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Borralho do Referendo — “as mulheres”

As mulheres são fodidas. Não sei se, mais de 12 anos após o lançamento d’O AMOR É FODIDO (da então, ainda, coqueluche da alta cultura pop), alguém se perturba com este vernáculo. Seguramente não os responsáveis da SIC que permitiram ao Fernando Rocha um ciclo de glória no débito de palavrões frente às câmaras. Mas a verdade é para ser dita com todas as sete letras, e acontece que as mulheres são fodidas. São fodidas em casa e no emprego. São fodidas de manhã e à noite. São fodidas deitadas e de pé. São fodidas em qualquer lugar, até num referendo.

Alguém disse que, numa cultura onde se venera uma mulher que engravidou sem ter relações sexuais, a sanidade mental na relação entre os géneros nunca mais se iria recuperar. Os paradigmas dualistas, a mulher santa e puta, têm entretido párocos, escritores, artistas plásticos, cineastas, advogados, psicólogos, polícias e taberneiros. Só que nós, herdeiros dos mitos católicos, não somos por isso menos do que os outros, os que não tiveram tal sorte. A condição feminina é vítima do incondicional masculino em todo o Mundo e desde que há memória. O século XX, no tanto que alterou, não resolveu o assunto. As discriminações continuam, como revelam ano a ano os índices comparativos de salários, cargos de chefia empresarial, poder político e, imagine-se, investigação médica. Veremos o que mudará pela força da onda sociológica, quando houver mais mulheres licenciadas do que homens para os mesmos lugares, e as posições forem maioritariamente ocupadas pelo belo (e agora também inteligente) sexo.

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O PÚBLICO mudou; mas para melhor?

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É sempre injusto avaliar mudanças estéticas e conceptuais nos primeiros dias. O choque afecta o entendimento da nova organização. E é igualmente injusto esperar demasiado; injusto para o nosso sentido crítico fatalmente acomodado, entranhada a estranheza. Para começo de conversa, que poderia ser já conclusão, não se ganhou nada de útil ou relevante com a “renovação”. Talvez pelo contrário.

A questão é fascinante: conseguirão os jornais resistir à Internet? O pânico está instalado. Todas as forças apontam para a bancarrota do papel-notícia; onde se incluem as razões evidentes — um jornal diário sai com um dia de atraso num ambiente empanzinado de informação, e isto numa cultura que promove a reacção imediata, que automatiza a cognição, que impõe um modelo restritamente visual e transitivo — e as emoções subterrâneas — um jornal é anti-ecológico, um desperdício que não se recicla e, last but, now, not least, suja as mãos e a casa. Na era da ubiquidade digital, e da instantânea saturação mediática, os diários carregam a vetustez hebdomadária e os semanários evoluíram para embrulhos de revistas. Num certo sentido, a imprensa em papel deixou de veicular noticias, reduziu-se ao comentário (e, com sorte, à investigação, mas já lá vamos). É este o cenário, em versão minimalista, para o drama do PÚBLICO e dos outros jornais generalistas.

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Not Obstante

É um nome que se encontra pouco: Jallapão. Não sei porquê, pois fica no ouvido e merecia ser mais popular. Talvez seja apenas artístico. Aliás, é um nome que nos encontra a nós, se os deuses nos concederem a honra. Jallapão canta e tem vídeos. Jallapão oferece-se também num site. Um site como eu nunca vi outro igual, nem sei se voltarei a ver. Não está em causa ajuizar se este artista canta bem ou muito bem, assim ou assado. Jallapão está acima dessas futilidades. Este exemplo, por exemplo, é o que de melhor tenho visto em vanguarda de videoclips, superando de longe as sugestões do nosso JPC. Constate-se que tudo, mas tudo, é feito para simular um ecrã de televisão a ser filmado. Se isto não for a derradeira definição do pós-modernismo, vou ali e já não venho. Num plano mais pessoal, gostava de dizer que acredito no cantor e nos sentimentos que a letra desta canção expressa. Sim, acredito naquele amor, essa “grande emoção”.

