Arquivo da Categoria: Valupi

Sexo em grupo — Participa e convida a família

Portugal é um país sexualmente doente, como qualquer sociedade de herança cultural católica tem de o ser. É um país onde os pais se demitem da educação sexual dos filhos, onde a Escola não sabe o que ensinar no âmbito da sexualidade, onde a enorme maioria de homens e mulheres consente em sexo desprotegido com estranhos, onde a prostituição é um hábito arreigado de Norte a Sul e tanto para os pobretanas como para os ricalhaços, um país onde a mulher é alvo de violência familiar logo desde a infância, continuando a ser violentada na adolescência e depois em adulta, seja sexual, emocional, afectiva, intelectual, social, económica, profissional, política ou fisicamente. Precisamos de nos curar. E pessoas como a Patrícia Pascoal vão ajudar. E tu, não a queres ajudar?

Pero te vas a arrepentir

Encontrar paralelismos entre Benazir Bhutto e Sergio Gómez não é para qualquer um. Aposto que sou o único, dos 6 mil milhões de cérebros humanos em aparente actividade, a alcançar tal feito. E é altamente provável que venha a ser, em simultâneo, o primeiro e o último. Mas acontece terem sido os dois assassinados em Dezembro. E acontece terem vivido os dois do espectáculo e das multidões, ela na política e ele na música. E aconteceu-lhes terem sido avisados de que podiam ser assassinados se fossem a certos locais, locais esses onde eles foram. É só aqui que a coisa se torna interessante, separando-se as águas para deixar passar a inteligência a caminho da verdade prometida. A reacção normal é lamentar a morte destas pessoas, cuja inocência se institui no contraste com o crime de que foram vítimas, deixando as emoções estragarem a oportunidade de aprender. Mas de reacções normais, e de emoções, está a violência cheia. Para os assassinos, houve uma sequência normal de decisões que concretizaram a intenção de os destruir. Para os que estejam interessados em diminuir ou anular os crimes (sempre pouca gente, muito pouca), é necessário desenvolver reacções anormais. Uma delas consiste em olhar para o lado. Desviar os olhos dos efeitos, da hipnose. E constatar: Sergio foi apenas um de 2.500 episódios anuais de execuções ligadas ao narcotráfico, no México; a chegada de Benazir ao Paquistão já tinha dado azo a um ataque bombista onde morreram mais de 140 pessoas, não havendo qualquer forma de evitar outro eventual, e por todos antecipado, massacre.

Eles sabiam ao que iam. E foram. E se num caso só se perdeu um estúpido, no outro uma estúpida fez perder muitos, e muito. A estupidez é a causa primeira de todas as violências.

Leituras para 2008

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Em 2008 quero que todos os portugueses, maiores de 12 anos (a idade da razão, como é do conhecimento geral), adquiram este livro supra anunciado e o enviem para o político que consideram mais competente. Nos casos em que o político favorito seja o Cristiano Ronaldo, o Ricardo Araújo Pereira ou algum participante nos Morangos Com Açúcar (e contando a partir da primeira série), não se inquietem. Peçam ao papá o nome do político que ele mais detesta e mandem à confiança. À mamã não vale a pena perguntar porque ela não percebe nada de política, nem quer perceber, e ainda fica irritada com o assunto. Cuidado: se o papá indicar Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira, repitam a operação as vezes necessárias até se cansar e mudar de resposta.

Livros de economia não são de digestão fácil para um português. O português típico pensa com a barriga, só alinha em filosofias da ginginha (a fruta da época) ou anda preocupado com o que se passa no seu romance de cabeceira. Assim, não irá ler este livro. Mas dava-nos um jeitaço do caralho que os nossos políticos e empresários o lessem. Porque aumentaria a probabilidade de ficarem mais inteligentes ou, nalguns casos, quase inteligentes. A tese é relativa ao funcionamento dos mercados e às teorias económicas que sempre ambicionaram explicá-los nos fundamentos e desenvolvimentos. Os autores dizem o óbvio para quem pertence ao século XXI, que nenhuma teoria se aguenta nas canetas que a criaram. A realidade é, invariavelmente, mais complexa e imprevisível do que as suas reduções abstractas. Coisa tramada para quem depende do acerto das previsões para acumular riqueza ou não a perder. Que falha, uma e outra vez? A natureza humana. O comportamento dos indivíduos supera as capacidades analíticas dos modelos de lógica mecânica. É necessária uma outra matemática, já não da quantidade, do resultado, mas da qualidade, da tendência.

