Todos os artigos de Aspirina B

O Futuro ainda aí vem?

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Poucas revistas me dão uma leitura tão tranquilizante quanto a “Wired”. Folhear um dos seus números é entrar num daqueles jogos de computador de velocidade terminal: tudo desfila em nosso redor numa vertigem desfocada em perpétua aceleração. Gadgets mais funcionais, mais invejáveis; opiniões tão, tão hip; avanços científicos decisivos mesmo ao virar da esquina; cultura sempre Pop, cada vez mais brilhante e acessível; publicidade ensopada do mesmo optimismo que faz levitar toda a revista. É verdade: o Futuro está a chegar e faz a primeira escala nas páginas da “Wired”.
O problema é que não devemos guardar números antigos. Senão, a magia desfaz-se: pegar num deles é rever um inventário de promessas por cumprir. Afinal, a fusão a frio permanece fechada no armário das anomalias mal explicadas. O cancro ainda não tem cura. O orgasmo feminino continua perdido num continente negro de máscula ignorância.
Pois é. Aquelas páginas recheadas de fotomontagens brilhantes e prosa fácil, agora cobertas de uma patine bolorenta, encerram uma revelação terrível: já nem o Futuro é o que era.

Holidays r’ U.S.

Dick Cheney já nos tinha gabado a boa vida de que os detidos em Guantánamo desfrutam: “vivem nos trópicos. São bem alimentados. Têm tudo o que poderiam alguma vez querer.”
Agora, com a recente pouca-vergonha dos voos clandestinos em busca de paragens mais tolerantes à prática da tortura, não deve tardar até surgir o inevitável: “mas se até os levamos a passear e a conhecer paragens exóticas, de que de queixam eles?”
Bem que Cheney podia montar uma agência de viagens com este produto único. Já imagino a capa do folheto: “Descubra o fascinante mundo da tortura. Tudo incluído — menos o regresso”.

Regresso ao abominável César das Neves

Desta vez, para desfazer um mito. Toda a gente anda para aí a pensar que o professor de Economia ultra-católico é o campeão nacional do moralismo beato e puritano mas a sua crónica de ontem, no DN, desmente esse preconceito. Vejam, por favor, como JCN demonstra que «a chispa da transcendência penetra todo o real». E, se resistirem até ao fim do texto, terão à vossa espera um aforismo digno de Lili Caneças: «Porque a única coisa admirável na vida é a vida vivida». Não confundir, evidentemente, com a vida não vivida, que pode ser tudo menos admirável.

A Aspirina vai a Angola

Hoje, a partir das 18:30, na Bertrand do Picoas Plaza, é lançado o livro “O Último Adeus Português”. Emídio Fernando, o autor, é jornalista da TSF e tem acompanhado de perto as desventuras do seu país nos últimos anos, sobretudo em várias frentes de combate.
“História das relações entre Portugal e Angola, do início da guerra colonial até à independênca” é o que nos promete ser esta edição da Oficina do Livro. Não faltem, que a obra merece. A apresentação fica por conta de Emídio Rangel.

Eça agora…

O Jorge Palinhos, num dos derradeiros posts do BdE, aponta certeiro às meninges sempre febris da malta que gasta os seus dias a maldizer a “choldra” que é Portugal. Depois de inventariar as litanias preferidas das lusas carpideiras, conclui: “criticar sem ideias ou convicções ou acções, pelo simples fundamento de que Portugal não é a França e Lisboa não é Paris, não é colocar-se acima dos burgessos ou apresentar-se como uma elite aristocrática. É apenas ser um burgesso que cita Eça.”
É impossível não concordar. Mas resta um curioso e desconcertante paradoxo: o fulano que melhor cultivou uma certa postura hiper-crítica e luso-céptica — e que até citava Eça como ninguém — veio, apesar de tudo, a transformar-se num verdadeiro tesouro nacional. É hoje um farol que ilumina os caminhos brumosos do rarefeito orgulho pátrio que por aí ainda ande perdido.
Falo, claro está, do próprio Eça.

