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	<title>Aspirina B &#187; Fernando Venâncio</title>
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		<title>Em parte incerta</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Mar 2008 15:27:37 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Gostei muito deste bocadinho. Garanto que gostei. Tive mesmo momentos de entusiasmo, daqueles em que o Mundo, contra todas as chances, bateu certo. 
Mas outro momento chegou. O da partida. Sem dramas nem estados de alma, deixo o Aspirina. Desejo-lhe longos dias. Longos e cheios. 
Cá o Degas ficará onde sempre esteve, onde é o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gostei muito deste bocadinho. Garanto que gostei. Tive mesmo momentos de entusiasmo, daqueles em que o Mundo, contra todas as chances, bateu certo. </p>
<p>Mas outro momento chegou. O da partida. Sem dramas nem estados de alma, deixo o Aspirina. Desejo-lhe longos dias. Longos e cheios. </p>
<p>Cá o Degas ficará onde sempre esteve, onde é o seu lugar, e onde estará sempre melhor. Em parte incerta.</p>
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		<title>O túnel do Rossio já não cheira a fumo</title>
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		<pubDate>Sun, 23 Mar 2008 15:56:19 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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*
Uma das nostalgias da minha meninice é o cheiro a fumo do túnel do Rossio. Nostalgias, e entendam-se não aquelas que nos chegam depois, mas as que não esperam e logo nos dão na altura. Eu passava meses lembrando-me do cheiro desse fumo bem real, o que a máquina ia lançando lá à frente, e penetrava pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/18_1954.gif" title="18_1954.gif"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/18_1954.gif" alt="18_1954.gif" /></a></p>
<p>*</p>
<p>Uma das nostalgias da minha meninice é o cheiro a fumo do túnel do Rossio. Nostalgias, e entendam-se não aquelas que nos chegam depois, mas as que não esperam e logo nos dão na altura. Eu passava meses lembrando-me do cheiro desse fumo bem real, o que a máquina ia lançando lá à frente, e penetrava pela menor frincha. Suspirava por Sintra, pelo outro comboio, que levava à Praia das Maçãs.</p>
<p>Hoje, o túnel está iluminado &#8211; e mais respirável. Aspiro fundo, e nada. Nem uma lembrança, nem uma impressão. A minha infância está, ali, agora iluminada. Se mais respirável, não sei.</p>
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		<title>Não compre este livro! (para já&#8230;)</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Mar 2008 14:41:51 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
*
O livro tem algum interesse, isso garanto-lho eu. Simplesmente, a edição já disponibilizada, numa livraria perto de si, vai ser retirada do mercado. Não é por nada, mas não está tecnicamente apresentável. A editora, a perfeccionista Assírio &#38; Alvim, vai muito em breve repor a obra. Perfeitíssima. Como é seu timbre.
 
Agora a boa notícia. É que Último Minuete em Lisboa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/minuete.jpg" title="minuete.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/minuete.jpg" alt="minuete.jpg" /></a></p>
<p>*</p>
<p>O livro tem algum interesse, isso garanto-lho eu. Simplesmente, a edição já disponibilizada, numa livraria perto de si, vai ser retirada do mercado. Não é por nada, mas não está tecnicamente apresentável. A editora, a perfeccionista <strong>Assírio &amp; Alvim</strong>, vai muito em breve repor a obra. Perfeitíssima. Como é seu timbre.<br />
 <br />
Agora a boa notícia. É que <strong><em>Último Minuete em Lisboa </em></strong>será apresentado na terça-feira 1 de Abril, pelas 19.00 horas, na Casa do Alentejo (Rua das Portas de Santo Antão, ao Coliseu), em Lisboa. A apresentação será feita por <strong>Francisco José Viegas</strong>.<br />
 <br />
E, como uma alegria nunca vem só, na mesma ocasião serão apresentados os <strong><em>Bilhetes de Colares</em></strong>, de <strong>José Cutileiro</strong>,  recentemente saídos na mesma editora, e que o autor do primeiro livro organizou. O apresentador será, aqui, <strong>Henrique Granadeiro</strong>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma cama em Bruges</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Mar 2008 13:59:35 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
*
Morreu ontem o escritor belga Hugo Claus. Nascido em 1929, era romancista e poeta. Está em português o seu espectacular romance «O Desgosto da Bélgica». Era,  a par do holandês Harry Mulisch, um eterno nobelizável de língua neerlandesa. Um dos seus mais célebres poemas, «Een bed in Brugge», vai aqui, em tradução publicada em 1997.
Uma cama em Bruges
«Sou empregado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/ph2008031902257.jpg" title="ph2008031902257.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/ph2008031902257.jpg" alt="ph2008031902257.jpg" /></a></p>
<p>*</p>
<p>Morreu ontem o escritor belga <strong><em>Hugo Claus</em></strong>. Nascido em 1929, era romancista e poeta. Está em português o seu espectacular romance «O Desgosto da Bélgica». Era,  a par do holandês Harry Mulisch, um eterno nobelizável de língua neerlandesa. Um dos seus mais célebres poemas, «Een bed in Brugge», vai aqui, em tradução publicada em 1997.</p>
<p><em><strong>Uma cama em Bruges</strong></em></p>
<p><strong>«Sou empregado dos Produits Chimiques, meu caro senhor,<br />
empregado na morte lenta.<br />
Ao fim de dez anos pode ter-se a reforma<br />
por causa do gás no bandulho.</strong><strong>Estou lá há catorze já, meu caro senhor,<br />
há dois deles como motorista.<br />
E nesses dois não precisei de vomitar nem uma vez,<br />
por causa do ar fresco.</p>
<p>Nós, belgas, somos os melhores condutores da Europa inteira,<br />
e eu já estive em todo o lado.<br />
Porque somos perigosos a guiar.<br />
E assim temos mais em conta os outros<br />
que também são perigosos a guiar, mas sem quererem sabê-lo.</p>
<p>E sabe a coisa mais linda que estes olhos já viram?<br />
E repare que estive na Capela Sixtina,<br />
e que vi o rabo da Gisela do Mocambo ─<br />
bom, foi numa loja de Bruges,<br />
uma cama carmesim. Em Empire. Ou seria Luís XV?</p>
<p>Aí deitado, com a Gisela, havia de esquecer os meus três filhos<br />
e o calendário inteiro.<br />
O amor, caro senhor, tem de ser de cetim.<br />
E a morte, caro senhor, é o que se sente no estômago<br />
quando se sabe que nunca poderá comprar-se uma cama dessas.»</p>
<p></strong><em>tradução do neerlandês<br />
Fernando Venâncio</em></p>
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		<title>Mon cher Antoine</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Mar 2008 12:07:45 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
*
O seu carro descontrola-se, e você atropela o seu escritor favorito, digamos José Rodrigues dos Santos? Em legítima defesa, você dispara um laser paralisante, e atinge, por estúpida coincidência, o seu cantor favorito, digamos Mickael Carreira? Chato, muito chato. Foi o que sucedeu a um piloto de guerra alemão, que abateu &#8211; sem sabê-lo &#8211; o escritor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/lockheed_p38_lightn_227304e.jpg" title="lockheed_p38_lightn_227304e.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/lockheed_p38_lightn_227304e.jpg" alt="lockheed_p38_lightn_227304e.jpg" /></a></p>
<p>*</p>