Todavia, não vos iria incomodar apenas por causa do meu gosto. Acontece que Jallapão é um artista que sabe cuidar da imagem, e isto é particularmente importante para essa malta nova que anda a pôr vídeos no YouTube, e sabe-se lá mais aonde. Convoco a vossa atenção para a mensagem que encima os comentários ao vídeo. Repare-se na gentileza do artista, nos bons modos, na clareza com que estabelece um critério que ajuda qualquer um a encontrar o conteúdo dos comentários a fazer; mas, o que me surpreendeu, e do qual ainda não recuperei, foi o cuidado em ter uma versão também em inglês, provando que esta coisa da globalização não o vai apanhar descalço. Ouso dizer que é nesse texto que se descobre a suprema criação de Jallapão, not obstante a vastíssima obra já produzida.

Gandim

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Pode-se procurar aqui, aqui, aqui, e não se acha. Pode-se consultar o Houaiss ou o Dicionário da Academia, nicles. A palavra gandim ainda não se passeia por eruditas paisagens. Mas ela existe desde a minha adolescência (pelo menos). Cresci ao lado da Musgueira (e da Norte, bem pior do que a Sul), dei-me com essa gente, os musgas, a que se juntavam as tribos próximas da Charneca e das Galinheiras, uma cintura urbana de índios. A Musgueira Norte era um pardieiro de barracas, criada pelas deslocações forçadas dos habitantes miseráveis que viviam nos locais afectados pelas obras da ponte, a tal que o povo baptizou Sobre o Tejo para não ter que sujar a boca. Era um território fora-da-lei, engrossado com migrações e imigrações variadas. Era, ’tá visto, um viveiro de gandins.

O termo gandim será (hipótese) um neologismo formado por deriva fonética de gandulo. Adentro dos códigos axio-gramaticais do meio, um gandim seria um gandulo ainda pior. Pior em quê? A ajudar velhinhas a atravessar nos semáforos não seria com certeza, por falta de tempo. Os gandins eram seres atarefados, com uma agenda repleta de assaltos, venda de droga, consumo da mesma, proxenetismo, rixas e vinganças, decoração de interiores. A parte da decoração de interiores talvez até seja a mais relevante; pelo menos, do que me foi dado ver. Entrei em várias barracas da Musgueira, putrefactas ao olhar exterior, de fazer inveja à mentalidade consumista da classe média assim que se passava a ombreira. Lá dentro, avós despachadas e risonhas, rodeadas de electrodomésticos de última geração e outros mimos confortáveis, vendiam saquinhos de pó, ou barrinhas de haxixe, aos meninos betinhos que ali se abasteciam. Faziam-se encomendas de peças de automóvel, rádios, artigos variados e variados serviços. Dizia-se, por exemplo, “quero uma mota assim e assim”, e dias depois ia-se lá levantá-la ou ela era entregue ao domicílio. A Musgueira Norte era uma central de apoio à desburocratização do acesso à riqueza e ao delírio.

Há pouco, descobri com gosto que o vocábulo chegou à Madeira. Alberto João, para as câmaras, confessou inspirar-se num gandim. Não disse qual; mas, como de costume, deve estar a falar de si próprio.

A festa do porco

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A propósito do Ano Novo chinês, o programa Nós, RTP, fez uma reportagem na Escola Chinesa de Lisboa. Entrevistaram petizes, entre os 6 e os 10 anos (suponho), os quais explicaram a seu modo, espontaneamente, a História e cultura dos seus pais e venerandos avós que assim se celebrava. Mas explicaram através de uma alma lusa, com todos os meneios e particularismos léxicos da Língua observáveis numa outra qualquer criança descendente de Afonso. Uma menina até chegou a ficar envergonhada quando nomeou o ano da Cabra, no que foi uma deliciosa prova de domínio semântico. A prosódia perfeita, para mais servida por singular fluência e confiança na expressão, criava um laço imediato que absorvia as diferenças faciais e etnográficas e as integrava na mesma identidade. Aquelas crianças são portuguesas, temos a mesma pátria. Então, os seus pais também podem ser nossos patrícios. E, indo por aí, chegamos finalmente à consciência de que há muita gente em Portugal à espera de cá chegar.

À espera de uma festa, onde se coma e beba bem. Onde se conviva, para viver melhor.

