Saudades do futuro

Amsterdam2477-1.jpg

O futuro: visão de conjunto (foto analógica, antiquíssima)

Todos os dias, ao sair de casa, dou de caras com o futuro. Não um futuro qualquer, abstracto, nevoento. Não, o meu futuro é tacteável, legível, inscrito na pedra.

Alguém, de perfil e gostos hoje indefinidos, mas estuante de ideias, fez, em 1977, quando os prédios foram construídos, colocar um monumento ali na relva. O aspecto é fúnebre, concedo. Mas talvez a funebridade seja conceito relativo, resvaladiço, e daqui por uns tempos aquilo adquira conotações festivas, ou íntimas, enfim, coisa que nós ali hoje não vemos. Porque ‘futuro’ é o que não falta ao monumento: quase 500 anos.

É assim. Naquelas lajes, Amsterdão de 1977 saúda (textualmente) Amsterdão de 2477. E não se fica por palavras. Guarda, sob uma laje, água do Canal dos Senhores (o Herengracht, o turista reconhecerá), sob outra, água do Amstel (o rio que dá nome à cidade, A Represa do Amstel), e terra de sítios diversos do burgo, e ainda uns sons da época, com um gravador (eles pensaram em tudo), e até filmes da época, quase de certeza em Super8. Um dos torreões abriga um projector.

Amsterdam2477-2a.jpg

O futuro: pormenor

É de esperar que o futuro saiba simplesmente ler os dizeres, isto se o vento e a chuva – e os sapatos de quantos ali fazem picnics no Verão – não os tiverem apagado. Sim, porque entretanto a fita gravada e o Super8 ter-se-ão pulverizado. Se o gravador e o projector sobreviverem, o futuro nem saberá para que serviam, como o índio do Amazonas (feliz dele) que encontra um CD com a «Mila» do Netinho. Excelente número, mas segredo nosso.

Simplesmente, as perspectivas para o sítio não são as melhores. Ele fica, como quase a cidade inteira, abaixo do nível do mar. Visto que as previsões mais simpáticas (com o degelo, o efeito-estufa, vocês sabem) dão ao Oeste da Holanda duzentos anos, e as mais sinceras cem, o monumento é, desde já, tecnicamente, um achado subaquático ainda em seco.

Mas, enquanto andamos por aqui de pés enxutos, vamos pensando nos sorrisos do futuro, imaginando o fim de tarde de 2477 em que os netos dos nossos longínquos netos irão abrir, a laser, ou por palavras mágicas, o momumento… e darão de rosto connosco.

Mas isto só nós o sabemos. E isto nos basta. Porque é essa a consistência, e a certeza, de todas as saudades do futuro.

7 thoughts on “Saudades do futuro”

  1. saí de lá cansada. só de imaginar que chegava a casa e tinha lá umas amigas para jantar, até me arrepiava! imaginava como é que iria ter energia para ser sociável.
    comecei a percorrer os postos do rádio, à espera de encontrar uma qualquer conversa de chacha que me distraísse. e helás! fui parar ao programa da Igreja Pentecostal Deus é Amor. e percorri a A5 a ouvir o testemunho de um senhor que tinha um problema nos pulmões e que queria trabalhar e não podia, que o impediu de fazer a sua vida normal durante 10 anos. fiquei sem emprego, eu queria trabalhar e não podia, a família chamava-me de malandro, e eu queria trabalhar e não podia, fui a todos os médicos, raios x, não conseguia respirar, e eu queria trabalhar e não podia, tinha uma dor no peito que me impedia de sair da cama, toda a gente me abandonou, e eu queria trabalhar e não podia. e então o senhor foi à dita igreja e lá, foi revelado – o que quer que seja que isso quer dizer. e ficou bom. logo nesse dia começou a respirar bem e dormiu que nem um anjinho. e ainda bem, porque o senhor queria trabalhar e não podia.
    e sabem que mais? não foi só o senhor que foi alvo de um milagre! eu também. cheguei a casa muitíssimo bem disposta e de energia renovada. porque eu queria estar bem disposta e não podia.
    agora estou num dilema. não sei se escolha esta, se a dos Últimos Dias!

  2. O senhor Fernando é do tipo de pessoa que associa o vício privado com a pública virtude. A tragédia, em Venâncio, não é um género, é uma condição. E a comédia apenas um ritual. A sua condição é trágica e cómica, cómica mas trágica. E como lhe roubaram a possibilidade da utopia, apenas ficou com as batalhas individuais – o que quer fazer com a vida e o que pensa do mundo.

  3. Aqui em Lisboa, o “futuro” teria chegado logo uns dias depois da inauguração, mal a ladroagem soubesse que estavam ali enterrados um gravador e um projector…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *