Arquivo da Categoria: Valupi

Sócrates fuma, mas não trava

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[toca na imagem para fumar o resto do pacote]

Sócrates fuma e corre, e não trava para dar atenção aos cães que ladram. Acelerou até à Venezuela na tentativa de fazer excelentes negócios, e, de caminho, proteger a comunidade portuguesa, a qual vive numa situação volátil e imprevisível. A josémanuelfernandização da blogosfera exultou com a filha-de-putice da notícia sobre o tabaco durante o voo. Os moralistas saíram à rua de braço dado com os ressabiados, todos com archotes na mão. E assim se confirma que não há fumo sem fogo: a área de neurónios queimados em Portugal é incomensurável, a verdadeira tragédia nacional.

PSD – Partido Sem Direcção

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Até agora, não há nada que interesse nas eleições para o PSD. A inanidade é tal que chega a ser indiferente o resultado, cada um dos candidatos apostado em provar que nada percebe da realidade que lhe entra pelos olhos; por não ser esta transformada, nos seus neurónios, em projectos políticos relevantes para o País. Há fenómenos assim, onde a imbecilidade é tão frequente num dado grupo que nenhum dos envolvidos tem a distância suficiente para a conseguir detectar.

Entretanto, Portugal transforma-se. Completamente indiferente ao que acontece no PSD, um partido que acabou em 1995.

Fitna – III

Em Fitna – II, apareceu uma ligação para este poste. Trata-se de nova contextualização do filme de Wilders, agora a partir dessa estupidez chamada Schism. Mas o que mais importa está ao lado, lá na página. Estamos no meio de um dos vários movimentos que procuram introduzir racionalidade na religião e cultura islâmicas. A vitalidade destes grupos e personalidades parecerá chocante àqueles que permanecem apavorados — e, portanto, enlouquecidos — pelo terror islamita. Mas é verdade: afinal, há muitos que arriscam combater a patologia e a maldade apenas com palavras de paz. A sua coragem rivaliza com a sua lucidez.

O comentário de robito, o último ao tempo em que escrevo, é lapidar. Porque expressa, sumária e simplicissimamente, uma visão democrática e secular sobre o fenómeno religioso; naquilo que se constitui como exemplo de uma posição que representa o actual paradigma civilizacional, onde as religiões têm de se circunscrever à esfera individual e submeter ao primado da liberdade. Só por ele, vale a viagem.

Valupi passeia na PARQ

A revista PARQ ainda só vai no quarto número. A estultícia da sua juventude explica o fenómeno: estreia de Valupi fora da blogosfera, e até em papel. A ocasião (singular) é relativa ao Festival OFFF, o qual começou hoje.

Quem sabe, pode ser que descubram um excelente veículo editorial, a revista, e conheçam um pouco mais da vanguarda digital, o festival. Ou, pelo menos, que apreciem a ideia brilhante, que os amigos da PARQ tiveram, para usar a Internet na promoção da revista: basta entrar no website e ficamos a vê-la, as páginas a passar, mas sem nada se ver afinal, mesmo que tudo esteja à mostra. Tão simples, tão inteligente, tão chato não ter sido eu a ter essa ideia.

O Daniel e o blogodrama

O Daniel saiu do blogue com estas palavras. De comum com a saída do Fernando, e para além da proximidade temporal dos eventos, temos a surpresa causada, a ausência de comunicação interna, o laconismo críptico da justificação. Quanto às razões silenciadas, ou tão-só esboçadas, não nos dizem respeito por não terem sido explicadas. Já o lado público do acontecimento permite uma breve reflexão. Entretanto, assino por baixo o que o meu primo disse aqui e aqui, igualmente me sintonizando com a declaração da Susana.

Só há 5 anos é que os blogues apareceram em força em Portugal. Sabemos como utilizá-los e para que servem, mas ainda não estamos imunizados contra a sua ilusão. Isso leva a que alguns imaginem vir a ser lidos por milhões, ou pela elite que influencia o gosto institucional, quando começam a escrever num blogue. A verdade pede água geladamente gelada na ambição: um blogue é lido por umas poucas dezenas de indivíduos, se correr muito bem. Em casos raros de popularidade, é lido por centenas. E será preciso algo de extraordinário para ser lido por milhares. 99,999% dos blogues não têm um único leitor para além dos autores. Os números que se apresentam relativos ao tráfego são isso mesmo: passagens. Mas passar não é ler, é partir.