Letters from Iwo Jima — Clint Eastwood

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Vai ver este filme porque:

– Passas menos tempo na blogosfera, o que só te faz é bem.
– Tens uma razão para desligar o computador. Ou o televisor. Ou o DVD. Ou o IPOD. Ou a Playstation. Ou, nalguns casos, isto tudo ao mesmo tempo.
– Sais de casa. E, quando sais de casa, a tua casa agradece, pois as casas também precisam de estar uns tempos a sós.
– Aproveitas a ocasião para convidar um grupinho para ir contigo. Ou aquela pessoa que brilha mais do que o ecrã. E que até pode estar a viver contigo. E que continua a gostar, muito, de convites para ir ao cinema. Especialmente se vierem de ti.
– Recebes, por uma ninharia, magistral obra de arte de um homem que fará 77 anos em Maio, o que lhe deu já algum tempo para ter juízo.
– Aprecias o talento de Ken Watanabe. E o de Kazurani Ninomiya.
– Confrontas-te com uma questão fotográfica: é um filme a cores ou a preto-e-branco? A preto-e-branco não é, a cores não parece. Talvez seja um filme a cores em preto-e-branco.
– Descobres que todos os soldados, independentemente do posto ou do exército, são filhos da mãe. E gostam de o ser.
– Aprendes que a guerra é uma continuação natural da economia. Que a guerra é também uma indústria. E, por fim, uma feira.
– Contemplas esta intuição: sagrado é todo o solo onde vertemos o sangue. Mesmo o sangue invisível, mesmo o solo invisível. E começas a não deixar que te escolham as guerras.

Borralho do Referendo — “ainda ninguém”

Durante a campanha, que começou mediaticamente em Novembro/Dezembro, cada lado apresentou quase todos os argumentos legítimos, e ainda uma imensidade de ilegítimos. Ao se chegar ao período oficial, as últimas duas semanas de intenso e ubíquo debate público, coabitavam a inevitável saturação e um fenómeno curioso: os iluminados de última hora. Tal como em Jerusalém, onde alguns se descobrem Messias antes de se descobrirem internados, foi comum encontrar personalidades que usaram profeticamente a fórmula “ainda ninguém”, seguida de vocábulos variáveis relativos a pensamentos e discursos inauditos. Foram protagonistas de súbita iluminação, onde estaria em causa ver o problema segundo um especialíssimo ponto de vista — o seu, acabadinho de pensar e de imediato revelado. Eram argumentos com ferro decisório para converter o opositor ou reduzi-lo a má vontade. O Fernando até nos deixou (involuntariamente) um exemplo disto, vindo da pena de Miguel Sousa Tavares. Mas eu assisti a vários, o mais caricato deles com a Clara Pinto Correia. A senhora começou a berrar e a agitar furiosamente os braços, provocando um vórtice de pânico que os restantes participantes nesse debate, mais respectiva jornalista, deixaram gravado nos seus lívidos e paralisados rostos.

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Magna Magnani

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Nesta sexta-feira passou na Cinemateca L’Amore, de Roberto Rossellini. Sala cheia e vedetas, Paulo Rocha em cadeira de rodas, João Botelho bonacheirão, outros da indústria, outros do circuito, outros. Todos para ver dois filmes num; mas o melhor é escrever “dois filmes numa”, Anna Magnani a uni-los. O primeiro, Una Voce Umana, é a adaptação do texto de Jean Cocteau, La Voix Humaine (1930). São 35 minutos de rosto. Nesse rosto há uma voz, contínua, opressiva, desesperada — precisa é de ser vista, a voz, para se conseguir escutar. O segundo, Il Miracolo, tem argumento de Fellini; o qual também se estreia na representação, algo que só iria repetir em 1982. É um marco na história do cinema, um milagre este Miracolo, por mais razões do que aquelas que me cabem no verbo e no texto.

Uma pobre de espírito, indigente, delirante, cruza-se com um melífluo sátiro, mudo e quedo, que a embriaga e viola. Descobrindo-se grávida, reclama uma paternidade divina, incônscia outrora agora. A comunidade humilha-a, não quer santos na terra. E agride, expulsa a louca. Ela foge para as alturas, para o refúgio de uma igreja. Mas, nas alturas, até as igrejas estão vazias. É a solidão completa. E nela, na solidão dela, nasce a alegria. Não do seu corpo, mas pelo seu corpo. Do seu corpo só o seio que tira para dar a uma boca que chora e faz rir de espanto.

Ter este filme alegórico, telúrico e superlativo — uma narrativa que se corta no fio da navalha que atravessa e cujo sangue escorre em nós; filme intempestivo do fundador do neo-realismo, realizado 2 ou 3 anos depois do fim da Segunda Guerra — sido exibido nas vésperas do referendo, só acrescentou pathos e pungência ao momento.

