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Alô, Porto!

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Este já não é o «post» número 2500, nem o 2501, mas o 2502 do Aspirina. Pois é, aqui trabalha-se.

Só não se sabe é por onde andam o João Pedro da Costa e o Jorge Carvalheira. Eu até gosto do Porto e da sua trabalhadeira gente. Mas a sinceridade obriga-me a confessar que começo a descrer um nadinha de tal fama.

Fica uma pergunta, talvez ingénua, pairando. E é esta: ainda não há, aí no Majestic, internet assim no ar?

Cavaleiros inexistentes

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Morreu Alain Robbe-Grillet. Oitenta e seis anos. Eu sabia-o velho, mas não tanto. Parei com ele no tempo, com La Jalousie, com Les Gommes, com La Maison de Rendez-vous. No primeiro, faltava o protagonista. No segundo, o clímax da história tinha sido ‘apagado’ (mas sentia-se que ele tinha acontecido). No terceiro, faltava o próprio lugar de acção (que seria Hong-Kong, não fosse o autor ignorar totalmente como é Hong-Kong, nem isso lhe interessar minimamente).

Tudo ausências, que o magnífico mestre geria com um virtuosismo que nos fascinava. Ele criava-nos dentro cavaleiros inexistentes, como nos chamou Italo Calvino, outro virtuoso pós-modernista.

Um e outro tentaram convencer-nos de que a ‘ausência’, a página em branco, era uma essência do ‘homem moderno’. E a gente acreditava. Não via, mas acreditava. E era por essa demissão da atitude crítica que, afinal, lhes dávamos razão. Inexistentes. Mesmo quando cavaleiros.

Poema algures

Há um poema. Um certo poema. Julgo-o feito a partir de memórias sedimentadas nas mais pequenas gavetas do teu coração. Assim como um guarda-jóias invisível, um estojo antigo, passado de mão em mão, na mesma família, por sucessivas gerações de mulheres.

Há um poema. Um poema algures onde deixaste o pó das brincadeira da infância, os jogos, as cantigas, as lengalengas. Tudo aquilo que poderia sugerir um mundo organizado entre os sonhos e os seus resultados. Um mundo onde a ternura era uma janela a fechar o vento mais frio do Inverno desse tempo.

Há um poema. Procuro-o nos teus gestos hoje mais comedidos e reservados, na tua voz onde se insinua a força das pausas, a grande nuvem cinzenta do tempo de hoje onde a tristeza fez a sua sementeira multiplicada.

Há um poema. Deve haver mesmo esse poema num lugar que só tu sabes. Pode não ser ainda poema, pode não ter ainda forma mas eu pressinto que ele existe, funciona, respira, articula-se entre as palavra e os sentimentos, sobe das águas mais escuras e lodosas para uma superfície onde a limpidez dita a sua regra.

Há um poema. Persigo-o ansioso todos os dias apenas guiado pela intuição e pelo instinto de julgar o teu rosto o rosto desse poema, sua origem e seu destino, sua força e sua razão de ser.

Há um poema. Eu sei. Hei-de escrevê-lo a partir da límpida pontuação do teu olhar. Amanhã. Ou num amanhã futuro. No dia da tua total revelação. No lugar onde, a partir dos teus olhos, seja possível instalar uma harmonia igual às brincadeiras da infância quando o mundo estava organizado entre os sonhos e os seus resultados.

Carta a Marina por causa do galego – 4

Cara Marina,

Há uma teoria da conspiração que diz andar o Estado Espanhol empenhado numa castelhanização do galego para afastá-lo do português. Para simplificarem (as teorias da conspiração simplificam o mais que podem), os conspirativos apresentam a própria vontade dos galegos de conservarem quanto os distingue do português como um conluio com o inimigo. Em desespero de causa (e as teorias da conspiração são sempre propostas desesperadas), os conspirativos decretam que tudo quanto distingue o galego do português é… espanhol.

