Arquivo da Categoria: Valupi

Cineterapia

lives-of-others-2.jpg
Das Leben der Anderen_Florian Henckel von Donnersmarck

Depois do Dogma, esse neo-verismo mercantil, parece que a inovação cinematográfica desapareceu da Europa. Se contarmos com os russos, que são euro-asiáticos, temos mais de 600 milhões de pessoas que não conseguem fazer filmes que o Mundo, ou tão-só o Continente Velho, queira ver e aplaudir. A não ser muito, muito, mas mesmo muito de vez em quando. Em Portugal, nos últimos 20 anos, contam-se pelos dedos de uma mão os sucessos populares do cinema europeu: Nuovo cinema Paradiso (Cinema Paraíso) 1988, Il Postino (O Carteiro de Pablo Neruda) 1994, Breaking the Waves (Ondas de Paixão) 1996, Le Goût dês autres (O Gosto dos Outros) 2000 e, o último caso, Das Leben der Anderen (A Vida dos Outros) 2006 (há outros, sei bem, mas gosto mais destes, e depois estragava-me um cliché de mão cheia). Coloco Almodovar à parte, por ser o único realizador europeu a criar marca e a conseguir mantê-la (veja-se, por contraposição e exemplo, os casos Kusturica, Frears e Mikhalkov, ou os franceses Besson e Jeunet, sem qualquer regularidade de público). Esta situação é vexante.

Continuar a lerCineterapia

A porta sempre aberta

Blogues com comentários têm a porta sempre aberta. A qualquer momento, entra um hóspede, instala-se e começa a falar. Para ele, a data de publicação não é mais do que ruído gráfico. Porque a página está como nova, não amareleceu nem se enrugou com o uso. Mergulha-se na conversa sem respeito pelas barbas de Cronos. E acontecem coisas como estas:

Um texto escrito em Agosto do ano passado, abrir o livro, estava já a comer alface pela raiz quando recebeu uma ilustre visita, Rinito Rita. Por causa dele, vieram outros da mesma cepa. Quem eram? Hoquistas, ou apaixonados pela modalidade, com o coração cheio de alegrias e mágoas. Almas que viveram a glória desportiva, esse ancestral êxtase de existir que nos liga aos deuses através dos sortilégios da luta. Sem saberem, estavam eles a oferecer-me o prémio mais alto desde que escrevo. Uma verdadeira honra ter ficado, nem que por instantes, ligado às suas memórias e esperanças. Inventou-se a vaidade para surpresas assim.

Um texto escrito pelo Fernando em Abril de 2006, Portugal: queremos “isto”?, continua a dar que falar. Está a merecer bolo de segundo aniversário. Os dois últimos comentários exemplificam as tipologias do meio: este, comovente; aquele, inane.

Finalmente, uma das sui generis prestações do TT, AU REVOIR MONSIEUR PASTEUR, recebe regulares testemunhos de especialistas em medicinas esotéricas, ou serão esoterismos medicinais?, aumentando o fascínio da mais enigmática figura que já passou pelo Aspirina B. Também ele porta aberta por onde entra, em remoinho, a saudade.

De que é que a publicidade precisa?

optimus-ninguem.jpg

A nova campanha da Optimus foi desvelada em várias fases. Teve um período teaser, onde não se identificava o anunciante nas peças publicitadas. Teve uma festa de lançamento no Pavilhão Atlântico, a qual divulgou a marca junto de clientes especiais. E teve o lançamento oficial, completo, no dia seguinte, 9 de Janeiro. Nesse mesmo dia, antes do almoço, a campanha já estava esgotada.

Continuar a lerDe que é que a publicidade precisa?

Os mouros são trengos

sporting-benfica.jpg

De repente, acordámos. O Benfica empatava em Setúbal, com cenas de implosão moral no relvado. No banco, um treinador messiânico, mas sem força para encher um balde de mar vermelho, fazia contas ao destino. O Sporting era borrego no Bessa. A equipa tinha juventude, talento, treinador carismático, condições para treinos vanguardistas, mas não conseguia jogar à bola. E, então, pensámos que a regularidade nos resultados do Porto, ao longo dos anos, e apesar de mundo e meio a lançar suspeitas de tenebrosa corrupção, só podia significar a vitória da competência. Os gajos, lá em cima, eram melhores. E prontos.

