Arquivo da Categoria: Valupi

Os limites do infinito

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Estica-se o braço em direcção ao céu nocturno. Aponta-se ao calhas. E repara-se na porção coberta pela largura de um dedo, o mais à mão. Cabem aí 50.000 galáxias.

Não se sabe quantas galáxias há. Nem se sabe quantas estrelas tem cada uma. Fazem-se cálculos, tenta-se encontrar a média. As contas oscilam entre 200 a 400 mil milhões de estrelas por galáxia. Valor similar para o total de galáxias, 200 mil milhões delas, quentinhas. Se quiserem agora descobrir o número de planetas, façam favor, desatem a multiplicar estrelas por galáxias até que o pensamento saia fora de órbita. Nem deus, assessorado pelas legiões angélicas, conseguiria decorar os nomes dessas extraterras e respectivos apeadeiros.

Vertiginoso espaço cósmico. Dimensões que ultrapassam a nossa compreensão. A cultura ainda não enfrentou as consequências antropológicas e civilizacionais que resultam do conhecimento astronómico — ou do da física das partículas, que é simétrico na vertigem, no espanto. Mas existe no universo um fenómeno que supera em grandiosidade e mistério o conjunto dos átomos, estrelas e galáxias: é o aborrecimento. Aqueles que olham à volta e se sentem fartos ou vazios. Estupendos seres de fazer inveja às potestades celestes. Para eles, nem o infinito é suficiente.

Língua de fora

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Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco.

João, 18:10

Malco recuou dois passos e ajoelhou-se. Ficou a olhar fixamente para o tufo de ervas onde o sangue da sua orelha rasgada caía como bátegas dispersas de chuva negra. A imagem dos olhos alucinados de Pedro, no momento em que avançava de espada na mão, era a única dor que sentia. As vozes à sua volta ficaram sólidas, blocos de granito ondulando em círculo. Não percebia o que estavam a dizer, não queria saber. Surgiu-lhe, radiosa, a memória daquela manhã. Tinha brincado com a filha, fizeram corridas, ele deixou-a sempre ganhar. Quando se despediu, puxou-lhe carinhosamente a orelha. Ela riu, baixando o queixinho, sedoso como os pêssegos que crescem na margem do rio Jordão. E fez-lhe uma careta com a língua de fora.

Volare

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Um preconceito, ferozmente instituído pelos mesmos que nos anos 50 e 60 começaram a transformar a velhice em estigma e a morte em tabu, acaba de levar um tiro certeiro num dos motores, podendo vir a despenhar-se no futuro próximo. A American Academy of Neurology acaba de publicar os resultados de um estudo de 3 anos com mais de 100 pilotos de aviação. Objectivo: comparar as capacidades dos pilotos em relação à diferença de idades, cujos limites foram de 40 e 69 anos. Descoberta: se os mais novos começam por obter melhores resultados, os mais velhos acabam por conseguir os melhores desempenhos ao longo do tempo. Tendo em conta que pilotar um avião requer mais competências cognitivas do que as exibidas usualmente pelos nossos políticos, patrões e jornalistas, a descoberta é relevante para todo o mercado de trabalho e demais funções públicas.

Para além da inteligência cristalina, temos agora a inteligência cristalizada. A qual pode levar a altos, e seguros, voos.

Define a tua espiral

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Fernando Pessoa é um português como nunca houve, nem ele. Viveu pouco, se medirmos o tempo; viveu demais, se conhecermos a obra. Não precisou de viajar para Paris, Londres ou Nova Iorque em ordem a vangloriar-se de ser moderno, de ter conhecido a civilização. Ele foi, nos passeios da Baixa e margem do Tejo, uma civilização oblíqua.

Pessoa não é só o gigante literário que envergonha o falante de língua portuguesa que nunca o leu, nem a personalidade prolixa que trabalhava em escritórios, ilustrava tertúlias, fazia horóscopos, matava-se com aguardente e escrevia cartas de amor absolutamente ridículas. Também foi um publicitário, um supremo criador a fingir de vulgar criativo. E quis a ironia das circunstâncias que trabalhasse a marca mais importante na História das marcas, a Coca-Cola. O Quinto Império ao serviço do novo imperialismo, o consumo.

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T.P.C.

O Traz o PÚBLICO para Casa de hoje justifica-se pela leitura do que Francisco Teixeira da Mota oferece à Nação. Um dia, mas quando?, a melhor parte de nós vai querer começar a salvar Portugal pela Justiça. Até lá, é a palhaçada.

Die Grosse Stille — Philip Gröning

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Por vontade desse semideus chamado Paulo Branco, quem for ao NIMAS passar os 169 minutos de O Grande Silêncio, e ficar o tempo todo sentado naquelas cadeiras, vai sofrer mais do que os sacrificados monges cartuxos que cirandam pelo ecrã. Que é feito dos intervalos? Nem num filme de quase 3 horas se permitem 10 minutos para aliviar o stress muscular, metabólico e mental? A estupidez da ganância cega os distribuidores para as evidências. Há um público de milhões que pode frequentar os cinemas. Essa gente é constituída pelos mais díspares indivíduos, mas comunga de um desejo que a todos une: o gosto dos outros. Ir ao cinema, mesmo quando se vai sozinho, é uma experiência comunitária. Tem elementos rituais que são análogos aos das celebrações eucarísticas. Num lado como no outro, ficamos ao lado de estranhos, calados e reverentes. Uma corrente afectiva atravessa esses agrupamentos e todos se influenciam, todos se permitem ficar na dependência uns dos outros (e cada vez mais, por causa dos telemóveis que não se desligam). Ora, na missa católica há um momento em que somos convidados a cumprimentar e celebrar a presença de quem está à nossa volta. É sempre um momento forte; e, num certo sentido, é o que de mais importante acontece dentro do templo. No cinema, durante décadas, esse momento de celebração comunitária acontecia no intervalo. Corria-se para os cafés, para os lavabos, para os cigarros, para as conversas e para os olhares. Os intervalos eram ocasiões de sedução e de pães-de-leite com fiambre. Guardo recordações dos pães-de-leite com fiambre do TIVOLI que rivalizam em fervor religioso com descrições extasiadas da Capela Sistina.

Ir ao cinema, depois dos anos 70, perdeu glamour. Entra-se a correr, sai-se a correr, e em muitas salas fica-se refém das mandíbulas apipocadas. A redução da escala monumental das telas, que nos anos 80 e 90 ameaçou exibir os filmes em alguma coisa pouco maior do que o tamanho de um televisor, é um crime de lesa cinefilia. O mal que se fez à criação de um público fiel escusa de ser demonstrado. Contudo, ir ao cinema (e não só, como é óbvio, mas dele se trata nesta ocasião) é um acto que voltou a poder ser recuperado pela dimensão política. Agora, já libertos da chancela esquerdista que animou os cineclubes (embora com singulares excepções) e as elites da crítica durante os anos 60 e pós-25, o cinema oferece-se como manifestação de uma nova resistência. A resistência contra os imbecis.

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Calicracia

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A palavra calicracia não existia antes de eu a ter inventado. É, pelo menos, uma ilusão que defenderei com unhas e dedos. E inventei-a para falar do reinado da candidata à Presidência francesa, Ségolène Royal. Quer ela vença ou perca a eleição, já ganhou. Ganhou a atenção dos jornalistas, dos homens, das mulheres e dos intelectuais de cepa clássica mais avessos a questões superficiais.

O que é novo na candidatura de Ségolène não é a temática do género. Mulheres com poder sempre existiram em alguns períodos da Historia, da mais antiga à mais recente. Nem sequer a coincidência de se ver a Alemanha, a França e os Estados Unidos com mulheres em posições cimeiras do sistema republicano será o que mais releva. A absoluta novidade, no caso da candidata socialista, consiste na primazia dada ao seu aspecto físico.

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Derrota

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Este foi o ano em que se impôs como obrigação moral da indústria cinematográfica americana atribuir o Oscar a Scorcese. Tratou-se de um movimento que assumiu contornos de cause célèbre, e de facto. Ora, o filme premiado não o justifica. Tirando o asqueroso Babel, é inferior a toda a concorrência. Um filme que se vê e se esquece, dando-se por bem empregado o tempo passado, mas é obra sem génio ou momentos de génio.

Para os poucos (na última contagem, restavam dois em todo o mundo conhecido, e lembro que já se conhece o mundo todo) que ainda esperam dos 5.830 eleitores da ACADEMY um qualquer critério racionalmente artístico, esta é a última chamada para a realidade. Os nomeados são apenas os beneficiários de um sistema que funciona tal e qual como a Misericórdia. Todos os anos há um orçamento de prémios para distribuir por quem der mais, e todos os anos há que escolher novos sortudos. Não tem nada a ver com qualidade, acontece é a qualidade conviver feliz com quem lhe paga mais, daí as eventuais coincidências. E são esses, os que pagam, que tentam também comprar os membros que têm os canivetes e os queijinhos na mão, usando um marketing desenhado para o efeito. O investimento mais do que compensa, pois o filmes nomeados e premiados ganharão um acrescento de rendimentos, directos e indirectos — estes últimos ainda mais importantes, pois valem negócios futuros.

Para mim, ver Martin Scorcese Oscar-dependente é triste. Porque é banal, venial. É uma ofensa, mesmo que involuntária, à memória dos que nunca entraram na história dos premiados e em cujas obras está o melhor da História do cinema. Do Raging Bull não esperava esta derrota.

Feeling the feeling

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É um ilustre anónimo, de quem tenho a sorte de ser amigo. Designer gráfico de profissão, poeta à solta por vocação. Os seus versos são visões alucinantes que compõe com a rudimentar câmara de um telemóvel. Luís Castro mostra-nos que a beleza é excessiva, mas por estar em todo o lado. Ou por estar nele, que a recria por onde passa.

No seu non friction, logo abaixo do nome, encontra-se uma citação retirada de um diálogo do THE SINGING DETECTIVE, a única série televisiva que merecia ganhar óscares, e muitos. Só por esta secreta celebração, já apetece lá entrar. Pelas imagens fotográficas que parecem pinturas pós-realistas, não apetece sair.

Borralho do Referendo — “as mulheres”

As mulheres são fodidas. Não sei se, mais de 12 anos após o lançamento d’O AMOR É FODIDO (da então, ainda, coqueluche da alta cultura pop), alguém se perturba com este vernáculo. Seguramente não os responsáveis da SIC que permitiram ao Fernando Rocha um ciclo de glória no débito de palavrões frente às câmaras. Mas a verdade é para ser dita com todas as sete letras, e acontece que as mulheres são fodidas. São fodidas em casa e no emprego. São fodidas de manhã e à noite. São fodidas deitadas e de pé. São fodidas em qualquer lugar, até num referendo.

Alguém disse que, numa cultura onde se venera uma mulher que engravidou sem ter relações sexuais, a sanidade mental na relação entre os géneros nunca mais se iria recuperar. Os paradigmas dualistas, a mulher santa e puta, têm entretido párocos, escritores, artistas plásticos, cineastas, advogados, psicólogos, polícias e taberneiros. Só que nós, herdeiros dos mitos católicos, não somos por isso menos do que os outros, os que não tiveram tal sorte. A condição feminina é vítima do incondicional masculino em todo o Mundo e desde que há memória. O século XX, no tanto que alterou, não resolveu o assunto. As discriminações continuam, como revelam ano a ano os índices comparativos de salários, cargos de chefia empresarial, poder político e, imagine-se, investigação médica. Veremos o que mudará pela força da onda sociológica, quando houver mais mulheres licenciadas do que homens para os mesmos lugares, e as posições forem maioritariamente ocupadas pelo belo (e agora também inteligente) sexo.

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O PÚBLICO mudou; mas para melhor?

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É sempre injusto avaliar mudanças estéticas e conceptuais nos primeiros dias. O choque afecta o entendimento da nova organização. E é igualmente injusto esperar demasiado; injusto para o nosso sentido crítico fatalmente acomodado, entranhada a estranheza. Para começo de conversa, que poderia ser já conclusão, não se ganhou nada de útil ou relevante com a “renovação”. Talvez pelo contrário.

A questão é fascinante: conseguirão os jornais resistir à Internet? O pânico está instalado. Todas as forças apontam para a bancarrota do papel-notícia; onde se incluem as razões evidentes — um jornal diário sai com um dia de atraso num ambiente empanzinado de informação, e isto numa cultura que promove a reacção imediata, que automatiza a cognição, que impõe um modelo restritamente visual e transitivo — e as emoções subterrâneas — um jornal é anti-ecológico, um desperdício que não se recicla e, last but, now, not least, suja as mãos e a casa. Na era da ubiquidade digital, e da instantânea saturação mediática, os diários carregam a vetustez hebdomadária e os semanários evoluíram para embrulhos de revistas. Num certo sentido, a imprensa em papel deixou de veicular noticias, reduziu-se ao comentário (e, com sorte, à investigação, mas já lá vamos). É este o cenário, em versão minimalista, para o drama do PÚBLICO e dos outros jornais generalistas.

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Not Obstante

É um nome que se encontra pouco: Jallapão. Não sei porquê, pois fica no ouvido e merecia ser mais popular. Talvez seja apenas artístico. Aliás, é um nome que nos encontra a nós, se os deuses nos concederem a honra. Jallapão canta e tem vídeos. Jallapão oferece-se também num site. Um site como eu nunca vi outro igual, nem sei se voltarei a ver. Não está em causa ajuizar se este artista canta bem ou muito bem, assim ou assado. Jallapão está acima dessas futilidades. Este exemplo, por exemplo, é o que de melhor tenho visto em vanguarda de videoclips, superando de longe as sugestões do nosso JPC. Constate-se que tudo, mas tudo, é feito para simular um ecrã de televisão a ser filmado. Se isto não for a derradeira definição do pós-modernismo, vou ali e já não venho. Num plano mais pessoal, gostava de dizer que acredito no cantor e nos sentimentos que a letra desta canção expressa. Sim, acredito naquele amor, essa “grande emoção”.

Todavia, não vos iria incomodar apenas por causa do meu gosto. Acontece que Jallapão é um artista que sabe cuidar da imagem, e isto é particularmente importante para essa malta nova que anda a pôr vídeos no YouTube, e sabe-se lá mais aonde. Convoco a vossa atenção para a mensagem que encima os comentários ao vídeo. Repare-se na gentileza do artista, nos bons modos, na clareza com que estabelece um critério que ajuda qualquer um a encontrar o conteúdo dos comentários a fazer; mas, o que me surpreendeu, e do qual ainda não recuperei, foi o cuidado em ter uma versão também em inglês, provando que esta coisa da globalização não o vai apanhar descalço. Ouso dizer que é nesse texto que se descobre a suprema criação de Jallapão, not obstante a vastíssima obra já produzida.

Gandim

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Pode-se procurar aqui, aqui, aqui, e não se acha. Pode-se consultar o Houaiss ou o Dicionário da Academia, nicles. A palavra gandim ainda não se passeia por eruditas paisagens. Mas ela existe desde a minha adolescência (pelo menos). Cresci ao lado da Musgueira (e da Norte, bem pior do que a Sul), dei-me com essa gente, os musgas, a que se juntavam as tribos próximas da Charneca e das Galinheiras, uma cintura urbana de índios. A Musgueira Norte era um pardieiro de barracas, criada pelas deslocações forçadas dos habitantes miseráveis que viviam nos locais afectados pelas obras da ponte, a tal que o povo baptizou Sobre o Tejo para não ter que sujar a boca. Era um território fora-da-lei, engrossado com migrações e imigrações variadas. Era, ’tá visto, um viveiro de gandins.

O termo gandim será (hipótese) um neologismo formado por deriva fonética de gandulo. Adentro dos códigos axio-gramaticais do meio, um gandim seria um gandulo ainda pior. Pior em quê? A ajudar velhinhas a atravessar nos semáforos não seria com certeza, por falta de tempo. Os gandins eram seres atarefados, com uma agenda repleta de assaltos, venda de droga, consumo da mesma, proxenetismo, rixas e vinganças, decoração de interiores. A parte da decoração de interiores talvez até seja a mais relevante; pelo menos, do que me foi dado ver. Entrei em várias barracas da Musgueira, putrefactas ao olhar exterior, de fazer inveja à mentalidade consumista da classe média assim que se passava a ombreira. Lá dentro, avós despachadas e risonhas, rodeadas de electrodomésticos de última geração e outros mimos confortáveis, vendiam saquinhos de pó, ou barrinhas de haxixe, aos meninos betinhos que ali se abasteciam. Faziam-se encomendas de peças de automóvel, rádios, artigos variados e variados serviços. Dizia-se, por exemplo, “quero uma mota assim e assim”, e dias depois ia-se lá levantá-la ou ela era entregue ao domicílio. A Musgueira Norte era uma central de apoio à desburocratização do acesso à riqueza e ao delírio.

