Arquivo da Categoria: Valupi

Em ordem a

Em ordem a esclarecer a legitimidade do uso da expressão em ordem a, volto a um assunto que recebeu de jlm um reparo e, depois, uma tomada de posição exemplarmente inteligente. A questão até oferece o picante da polémica erudita. Ora, dá-se a fortuna de privarmos com o Fernando Venâncio, entre outros eventuais companheiros de viagem com autoridade e gosto para expressarem o seu gosto com autoridade. Mal seria não colhermos tão abundante saber.

Sócrates no máximo da arrogância

O nosso primeiro-ministro é conhecido pelas manifestações de arrogância, e pouco mais. Isto, segundo as bem informadas, e melhor formadas, forças da oposição; entretanto comandadas pelo poeta Alegre, dado o tilt ocorrido nas chefias dos partidos à direita. Ora, a arrogância socrática parece ter atingido um novo máximo. Ao fazer frente a Jardim na lei do aborto, podemos afirmar, com razoável segurança, ter a arrogância do nosso Primeiro chegado à Madeira. Trata-se de uma torpe ingerência num território autónomo habituado a governar-se sozinho, coitadinho, sem outra ajuda para lá das centenas de milhões de euros enviadas todos os anos pelos desprezíveis cubanos. Os propósitos de Sócrates são óbvios: asfixiar a peculiar concepção de democracia do soba das bananas. Durante 30 anos, Jardim recolheu a conivência de todos os políticos que exerceram o Poder, sem espinhas. Com que direito o arrogante do Sócrates vem agora querer aplicar uma lei da República? Acaso a Madeira é algum Charrua onde o déspota do jogging imagina que pode pôr a mão?

Quem se sabe comportar é o PSD, mantendo-se caladinho. Para quê tomar uma posição, uma qualquer, quando está em causa continuar a garantir o feudo político e os negócios instalados? Afinal, há ou não há autonomia? É que se há, o pidesco Sócrates devia ficar-se pela economia, onde consta que anda a ter ganhos como ninguém acreditava ser possível. Ou ficar-se pelas reformas, contra a maralha instalada em décadas de privilégios e incompetências. Aí é que ele está bem, pois dá para mandar umas bocas de ocasião. Agora, ir afrontar a paradisíaca Madeira? E por causa da porcaria da aplicação de uma lei?! É preciso ser-se arrogante, entre outras coisas.

A parábola dos cachuchos

Se as pessoas que passam pelas salas de aula portuguesas chegassem ao fim dos 12 primeiros anos de escolaridade a saber quem é Sequeira Costa, a conhecer a sua importância para a cultura em Portugal, ainda, ou só então, haveria esperança para este antro de imbecis. Sim, Sequeira Costa é apenas um exemplo para dar conteúdo à provocação, poderia usar o nome de outros ilustres patrícios. Mas o facto é que 12 anos, ou mesmo 21, de estudos não garantem que se descubra a existência deste português por parte de cada português. Português que celebra em 2007 o cinquentenário da fundação do Concurso Vianna da Motta. A esse propósito, e de propósito por causa da realização da actual edição, o pianista esteve na manhã da Antena 2, na passada quinta-feira, onde contou a seguinte anedota:

Tendo ganho o Concurso de Piano de Paris, assim como outros certames internacionais, amealhou a, ao tempo, substancial maquia de trinta contos. Em 1953, essa verba daria para grandes e estouvados deboches consumistas. O que ocorreu ao nosso Costa, meu primo, foi uma ideia peregrina: criar um concurso de piano em Portugal que se tornasse uma referência internacional pela sua excelência. Para tal, foi falar com uma Sua Excelência, Leite Pinto, o Ministro da Educação. Levou a esposa para a audiência ministerial e apresentou a ideia. Entusiasticamente, e do alto do seu prestígio e juventude, realçou a pique as vantagens para a Nação em albergar tal iniciativa, prestando-se ele a entregar todo o dinheiro ganho até então de modo a financiar a iniciativa. O ministro ouviu atento e composto. Silêncio mais tarde, olha decidido para a estrela do teclado e diz-lhe: Ó homem, mas porque é que você não pega nesse dinheiro todo e compra antes uns cachuchos para a sua mulher?!…

Que me perdoem as vítimas da PIDE e da Guerra Colonial, mas este episódio é o mais fiel retrato do salazarismo que conheço. Se alguém ainda tiver dúvidas sobre o que deve ser a acção política futura, que faça a si mesmo a pergunta: qual dos dois protagonistas pertence ao escol da Pátria? A resposta transformará a anedota numa parábola.

Dias solarengos

Na TSF, um locutor (jornalista?) abriu o noticiário das 8 e 30 da manhã dizendo que este era um dia pouco solarengo. Depois fez umas referências obscuras à meteorologia, para concluir, já animado, que os próximos dias seriam mais solarengos. Como se trata da TSF, a notícia parece-me credível. Mesmo assim, não consegui evitar o rapto para uma funesta nostalgia. É que eu nunca tive um dia solarengo na vida. Nem um. E não acredito que venha a ter. Será, a essa luz, uma existência cinzenta.

Belo Encanto

Imitando o meu primo, atentai como este vídeo atenta contra a arte e a artista. Desde a completa ausência de ideias na realização aos movimentos de câmara enjoativos, passando pelo cenário pindérico. Esta peça é até uma justa homenagem à qualidade da equipa que criou e produziu o original, pois apresenta uma falha de sincronização. Mas que se lixe o vídeo. É a ária que importa. Esta precisa e preciosa ária. Uma das provas de que Deus existe, é siciliano e gosta de mulheres.

Angela Gheorghiu não é consensual. Há quem nos mande callar se a elogiarmos. Para mim, que sou bruto, podem vir as duas.

Curso rápido de leitura das entrevistas do Saramago

Há quem não se importe nada com o que Saramago disse, com o que Saramago pensa e com o que Saramago quer. Estes, aparentemente, também não se importam muito com o fim de Portugal como país, passando a província da Espanha. Dizem que Saramago não é iberista, apenas lúcido. Que Saramago fala da integração como quem diz que vai chover, mas sem ser uma inevitabilidade (??). E ainda acrescentam que leram a entrevista ao DN do passado domingo.

E nisso, no ter lido a entrevista, é que está o problema. Porque para quem não a leu, acreditar que Saramago é um vendido aos castelhanos é legítimo e recomenda-se. Estar-se-á centrado no essencial, sem se ter perdido tempo a ler o supérfluo. Porém, quem leu passa a ter um problema. E que não é pequeno. É um problema com 800 quilómetros de costa.

Saramago, na quase totalidade do que diz, argumenta a favor do fim de Portugal como Estado independente. A troco do quê? Do abstracto desenvolvimento. Mais não avança ou detalha, revela ou esclarece. O desenvolvimento é para ele um conceito auto-evidente, universal, e, se bem explicado, todos os portugueses o iriam desejar. Isto é, todos os portugueses iriam querer viver com o nível de vida dos catalães, promete Saramago. Ora, com isto fica patente que o nosso Nobel está a mentir, a delirar e a enterrar-se no valado do ridículo. Porque o designado desenvolvimento espanhol corresponde a uma situação que não é reproduzível no contexto português, com ou sem integração.

A montante e jusante da ciência económica, o nosso leitor de entrevistas de Saramago já desistiu há muito de Portugal, o qual constata estar pejado de portugueses. Este leitor não acredita na renovação do escol luso, preferindo substituí-lo por atacado pela elite madrilena. Contudo, a entrevista afirma que seriam ainda os portugueses a gerir Portugal, embora subservientes ao poder central ibérico. Esta contradição deixa o nosso leitor numa periclitante posição, arriscando o erro hermenêutico ou a ignomínia patriótica. O que me leva a oferecer este ensinamento: quando se lê uma entrevista de Saramago, lembremos-nos de que estamos perante um ex-português. Um ex-português que sonha com uma Espanha das Baleares aos Açores.

SIC Comédia

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As actuais direcções do PSD e do CDS são paupérrimas. Não espanta que tenham aproveitado o banho de inteligência dado pelo eleitorado minoritário que votou em Lisboa. E aproveitaram para mostrar que nada entendem do que se passa à sua volta. O fascinante está na possibilidade de tudo ainda ser capaz de piorar nestes desesperados e desesperantes partidos. Por exemplo, se a loucura colectiva levar à escolha de Luís Filipe Menezes para chefe, sendo ele um dos políticos com mais sucesso no stand-up comedy nacional, será o completo delírio no PSD. Adivinho um ciclo melodramático que alcançará o milagre de fazer Santana Lopes parecer minimamente competente.