Ainda mais relevante do que a quantidade, para a higiene e ecologia autoral em blogues, é a qualidade dos leitores. Nos blogues que permitem comentários, em especial nos que fazem moderação mínima e retroactiva, os leitores podem interagir sem mediação temporal ou de conteúdo. Isso confere-lhes um poder de recontextualização que ultrapassa o do autor, por causa do acrescento de interpretações. As caixas de comentários são selvagens e tempestuosas, as temáticas intencionadas nos postes poderão ser completamente ignoradas, deturpadas, fragmentadas. Não se controla o ambiente, a menos que se entre nele abdicando dos poderes inerentes à administração do espaço: de censuras, inconfidências e ameaças. E deste caldo caótico, onde qualquer um pode expressar livremente qualquer coisa, desde que não seja ilegal, nasce vida.

Que têm estes considerandos, que deveriam ser óbvios para todos os que optam por gastar o seu irrecuperável tempo nos blogues, a ver com a saída do Daniel? É que o Daniel saiu a conversar. Deixou o seu email e anda por cá a discutir o que lhe dá na gana. Ou seja, tornou-se um bloguista completo, finalmente aceitando que os blogues também podem ser tertúlias de arruaceiros — e que a barulheira é sinal de alegria. Eis um caso de blogodrama propedêutico.

Há vida na Internet – II

O nosso amigo Rui Vasco Neto junta-se ao nosso amigo Shark no fértil pantanal Sapo. O Sete Vidas Como Os Gatos está com um ar todo catita, ostentando veludo granadino (ou assim me aparece no monitor) num fundo donde saltam os saborosos textos do patrão — e a que se junta a presença assídua do Daniel de Sá, neste momento com uma imponente resenha histórica acerca da ópera em Portugal.

É de lá ir e voltar para mais.

Cineterapia

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Coeurs_Alain Resnais

O cinema King devia fechar, e abrir noutro lado. Num lado onde não se ouvisse a sala do lado ou o Metro a poucos. Mas fui lá ver este filme com 84 anos, a idade do realizador ao tempo. É filme de puto. Surpreendente? Para quem tem Manoel de Oliveira na cinematografia nacional, inevitável. Quando Douro, Faina Fluvial foi estreado, Resnais tinha 9 anos. Um puto então; então, e agora?

Coisas horríveis podem acontecer a quem veja o filme. Como a de nunca ter estado em Paris. Fica o aviso.

Esta é uma obra onde se deve contar o fim. Cá vai: não acontece nada. O realizador filmou um final onde não acontece nada, e as cenas que o antecedem são a meticulosa preparação para esse fim que, por ser nada, pode acolher aquilo que tu queres. Claro, estou aqui a ser alucinadamente optimista, pressupondo que tu queres. Mas faz-me este favor: bate em quem te contar o começo. Se te contarem o começo, perdes o filme. É tão complicado quanto isto. Mas se bateres naquele que te contou o começo, bateres com força, nem tudo estará perdido. E é para isso que vamos ao cinema, para que alguma coisa se salve.

Não, não, não. Isso que se diz ser isto e aquilo, que se repete, não importa para nada. O quê? Isso? Não, não penses nisso. Não ligues a isso. Nem àquilo. Quão mais vale aqueloutro. Oh, muito mais!

Teatro.

A minha cena preferida é discutível. Eis o critério da preferência.

BnF (e podes bater-me com força).

Como se come bem no Palácio de Belém

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No último almoço com Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, neste domingo que passou, éramos apenas 5 convivas. Ele, eu e outros três. Calhou ficar a seu lado, mas costumo ficar de frente, prefiro. Começámos com Carpaccio de Atum Fresco Albardado com Coentros Regado com Vinagrete de Pimentos, o qual suscitou genuíno entusiasmo. Seguiu-se Peito de Pato Lacado com Mel Sobre Batata Gratinada com Queijo da Ilha, provocando polémica precisamente por causa do Queijo da Ilha. A paz aterrou sob a forma de Pastéis de Toucinho do Convento da Esperança. E foi por me ter recordado da conversa sobre o Queijo da Ilha com sabor a pato, e ainda com meio pastel na boca e perdigotos kamikaze prontos para levantar voo na direcção do pulôver amarelo do anfitrião, que me virei para ele e disse Olha lá, ó Cavaco, mas para que é que os jovens se hão-de interessar por política e por História de Portugal, e o camandro que para lá disseste na Assembleia, quando o seu Presidente vai à Madeira, leva bailinho dum merdas que só diz merda, e volta com o rabo entre as pernas? Ficou tudo a olhar para mim, atónitos, porque se davam conta de ter eu comido o último pastel. E foi então que Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, aparentemente imune à crise dos postres, me perguntou com oportuno sentido do meu estado, Cafezinho?

A tragédia de um homem ridículo

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Menezes não tem juízo e saiu do Conselho Nacional em lágrimas, há dias. Já tinha saído de um Congresso em lágrimas, há anos. O homem é um choramingas e consegue contagiar a assistência: a sua passagem pela presidência do PSD foi de ir às lágrimas, seis meses de cachinadas.

