Todos os artigos de jorgemateus

Eu sou o outro

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Há décadas que a minha vida é assombrada por um duplo. Tudo começou quando um fulano bem apessoado me cumprimentou em plena rua de Cascais, bramindo o seu espanto com o quanto eu engordara, perguntando-me se “continuava ir ao rugby” e despedindo-se com sentidos votos de felicidades para uma “esposa” que eu nem tinha à altura. Escusado será dizer que nunca antes vira tal criatura.
Depois, foi o abraço de urso que me desferiram à má-fila num centro comercial. O simpático agressor estava deliciado por me voltar a ver, eu que tinha sido um dos poucos amigos a ir visitá-lo ao hospital e estas coisas um gajo não esquece porque antes quando estava à porta da discoteca era só palmadinhas nas costas e tu-cá-tu-lá mas depois da cena do tiroteio e da granada já ninguém o conhecia de parte alguma. A não ser eu, claro está. Que até lhe tinha emprestado dinheiro. Recusei um súbito assomo de ganância e disse-lhe para me pagar noutra altura mais propícia, depois de endireitar a vida e despistar os tais “gajos” que teimavam em apoquentá-lo.
Os encontros mais ou menos pícaros foram-se sucedendo. E nunca me passou pela cabeça desfazer o equívoco e tentar convencer aquela malta que não era eu o tipo porreiro que já não viam há uma carrada de anos. Agradava-me a ideia de manter algures uma vida secreta; tão secreta que nem eu desconfiava o que andaria a fazer (sempre era uma explicação mais agradável para o costumeiro cansaço matinal do que uma apneia do sono ou coisa que o valha).
Afinal, ter um sósia tem o seu frisson metafísico; nem é preciso ser fanático do Borges para apreciar o calafrio da identidade dúplice, a vertigem do labirinto de espelhos. Tudo isto dá uma certa gravitas à minha ronceira vida de suburbano hipertenso.
Ainda há uns meses, numa função solene em pleno Alentejo, dei com mais um destes “amigos” contrafeitos. Um tipo bastante bêbado que começou por se pendurar no meu braço a recordar episódios de batidas ao javali e uma regata que devíamos ter ganho. Depois, insinuou que a minha relação com a sua mulher tinha ar de não ser inteiramente sã e que a próxima caçada poderia incluir um acidente muito desagradável. Sendo já tarde demais para denunciar o engano, limitei-me a tartamudear um “eh pá, deixa-te lá disso” e fugi para junto da mesa dos canapés, onde meti conversa com um padre que parecia mesmo o Ricardo Araújo Pereira a fazer de padre. Sei agora que o meu alter-ego afinal é um valdevinos apostado em causar-me algum percalço. Talvez seja boa ideia cortar a barba.
Mas se calhar há por aqui eventos mais complexos do que uma simples parecença física. Uma qualquer instância arbitral destes mistérios ontológicos pode bem ter procedido a uma experiência de âmbito inescrutável, criando não um mas dois eus, dando-lhes depois circunstâncias e acasos diversos. Palpita-me que o meu doppelganger é que ficou com a vida aventurosa e divertida. A mim tocou-me o jardim sempre em estado semi-selvagem, as contas do saneamento básico, as idas ao Continente e as varizes.
Se algum dia o encontrar, sou homem para trocar de lugar com ele. Nem que seja à força.

Lá volta a cantilena do “Fidel milionário”

É coisa cíclica: volta meia volta ouvimos falar duma por certo rigorosa lista da revista Forbes que atribui a Fidel Castro uma fortuna esbugalhante. Desta vez, é-nos apresentado como sétimo líder mais rico do mundo, na formidável companhia de reis, sultões e príncipes casadoiros.
E como é apurado o valor do criminoso pecúlio do ditador cubano? Varia de ano para ano. Mas é sempre método mui científico e fiável. Antes, calculavam, para poupar trabalho, uma percentagem do PIB de Cuba e atribuíam-no a Fidel. Passados uns anos, começaram, generosamente, a dar-lhe uma fatia das receitas das empresas estatais que representam, nas palavras da insuspeita revista, «state-owned assets Castro is assumed to control».
Este ano, é tudo mais rigoroso: «we assume he has economic control over a web of state-owned companies (…) To come up with a net worth figure, we use a discounted cash flow method to value these companies and then assume a portion of that profit stream goes to Castro. To be conservative, we don’t try to estimate any past profits he may have pocketed, though we have heard rumors of large stashes in Swiss bank accounts.» Partem do princípio, assumem e até dão de barato os esbulhos passados, apesar dos credíveis rumores que andam por aí.
Que a Forbes, notória pelo seu militante anti-castrismo, persista na fábula mascarada de jornalismo, ainda vá. Bizarro é que tanta gente — da RTP a blogues respeitáveis — nem se dê ao trabalho de investigar o site da revista antes de dar eco a historietas sem qualquer fundamento visível.

