Todos os artigos de José Mário Silva

Aspirina Box #5

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Confesso que esta Aspirina Box, para além de dar cá uma grande trabalheira, é um exercício altamente viciante e que eu, é bom de ver, ando-me a passar dos cornos. Começo, como sempre, a jogar pelo seguro: «Dry The Rain» dos The Beta Band é uma das melhores músicas de todos tempos e o mundo, que diabos, precisa de sabê-lo (estejam atentos ao minuto 3:19 que é quando entra a melhor linha de baixo do planeta). Depois, há coisas que ando ouvir intensamente nos últimos dias: Blonde Redhead (aqui com mais dois temas maravilhosos), os Of Montreal com «Suffer For Fashion» (que é o single do ano) e, como não podia deixar de ser, The Field, desta vez com o seu magnum opus intitulado «The Deal». Há também um tema dedicado ao meu primito Valupi chamado «Dick Is A Killer», em que um rapaz chamado rx sampla e manipula sobre uma batida cheia de colesterol partes de um discurso do grande George W. Bush. Aquilo começa assim:

Mr. Speaker, members of Congress, Mom and Dad,
Last month a girl in Lincoln, Rhode Island, sent me a letter.
It began, «Dear George W. Bush, if there’s anything you know, please send me a letter.
PS: Kiss my ass. Dick Dick Dick Dick Dick is a killer.»

e depois ainda melhora: um mimo. Há igualmente temas que foram absolutamente vitais para a formação do desastre do meu ser como «No Hurry» dos The Apartments, «Don’t Have To Be So Sad» dos Yo La Tengo, «Peacock Tail» dos Boards of Canada e «I Broke My Promise» dos American Music Club. Depois há coisas menos consensuais como o muito piroso «Justaposed With U» dos Super Furry Animals (o you’ve to tolerate all the people that you hate: i’m not in love with but i won’t hold that against you é zeníssimo), «Long Distance Call» dos Phoenix e o muito etéreo «Colchão d’Água» dos Três Tristes Tigres. Como não consigo ainda gostar (o problema só pode ser meu) do último disco dos The Chemical Brothers, resolvi fechar a coisa com o magnífico «Surface To Air». O destaque vai para «Home» de Lou Barlow, que é uma canção que quando mais se ouve, mais se fica a gostar (e olhem que ando nesta lenga-lenga há dois anos). Era também para pôr Underworld, mas, pelos vistos, esqueci-me. Paciência, fica para a próxima vez.

p z u s e l z

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A semana passada estive na FNAC do Colombo e qual não foi o meu espanto quando vejo à venda dezenas de exemplares de The Jigsaw Puzzle de Anne D. Williams. O livro, pelos vistos, não terá sido um grande sucesso de vendas naquela loja, na medida em que os mesmos estavam à venda por €5,95. Repito: cinco euros e noventa e cinco cêntimos, menos de metade do preço original. Comprei de imediato um exemplar e devorei-o no último fim-de-semana. Anne D. Williams é uma das maiores especialistas do mundo em puzzles. Para além de possuir uma colecção privada com mais de 8.000 puzzles acumulados nos últimos 25 anos, ela tem sido das autores mais prolíferas sobre a matéria, tendo já escrito meia-centena de artigos científicos sobre a história, o mercado e as técnicas de fabrico de puzzles. Este livro é assim uma espécie de corolário de trinta anos de amor e dedicação à causa. Que conheça, esta é a primeira obra de fôlego sobre a história do puzzle, fruto daquilo que apenas posso supor ter sido um tremendo trabalho de investigação. O subtítulo Piecing Together A History faz, de resto, jus à dimensão da obra. Anne D. Williams não se limita a inventariar os momentos mais marcantes da história do jogo, como consegue articulá-los com uma escrita simples e sedutora, que nos transporta para o universo por vezes maníaco-compulsivo das pessoas que jogam, coleccionam e criam puzzles. Neste livro, pude não apenas confirmar uma série de informações que tenho acumulado nos sítios mais duvidosos (Internet) e diversos (romances, revistas e artigos), como descobrir pormenores absolutamente fascinantes como o facto desta história com mais de 300 anos ser dominada por figuras femininas. A obra está ainda profusamente ilustrada e inclui uma secção com fotografias de meia centena de exemplares, criteriosamente escolhidos, referenciados e contextualizados. Até como simples objecto, The Jigsaw Puzzle vale bem o preço.