E pensemos — o que é a economia? É a sobrevivência. Vem antes do sexo, continua depois dele e aumenta as possibilidades da sua ocorrência, para o próprio e para a prole. A economia é tudo o que se relaciona com a obtenção de comida, abrigo, roupa, saúde, educação, segurança, transportes, divertimento. Ou seja, tudo o que molda o sentido da vida, pois claro. Claro. E claro que uma nova visão da economia se relaciona com uma nova visão antropológica, um olhar mais apurado do que seja o humano nisso de o descobrir vário, errante e súbito. Quando a própria ciência económica, que tem vivido agarrada à matemática como um macaquinho às costas da mãe, aceita a incerteza como operador, há lições que se podem transportar para as relações pessoais. Podemos deixar de ver os outros mecanicamente, como temos feito na neurose comum, e aceitá-los imprevisíveis. Tal como nós nos sabemos, nem que seja sonhados. Como nós nos queremos, mesmo que ainda não o saibamos ou já o tenhamos esquecido.

Sim, é isso. A economia é o governo da casa.

Garoto sem disciplina

O nosso amigo Rui Vasco Neto brindou-nos com um garboso texto a embrulhar uma justíssima reflexão. Oportunidade para um itálico que nos honra. A sua escrita tem aqui um lugar de abundância, humor e atenção ao que mais importa.

Garoto sem disciplina é um sério candidato ao disparate. Não se lhes pode dar corda a mais nem corda a menos, o velho princípio do sabonete, se apertamos de menos ele cai, se apertamos de mais ele salta-nos da mão. É por isso que a educação é uma tarefa tão complicada, contrariando a sabedoria popular que diz que tudo se cria, de uma maneira ou de outra.

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Assassinos do Sócrates Atacam a Eito (ASAE)

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Ler o que o povo escreve nos jornais é redentor. Salva-nos de eventuais ilusões relativas ao poder da racionalidade. No Público de hoje, alguém escolheu para as Cartas ao Director uma que ataca a acção da ASAE repetindo clichés paranóicos, e que termina assim:

Na Serra de Monchique uma brigada da ASAE sentou-se à mesa de um pequeno comerciante local, bebeu do seu medronho caseiro e depois multou-o. Dias depois o homem suicidou-se.

Que gente é esta?

As reacções à actividade da ASAE são a anedótica ilustração do nível de civismo e literacia da País. Os que temem ficar privados desta ou daquela iguaria tradicional são os mesmos que passaram décadas a lamentarem-se por não haver qualquer espécie de regulação do comércio alimentar. Todavia, perante a imbecilidade dos protestos, conclui-se que estavam era satisfeitos com as frequentes intoxicações alimentares, tranquilos com a ingestão das mais desvairadas substâncias cancerígenas, serenos face à possibilidade de serem cúmplices de ilegalidades lesivas do Estado, da saúde pública e dos direitos dos consumidores. Enfim, estavam de pança cheia com o regabofe.

Ver publicistas de nomeada a alinharem nisto é a chouriça no cimo do cozido. Ou melhor, é o caldo onde se coze a irresponsabilidade política. Porque não se deveria ter de justificar, fosse a quem fosse, a actividade da ASAE. Eles chegam com 30 anos de atraso. O que importa discutir são os critérios da regulação, pois sim, mas só após a primeira fase de controlo, no fim de um biénio de exigente fiscalização. Então, deixando a própria entidade reflectir sobre os seus erros e excessos, haveria condições para se respeitar os interesses da comunidade, desde os produtores aos consumidores, passando pelos comerciantes. Se os cidadãos quiserem, não faltam institutos jurídicos e organizações capazes de regular e aperfeiçoar a conduta do Estado.

Quem tem medo da política?

O melhor blogue do mundo é apenas um dos 18 melhores em Portugal

O concurso Melhor Blog Português de 2007 merece a nossa atenção. Ao Fernando acelerou-lhe a veia ditirâmbica, esta causando no Daniel uma bizarra troca de identidades (chamar Yazalde a um Purovic), e a mim suscita-me uma declaração de voto: o melhor blogue do mundo é o Abrupto. À opinião já com mais de 1 ano, acrescento uma evidência: caso o Abrupto acabasse, a blogosfera portuguesa não ficaria a mesma. Quais são os outros blogues a poder reclamar tal efeito?

A maior parte das opiniões negativas que JPP desperta são inanes ou enjoativas imbecilidades, espasmos miméticos e primários. O inevitável prémio da sua popularidade. Uma salutar excepção veio do Paulo Querido, esfregando números nas barbas do Pacheco. Eu também me irrito com a sua inépcia em ser oposição, pois nele há (há?…) condições para alimentar a inteligência da direita-centro-esquerda, a tal zona onde se ganha o Parlamento. Mas o historiador ainda não percebeu a filosofia socrática, tendo apostado no cavalo errado da denúncia da suposta malignidade mui maligna do suposto engenheiro. Também não é claro que tenha ideias para vender ao público com visão, coisa bem diferente de ser escrevinhador na Visão* ou no Público. Adiante, pois nada disto compromete o apreço — na verdade, pasmada admiração — pelo constante trabalho de criação de comunidade que no Abrupto se faz; e como em mais nenhum lugar se vê sequer parecido. Basta referir que a participação dos leitores recebe o cuidado editorial de JPP, tanto para textos como para fotografias, naquilo que é gratuito serviço público. E basta lembrar a sua regular teorização, de cariz sociológica, do estado da blogosfera portuguesa. Como o homem é uma das maiores figuras do circo opinativo, o Abrupto foi, e continua a ser, uma das mais notáveis bandeiras deste nosso meio. Registe-se, igualmente, a alegria com que explora as funcionalidades tecnológicas e conceptuais dos blogues, respeitando-se a audiência no cuidado posto na animação e renovação dos conteúdos. O gosto pela ciência, e suas aplicações quotidianas e lúdicas, o sentimento de paixão pelo mistério cósmico, explicam mais das suas opções do que a dimensão ideológica. Por fim, a perseverança. Num meio dado a tanta efemeridade, tanto ataque narcísico que aniquila ou multiplica blogues, é de aplaudir a manutenção da entidade, e respectiva identidade, Abrupto.

É, pois, grotesco ver o Abrupto em 18º lugar na categoria Melhores Blogs Portugueses em 2007. E é absolutamente lunática a 10ª posição na categoria Política & Sociedade, atrás do Aspirina B (!!). Que quer isso dizer? Que todos os concursos são exercícios de resultado irrelevante. Num sistema por voto popular, há sempre uns maluquinhos que desequilibram a amostra em favor das suas preferências, repetindo votos e arregimentando votantes. E num sistema com júri, é a lotaria das idiossincrasias reunidas a tomar decisões arbitrárias. No caso deste concurso, os dois sistemas foram utilizados. Tudo explicado.

Espero, porém, que a iniciativa perdure. Pois permite descobertas. E o talento nunca é demais. Como o Abrupto prova à saciedade.

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* Como avisa o Fernando, JPP escreve na Sábado. Pormenor que não consegue molestar o meu notável trocadilho.

Cavaco, quero que tenhas mais cuidado com o que dizes

Cavaco disse que a actual presidência europeia, concluída por Portugal neste Dezembro, tinha sido um indiscutível sucesso. Tendo sido eleito em Janeiro de 2006 para súbdito do Presidente Cavaco Silva, é ponto de honra cumprir esse mandato o melhor que possa. Assim, tenho a obrigação de ajudar o meu Presidente — neste caso, rogando-lhe que pense antes de falar. Afinal, que coisa estrambólica é essa do indiscutível sucesso?

Quanto a indiscutível, não há qualquer discussão: estamos todos de acordo em não discutir o que é indiscutível. Mas quem de nós saberá, mesmo que no modo tímido-inefável de Santo Agostinho, o que seja o sucesso? Os romanos, claro, que consta terem sido especialistas em latim. Na sua engenharia linguística, empurraram o prefixo suc para junto do pospositivo cessus, criando mais uma ponte para o pensamento: successus. Tradução: o que acontece\cessus\cede, move-se a seguir\suc\próximo, depois. Em português corrente: sucesso é aquilo que acontece depois de alguma outra coisa, com ele relacionada pelo vector movimento, ter acontecido. Explicitando: há um acontecimento que, no seu desenvolvimento, gera outro acontecimento. É o que fica claro no conceito de sucessor: sucede como sucessor aquele que estiver relacionado, de alguma forma particular ou circunstancial, com o sucedido.

Ora, iluminados pela lição etimológica, descodificação telepática do pensamento profundo do orador, e crentes na intencionalidade política do Presidente, que raio quis o homem dizer? Isto: que não devemos discutir o facto de Portugal ter exercido a presidência da União Europeia no ano de 2007. E se bem o disse, melhor o cumpriu, nada acrescentando que permita atribuir-lhe opinião ou, tão-só, dizer-se que foi visto a passar perto de uma. E não custa compreender o porquê deste apelo ao silêncio: o Governo alcançou uma extraordinária vitória, deu corpo ao que se entende por excelência. Chega até a ser incomodativo nada haver a apontar como falhanço nesta presidência. Tal como perturba, ao ponto de causar enjoo, contemplar a logística diplomática e organizativa necessária para realizar todas as complexas tarefas na agenda. É um feito político nunca visto em Portugal desde há séculos, uma prova de virtude, de virilidade. E que, ao arrepio da mensagem do Presidente, devia abrir imediato espaço de questionamento: se isto foi possível, que mais poderemos fazer por Portugal, fazer uns pelo outros, aqui e agora, no presente para o futuro e apoiados no vitorioso passado?

Na visita à Guarda, neste Novembro, Cavaco foi interpelado por um popular que lhe pedia soluções para a crise económica e social na região. Às rádios, o Presidente daquele português confessou não saber o que lhe dizer. Ou melhor, não ter nada para lhe dizer. Dias depois (26 de Novembro), Santana, na TSF, louvava o passeio à Guarda e maldizia o investimento do Governo em estradas no e para o Interior. Terminava a rábula, o biltre que estaria a aplaudir as mesmíssimas estradas fossem elas obra do PSD ou sua, ligando novas vias em regiões desfavorecidas com decadência nacional. E, na sua voz de quem quer cagar e não consegue, anunciava revolta a sério.

Estou disposto a deixar passar a vergonha de não ter sabido o que dizer ao meu patrício, com a condição de se arrepender, mas não admito que o meu Presidente deixe em silêncio uma declaração asquerosa como a de Santana — ameaçando, cobardemente, a democracia com revoltas de difuso contorno. Porque um Presidente não tem de governar, nem de interferir na governação. Governar é amoral, cínico, calculista. Ao Presidente exige-se, antes, que seja um probo, um sage e um bravo. E isso obriga a dar açoites aos meninos-pantomineiros.

Portanto, Cavaco, tem cuidado com o que dizes. Mas tem mais cuidado com o que não dizes.

Metrónomos

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Hoje, dia da assinatura do Tratado de Lisboa, a rede do Metro está aberta ao povo. Oportunidade para me recordar de uma das várias ideias brilhantes que tenho desenvolvido para futura, mas inevitável, glória. Consistiria em passar música nos altifalantes das carruagens. De tão simples, é desesperante ainda ninguém se ter lembrado: o sistema já existe, só falta dar-lhe uso. E quais as vantagens? As óbvias dizem respeito ao estado anímico da população, o serviço de musicoterapia: o deprimido ganhando ânimo, o ansioso recuperando a calma, o paranóico esquecendo-se da perseguição, o bipolar encontrando um equador, o esquizóide finalmente em harmonia com a realidade onírica. Toda esta massa laboral chegaria ao emprego em condições de render o máximo ao serviço do patronato ou do público pagante de impostos. Notas para o Orçamento Geral do Estado, o PIB a cantarolar feliz.

Comigo à frente do Metropolitano de Lisboa, ou do Metro do Porto, esta genial ideia receberia um genial acrescento: cada carruagem teria um tipo de música diferente. Possibilidade de escolher a música consoante o biorritmo ou a panca de ocasião, mas também a socialização facilitada, cada outro ao nosso lado um pouco menos estranho; de interior sonoro, ou até canoro. Teríamos era, democraticamente, de referendar os géneros musicais e artistas a escutar, dada a limitação de unidades transportadoras. Qualquer utente com título de transporte válido, independentemente da sua estação de embarque ou destino, poderia votar a cada 4 meses (ou assim). Eu votaria para a existência das carruagens da Amália, da música folclórica alentejana e do Max. Depois, ganhando ou perdendo, o resultado seria sempre música para os meus ouvidos.

Com o tempo, correria mundo a lenda de uma cidade onde os seus habitantes dançavam debaixo do solo. Dançavam a caminho do emprego. Dançavam a caminho de casa. Dançavam porque iam daqui para ali. E, roído de curiosidade, pela primeira vez um deus desceria à terra só para andar de Metro.

Ai podes, podes

Podemos trocar de sofrimento? Se todos precisamos de mudar, nem que seja para acompanhar as alterações inerentes ao viver, ninguém o precisa mais do que as mulheres. A sociedade e a biologia constrangem as mulheres em modos que escapam à percepção masculina, nuns casos, e que favorecem o poderio do macho, noutros. Herança da animalidade, fase intermédia no processo de criação do humano, mas absurdo destrutivo a pedir urgente revolta. Diferenças salariais, maior desemprego, promoções profissionais dificultadas, afastamento do palco político, discrepâncias no conhecimento médico, ignorância das especificidades psicológicas femininas, redução à sexualidade consumista dos machos, violência doméstica, crimes passionais, eis algumas das ignomínias com as quais convivemos cúmplices ou entusiastas. E não vale a pena esperar pelos homens para modificar a situação, pois ela lhes é favorável; de resto, os homens são estúpidos, nada entendem do universo feminino. Terão de ser as parvas das mulheres, a partir do seu corpo e casa, a resgatar a Humanidade. A partir da sua justíssima e salvífica raiva – ou seja, da sua vontade; a única dimensão onde mulheres e homens são absolutamente iguais.

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Cincar

É uma daquelas coisas perfeitamente inúteis. Fotografia obsoleta na própria revelação. E testemunho estranho ao gosto dos outros, desasado, soporífero. Mas como veio da zazie, e é uma estreia para mim, alinho:

The Sun Shines Bright – John Ford

Chelovek S. Kino-apparatom – Dziga Vertov

Mr. Smith Goes to Washington – Frank Capra

La Dolce Vita – Federico Fellini

Recordações da Casa Amarela – João César Monteiro

Passo-o às seguintes individualidades, embora desconfie que estejam ocupadas demais para entrar na brincadeira:

Bass, Bernard, Eva, Archibald, Hitch

Que pena

140 anos de orgulho pátrio tiveram duas celebrações gloriosas: a moratória aprovada na ONU, em Novembro, e o Dia Europeu, aprovado agora. Dá-me ganas de ir celebrar para as ruas, marcar jantares com amigos, embebedar-me e fazer inflamados discursos. Porque a pena de morte é uma aberração ou, tão-somente, uma imbecilidade letal. Aliás, todas as imbecilidades matam, mesmo que não tão depressa.

Pois. Mas dá-se o caso de estar em Portugal. E como é que um português, que ama Portugal, pode expressar o seu entusiasmo pelo excelente e honroso trabalho de um grupo de compatriotas que volta a pôr a nossa memória, e a nossa identidade, no ponto mais alto da Civilização? Por uma equipa de futebol, enchem-se as cidades em festa e todos os políticos correm para a fotografia. Por estes marcos históricos, que dignificam as gerações passadas e as futuras, apenas palavritas de circunstância – ou um silêncio repleto de nojento desprezo.

Muitos nasceram em Portugal, vivem em Portugal e em Portugal se arrastam. Mas não são portugueses. Que pena.

Oposição à oposição

O Verão de 2004 foi o período mais triste da democracia portuguesa. Durão pirava-se do Governo e do País, deixando o seu nome pelo chão, Barroso. Manuela Ferreira era Leite azedo para o PSD, amargo que levou à doidivanas promoção de Santana flopes. A cassete de Carvalhas tinha a fita gasta. Portas fechavam-se no CDS à inteligência e à relevância. No PS, Ferro era dobrado e enfiado na Pia. Todos esperavam o regresso Vitorino do António, mas ele não tinha verga para salvar o navio. E Sampaio concordou com o naufrágio, oferecendo-nos o pior Governo pós-Invasões Francesas de que se conservam actas; o qual ainda conseguiu o miraculoso feito de ter durado 5 meses – mas não se sabe como, tantas eram as histórias inacreditáveis, difundidas pelo próprio círculo tribal de Santana, exultando com a pulsão estroina do pantomineiro. Nesse período, Sócrates assumiu o destino que há muito era evidente ser seu. Para nossa felicidade.

Antes, já tínhamos assistido a várias debandadas que confirmavam o diagnóstico: a Revolução dos Cravos continuava encravada. Sá Carneiro foi imolado não se sabe ainda hoje porquê. Com Soares, o Poder queria-se oligarca, hippiecrisia instalada, social-cinismo. O Bochechas era popular, era a bifana e o coirato, mas também a pataca Moderna, o tio da América, as amizades inflacionadas. A leste dos acontecimentos, o monolítico Eanes fazia renovações de 360 graus, tendo existido apenas para levar Anibal à 1ª maioria absoluta. E absoluto foi o deserto cultural e cívico do cavaquismo, o império dos patos bravos e dos bravos que nos comiam por patos. Cavaco permitiu que a máquina salazarista voltasse a funcionar em pleno, agora à custa de novos colonizados: nós, pela Europa. Depois, embuchado por não conseguir mastigar o cavaquistão, arrotou o partido. Queria um emprego com menos reuniões e colegas de melhor higiene ética, mas onde se continuasse a viajar pelo Mundo em grupos animados. Conseguiu-o após uma década de espera, deixando Guterres ser o bálsamo que a Nação esfregou, sôfrega e calada, nos cartões de crédito. Sete anos depois, apaixonadamente educados na arte de tudo gastar, o consumismo médio da classe baixa era alto demais – e o seu peso abriu um pântano na coragem do simpático engenheiro. Trocava-se de funâmbulo: saía um ordinário, entrava um mauista.

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