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Desarrolhar o Maio

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Da nossa amiga sininho, chegam-nos este texto e imagem:

Desde “sempre” que o mês de Maio tem muito significado para os habitantes de Lagos.

Maio, o mês das flores!

Talvez por isso, e para realçar a sua beleza, as populações locais terão concebido “AS MAIAS” enfeitando com muitas flores, e outros adornos, umas “BONECAS” feitas artesanalmente, e que depois colocavam às portas e às janelas, não só para mostrar as suas habilidades como para que os passantes verificassem que a tradição das “MAIAS” subsistia – o que a todos agradava. A satisfação era tal que as donas das “MAIAS” ofereciam aos mirones o tradicional figo torrado acompanhado de uma boa aguardente de medronho. Ofereciam também deliciosos bolos de miolo de amêndoa que se chamavam “ROLHAS DE MAIO”, que eram muito apreciados e disputados.

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Sensações mínimas

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Não falou nem discursou, vociferou. Estava de peito feito. Bravo. A sala era caserna. O público, pelotão. Quis mostrar que tinha força. Que com ele não brincavam. Para mais, poupadinho, prometendo reduzir os jobes fore de bois. Mas que ia acabar a bagunça. E a pouca vergonha. Prova? O pelouro do urbanismo ficaria nas suas mãos. Prontos. ‘Táxplicadopá. O pelouro do urbanismo ia ter alguém de confiança. Para tomar conta dele, finalmente. Pessoalmente. Não era como com essa cáfila do Carmona e amanuenses, tudo já arguido ou a merecer pior sorte. Com ele, não. Arguido, sim, também, até porque começa a parecer suspeitoso ainda não se ser arguido de qualquer marosca, permitindo esse estado de pré-arguição as mais desvairadas conjecturas e maledicências. No caso dele, porém, descansai, não tinha nada a ver com o urbanismo, é coisa relativa a outra ordem de urbanidade. Daí a vantagem em ser arguido, para que se separem as águas.

O coro tentava pontuar a prestação. Mal ensaiados. O orador estava concentrado no tónus, na pujança. Tanto que se esquecia da claque. Lá se conseguiu o ruído mínimo necessário para ter sido feita política à moda destes políticos. E terminou.

Terminou, mas não acabou. A peça jornalística acrescentou os efusivos cumprimentos de Marques Mendes. Na mente do jornalista televisivo, era já chouriço para encher, suporte da locução que fechava a reportagem. Comigo, acontecia o desvelamento de uma alma. Marques Mendes estava comovido, grato pelo espectáculo. Apertava febril as mãos do candidato. O seu rosto exibia o sorriso dos beatos, aqueles que contemplam as forças superiores e se sentem levitar. E não era coisa de somenos: para o chefe do PSD, conseguir levitar tornou-se numa questão de sobrevivência.

Não é de votar, mas é de aplaudir

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Andou a ser alimentado pela máquina desde o berço político. É o acabado homem do aparelho. Servente dos chefes. Não lhe conheço uma única ideia ou volição. Confesso, António Costa sempre me irritou pela sua pose intelectualmente invertebrada, até tosca. Contudo, Sócrates volta a pensar bem ao sacrificar o braço direito por Lisboa. Sendo tão raro, quase que espanta ver políticos inteligentes.

Deixem-me sonhar

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Para a candidatura de Helena Roseta à Câmara da Capital ser um cúmulo de perfeição, deveria convencer José Sá Fernandes e Maria José Nogueira Pinto a juntarem-se a ela. Imaginando que estes carismáticos e idiossincráticos figurões conseguiriam organizar-se, em Lisboa começaria a reconquista cívica de Portugal.

A foto/notícia não tem nada a ver com nada, e tudo a ver com tudo.