O mais espantoso é que os conspirativos, não tendo a razão inteira, têm alguma  – no que eles não reparam, já que as teorias da conspiração não permitem gerir meias verdades. E a meia verdade está em que o Estado Espanhol, que considera o castelhano, o catalão, o basco e o galego como lenguas españolas (assim lhes chama a Constituição), ao ver-se obrigado a constatar que «galego» e «português» são dois simples nomes para a mesma língua (embora correspondendo a normas diferentes e parcialmente irredutíveis), o Estado Espanhol, dizia eu, acaba metido numa grande alhada. Como explicar ao Mundo que algo «español» afinal não o é?

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De um momento para o outro

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei. A tua palavra pode ser a última. O nosso encontro pode não se repetir. Basta um gesto teu e vou-me embora. Estou sempre pronto para pegar no cajado do peregrino. De um momento para o outro pode acontecer. Sei que não posso fingir. Há na tua voz, em certos momentos do dia, um cansaço profundo que vem superar os projectos de tua alegria convocada e reunida.

A melancolia das tardes de Lisboa chega ao teu olhar trazida por um eléctrico que vem do Martim Moniz e segue para os Prazeres. Chega e é como se fosse uma seara de afectos na qual o vento desenha um pequeno mar verde de ondas repetidas entre luz e sombra.

Luz é quando o teu sorriso constrói uma renda de ternura e, sendo esta renda uma projecção da rede, eu sinto-me o pescador cansado a atravessar a praia, pronto a repetir a faina no dia seguinte. Sombra é quando o teu olhar se dilui no vento e na escuridão destes dias levando para os arquivos do silêncio esta amargura acumulada de pequenas traições, faltas de respeito, deslizes nos sentimentos e erros crassos nas relações humanas.

Entretanto o eléctrico que te trouxe a melancolia segue o seu trajecto pelas colinas de Lisboa. Perdido entre convenções, conveniências e mal-entendidos, eu sigo o meu caminho no sentido oposto. Estou cheio de dúvidas sobre o amanhã mas tenho, pelo menos, uma certeza. O futuro está num tempo desconhecido. Só o presente se vive. Eu sei. Não posso ignorar a melancolia que chegou aos teus olhos trazida por um eléctrico amarelo e lento que partiu do Martim Moniz e vai na direcção dos Prazeres.

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei.

Carta a Marina por causa do galego – 3

Cara Marina,

Falando-lhe, outro dia, no nosso assalto aos fartos celeiros do vocabulário espanhol (bom, nosso assalto, não exactamente, mas o dos nossos antepassados dos séculos XV a XVII), eu prometi-lhe alguns exemplos. Aqui vão eles agora. Não darei muitos. É que, sabe, os portugueses são um tanto ou quanto nacionalistas. E algum deles que lesse isto poderia ficar chocado.

Sim, acredite: os portugueses sentem-se tremendamente sozinhos no mundo, o que equivale a crerem-se imensamente originais. Se um dia descobrissem que um terço do seu idioma lhes chegou da Meseta, e que muito dos outros dois terços veio inteirinho da velha Galécia, dava-lhes um xilique. E eu não quero carregar isso na consciência.

Mas deixe-me, primeiramente, explicar-lhe uma coisa. Ou duas. Primeiro, para lembrar-lhe que os castelhanismos de outrora são hoje nossos, tão nossos que já não deixaríamos que no-los tirassem. Eles tornaram-se, desculpe o palavrão, «patrimoniais». Sim, subiríamos às barricadas para conservarmos o fiambre, e a botija, e a mochila, e a colcha, e o salpicão. E também moreno, e castiço, e zonzo, e até gandulo, até chulo, até velhaco. E assim muitos centos de outros.

Segundo, para assegurar-lhe que não há motivos para sentir-nos, hoje, culpados do que os nossos antepassados andaram fizendo ao idioma. Claro, era mais bonito se tivessem sido mais criativos. Poderiam ter primeiro pensado se não tínhamos já um termo aproveitável. Indo, se necessário, procurar saber como diziam os galegos. Mas os tempos eram outros, as viagens longas, e um estado independente, está a ver, não ia rebaixar-se a… você já entendeu. Não, os nossos avós só tinham ouvidos para as sereias castelhanas.