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Aspirina Box #4

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Mais coisas na Box (desta vez, em dose cavalar para chegar aos 50 temas). Em primeiro lugar, há as obsessões do costume: The Field com mais uma bomba (a sério: ninguém sampla vozes como este caramelo) e os Of Montreal com mais dois belos exemplos do calibre do último disco da banda. A Box abre de uma forma absolutamente pornográfica com essa obra-prima que é «Just A Bit» de Robert Wyatt (vale bem a pena, como sempre, estar atento à letra), o meu tema favorito dos Swell e a muito pertinente reinvenção de «Star Spangled Banner», o hino dos Estados Unidos, em «(Baby, Baby) Can I Invade Your Country?» dos Sparks. Depois, há o grande «Southend On Sea» do inevitável Mark Eitzel (e com Mark Isham nos sopros), a boa-onda super-cool de «Up On The Hill» dos Fun Lovin’ Criminals e «Buttons & Zips» dos subvalorizados Elbow, tudo material de finíssima qualidade. Aproveitei o facto de ter inserido «Live With Me» dos Massive Attack, que conta com a voz do imenso Terry Callier (rapaz que não fica a dever nada a eminências como Curtis Mayfield ou Marvin Gaye), para vos dar a ouvir uma pérola gravada ao vivo em quatro pistas há mais de 30 anos chamada «Lean On Me». Também há música instrumental: o groovy «14th St. Break» do novo e absolutamente viciante álbum dos Beastie Boys, o clássico «Everyting Is Alright» de Four Tet e esse autêntico pêndulo hipnótico que é «Hunted By A Freak» dos Mogwai. As vozes femininas ficam ao cargo de Stina Nordenstam, Múm e Blonde Redhead, estes últimos com o tema «Top Ranking» (o tal com o magnífico vídeo com a Miranda July). Para terminar, permitam-me que destaque «City Of Motors» dos Soul Coughing: deve haver poucas canções que tenha ouvido mais vezes na minha vida. E traz-me sempre recordações dos aúreos tempos da xfm, o que não é mau. Snif.

Midas Filmes, Hal Hartley e euforia

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Esta é, para mim, a notícia da semana: a Midas Filmes vai editar os primeiros filmes de Hal Hartley no próximo mês de Setembro. A empresa, fundada por Luís Apolinário e Pedro Borges (ambos trabalharam na Atalanta), já tem, de resto, um impressionante catálago e um plano de futuras edições que irá deixar qualquer cinéfilo com água na boca. Para além dos belíssimos documentários de Scorsese sobre o cinema americano e italiano, há ainda os primeiros filmes de Kusturica, Nanni Moretti, André Téchiné e Takeshi Kitano. Mas o destaque vai sem dúvida para os primeiros filmes de Hal Hartley: The Unbelievable Truth (1989), Trust (1990), Simple Men (1992) e Amateur (1994). Depois destes filmes, o rapaz nunca mais foi o mesmo, apesar de ainda ter achado alguma piada a The Book Of Life (1998), onde a PJ Harvey fazia uma fantástica Maria Madalena. Agora só me resta desejar duas coisas: que Fay Grim (2006) entre no circuito comercial português e que a Midas Filmes inclua no seu catálogo as três curtas-metragens que o rapaz realizou em 1991 – Theory of Achievement, Ambition e Surviving Desire. Entretanto, os mais impacientes, podem ir ao sítio do costume ver, na íntegra, duas obras-primas chamadas Trust e Amateur. Olé.

Cuidado: isto começa com gritos

Os Tilly And The Wall são um dos segredos mais bem guardados da música do novo continente. Entre as inúmeras virtudes destes meninos, conta-se a curiosidade de a percussionista da banda, Jamie Williams, ser uma bailarina, isto é, ela substitui a bateria pelo som amplificado do seus sapateados e palminhas (o que, convenhamos, faz todo o sentido e apenas fico surpreso por ninguém se ter lembrado disto antes). Mas o que realmente faz dos Tilly And The Wall uma das minhas bandas favoritas é o facto de produzirem a música mais boa-onda e bem-disposta do planeta. Agora, quando um rapaz chamado Kinga Burza (Ungashaka! Ungashaka!) se junta a esta malta para realizar o vídeo de «Sing Songs Along», o resultado não é apenas uma desbunda de som, imagens e euforia, mas um dos objectos mais belos e rejuvenescedores que já vi na minha vida (e vocês sabem que não sou gajo para exagerar nestas merdas). A sério: da próxima vez que se sentirem em baixo ou tristitos, esqueçam lá o Red Bull (que é um beneno) e afinem os sentidos para esta pequena maravilha.