E agora? Creio que a solução passa por entregar a gestão do Sporting e do Benfica a um cartel que reúna as televisões, a imprensa desportiva, as cervejeiras, os amigos que ainda conseguem vender couratos à socapa e o Ministério da Economia. É que o País não aguenta o buraco. Quando o Benfica ou o Sporting perdem, ou não ganham, há milhões de pessoas que deixam de ver os telejornais, fogem dos resumos desportivos, baldam-se à compra do jornal, não vão aos estádios, não se juntam com os amigos, não compram cervejas nem frangos assados, deixam os preservativos sem uso. Isto do Porto estar sempre a ganhar é uma autêntica desgraça para o PIB, com a agravante de multiplicar geometricamente a quantidade de deprimidos em Portugal.

Perante este problema, o derby Opus—Maçonaria, no estádio do BCP, é um jogo a tostões.

Apanha-se mais depressa um mentiroso se formos com ele de férias

praia-mar.jpg

O discurso da desgraça foi tranquilamente boicotado ao longo de 2007 pela classe média. As agências de viagens facturaram mais 10% do que no ano anterior. A previsão é a de continuarem a crescer. Conclusão: as coisas podem estar muito mal no reino da Dinamarca, mas no Brasil, Cuba e República Dominicana ninguém se queixa. O fluxo de refugiados políticos em busca do turismo iluminado deveria merecer a atenção das alimárias da oposição, pois estamos perante nova arrogância de Sócrates; agora obrigando os portugueses a passar férias longe da sua terra, alguns até despachados para descaracterizados hotéis de 4 e 5 estrelas.

Como disse o profeta Santana, um dia isto ainda vai dar uma revolta a sério. Talvez na Jamaica.

Cry for me, America

Há a resposta cínica, a qual diz que foi um momento planeado. E depois há a resposta ainda mais cínica, a qual diz que foi um momento espontâneo, e, por isso, revelador de uma fraqueza incompatível com a função a que concorre.

Há a resposta ingénua, a qual diz que foi um momento espontâneo. E depois há a resposta ainda mais ingénua, a qual diz que foi um momento planeado, e, por isso, revelador de um talento superior para a corrida eleitoral.

Hillary estava a falar no meio de mulheres, um dia antes da votação em New Hampshire. Vivia o pior momento da sua carreira política, com sondagens a indicar 10 pontos de atraso para Obama, com a sua equipa escavacada de baixo ao cimo, com todos os jornalistas e comentadores a escolherem gravatas pretas para o funeral do dia seguinte. E perguntam-lhe pelo cabelo. Começa a responder, comove-se consigo, é afagada com aplausos, aproveita o balanço e acaba numa declaração de fé em si própria.

Talvez a América ainda não esteja preparada para uma mulher. Um homem castanho, preto ou amarelo, sim. Já é indiferente. As mulheres continuam seres desconhecidos. Por exemplo, quase ninguém sabe que as mulheres choram quando estão a pensar.

Barreto saloio

portugal-west-coast.jpg

António Barreto dignifica-me como cidadão. Portugal é melhor, muito melhor, com ele do que sem ele. Os portugueses devem-lhe 30 anos, ou mais, de intervenção pública marcada por uma ética republicana e democrática exigente, rara; o que o levou para um trilho independente. Nesse lugar faz-se boa crítica e crítica da boa. Ele é um dos senadores guerreiros, daqueles que velam pela nossa liberdade, com actividade académica de mérito e actividade mediática de relevo. Sou seu leitor e admirador. É por isso que sei que ele está acabado.

