Arquivo da Categoria: Valupi

Volare

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Um preconceito, ferozmente instituído pelos mesmos que nos anos 50 e 60 começaram a transformar a velhice em estigma e a morte em tabu, acaba de levar um tiro certeiro num dos motores, podendo vir a despenhar-se no futuro próximo. A American Academy of Neurology acaba de publicar os resultados de um estudo de 3 anos com mais de 100 pilotos de aviação. Objectivo: comparar as capacidades dos pilotos em relação à diferença de idades, cujos limites foram de 40 e 69 anos. Descoberta: se os mais novos começam por obter melhores resultados, os mais velhos acabam por conseguir os melhores desempenhos ao longo do tempo. Tendo em conta que pilotar um avião requer mais competências cognitivas do que as exibidas usualmente pelos nossos políticos, patrões e jornalistas, a descoberta é relevante para todo o mercado de trabalho e demais funções públicas.

Para além da inteligência cristalina, temos agora a inteligência cristalizada. A qual pode levar a altos, e seguros, voos.

Define a tua espiral

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Fernando Pessoa é um português como nunca houve, nem ele. Viveu pouco, se medirmos o tempo; viveu demais, se conhecermos a obra. Não precisou de viajar para Paris, Londres ou Nova Iorque em ordem a vangloriar-se de ser moderno, de ter conhecido a civilização. Ele foi, nos passeios da Baixa e margem do Tejo, uma civilização oblíqua.

Pessoa não é só o gigante literário que envergonha o falante de língua portuguesa que nunca o leu, nem a personalidade prolixa que trabalhava em escritórios, ilustrava tertúlias, fazia horóscopos, matava-se com aguardente e escrevia cartas de amor absolutamente ridículas. Também foi um publicitário, um supremo criador a fingir de vulgar criativo. E quis a ironia das circunstâncias que trabalhasse a marca mais importante na História das marcas, a Coca-Cola. O Quinto Império ao serviço do novo imperialismo, o consumo.

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T.P.C.

O Traz o PÚBLICO para Casa de hoje justifica-se pela leitura do que Francisco Teixeira da Mota oferece à Nação. Um dia, mas quando?, a melhor parte de nós vai querer começar a salvar Portugal pela Justiça. Até lá, é a palhaçada.

Die Grosse Stille — Philip Gröning

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Por vontade desse semideus chamado Paulo Branco, quem for ao NIMAS passar os 169 minutos de O Grande Silêncio, e ficar o tempo todo sentado naquelas cadeiras, vai sofrer mais do que os sacrificados monges cartuxos que cirandam pelo ecrã. Que é feito dos intervalos? Nem num filme de quase 3 horas se permitem 10 minutos para aliviar o stress muscular, metabólico e mental? A estupidez da ganância cega os distribuidores para as evidências. Há um público de milhões que pode frequentar os cinemas. Essa gente é constituída pelos mais díspares indivíduos, mas comunga de um desejo que a todos une: o gosto dos outros. Ir ao cinema, mesmo quando se vai sozinho, é uma experiência comunitária. Tem elementos rituais que são análogos aos das celebrações eucarísticas. Num lado como no outro, ficamos ao lado de estranhos, calados e reverentes. Uma corrente afectiva atravessa esses agrupamentos e todos se influenciam, todos se permitem ficar na dependência uns dos outros (e cada vez mais, por causa dos telemóveis que não se desligam). Ora, na missa católica há um momento em que somos convidados a cumprimentar e celebrar a presença de quem está à nossa volta. É sempre um momento forte; e, num certo sentido, é o que de mais importante acontece dentro do templo. No cinema, durante décadas, esse momento de celebração comunitária acontecia no intervalo. Corria-se para os cafés, para os lavabos, para os cigarros, para as conversas e para os olhares. Os intervalos eram ocasiões de sedução e de pães-de-leite com fiambre. Guardo recordações dos pães-de-leite com fiambre do TIVOLI que rivalizam em fervor religioso com descrições extasiadas da Capela Sistina.