Há um certo tipo de opinião que reprova as escolhas de Bénard da Costa para a Cinemateca, ou seja lá para o que for. É uma opinião que se crê culta, mas não o é, que não gosta de filmes anteriores a 1960, porque nem sequer os entende, e que talvez um dia se imponha autoritária. Por isso, porque o Diabo anda sempre a tecê-las, o melhor é ir à Cinemateca no dia 21 do corrente. Volta L’Amore, volta uma experiência de um tempo em que ainda havia pessoas e quem as filmasse.

Anna Magnani, a mais funda expressão do feminino no cinema? Sim, claro. E transparente.

Com 8 anos e 8 meses de atraso

Recordo-me bem da surpresa da vitória do NÃO em 98. Ninguém imaginou que tal fosse possível, tirando os que nada percebem das situações onde se encontram. O voto da rua, a minha — urbana, jovem, classe média —, era maciçamente pelo SIM. Quem se anunciasse pelo NÃO era visto com estranheza, até repúdio, como se fosse um anacronismo ambulante e falante. Não fazia parte do Portugal da Expo 98, do aparecimento da Optimus com a promessa de telemóveis para todos, da feérica abundância consumista de Guterres. E tal estado de ausência de espírito era também uma consequência da demissão dos nossos pais, os quais se tinham alheado da discussão desde sempre, desde a educação em casa que nunca fizeram. Por outro lado, a ideia de que Portugal era um país católico configurava uma grotesca anedota. Portugal já não é católico, sequer cristão, desde o século XIX, desde 1820 — e é para ser brando, pois o povo, em nenhum período da nossa História, se mostrou muito católico, e as elites ainda menos. Acontecia, apenas, que as igrejas e os clérigos faziam parte da economia e da vida social; coisa bem diferente de terem sido influenciadores de ideias e comportamentos, pois não o foram. Não havia estádios, cinemas, televisão, discotecas, centros comerciais, havia igrejas, missas, festas religiosas. Era só isto, não tem mistério.

Pois a rua não mostrava transcendência, e a única imanência era a da mulher grávida, senhora da vida e da morte. Por isso as sondagens diziam em 1998 o que os resultados deste domingo de 2007 repetiram: a maioria dos portugueses, se obrigada a tomar uma decisão, escolheria a despenalização total do aborto. Tudo bem, venceu a democracia, dirão os democratas. E se o NÃO tivesse ganho? Alguns dos que na noite passada louvaram o discernimento dos portugueses votantes teriam vindo falar em manobras e conspirações das forças ocultas, não teriam sido capazes de encontrar uma vitória comum na sua derrota pessoal. Também o ódio surdo à democracia faz parte da democracia, essa fêmea que a todos alimenta.

E agora? Agora, alegremo-nos com a subida da participação num referendo. Portugal não tem uma cultura de discussão intelectual, apenas de conflito pífio. As mudanças geracionais demoram gerações a acontecer, se não estou em erro. Por isso, haja paciência, a maior de todas as virtudes. Demora — e pede um tipo especial de intelectual — a criar uma comunidade de pensadores. Os pensadores precisam de aliar ao consumo da informação a disponibilidade para sacrificar o seu produto. Os debates são verdadeiras lutas, onde se corre o risco de se ser ferido numa convicção, ver mutilado um raciocínio, morta uma ilusão. Entretanto, nem a escola, nem a universidade, nem a imprensa se interessaram por ensinar os portugueses a pensar. Claro, os políticos ainda menos se interessam, pois os nossos actuais políticos sobrevivem à custa da manutenção do charco onde sobra em lama o que falta em profundidade. Acreditei, e ainda acredito, que os blogues podem contribuir para essa causa do crescimento intelectual. Daí, os textos reflexivos e polémicos que foram saindo, e vão continuar a sair, relativos a estas fascinantes temáticas da nossa vida comunitária.

Quanto ao aborto, todas as boas vontades estão unidas nos mesmos propósitos, e o futuro assim o mostrará; pouco importando onde deixaram hoje a cruz, ou para onde a carregaram.