Há pouco, descobri com gosto que o vocábulo chegou à Madeira. Alberto João, para as câmaras, confessou inspirar-se num gandim. Não disse qual; mas, como de costume, deve estar a falar de si próprio.

A festa do porco

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A propósito do Ano Novo chinês, o programa Nós, RTP, fez uma reportagem na Escola Chinesa de Lisboa. Entrevistaram petizes, entre os 6 e os 10 anos (suponho), os quais explicaram a seu modo, espontaneamente, a História e cultura dos seus pais e venerandos avós que assim se celebrava. Mas explicaram através de uma alma lusa, com todos os meneios e particularismos léxicos da Língua observáveis numa outra qualquer criança descendente de Afonso. Uma menina até chegou a ficar envergonhada quando nomeou o ano da Cabra, no que foi uma deliciosa prova de domínio semântico. A prosódia perfeita, para mais servida por singular fluência e confiança na expressão, criava um laço imediato que absorvia as diferenças faciais e etnográficas e as integrava na mesma identidade. Aquelas crianças são portuguesas, temos a mesma pátria. Então, os seus pais também podem ser nossos patrícios. E, indo por aí, chegamos finalmente à consciência de que há muita gente em Portugal à espera de cá chegar.

À espera de uma festa, onde se coma e beba bem. Onde se conviva, para viver melhor.

Letters from Iwo Jima — Clint Eastwood

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Vai ver este filme porque:

– Passas menos tempo na blogosfera, o que só te faz é bem.
– Tens uma razão para desligar o computador. Ou o televisor. Ou o DVD. Ou o IPOD. Ou a Playstation. Ou, nalguns casos, isto tudo ao mesmo tempo.
– Sais de casa. E, quando sais de casa, a tua casa agradece, pois as casas também precisam de estar uns tempos a sós.
– Aproveitas a ocasião para convidar um grupinho para ir contigo. Ou aquela pessoa que brilha mais do que o ecrã. E que até pode estar a viver contigo. E que continua a gostar, muito, de convites para ir ao cinema. Especialmente se vierem de ti.
– Recebes, por uma ninharia, magistral obra de arte de um homem que fará 77 anos em Maio, o que lhe deu já algum tempo para ter juízo.
– Aprecias o talento de Ken Watanabe. E o de Kazurani Ninomiya.
– Confrontas-te com uma questão fotográfica: é um filme a cores ou a preto-e-branco? A preto-e-branco não é, a cores não parece. Talvez seja um filme a cores em preto-e-branco.
– Descobres que todos os soldados, independentemente do posto ou do exército, são filhos da mãe. E gostam de o ser.
– Aprendes que a guerra é uma continuação natural da economia. Que a guerra é também uma indústria. E, por fim, uma feira.
– Contemplas esta intuição: sagrado é todo o solo onde vertemos o sangue. Mesmo o sangue invisível, mesmo o solo invisível. E começas a não deixar que te escolham as guerras.

Borralho do Referendo — “ainda ninguém”

Durante a campanha, que começou mediaticamente em Novembro/Dezembro, cada lado apresentou quase todos os argumentos legítimos, e ainda uma imensidade de ilegítimos. Ao se chegar ao período oficial, as últimas duas semanas de intenso e ubíquo debate público, coabitavam a inevitável saturação e um fenómeno curioso: os iluminados de última hora. Tal como em Jerusalém, onde alguns se descobrem Messias antes de se descobrirem internados, foi comum encontrar personalidades que usaram profeticamente a fórmula “ainda ninguém”, seguida de vocábulos variáveis relativos a pensamentos e discursos inauditos. Foram protagonistas de súbita iluminação, onde estaria em causa ver o problema segundo um especialíssimo ponto de vista — o seu, acabadinho de pensar e de imediato revelado. Eram argumentos com ferro decisório para converter o opositor ou reduzi-lo a má vontade. O Fernando até nos deixou (involuntariamente) um exemplo disto, vindo da pena de Miguel Sousa Tavares. Mas eu assisti a vários, o mais caricato deles com a Clara Pinto Correia. A senhora começou a berrar e a agitar furiosamente os braços, provocando um vórtice de pânico que os restantes participantes nesse debate, mais respectiva jornalista, deixaram gravado nos seus lívidos e paralisados rostos.

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