Ir ao cinema, depois dos anos 70, perdeu glamour. Entra-se a correr, sai-se a correr, e em muitas salas fica-se refém das mandíbulas apipocadas. A redução da escala monumental das telas, que nos anos 80 e 90 ameaçou exibir os filmes em alguma coisa pouco maior do que o tamanho de um televisor, é um crime de lesa cinefilia. O mal que se fez à criação de um público fiel escusa de ser demonstrado. Contudo, ir ao cinema (e não só, como é óbvio, mas dele se trata nesta ocasião) é um acto que voltou a poder ser recuperado pela dimensão política. Agora, já libertos da chancela esquerdista que animou os cineclubes (embora com singulares excepções) e as elites da crítica durante os anos 60 e pós-25, o cinema oferece-se como manifestação de uma nova resistência. A resistência contra os imbecis.

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Calicracia

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A palavra calicracia não existia antes de eu a ter inventado. É, pelo menos, uma ilusão que defenderei com unhas e dedos. E inventei-a para falar do reinado da candidata à Presidência francesa, Ségolène Royal. Quer ela vença ou perca a eleição, já ganhou. Ganhou a atenção dos jornalistas, dos homens, das mulheres e dos intelectuais de cepa clássica mais avessos a questões superficiais.

O que é novo na candidatura de Ségolène não é a temática do género. Mulheres com poder sempre existiram em alguns períodos da Historia, da mais antiga à mais recente. Nem sequer a coincidência de se ver a Alemanha, a França e os Estados Unidos com mulheres em posições cimeiras do sistema republicano será o que mais releva. A absoluta novidade, no caso da candidata socialista, consiste na primazia dada ao seu aspecto físico.

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Derrota

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Este foi o ano em que se impôs como obrigação moral da indústria cinematográfica americana atribuir o Oscar a Scorcese. Tratou-se de um movimento que assumiu contornos de cause célèbre, e de facto. Ora, o filme premiado não o justifica. Tirando o asqueroso Babel, é inferior a toda a concorrência. Um filme que se vê e se esquece, dando-se por bem empregado o tempo passado, mas é obra sem génio ou momentos de génio.

Para os poucos (na última contagem, restavam dois em todo o mundo conhecido, e lembro que já se conhece o mundo todo) que ainda esperam dos 5.830 eleitores da ACADEMY um qualquer critério racionalmente artístico, esta é a última chamada para a realidade. Os nomeados são apenas os beneficiários de um sistema que funciona tal e qual como a Misericórdia. Todos os anos há um orçamento de prémios para distribuir por quem der mais, e todos os anos há que escolher novos sortudos. Não tem nada a ver com qualidade, acontece é a qualidade conviver feliz com quem lhe paga mais, daí as eventuais coincidências. E são esses, os que pagam, que tentam também comprar os membros que têm os canivetes e os queijinhos na mão, usando um marketing desenhado para o efeito. O investimento mais do que compensa, pois o filmes nomeados e premiados ganharão um acrescento de rendimentos, directos e indirectos — estes últimos ainda mais importantes, pois valem negócios futuros.

Para mim, ver Martin Scorcese Oscar-dependente é triste. Porque é banal, venial. É uma ofensa, mesmo que involuntária, à memória dos que nunca entraram na história dos premiados e em cujas obras está o melhor da História do cinema. Do Raging Bull não esperava esta derrota.

Feeling the feeling

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É um ilustre anónimo, de quem tenho a sorte de ser amigo. Designer gráfico de profissão, poeta à solta por vocação. Os seus versos são visões alucinantes que compõe com a rudimentar câmara de um telemóvel. Luís Castro mostra-nos que a beleza é excessiva, mas por estar em todo o lado. Ou por estar nele, que a recria por onde passa.

No seu non friction, logo abaixo do nome, encontra-se uma citação retirada de um diálogo do THE SINGING DETECTIVE, a única série televisiva que merecia ganhar óscares, e muitos. Só por esta secreta celebração, já apetece lá entrar. Pelas imagens fotográficas que parecem pinturas pós-realistas, não apetece sair.

Borralho do Referendo — “as mulheres”

As mulheres são fodidas. Não sei se, mais de 12 anos após o lançamento d’O AMOR É FODIDO (da então, ainda, coqueluche da alta cultura pop), alguém se perturba com este vernáculo. Seguramente não os responsáveis da SIC que permitiram ao Fernando Rocha um ciclo de glória no débito de palavrões frente às câmaras. Mas a verdade é para ser dita com todas as sete letras, e acontece que as mulheres são fodidas. São fodidas em casa e no emprego. São fodidas de manhã e à noite. São fodidas deitadas e de pé. São fodidas em qualquer lugar, até num referendo.