Gineceu (2)

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Aqui há uns dias, chegou de Angola uma notícia alarmante: a miss angolana, a belíssima Stiviandra Oliveira — que encima estas linhas — seria impedida de participar num concurso internacional de beleza por «ser muito clara para os gostos da maioria negra».
Tal campainha bastou para levar saliva a algumas bocas. Curiosamente, a direita civilizada e a “outra” coincidiram quase ipsis verbis numa análise: «Imagine-se a reacção dos media e dos arautos do politicamente correcto (a nível nacional e internacional) se se tratasse de um caso inverso, intitulado por exemplo “Miss Portugal é muito escura”…» teve como contraponto «Agora imagine-se que em Portugal, ou em qualquer outro país europeu, sucedia o mesmo (eleição duma negra como miss) e havia alguém a usar o argumento racial… caía o Carmo e a Trindade e a súcia anti-racista militante vinha para a rua protestar…»
A grande diferença acabou por ser que o Insurgente tratou de afixar um desmentido a atribuir as dificuldades de inscrição da jovem ao regulamento sobre as idades das concorrentes. Os “outros” ainda por lá andam a discutir a notícia inexistente.
Indesmentível é que parece crescer em Angola um clima de hostilidade para com os mestiços. Basta colocar um olho nos comentários que a eleição de Stiviandra suscitou para confirmar que, em nome do regresso a uma supostamente autêntica “negritude”, muitos julgam mesmo que esta miss não deveria representar o seu país. No meio da discussão, lê-se de tudo: do bruto «Para já os latons e as latonas africanos (as) deveriam é maritar com os senegalés, puros negros. A mulher mais linda é a mulher de natureza negra e sem nenhuma melanjerias» ao elaborado «Nos, os negros Angolanos, temos que passar a valorizar a nossa cultura. Nisto, teremos mesmo que por os mulatos e brancos de lado; eles teem a sua própria agenda, que é subjugar-nos permanentemente. Vejam só a volubilidade com quem os latoes e pulas, nesse comentários, estão a celebrar a vitoria desta latona como Miss Angola! O pais é nosso, agora muitos de nos passamos a ter muito dinheiro; deixemos esses apatridas de lado».
O preconceito, por muito pensado que seja, é sempre espectáculo feio. Mas os “separatistas raciais” portugueses esmeram-se na arte: «é a primeira vez que vejo um macaco maquilhado»; «Pretos racistas contra pretos? Estarão a evoluir?»; «Os pretos são mesmo feios, como é possivel haver lá “misses”?!!»; «Pelos vistos fazes parte daquela camada que foi “socializada” – (leia-se sujeita a lavagem cerebral) e que agora acha muito giro ver uma rapariga branca acompanhada por um preto, dar à luz uma baratita…». A não esquecer: é disto que falamos quando falamos da nossa extrema-direita.

Mas vamos ao que interessa: não sei se a Stiviandra vai mesmo ser candidata ao tal título “universal”. Certo é que parece ser mulher para dar “dez a zero” à desengraçada miss lusa

A náusea de ontem

Há uns dias, a Fernanda Câncio juntou a sua voz ao animado coro de reprimendas à TVI pela forma algo necrófaga como explorou a morte do jovem actor Francisco Adam: “Raras vezes se terá assistido a um tão acabado exemplo de autofagia mediática e de canibalismo sentimental”.
A tese subjacente a estes lamentos é sempre a do plano inclinado em que vamos deixando escorregar os nossos valores civilizacionais — “a náusea de ontem é a normalidade de hoje”. Por outras palavras, estamos pior que ontem, mas não tão mal como amanhã.
Para quem se sinta tentado a acreditar na tese e a fazer de conta que a Imprensa só agora descobriu esta fossa para chafurdar, talvez seja boa ideia relembrar o caso do bebé Lindbergh. Os fotógrafos invadiram a morgue onde jazia o caixão da criança e trataram de o abrir, em busca de fotos mais “emocionantes”.
Pois. Apesar de tudo, ainda não regressámos a tais paragens.

Post para o José Tim (aka Brigada Bigornas)

Meu amor.