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Até esse momento

Lembrarás então o pai aqui sentado
A máquina de escrever no chão
Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos
Farás promessas que não vais cumprir
E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho
Iluminado pela luz do teu olhar
À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado
Um gelado presente do indicativo
E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio
Será talvez a memória das noites
O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir
Nos desenhos (nos cadernos escolares)
Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado
Não como pai mas como anónima pessoa
Surpresa a esperar no céu do outono

Terás nas tuas mãos um retrato
O voo das aves por cima da casa
Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos
Num momento ou talvez num lugar
Na tua idade como um portão aberto

Pele e lombada

Para o Z, nosso fiel e querido compagnon de route (conhecemos a sua identidade, mas não a daríamos nem a um pelotão de arma em riste), e isso por ser São Valentim, e por ele ter levado para longes ilhas (conta ele) o Spinosa de Deleuze, mais o Fédon de Platão, mais uns belos livros de matemática, e acabar distraído pelas belezas físicas locais – para ele, pois, este poema que sabemos apreciará:

É sempre o mesmo o que persigo:
Um belo moço, um belo livro.
Acaricie pele ou lombada,
Tocarei sempre e só fachada.

Gerrit Komrij, Contrabando, Assírio & Alvim, 2005, tradução do neerlandês de fmv.

[O autor, que vive em Portugal, e é um dos mais conceituados poetas holandeses, além de conhecido ensaísta, colunista e tradutor]

Carta a Marina por causa do galego – 2

Cara Marina,

Falando-lhe do galego, tenho de falar-lhe também, e muito, do castelhano. Não é por acaso. O castelhano, não obstante ser idioma mais jovem que o nosso (e, para ser sincero, um tanto mais abrutalhado também, se comparado com o refinamento do galego e do português), o castelhano, dizia eu, cedo ganhou grande prestígio por cá. De tal modo que encantou, e deslumbrou, a quantos em Portugal escreviam e liam.

Estamos aí por 1450. Inicia-se então – já lho contei – uma vasta castelhanização do português. Nos dois séculos e meio seguintes, os nossos escritores apoderaram-se de milhares, sim, fartos milhares, de palavras que a Meseta tinha formado de raiz, ou aproveitado do grande tesouro que era o latim. Eles liam muito em castelhano, os nossos escritores. Narrativas, poesia, tratados. Usavam dicionários latim-castelhano, que eram, para a época, os melhores no mercado. Mais importante ainda: eles mesmos escreviam em castelhano. Centenas o faziam. Muito das suas narrativas, da sua poesia, dos seus tratados, saía-lhes na língua vizinha. Porque sim. Porque o castelhano era prestigioso, e era rico em novas noções, e era lido na Europa e mais Mundo. Até as grandezas de Portugal eles cantavam em castelhano, como hoje a gente, para divulgá-las, faz, se somos espertos, em inglês.

Ora, quando depois escreviam em português, esses escritores aproveitavam – e faziam eles muito bem – todos esses novos materiais castelhanos, toda essa frescura neolatina, toda essa vigorosa expressividade. O mesmo faziam, entretanto, os dramaturgos. O povo queria teatro, e teatro em castelhano. Conhecemos centenas de peças de autores portugueses, para o público português, escritas em… adivinhe que língua. Compreende-se. As melhores companhias de teatro de Castela faziam constantemente tournées em Portugal. E os nossos não queriam ficar atrás.

Depois, havia a corte. Dos reis. Sobretudo das rainhas. Durante séculos, foi comum termos rainhas espanholas. Uma delas, Catarina de Áustria, aguentou por cá 53 anos. E nunca disse uma palavra, nunca escreveu uma linha, que não fosse em castelhano. Já está a ver.

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Carta a Marina por causa do galego – 1

Cara Marina,

Informa-me você de que é galega, e que até passou uns anos numa faculdade em Santiago. Pede-me, depois, que reproduza um texto de Daniel Castelao («Un ollo de vidro», um dos seus mais conhecidos), e isto «para que toda a gente perceba», diz você, «que galego não é castelhano, e muito menos, português». Eu vou fazer-lhe essa vontade. Mas a sua última afirmação incita-me a alguns esclarecimentos.

Galego não é castelhano? Claro que não. O galego é, até, mais antigo do que o castelhano, porque mais evoluído, e portanto com uma história mais longa. Galego não é português? Claro que não, também. Mas houve um tempo em que galego e português eram, sem espaço para dúvidas, uma só língua. Simplesmente, o português sofreu, entre 1450 e 1700, uma drástica remodelação, feita sobre o figurino castelhano. O galego conservou por mais tempo a feição medieval comum, e só mais recentemente acabou minado pela língua do Estado. Já vê: estas duas profundas castelhanizações, primeiro a do português, depois a do galego, ainda por cima bem diferentes uma da outra, criaram entre galego e português um fosso que muitos consideram já intransponível. Eu não. Mas não nos apressemos.

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Um poema de Vítor Matos e Sá

E porque o nome do poeta veio à baila no Aspirina B, nada melhor que recordar um dos seus poemas, «Para os meus alunos», que integra O Trabalho – antologia poética, e que devia estar em todas as salas de aula deste País (atrevo-me eu, «jcfrancisco», a pensar).

Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.

Chove en Santiago, meu doce amor

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*

Lorca enamorou-se por Santiago de Compostela, ou por alguém de lá, e compôs, num galego a pingar de casticismos (de «enxebrismos», termo local, mas corriam os anos 30), uma série de seis belos poemas. O mais conhecido é «Madrigal á cibdá de Santiago», que inicia com o celebérrimo verso «Chove en Santiago». Meteorologicamente exacto, porque é o que mais faz na capital galega.

Hoje, leio no Expresso um comentário de António Guerreiro a Doze Naus, um livro premiado de Manuel Alegre. Sempre senti alguma coisa por sonorosos vates. Mas não resta súvida: Guerreiro tem, aqui, todas as razões e mais algumas para deixar de rastos o livro, o autor e o júri (nada menos que Graça Moura, Júdice e Pinto do Amaral). Leiam, confiram.

Só destaco um pormenor. Alegre tem, no volume, um poema, «Adeus», onde se diz: «Quando vieram dizer-me que morreste/ eram onze da manhã e estava sol./ Não chovia no Porto como em Santiago/ há trinta anos quando mataram Allende.»

E eu pergunto-me quanta gente (os jurados, o crítico do Expresso, os comuns leitores) terá reparado naquela geográfica liberdade poética de pôr a chover, sem mais aviso, em Santiago de Chile. O «arquivo dos significados ‘poéticos’ cristalizados», que António Guerreiro diz enxergar em Manuel Alegre, é efectivamente bem provido.

A falta que fazem os mordomos ingleses

Da crónica, hoje, no Público, de José Pacheco Pereira:

«Peguem numa lupa e vão ver as fotografias dos “palácios reais”, as fotografias dos grandes e médios eventos desses anos finais da monarquia e podem continuar pela República e pelo Estado Novo dentro e vejam o Portugal que lá está ao lado da Família Real nos vasos partidos segurados com arame, nas louças com “gatos”, nos jardins pouco cuidados, nos espelhos com a prata gasta, nas roupas puídas e usadas, nas decorações erguidas de madeira e papelão, no tom de abandono, descuido e pouca limpeza, que nem a hierarquia do upstairs e do downstairs servia para funcionar bem, não porque não houvesse muita criadagem, mas porque faltavam os mordomos ingleses. Esse mundo que tomam por brilhante e cosmopolita era o mesmo Portugal que hoje pretendem esconjurar porque “feio, porco e mau”, o mesmo Portugal – oh sinistro adjectivo! -, “piroso”, de que pensam fugir conhecendo os vinhos de casta, comprando relógios Patek Philipe para entesourar, caçando vestidos de duendes verdes, fazendo subir o preço do Almanaque de Gotha nos leilões, e passeando-se por resorts e spas. Não, não estamos nos nossos melhores dias…»

Este homem está cada vez mais interessante.

O primeiro (e grande) romance de Jorge Carvalheira

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*

Por enquanto nada sabemos do destino do homem que ali vai, em extremo concentrado no andamento das passadas que dá. Vemos que marcha atento e cabisbaixo, no gesto de quem poupa energias. Porém não tanto que perca de vista o andador que lhe vai na dianteira, obra de poucos metros, nem tão pouco que possa este limpo luar de Fevereiro lavar-lhe de sombras a barbada face. Nada sabemos, e dobrada razão é essa para atentarmos no leve pormenor, na mesquinha minúcia.