Alguém disse que, numa cultura onde se venera uma mulher que engravidou sem ter relações sexuais, a sanidade mental na relação entre os géneros nunca mais se iria recuperar. Os paradigmas dualistas, a mulher santa e puta, têm entretido párocos, escritores, artistas plásticos, cineastas, advogados, psicólogos, polícias e taberneiros. Só que nós, herdeiros dos mitos católicos, não somos por isso menos do que os outros, os que não tiveram tal sorte. A condição feminina é vítima do incondicional masculino em todo o Mundo e desde que há memória. O século XX, no tanto que alterou, não resolveu o assunto. As discriminações continuam, como revelam ano a ano os índices comparativos de salários, cargos de chefia empresarial, poder político e, imagine-se, investigação médica. Veremos o que mudará pela força da onda sociológica, quando houver mais mulheres licenciadas do que homens para os mesmos lugares, e as posições forem maioritariamente ocupadas pelo belo (e agora também inteligente) sexo.

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O PÚBLICO mudou; mas para melhor?

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É sempre injusto avaliar mudanças estéticas e conceptuais nos primeiros dias. O choque afecta o entendimento da nova organização. E é igualmente injusto esperar demasiado; injusto para o nosso sentido crítico fatalmente acomodado, entranhada a estranheza. Para começo de conversa, que poderia ser já conclusão, não se ganhou nada de útil ou relevante com a “renovação”. Talvez pelo contrário.

A questão é fascinante: conseguirão os jornais resistir à Internet? O pânico está instalado. Todas as forças apontam para a bancarrota do papel-notícia; onde se incluem as razões evidentes — um jornal diário sai com um dia de atraso num ambiente empanzinado de informação, e isto numa cultura que promove a reacção imediata, que automatiza a cognição, que impõe um modelo restritamente visual e transitivo — e as emoções subterrâneas — um jornal é anti-ecológico, um desperdício que não se recicla e, last but, now, not least, suja as mãos e a casa. Na era da ubiquidade digital, e da instantânea saturação mediática, os diários carregam a vetustez hebdomadária e os semanários evoluíram para embrulhos de revistas. Num certo sentido, a imprensa em papel deixou de veicular noticias, reduziu-se ao comentário (e, com sorte, à investigação, mas já lá vamos). É este o cenário, em versão minimalista, para o drama do PÚBLICO e dos outros jornais generalistas.

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Not Obstante

É um nome que se encontra pouco: Jallapão. Não sei porquê, pois fica no ouvido e merecia ser mais popular. Talvez seja apenas artístico. Aliás, é um nome que nos encontra a nós, se os deuses nos concederem a honra. Jallapão canta e tem vídeos. Jallapão oferece-se também num site. Um site como eu nunca vi outro igual, nem sei se voltarei a ver. Não está em causa ajuizar se este artista canta bem ou muito bem, assim ou assado. Jallapão está acima dessas futilidades. Este exemplo, por exemplo, é o que de melhor tenho visto em vanguarda de videoclips, superando de longe as sugestões do nosso JPC. Constate-se que tudo, mas tudo, é feito para simular um ecrã de televisão a ser filmado. Se isto não for a derradeira definição do pós-modernismo, vou ali e já não venho. Num plano mais pessoal, gostava de dizer que acredito no cantor e nos sentimentos que a letra desta canção expressa. Sim, acredito naquele amor, essa “grande emoção”.

Todavia, não vos iria incomodar apenas por causa do meu gosto. Acontece que Jallapão é um artista que sabe cuidar da imagem, e isto é particularmente importante para essa malta nova que anda a pôr vídeos no YouTube, e sabe-se lá mais aonde. Convoco a vossa atenção para a mensagem que encima os comentários ao vídeo. Repare-se na gentileza do artista, nos bons modos, na clareza com que estabelece um critério que ajuda qualquer um a encontrar o conteúdo dos comentários a fazer; mas, o que me surpreendeu, e do qual ainda não recuperei, foi o cuidado em ter uma versão também em inglês, provando que esta coisa da globalização não o vai apanhar descalço. Ouso dizer que é nesse texto que se descobre a suprema criação de Jallapão, not obstante a vastíssima obra já produzida.