O bailinho da Madeira

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Cresce o número de tontos que admiram as vitórias de João Jardim. E admiram precisamente isso: serem vitórias. É a mesma lógica scolariana, a qual instituiu que os fins justificam os meios: mesmo que se jogue mal, o que importa é a vitoriazinha. Se o cinismo desportivo tem adeptos, o cinismo político tem sequazes, prosélitos, bufarinheiros. Na ocasião, há alívio e conforto no esmagador resultado madeirense. Porque é a prova de que as velhas soluções funcionam, de que ainda se pode confiar na racionalidade do poder máximo. O poder máximo leva à distribuição mínima da riqueza; sendo o mínimo um critério móvel, sujeito às necessidades. Na Madeira há riqueza distribuída pela população, a qual tem trabalho, serviços e meios. Claro que teria chegado a 2007 com as mesmas condições sem Jardim, fosse quem fosse que tivesse estado no poder nos últimos 30 anos. Outros também teriam obra feita, pois que para gastar dinheiro o engenho nunca falta. A pergunta a fazer é: a que custo se quer manter o mínimo?

Os votantes em Alberto João são votantes em Alberto João, não no PSD. Olham para as candidaturas concorrentes e não vêem ninguém. Ninguém que lhes dê o mínimo. Evidentemente, não faz sentido pôr em causa o pouco que têm. Uma mudança de poder corresponderia a uma alteração das hierarquias, com inevitável instabilidade social e económica. A não ser que o substituto garantisse a manutenção da estrutura de poder. Mas a estrutura de poder já tem Jardim como seu representante e procurador, não existindo empresário que não esteja satisfeito com a plutocracia insular. Assim, o que se passa na Madeira em nada diz respeito à política, mas apenas à sobrevivência. Vota-se para proteger o mínimo. É sórdido e normal.

Do lado de cá, do lado do PSD, do lado das instituições do Estado, do lado dos órgãos de soberania, do lado dos jornalistas, do lado dos cidadãos, é a vergonha colectiva. Dão-nos baile.

Aprendizes de feiticeiro

Com a decisão de Pinto Monteiro, entregando a Cândida Almeida a investigação do caso da licenciatura de Sócrates, todas as vozes se calaram sobre o assunto. Porquê? Porque foi a pior notícia que poderiam ter recebido. A intervenção da Procuradoria-Geral não se limitou a alterar as regras do jogo, veio anunciar que se estava perante um jogo completamente diferente. Muitos dos que tinham gozado o prato de finalmente terem algo para entalar o Primeiro-Ministro, chafurdando na lixeira com gosto e empenho, estarão agora receosos. É que a vantagem passa para Sócrates, que se vê com um inesperado trunfo nas mãos. Se as eventuais tropelias — cometidas num contexto de inevitável promiscuidade de poderes, o académico e o político — se resumem a tratamentos de favor, o critério apanhará centenas de potenciais outros casos, em todos os partidos. E todos ficam expostos a retaliações. Se nada se provar de conclusivo, a investigação irá ilibar moralmente o suspeito, reforçando a sua imagem. E dará azo a vinganças planeadas com tempo e inteligência. Ou seja, por causa de supostas irregularidades formais num processo de licenciatura armou-se este banzé, tentou-se atingir a honra do visado por mero oportunismo político. Então, perante os casos de contínuo conluio entre os partidos e os corruptos, corruptos da alta e da baixa finança, ao molho — casos esses que correm de boca em boca em todos os sectores da economia —, poder-se-á começar a observar cabeças rolando pela corrupção abaixo, em tamanho e número nunca vistos em Portugal. E se tal acontecesse em consequência do caso da licenciatura, não poderia ser mais refinada a ironia socrática.

The not so special ones

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O povo sofreu uma secreta comoção com a derrota de Mourinho na eliminatória de acesso à final da Liga dos Campeões. O imaginário e o inconsciente colectivos, cada um por si e os dois à compita, ansiavam pela vitória do nosso embaixador em Inglaterra. Mourinho, o português menos português de Portugal, epígono de Alves dos Reis, auto-predestinado para a glória e maluco, tem-se divertido a jogar uma roleta que lhe correu excepcionalmente bem. Mas os deuses estão agora a dar-lhe uns piparotes, com languidez e preguiça, só para o obrigar a reconhecer que a lei do acaso continua suprema e intocável.

No dia seguinte, novo desaire nacional. Cristiano não resolveu. Cristiano estava num paquete de luxo que se afundou. Porém, neste caso, trata-se de um português portuguesinho, daqueles que não mordem nas canelas dos deuses. Ser a estrela mais bem paga da galáxia não chega para fazer milagres, é a lição teológica a recolher do episódio.

Donde, o providencialismo estar em baixa cá pela terrinha. Já só nos resta o Alberto João.

Gaia, a pequena Londres do Mediterrâneo

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Conviver de perto com Luís Filipe Menezes pode ser catalisador de crises esquizóides, possibilidade que aumenta no caso da presença de patronímicos históricos no Bilhete de Identidade. É o que acontece ao vice-presidente da edilidade gaiense, de seu nome Marco António Costa. Sendo um Costa, pertence a uma enorme família de humildes e abnegados trabalhadores. Contudo, sendo primeiro um Marco António, é-lhe legítimo ambicionar império de recorte faraónico. Esta tensão anfibológica sofre imparável desequilíbrio vindo do sonhado futuro césar do PSD — o ilustre autarca-doutor-de-ir-à-lágrima — levando as faculdades cognitivas do Costa a deixarem-se ofuscar pela quimera e o fausto dignos de um Marco António.

Vai daí, o autarca foi a Londres apresentar o projecto de reabilitação urbana do centro histórico de Gaia. Picado pelos mouros, os quais tinham desencantado um ALLGARVE totalitário e expansionista, Marco António foi em modas e ofereceu-se para anunciar a maior obra de terraplanagem e engenharia civil de que haverá memória, tanto a passada como a futura: transformar Gaia numa pequena Londres — isto é, supõe-se, recriar uma cidade em tudo igual a Londres, porém muito mais pequenina, mais maneira, mais rápida de atravessar de um lado ao outro, com casinhas de bonecas, autocarros de dois andares reduzidos a um só, o Big Ben em versão Small Ben, etc. — e, depois da estrambólica operação concluída, ir a correr colocar o brinquedo algures no Mediterrâneo. Esta última parte ainda não está fechada, e confere ao projecto uma audácia que desafia a imaginação. Porque a empreitada permite soluções variadas.

Os mapas supra ilustram a grandiosidade da visão e sua inspiração romana — trata-se do mesmo espírito indomável, uma vontade imperial. Vejamos: estando Gaia no litoral do oceano Atlântico, pode-se mudar a cidade para novo poiso no litoral mediterrânico; como era prática corrente há mais de 2000 anos e não houve notícia das pessoas terem protestado. Poderia comprar-se terreno em Espanha, França, Itália, que são zonas nobres e prestigiadas, com bons serviços turísticos, à altura do génio dos promotores; ou ir para a Argélia, que deve ser muito mais barato; e com um muro à volta ninguém chateia a malta. E levarem-se as pipas de Porto em barcos rabelo motorizados, à volta das quais nasceria a tal pequena Londres solarenga e soalheira. Só que essa trasladação é apenas uma primeira ideia, demasiado óbvia, ferida de banalidade. Muito melhor seria o oposto: pegar no mar Mediterrâneo e levá-lo para as imediações de Gaia. Isso, sim, iria calar todos os que ladram verrinosos. Porque, se o Mediterrâneo surgisse súbito junto de Gaia, muito se iria rir o Marco António. Olá.