Assim inicia As Aves Levantam Contra o vento, o primeiro romance do Jorge Carvalheira, que a Quasi acaba de publicar. É um livro excepcional. O que não pode espantar-nos, sabendo, os que o lemos aqui no Aspirina, quanto desvelo e quanta graça ele põe no que escreve. Quem é exigente a esse ponto é-o sempre também. 

As Aves Levantam Contra o vento é o retrato dum Portugal que foi mas ainda persiste em ser. Porque nós somos como somos – e aí está o nosso grande problema. Fique aqui, para amuse-bouche dum livro magnífico, este retrato de alguém que conhecemos de sobra.

Incapaz de ver os erros do passado, só restava a Portugal passar a vida a repeti-los. Um dia tomou conta do governo um professor de Finanças, bisonho camponês que a igreja modelou num espirito de frade, austero, ardiloso, agudíssimo, implacável. Conhecia como ninguém a alma dos portugueses, era ele a sua mais perfeita imagem. Desdenhava da fatuidade dos salões e desprezava as multidões primárias, era um deserdado que só acreditava em elites. Não apreciava indústrias, por tanto se temer do ruido dos operários a sair do bojo das fábricas, proibiu a coca-cola para que não houvesse exemplos de sociedades eficazes, sonhava-se ministro dum rei absoluto deslocado no tempo, um Pombal despótico e tirano a quem sobrava a manha e faltava o esclarecimento. Governava o país do fundo duma cela, e, milagre supremo, pôs em ordem as finanças, pelo cálculo mais elementar. Domesticado o povo pela inanição e o silêncio, mourejavam três quartos dum pais infantilizado há séculos, para que o restante quarto vivesse à tripa forra. Era esta a lei universal do mundo.

Do analfabetismo à fúria das viúvas

José Mário Silva assinou no passado dia 2-2-2008 no Diário de Notícias um trabalho jornalístico no qual divulga o «caso» do poeta Amadeu Baptista. Autor de vasta obra poética cuja publicação se iniciou em 1982 (com As passagens secretas), este poeta tem mais de vinte livros publicados e uma antologia intitulada Antecedentes criminais.

Desempregado desde Setembro de 2007, o poeta saiu do Bairro Alto e vive em Viseu onde não paga renda de casa. Ganhou vários prémios literários nos últimos meses num total de 12.500 euros. Este dinheiro evitou-lhe entrar no centro da miséria, está apenas na sua periferia, no seu limiar. Mas também no limiar do vazio e da depressão: «Escrever poupa-me à depressão e à angústia de não ter trabalho» – diz o poeta a José Mário Silva.

Outro dia, soube na Casa Fernando Pessoa que a viúva do poeta Ulisses Duarte convidou os amigos da Tertúlia Rio da Prata para irem lá a casa, munidos de sacos de plástico. Queria ver-se livre de todos os livros, queria a casa limpa. A viúva do poeta Vítor Marques e Sá (falecido em 1975) nem me respondeu quando lhe escrevi em 1982 para pedir uma fotografia para ilustrar um artigo sobre a sua obra. A minha carta, como muitas outras, terá ido para o lixo. Anos depois, a viúva de Nuno Guimarães não atava nem desatava sobre a gaveta de inéditos do poeta morto em 1973. Com a simpática colaboração do actual (ao tempo, 1993) marido da senhora, lá foi possível a Câmara de Gaia levar para a frente uma edição comemorativa de poeta que morreu jovem.

Como se não bastasse o nosso analfabetismo ainda temos que levar com a fúria das viúvas. É muita areia para a camioneta dos poetas.

