Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

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Esta Lisboa que eu amo…
Cheguei a meio da tarde disposto a estrear condignamente a nova esplanada do Jardim de São Pedro de Alcântara bebendo um café e comendo um pastel de nata. Parece-me mais um miradouro do que um jardim mas isso é outra história. Nem reparei nos ocupantes das outras mesas. Mas, de [...]

«Uma onda muito acima da ficção» no mais recente livro de José Mário Silva
Quando nos anos 80 Ernesto Rodrigues traduziu os «contos de um minuto» de Istvan Örkeni a recepção ao livro foi positiva mas a expressão contos de um minuto não ganhou popularidade em Portugal. «Efeito borboleta e outras histórias» de José [...]

«Toda a literatura é uma homenagem à literatura» – este pode ser o ponto de partida para a abordagem deste livro (Editora Bertrand) que recolhe as crónicas assinadas por António Sousa Homem na Revista Notícias Sábado. Na crónica «O romance de uma vida» o autor explica que o seu pai «tinha pelo romance um desprezo [...]

«O cavaleiro da Ilha do Corvo» de Joaquim Fernandes
O ponto de partida deste livro (editado pelo Círculo de Leitores) é o episódio do desaparecimento dos restos da estátua do cavaleiro da Ilha do Corvo que o rei D. Manuel I mandou arrumar nos roupeiros da sua antecâmara em Almeirim no ano de 1519. E uma [...]

«A cunhada do Pintor» no Museu do Prado
O Museu do Prado encheu-se de retratos antigos na exposição «El retrato del Renacimiento». Um dos mais famosos é o retrato feminino de Bernardino Lucinio. O dito quadro, também conhecido por «A cunhada do Pintor», dá-nos a beleza em esplendor de uma mulher com um livro na [...]

A última aguardente do Tio Nascimento
Bebo devagar um cálice de aguardente branca e muito leve, puríssima e macia, tal como saiu do alambique no passado mês de Setembro. É uma aguardente que não pesa no estômago e que torna as digestões mais suaves. Mas não a posso gastar muito depressa porque esta aguardente é [...]

Viagem com Ana Maria
De repente falámos de Veneza e as carruagens do Metropolitano sofreram nos meus olhos uma metamorfose, as estações ficaram inundadas e os seus nomes passaram a ser gritados em italiano pelo marinheiro fazendo sinal com o braço ao capitão para que a demora em cada paragem seja curta. Estamos num vaporetto prestes [...]

A casa que não é minha
Mas onde me sinto bem
Os galos de manhãzinha
Não deixam dormir ninguém
O vento traz a frescura
Que bate à porta do Verão
Uma varanda segura
Longe da maior confusão
A janela dá para o mar
O pinheiro serve de espelho
Que reflecte a luz do lugar
No moinho branco e velho
Caldeirada de paciência
Faz refeição de alegria
Entre a [...]

Os 14 dias de Barbara Hepworth
No dia em que eu nasci o filho de Barbara Hepworth alistou-se na RAF. No dia em que eu fiz dois anos o filho de Barbara Hepworth desapareceu com o avião que pilotava nos céus da Tailândia, ao serviço da RAF. Isto é apenas uma curiosidade de datas mas um [...]

As raposas de Charles Gounod
Quem apanha à meia-noite e cinquenta o último comboio de London Bridge para Lewisham já sabe que lá se forma uma enorme bicha nos táxis. É em Lewisham que termina o DLR, o metro das docas de Londres, pequenino e rápido, guiado por um computador. Seguindo para Blackheath Park encontra-se [...]

Não sei se o título desta pequena crónica é verdade para alguém. Para mim é
quase. Tirando o impiedoso retrato que Mário Ventura Henriques fez da
criatura num dos seus livros, pouco conheço desta figura da chamada
literatura «light». Mas li no sábado pp. no Diário de Notícias o aviso de
que MRB vai lançar um livro com o [...]

Uma Vespa de 1955 em Brighton
Primeiro ouvia-se uma música suave numa praceta. O som brasileiro de João Gilberto em Brighton com saxofone tenor, contrabaixo, fliscorne, viola baixo e voz. Gente do mundo comia a ementa internacional – pizzas, saladas, massas, lasanhas. A moça abandona o grupo e pede, num chapéu, uns trocos para a banda. [...]

(a Francisco José Viegas, autor de «Morte no Estádio»)
A morte será também um fuso horário
Um meridiano de silêncio e de escuridão
Entre a água do rio e a madeira do bosque
Todos trazemos uma bagagem de mortos
Este livro evoca os jogadores do M. United
Perdidos num desastre aéreo em Munique
Há a nossa memória de Pavão nas Antas
No jogo [...]

Para ganhar não pode (de modo nenhum…) valer tudo
Fui jornalista profissional entre Janeiro de 1997 e Novembro de 2006. Durante esses dez anos de trabalho devo ter visto centenas de jogos ao vivo. Basta perceber que durante muito tempo «fiz» os juniores no sábado à tarde, os juvenis (ou iniciados) no domingo de manhã e [...]

Se aqui entra zangado
Com notícias de jornais
Já sabe que deste lado
O café tem algo mais
Uma força, um perfume
Trazido das plantações
Um calor feito de lume
Com lenha de emoções
Porque o café é diferente
Das bebidas do mercado
Mata o frio com o quente
E o corpo fica encantado
Só me apetece cantar
E entrar no pé de dança
Com a idade a recuar
Quase [...]

Luciana num balcão
Debruçada no sorriso
Empresta calor da mão
Quando café é preciso
No combate à tristeza
Derramada pela rua
No centro duma mesa
Seu sorriso continua
Não havia o adoçante
Adoça com seu olhar
Simpatia no instante
Faz do balcão o altar
Onde a nova liturgia
Como se numa oração
Celebrando a alegria
Do encontro no balcão

Luciana quase menina
Tem o jeito de mulher
Lavando na sua rotina
Chávena, pires, colher
Envolvida numa espuma
As mãos na água quente
Não pensa coisa nenhuma
É trabalho transparente
Fica um balcão brilhante
Com brilho do seu asseio
O seu olhar tão distante
Lembra lugar donde veio
Nem repara que na mesa
Se veio sentar Cesário
Chegou aqui de surpresa
Ficou sentado ao contrário

Fala do gasolineiro da Sobreira a caminho dos Montes da Senhora
Fecho devagar as portas do escritório da bomba de gasolina à beira da estrada de Castelo Branco. São 23 horas e tenho todo o tempo do Mundo para me fardar. As contas foram fáceis de fazer: não tem havido trovoadas e o sistema não tem [...]

A Rua de todos os dias
Onde eu ia quatro vezes
E as noites mais sombrias
Demoravam como meses
Polícia à porta da Escola
A proteger as meninas
O amor era uma esmola
Pedida noutras esquinas
Poço dos Negros abaixo
Em cima era o Calhariz
Na memória que eu acho
Tudo é escuro e infeliz
Havia a guerra e o medo
Estava perto a inspecção
Um poema era segredo
Na [...]

Perfil de mulher entre pedra e água
Todos o sabemos: de noite os rios não existem, são apenas água, puramente água, nada mais que água, no trânsito veloz das suas pedras laterais e do seu leito.
O sorriso da mulher, registado numa pequena máquina electrónica, abre-se aos mais ínfimos locais do seu próprio tempo, sua memória [...]




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