<p>O seu carro descontrola-se, e você atropela o seu escritor favorito, digamos José Rodrigues dos Santos? Em legítima defesa, você dispara um laser paralisante, e atinge, por estúpida coincidência, o seu cantor favorito, digamos Mickael Carreira? Chato, muito chato. Foi o que sucedeu a um piloto de guerra alemão, que abateu &#8211; sem sabê-lo &#8211; o escritor que mais o deleitava: <strong><em>Antoine de Saint-Exupéry</em></strong>. O nome soa-lhe familiar, mas não o liga a nada? Pense n&#8217;<em>O Principezinho</em>, e está lá.</p>
<p>Pois foi. Num voo de patrulha, na costa sul de França, a 31 de Julho de 1944, Antoine, com 44 anos, pilotava um Lockheed P38 Lightning (na imagem). Terá visto um Messerschmidt Me109, que andava perto, colocar-se atrás dele. O que sentiu depois - <em>«c&#8217;est ça, la fin» -</em> já não pôde contar-no-lo, ele que em <em>Vol de Nuit</em> descrevera angústias de arrepiar.</p>
<p>Não se suicidou, como se chegou a pensar. Matou-o Horst Rippert, piloto da Luftwaffe, que, hoje com 88 anos, revelou o caso. Passou sessenta e quatro deles, consciente dia e noite de que, sem sabê-lo, pusera fim à vida de alguém que tanto adorava ler.</p>
<p>Por nós, havemos de saber tudo em <em>Saint-Exupéry, l&#8217;ultime secret</em>, um livro a aparecer brevemente.  </p>
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		<title>À noite logo se vê</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/fernando-venancio/para-alguma-orientacao-logo-a-noite/</link>
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		<pubDate>Sun, 09 Mar 2008 08:48:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fmv</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
*
Não é provável que qualquer dos dois, PSOE ou PP, consiga a maioria absoluta. Não há espanhóis suficientes a reconhecerem-se quer num quer noutro. E, no entanto, uma maioria absoluta será sempre indispensável ao PP para ser governo. É que com Rajoy ninguém quer governar. E nem tanto por causa de Rajoy &#8211; na realidade, um fraco &#8211; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/541595_tn.jpg" title="541595_tn.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/541595_tn.jpg" alt="541595_tn.jpg" /></a></p>
<p>*</p>
<p>Não é provável que qualquer dos dois, PSOE ou PP, consiga a maioria absoluta. Não há espanhóis suficientes a reconhecerem-se quer num quer noutro. E, no entanto, uma maioria absoluta será sempre indispensável ao PP para ser governo. É que com Rajoy ninguém quer governar. E nem tanto por causa de Rajoy &#8211; na realidade, um fraco &#8211; mas porque ele não passa do homem-de-mão dum Aznar que, da sombra, ainda mexe tudo.</p>
<p>Como o espectro político espanhol não possui um partido de extrema-direita, nem no parlamento nem fora, toda a cambada nazi e fascista se juntou, e pesa muito, no PP. Aí está um partido que, inicialmente de vocação centrista, tem disponível gente muito sensata e capaz, mas hoje trucidada por cavaleiros de tristíssima figura. O aberto apoio episcopal torna a organização ainda mais sinistra. É o <em>Valle de los Caídos</em> em superprodução.</p>
<p>O PSOE, esse, tem reais chances de continuar governo. Todos os outros partidos, nacionais ou autonómicos, estão dispostos a apoiá-lo, pelo menos a tolerá-lo. Cada um deles procura, sem dúvida, o mais largo assento parlamentar em Madrid. Mas isso não ameaça a Zapatero, antes pelo contrário. Todo o voto que não for PP é voto <em>útil</em>.</p>
<p>Logo à noite saberemos mais, provavelmente saberemos tudo. A nós, resta-nos esperar. E ir pondo uma velinha à Senhora. Ela, melhor que ninguém, sabe quantos bispos há já no Inferno.</p>
<p>*</p>
<p><strong>P.S.</strong> Em vão se procurará, nos últimos dias, na «Opinião», e até nos «Editoriais», quer do <em>Público</em> quer do <em>DN</em> uma reflexão sobre estas eleições gerais espanholas. A malta não dá peso a estas coisas, se é que a malta entende sequer estas coisas. Qualquer baptizado principesco ocupa mais mentes portuguesas.</p>
<p>Ter-se-ão <em>eles</em> já instalado tão bem que não os vemos? Será a invisibilidade do «espanhol em nós» afinal um facto? </p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Buena suerte, Zé Luís!  [actualizado]</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/fernando-venancio/buena-suerte-ze-luis/</link>
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		<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 12:42:45 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
*
- Tá, Zé?
- Oi, Zé Luís. Outra vez?
- Desculpa, pá, desculpa. É que eu ando um bocadinho…
- … nervoso, eu percebo. Mas, vais ver, domingo à noite, isso passa-te num sopro.
- Talvez, talvez. Mas, até lá, muito pode acontecer. E é até por causa disso que te estava a ligar.
- Homem, lá por isso, tens aqui [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/phpthumb.jpg" title="phpthumb.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/phpthumb.jpg" alt="phpthumb.jpg" /></a></p>
<p>*</p>
<p>- Tá, Zé?</p>
<p>- Oi, Zé Luís. Outra vez?</p>
<p>- Desculpa, pá, desculpa. É que eu ando um bocadinho…</p>
<p>- … nervoso, eu percebo. Mas, vais ver, domingo à noite, isso passa-te num sopro.</p>
<p>- Talvez, talvez. Mas, até lá, muito pode acontecer. E é até por causa disso que te estava a ligar.</p>
<p>- Homem, lá por isso, tens aqui um país inteiro solidário.</p>
<p>- A sério? É que, desculpa lá, mas há uns zunzuns de que afinal ides, até domingo, reconhecer o Kosovo. E isso&#8230;</p>
<p>- Eu sei, não é o que ficou combinado.</p>
<p>- Pois, e diz-se que, na vossa imprensa, há umas pressões&#8230;</p>
<p>- Pressões, Zé Luís? Francamente, até parece que não me conheces. Além disso, a imprensa aqui não abre o bico sobre a questão. Acagaçam-se, como sempre. Cheira-lhes a esturro.</p>
<p>- Mas tu vê lá, ãh? É que, se vocês reconhecerem, isso custa-me, a brincar a brincar, duzentos mil votos. E, tu sabes&#8230;</p>
<p>- Eu sei. Faziam imenso jeito ao Raxói.</p>
<p>- A quem?</p>
<p>- Ao Rajoy. O gajo não é galego?</p>
<p>- Tá bem, entendam-se lá na vossa língua. Os meus problemas são outros.</p>
<p>- Não, a sério, Zé Luís. Comigo podes contar. Antes da meia-noite de segunda, não vai haver reconhecimento. Depois, sinto-me desligado do nosso acordo.</p>
<p>- Zezinho, calma aí. Isso não me ajuda por aí além. Não querias esperar mais um mesezinhos? Pelo menos até ao referendo do Ibarretxe?</p>
<p>- Pá, Zé Luís, isso é que já vai ser mais fodido de explicar à malta. Mas, tá bem, pronto, vou ver o que se consegue arranjar. E olha, por agora, <em>buenas tardes y buena suerte</em>. Não é como tu dizes?</p>
<p>- Ah, já me apanhaste essa. És um gajo sabido. Então, até&#8230;</p>
<p>- Até domingo à noite. Hei-de ser o primeiro a&#8230;</p>
<p><em>[caiu uma chamada, algures entre a Moncloa e São Bento]</em></p>
<p><em>*</em></p>
<p><em><strong>Actualização</strong></em></p>
<p>Este «post» foi publicado antes do assassinato, por terroristas, dum socialista basco, facto que conduziu à suspensão da campanha eleitoral espanhola. Perante a morte, toda a humana leviandade, também a do autor deste «post», é ridícula.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A próxima vítima  [actualizado]</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/fernando-venancio/a-proxima-vitima/</link>
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		<pubDate>Wed, 05 Mar 2008 11:43:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fmv</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
*
Geert Wilders, fixem esse nome. Vão ouvir falar mais dele. Quem é?