Esta, NÃO; outra, SIM

A nossa classe política voltou a prestar-nos um péssimo serviço, e escolheu uma pergunta errada para ir a referendo. Sabemos que a pergunta está errada quando vemos pessoas de bem, e cabeças de excelência, em lados opostos da querela, a darem o melhor de si enquanto intelectuais e cidadãos, sem lobrigarem qualquer acordo — sem conseguirem negociar uma solução. A pergunta, que vamos referendar pela segunda vez, é uma pergunta discriminatória e irresponsável, pelas razões que o debate explanou. Então, que redacção deveria aparecer no boletim, amanhã?

Por exemplo, assim:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção dos progenitores, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Aquilo que é do conhecimento até de animais e plantas, que há mais de 2000 anos que não se regista uma imaculada conceição, foi obliterado da problemática; numa desconcertante e perversa lógica que premeia o já absentista comportamento masculino. A pergunta a votos deposita na opção da mulher o fardo da decisão, parecendo (a tantos!) que esse poder assim consignado é libertador. Que cruel ilusão.

Para lá de ser grotesco estar a excluir o progenitor de todo o processo decisório, pois nem sequer teria de ser consultado ou reparado, o maquiavélico propósito confirma a actual discriminação: o aborto é um problema da mulher, e pronto. Resolve-se no hospital, na faca.

Alguns são rápidos a apresentar argumentos inanes, como esses relativos a eventuais progenitores ausentes ou desconhecidos, etc. Outros atacam com as situações de conflito aparentemente insanável, onde o homem procuraria obrigar a mulher a levar avante uma gravidez malquerida, ou o inverso. Estrebucham como se não houvesse soluções éticas para os casos concebíveis. Como se o edifício legal não fosse mastodôntico precisamente por querer cobrir todas as alternativas e procurar ter respostas bondosas segundo uma hierarquia de valores constitucional. Como se não fosse óbvio que as excepções devem confirmar a regra. Enfim, há mesmo quem não pense antes de falar e escrever, e continue a não pensar depois de ouvir e ler.

Mas ainda poderíamos ter uma melhor pergunta:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção dos progenitores, em resultado de acto médico, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Quem se lembrou de referendar um período de tempo, qualquer que ele fosse, ou é um patusco a gozar com a malta ou um tonto perigoso. Como podemos nós, leigos em tudo o que diga respeito a uma aferição do que está em causa no calendário abortivo, decidir em consciência? Que raio de pergunta é esta que nem sequer consegue unir os especialistas quanto às implicações das semanas escolhidas? Só este aspecto da questão, se todos votassem em honesta consciência, teria de levar à rejeição, pois é imoral concordar com uma premissa da qual se desconhecem as consequências.

O que haveria a fazer seria confiar à medicina e aos médicos o ónus da decisão. Imediatamente se esvaziaria o absurdo sobre o qual querem que tenhamos opinião decisiva.

E, finalmente, podíamos ter tido a felicidade de encontrar a melhor de todas as perguntas, e aquela à qual só se poderia responder SIM:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção dos progenitores, em resultado de acto médico, num estabelecimento de saúde legalmente autorizado, e após consulta de apoio à decisão?

É isto que todos os justos querem, sejam do SIM ou do NÃO, crentes ou descrentes, mulheres e homens: que todas as mulheres que pretendam interromper a gravidez possam recolher esclarecimentos clínicos legítimos e apoios estatais de promoção da natalidade, tanto psicológicos, como sociais e até financeiros. E, de preferência, que estejam acompanhadas pelo progenitor, o qual é tão responsável pela gravidez como a mulher. Porque o maior de todos os problemas começa no isolamento da mulher que está em conflito com a sua gravidez. E esta pessoa, por todas as razões, encontra-se em risco elevadíssimo de errar.

Precisando: os progenitores exporiam o seu caso, podendo defender a opção de abortar. Se, após o processo de esclarecimento e avaliação por técnicos especializados, os progenitores continuassem decididos a abortar, bastaria que estivessem na posse das suas faculdades mentais para o fazerem. Aí, o Estado estaria a conferir o direito de abortar por troca com o dever de justificar e assumir a responsabilidade pela morte provocada. Parece altamente pedagógico, dissuasor do aborto e um incentivo à gravidez segura e digna.

Acima de tudo, parece o mínimo. Isto, quando pensamos no modo como o nosso dinheiro se esvai pela má gestão abaixo e pela corrupção acima. Parece o mínimo, e nem isso temos ou vamos ter. Coitados.