Continuar a lerBarreto saloio

Luiz Pacheco, obrigado por teres nascido em Portugal

Voltando à minha missão nesta tribuna: cai-me nas mãos um livro novo ou uma reedição para crítica. Conhecendo o autor e as actividades dele em vinte anos, posso eu (devo) constranger-me a uma imparcialidade impossível por falsa? Dito por outros termos: posso (devo) fazer tábua-rasa da sua conduta, naquilo que nos opusemos e opomos se as atitudes que os vi tomar forçosamente abandalharam as suas obras? reduziram-nas a uma mercadoria congeminada na mentira e na má-consciência? Vos arrenego que tal não farei. DIZE-ME QUEM ÉS E COMO AGES, DIR-TE-EI O QUE ESCREVES. De caras e cara-a-cara. Logo, loguinho. Antes de abrir-vos o livro aposto comigo (se é tipo meu conhecido) e depois vou ver. Lá está! Queriam (convinha-lhes, não era?), então, que ficasse calado? fizesse friamente a dissecação retórica e inútil da polivalência significante, da linearidade de expressão, da libertação metafórica, do gosto pelo conceptual, do esquema rítmico, da intencionalidade fundamental, do teor poético, oh meu Deus! Ná!… Tiro-lhes antes o retrato à la minuta (mas com uma, a minha, memória de elefante) e já ‘stá!… Saiu fotomaton? paciência. Foi do meu mau-humor do momento. Ou da caricatura em que se tornaram. Caricatura de homens, de escribas. A culpa não é minha se o retrato ficou parecido e tresanda a malfeitor procurado pela polícia. A isto chamo crítica de identificação.

__
Colhido, ao calhas, em LITERATURA COMESTÍVEL, Editorial Estampa, 1972, p.126

É só saúde

correia-de-campos.jpg

Correia de Campos é o meu ministro favorito. Porque é o que tem a tarefa mais ingrata, aparecer como carrasco. Independentemente do que cada um pense das medidas com a sua assinatura, é óbvio que algo de nunca visto em Portugal tem estado a acontecer na pasta que lhe foi confiada. E aqui faço a confissão: nenhum membro deste Governo, nem qualquer dos seus familiares e amigos, me telefonou para explicar o racional da gestão em curso. Será mais um acto vil de Sócrates, esse de me deixar na ignorância, mas obriga-me a pensar. E penso que não haverá meio mais rápido para perder popularidade e votos do que privar as populações de serviços de saúde. Pior só se o Governo decretasse redução nos salários ou despedimentos compulsivos. Como se viu no caso da morte de uma idosa nas urgências do Hospital de Aveiro, até a Ordem dos Médicos aproveita qualquer pretexto para a canalhice. Não é de esperar nenhum tipo de responsabilidade da populaça raivosa, de autarcas mentirosos e de um Menezes bronco, os quais irão ladrar sem olhar ao porquê nem ao para quê.

Teremos um Governo cheio de pressa para matar os portugueses, sendo essa a única urgência que querem ver a funcionar? Cada um que descubra por si. Entretanto, aplaudo a candura, e autêntica ética democrática, com que as críticas do Presidente foram recebidas. Também essa atitude me aparece como novidade; antinomia absoluta com a cultura do soarismo e, especialmente, do cavaquismo. Ver um governante a reconhecer que se engana, que pode fazer melhor, não é sinal de fraqueza, desenganem-se os tolos. É só possível quando se está pujante de saúde.

O ponto a que Menezes chegou

menezes_psd.jpg

Consta que Menezes disse uma coisa qualquer sobre o Estado, não sei quê dos meses, e desmatava ou desmatava-se ou desperdiçava ou despedia ou despia-se ou qualquer coisa começada por des e terminada em 6 meses ou meio ano ou coisa assim. E isso teve, no País que lê, impacto igual ao de uma melga a marrar de cornos no farolim de um camião TIR a caminho de Badajoz às 4 da manhã e com o motorista afagando os bigodes enquanto se recordava de um memorável chispe de porco com feijão.

Cavaco, o fiasco

O discurso de Ano Novo do Presidente da República é um logro. 7200 caracteres, fora os espaços, gastos para o boneco. A única ideia que se demarca é a inverosímil admoestação contra os salários dos altos dirigentes de empresas. Que é isto? De que empresas está a falar? De que nível de rendimentos? Estará Cavaco a falar de Jardim Gonçalves, entrando assim na corrida eleitoral em curso no BCP? Está a falar de alguma empresa de curtumes na Beira? Ou estará a falar dos empresários que enriqueceram por terem sido favorecidos no cavaquismo, ganhando tanto que até dava para financiarem o PSD com os trocos? Acima de tudo, que adjectivação merece um discurso que tem uma nulidade de mensagem como prato principal? Esta: bela merda. Não sei quem lhe escreve os textos, mas está a precisar de ajuda.