Na entrevista dada ontem na SIC Notícias, Menezes apresentou-se com a excitação contida de quem se prepara para roubar caramelos em Badajoz. À sua frente estava Ana Lourenço, uma jornalista que parecia sob o efeito de alguma medicação debilitante, ou estar paralisada pela aurea mediocritas da figura, ou agindo as duas causas em reforço mútuo. Esta Ana foi protagonista, há dois anos, de um delicioso lapsus linguae (et pour cause…) que deverá ter feito disparar a sua popularidade junto de colegas e populares mais bem informados. E, para mim, essa memória foi a parte mais relevante da presença televisiva do comediante Filipe Menezes.

Coño

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A pessoa que escreveu um dos livros que mais me faz amar Portugal, os portugueses e a Língua — LEVANTADO DO CHÃO — é a mesma que despreza a nossa História, a nossa Alma, a nossa Liberdade. É desconcertante. E vexante.

Semanas atrás, um espanhol de 30 anos veio a Lisboa. Namora com uma portuguesa em Barcelona. Trabalha em comunicação, representando o que será um típico jovem adulto catalão, versão sofisticada e moderna. Pois bem (e sem surpresa), é ódio o que ele mostra ter por Madrid. Ouvindo-o, fica-se convencido que Espanha se vai desagregar dentro de minutos, talvez segundos. Mas mais, e bem mais importante: é possível adivinhar uma funda, embora calada, inveja da nossa independência. O mesmo sentem os galegos e os bascos, pelo menos, fazendo de Portugal a excepção ibérica que espanta as províncias subjugadas. É esse carácter excepcional da nossa identidade que Saramago quer anular. O que não admira, vindo de um cultor do internacional-socialismo, essoutra jangada que afogou tantos na tentativa de os reduzir a uma pasta informe e desvitalizada.

Reflexão no dia da dita e no fim do dito

Daqui a umas horas abrem as mesas de voto em Lisboa. A abstenção será a vencedora destas eleições, e creio que a culpa é da candidatura de Helena Roseta. Trata-se do maior fiasco dos últimos anos, pois muito se esperava da mulher. O que se viu é igual a zero. E o zero começou a fIcar redondo na recusa de coligação com o José Sá Fernandes. Curiosamente, o meu desejo de 11 de Maio não era assim tão alucinado, pois a Nogueira Pinto admitiu apoiar Roseta. Perdeu-se uma rara oportunidade para se renovar a democracia e promover a cidadania.

Acreditando que vemos no exterior o que somos no interior, que os trafulhas vêem trafulhas em todo lado e os anjinhos se imaginam no céu, envaideço-me a pensar que Sócrates foi inteligente e responsável na escolha de António Costa. Não é comida para a minha dieta, mas foi socrático. Foi bom para a Polis.

Um misto, ou mistela, de sentimentos patéticos com raciocínios abstrusos preenche o fenómeno da popularidade de Carmona Rodrigues. Os seus apoiantes dividem-se por dois influentes e retro-urbanos grupos: as donas-de-casa e os fogareiros. A uni-los, um único argumento a favor do bisonho anti-PSD e anti-partidos: ele é boa pessoa. E quanto menos falar de política, ou quanto mais falar contra os políticos, mais melhor-boa a sua pessoa ficará. Claro, também com patarecos se faz uma eleição.

Sobra o Sá Fernandes. Um lírico. Um bravo. Vai ter o meu voto.

Derrelictos — Gonçalo da Câmara Pereira

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O mais patusco dos pretendentes ao trono autárquico é também o único a poder reclamá-lo por direito de baptismo. A familiaridade com a Câmara está no anil que lhe corre nas veias, é vocação dos que nascem em berço. Os plebeus da concorrência não conseguem lutar com fidalguia contra a hereditariedade. Então, recorrem aos mais baixos e funestos instintos populares, os quais vão encher a cidade de urnas. É isto a república, o Reino enfiado num quadrado. Para tourear a turbamulta, no partido do candidato alguém ataca com um fado. Ao eleitor pede-se, pois, que faça silêncio.