Vital

Por causa de um comentário da Cristina, participante nesta discussão, colhe enfrentar o artigo de Vital Moreira, há dias saído no PÚBLICO. A tese é a de que a penalização não é eficaz na diminuição do número de abortos, só contribuindo para a indignidade do aborto clandestino e para a ausência de acompanhamento profissional das mulheres. Uma tese basilar do SIM, já conhecida de todos e bastamente argumentada. Que torna interessante, mesmo fascinante, o texto do famoso professor?

Agarrando o boi pelo cornos, temos uma autoridade em direito, e direito constitucional (!), a dizer-nos que isto da lei e das leis é uma coisa má. Não me engano, e é passagem que encerra o artigo:

Do que se trata é de saber se as primeiras [mulheres que querem preservar gravidezes indesejadas] podem impor às segundas [mulheres que não querem preservar gravidezes indesejadas] as suas convicções morais e religiosas, não com a sua capacidade de persuasão, mas sim com a ajuda do Código Penal e a cominação de prisão. É essa a diferença entre o “sim” e o “não”.

Eis mais uma das sínteses que os obreiros da opinião publicada se sentem impelidos a fazer nesta recta final. Mas eis uma síntese que abre a caixa de Pandora donde saem os monstros mais grotescos; pois podemos aplicar o mesmíssimo raciocínio a outras práticas igualmente criminalizadas por razões que só se explicam moralmente ou por herança religiosa (por exemplo, a eutanásia, o incesto**, a poligamia, a pedofilia, o consumo de drogas**, a ofensa, mesmo o roubo — entre tantos outros casos, onde se inclui toda a temática da assistência social em geral, seja por obra do Estado ou de instituições e pessoas particulares). Segundo Vital Moreira, por razões nunca explicitadas, a decisão de executar o feto não deve ser passível de um consenso comunitário. Um Estado não deve ter opinião, interesses jurídicos ou políticos, quanto à viabilidade da existência dos seres humanos até às 10 semanas. Porquê? Porque — lê-se e não se acredita que tal possa ser dito por quem o diz — o direito do feto a sobreviver durante os primeiros dois meses e meio da sua vida não passa de uma convicção moral e religiosa que só obriga quem a tem. Trata-se de uma lotaria. Se o feto calha aparecer em útero moralizado e religioso, estará garantido. Se calha escolher útero mais progressista e todo desempoeirado de avoengas sensibilidades, está feito; isto é, desfeito. Fait vos jeux.*

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Novos Portugueses

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Há uma geração de portugueses, agora na viragem para os 30 anos, que nasceu depois do 25 de Abril. Juntam a essa característica outras tão ou mais relevantes, como o convívio desde os cueiros com as novas tecnologias da computação, diversão e comunicação. E, ainda por cima, não têm estudos superiores (sequer inferiores) em cultura clássica, tradições humanistas, formação científica. Não se interessam por política, não gostam de touradas, nunca leram a Bíblia. E eu tenho a sorte de me dar com alguns deles, alguns que são particularmente talentosos.

É o caso do Nuno Baltazar, um dos mais interessantes dos novos artistas/designers portugueses. Acho que é dos mais interessantes porque sou amigo dele. É muito simples justificar o meu gosto. Porém, pode dar-se o caso de eu não estar só nessa opinião. Haveria coincidências mais estranhas.

Esta pergunta, e não outra (II)

O Fernando fintou a sovinice (e pouca visão comercial, mas esse é outro assunto) do PÚBLICO e deu a ler, a quem ainda não o tivesse feito, a última crónica de Rui Tavares. Ainda bem para nós, e ainda bem para mim que vou aproveitar a oportunidade. O texto em causa termina com um repto:

O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.

De facto, o homem tem razão. Entretanto, aqui já desenvolvi os pressupostos do meu voto. Agora, especificarei adentro dos significados da pergunta. Ei-la:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Rui Tavares explicou-nos que a pergunta é directa, razão para se ser honesto na resposta. Claro que não convém ir incomodar o esforçado articulista com a nossas dúvidas quanto à sua noção de honestidade. Não que ele esteja privado da mesma, que é carência que nem me permito pensar existir, apenas acontece estar aqui em causa uma concepção de honestidade que poderá ser divergente da minha, da nossa, da de cada um. Como não ficou definida, não se sabe. Mas, adiante, ultrapassemos a dilacerante interrogação e usemos a prata da casa, a minha humilde noção do que seja a honestidade.