É um deputado holandês que há dois anos foi expulso do Partido Liberal, e hoje preside no Parlamento a um grupo próprio. Houvesse hoje eleições, e Wilders (o «i» soa como ê) seria o chefe do quarto partido político, se não do terceiro, do país. Essa popularidade de Wilders vem-lhe, sobretudo, da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/z0332.jpg" title="z0332.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/z0332.jpg" alt="z0332.jpg" /></a></p>
<p><strong><em>*</em></strong></p>
<p><strong><em>Geert Wilders</em></strong>, fixem esse nome. Vão ouvir falar mais dele. Quem é?</p>
<p>É um deputado holandês que há dois anos foi expulso do Partido Liberal, e hoje preside no Parlamento a um grupo próprio. Houvesse hoje eleições, e Wilders (o «i» soa como <strong>ê</strong>) seria o chefe do quarto partido político, se não do terceiro, do país. Essa popularidade de Wilders vem-lhe, sobretudo, da frontal oposição ao Islão.</p>
<p>Estamos na Holanda, país que, em matéria de liberdade de expressão, não recebe lições. Vivem nele meio milhão de islamitas, mas Wilders tem a plena liberdade de exprimir-se. Não como eu, ou como o meu vizinho. Não, ele é, depois da Rainha, o cidadão mais protegido no país.</p>
<p>Até aqui tudo bem.</p>
<p>Mas Wilders quer mais. Quer contar ao Mundo inteiro a desfaçatez e o perigo que é o Islão, e isso sob a forma dum filme, <em>Fitna</em>, que ele espera ver passado na TV. Por ele, simples questão de dias. Simplesmente, até ao momento, nenhum canal holandês se prontificou. Wilders afirma que nada no filme viola a lei holandesa, o que é de admitir, já que é das mais permissivas do Planeta. Caso a TV recuse, sobra-lhe a vasta Internet.</p>
<p>Na opinião pública, ninguém acredita que Geert Wilders faça tudo isso só para proteger-nos do Islão. Pode fazê-lo, lá num recesso do seu íntimo. Mas o fito dele é o Poder. O que é absolutamente legítimo. Simplesmente, de momento, e de confessável, só os seus anseios apostólicos.</p>
<p>Entretanto, os holandeses que vivem e trabalham em países muçulmanos &#8211; cooperantes, pessoal médico, professores, pequenos empresários &#8211; começam a ficar preocupados, e não só um bocadinho. Um qualquer deles, não o vigiadíssimo Wilders, poderia ser a próxima vítima. A próxima, depois do cineasta Theo van Gogh, nas ruas de Amsterdão.</p>
<p>Muitas vozes se erguem na Holanda, a começar pelo primeiro-ministro, rogando a Wilders que não use a grande liberdade que aqui se vive para pôr em perigo vidas de compatriotas, aqui, ou Mundo afora. Mas Wilders repete sempre o mesmo: que nada fará de ilegal.</p>
<p>Pode ser. Mas, sabendo-se o que do Islão ele tem dito, no Parlamento e fora dele, é altamente provável que o filme vá ferir convicções, e sentimentos, de muitos. E seria ingénuo pensar que Wilders não percebe que isso é uma provocação aos mais débeis e fanáticos entre esses muitos.</p>
<p>Nas numerosas, diárias «Cartas ao Director» sobre o tema, em todos os jornais do país, uma fez-me particular impressão. Perguntava uma senhora se era exagerado medo, o seu, de achar-se um dia, por um estúpido acaso, no local em que Wilders fosse alvo dum atentado. Essa senhora incarnava, pode inferir-se, qualquer cidadão holandês. Nem ela nem eu temos a mínima vontade de virmos, um dia, a ser condecorados em condições um nadinha esquisitas.</p>
<p>Resta-nos, pois, por entre as bênçãos à liberdade de expressão, rezarmos um poucochinho. Por Wilders, também, claro. Mas esse sempre tem os seus guarda-costas.</p>
<p>*</p>
<p><strong><em>Actualização</em></strong> [6 de Março]</p>
<p>Geert Wilders anunciou que vai mostrar o filme, em finais de Março, na sala de imprensa do Parlamento. </p>
<p>Entretanto, esta manhã, a polícia holandesa entrou na segunda mais alta fase de alerta. Significa uma «chance real» de haver um atentado terrorista em solo holandês. (A primeira é para <em>depois</em> do atentado).</p>
<p>Alarmismo? Medo? Quem falou em tal? Mas ninguém acha sumamente interessante ir pelos ares aos bocadinhos, só porque lhe calhou viver num país que &#8211; de tão tolerante &#8211; não desarma o braço a um louco.</p>
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		<title>Fora do sítio</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Mar 2008 13:31:30 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
. 
Às seis e meia da tarde de domingo, vi Clara Pinto Correia actuando na pista de «Dança Comigo», da RTP. Senti dó. Horas depois, já quase meia-noite, vi Rosa Lobato de Faria na série «Aqui não há quem viva», da SIC. Voltei a sentir dó. De bailarina, Clara não tem nada. De actriz, Rosa nada tem.
Clara [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/729265.jpg" title="729265.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/729265.jpg" alt="729265.jpg" /></a><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/clarapintocorreia.jpg" title="clarapintocorreia.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/clarapintocorreia.jpg" alt="clarapintocorreia.jpg" /></a></p>
<p>. </p>
<p>Às seis e meia da tarde de domingo, vi <strong><em>Clara Pinto Correia </em></strong>actuando na pista de «Dança Comigo», da RTP. Senti dó. Horas depois, já quase meia-noite, vi <strong><em>Rosa Lobato de Faria</em></strong> na série «Aqui não há quem viva», da SIC. Voltei a sentir dó. De bailarina, Clara não tem nada. De actriz, Rosa nada tem.</p>
<p>Clara escreveu, em 1985, um dos nossos grandes romances das últimas décadas, <strong>Adeus Princesa</strong>. Rosa, também ela, escreveu, em 1996, um dos nossos grandes romances das últimas décadas, <strong>Os pássaros de seda</strong>. Uma e outra escreveram muito mais, e conseguiram, aqui e ali, encher-nos de novo as medidas.</p>
<p>Posso ser eu o esquisito. E sei que os biscates das senhoras não são da minha conta. Mas preferia não vê-las assim.</p>
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		<title>Um infindável Sporting-Benfica na minha vida</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Mar 2008 11:28:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fmv</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
*
Esta confissão tinha que sair um dia. Sim, foi uma pulhice, essa minha, foi uma gratuita safadeza, foi uma criancice em todos os sentidos.
Teria eu sete, no máximo oito anos. E era um sábado. Seria pedir muito que fosse, como hoje, também dia de &#8216;derby&#8217; (vejam-me esta linguagem), tanto mais que, então, raramente se jogava fora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/193839su3.jpg" title="193839su3.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/193839su3.jpg" alt="193839su3.jpg" /></a></p>
<p>*</p>
<p>Esta confissão tinha que sair um dia. Sim, foi uma pulhice, essa minha, foi uma gratuita safadeza, foi uma criancice em todos os sentidos.</p>
<p>Teria eu sete, no máximo oito anos. E era um sábado. Seria pedir muito que fosse, como hoje, também dia de &#8216;derby&#8217; (vejam-me esta linguagem), tanto mais que, então, raramente se jogava fora do domingo. Ao sábado, trabalhava-se.</p>
<p>Terá sido, pois, um fim de tarde de sábado, esse em que a minha mãe regressou a casa com um enorme embrulho. Nós éramos pobres, sem sermos miseráveis (isto passa-se na Rua Pedro Dias, em Lisboa, «ali às Cortes», como dizíamos), e um embrulho assim não era visão comum. A minha mãe trazia um retalho para um casaco de inverno. Isso já ela andava anunciando havia meses. Seria um retalho de &#8216;papa&#8217;, já o sabíamos, quentinho, para aqueles invernos bons de antigamente.</p>
<p>Aberto o embrulho, ali em cima da cama dos meus pais, vem o meu espanto, vem a minha fúria. O retalho era verde. Verde. Dum verde leve, quase alegre. Poderia eu perdoar aquilo à minha mãe?</p>
<p>Eu era &#8211; e aqui começa a confissão &#8211; era do Benfica. Não pelo Benfica, que não me interessava nem um niquinhas, mas pela razão mais simples e devastadora: o meu pai era (e, para felicidade nossa, é ainda) um sportinguista. Eu era um Édipo em calções.</p>
<p>A partir daqui, estou filmando um miúdo de sete, oito anos no máximo, nuns calções efectivamente muito curtos, que sai do quarto, vai desencantar algures uma tesoura, das grandes, das de costurar, e que volta ao quarto, agarra no tecido e faz nele um valente rasgão. Ouço, e gravo, gritos, duma mãe, duma maninha mais nova, dumas tias, dumas vagas primas. Volto a ver, e a filmar, correrias, desvairos.</p>
<p>A fita de gravação salta, a película de filme solta-se. Dias depois, o rasgão há-de ficar resolvido, elegantemente camuflado como bolso.</p>
<p>Mas a vergonha, essa que ninguém jamais conseguiu filmar, perscrutar sequer, continua a projectar-se. No escuro, no vazio. Até hoje.</p>
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		<title>Saramago passou-se?</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Feb 2008 21:26:52 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
Foto sacada aqui.
José Saramago apoia abertamente José Luis Zapatero. Normal? Inesperado?
Leia A discreta viagem rumo à outra margem de José Saramago.
Com vénia para aqui.