Na mesma senda, a referência à sinistralidade rodoviária é caricata, tendo em conta a sua irrelevância no contexto do discurso. E a pérola críptica do que foi dito consiste nesta afirmação:

Perante as dificuldades de crescimento da nossa economia, perante a angústia daqueles que não têm emprego e a subsistência de bolsas de pobreza, devemos concentrar-nos no que é essencial para o nosso futuro comum, e não trazer para o debate aquilo que divide a sociedade portuguesa.

Não desviemos as atenções do que é verdadeiramente importante.

Se alguém conseguir decifrar este passo, ou tão-só a quem se destina, é favor partilhar. Receio que esteja em curso uma sampaízação da Presidência.

Sexo em grupo — Participa e convida a família

Portugal é um país sexualmente doente, como qualquer sociedade de herança cultural católica tem de o ser. É um país onde os pais se demitem da educação sexual dos filhos, onde a Escola não sabe o que ensinar no âmbito da sexualidade, onde a enorme maioria de homens e mulheres consente em sexo desprotegido com estranhos, onde a prostituição é um hábito arreigado de Norte a Sul e tanto para os pobretanas como para os ricalhaços, um país onde a mulher é alvo de violência familiar logo desde a infância, continuando a ser violentada na adolescência e depois em adulta, seja sexual, emocional, afectiva, intelectual, social, económica, profissional, política ou fisicamente. Precisamos de nos curar. E pessoas como a Patrícia Pascoal vão ajudar. E tu, não a queres ajudar?

Pero te vas a arrepentir

Encontrar paralelismos entre Benazir Bhutto e Sergio Gómez não é para qualquer um. Aposto que sou o único, dos 6 mil milhões de cérebros humanos em aparente actividade, a alcançar tal feito. E é altamente provável que venha a ser, em simultâneo, o primeiro e o último. Mas acontece terem sido os dois assassinados em Dezembro. E acontece terem vivido os dois do espectáculo e das multidões, ela na política e ele na música. E aconteceu-lhes terem sido avisados de que podiam ser assassinados se fossem a certos locais, locais esses onde eles foram. É só aqui que a coisa se torna interessante, separando-se as águas para deixar passar a inteligência a caminho da verdade prometida. A reacção normal é lamentar a morte destas pessoas, cuja inocência se institui no contraste com o crime de que foram vítimas, deixando as emoções estragarem a oportunidade de aprender. Mas de reacções normais, e de emoções, está a violência cheia. Para os assassinos, houve uma sequência normal de decisões que concretizaram a intenção de os destruir. Para os que estejam interessados em diminuir ou anular os crimes (sempre pouca gente, muito pouca), é necessário desenvolver reacções anormais. Uma delas consiste em olhar para o lado. Desviar os olhos dos efeitos, da hipnose. E constatar: Sergio foi apenas um de 2.500 episódios anuais de execuções ligadas ao narcotráfico, no México; a chegada de Benazir ao Paquistão já tinha dado azo a um ataque bombista onde morreram mais de 140 pessoas, não havendo qualquer forma de evitar outro eventual, e por todos antecipado, massacre.

Eles sabiam ao que iam. E foram. E se num caso só se perdeu um estúpido, no outro uma estúpida fez perder muitos, e muito. A estupidez é a causa primeira de todas as violências.

Leituras para 2008

imperfect-knowledge-economics.gif

Em 2008 quero que todos os portugueses, maiores de 12 anos (a idade da razão, como é do conhecimento geral), adquiram este livro supra anunciado e o enviem para o político que consideram mais competente. Nos casos em que o político favorito seja o Cristiano Ronaldo, o Ricardo Araújo Pereira ou algum participante nos Morangos Com Açúcar (e contando a partir da primeira série), não se inquietem. Peçam ao papá o nome do político que ele mais detesta e mandem à confiança. À mamã não vale a pena perguntar porque ela não percebe nada de política, nem quer perceber, e ainda fica irritada com o assunto. Cuidado: se o papá indicar Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira, repitam a operação as vezes necessárias até se cansar e mudar de resposta.

