Todos os artigos de jorgemateus

Bem haja, Pedro!

“Podem confirmar com a segurança!”

Santana Lopes, ontem, em entrevista à RTP (a propósito do livro que escreveu para o bisneto e para que este se possa defender dos coleguinhas que possam vir a ofender a memória do bisavô – foi mais ou menos isto, se bem percebi a mecânica da coisa), após afiançar que não tinha estado mais de 15 minutos num desfile de moda e que apenas lá tinha ido para cumprimentar a organização, porque tinha sido Presidente da Câmara de Lisboa, como, aliás, João Soares já tinha sido, e que, portanto, não muda de personalidade quando muda de funções e que patati-patatá.

Ontem, meus caros, tive muita saudades do nosso Guerreiro Menino. O homem, caramba, continua a chorar, a desejar colo e palavras amenas, carinho e ternura. E eu, caramba, que estou bem longe de ser a própria candura, tive vontade de saltar para dentro do ecrã e de lhe dar um abraço bem apertado (não gozem, que estou muito comovido) por todos os bons momentos que ele me proporcionou e, se Deus Nosso Senhor Quiser (o verbo a seguir ao Senhor também tem que ser em maiúsculas, atento a proximidade), continuará a proporcionar.

Conforme original

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Recebeu-o das minhas mãos e acariciou-lhe, por duas vezes, o “Ne varietur” da capa, como que para o fazer seu (pois naquele nunca tinha tocado) e para se certificar (e a mim) que nada tinha mudado desde que o havia passado para as folhas do Bombarda (receio inusitado, que uma edição “Ne varietur” serve para isso mesmo – atesta que ninguém lhe foi, à sorrelfa, mudar as palavras e os sentires).

Depois de, à segunda vez, ter percebido o nome de quem o interpelava, passou-o para o papel, precedendo-o de um “Para” e preenchendo os espaços vazios, e assinou.

Sem acento no “o” de António.

E, de novo, passou por duas vezes o polegar da mão esquerda no “Ne varietur” da capa.

Descansado, entregou-mo – “o Barrigana continua lá”, disse-me (em azul e sem abrir a boca).

Apontando com os olhos para o “Para” dela, Para Maria Eugénia, a senhora da caixa, ao reparar que também eu levava um “Para”, atirou-me: “É um malandreco, aquele! Não fazia ideia!”.

Depois, sem mos pedir, disse-me que eram vinte e cinco euros.

Aceitando o eufemismo (é uma Bertrand, caramba), entreguei-lhe as duas notas que tinha.

Descubra as diferenças

“Em planos distintos, a liberdade de expressão saiu maltratada no Iraque, onde soldados são pressionados para fecharem os seus blogues, e em Portugal, onde Miguel Sousa Tavares reage com excesso de legítima defesa aos abusadores anónimos.”

Início da crónica do Paulo Querido no Expresso Online.

“Em planos distintos, a liberdade de expressão saiu maltratada no Iraque, onde soldados são pressionados para fecharem os seus blogues, e em Portugal, onde Miguel Sousa Tavares defende os abusadores anónimos.”

Teaser (na verdadeira acepção da palavra) da Única (página 136) para a crónica do Paulo Querido no Expresso Online

Fucking pontos nos is

É só para dizer que não me encaixo nas três letrinhas colocadas na primeira linha deste post, entre as palavras “já” e “tirou”. De resto, até espero, a crer na bondade do raciocínio do Luis, que a Joana Amaral Dias tenha participação muito activa na campanha pelo “sim” à despenalização da IVG.