P.S. O autor deste «post» acha que até está muito bem. Que tudo vale para travar Rajoy &#38; Aznar. Mesmo uma conversão de Saramago conjunta à Cientologia, à Opus Dei e à Igreja do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/jose_saramago_esposa_pilar_.jpg" title="jose_saramago_esposa_pilar_.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/jose_saramago_esposa_pilar_.jpg" alt="jose_saramago_esposa_pilar_.jpg" /></a></p>
<p><em>Foto sacada </em><a target="_blank" href="http://www.janantoon.be/WP/?cat=10"><em>aqui</em></a><em>.</em></p>
<p>José Saramago apoia abertamente José Luis Zapatero. Normal? Inesperado?</p>
<p>Leia <a target="_blank" href="http://www.rebelion.org/noticia.php?id=63790"><em><strong>A discreta viagem rumo à outra margem de José Saramago</strong></em></a>.</p>
<p>Com vénia para <a target="_blank" href="http://www.agal-gz.org/foros/viewtopic.php?t=222">aqui</a>.</p>
<p>P.S. O autor deste «post» acha que até está muito bem. Que tudo vale para travar Rajoy &amp; Aznar. Mesmo uma conversão de Saramago conjunta à Cientologia, à Opus Dei e à Igreja do Maná. Mas confessa que, até hoje, acreditara naquela velha, rabugenta firmeza.  </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Carta a Marina por causa do galego &#8211; 6 (e última)</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Feb 2008 09:35:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fmv</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://aspirinab.com/fernando-venancio/carta-a-marina-por-causa-do-galego-6-e-ultima/</guid>
		<description><![CDATA[Cara Marina,
Disse-lhe eu, na última carta, que muito nos restava a fazer, tanto na Galiza como em Portugal. Esta é a parte menos festiva da minha carta. Começo por nós.
Aqui no país, entre os linguistas, o interesse pelo galego como idioma anda a roçar o zero absoluto. Nos últimos trinta anos, nenhum autor português produziu qualquer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cara Marina,</p>
<p>Disse-lhe eu, na última carta, que muito nos restava a fazer, tanto na Galiza como em Portugal. Esta é a parte menos festiva da minha carta. Começo por nós.</p>
<p>Aqui no país, entre os linguistas, o interesse pelo galego como idioma anda a roçar o zero absoluto. Nos últimos trinta anos, nenhum autor português produziu qualquer obra de divulgação, ou sequer um artigo, sobre a situação do galego na actualidade. E o único estudo comparativo sobre português e galego actuais é, ainda, o de Maria Helena Mira Mateus, sobre fonologia, de 1984. Quanto ao idioma, é tudo.</p>
<p>Acerca das concepções vigentes em Portugal sobre a problemática do galego, há mais alguma coisa. Temos um opúsculo de Ivo Castro, <em>Galegos e Mouros</em>, de 2002, e um de Clarinda de Azevedo Maia, <span style="font-size: 12pt; font-family: 'Times New Roman'" lang="PT"><em>O galego visto pelos filólogos e linguistas portugueses</em></span><span style="font-size: 12pt; font-family: 'Times New Roman'" lang="PT">, do mesmo ano.</span></p>
<p>Sobre a Galiza e sua relação com Portugal, existem a importante obra do antropólogo António Medeiros, <em>Rio de memórias e de esquecimentos. Nacionalismos e antropologias na Galiza e em Portugal</em>, de 2002, e uma tese de mestrado de José Paulo Raposo de Sousa, <em>Discurso literário e identidade nacional – O caso de Portugal e da Galiza</em>, de 1999.</p>
<p>Dos estudiosos portugueses, os únicos que algum dia afirmaram a identidade de galego e português foram Manuel Rodrigues Lapa († 1989) e Luís Lindley Cintra († 1991). Os outros linguistas, até hoje, sempre consideraram que português e galego – a partir de 1400, o mais tardar – se tornaram idiomas diferentes. Como demonstração, aduzem, contudo, diferenças que, mesmo forçando, mal dariam para identificar ‘dialectos’. Sejamos sucintos: o tema nunca os interessou nem um bocadinho.</p>
<p><span id="more-2806"></span>*</p>
<p>Pode crer: nos últimos 40 anos, nunca a própria <em>proximidade linguística</em> entre Portugal e a Galiza foi, entre nós, tema de qualquer tipo de debate, e nada faz prever que tão cedo o seja. Não existe, a respeito da língua da Galiza, a mais ténue tomada de posição institucional (Ministérios, Universidades, Academia). Saliente-se, só, um facto, mais largamente cultural, com algum significado: o de o único ‘Centro Português’ do Instituto Camões em território espanhol se encontrar em Vigo.</p>
<p>Há, portanto, ainda tudo a fazer em matéria de sensibilização da opinião pública portuguesa. Eu não começaria pelas questões de <em>contiguidade</em>, menos ainda da <em>identidade linguística</em> entre Portugal e Galiza. Isso está muitas pontes lá para diante, e seria, de momento, contraprodutivo. Deveria começar-se pela simples e básica <em>proximidade cultural</em>. De modo a que a Galiza fizesse parte dum interesse e, em seguida, dum imaginário português. É sobre isso que podem construir-se, depois, as contiguidades e o mais.</p>
<p>Entretanto, na Galiza…</p>
<p>O panorama não é entusiasmante. O galego perde falantes em todo o espectro social e etário, perde (ou não consegue ganhar) visibilidade na vida diária, não é tomado a sério por um governo autónomo que deveria fazer dele idioma normal, e por fim nacional, da Galiza. (Este ‘nacional’, lembro-o ao leitor português, não implica, como entre nós, independência, e sim uma forma avançada de soberania).</p>
<p>Deste recuo do idioma dão culpa os reintregracionistas aos ‘isolatas’, por imporem um tipo de galego em órbita espanhola, com detrimento do carácter internacional do idioma. E dão culpa os autonomistas aos ‘reintregratas’, por sabotarem a recuperação do galego com exigências irrealistas, cuja implementação concreta se recusam a esclarecer. Andam nisto há quase trinta anos.</p>
<p>Para um observador, é absolutamente nítido que toda a imensa questão gira em redor desta essencial pergunta: <strong>é o galego, sim ou não, a mesma língua que o português</strong>. Isto não tem, em si, nada de transcendente. Mundo afora, mesmo na Europa, esta pergunta vale para inúmeros pares de idiomas. Simplesmente, quando o caso é nosso, as coisas doem mais, doem a sério.</p>
<p>Sobre este tema centralíssimo nunca foi realizado na Galiza um só simpósio, mesmo um só dia de discussão. Sobre ele não existe um livro, um ensaio, um único artigo. Nada, nada de nada. Estamos, aqui, no terreno do inefável, da mais pura fé.</p>
<p>E, contudo, há, do lado autonomista, quem, admitindo publicamente a identidade linguística, mas conferindo peso à opção <em>política</em> de não reconhecê-lo, pressione o interior do <em>establishment</em> rumo a posições mais matizadas. E há, do lado reintegracionista, quem, afirmando publicamente a identidade linguística, não desista da possibilidade de, com as actuais regras do jogo, forçar uma ruptura.</p>
<p>Estas duas inteligentes formas de rebeldia não são, há-de concordar, nem de longe as mais frequentes. O que mais encontramos é gente barricada em posições estanques a qualquer dúvida, a qualquer matização, a qualquer abordagem racional. E assim se manterão, não duvide, pelos trinta anos que aí vêm, para maior desmoralização e desmotivação dos utentes do idioma.</p>
<p>Esta conversa de surdos frusta qualquer entendimento. Decerto já reparou &#8211; vou dar um exemplo banal - que, em todos os grupos de discussão, em todas as caixas de comentários de interessantes artigos culturais ou sociais, tudo descarrila sistematicamente para discussões linguísticas, e destas para polémicas personalizadas. Eu, que acompanho isto há uns bons anos, não descortino qualquer avanço, menos ainda um fim à coisa.</p>
<p>Ora, no meio desta incomensurável e já longeva polémica, há um facto de estarrecer. E é que, até hoje, nunca nenhum reintegracionista forneceu (ou arranjou quem lha fornecesse) a <em>demonstração</em> de que sim, de que <em>português e galego são a mesma língua. </em>De igual modo, jamais autonomista algum forneceu (ou arranjou quem lha fornecesse) a demonstração de que não, de que <em>português e galego não são o mesmo idioma</em>. Digamos que, na Galiza, se vive sobretudo de fé e de desconfiança na gramática. E que se prefere arrastar uma história de ódios e suspeições, de heróis e de mártires, a exigir um mínimo de racionalidade.</p>