Gandim

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Pode-se procurar aqui, aqui, aqui, e não se acha. Pode-se consultar o Houaiss ou o Dicionário da Academia, nicles. A palavra gandim ainda não se passeia por eruditas paisagens. Mas ela existe desde a minha adolescência (pelo menos). Cresci ao lado da Musgueira (e da Norte, bem pior do que a Sul), dei-me com essa gente, os musgas, a que se juntavam as tribos próximas da Charneca e das Galinheiras, uma cintura urbana de índios. A Musgueira Norte era um pardieiro de barracas, criada pelas deslocações forçadas dos habitantes miseráveis que viviam nos locais afectados pelas obras da ponte, a tal que o povo baptizou Sobre o Tejo para não ter que sujar a boca. Era um território fora-da-lei, engrossado com migrações e imigrações variadas. Era, ’tá visto, um viveiro de gandins.

O termo gandim será (hipótese) um neologismo formado por deriva fonética de gandulo. Adentro dos códigos axio-gramaticais do meio, um gandim seria um gandulo ainda pior. Pior em quê? A ajudar velhinhas a atravessar nos semáforos não seria com certeza, por falta de tempo. Os gandins eram seres atarefados, com uma agenda repleta de assaltos, venda de droga, consumo da mesma, proxenetismo, rixas e vinganças, decoração de interiores. A parte da decoração de interiores talvez até seja a mais relevante; pelo menos, do que me foi dado ver. Entrei em várias barracas da Musgueira, putrefactas ao olhar exterior, de fazer inveja à mentalidade consumista da classe média assim que se passava a ombreira. Lá dentro, avós despachadas e risonhas, rodeadas de electrodomésticos de última geração e outros mimos confortáveis, vendiam saquinhos de pó, ou barrinhas de haxixe, aos meninos betinhos que ali se abasteciam. Faziam-se encomendas de peças de automóvel, rádios, artigos variados e variados serviços. Dizia-se, por exemplo, “quero uma mota assim e assim”, e dias depois ia-se lá levantá-la ou ela era entregue ao domicílio. A Musgueira Norte era uma central de apoio à desburocratização do acesso à riqueza e ao delírio.

Há pouco, descobri com gosto que o vocábulo chegou à Madeira. Alberto João, para as câmaras, confessou inspirar-se num gandim. Não disse qual; mas, como de costume, deve estar a falar de si próprio.

A festa do porco

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A propósito do Ano Novo chinês, o programa Nós, RTP, fez uma reportagem na Escola Chinesa de Lisboa. Entrevistaram petizes, entre os 6 e os 10 anos (suponho), os quais explicaram a seu modo, espontaneamente, a História e cultura dos seus pais e venerandos avós que assim se celebrava. Mas explicaram através de uma alma lusa, com todos os meneios e particularismos léxicos da Língua observáveis numa outra qualquer criança descendente de Afonso. Uma menina até chegou a ficar envergonhada quando nomeou o ano da Cabra, no que foi uma deliciosa prova de domínio semântico. A prosódia perfeita, para mais servida por singular fluência e confiança na expressão, criava um laço imediato que absorvia as diferenças faciais e etnográficas e as integrava na mesma identidade. Aquelas crianças são portuguesas, temos a mesma pátria. Então, os seus pais também podem ser nossos patrícios. E, indo por aí, chegamos finalmente à consciência de que há muita gente em Portugal à espera de cá chegar.

À espera de uma festa, onde se coma e beba bem. Onde se conviva, para viver melhor.