Já era para te escrever há algum tempo, mas só hoje é que consegui reunir a predisposição e o tempo necessário para alinhavar estas palavras. Como com certeza sabes, a tua aparição inicial na caixa de comentários da Aspirina foi, para mim, motivo de orgulho e diversão. Sou muito sensível à pachorra dos «pequenos Sísifos» e não me custa nada confessar que, todos os dias, quando acedo ao blog e invariavelmente verifico o teu labor frenético, fico sempre, como direi?, «deslumbrado» com a tua persistência. Nesses momentos, imagino-te sempre em casa todo nu e suado, a fumar cigarros de menta enquanto vais fazendo copipeistes nas caixas de comentário do Aspirina. Já não sei muito bem quando me apaixonei por ti. Sabes muito bem como são estas coisas do amor: é um bicho que vai crescendo a gente não sabe muito bem quando, como, e não raras vezes porquê, e, quando damos por ela, já estamos reféns da sua condição. Meu amor. Se tivesse escrito esta carta ontem, estaria neste momento a suspirar pela tua boca imunda e pelos teus olhos que imagino de lince. No entanto, hoje, quando entrei na área privada do Aspirina, reparei que, durante a tua noite de insónia, tinhas publicado qualquer coisa como uma centena de comentários. E tu sabes o trabalhão que dá apagar uma centena de comentários? Eu explico. Se tiveres um PC manhoso como o meu e um acesso à Internet comparável à velocidade de um veículo em hora de ponta na Rotunda de Santo Ovídio, apagar um comentário demora, vá lá, uns bons trinta segundos. Multiplicas isto por cem, adicionas o tempo necessário para carregar cada página de comentários e eventuais bloqueios do meu computador e facilmente chegas a algo que se aproxima perigosamente dos sessenta minutos. Meu amor. Eu não sou nenhum José Matias. Não me importaria de gastar diariamente ainda mais tempo contigo, se esse tempo significasse passearmos de mão dada pelas planícies do Alentejo ou pelas estradas sinuosas do Minho à procura de ocasos que de certa forma reflectissem a paixão que nos engrossa o sangue e nos dilacera as vísceras. Agora, passar diariamente uma hora a apagar os teus comentários, convenhamos, é algo que põe em causa as definições enciclopédicas da monotonia. E é por isso, meu amor, que te escrevo num tom lilás. Eu tenho amigos, conheço imensa gente. Amigos que ocupam os cargos mais altos dos serviços de informação de vários países e gente que trata o Bill Gates por «tu» e aqueles moços do Google por «queridos». Há cerca de uma hora, forneci-lhes o teu IP e já recebi entretanto meia dúzia de e-mails com informações precisas sobre a desgraça comovente da tua pessoa. Sei a cidade onde vives, por exemplo. A loja onde compras as saias de bombazina e as blusas de cetim que vestes para sair à noite movido pelo desespero branco da insónia. Já sou senhor de sete dígitos, devidamente ordenados, do teu BI e de um gráfico colorido onde figuram os ramos circundantes da tua árvore genealógica. Meu amor, meu amor. Fica aqui o aviso: mais um ataque de comentários teus como o da noite passada e garanto-te que irei à tua procura. Não para consumarmos a nossa paixão (infelizmente, foste tonto, e já é tarde de mais para isto), mas para te dar a maior salva de palmadas que este teu traseiro que presumo liso, róseo e rechonchudo já alguma vez levou na vida. E blogar de pé, pois é, é uma verdadeira chatice.