<p>Poderei eu ser um espírito assim para o simples. Mas quer-me parecer que estes trinta longos anos de desgastante conflito linguístico teriam sido poupados aos galegos, caso alguém tivesse lançado, um dia, este repto público, ao qual exigisse resposta nítida e sem reservas mentais: <strong>Demonstra-me tu que galego e português são (ou não são) a mesma língua, e eu acatarei, e defenderei, o que demonstrares.</strong> Ainda se está a tempo de lançar o repto. Mas, enquanto ele não for lançado, e aceite, do que se fizer demonstração é de sobranceria e de insegurança. </p>
<p>Claro: não esquecemos, nisto, que a decisão do que é uma ‘língua’, ou uma ‘língua diferente’, é quase sempre uma decisão <em>política</em>, e mais exactamente nacionalista. E sabemos que os linguistas preferem raciocinar em termos de <em>variedades</em>, não de línguas ou de dialectos. Isto dá um espaço imenso aos cínicos, sempre alerta para os humanos condicionamentos. Mas <strong>as afirmações estruturais são possíveis</strong>. Isto, porque os próprios linguistas tratam variações e registos no interior duma língua diferentemente de interferências e ‘code switches’ entre línguas.</p>
<p>Dito isto, importa não subavaliar a tarefa aqui proposta. Uma vez decidida a questão da <em>língua</em>, ficará ainda outra, e também nada simples: a da <em>norma</em>. O grande exercício de demonstração, qualquer que seja o resultado, terá posto a crua luz as coincidências e as descoincidências estruturais de galego e português, e essas terão que ser <em>sempre</em> respeitadas. Já vê: isto não são questões para deixar em mãos simplistas e fanáticas.</p>
<p>Quem sabe, Marina, um dia destes chegam-nos novidades da Galiza. Sejam elas quais forem, Portugal há-de saber-se sempre visado. E então poderemos começar, finalmente, a falar uns com os outros.</p>
<p>Fique bem.</p>
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		<title>Kosovo &amp; alii. Pátria ou demagogia?</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/fernando-venancio/contra-intuitivo/</link>
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		<pubDate>Sat, 23 Feb 2008 14:37:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fmv</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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*
Leio José Pacheco Pereira hoje, no Público:
«A maioria da opinião pública e de muita da comunicação social (aqui o PÚBLICO é excepção) permanece indiferente à política externa portuguesa quanto ao Kosovo. O mesmo se poderá dizer da indiferença com que o PS e o PSD tratam esta questão, ainda por cima numa zona onde há [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/iberian_peninsula.png" title="iberian_peninsula.png"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/iberian_peninsula.png" alt="iberian_peninsula.png" /></a></p>
<p>*</p>
<p>Leio <strong><em>José Pacheco Pereira</em></strong> hoje, no <em>Público</em>:</p>
<p>«A maioria da opinião pública e de muita da comunicação social (aqui o PÚBLICO é excepção) permanece indiferente à política externa portuguesa quanto ao Kosovo. O mesmo se poderá dizer da indiferença com que o PS e o PSD tratam esta questão, ainda por cima numa zona onde há tropas portuguesas que foram para lá baseadas num mandato que afirmava que o Kosovo era parte da Sérvia&#8230; Quem é que quer saber disso para alguma coisa? Agora o que eu queria saber é que pressão está a fazer o directório europeu, França, Alemanha, Reino Unido, para que países como Portugal reconheçam o Kosovo? Porque estão de certeza a fazê-la e eu estou longe de considerar que o reconhecimento do Kosovo corresponda aos nossos interesses nacionais. Por muito que isso pareça contra-intuitivo em relação à nossa história, não é do interesse nacional qualquer coisa que ajude à fragmentação da Espanha.»</p>
<p>E releio:</p>
<p><strong>Por muito que isso pareça contra-intuitivo em relação à nossa história, não é do interesse nacional qualquer coisa que ajude à fragmentação da Espanha.</strong></p>
<p>Não sei se concordo. Não sei se discordo. O meu entendimento bloqueia aqui.</p>
<p>E, no entanto, eu queria que Portugal existisse, se ainda não o houvesse. E posso crer que Pacheco Pereira, ele próprio, também. Mas não sei. Não sei onde acaba a Pátria e começa a demagogia.</p>
<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/ev3726_s2000252122812.jpg" title="ev3726_s2000252122812.jpg"></a></p>
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		<title>Carta a Marina por causa do galego &#8211; 5</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/fernando-venancio/carta-a-marina-por-causa-do-galego-5/</link>
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		<pubDate>Sat, 23 Feb 2008 09:40:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fmv</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[Cara Marina,
Escreveu você, na mensagem que, haverá duas semanas, me inspirou esta série: «Fico lixada com essa cena de intregracionismo». E ajuntava: «O galego de Castelao, do Rivas, da Rosalia, é lindo, esquisito, rural, e não quero que seja portunhol». Eu intervim no seu texto, esclarecendo – para o leitor português – que ‘esquisito’ devia ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cara Marina,</p>
<p>Escreveu você, na mensagem que, haverá duas semanas, me inspirou esta série: <strong>«Fico lixada com essa cena de intregracionismo»</strong>. E ajuntava: <strong>«O galego de Castelao, do Rivas, da Rosalia, é lindo, esquisito, rural, e não quero que seja portunhol»</strong>. Eu intervim no seu texto, esclarecendo – para o leitor português – que ‘esquisito’ devia ser entendido como ‘refinado’.</p>
<p>Antes de prosseguir a conversa, importará explicar àquele português e meio que nos venha lendo que «cena» é essa do «intregracionismo». Serei breve.</p>
<p>Existe um movimento intelectual galego que aspira a ver o idioma da Galiza reconhecido como pertencendo ao âmbito do que actualmente se conhece por <em>português</em>. Um âmbito que, lembram, já foi o seu. Por isso se denominam <strong><em>reintegracionistas</em></strong>. Trata-se, atenção, dum movimento <em>linguístico</em> e, mais amplamente, cultural – não duma opção política. O reintegracionista galego não se envergonha de ser espanhol, menos ainda o esconde. Vinca sim – e não é pouco – que existe uma parte da Espanha que, escapando culturalmente ao projecto geral espanhol, deve participar, com naturalidade, num projecto doutro âmbito, aquele em que se inserem Portugal e outros países de fala portuguesa.</p>
<p>Neste movimento reintegracionista, damos com um agrupamento de razoável porte e diversificada actuação, a <em>Associaçom Galega da Língua</em> (AGAL), e com bastantes outros, aderentes ou não a ela, com um mais especializado programa. Na sua expressão escrita, utilizam, em maioria, a norma do galego desenvolvida pela Agal (a chamada Norma Agal) construída sobre o padrão português, este em que escrevo, enquanto outros adoptaram o padrão português puro e simples.</p>
<p><span id="more-2797"></span>*</p>
<p>Mas as margens do Reintegracionismo são fluidas, muito fluidas. A ideia de ser o galego, através do português, um <em>idioma internacional </em>é partilhada por muitos outros galegos. Para eles, a escrita do galego à portuguesa, ou forma próxima, é uma opção defensável, até mesmo um objectivo, mas de modo nenhum uma urgência. Entre eles encontra-se gente com a visibilidade do antigo eurodeputado Camilo Nogueira, da deputada Pilar García Negro, do linguista Ramón Freixeiro Mato, dos escritores Manuel Rivas e Xavier Alcalá, um galego, este, ‘por adopção’. Eles publicam no padrão escrito de galego concebido sobre uma ortografia espanhola.</p>
<p>Você sabe, Marina, que a ortografia dum idioma, sendo uma bandeira, é também uma camuflagem. O galego escrito à espanhola é dificilmente distinguível como <em>língua diferente</em>. O mesmo valeria, de resto, para o português. A reconfiguração castelhana a que os nossos antepassados o submeteram foi camuflada por um sistema ortográfico divergente. Nós somos, uns mais outros menos, mas todos um pouco, uns fetichistas da ortografia. Nisso não há mal. O problema surge quando, com o balde da ortografia, se deita fora o bebé do idioma.</p>
