Author Archive for jorgecarvalheira Archive Page
Lá fora batem rijos os aços do comboio furando a noite, alguém lhe chamou idêntica, será verdade. Do que não há que duvidar, se ela própria o afirma, é chamar-se Geneviève esta mulher, e regressar a casa depois duma semana inteira de lições numa escola de sociologia, malquista ciência esta em Portugal, se todas, há […]
Eram os olhos a maior perdição dela. Tão grandes que neles cabia o mundo, tão escuros e fundos que lembravam o mar. Depois vinha a estampa límpida do rosto, debaixo da gaforina asa de corvo. O lábio húmido, a carnação macia, a flor da face cheia de mistério, a prometer abrir-se num sorriso que não […]
A donzela, digo eu, terá os seus quinze anos. Vai sentada do lado da janela, enquanto masca a chicla ruidosa, num estalar de beiços. Sujeita-lhe a gaforina um par de óculos espelhados, de tartaruga pintada.
Ele vai sentado ao lado, um pé no banco da frente. Vai tão indiferente ao mundo, tão alheio à companhia, […]
Em 1970, na esquadra da Ota, tudo chegava da América, ressalvando os géneros do rancho que vinham das hortas de Alenquer. Os aviões eram da guerra da Coreia, e a literatura que neles vinha inclusa tinha eficácia há muito comprovada, ou nas escolas do Texas ou em bases do Arizona. Ninguém sabia porquê, mas tudo […]
Tinha jurado a mim mesmo que o não iria maçar com a tal opiniãozinha. Por uma questão de pudor. Mas quando larguei a obra, entrou-me na cidadela uma suspeita, por alguma porta da traição.
Deixou-me num desalento. Com a compostura da forma, com a pertinência do tema, com a estrutura bizarra, com o hibridismo do género, […]
A frase primitiva é benesse dos deuses, há-de ser verdade, se o disse um francês. Aparece à hora mais acidental, e fica a iluminar o que obscuro andava, a ruminar saída na treva original. Umas vezes é primeira. Porém outras a última será, mas sempre definitiva e terminal.
Depois é dar as outras ao papel, que […]
ao José Rentes de Carvalho
Nesta casa já se dançou a pavana, num tempo em que as damas da família sabiam dissimular o queixo delicado atrás de leques andaluzes, à sombra frondosa das nogueiras. Havia um piano vertical na sala das visitas. E entre a leitura dos folhetins recortados d’O Século, e a bruma evanescente de […]
Ainda ontem era governante, e já hoje pagaria para o não ser. Que desabou a máquina do mundo e a coisa é de arrecear. O presidente em sítio num quartel, o ministro descomposto, a secretária apavorada em casa. Há blindados a galopar nas ruas, multidões em alarido, comunicados que ninguém autorizou…
O homem deixou de entender […]
Alguns dormitam, maçados, nos beliches, ele viaja a noite inteira a pé. Entre o bar e o corredor, entre uma nova cerveja e os considerandos do salário que recebe. Quase setecentos contos, mesmo quando não embarca. Como agora, que vem a casa ver a mulher. Mas isso há-de acontecer só amanhã, lá pelo meio-dia, em […]

