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Coisas infelizes numa revista chamada Happy

A revista chegou-me às mãos de modo gratuito, embora ostente na capa o seu preço, que é 1 euro e meio. Esse foi o primeiro aspecto insólito. O segundo foi o título em inglês, sendo a revista portuguesa.

O terceiro ponto insólito foi o editorial assinado por Carla Ramos, no qual recorda o dia 20 de Janeiro, dia em que o prédio onde esta revista é feita – o número 11 da Avenida António Augusto de Aguiar, em Lisboa – foi cercado. Escreve a directora que o prédio ficou «seteado» por ambulâncias, bombeiros e polícia. Sitiado é que é, mas passou. Está nos dicionários, mas pelos vistos a revista não tem revisor. Na página 160, surge uma reportagem com um título insólito, também ele: «Um farol no Oceano». Ora se o hotel aí descrito está em Cascais, não me parece que seja no Oceano. Quando muito vê-se do Oceano, que não é a mesma coisa. Mas, adiante.

Sobre o quarto que lhe foi destinado, a jornalista escreve: «Clean é a palavra que melhor define o quarto que me foi atribuído.» Clean, assim sem mais nem menos. Não aparece em itálico nem em negrito. Nem em comas. Segue-se uma frase curiosa: «O barulho do mar chama-me a atenção e ao espreitar vejo que estou a dormir mesmo em cima da rebentação das ondas.» Se está a dormir, não pode perceber o barulho que – deste modo – não pode chamar-lhe a atenção. Por fim aparece o nome e a morada da tal Estalagem do Farol, o telefone e o site na Internet, mas (ó inclemência…) sendo a morada de Cascais aparece a palavra Lisboa a seguir ao código 2750-461.

Não pode – como muito bem diz o Gato Fedorento imitando o professor Martelo. Não pode – tento dizer eu. Mas a minha voz é muito fraca e talvez não chegue lá. De qualquer modo, teimosamente, continuarei a dizer: Não pode. E a repetir: Não pode. Não pode.

José do Carmo Francisco

Ainda a «Justiça de Torres Novas»

Na minha qualidade de juiz social do Tribunal de Menores de Lisboa, já com catorze anos de experiência, não posso calar a minha revolta pela decisão tomada no Tribunal de Torres Novas. O pai adoptivo de uma criança foi condenado por sequestro da mesma quando afinal tem tomado conta dela desde os três meses de idade, quando a mãe biológica lha entregou devido à sua incapacidade para cuidar da menina com um mínimo de condições de conforto. Desempregada e abandonada pelo pai biológico da criança, a mãe brasileira tomou a melhor decisão em favor da vida futura da criança. Entregou-a de boa-fé a quem a recebeu de boa-fé e lhe tem dado todo o carinho ao longo de cinco anos. O superior interesse da criança é que deve sempre pautar todas as decisões do Tribunal, seja ele de Torres Novas ou de outra qualquer comarca. Condenar por sequestro o pai adoptivo que sempre tratou bem a criança desde os três meses de idade não é – seguramente – defender o superior interesse da criança. Se fosse julgado nos juízos onde trabalho, este caso nunca teria este desfecho. Eu nunca assinaria por baixo uma sentença que considera sequestro a recusa de um casal entregar uma criança que tem tratado como filha ao longo de cinco anos a um pai biológico que só agora se interessou pela filha e que não esteve nunca presente nem quando soube da gravidez nem quando a criança nasceu. Como além de juiz social também sou jornalista, ouvi dizer que é uma pessoa da família do pai biológico que está a puxar os cordelinhos. E a pagar a uma equipa de advogados para ganhar a criança como se fosse um troféu de caça. Justiça de Torres Novas: um caso em que o Direito, uma vez mais, é o maior inimigo da Justiça.