Uma versão do vídeo com maior resolução (Quick Time) pode ser vista aqui.

Aspirina Box #3

boxas.jpg Mais coisas na box. Para celebrar a notícia que vai haver este ano um novo disco do grande Robert Wyatt, acrescentei mais três temas do rapaz: o clássico «Shipbuilding», a versão revisited de «Left Of Man» e o fabuloso docu-drama que é «Pigs… (In There)» (a sério: vale mesmo a pena espreitar a letra). Depois, há mais uma obra-prima de The Field (que sampla com grande pinta a guitarra do inarrável Hello de Lionel Ritchie), a melhor faixa que os Idaho gravaram até hoje e uma pérola dos Of Montreal, cujo último disco tem sido, para mim, uma das grandes surpesas do ano. Fui ainda repescar um tema dos Faultline que prova que a voz do Chris Martin é ainda a única coisa que se aproveita dos Coldplay, um belo exemplo de shoegazzing sacado do último disco das saudosas The Raincoats (sabiam que a Ana Silva é prima da nossa Ministra da Educação?) e ainda uma das canções mais emblemáticas da década de 90: «78 Stone Wobble» dos Gomez (que andam agora muito estragadinhos, ‘taditos). Para finalizar, há uma bomba chamada «Silent Shout» dos The Knife (incrível como, com tanto concerto, ninguém se tenha lembrado de os trazer a Portugal) e um clássico de Django Reinhardt que ouvi pela primeira vez há muitos anos no belíssimo Stardust Memories de Woody Allen. Um dia, juro-vos, hei-de saber tocar essa cena.

Post escrito no final de um árduo dia de trabalho em dó maior.

A Kate Nash é a artista mais sublimemente irrelevante da pop britânica. A rapariga move-se em territórios já amplamente explorados nos últimos (vá lá) 40 anos e, por isso, não é de estranhar que não traga absolutamente nada de novo ao planeta pop. Se ainda não me mandaram dar uma volta ao bilhar grande devido à utilização abusiva de advérbios de modo nesta entrada, então posso-vos dizer com um tom voz que gostaria que imaginassem idêntico ao do Eládio Clímaco que «Foundation», o seu mais recente single, é a música que mais tenho ouvido nas últimas semanas. Cheguei a esta canção devido ao vídeo (bela cacofonia) de Kinga Burza (Ungashaka! Ungashaka!), que tece uma delicada filigrana (que querem? estou cansado, preciso de me deitar) em torno dos objectos que denunciam essa bela e gloriosa estupidez que é uma vida a dois. Como dizia o meu pai, a felicidade é um estado de alma sobrevalorizado: existem estados intermédios muito mais recomendáveis.

Aspirina Box #2

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Coisinhas novas na box. Em primeiro lugar, há rock norte-americano: «Icky Thump» dos The White Stripes (uma bomba) e «Fake Empire» dos sempre indispensáveis The National. Como ainda não ouvi o novo disco dos Wilco (dizem que é fraquito, mas não acredito), resolvi colocar essa absoluta maravilha de contenção, sobriedade e bom-gosto que é «Kamera» do superlativo YANKEE HOTEL FOXTROT. Para além de ir buscar o velhinho «I Dreamt I Saw St. Augustine» de Bob Dylan (composto na ressaca das sessões com os The Band que viriam a dar origem às THE BASEMENT TAPES), volto a insistir com The Field, desta vez com a faixa «Everyday» (reparem sobretudo o que acontece a partir do minuto 2:27). Como não tenho vergonha na cara, não hesitei em colocar um dos meus temas favoritos de todos os tempos: o quase tântrico «Banshee Beat» dos Animal Collective (não se esqueçam que amanhã há Panda Bear em Serralves). Para terminar, fui buscar «The Bleeding Heart Show» dos The New Pornographers, «Sky Starts Falling» dos Doves (uma das bandas mais subvalorizadas da pop britânica) e «The Hard One» dos saudosos The Beta Band que aqui recriam o refrão do clássico «Total Eclipse of The Heart» da demoníaca Bonnie Tyler. Os temas da semana passada também continuam disponíveis.