Fucking mas sem leite

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Ao longo de quinhentas e tal páginas, que parecem mais de mil, José Rodrigues dos Santos “escreveu” ora (bolas!) algo que, de tão inqualificável, merece um qualquer prémio. Ainda que se invente ad hoc, mas merece. Entre novas versões do giz a arranhar no quadro, como a repetição até à exaustão do termo “Puxa”, assim mesmo, e com ponto de exclamação e tudo, e a invenção de um tipo da CIA, que utiliza, até à dor (do leitor), a expressão “Você é um fucking génio” (o tipo fala em inglês, o autor traduz, mas, vá-se lá saber porquê, o fodendo mantém-se na língua mãe), o autor presenteia-nos com mais uma memorável cena de sexo, desta vez entre o sempre Noronha e uma iraniana chamada Ariana (Iraniana, Ariana, que os gajos não são árabes – o tipo sabe-a toda). Porém, lamentavelmente (tirai-os da chuva), sem leite, que desta o ambiente não é propício a sopas, e, certamente “derivado” à carestia, esta iraniana não parece dá-lo. Mas não temais, que a compra vale a pena da contrapartida pecuniária: na mesma cena do salto para a cueca, há por lá demais sucos com fartura.

Ide.
Ide ler.
(tem uma linda sobrecapa, de resto)

(Este post não foi inspirado em um qualquer esgalhado por esses fucking génios do Blasfémias, que não leio há dois dias. Se por lá houver algo semelhante, é mera coincidência. Cross My Heart…)

Ai, Catalunha

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Graças a um sempre atento Portal Galego da Língua, soube-se que a escritora e jornalista catalã Isabel-Clara Simó escreveu a crónica que aqui se reproduz em «traduçom galega». O original catalão é do diário Avui.

Admiro os portugueses. Admiro-os porque, perante a poderosa maquinaria do exército castelhano, tenhem sabido safar-se; porque soubérom ganhar a independência; porque encontrárom aliados eficazes e constantes. Mas também os admiro porque tenhem demonstrado que tenhem imaginaçom. Há pouco mais de umha década, diversos movimentos culturais soubérom convencer a classe política que a cultura é umha arma formidável de propaganda e que é necessária como embaixadora de um país. Entom, o governo português destinou umha boa quantia de dinheiro – e nom se trata de um país rico! – para promover a sua literatura. O resultado é que nós, vocês e eu, lemos autores portugueses que dantes desconhecíamos, e que ainda por cima tenhem um Nobel.

Agora, som uns quantos empresários, políticos, economistas e pessoas preocupadas polo devir português que estám a montar umha agrupaçom de cerca de 600 pessoas com o nome Compromisso Portugal para tirarem, dizem, Portugal da sua mediocridade. Entom a minha admiraçom torna-se inveja. Porque será que os catalans nom podem fazer qualquer cousa do género? Como conseguem entom os portugueses, sem a tutela de nenhum partido político? O motivo é apenas Portugal. E ninguém os acusará nunca de fechados nem de pouco cosmopolitas porque, como tenhem Estado, é-lhes permitido serem patriotas.

Nom consigo imaginar isto nos Países Cataláns, apesar dos esforços neste sentido de Eliseu Climent e de outros beneméritos patriotas. A mania do espanholismo do ‘conmigo o contra mí’ penetrou em nós demasiado fundo. Ora bem: toda a gente tem sempre Catalunha na boca. Mas ninguém vai nunca mais longe. Nem que fossem uns metros. Ai!

Para ler e encaixilhar

Grande texto, o do Rui Tavares, hoje no Público, «Não façam só alguma coisa, fiquem parados», sobre reformas na Educação. Para abrir o apetite, duas passagens. Esta

«O consenso é o de que o estado da educação em Portugal é catastrófico. Se Vasco Graça Moura diz mata, Vasco Pulido Valente diz esfola, Maria Filomena Mónica desmancha, Miguel Sousa Tavares incinera, António Barreto espalha as cinzas e recomeça o ciclo: os professores são ignorantes, os alunos são violentos, os ministros são dominados pelos sindicatos e os sindicatos sentem prazer em que na escola não se aprenda nada. Esta imagem absurda é de tal forma dominante que a ministra da Educação não hesita em tirar dela proveito para diminuir publicamente os professores. Só há um problema: não é verdade.»