Não tem que enganar, a deslocalização da massa de água será a escolha que melhor defende os interesses da vereação. Podemos avançar na engenharia: onde se iria colocar a coisa? É pergunta de falsa complexidade, pois só admite duas respostas: fora ou dentro da linha de terra. Fora, tem a vantagem da fácil arrumação, confundindo-se com o espaçoso Atlântico depois de vertida. Mas dentro, dentro… dentro, meus amigos… levaria à completa submersão da Ibéria, há muito a merecer tal sorte, e deixaria Gaia como nova e solitária ilha. Uma ilha banhada conjuntamente pelo Atlântico e pelo Mediterrâneo, conforme as marés, possuindo inclusa uma pequena Londres para inglês ver. E então, acalmados os demiúrgicos governantes locais, tudo estaria pronto para se reclamar novo e definitivo título: Gaia, a pequena Londres do Mediterrâneo que, no fundo, é uma Madeira do Pacífico.

O palimpsesto da crise da licenciatura

O que me preocupa na crise da licenciatura do Primeiro-Ministro é o estado do PSD. Coitadinhos. É mais grave um vazio de poder no maior partido da oposição do que todas as tropelias do Governo, juntas. Porque quem está a tomar conta disto não escapa ao holofote, a qualquer altura pode levar nas orelhas. E no PSD, que está a acontecer? Quem é o treinador de reserva? O que irá ser daquilo, quem lhe irá pegar? O melodramático e vácuo Menezes? O sebastiânico e ignoto António Borges? O “não me fodam” e “vão para o caralho” Rui Rio? O professor e aluno traquina Marcelo? O delirante e em delírio Santana? Uma gaja?

Aposto numa gaja. Gira. E tesuda, para endireitar o País. Caso a Ségolène perca, proponho que se lhe faça uma proposta de transferência para o nosso campeonato.

Coisas que não se encontram no YouTube

Wiener Aktionismus foi um movimento artístico de uma radicalidade a que importa voltar, nestes tempos de modorra cultural em que nos afundámos. Talvez agora se possam pensar as questões levantadas há 40 anos por este grupo de atípicos austríacos, o qual nos prestou valioso favor ao registar em película as suas performances. Talvez se descubra que nada saberemos do corpo enquanto continuarmos a olhar para ele com vergonha. Talvez se consiga, pela primeira vez, falar de sexo sem medo da sexualidade.

Outras razões legítimas para ousar uma experiência que não se apagará com facilidade, são:

– A vaga sensação de que o domingo está a ser uma chatice.
– Usufruir de inovador recurso visual para apreender um dos significados do adjectivo escatológico.
– A aferição irrefutável, se é que ainda faltava alguma, do grau transgressor de Andy Warhol: foi apenas um betinho.

Entrai, por vossa conta, risco e proveito.

Ideia da Prosa_Giorgio Agamben

Metro de Lisboa, 9 da manhã, terça-feira. Pela quantidade de jornais (à borla) a serem lidos, parece que estamos na Finlândia. Jornais e livros. Eu também vou de livro. É o Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben [Cotovia]. Outros não lêem, mas ouvem sons que trouxeram de casa. Têm auriculares, espalham zumbidos. Um destes insectos coloca-se mesmo ao lado do livro que estou a ler, o Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben. Está tão alto o ribombar naquela cabeça que consegue abafar a chiadeira dos carris. Pasmoso. Olho para o espécimen com censura muda, só para ficar preocupado com a sua saúde. Se fico incomodado com os sons que derrama para fora, como estarão os seus tímpanos, na linha da frente daquela carga sonora? Isto no caso de ainda haver tímpanos, feito que não me pareceu fisicamente possível e que acabei por aceitar como resposta. Tento voltar ao Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben, mas sem conseguir. Do lado esquerdo do livro está outro auriculado. E há mais dois nas imediações deste. A pluralidade revela-se maligna, como sabem os teólogos. Porque começa a tocar um telemóvel. Um telemóvel que não se conforma perante a indiferença humana, continuando a pedir atenção com galhardia. Avalio a situação: está definitivamente comprometida a leitura do Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben. O telemóvel é potente, esforça-se, mas não vence a barreira musical que protege o destinatário. Quem? Qual daqueles rostos imóveis, solenes, com olhares que exibem concentrada introspecção, terá encontrado a vacina contra a angústia do seu próprio telemóvel? Impossível saber. Pelo que fechei o Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben. Capitulei perante os vagalhões sonoros, os ruídos das máquinas e as máquinas de ruídos, juntos maquinando contra a minha leitura. E depois desceu sobre mim uma harmonia. Talvez o dessintonizado fosse eu. Talvez estivesse a ler alto demais, mesmo que em silêncio no meu silêncio. Talvez os outros se tenham sentido grosseiramente sobressaltados por causa da voz de fundo do Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben, levando-os a procurar refúgio na surdez. Sim, quem quer escutar o Ser deve fazê-lo em segredo. Desculpem-me.