Letters from Iwo Jima — Clint Eastwood

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Vai ver este filme porque:

– Passas menos tempo na blogosfera, o que só te faz é bem.
– Tens uma razão para desligar o computador. Ou o televisor. Ou o DVD. Ou o IPOD. Ou a Playstation. Ou, nalguns casos, isto tudo ao mesmo tempo.
– Sais de casa. E, quando sais de casa, a tua casa agradece, pois as casas também precisam de estar uns tempos a sós.
– Aproveitas a ocasião para convidar um grupinho para ir contigo. Ou aquela pessoa que brilha mais do que o ecrã. E que até pode estar a viver contigo. E que continua a gostar, muito, de convites para ir ao cinema. Especialmente se vierem de ti.
– Recebes, por uma ninharia, magistral obra de arte de um homem que fará 77 anos em Maio, o que lhe deu já algum tempo para ter juízo.
– Aprecias o talento de Ken Watanabe. E o de Kazurani Ninomiya.
– Confrontas-te com uma questão fotográfica: é um filme a cores ou a preto-e-branco? A preto-e-branco não é, a cores não parece. Talvez seja um filme a cores em preto-e-branco.
– Descobres que todos os soldados, independentemente do posto ou do exército, são filhos da mãe. E gostam de o ser.
– Aprendes que a guerra é uma continuação natural da economia. Que a guerra é também uma indústria. E, por fim, uma feira.
– Contemplas esta intuição: sagrado é todo o solo onde vertemos o sangue. Mesmo o sangue invisível, mesmo o solo invisível. E começas a não deixar que te escolham as guerras.

Borralho do Referendo — “ainda ninguém”

Durante a campanha, que começou mediaticamente em Novembro/Dezembro, cada lado apresentou quase todos os argumentos legítimos, e ainda uma imensidade de ilegítimos. Ao se chegar ao período oficial, as últimas duas semanas de intenso e ubíquo debate público, coabitavam a inevitável saturação e um fenómeno curioso: os iluminados de última hora. Tal como em Jerusalém, onde alguns se descobrem Messias antes de se descobrirem internados, foi comum encontrar personalidades que usaram profeticamente a fórmula “ainda ninguém”, seguida de vocábulos variáveis relativos a pensamentos e discursos inauditos. Foram protagonistas de súbita iluminação, onde estaria em causa ver o problema segundo um especialíssimo ponto de vista — o seu, acabadinho de pensar e de imediato revelado. Eram argumentos com ferro decisório para converter o opositor ou reduzi-lo a má vontade. O Fernando até nos deixou (involuntariamente) um exemplo disto, vindo da pena de Miguel Sousa Tavares. Mas eu assisti a vários, o mais caricato deles com a Clara Pinto Correia. A senhora começou a berrar e a agitar furiosamente os braços, provocando um vórtice de pânico que os restantes participantes nesse debate, mais respectiva jornalista, deixaram gravado nos seus lívidos e paralisados rostos.

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Magna Magnani

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Nesta sexta-feira passou na Cinemateca L’Amore, de Roberto Rossellini. Sala cheia e vedetas, Paulo Rocha em cadeira de rodas, João Botelho bonacheirão, outros da indústria, outros do circuito, outros. Todos para ver dois filmes num; mas o melhor é escrever “dois filmes numa”, Anna Magnani a uni-los. O primeiro, Una Voce Umana, é a adaptação do texto de Jean Cocteau, La Voix Humaine (1930). São 35 minutos de rosto. Nesse rosto há uma voz, contínua, opressiva, desesperada — precisa é de ser vista, a voz, para se conseguir escutar. O segundo, Il Miracolo, tem argumento de Fellini; o qual também se estreia na representação, algo que só iria repetir em 1982. É um marco na história do cinema, um milagre este Miracolo, por mais razões do que aquelas que me cabem no verbo e no texto.

Uma pobre de espírito, indigente, delirante, cruza-se com um melífluo sátiro, mudo e quedo, que a embriaga e viola. Descobrindo-se grávida, reclama uma paternidade divina, incônscia outrora agora. A comunidade humilha-a, não quer santos na terra. E agride, expulsa a louca. Ela foge para as alturas, para o refúgio de uma igreja. Mas, nas alturas, até as igrejas estão vazias. É a solidão completa. E nela, na solidão dela, nasce a alegria. Não do seu corpo, mas pelo seu corpo. Do seu corpo só o seio que tira para dar a uma boca que chora e faz rir de espanto.

Ter este filme alegórico, telúrico e superlativo — uma narrativa que se corta no fio da navalha que atravessa e cujo sangue escorre em nós; filme intempestivo do fundador do neo-realismo, realizado 2 ou 3 anos depois do fim da Segunda Guerra — sido exibido nas vésperas do referendo, só acrescentou pathos e pungência ao momento.