E esta:

«As reformas verdadeiras fazem-se com as pessoas reais. É fácil imaginar reformas com as pessoas que ainda não existem e achincalhar as que existem. Mais difícil é reconhecer que, se queremos restaurar a autoridade do professor na sala de aula, alguma coisa teremos de fazer para restaurar o seu prestígio na sociedade. Se queremos que os professores ganhem autonomia e se adaptem aos alunos que têm pela frente, em algum momento teremos de lhes dar confiança. E, acima de tudo, teremos de perceber que é com estes professores que qualquer reforma se fará, e que entre estes (ou quaisquer outros professores, da Tanzânia à Tasmânia) os excelentes serão sempre uma minoria. Uma reforma é um exercício de realismo.»

Altos, bonitos e espertos

Saberão as pessoas inteligentes que são inteligentes? É uma questão que me tortura. A razão é simples. A dar-se o caso de as pessoas inteligentes não saberem que o são, todo aquele entendimento acaba por ser um desperdício. E o mundo, esse, prova-se mais mal feito do que já supúnhamos.

Há um outro assunto, parecido, que também não me larga. Saberão as pessoas bonitas que são bonitas? É isso. Pergunto-me sempre se elas, mal rompe o dia, olham o espelho, e suspiram: oh que beleza! Questiono-me sobre se, quando na rua os outros, enlevados, as fixam, elas sabem ao certo do que se trata.

E há uma terceira ocorrência: a de perguntar-me se as pessoas altas sabem que são altas. Pode parecer, este último, um exagero de perplexidade. Mas é para mim uma obsessão quotidiana.

De acordo. Quanto a alturas, podemos presumir nos interessados uma certa noção. As portas, as camas, mesmo os tectos, andam concebidos para servir uma média humana, e não custa supor que alguns mortais reparem nisso, e nem sempre com tranquilidade. Em tais momentos, saberão que são altos. Ou aquilo a que chamamos assim, nós, os médios de corpo. Mas que se passa com os bonitos, quando sozinhos? E com os inteligentes, uma vida inteira?

Diz-se, e a gente lê-o, que a percepção da própria beleza pode, exactamente em indivíduos mais favorecidos, sofrer um desarranjo. Em gente assim, conta-se-nos, surgem problemas de auto-estima, reportando-se mesmo casos graves. E imaginamos, decerto com razão, que, em algumas pessoas muito bonitas, tais problemas sejam gravíssimos. Meu Deus, dirão, porque me fizeste tão bonita? Virgem Santa, suplicarão, faz-me acordar amanhã um poucochinho mais feio, sim? São, todavia, orações com pouca fé no resultado. Nós próprios, pouca esperança poríamos num pedido para, um destes dias, aparecermos por aí mais perfeitos de cara.

E há a questão, tremenda, dos inteligentes. A gente diria que, para eles, seria uma bênção se nada de especial em si descortinassem. Se, em plena inocência, andassem só belamente orientados neste confuso mundo. Sim, esse ignorar da própria inteligência poderia ser-lhes, afinal, uma suprema forma de auto-preservação. Porque, nisto não tenhamos ilusões, se houver problemas próprios deste género de pessoas, esses problemas terão de ser atrozes. E inomináveis. Literalmente inomináveis, já que nós, os mais limitados, nunca para eles arranjaríamos palavras. Mas inomináveis, também, porque, no momento em que o sobredotado pudesse ir dar-lhes um nome, nesse exacto instante perderia a razão. E não nos disseram sempre que a loucura é uma protecção, uma misericórdia, da mente contra si mesma?

Eu não queria – juro que não queria – tirar moral nenhuma desta história. Mas, aí está, pôr travão num raciocínio é coisa que a mediania do meu discernimento não permite. E aqui fico eu, com a moral da história diante de mim, iniludível. Esta: a de termos de ser gratos aos Céus por nos terem feito um bocadinho menos inteligentes do que acharíamos óbvio, um bocadinho menos altos do que julgaríamos prático, um bocadinho menos bonitos do que pensaríamos justo.