Aproximação a Modem Talking II

conceptronic2.jpg Se existe uma banda capaz de trazer para o mainstream a glitch music, essa banda são os Conceptronic. Oriundos da Holanda (where else?), há vários anos que esses rapazes têm tentado conquistar ouvintes, ignorando a incapacidade da crítica especializada em perceber o alcance da sua música – ficou famoso um artigo de Matt Broad no NME (infelizmente não disponível on-line), em que este classificava a música da banda como «pure bullshit». Chegou ontem às lojas de discos dignas desse nome o segundo álbum dos Conceptronic, sagazmente intitulado MODEM TALKING II. O disco, para além de finalmente cumprir 14 anos depois as promessas da música concreta que se podia ouvir em Wohnton dos Oval, possui características tão universais que aposto que haverá poucos leitores deste blogue que não irão sentir uma estranha familiaridade ao ouvir os seus temas. Exemplo paradigmático disso mesmo é a faixa «KBPS: Fifty Six» que deixo aqui de seguida: nunca ouvi música que, de forma tão revolucionária e sublime, consiga cumprir todos os parâmetros para comunicar com os seus potenciais ouvintes. Ou servidores.

Podem comprar a música dos Conceptronic, por apenas €11,26, aqui.

Miranda July x 205

23br.jpg Ora aqui está um objecto que junta três das melhores coisas que o mundo tem para nos oferecer hoje em dia: os Blonde Redhead, o Mike Mills e a Miranda July. Sobre a autora desta autêntica obra-prima que é Me And You And Everyone You Know, confesso aqui (rendido) que não consigo falar nela sem me subir desalmadamente os níveis dessa vaca que se chama glicemia (vejam, por exemplo, a forma super-original que ela arranjou para apresentar no vil HTML o seu novo livro de contos No One Else Belongs Here More Than You). Quando aos Blonde Redhead, apenas vos digo que são responsáveis por um dos grandes discos deste ano (chamado 23, reparem no mimo da capinha) e que lhes gabo o bom gosto de terem recorrido a Mike Mills para realizar o vídeo do single «Top Ranking». O rapaz, que deve partilhar algumas das minhas profundas fantasias, resolveu fazer o teledisco recorrendo apenas a essa musa do bom-gosto que é a minha menina July. Reparem bem como só ela é que conseguiria resgatar do fracasso uma ideia tão bela, simples e preguiçosa que é filmar (pormenor fundamental, nada disto funcionaria com fotografias) um ser humano em 205 poses diferentes. Agora, se me permitirem, vou mudar o Post Status para «Published», clicar em «Save», tirar a insulina do frigorífico e sucumbir a esta repentina vontade que me deu de suspirar.

Uma versão com maior qualidade (Quick Time) pode ser vista aqui.

Aspirina Box #1

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Não sei se já repararam mas, na coluna da direita, logo por baixo do elenco dos enfermeiros, o blogue tem agora uma nova secção intitulada Aspirina Box. A ideia é criar uma jukebox virtual para cada um dos aspirínicos que será actualizada todas as semanas com sete temas escolhidos pelos mesmos (isto partindo do princípio que os meus estimados colegas estejam com pachorra para isso). Quanto à minha box, resolvi escolher coisas relativamente recentes, exceptuando «La Ahada Yalam», a versão de Robert Wyatt do original do compositor iraquiano Nizar Zreik que fecha o sublime CUCKOOLAND (2003), e uma raridade dos Boards of Canada chamada «Macquarie Ridge» e que apenas pode ser encontrada na edição japonesa de THE CAMPFIRE HEADPHASE (2005). Quanto ao resto, há a techno minimaltista de «Over The Ice» de The Field (desde KID A dos Radiohead que não ouvia a voz humana ser integrada de forma tão original na textura da música electrónica), um momento trovadoresco de M. Ward (por quem nutro uma admiração muito pouco sadia), mais uma prova da desbunda que é o último disco dos The Bees, e ainda duas faixas muito progressivas intituladas «Breaker» dos Low e «Kidz are so small» dos Deerhoff, que é para dar um ar ainda mais esquizofrénico à coisa.

Já cá canta

O novo vídeo de Paul McCartney realizado pelo grande Michel Gondry. Com Natalie Portman, Mackenzie Crook (o impagável Gareth Keenan de The Office) e o próprio Gondry na bateria. Para já, ainda não encontrei um link em Quick Time (o que é grave), mas já dá para ter uma ideia desta verdadeira desbunda.