Há um certo tipo de opinião que reprova as escolhas de Bénard da Costa para a Cinemateca, ou seja lá para o que for. É uma opinião que se crê culta, mas não o é, que não gosta de filmes anteriores a 1960, porque nem sequer os entende, e que talvez um dia se imponha autoritária. Por isso, porque o Diabo anda sempre a tecê-las, o melhor é ir à Cinemateca no dia 21 do corrente. Volta L’Amore, volta uma experiência de um tempo em que ainda havia pessoas e quem as filmasse.

Anna Magnani, a mais funda expressão do feminino no cinema? Sim, claro. E transparente.

Com 8 anos e 8 meses de atraso

Recordo-me bem da surpresa da vitória do NÃO em 98. Ninguém imaginou que tal fosse possível, tirando os que nada percebem das situações onde se encontram. O voto da rua, a minha — urbana, jovem, classe média —, era maciçamente pelo SIM. Quem se anunciasse pelo NÃO era visto com estranheza, até repúdio, como se fosse um anacronismo ambulante e falante. Não fazia parte do Portugal da Expo 98, do aparecimento da Optimus com a promessa de telemóveis para todos, da feérica abundância consumista de Guterres. E tal estado de ausência de espírito era também uma consequência da demissão dos nossos pais, os quais se tinham alheado da discussão desde sempre, desde a educação em casa que nunca fizeram. Por outro lado, a ideia de que Portugal era um país católico configurava uma grotesca anedota. Portugal já não é católico, sequer cristão, desde o século XIX, desde 1820 — e é para ser brando, pois o povo, em nenhum período da nossa História, se mostrou muito católico, e as elites ainda menos. Acontecia, apenas, que as igrejas e os clérigos faziam parte da economia e da vida social; coisa bem diferente de terem sido influenciadores de ideias e comportamentos, pois não o foram. Não havia estádios, cinemas, televisão, discotecas, centros comerciais, havia igrejas, missas, festas religiosas. Era só isto, não tem mistério.

Pois a rua não mostrava transcendência, e a única imanência era a da mulher grávida, senhora da vida e da morte. Por isso as sondagens diziam em 1998 o que os resultados deste domingo de 2007 repetiram: a maioria dos portugueses, se obrigada a tomar uma decisão, escolheria a despenalização total do aborto. Tudo bem, venceu a democracia, dirão os democratas. E se o NÃO tivesse ganho? Alguns dos que na noite passada louvaram o discernimento dos portugueses votantes teriam vindo falar em manobras e conspirações das forças ocultas, não teriam sido capazes de encontrar uma vitória comum na sua derrota pessoal. Também o ódio surdo à democracia faz parte da democracia, essa fêmea que a todos alimenta.

E agora? Agora, alegremo-nos com a subida da participação num referendo. Portugal não tem uma cultura de discussão intelectual, apenas de conflito pífio. As mudanças geracionais demoram gerações a acontecer, se não estou em erro. Por isso, haja paciência, a maior de todas as virtudes. Demora — e pede um tipo especial de intelectual — a criar uma comunidade de pensadores. Os pensadores precisam de aliar ao consumo da informação a disponibilidade para sacrificar o seu produto. Os debates são verdadeiras lutas, onde se corre o risco de se ser ferido numa convicção, ver mutilado um raciocínio, morta uma ilusão. Entretanto, nem a escola, nem a universidade, nem a imprensa se interessaram por ensinar os portugueses a pensar. Claro, os políticos ainda menos se interessam, pois os nossos actuais políticos sobrevivem à custa da manutenção do charco onde sobra em lama o que falta em profundidade. Acreditei, e ainda acredito, que os blogues podem contribuir para essa causa do crescimento intelectual. Daí, os textos reflexivos e polémicos que foram saindo, e vão continuar a sair, relativos a estas fascinantes temáticas da nossa vida comunitária.

Quanto ao aborto, todas as boas vontades estão unidas nos mesmos propósitos, e o futuro assim o mostrará; pouco importando onde deixaram hoje a cruz, ou para onde a carregaram.