É isso. Foi uma indizível sorte termos nascido tal e qual sucedeu: um tudo-nada feiotes, um nadinha para o atarracado e, suma felicidade, um niquinhas lentos de percepção.

O facto é que, com isso, nunca saberemos ao certo o que se passa na mente dos belos, dos altos, dos perspicazes. Nunca saberemos, sequer, se alguma coisa lá se passa. Mas, se problemas lá houver, só hão-de encontrar a nossa mais sincera, mais natural, incompreensão. E assim se terá feito – não é? – alguma justiça.

Assinatura ilegível

Lisboa. Sexta-feira, 29 de Maio de 1986

Pela primeira vez neste país, está estampada, visível, na capa de um semanário de grande tiragem, a expressão ‘bancos de esperma’. Ouço o miúdo perguntar ao pai: ‘Ó pai, o que é esperma?’. Está o pai com visitas, está o pai na cervejaria, no estádio, está o pai com a mãe sentado no sofá. E este pequeno frémito do pai resume uma civilização.

Lisboa, 3 de Agosto de 1986

Querida Kárin,

Foi com certo contentamento e uma mais certa incredulidade que li a tua carta que ontem me chegou. Dentro de menos de três meses – se bem fiz as contas – o teu bebé irá nascer. E eu passo desde ontem o tempo a segredar, que digo eu, a gritar a mim próprio que eu nada tenho a ver com isso. Que o problema e, neste caso, também a alegria são exclusivamente teus. Quiseste de mim esse filho, agradeceste-mo com gentileza que eu jamais pensei me coubesse em sorte. Mas, com isso, estavam as contas saldadas.

Quiseste que o teu filho fosse meu. Desculpa, exprimo-me mal. Quiseste que o filho que tivesses achasse em mim o progenitor. Progenitor, sublinhaste – não ‘pai’. O que até (acrescentaste, como prevendo reservas minhas) nada tinha de original, pois umas amigas tuas tinham tido pouco antes um filho ‘pelo mesmo processo’.

O processo era simples, pude convir. Um boião esterilizado, um termómetro e um homem. O termómetro indica o dia azado, o homem produz, o boião transporta. O transporte devia fazer-se rápido, mas eram só dois quarteirões. Nada de listas de espera, nada de médicos e enfermeiras, nada de milhares de coroas para as clínicas de Estocolmo. Eu tocava à porta, tu abrias, um beijo furtivo, e reentravas na solidão. Que era só para a quebrares que nela agora te fechavas.

‘Descansa, ele há-de saber quem foi o progenitor’ – asseguravas. E eu ria-me intimamente de tantas garantias. Podes crer: tanto se me dava. Tinha achado engraçada a proposta que me fizeras, e havia em toda aquela andança certa aventura. E nem a gratidão de que afiançavas estar repleta conseguia enternecer-me. Pensava, sim (e quem mo levaria a mal), que o ‘processo’ era, como dizer, passível de simplificação. Dispensava-se o boião, as distâncias encurtavam grandemente. Mil vezes me propus fazer te essa contraproposta, com delicadeza suma. Mas mil vezes me dei conta de que nada indicava que só a mim me surgissem tais espertezas. Era evidente que isso não te estava nos propósitos. E não era já excelente elogio o que me fazias?

Porque, disso estou certo, não era só pelos meus olhos verdes ou pelo alourado dos meus cabelos que me pediras colaboração. Tu sabias que eu nunca te humilharia ao ponto de te lembrar, nem logo nem jamais, que também havia para essas coisas processos mais simples.

Agora a criancinha vai nascer. Crescerá sueco ou sueca. E um dia, daqui a muito tempo, perguntar-se-á, perguntará: Quem é o meu pai? Agora sou eu que to peço: Diz-lhe.

Teu do coração,

(assinatura ilegível)

de «Um Selvagem ao Piano»

Então é assim

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Nos tempos mais próximos, irei colocando aqui alguns textos – recentes uns, mais antigos outros – que tiveram pouca difusão. Quando achar que não há mais, ou que já não os há apresentáveis, ou que já chateei o suficiente, partirei. A vida é alhures, já dizia o outro. Em francês. Com outro chique.