E, para dar uns ares de Rui Tavares, vou também tentar explicar o óbvio: ser honesto, cá comigo, é não mentir. Não mentir, que fique claro, é ser honesto. Diria ainda mais: há uma impossibilidade ética na simultaneidade do estado honesto com o acto mentiroso. Espero estar a ser fiel ao estilo ruitavariano, um estilo que me lembra muito o maior legado do Poder Local ao País, logo a seguir à corrupção: as rotundas.

Ora, posto que eu não quero mentir, por que razão haveria de concordar com a interrupção voluntária da gravidez, fosse lá por opção de quem fosse, fosse lá quando fosse e fosse lá onde fosse? É de resposta directa: não devo concordar com aquilo que não me está a ser apresentado, explicitado, justificado. Se eu concordasse às cegas, de cruz, estaria a ser cúmplice de todas as interrupções de gravidez feitas nas tais circunstâncias — mas onde se poderiam incluir algumas que me tirassem o sono, ou a dignidade, ao concordar com elas; que poderiam ser barbaridades, até crimes contra a humanidade. Assim, sendo coerente com o propósito de não invalidar a pergunta degradando a sua lógica, como ensina Rui Tavares, o melhor para a minha honestidade é não concordar.

Outro exemplo. A pergunta remete para a opção da mulher, conferindo-lhe o exclusivo da decisão. Que diabo… Então, e eu? Quero eu que a mulher grávida do meu filho, filha ou filhos, possa abortar por sua solipsista iniciativa? Claro que não! Eu não quero alienar a minha paternidade. Guiando-me pelo avisado conselho de Rui Tavares, que frisou estar apenas em causa a capacidade para dar uma resposta honesta, é evidente que tenho de discordar.

Último ponto. Na pergunta estipula-se o limite das 10 semanas. Mas todos concordam que este limite é um arbítrio, seja lá qual for o ponto de vista sobre ele — científico, médico ou jurídico. Nem para os defensores do SIM este limite parece ser bom, pois conduz a absurdos trágicos ou a práticas ilegais: i) 10 semanas e 1 dia já será crime; ou; ii) 10 semanas e algum tempo mais, não limitado e segundo o critério de cada médico, não será crime. Pois não vou ser eu a esclarecer a trapalhada. Se os doutores dos calhamaços não se entendem entre si, como poderei alinhar com uma condição temporal que não sei donde vem nem porquê? Lamento, mas está em causa a minha honestidade, como lembra tão a propósito Rui Tavares, e como tal eu seria um mentiroso se concordasse com a pergunta.

Rui Tavares, obrigado pela tua clarividência.

Talvez

Estava nas mesas de voto em 98. Comecei a ser chamado em meados dos anos 80 e deixei de receber a carta assim que as convocações passaram a ser pagas. Mas nesse Verão ainda não se recompensavam míseras ganâncias, ainda era o tempo dos que ofereciam o seu tempo, dedicação e responsabilidade à democracia. Por isso, foram poucos os que apareceram. Tão poucos que foi necessário juntar diferentes mesas de voto em salas comuns, por falta de gente até para cumprir os serviços mínimos. E tão poucos os que foram votar que o Colégio S. João de Brito parecia assombrado, os longos e escuros corredores silenciosos. No bar atendiam-nos ao chegar. Nunca lá houve domingo de votos mais desolador.

Continuar a lerTalvez

Revelação literária de 2007 & Grande Português

Duas semanas com o computador avariado contribuíram para variadas experiências alternativas ao gasto habitual, uma delas a leitura de livro que me deu a conhecer aquele que é já o meu Prémio Revelação Literária para o corrente ano, venha quem vier a seguir. Ao mesmo tempo, a figura entra directamente para a tabela dos meus portugueses favoritos. Estou vencido da vida, a dele, mas não estou só. Para Ramalho Ortigão, este autor foi o português mais brilhantemente completo do seu tempo.

O meu português favorito é o Fernando Pessoa. E é também o Camões. E o Agostinho da Silva. E o padre António Vieira. E o Alexandre O’Neill. E o Ary dos Santos. Casos estes em que Portugal foi essência, não acidente. Agora acrescento Francisco Manuel de Melo Breyner, Conde de Ficalho. O que li foram dois contos, inclusos no livro CONTOS DE OITOCENTOS, Fronteira do Caos Editores, 2006. Trata-se de uma antologia que reúne peças de Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão, Maria Amália Vaz de Carvalho, entre outros. O elenco lê-se mais por curiosidade histórica e sociológica do que por proveito literário, contribuindo para o choque da descoberta que me estava reservada a partir da página 161.

