Archive for the 'Daniel de Sá' Category
Manuel sacudiu a água da mão, que caiu em gotas devolvidas à corrente que descia com um rumo certo, contornando cabeços e saltando penedos, até onde não se pudesse distinguir nenhuma origem de nenhuma água. Mas, mais abaixo, detinha-se um pouco na pequena largura de um poço onde as mulheres lavavam a roupa.
Das idosas, sempre [...]
Estas são algumas das memórias escritas pelo Dr. Jim Mello, pai do Nobel da Medicina Craig Mello. A minha tradução foi autorizada por ele, que também me autorizou a publicá-la onde quisesse. Nota curiosa: o avô do Dr. Jim Mello morou na rua onde eu nasci e resido, tendo sido nesta que nasceu o seu [...]
A arte pode fazer a fama, mas a fama não faz a arte.
Senhor,
Dá Deus o dom da fala a todos os homens, mas a alguns somente o da palavra. Porque também os tontos falam, pelo que não é à míngua de inteligência que há quem não fale; e falam os néscios, pelo que ao falar não faz falta o entendimento; e falam os brutos, pelo que ainda [...]
(E para o meu amigo Manuel Estrada e todos os que queiram fazê-la sua)
“Que horas seriam do dia?”
– Não era dia, eram trevas.
“Ainda há pouco o ouvia…”
– São as saudades que levas.
“Quantos mortos viste, quantos?”
– Não os vi, não os contei.
“Mas ainda se ouvem cantos?
– São prantos, o que escutei.
“Choram as metralhadoras
Pelos homens que mataram?”
– [...]
(Do livro Stories Gandma Never Told, de Sue Fagalde Lick, escritora americana de ascendência açoriana)
– Tradução de Daniel de Sá –
Rita da Silva não era a noiva que Frank Lewis desejara. Quando ele deixou o Faial a caminho dos Estados Unidos, prometeu a sua irmã Carolina que a chamaria logo que tivesse dinheiro suficiente. [...]
Naquele tempo não era nada disso que se vâ agora, que isso é tudo um putchedo, o que elas querem é gandaiar, elas é qu’andam atrás dos rapazes, qu’um home inté fica menente com tanta franquidão das raparigas, e as mães c’ma cegas, não vêem ou fingem que não vêem, não falta agora quem viva [...]
Minha Nega Fulô
Não bata não, sinhá,
Não bata não.
Nunca ninguém pegou minha mão
Por gostar,
Nunca ninguém, sinhá.
Papai morreu no negreiro.
Eu viajei segura dentro de mamãe,
Que morreu dez vezes na viagem
E a última na senzala quando nasci.
Nunca ninguém catou meu cafuné.
O sinhô abriu caminhos no meu corpo,
E nem pediu com licença nem por favor.
E eu não mando no [...]
Paris, aeroporto de Orly, 27 de Outubro de 1949. Completa a lotação do voo da Air France com destino a Nova York. Na grande cidade americana, a solidão de Edith Piaf, que sofre uma das suas depressões tão frequentes. E espera que, na manhã seguinte, Marcel Cerdan se vá juntar-lhe. Mas não há lugar no [...]
Se as casas vazias não se queixam, nem os gatos parecem estranhar muito ausências a que não estão acostumados, os cães ficam aparvalhados, andam como órfãos, vagueando à procura dos donos e de comida.
O pastor estava no seu almoço de pão e presunto quando viu o Duque. O animal andava vagarosamente. Parou a uns dez [...]
O cantar as “velhas” é uma preciosidade da cultura popular terceirense. Trata-se de um género de cantigas ao desafio, tradição herdada talvez das trovadorescas cantigas de escárnio e mal-dizer. A brejeirice está sempre presente em cada “velha”, composta por dois tercetos e uma quadra. O seu nome deve-se ao facto de ser normalmente referida uma [...]
Durante alguns dias, a terra tremera com frequência. Uns pequenos soluços, uns ligeiros solavancos, mas nisto o que se imagina assusta mais do que a realidade. Bastava um gato passear-se no telhado, uma porta mover-se com um sopro de vento, e logo se gritava “ai Jesus!”, como se já fosse tremor ou terramoto, fim do [...]
Nota: Este poema não é meu! E, embora seja do Eduíno de Jesus, também não é dele! Tratou-se de uma brincadeira em que sou reincidente. Do seu livro “Os Silos do Silêncio” catei um verso aqui, outro acolá, e, juntando-os, dei-lhes a aparência de um poema novo. Portanto, todos os versos são do Eduíno, a [...]
Perdemos a ginjinha do Rossio
E as bolas-de-berlim ao sol de Agosto.
Os pés hão-de deixar de fazer mosto
E o medronho de dar combate ao frio.
A varina, coitada, está sem pio.
A fruta unificada não tem gosto.
O jornal das castanhas foi deposto,
Mas Portugal ganhou o desafio.
Não temos quem nos ponha em risco a vida.
E se nos pesa muito [...]
Somos de pura raça lusitana,
Herdeiros de um incerto Viriato,
De um bastardo que foi prior do Crato,
Dos que foram além da Taprobana.
Vendemos lã para comprarmos “lana”,
(“Caprina”, que é negócio mais barato.)
E já produz mais fumo o nosso mato
Do que oxigénio a nossa mata emana.
Povo de heróis, de artistas e de santos,
(Líamos assim… sábios, outros tantos…),
Em seus [...]
O rapazinho chorava. O agente da PSP que estava de serviço àquela escola de Rabo de Peixe perguntou-lhe a razão do choro, e ele respondeu: “Minha mãe não teve dinheiro para comprar velas.”
Uns anos antes, o pai fora acusado de maus tratos à mulher e aos filhos. Entretanto, deixara de beber e arranjara emprego. [...]
FIVE O’CLOCK TEAR
Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos parados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p’ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora
Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a [...]
Poema de Natal
Quando Tu nasceste
que assombrosas e lindas e impossíveis coisas de acontecer aconteceram…
em Agosto ou Dezembro o certo é que nevou
e uma estrela se fez bordão de magos.
Até os anjos do céu sujaram as sandálias
nos currais de Belém.
Emanuel Félix
Houve grande alvoroço entre as estrelas quando se soube que uma delas guiaria os Magos até Belém. A que se julgou com mais direito a essa glória foi a imensa Betelgeuse, tão grande que, se deixasse a constelação de Orion e viesse aos tombos por aí abaixo, poderia esmagar ao mesmo tempo o Sol, Mercúrio, [...]
(A Eduardo Nery)
Nota: A história de “A Cruz nas Montanhas” (1807/08) é verdadeira.
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Não era habitual um católico visitar a oficina de pintura de Caspar Friedrich. Mas o padre Olaf Berger era seu amigo de infância. Deteve-se longamente a observar um quadro com moldura de talha dourada à maneira de altar. Uma rocha nua, [...]