O Aspirina, esse, continuará. Há mais marés que marinheiros. Quem sabe, leitor e amigo, os grandes dias que ainda o esperam aqui.

O regresso (2)

Os chocolates espanhóis foram deveras comprados, e alguns comidos. Seriam o único gasto seu naquele dia. Mas, na reentrada no país, iriam faltar ele e o pastor. Foram escondidos num matagal, e ficaram esperando que um carro, pela fronteira legal, os viesse buscar. «Duas horitas, e a gente vem apanhá-los.» Procedimento banal, mas ele não o sabia. Cento e vinte minutos podem levar eternidades a passar. Nem por teima, era aquilo uma Sexta-feira Santa, à exacta hora em que o Outro também aguentara horas, e em piores condições.

A madrugada de Sábado Santo achou-os em Madrid. O casalinho amigo, que estava para ficar em Cáceres, acabou por ir levá-los à grande capital, a uma casa de padres, perturbados no sono, mas logo solícitos. Um deles, ainda o sol não rompera, pegou no carro e meteu-se com eles a caminho da longínqua Barcelona. «De comboio, pela fronteira, nunca. É um suicídio», diziam-lhes, querendo demovê-los do plano inicial, passarem a fronteira em Irun, na legalidade. E mais lhes disseram que, em Barcelona, havia alguém, um padre também ele, que conhecia palmo a palmo os Pirenéus, onde nascera, e que os poria salvos em França.

Chegaram à tardinha desse sábado à capital catalã, onde foram entregues em nova casa paroquial, tão suspeita politicamente como a de Madrid, se não mais. O padre fronteiriço apareceu horas depois. Vinha exactamente de uma caminhada pelas montanhas natais. «Combinado. Eu levo-os a França. De hoje a oito dias.» Oito dias! Outra eternidade. Mas não sobravam alternativas.

O válium é uma grande invenção. Uma invenção triste, mas a vida, às vezes, é uma tristeza toda ela. Doze horas de sono podem ser, e nesse caso ali eram, uma prenda inestimável. E, depois, até ao perigo uma pessoa se habitua. Já ao quarto dia eles iniciavam a volta turística de Barcelona. O trivial. Nem merece a pena mencionar.

E chegou o dia aprazado da fuga definitiva, domingo, o primeiro domingo de Abril. Deixaram Barcelona ao fim da manhã. Eram já cinco da tarde quando, a dois mil e quinhentos metros, no cocuruto do monte que subiam, se lhes desdobrou ante os olhos o mais deslumbrante dos panoramas. De leste a oeste, quanto a vista abarcava, uma cordilheira refulgia, rosa e laranja, ao sol declinando.

Não, a liberdade pode vir na mais fria das brumas, ter o cheiro da imundície, e será sempre uma bênção. Não era preciso ela chegar assim, como ali chegava, nesse assombroso esplendor. Mas há destas sortes. E o mais bonito ainda é aquilo que não se mereceu.

Foram dormir a Montpellier, a um convento de mendicantes. O companheiro decidiu ficar. Iria em breve demandar a Suíça, onde estudos de teologia o esperavam. Ele, não. Era o Norte que o atraía. Ao terceiro dia, meteram-lhe na mão uma bucha, um bilhete para Paris e o endereço dum convento. Paris era o que já se conhecia de bilhetes-postais, e por isso rumou mais a norte ainda, a outros países, outras gentes.

Quando pôde regressar, fê-lo banalmente de avião. O peregrinar por terra, que se havia proposto, não foi esquecido, mas estava impraticável. Não guardara moradas nem de Paris, nem de Montpellier, nem de Barcelona, nem de Madrid. Não tivera esse cuidado, ele que tão lindos planos concebera. Não havia, assim, meio de agradecer àquela santa gente. E, depois, o mais certo era que todos eles, como santos verdadeiros, já nem dele se lembrassem.