<p>Grafado em espanhol, ou em cirílico ou em ideográfico, o galego será, sempre e ainda, <em>a nossa língua.</em> O galego poderá grafar-se, pois, em feição portuguesa (aliás, largamente incongruente, não raro caótica, mas sempre muito ‘etimológica’…) e continuar a ser ainda perfeito galego: no léxico, na morfologia, na fraseologia, no mundo de referências que as palavras carregam e acordam. O problema começa quando, em alguns reintegracionistas, é <em>toda</em> a expressão que tende para o português, que a ele se acomoda, ao ponto de ser bem mais ‘português’ do que o brasileiro o é. Alguns, mais irresponsáveis, ou mais fanáticos, propõem  <em>isso</em> como norma de língua a adoptar na Galiza. Sob o nome de <em>português</em>. Nisso são coerentes.</p>
<p>Essa deriva lusófila é a própria caricatura do projecto reintegracionista. Já não é um esforço de aproximação entre galego e português. É um exercício de poder, perfilamento pessoal, tentativa de comando da tribo. Entretanto, toda a riqueza lexical e fraseológica galega é remetida, displicentemente, ao ‘rural’, ao ‘recunchinho’, ao que eles, num virtuosismo pateta, chamam &#8216;as falas galegas&#8217;. Não admira que outros galegos conscientes (é o seu caso) desenvolvam uma aversão a <em><strong>esse</strong></em> reintegracionismo.</p>
<p>Quando falo em ‘rural’, Marina, viso-a igualmente a si. Também você tem do galego uma concepção que, parecendo envolvê-lo em carinhos, acabará por asfixiá-lo, por fazer dele um idioma de gentes simples, meio poéticas meio ignorantes, mas de idade elevada, e portanto, a breve trecho, bastante silenciosas. Mas &#8211; vê &#8211; não está sozinha. Os seus aliados objectivos é que são bastante inesperados.</p>
<p>Para desqualificarem o galego, valem-se, esses senhoritos aí, do português Manuel Rodrigues Lapa (excelente medievalista, magnífico pedagogo, mas não decerto um historiador da língua), que, em 1973, escrevia ser <strong>«o português literário actual a forma que teria o galego se o não tivessem desviado do caminho próprio»</strong>.</p>
<p>É uma afirmação datadíssima. Está hoje desenvolvido, passados 35 anos, um modelo culto de galego, e o português não foi alheio à sua criação. Mestre Lapa nunca teria dito aquilo se tivesse lido Méndez Ferrín ou o Portal Vieiros. Mas é, também, e como já lhe mostrei, uma afirmação rotundamente errada. Quem cedo se desviou do caminho, quem se afastou da matriz galega, foram os portugueses, castelhanizando – espectacularmente, alegremente – o seu idioma. Só bem mais tarde, e não de livre vontade, senão sob tremenda pressão política, os galegos iniciaram o desvio deles.</p>
<p>Parece, pois, claro: é a <strong><em>atitude</em></strong> dos próprios galegos frente ao galego (uma atitude estimuladora, ou paralisante, ou achincalhante) que será decisiva. Ninguém pode forçar-vos a nada. Mas, suceda o que suceder, isso atinge-nos. Porque o vosso é o nosso idioma.</p>
<p>Há ainda muito em que empenhar-nos, muita coisa a fazer, em Portugal e na Galiza. Sobre isso, Marina, lhe falarei em breve, na minha, talvez, última carta.</p>
<p>Fique bem.</p>
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		<title>Dominadores do dia</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Feb 2008 13:09:41 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[
Falo com os meus alunos da cadeira de «Línguas Regionais Europeias» na crescente pressão do inglês. Conto-lhes que, tal como na Holanda, também na tv portuguesa a seguradora Zurich, como tantas outras firmas, publicita em inglês. Because change happenz. 
Lembro-lhes que um meu sucessor, falando a futuros colegas deles, naquela mesma sala de aula, talvez o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/img_1303.jpg" title="img_1303.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/img_1303.jpg" alt="img_1303.jpg" /></a></p>
<p>Falo com os meus alunos da cadeira de «Línguas Regionais Europeias» na crescente pressão do inglês. Conto-lhes que, tal como na Holanda, também na tv portuguesa a seguradora Zurich, como tantas outras firmas, publicita em inglês. <em>Because change happen<strong>z</strong>. </em></p>
<p>Lembro-lhes que um meu sucessor, falando a futuros colegas deles, naquela mesma sala de aula, talvez o faça em inglês. Uma tragédia? Não necessariamente. O que a nós hoje parece inconcebível pode ser amanhã óbvio. E recordo-lhes que, nesta mesma universidade, há muito, muito tempo, eu estaria a dar-lhes esta aula (ou uma parecida) em latim. E que, tempos depois, era o francês a dominar, aqui e em muita parte, a ciência e o seu ensino.</p>
<p>E falei-lhes duma fachada, pertinho da faculdade, em que se lê <strong>’T Makelaers Comptoir</strong>, «O Escritório de Imobiliário». Alguns, mais ágeis de espírito, ligaram «comptoir» ao actual neerlandês «kantoor» (escritório). Expliquei que «comptoir» era a mesa onde se contava dinheiro. Um aluno ou outro até sabia que o francês «comptoir» derivava do latim «computator».</p>
<p>E, assim, pude expor uma genealogia do latim <strong>computator</strong> para o francês <strong>comptoir</strong>, para o inglês <strong>counter</strong>. E, segunda genealogia, directamente do latim para o inglês <strong>computer</strong>, para o… neerlandês <strong>computer</strong>.</p>
<p>O inglês – lembrei-lho &#8211; não é senão o actual dominador, depois de o francês e o latim o terem também sido. Isto pode não tornar as coisas menos graves, ou sérias, mas torna-as menos dramáticas. Também o predomínio do inglês terá, um dia, o seu fim. Não é provável que eu venha a saber qual o novo amo. Estes processos são lentos, e o inglês ainda está para lavar e durar.</p>
<p>Mas, quem sabe, um dos meus juvenis estudantes pode, num longínquo dia, ter de dar ali uma aula em… Não, eu desisto de adivinhar.</p>
<p>Só sei, com um arrepio, que, quando, em começos do século XVIII, um reservado grémio votou, numa cidade dos futuros Estados Unidos da América, sobre qual – inglês ou alemão – seria o idioma da nação vindoura, e o inglês ganhou, foi por  <em>um</em> voto de diferença.</p>
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		<title>Quando ensinar (e gostar) é suspeito</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Feb 2008 08:48:09 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Isto não entra pelos olhos? Pois não, não entra. Daí que possa ajudar ouvi-lo dito por gente com tino. Por exemplo, Luís Campos e Cunha, hoje no Público. Destaque meu.
«É preciso acabar com a autogestão das escolas. A reforma das escolas vem sempre de fora para dentro. Meter na gestão da escola representantes das autarquias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Isto não entra pelos olhos? Pois não, não entra. Daí que possa ajudar ouvi-lo dito por gente com tino. Por exemplo, <strong><em>Luís Campos e Cunha</em></strong>, hoje no <strong>Público</strong>. Destaque meu.</p>
<p>«É preciso acabar com a autogestão das escolas. A reforma das escolas vem sempre de fora para dentro. Meter na gestão da escola representantes das autarquias e dos pais é certamente uma ideia correcta. Vai nesse sentido o ministério e bem. Iria mesmo mais longe, os professores deveriam participar mas, eventualmente, sem direito a voto nalgumas matérias.</p>
<p>«Mais ainda e muito bem, o ministério defende a existência de um director. É fundamental que as instituições tenham uma cara e não um conselho, em que ninguém é verdadeiramente responsável.</p>
<p>«Com aquelas medidas acabava-se com as balelas propaladas pelos cursos de &#8220;ciências da educação&#8221; da gestão &#8220;democrática&#8221; das escolas e da avaliação contínua. São tudo conceitos em contradição com a ideia de Escola, <strong>em que quem sabe ensina e quem não sabe deve aprender</strong>. E na Escola, professores e alunos devem aprender de tudo, incluindo aprender a decidir, aprender a protestar e aprender a ser responsabilizado.»</p>
<p>Pois. Mas é tão incorrecto defendê-lo, não é? E não haverá maneira de torcer por uma vez o pescoço a essa gente para quem <em>ter coisas para ensinar </em>(e, escândalo, gostar também de fazê-lo) é imensamente suspeito?</p>
<p>Esta coisa parece certa: a máfia «pedagógica» &#8211; tão surpreendentemente autoritária, e tão supreendentemente elitista &#8211; que antigamente dominava o Ministério, e se ramificou pelas escolas, resiste ainda.</p>
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		<title>Alô, Porto!</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Feb 2008 09:52:53 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[
Este já não é o «post» número 2500, nem o 2501, mas o 2502 do Aspirina. Pois é, aqui trabalha-se.