Livros de economia não são de digestão fácil para um português. O português típico pensa com a barriga, só alinha em filosofias da ginginha (a fruta da época) ou anda preocupado com o que se passa no seu romance de cabeceira. Assim, não irá ler este livro. Mas dava-nos um jeitaço do caralho que os nossos políticos e empresários o lessem. Porque aumentaria a probabilidade de ficarem mais inteligentes ou, nalguns casos, quase inteligentes. A tese é relativa ao funcionamento dos mercados e às teorias económicas que sempre ambicionaram explicá-los nos fundamentos e desenvolvimentos. Os autores dizem o óbvio para quem pertence ao século XXI, que nenhuma teoria se aguenta nas canetas que a criaram. A realidade é, invariavelmente, mais complexa e imprevisível do que as suas reduções abstractas. Coisa tramada para quem depende do acerto das previsões para acumular riqueza ou não a perder. Que falha, uma e outra vez? A natureza humana. O comportamento dos indivíduos supera as capacidades analíticas dos modelos de lógica mecânica. É necessária uma outra matemática, já não da quantidade, do resultado, mas da qualidade, da tendência.

E pensemos — o que é a economia? É a sobrevivência. Vem antes do sexo, continua depois dele e aumenta as possibilidades da sua ocorrência, para o próprio e para a prole. A economia é tudo o que se relaciona com a obtenção de comida, abrigo, roupa, saúde, educação, segurança, transportes, divertimento. Ou seja, tudo o que molda o sentido da vida, pois claro. Claro. E claro que uma nova visão da economia se relaciona com uma nova visão antropológica, um olhar mais apurado do que seja o humano nisso de o descobrir vário, errante e súbito. Quando a própria ciência económica, que tem vivido agarrada à matemática como um macaquinho às costas da mãe, aceita a incerteza como operador, há lições que se podem transportar para as relações pessoais. Podemos deixar de ver os outros mecanicamente, como temos feito na neurose comum, e aceitá-los imprevisíveis. Tal como nós nos sabemos, nem que seja sonhados. Como nós nos queremos, mesmo que ainda não o saibamos ou já o tenhamos esquecido.

Sim, é isso. A economia é o governo da casa.

Garoto sem disciplina

O nosso amigo Rui Vasco Neto brindou-nos com um garboso texto a embrulhar uma justíssima reflexão. Oportunidade para um itálico que nos honra. A sua escrita tem aqui um lugar de abundância, humor e atenção ao que mais importa.

Garoto sem disciplina é um sério candidato ao disparate. Não se lhes pode dar corda a mais nem corda a menos, o velho princípio do sabonete, se apertamos de menos ele cai, se apertamos de mais ele salta-nos da mão. É por isso que a educação é uma tarefa tão complicada, contrariando a sabedoria popular que diz que tudo se cria, de uma maneira ou de outra.

Continuar a lerGaroto sem disciplina

Assassinos do Sócrates Atacam a Eito (ASAE)

filestreaming.jpg

Ler o que o povo escreve nos jornais é redentor. Salva-nos de eventuais ilusões relativas ao poder da racionalidade. No Público de hoje, alguém escolheu para as Cartas ao Director uma que ataca a acção da ASAE repetindo clichés paranóicos, e que termina assim:

Na Serra de Monchique uma brigada da ASAE sentou-se à mesa de um pequeno comerciante local, bebeu do seu medronho caseiro e depois multou-o. Dias depois o homem suicidou-se.

Que gente é esta?

As reacções à actividade da ASAE são a anedótica ilustração do nível de civismo e literacia da País. Os que temem ficar privados desta ou daquela iguaria tradicional são os mesmos que passaram décadas a lamentarem-se por não haver qualquer espécie de regulação do comércio alimentar. Todavia, perante a imbecilidade dos protestos, conclui-se que estavam era satisfeitos com as frequentes intoxicações alimentares, tranquilos com a ingestão das mais desvairadas substâncias cancerígenas, serenos face à possibilidade de serem cúmplices de ilegalidades lesivas do Estado, da saúde pública e dos direitos dos consumidores. Enfim, estavam de pança cheia com o regabofe.