O regresso (1)

Ao senhor arquitecto Nuno Teotónio Pereira

Era uma daquelas ideias malucas, mas era simpática, bonita até. Quando ele voltasse a Portugal, haveria de regressar pelo mesmo exacto caminho, haveria de repisar estrada a estrada, batendo, casa por casa, à porta de quantos o tinham acolhido na fuga. Quando um dia regressasse. Se regressasse. Porque a situação nacional estava, assim parecia, para durar. Para seu próprio descanso, prometera-se logo dez, quinze, mais anos de exílio. Era moço, sentia-se velho. E era esse o sentimento em que teria morrido se, em vez de atirar-se à deserção, houvesse embarcado para a guerra. Porque, tanto era certo, naquele bocado de mundo para onde iria guerrear, a morte acabava por ser, de todas as hipóteses, a mais realista. Operação no mato, uma bala de olho já nele, e pronto. «O oficial, lá, é sempre o primeiro.» Ouvira, e acreditara. «Gajo inseguro, óculos, mais idade. Não engana.» Era de uma lógica mortal.

Decidiu deixar o País no preciso momento em que, no quartel, vira afixadas as notas daquele segundo mês da «especialidade». Decepcionantes. Ele era bom em algumas coisas, as que metessem lérias por escrito, sobretudo. Tinha mesmo, com base nisso, planos de classificação vistosa. «Um tipo bem classificado tem grandes chances de não ir», afiançavam-lhe. «Ou só vai no fim, e então é que elas doem. Mas vale a pena arriscar.» Uma proeza dessas iria afagar-lhe grandemente a auto-estima.

Simplesmente, o desmontar e voltar a montar da espingarda (a G-3 era uma espingarda? hoje já não tem essas certezas) era desempenho fundamental, e revelara-se um alçapão. E fossem ele só as armas! É que a componente física, também ela, não dera notas brilhantes. Vendo bem, só os exercícios de orientação nocturna – «dropping» num pinhal, um mapa sumário e fé na boa estrela – só eles mereciam menção. O seu grupo, cinco cadetes amigos, era de longe o melhor nessas operações. E na unidade todos sabiam, o alferes e o capitão incluídos, que era a ele, à sua incompreensível bússola interna, que se deviam as chegadas às horas e aos postos certos.

Mas o panorama total era alarmante. Nunca ficaria entre os cinco, mesmo os dez, primeiros, mesmo que batesse a malta de Coimbra, aqueles quinze indisciplinados universitários que a sabedoria militar havia mantido juntos no seu pelotão. É que bastantes outros lhe passariam à frente: os paisanos, esses a quem a cultura não atrofiara nem senso prático nem os músculos.

Só muitos anos depois saberia que, ainda ele não cruzara os Pirenéus, já os revoltosos coimbrões estavam de regresso às carteiras. A saída deles transtornava toda a classificação final, deixando mesmo os melhor classificados à beirinha da mobilização. Nem a genica natural nem o esforçado cerrar dentes, nada havia valido aos pobres.

Abandonou o país por uma bela tarde de Março de 1970. Já conhecia Marvão, só nunca a imaginara cenário de relevo na sua vida. Era lá que alguém que agora ia ajudá-lo tinha uma casa, um arquitecto da capital que só nesse dia havia de conhecer. Bastantes foragidos haviam, antes dele, saído dessa primorosa mansão para irem «comprar chocolates» a Espanha. Acto ilegal, fraqueza lamentável, mas tão humanos que qualquer guarda-fronteira compreenderia.

Iam um grupinho. O arquitecto e a mulher, um filho deles, porventura dois, um casal amigo a caminho de Cáceres, e mais uma pessoa, o jovem tranquilo que, nessa manhãzinha, em Lisboa, se lhe apresentara como pastor protestante, e ele soubera ir ser seu colega de aventura.