Beijos muitos

Conta, peso e medida

O segredo de uma boa sesta, contava o avô octogenário, é a sua duração: tem de ser suficientemente longa para ser reparadora e suficientemente breve para impedir a indisposição. Por isso, lembrou-se um dia de tentar adormecer com uma pedra na mão e deixar-se acordar quando a mesma caísse ao chão. O que ele não sabia, nem poderia saber, é que demoraria dois anos a encontrar a pedra ideal. Inicialmente, acreditou que o peso da pedra era a única variável relevante: quanto mais pesada ela fosse, menor seria a duração da sesta; quanto mais leve, maior. Comprou então uma balança de pratos e um caderno quadriculado onde ia apontando os pesos das pedras que ia testando. Todos os dias, depois do almoço, sentava-se no cadeirão com a pedra na mão e fechava os olhos. Quando, alguns minutos depois, acordava com o ruído da pedra a bater no soalho, voltava a fechar os olhos e tentava decifrar no paladar da saliva os sinais do corpo: fadiga ou indisposição? Ao fim de alguns meses, e apesar de alguns inevitáveis erros, ele foi conseguindo estreitar cada vez mais os intervalos de peso da pedra desejada e chegou mesmo a conhecer uma ou outra vez o frenesim inconfundível da aproximação. Contudo, ao olhar para as tabelas e gráficos do seu caderno, era por de mais evidente que havia um factor desconhecido que interferia com o rigor dos cálculos e das medições. Chegou a pensar que tal se deveria a variações do seu próprio peso e procurou introduzir uma certa regularidade no horário e na quantidade de comida que ingeria nas refeições. Acrescentou então uma terceira coluna na tabela, ao lado da do peso das pedras e das respectivas considerações, com o peso do seu próprio corpo. No entanto, mesmo após ter conseguido estabilizar esse segundo factor, os cada vez mais reduzidos intervalos que ia definindo revelavam-se instáveis e, mais grave ainda, incongruentes. Num primeiro momento, chegou a especular sobre a questão da forma, mas rapidamente afastou essa hipótese pelo facto de o leque das probabilidades ser praticamente infinito e, por isso mesmo, inalcançável. Lembrou-se finalmente da mão. Todos os testes e cálculos que tinha efectuado tinham sido feitos com a pedra agarrada na mão direita e essa não tinha sido uma decisão pensada, mas apenas um fruto do acaso ou, quando muito, a tendência natural de um dextro. Quase febril com essa descoberta, desenhou um risco horizontal na folha do caderno e agradeceu aos deuses o facto de ter conservado e catalogado todas as pedras que tinha testado: 439. Seu propósito era inequívoco: refazer, com mão esquerda, pedra a pedra, sesta a sesta, todo o percurso da sua busca e comparar os resultados. Ao fim de algumas semanas, a disparidade era evidente. Os intervalos, outrora hesitantes e pouco precisos, possuíam agora um rigor belo e matemático. Numa tarde, chegou mesmo a determinar com exactidão, através de simples cálculos de proporcionalidade, a pedra que lhe proporcionaria finalmente o repouso imaculado. Contudo, resolveu não saltar etapas, talvez por superstição ou pelo facto de sentir um certo e inconfessável prazer em prolongar a espera. Quando finalmente chegou o dia em que ele iria testar a pedra que sabia ser a que procurava há quase dois anos, não deixou de sentir uma irreprimível tristeza. Agarrou na pedra e olhou longamente para ela. Era uma pedra absolutamente banal, feita do que lhe parecia ser granito, sem forma precisa e de cor irregular. Percebeu que o facto de saber o exacto peso da pedra ou mesmo o de um hipotético geólogo lhe determinar a sua complexa constituição não dissolveriam em nada o seu mistério. Antes de adormecer, calculou no caderno a razão exacta entre o seu peso e o da pedra, não por lhe interessar o resultado, mas apenas para se distrair do medo inexplicável que sentira de repente. Pousou o caderno, respirou fundo e agarrou a pedra com a mão esquerda. Fechou os olhos e, para sua grande surpresa, não lhe custou nada adormecer.

(Vou ver se lhe mudo a ração)

Ontem de manhã, reparei que a minha cadela tinha sangue no focinho. Quando lhe abri a boca, vi que a parva tinha estado a roer um pedaço de vidro branco muito afiado com cerca de dois centímetros e que sangrava das gengivas. Retirei o vidro e perguntei-me onde teria ela encontrada esse pedaço de vidro absolutamente triangular e aguçado que nem uma lâmina. Fiz uma rápida inspecção à casa, temendo o pior, mas não consegui encontrar nenhum objecto partido. Deitei o pedaço de vidro no saco do lixo e, como medida de precaução, tive a pachorra de fechar o saco e de o deitar lá fora, no contentor da rua. Quando voltei, desinfectei o corte na gengiva da cadela, que parou imediatamente de sangrar.

Durante a noite, fui acordado abruptamente por um estrondo. Lembro-me vagamente de um movimento brusco do braço e de sentir a mão bater num objecto. Ao tentar acender a luz, não encontrei o candeeiro – ele tinha caído ao chão, partindo-se em mil bocados. A cadela, assustada, começou a ladrar. Lá me levantei muito contrariado para apanhar os pedaços de vidro espalhados pelo quarto e foi então que reparei num pedaço de vidro branco. Com cerca de dois centímetros. Absolutamente triangular. E aguçado que nem uma lâmina. Uma lâmina manchada de um sangue que não era meu.