Esta, NÃO; outra, SIM

A nossa classe política voltou a prestar-nos um péssimo serviço, e escolheu uma pergunta errada para ir a referendo. Sabemos que a pergunta está errada quando vemos pessoas de bem, e cabeças de excelência, em lados opostos da querela, a darem o melhor de si enquanto intelectuais e cidadãos, sem lobrigarem qualquer acordo — sem conseguirem negociar uma solução. A pergunta, que vamos referendar pela segunda vez, é uma pergunta discriminatória e irresponsável, pelas razões que o debate explanou. Então, que redacção deveria aparecer no boletim, amanhã?

Por exemplo, assim:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção dos progenitores, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Aquilo que é do conhecimento até de animais e plantas, que há mais de 2000 anos que não se regista uma imaculada conceição, foi obliterado da problemática; numa desconcertante e perversa lógica que premeia o já absentista comportamento masculino. A pergunta a votos deposita na opção da mulher o fardo da decisão, parecendo (a tantos!) que esse poder assim consignado é libertador. Que cruel ilusão.

Para lá de ser grotesco estar a excluir o progenitor de todo o processo decisório, pois nem sequer teria de ser consultado ou reparado, o maquiavélico propósito confirma a actual discriminação: o aborto é um problema da mulher, e pronto. Resolve-se no hospital, na faca.

Alguns são rápidos a apresentar argumentos inanes, como esses relativos a eventuais progenitores ausentes ou desconhecidos, etc. Outros atacam com as situações de conflito aparentemente insanável, onde o homem procuraria obrigar a mulher a levar avante uma gravidez malquerida, ou o inverso. Estrebucham como se não houvesse soluções éticas para os casos concebíveis. Como se o edifício legal não fosse mastodôntico precisamente por querer cobrir todas as alternativas e procurar ter respostas bondosas segundo uma hierarquia de valores constitucional. Como se não fosse óbvio que as excepções devem confirmar a regra. Enfim, há mesmo quem não pense antes de falar e escrever, e continue a não pensar depois de ouvir e ler.

Mas ainda poderíamos ter uma melhor pergunta:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção dos progenitores, em resultado de acto médico, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Quem se lembrou de referendar um período de tempo, qualquer que ele fosse, ou é um patusco a gozar com a malta ou um tonto perigoso. Como podemos nós, leigos em tudo o que diga respeito a uma aferição do que está em causa no calendário abortivo, decidir em consciência? Que raio de pergunta é esta que nem sequer consegue unir os especialistas quanto às implicações das semanas escolhidas? Só este aspecto da questão, se todos votassem em honesta consciência, teria de levar à rejeição, pois é imoral concordar com uma premissa da qual se desconhecem as consequências.

O que haveria a fazer seria confiar à medicina e aos médicos o ónus da decisão. Imediatamente se esvaziaria o absurdo sobre o qual querem que tenhamos opinião decisiva.

E, finalmente, podíamos ter tido a felicidade de encontrar a melhor de todas as perguntas, e aquela à qual só se poderia responder SIM:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção dos progenitores, em resultado de acto médico, num estabelecimento de saúde legalmente autorizado, e após consulta de apoio à decisão?

É isto que todos os justos querem, sejam do SIM ou do NÃO, crentes ou descrentes, mulheres e homens: que todas as mulheres que pretendam interromper a gravidez possam recolher esclarecimentos clínicos legítimos e apoios estatais de promoção da natalidade, tanto psicológicos, como sociais e até financeiros. E, de preferência, que estejam acompanhadas pelo progenitor, o qual é tão responsável pela gravidez como a mulher. Porque o maior de todos os problemas começa no isolamento da mulher que está em conflito com a sua gravidez. E esta pessoa, por todas as razões, encontra-se em risco elevadíssimo de errar.

Precisando: os progenitores exporiam o seu caso, podendo defender a opção de abortar. Se, após o processo de esclarecimento e avaliação por técnicos especializados, os progenitores continuassem decididos a abortar, bastaria que estivessem na posse das suas faculdades mentais para o fazerem. Aí, o Estado estaria a conferir o direito de abortar por troca com o dever de justificar e assumir a responsabilidade pela morte provocada. Parece altamente pedagógico, dissuasor do aborto e um incentivo à gravidez segura e digna.

Acima de tudo, parece o mínimo. Isto, quando pensamos no modo como o nosso dinheiro se esvai pela má gestão abaixo e pela corrupção acima. Parece o mínimo, e nem isso temos ou vamos ter. Coitados.