O primeiro conto, Mais Uma: Cenas de Província, é o levantamento meticuloso do processo através do qual uma rapariga se decide prostituir por influência da mãe e da miséria. O segundo conto, A Caçada do Malhadeiro, é uma apologia da vingança de morte quando a honra está em causa. Em ambos, a mesma visão naturalista; seja pelo rigor das descrições fenoménicas, seja pela composição cénica, seja pela credibilidade dialógica, seja pelo preciosismo psicológico, seja pela ausência de Deus e dos deuses (ou seja, a ausência da moral e do castigo).

O domínio da técnica narrativa parece-me exemplar. O léxico está ao serviço de um impressionismo contido, mas tão intensamente gravado que se torna tangível, fotográfico, exacto. Somos levados para dentro de cenas em movimento. Somos levados para dentro das pessoas e dos seus movimentos. De tudo se gosta, tudo é natural, está aí. O rico que tenta comprar um corpo jovem está apenas a cumprir o seu papel, a ser coerente com o seu poder; e até oferece contrapartidas benéficas, legitimadas pela comunidade. E o pai que massacra 8 soldados franceses, com a ajuda do filho adolescente, é bom e amoroso, terno; santo. É que um homem deve morrer como um porco, se o for.

Nunca me tinha acontecido: ao acabar a leitura do segundo conto, voltei de imediato a ler o primeiro. E ainda não parei de recomeçar. É assim como ir passear ao Jardim Botânico e ter muita pena de sair.

Fiama, essa ilustre desconhecida (1938-2007)

INFÂNCIA

Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.

Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo de flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.

Três Rostos

Habemus Conan!

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A SIC Radical atendeu às preces de todos os fiéis da SIC Comédia actualmente espoliados pela TV Cabo: foi reposto o consumo diário desse anti-depressivo chamado Conan O’Brien. Agora, resta-nos continuar a rezar para que a farmacopeia se complete com o Jay Leno, o que faria da SIC Radical o canal mais desopilante do universo mediático: Conan, Jay e Jon Stewart, uma diabólica trindade da comédia e da cultura americana, à americana.

Entretanto, alguém tem de ter uma conversa com o Rui Unas. Vem de um fracasso rotundo, O Novo Programa do Unas, e meteu-se numa rotunda destinada ao fracasso, O Show do Unas. A unir os dois programas, o mesmo equívoco: o Unas. Neste novo projecto há uma tentativa de renovar a stand-up através de acrescentos e manipulações. O resultado é um híbrido que depende do texto, pois os limites histriónicos do Rui são já usados no limite da capacidade; e, naturalmente, não chegam. Então, acontece a infelicidade: o texto é fraco, e muito fraco. Em harmonia com essa lacuna, assistimos à maior e mais usual pecha nas tentativas de comédia: a condescendência, a displicência. Os autores e actores, quando nesse registo, apresentam-se ofuscados por si próprios, ignorando a técnica e o conteúdo, permitindo-se a constante auto-referência. É o que se vê em todos os episódios, o ponto donde se parte, o objectivo redundante a que se chega. Para salvar uma ideia que pode ainda funcionar, é preciso encontrar um ponto de vista, um território, uma mensagem que estabeleça ligações com o público. Enquanto o Rui nada tiver para dizer, o Unas não justifica um show.

Em contraste absoluto, podemos finalmente desfrutar do único programa verdadeiramente radical da SIC Radical: Vai Tudo Abaixo. Nuno Duarte/Jel revela-se exímio na performance de rua, na temática caricatural, na panóplia de figuras, nos detalhes da caracterização, no timing da comédia, na equipa de secundários protagonistas e na eficácia da realização. É tudo do bom e do melhor, como ainda não se tinha visto em Portugal, de facto. Só para dar um exemplo, é provável que a personagem Ruce faça mais pela prevenção do consumo de drogas do que todas as campanhas oficiais juntas até agora. E fica também o marco histórico de, pela primeira vez, se fazer humor com o folclore esquerdista. Estamos a ficar crescidinhos.