso que fiquei bastante divertido com a resposta do provedor. Mandei-lhe outra mensagem dizendo que não tinha percebido a alusão. E que se estava tão interessado na minha biografia podia ter dito os vários órgãos de comunicação em que tinha trabalhado; informações tão relevantes como o clube da minha preferência, o meu posicionamento político e o número de filhas que tenho. Tendo em conta que Joaquim Furtado há muito tempo que não fazia jornalismo, lembrei-lhe, de passagem, a regra de cruzar as informações; se o tivesse feito saberia que eu já não era jornalista do referido jornal.
Magnânimo, na semana seguinte o provedor reconheceu que eu já não era, mas que tinha sido. Estou portanto condenado para todo o sempre.
Acredito que José Manuel Fernandes viu sair com uma lágrima ao canto do olho, tão estimável provedor.

A vingança do Gato Constipado

wet-cat[1].jpg

O Procurador-geral da República, o divertido Souto Mora, mandou revistar o jornal 24 Horas. Toda a gente percebe porquê. Ninguém percebe para quê.
A propalada investigação das disquetes do curioso “envelope 9”, devia servir para perceber porque raio de razão estava no processo da “Casa Pia” uma listagem exaustiva de chamadas telefónicas de centenas de pessoas que teriam sido, alegadamente, investigadas durante o processo. A grande maioria dos números que constavam desta lista de bisbilhotice não tinham nenhuma relação com o escabroso assunto, eram apenas gente poderosa, certamente com contactos interessantes.
A perseguição dos jornalistas que revelaram a existência do envelope no processo, entretanto tornado público, poderá aliviar a bílis do procurador, mas não responde a nenhuma questão importante.
O procurador arrisca-se ser empurrado para o desemprego pelo riso, mas tem um prémio de consolação: terá lugar em qualquer circo que se preze ao lado do saudoso Santana Lopes. Cocó e ranheta já estão, só falta arranjar o facada.

Pneumáticos

[…] Muitas experiências são impedidas quando haja agarramento a uma linguagem que não é adaptada ao caso (subjectivo, de alguém). Não me venham falar, nem a mim nem a qualquer um de nós, de incorruptibilidade e de corrupção. Falem antes da permanência do fim e do carácter efémero dos nossos inumeráveis “eus”. Não falem de imortalidade da alma se não tiverem tido a experiência sequer de um desejo que, de facto, constitua uma força material na vida interior. Não falem da carne; falem da resistência ao orgulho: do engano próprio, da imaginação, da dispersão da energia de atenção. Não falem de Deus, falem antes do estádio seguinte de presença e compreensão; porque, para vós, isso é “Deus”. Não falem de misericórdia e de perdão dos pecados; falem antes de uma atitude de interesse em relação a si mesmos tal qual são. Não falem de culpabilidade. Não se atemorizem consigo mesmos, nem façam do amor algo consigo próprios. […]

Nota marginal do P. Silvano
“Instrução prática”

Enquanto alguns fogem da religião por estarem ofuscados pelos comportamentos de homens sem fé que nela me(r)dram, ou por não desenredarem o novelo historicista, confundindo culto e cultura, a humanidade resfolega igual a si própria – uma ponte entre o animal e o divino. Os ateus e os cínicos, os cépticos e os ideólogos, todos têm razão; ah, se têm! Mas, nem que eles continuem a ladrar à Lua até que o inferno gele terão a razão toda. O fenómeno religioso, aqui tomado em sentido abrangente, não se abole por decreto ou silogismo. É uma inevitabilidade intelectual, consequência da complexidade neuronal que supera as limitações do espaço e do tempo através da linguagem. O que nos leva para o maior fracasso das actuais religiões, a dita linguagem dita.

Continuar a lerPneumáticos

Farmacopeia

O saite do Instituto de Meteorologia é feio, mas útil. Nele se desmonta o cepticismo popular relativo às previsões meteorológicas; bizarra crendice que persiste por causa da complexidade e instabilidade dos sistemas climáticos. Porém, quando o cidadão larga com um sorriso agasalhado a decisiva sentença – “eles nunca acertam!” – algo de ancestral arregaçou as mangas: é uma pequena vingança da racionalidade mágica, acossada pela racionalidade científica.

Na secção de mapas por satélite é possível visualizar animações variadas, sendo a minha preferida a da visão sobre o Atlântico. O filme constrói-se com imagens de infravermelhos, uma por hora. Ali assisto aos movimentos das massas de ar, acompanho os seus rodopios, faço apostas quanto à sua direcção, comovo-me com o desaparecimento das frentes frias, antecipo a chegada de gloriosas formações de cumulunimbus. E quando as nuvens aparecem na barra do Tejo, tenho ganas de as ir receber e oferecer-lhes um poiso para descansarem.

Receituário

Para esfregar na cara das vadias que querem ficar em casa a empobrecer os próprios filhos que alegam amar, as mulas.

Para enfiar pela goela abaixo dessa cambada de professores que só se sabe queixar e que vão para a escola como quem vai para um local onde se ensina alguma coisa, os bandidos.

Para chapar no focinho dos solteirões invertebrados ou invertidos, que pensam que são divertidos ou inveterados, os sacanas.

Para mandar aos cornos dos palhaços que continuam zangados, mesmo que tenham toda a razão, e na maior parte dos casos até têm pois vivem rodeados de palhaços, os palhaços.

Farmacopeia

A MorDebe é um recurso que se torna de uso recorrente sem necessidade de explicação. Bloguistas, jornalistas, romancistas, contistas, poetas, publicitários e apaixonados com veia lírica têm ali uma amiga.

Mas não tem as palavras todas. Que alívio.