Um Discurso de Inauguração falhado


É fado repetido: quantos mais planos cuidadosos congemino, mais doloroso se revela o trambolhão no momento decisivo. Para hoje, tinha planeado dois ou três posts magistrais, daqueles em que a economia de recursos se une ao fulgor estilístico para deixar a malta leitora muda de assombro e prenhe de iluminação espiritual (não que alguma vez tenha conseguido produzir semelhantes teofanias, mas sonhar não custa…). Pois. A semana começou logo de forma aziaga: uma intoxicação atirou com metade do familiar agregado ao tapete. E, depois de febres, hospital e tormentos vários (que incluíram ficar fechado no meio da rua em roupão, depois de receber um estafeta que os chupistas aqui do escritório me enviaram com trabalho, sem qualquer consideração pela minha enfermidade), os pendentes laborais amontoaram-se de forma terminal. Concluindo: está aí o dia da Grande Inauguração e não tenho nada que se mostre. Népia.
Assim sendo, vou ter de adaptar alguns argumentos que enderecei ao Valupi para tentar aquietar as suas naturais apreensões. Ele por certo que me desculpará a inconfidência; e terá tempo para revelar o seu lado desta estranha conspiração…

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O Sumiço

Fico eu sem expressões que pelo menos suspirem por reproduzir no espírito do bondoso leitor o meu desgosto com este momento: o nosso BdE finou-se. De modo bruto e definitivo, no more posts, no more comments; em frente, somente o zero onde se reduzem em pó os frutos de gloriosos e longos meses. Infindos esforços, minutos em multitude: primeiro gloriosos, hoje só devolutos.
E fico eu mudo por virtude de dispositivo conhecido: o homem submerge-se em criteriosos desígnios e Deus, no fim, impõe o seu definitivo direito de dispor desses pobres sonhos de poder. O efeito? Micróbios teimosos, clientes infelizes, HTML rebelde… todos unidos no grupo de escolhos em pleno percurso do meu Norte predilecto.
Dos mil e um posts previstos e queridos, o que pode resistir? Elejo o custoso repto do nosso ZM: um momento de respeitoso preito pelo glorioso OuLiPo. Efemérides existem que impõem respeito e honesto suor de esforço.
Júbilo sim; o desespero é que é proibido. Deste termo, muito promete sobreviver: de novo nos veremos por esses novelos de blogues e outros sorvedouros do nosso tempo livre. Disso fico certo.

Em simultâneo com o hoje moribundo BdE, ficou aqui um minúsculo lipograma para comemorar o aniversário do OuLiPo de Perec e de muitos outros génios da palavra constrangida. Tem o seu quê de justiça poética que o meu primeiro post aqui seja o meu derradeiro na minha antiga casa, agora condenada à demolição…

Um dos meus problemas num blog

Das pessoas que conheço, só insulto, embora com ternura, os amigos. Tenho o grave problema de fazer cerimónia com os conhecidos. A minha timidez em justiçar quem mal conheço dá-me imensos problemas e retira-me, somando à preguiça, capacidade de escrever com regularidade. Percebam o meu drama: fiz dois artigos para a “Máxima” quando a Helena Matos era chefe de redacção e isso tem-me até agora coibido de escrever sobre o que acho dos seus textos. Embora, quanto mais a leio, tenha cada vez mais vontade de dizer-lhe que para ser de direita não é obrigatório deixar a inteligência no vestiário antes de escrever.
Mas adiante, acontece-me com algumas pessoas o que sucedeu com o prolífico Vilhena do “Cavaco” e da “Gaiola Aberta” . Há uns anos, a Paula Moura Pinheiro, a Conceição Lino e a Júlia Pinheiro tinham um programa de entrevistas na rádio, várias vezes tentaram entrevistar o supracitado Vilhena. Debalde. Na última vez, ele acedeu a explicar o motivo de tanto silêncio: “sabem, eu vivo de desenhar, nas minhas capas, as meninas da televisão nuas, mas se as conheço perco coragem. E as senhoras são tão bonitas e são três, ia perder muito dinheiro com isso”.