Quatro anos mais tarde, em Lisboa – porque o exílio afinal só duraria isso – encontraria o arquitecto num comício da extrema-esquerda moderada. E ele haveria de abordá-lo, e de agradecer-lhe, como quem agradece a um santo. O arquitecto, simpático, sorriu, mas não se lembrava dele. Um santo, nem mais.

continua

Miguel Real por estas plagas

Alguns blogues já haviam alertado: Miguel Real dera em escrever, também ele, neste precário e volátil meio. Nem mais, e no amável blogue Prazeres Minúsculos. Foi-se ver, e era mesmo. Com um texto brilhante, esse aí indicado.

O brilho não admira. Miguel Real anda a escrever cada vez melhor. Que digo eu? Quem leu A Voz da Terra – o seu romance saído o ano passado, e que teve (se bem recordo) dois votos vencidos no Grande Prémio do Romance da APE – já sabe que temos nele, sem mais, um grande ficcionista. E também um, aqui e ali arrebatador, artista do idioma.

Bem-vindo, Miguel.

Para que serve a Galiza

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A Galiza serve para albergar os galegos. Dá-lhes espaço e luz, um chão, um céu. E água, pedra e floresta. E sossego e inquietação. E vontade de partir para longe. E a saudade, já, do regresso.

Mas também a nós, portugueses, a Galiza serve. E para bem mais do que poderíamos supor.

Primeiro, e já não será pouco: a Galiza recorda-nos que somos menos únicos do que apreciamos pensar. E que o Universo, ou mesmo a Europa, não se andaram preparando para produzir, aqui, esta tão inesperada mistura, que chamámos portuguesa, de sonho e pragmatismo, de evasão e acanhamento, de um entusiasmo por amanhã e uma entrega já hoje à fatalidade.

Assim, a Galiza faz-nos sentir-nos menos sós nesta agreste Península. Estamos acompanhados na ríspida vizinhança dos excitáveis e excitados castelhanos. Que nos disturbam e cansam com o seu colorido, a sua eloquência, a sua certeza de ditarem as leis do planeta.

E, por isso, a Galiza serve para lembrar-nos a felicidade, que a Galiza não teve, de podermos fechar as portas e janelas à algazarra. E podemos ler Javier Marías no alpendre, ver Almodóvar no sofá, calcorrear um Prado silencioso e digital, ouvir Tamara enquanto passeamos. Como se o Mediterrâneo luzisse em Elvas ou viesse lamber as praias da Covilhã.

Serve a Galiza, igualmente, para recordar-nos uma sorte, sorte que ela também não tem: a de desconhecermos um idioma superior, dia e noite contaminando, abafando, ameaçando de morte o nosso. E, por isso, quanta necessidade há, quanta urgência talvez, de o protegermos, a este, e da maneira mais simples, e a mais esperta: conhecendo-o melhor, estimulando nele forças dormentes, usando-o com imaginação e fidalguia.

A Galiza é o nosso melhor contacto. Pode a Espanha ser-nos um exemplo de sociedade, e é decerto um parceiro comercial. Mas não nos é, nunca foi, nem parece que venha a ser, um interlocutor. Até hoje, ninguém apresentou uma fórmula para isso que não diminuísse Portugal.

A Galiza, essa, há-de servir-nos, sempre, de casa ao lado. Com amigos certos. Para uma longa conversa ao pôr-do-sol.

*

A conversa entre galegos e portugueses tem vindo a fazer-se também na blogosfera. Salientarei, do lado galego, O Levantador de Minas, o blogue de Jaureguizar Cabaret Voltaire (antigamente Facendo Amigos) e o de Martin Pawley Días Estranhos (sic). E ainda o Portal Galego da Língua. Do lado português, tem de destacar-se Renas e Veados, tal como Coroas de Pinho.

A 13 e 14 de Outubro, haverá no Porto um encontro luso-galaico sobre Weblogs. Toda a informação aqui.

O mapa acima, de fabrico alemão, usa o nome espanhol da Galiza. Para muitos galegos, esse é também o nome do seu país. Mas há que sublinhar, no conjunto, a saborosa incorrecção política da mapeação.