O regicídio visto por Pascoaes

Descobri hoje no Alfarrabista Bocage na Calçada do Combro a cópia de uma carta de Pascoaes a Unamuno de 2-10-1908. Depois de saudar o «querido amigo», Pascoaes afirma:

«A tragédia de Lisboa foi o desenlace duma luta travada entre o gato e o rato. E, coisa curiosa, o rato matou o gato! João Franco subiu ao poder para eliminar abusos, roubos, sinecuras. O advento do Franquismo representou um tardio arrependimento do Rei Carlos. Calcule a guerra feroz que lhe moveram os partidos (progressista e regenerador) que se viram despojados do Tesouro Público! Guerra de difamação contra o Rei e de ódio contra o Franco. Este viu-se obrigado a recorrer a meios violentos e pouco simpáticos nos tempos de hoje para resistir à onda que o tentava derrubar. Estas medidas violentas exasperaram dois pobres e ingénuos sonhadores (Costa e Buíça) que, num ímpeto que eles julgaram libertador, deitaram a terra D. Carlos e o Príncipe Luís, um adorável rapaz de 20 anos! Resultado: o Franco foi para o estrangeiro por onde anda errante como um fantasma; o Buíça foi para a sepultura, fulminado como um Titã que quis roubar o fogo do céu! No dia 1 de Fevereiro de 1908 havia dois homens em Portugal, João Franco e Buíça; inimigos irredutíveis que se destruíram um ao outro, em vez de salvarem a sua Pátria! Neste momento Portugal é um mistério. É impossível a gente calcular o que virá a ser dele! É uma Pátria que a noite envolve, entregue aos morcegos e às aves agoireiras. Aqui, não se vê um palmo adiante do nariz; é tudo confusão e sombra. Um abraço do seu grande admirador e amigo certo – Teixeira de Pascoaes.»

Um documento curioso, descoberto e lido cem anos depois, num alfarrabista da Calçada do Combro.

Futebol de quarta-feira

Tenho na mão um livro brasileiro dum português. Não acontece muitas vezes. Este chama-se Mansões abandonadas e é uma antologia da poesia do José do Carmo Francisco. Tem organização de Floriano Martins, ilustrações de Sérgio Lucena e introdução de Nicolau Saião. Edita-o a Escrituras, de São Paulo.

A recolha inclui algumas das melhores produções do poeta. Mas não esta, de Jogos Olímpicos, livrinho de 1988. Que aqui transcrevo. Por gosto estritamente pessoal.

*

Futebol de quarta-feira

Para quem janta a correr e sai de casa mais cedo
para perder tempo na bicha do «36» no Rossio
não custa suportar nem o vento nem o frio
nem a dúvida do resultado que se transforma em medo.

O autocarro saiu completo e já vai na Avenida.
Daqui de cima vejo melhor a cara de quem espera.
E vejo melhor o condutor quando ele acelera
como se também fosse sua esta nossa corrida.

O resultado que vai sair em todos os jornais
nunca pode testemunhar o jogo, a sua história.
Daqui por alguns anos ficarão apenas na memória
os números, sem golos a menos nem golos a mais.

Agora sonho com os comentários de amanhã.
E sei que me vai custar mais a levantar.
Dói-me a garganta depois de tanto gritar
e para a próxima compro um cachecol de lã.

ilusos lusos

Um dos melhores blogues portugueses (por mais bem feitos, mais úteis) é este, de nome atormentado: Letratura, de Helder Guegués. (O patronímico é inabitual, mas o possuidor é portuguesíssimo). Nesse blogue se examina e comenta o nosso idioma com erudição, com gosto, com leveza.

Um dos últimos temas é a súbita florescência em jornais do vocábulo lusos a designar os portugueses.

Devo dizer que já o tinha advertido num programa de televisão. E suponho – com um faro que cada vez menos se engana – ser o uso provindo de média espanhóis, onde, para variar com «los portugueses», frequentemente se nos chama «los lusos».

Se isto tiver vindo «desde España», temo que venha para ficar. Mas, para a nossa já deprimida auto-imagem, é arrepiante que passemos a designar-nos – mesmo só para variar – com um nome que o grande vizinho nos arranjou. Teremos de aceitar que se nos trate por «los lusos». Mas é pataratice copiá-lo, e dizer também «os lusos» de nós próprios.

Terei de dizer, uma e outra vez, que admiro profundamente a Espanha? E terei de dizer, outra e outra vez, que isso casa bem com uma infinita desconfiança da sua percepção a nosso respeito? E com uma viva repulsa por este tipo de sugestões?