Ver publicistas de nomeada a alinharem nisto é a chouriça no cimo do cozido. Ou melhor, é o caldo onde se coze a irresponsabilidade política. Porque não se deveria ter de justificar, fosse a quem fosse, a actividade da ASAE. Eles chegam com 30 anos de atraso. O que importa discutir são os critérios da regulação, pois sim, mas só após a primeira fase de controlo, no fim de um biénio de exigente fiscalização. Então, deixando a própria entidade reflectir sobre os seus erros e excessos, haveria condições para se respeitar os interesses da comunidade, desde os produtores aos consumidores, passando pelos comerciantes. Se os cidadãos quiserem, não faltam institutos jurídicos e organizações capazes de regular e aperfeiçoar a conduta do Estado.

Quem tem medo da política?

O melhor blogue do mundo é apenas um dos 18 melhores em Portugal

O concurso Melhor Blog Português de 2007 merece a nossa atenção. Ao Fernando acelerou-lhe a veia ditirâmbica, esta causando no Daniel uma bizarra troca de identidades (chamar Yazalde a um Purovic), e a mim suscita-me uma declaração de voto: o melhor blogue do mundo é o Abrupto. À opinião já com mais de 1 ano, acrescento uma evidência: caso o Abrupto acabasse, a blogosfera portuguesa não ficaria a mesma. Quais são os outros blogues a poder reclamar tal efeito?

A maior parte das opiniões negativas que JPP desperta são inanes ou enjoativas imbecilidades, espasmos miméticos e primários. O inevitável prémio da sua popularidade. Uma salutar excepção veio do Paulo Querido, esfregando números nas barbas do Pacheco. Eu também me irrito com a sua inépcia em ser oposição, pois nele há (há?…) condições para alimentar a inteligência da direita-centro-esquerda, a tal zona onde se ganha o Parlamento. Mas o historiador ainda não percebeu a filosofia socrática, tendo apostado no cavalo errado da denúncia da suposta malignidade mui maligna do suposto engenheiro. Também não é claro que tenha ideias para vender ao público com visão, coisa bem diferente de ser escrevinhador na Visão* ou no Público. Adiante, pois nada disto compromete o apreço — na verdade, pasmada admiração — pelo constante trabalho de criação de comunidade que no Abrupto se faz; e como em mais nenhum lugar se vê sequer parecido. Basta referir que a participação dos leitores recebe o cuidado editorial de JPP, tanto para textos como para fotografias, naquilo que é gratuito serviço público. E basta lembrar a sua regular teorização, de cariz sociológica, do estado da blogosfera portuguesa. Como o homem é uma das maiores figuras do circo opinativo, o Abrupto foi, e continua a ser, uma das mais notáveis bandeiras deste nosso meio. Registe-se, igualmente, a alegria com que explora as funcionalidades tecnológicas e conceptuais dos blogues, respeitando-se a audiência no cuidado posto na animação e renovação dos conteúdos. O gosto pela ciência, e suas aplicações quotidianas e lúdicas, o sentimento de paixão pelo mistério cósmico, explicam mais das suas opções do que a dimensão ideológica. Por fim, a perseverança. Num meio dado a tanta efemeridade, tanto ataque narcísico que aniquila ou multiplica blogues, é de aplaudir a manutenção da entidade, e respectiva identidade, Abrupto.

É, pois, grotesco ver o Abrupto em 18º lugar na categoria Melhores Blogs Portugueses em 2007. E é absolutamente lunática a 10ª posição na categoria Política & Sociedade, atrás do Aspirina B (!!). Que quer isso dizer? Que todos os concursos são exercícios de resultado irrelevante. Num sistema por voto popular, há sempre uns maluquinhos que desequilibram a amostra em favor das suas preferências, repetindo votos e arregimentando votantes. E num sistema com júri, é a lotaria das idiossincrasias reunidas a tomar decisões arbitrárias. No caso deste concurso, os dois sistemas foram utilizados. Tudo explicado.

Espero, porém, que a iniciativa perdure. Pois permite descobertas. E o talento nunca é demais. Como o Abrupto prova à saciedade.

__
* Como avisa o Fernando, JPP escreve na Sábado. Pormenor que não consegue molestar o meu notável trocadilho.