Só não se sabe é por onde andam o João Pedro da Costa e o Jorge Carvalheira. Eu até gosto do Porto e da sua trabalhadeira gente. Mas a sinceridade obriga-me a confessar que começo a descrer um nadinha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/porto-3597135.jpg" title="porto-3597135.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/porto-3597135.jpg" alt="porto-3597135.jpg" /></a></p>
<p>Este já não é o «post» número 2500, nem o 2501, mas o <strong>2502</strong> do Aspirina. Pois é, aqui trabalha-se.</p>
<p>Só não se sabe é por onde andam o <strong><em>João Pedro da Costa</em></strong> e o <strong><em>Jorge Carvalheira</em></strong>. Eu até gosto do Porto e da sua trabalhadeira gente. Mas a sinceridade obriga-me a confessar que começo a descrer um nadinha de tal fama.</p>
<p>Fica uma pergunta, talvez ingénua, pairando. E é esta: ainda não há, aí no Majestic, internet assim no ar?</p>
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		<title>Cavaleiros inexistentes</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Feb 2008 09:21:40 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[
Morreu Alain Robbe-Grillet. Oitenta e seis anos. Eu sabia-o velho, mas não tanto. Parei com ele no tempo, com La Jalousie, com Les Gommes, com La Maison de Rendez-vous. No primeiro, faltava o protagonista. No segundo, o clímax da história tinha sido &#8216;apagado&#8217; (mas sentia-se que ele tinha acontecido). No terceiro, faltava o próprio lugar de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aspirinab.com/ficheiros/alainheadphones.jpg" title="alainheadphones.jpg"><img src="http://aspirinab.com/ficheiros/alainheadphones.jpg" alt="alainheadphones.jpg" /></a></p>
<p>Morreu <strong><em>Alain Robbe-Grillet</em></strong>. Oitenta e seis anos. Eu sabia-o velho, mas não tanto. Parei com ele no tempo, com <strong>La Jalousie</strong>, com <strong>Les Gommes</strong>, com <strong>La Maison de Rendez-vous</strong>. No primeiro, faltava o protagonista. No segundo, o clímax da história tinha sido &#8216;apagado&#8217; (mas sentia-se que ele tinha acontecido). No terceiro, faltava o próprio lugar de acção (que seria Hong-Kong, não fosse o autor ignorar totalmente como é Hong-Kong, nem isso lhe interessar minimamente).</p>
<p>Tudo <em>ausências</em>, que o magnífico mestre geria com um virtuosismo que nos fascinava. Ele criava-nos dentro <em>cavaleiros inexistentes</em>, como nos chamou Italo Calvino, outro virtuoso pós-modernista.</p>
<p>Um e outro tentaram convencer-nos de que a &#8216;ausência&#8217;, a página em branco, era uma essência do &#8216;homem moderno&#8217;. E a gente acreditava. Não via, mas acreditava. E era por essa demissão da atitude crítica que, afinal, lhes dávamos razão. Inexistentes. Mesmo quando cavaleiros.</p>
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		<title>Carta a Marina por causa do galego &#8211; 4</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Feb 2008 12:30:30 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[Cara Marina,
Há uma teoria da conspiração que diz andar o Estado Espanhol empenhado numa castelhanização do galego para afastá-lo do português. Para simplificarem (as teorias da conspiração simplificam o mais que podem), os conspirativos apresentam a própria vontade dos galegos de conservarem quanto os distingue do português como um conluio com o inimigo. Em desespero [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cara Marina,</p>
<p>Há uma teoria da conspiração que diz andar o Estado Espanhol empenhado numa <strong><em>castelhanização</em></strong> do galego para afastá-lo do português. Para simplificarem (as teorias da conspiração simplificam o mais que podem), os conspirativos apresentam a própria vontade dos galegos de conservarem quanto os distingue do português como um conluio com o inimigo. Em desespero de causa (e as teorias da conspiração são sempre propostas desesperadas), os conspirativos decretam que tudo quanto distingue o galego do português é… espanhol.</p>
<p>O mais espantoso é que os conspirativos, não tendo a razão inteira, têm alguma  – no que eles não reparam, já que as teorias da conspiração não permitem gerir meias verdades. E a meia verdade está em que o Estado Espanhol, que considera o castelhano, o catalão, o basco e o galego como <em><strong>lenguas españolas</strong></em> (assim lhes chama a Constituição), ao ver-se obrigado a constatar que «galego» e «português» são dois simples nomes para a mesma língua (embora correspondendo a <strong>normas</strong> diferentes e parcialmente irredutíveis), o Estado Espanhol, dizia eu, acaba metido numa grande alhada. Como explicar ao Mundo que algo «español» afinal não o é?</p>
<p><span id="more-2777"></span>*</p>
<p>A questão é que o Estado Espanhol não sabe linguística. (Como o Estado Português também, mas vamos tratar um problema de cada vez). E não só não sabe linguística, como não leva a sério os seus próprios linguistas. E os linguistas espanhóis, pelo menos os mais inteligentes, sempre consideraram o mesmo idioma o português e o galego. Dou-lhe dois exemplos, de muito diferente natureza e de diferentes tempos.</p>
<p>O melhor estudo algum dia feito sobre os «portuguesismos» no espanhol é o de Gregorio Salvador, que já data de 1967, mas que continua actualizado, uma vez que não serão muitos os portuguesismos recentes, se algum houver. Pois bem, é com toda a naturalidade que o autor afirma não esforçar-se por distinguir a exacta origem dos vocábulos: se provenientes de Portugal ou da Galiza.</p>
<p>Mais esclarecedor ainda é o segundo caso, o do Dicionário da Real Academia Espanhola, que se pode consultar <em>online</em> actualizado até ontem. Aí a mistura de «port.» e «gal.» como proveniências de vocábulos espanhóis é completa.</p>
<p>Dou-lhe alguns exemplos dos dois conjuntos.</p>
<p>O mais bonito é <strong>aindamáis</strong>. É puro galego, puro português. Compare-se-o com os autóctones «aún más» e vê-se a diferença. Em termos ‘gramaticais’ é quase o único, só havendo a juntar <strong>alguien</strong>, que veio de «alguién», que veio do nosso «alguém/alguén». Os verbos também não são muitos. O espanhol tomou de nós <strong>despejar</strong>, <strong>afeitar</strong>, <strong>enfadar </strong>e <strong>virar</strong>. Curioso é o hoje frequentíssimo <strong>echar de menos</strong>, que deriva (por algum descaminho) de certo «achar de menos», entre nós já antiquado na acepção de «sentir a falta». Se alguma coisa abunda, são os termos marítimos (<strong>carabela</strong>, <strong>jangada</strong>, <strong>marejada</strong>, <strong>marullo</strong>, <strong>monzón</strong>, <strong>vigía</strong>, <strong>pleamar</strong>), os piscatórios (<strong>almeja</strong>, <strong>cachalote</strong>, <strong>cardume</strong>, <strong>mejillón</strong>, <strong>ostra</strong>, <strong>vieira</strong>) e os de doçaria (<strong>caramelo</strong>, <strong>filló</strong>, <strong>mermelada</strong>).</p>
<p>É de caras que, podendo a doçaria e alguma coisa marinha ter ido aqui deste nosso lado, a grande maioria dos termos marinhos, e possivelmente todos os piscatórios, chegaram à Meseta vindos da Galiza. Mas nem o Dicionário da RAE nem Salvador se põem a distinguir.</p>
<p>[E antes que se pense que os «castelhanismos» do português e os «lusismos» do espanhol valem ela por ela, lembro que os «lusismos» não contém um só adjectivo, que os substantivos abstractos são residuais (<strong>saudade</strong>, <strong>trapaza</strong>), enquanto eles, nos «castelhanismos», se contam, uns e outros, às centenas. Nós somos bons marítimos, temos uma doçaria de chorar por mais, os galegos são em mariscaria os melhores do mundo. Mas o interesse acaba aí.]</p>
<p>O mais espectacular exemplo de como – não obstante as implicações <strong><em>políticas</em></strong> acima expostas – galego e português são indistinguíveis quando apreciados do castelhano, o exemplo mais espectacular, dizia eu, é este.</p>
<p>Na entrada <strong>ratiño</strong> do Dicionário da RAE, lê-se: <strong>«(Del port. <em>ratinho</em>, ratoncito) m. Apodo con que se motejaba a los habitantes de comarcas que limitan con Galicia»</strong>. Ora, sendo <strong>ratiño</strong> perfeito galego, propor a proveniência <em>portuguesa</em> do termo é absolutamente inaudito. É que, ao exprimir-se assim, o DRAE afirma, das duas uma:</p>