O hífen da questão

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Não escapou aos atentos a suprema ambiguidade desta acção de marketing do Gato Fedorento. A primeira reacção foi de surpresa agradável — em muitos casos esfuziante —, fosse pelo inusitado da intervenção, fosse pela empatia moral assim actualizada. E neste primeiro nível terá ficado a quase totalidade da população. O Gato Fedorento é a mais recente coqueluche nacional, das raras que há, e nem sequer a polarização da questão do aborto os afectou. Estado de graça, pois, que permite brincadeiras displicentes e arroubos de juventude.

Ainda a poeira não tinha baixado e já se podia vislumbrar a face melindrosa do cartaz. O problema não estava no facto de se explorar uma temática política para vender uma imagem comercial; porque, meus amigos, o Gato Fedorento é uma entidade que visa o lucro, não uma representação política ou a intervenção social em nome de um ideal humanitário. O problema formulava-se ao contrário: sob a bandeira da argumentação política contra uma organização no extremo do espectro — usando o estatuto e discurso humorísticos como inovação propagandista —, a acção resultava na anulação do gesto político intencionado. Tão nula foi a consequência que até os nulos do PNR a aproveitaram em seu favor.

Sob vários pontos de vista, é fácil adivinhar registos de irresponsabilidade e cobardia na lógica que permitiu o acontecimento. Irresponsabilidade, porque não se ponderou o efeito de notoriedade conferido à mensagem opositora. E cobardia, porque não faltam causas políticas, sociais e culturais a merecer o contributo cívico de qualquer cidadão, sendo que nesse rol não entram cartazes de grupos de extrema-direita ou ditos nacionalistas. Esse fenómeno, em Portugal, é circense, não tem expressão. Porquê ir bater em mortos, em trinca-espinhas?

Aquém e além do berbicacho moral, não pude deixar de reparar que se grafou “bem vindos” sem hífen. Um pequeno sinal de um grande erro.

O verso mais erótico em toda a língua portuguesa

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Está numa letra atribuída a Silva Tavares, para música de Alves Coelho, e que foi um sucesso pela boca e corpo de Lina Demoel (ou será Lina de Moel?) algures no século passado. Chama-se Dia da Espiga:

Dia da Espiga

Ói! Óai!
Esta vida é uma cantiga
Este dia de alegria
Vale um ano de aflição

Ói! Óai!
Porque é o dia da Espiga
É o arauto do dia
Em que o trigo há-de dar pão

Maria! São teus olhos azeitonas
Cachopa! São teus lábios qual cerejas
E os teus seios cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja

Jorra o vinho dos pinchéis
Para os lábios das moçoilas
Mais vermelhas que papoilas
Das larachas dos Manéis

E há merendas pelos prados
Gargalhadas pelo ar
E à beirinha dos valados
Ouve a gente murmurar.

O texto tem mais quadras, mas não se encontram publicadas na Internet. Para o que aqui me importa, agora, está encontrado o verso mais erótico — porque mais lírico, mais inventivo, mais gracioso — de toda a literatura portuguesa, erudita ou popular:

E os teus seios cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja

Que sorte minha tão desvairada eu ser da língua portuguesa.