<p>a) ou que eram os portugueses a referirem-se assim aos seus compatriotas da raia com a Galiza, e neste caso o DRAE inclui um vocábulo <em>português</em> que, por visar a Galiza, considera do âmbito do espanhol,</p>
<p>b) ou – e mais provavelmente – que foram os galegos a tomarem um vocábulo português para se referirem aos seus vizinhos espanhóis, e neste caso o DRAE invoca, implícita mas eloquentemente, a unidade de galego e português.</p>
<p>Razão, muita razão, tinha Manuel Fraga Iribarne quando, no Porto, ou em Maputo, ou no Rio de Janeiro, dizia sempre, na sua autêntica pronúncia galega, esta frase de nós todos: <strong>«É perfeitamente claro que nós falamos a mesma língua»</strong>. Mas compreende-se: Fraga, parecendo um agente do imperialismo espanhol, era na verdade – tal como hoje o Dicionário espanhol oficial &#8211; um subvertor encapuçado da unidade de Espanha.</p>
<p>A conclusão não é minha. Mas é a que deveriam tirar os inefáveis teóricos da conspiração.</p>
<p>Fique bem, Marina. Obrigado pela sua última mensagem, e até um dia destes.</p>
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		<title>Carta a Marina por causa do galego &#8211; 3</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Feb 2008 12:44:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fmv</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Venâncio]]></category>

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		<description><![CDATA[Cara Marina,
Falando-lhe, outro dia, no nosso assalto aos fartos celeiros do vocabulário espanhol (bom, nosso assalto, não exactamente, mas o dos nossos antepassados dos séculos XV a XVII), eu prometi-lhe alguns exemplos. Aqui vão eles agora. Não darei muitos. É que, sabe, os portugueses são um tanto ou quanto nacionalistas. E algum deles que lesse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cara Marina,</p>
<p>Falando-lhe, outro dia, no nosso assalto aos fartos celeiros do vocabulário espanhol (bom, nosso assalto, não exactamente, mas o dos nossos antepassados dos séculos XV a XVII), eu prometi-lhe alguns exemplos. Aqui vão eles agora. Não darei muitos. É que, sabe, os portugueses são um tanto ou quanto nacionalistas. E algum deles que lesse isto poderia ficar chocado.</p>
<p>Sim, acredite: os portugueses sentem-se tremendamente sozinhos no mundo, o que equivale a crerem-se imensamente originais. Se um dia descobrissem que um terço do seu idioma lhes chegou da Meseta, e que muito dos outros dois terços veio inteirinho da velha Galécia, dava-lhes um xilique. E eu não quero carregar isso na consciência.</p>
<p>Mas deixe-me, primeiramente, explicar-lhe uma coisa. Ou duas. Primeiro, para lembrar-lhe que os castelhanismos de outrora são hoje nossos, tão nossos que já não deixaríamos que no-los tirassem. Eles tornaram-se, desculpe o palavrão, «patrimoniais». Sim, subiríamos às barricadas para conservarmos o <strong>fiambre</strong>, e a <strong>botija</strong>, e a <strong>mochila</strong>, e a <strong>colcha</strong>, e o <strong>salpicão.</strong> E também <strong>moreno</strong>, e <strong>castiço</strong>, e <strong>zonzo</strong>, e até <strong>gandulo</strong>, até <strong>chulo</strong>, até <strong>velhaco</strong>. E assim muitos centos de outros.</p>
<p>Segundo, para assegurar-lhe que não há motivos para sentir-nos, hoje, culpados do que os nossos antepassados andaram fizendo ao idioma. Claro, era mais bonito se tivessem sido mais criativos. Poderiam ter primeiro pensado se não tínhamos já um termo aproveitável. Indo, se necessário, procurar saber como diziam os galegos. Mas os tempos eram outros, as viagens longas, e um estado independente, está a ver, não ia rebaixar-se a… você já entendeu. Não, os nossos avós só tinham ouvidos para as sereias castelhanas.</p>
<p><span id="more-2769"></span>*</p>
<p>Hoje, em termos práticos, poderíamos evitar um ou outro castelhanismo mais despudorado, género <strong>mirones</strong>, <strong>mentideros</strong>, <strong>mano a mano</strong> (que, ainda por cima, entendemos mal, julgando ter a ver com «irmãos»), ou mesmo coisas tipo <strong>rechaçar</strong>, <strong>olvidar</strong>, <strong>mesclar</strong>, <strong>impactar</strong>. Mas, pelo resto, não podemos andar sempre a pisar ovos, pois não? O que nem sequer seria fácil, já que o nosso conhecimento do espanhol nunca foi famoso. Sabe você que, com oito séculos a vivermos paredes-meias, não possuímos ainda um, um único, bom dicionário de Espanhol? Vai agora, dentro de muito pouco, sair um que tudo indica seja mesmo muito bom. Já não era sem tempo. Mas isso mostra que nunca nós tomámos o espanhol verdadeiramente a sério. Sentimo-lo sempre como coisa nossa, comum. Vai-se ali e saca-se. O nosso Nobel é disso flagrante exemplo.</p>
<p>E antes que me passe. Muitos dos nossos castelhanismos «cultos» parecem mesmo terem sido por nós tirados ao latim. Se for ver ao pormenor, perceberá que quem os tirou de lá foram os da Meseta. Não lho vou demonstrar aqui (outra oportunidade se oferecerá). Só lhe digo que são poucos, pouquíssimos, os nossos latinismos ainda hoje em uso e formados nessa época (1450-1700)  e que o castelhano não possua também, nem nos tenham chegado pelo francês ou pelo italiano, nem, claro, tenhamos trazido da nossa fase galega e só então hajam sido assinalados. Portanto, nossos, nossos a perder de vista. Pois bem, segure-se: entre 1500 e 1600, só contei 8 deles. Oito latinismos exclusivos nossos. Digamos que algum me tenha escapado, e que são 15. Pronto. Mesmo assim é uma vergonha.</p>
<p>Mas desculpe, divaguei. Os exemplos de castelhanismos, então. Vou limitar-me a três casos claríssimos, e que só são excepcionais porque a palavra central nunca foi portuguesa.</p>
<p>Você sabe que, no nosso comum idioma, <strong>aire</strong> se diz ‘ar’, <strong>lumbre</strong> se diz ‘lume’, <strong>sangre</strong> se diz ‘sangue’. Pode, então, supor de onde nos chegaram palavras como <strong>airoso</strong>, <strong>airosamente</strong>, <strong>desaire</strong>, <strong>desairoso</strong>. Ou como <strong>vislumbre</strong>, <strong>vislumbrar</strong>, <strong>deslumbre</strong>, <strong>deslumbrar</strong>, <strong>deslumbrante</strong>, <strong>deslumbramento</strong>. Ou como <strong>sangrar</strong>, <strong>sangria</strong>, <strong>sangrento</strong>. São, todos eles, termos fortes, expressivos, garbosos, de grande musicalidade. Todos copiadinhos de onde você bem sabe.</p>
<p>Isto faz-me lembrar, não sei porquê, o tema da nossa conversa: o galego. Talvez porque o castelhano torne – e torna &#8211; mais evidentes certas questões nossas. E uma delas é, mesmo, a mais central de todas: <em>a intimíssima relação de português e galego</em>. Tão íntima que os espanhóis, pelo menos os mais simpáticos (e inteligentes), não nos distinguem pelo idioma. Disto lhe falarei outro dia.</p>
<p>Só um apontamento de ordem mais política. Falar, em Portugal, da nossa relação privilegiada com a Galiza exige certos cuidados. A malta desconfia destas coisas como o caraças. Passa um fulano por suspeito, por andar a sugerir que se redesenhe o mapa da Península.</p>
<p>Para complicar as coisas, há uns tipos desvairados, tanto em Portugal como na Galiza, que sonham com uma união política de cima a baixo, uma tira de terra a que, com imensa inventividade, chamam já <strong>Portugaliza</strong>. Outros, mais discretos, propõem uma união da Galiza com o Norte de Portugal (para eles, «Galiza Sul»), o que daria moderníssima feição à <strong>Galécia</strong>. Vantagens? Seria sempre uma grande chapada no rosto de Madrid, dando a segunda fórmula também uma senhora bofetada a Lisboa. Está você a ver o tipo de amigos que um gajo arranja.</p>
<p>Quanto do futuro se enxerga, Marina, nem um nem outro desenho tem a mínima chance. Não se percebe porque é que os galegos, tendo um dia uma absoluta escolha do seu futuro, não optariam  pelo melhor de tudo: a independência pura e simples. Como não se percebe porque haveria Portugal de largar mão da sua própria independência, que tem no bolso há 850 longos anos e que, mal ou bem, deu uns tantos heróis e mártires.</p>
<p>Um destes dias, prosseguiremos.</p>
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