Menezes não acertou uma. É um feito extraordinário. Contraria a lei das probabilidades, impondo a evidência: é preciso ter talento, e ser-se altamente disciplinado, para conseguir falhar cada uma das inúmeras ocasiões de comunicação com o País. A miséria começou logo no confronto eleitoral com Marques Mendes, onde exibiu o vazio que transportava entre as orelhas. Daí para a frente, só piorou, piorou, piorou. No pináculo do caso BCP, Dezembro, já estava enterrado. Tinham passado três meses, 12 semanas, e faziam-se apostas para a data de saída. Nos três meses seguintes, o PSD iria entregar ao PCP a liderança da oposição; e de forma inimaginável: sendo conivente com a demagogia da rua, com a retórica da luta. Naquele que foi o período mais difícil para Sócrates em toda a legislatura, quiçá o mais instável para a Nação desde a morte de Sá Carneiro, e que não se voltará a repetir nos próximos 20 anos, o estouvado dirigente dava tiros no pé, no próprio partido e na cabeça. Mas pior ainda era possível, e Vasco Pulido Valente e Pacheco Pereira, de repente e em maluqueira, acordaram para a possibilidade do moribundo PSD acabar às mãos de um gaio Kevorkian.

Menezes não prova que o PSD bateu no fundo, ou que os políticos são uma corja desprezível. Bem pelo contrário. A rapidez com que se conseguiu expulsar este traste é um dos mais optimistas sinais de saúde política. É cada vez mais difícil vender banha da cobra, e cada vez mais insuportável testemunhar o ódio à comunidade que esguicha dos partidos que não alcançam ser mais do que clubes de interesses ou hospícios para esquizóides ideologias, eis a boa lição do esdrúxulo fenómeno que levou um retinto incompetente para a ribalta. Recuperando o narcísico lema, se hoje somos muitos, amanhã seremos milhões a deixar de ligar aos tribalismos partidários, às barricadas, e barracadas, do maniqueísmo esquerda-direita. Em vez dessa forma rudimentar, porque ainda animal, de fazer política, passaremos a querer a coragem e a inteligência. Venham elas de onde vierem, estejam onde estiverem, é nelas que iremos votar. E é com elas que vamos ficar um bocadinho mais responsáveis, um bocadinho mais humanos.

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Menezes não realizou La tragedia di un uomo ridicolo em 1981, ao contrário do que defenderam publicamente Marco António Costa e Ribau Esteves nos últimos dias, isso deve-se a Bernardo Bertolucci. Quando vi o filme, alguns anos depois, não percebi nada daquilo, feliz ignorante das temáticas em causa. Mas a minha adolescência guardou a cena em que Laura Morante tira a camisola vermelha e oferece ao celulóide a imagem das suas gloriosas mamas. Como somos todos, por igual, homens e mulheres, apreciadores de um bom par destas fascinantes glândulas, desde que na sua versão feminina, e sendo daquelas predilecções que não carecem de explicação, partilho o meu entusiasmo de outrora agora. O filme demora muito a carregar, e a cena é lá para o final. O que significa três coisas: um prémio para a paciência, a oportunidade de ver um filme que nos acrescenta e um aplauso para a China, esse império capitalista que nos disponibiliza a raridade cinéfila na Internet e por inteiro.

O meu 31

Rui Castro, um dos autores do 31 da Armada — blogue onde escreve Rodrigo Moita de Deus, que já por aqui passou — convidou-me para um poste. O resultado foi este.

O Rui desafiou um conjunto de personalidades seguindo o seu estrito critério de gosto na leitura, daí o convite. Começou a série com José Tolentino de Mendonça, seguindo-se Ana Cláudia Vicente, Pedro Correia, Filipe Nunes Vicente, Jacinto Lucas Pires, Pedro Picoito e Pedro Rolo Duarte, até agora. Perante o alto perfil desta lista, e tendo em conta que o Rui e eu trocámos os primeiros emails por causa do seu desafio, a minha surpresa, e estulta vaidade, não pára de aumentar.

Excelente iniciativa, num excelente blogue. Mas só para quem gosta da direita inteligente, atenção.

Amo-te, Chalana

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[Nota prévia: tenho mais de 25 anos como sócio do Sporting e as quotas em dia]

No jogo da Taça, em Alvalade, a câmara apanhou Chalana a festejar o segundo golo com movimentos labiais que me sugeriram a expressão Toma lá!, simultâneos com gesto castiço dos braços esticados junto ao corpo, mãos fechadas, na direcção do Shéu. Fiquei contente por ele, comovi-me com a sua juvenil alegria. Também eu celebrei com os lampiões a surpresa do 2-0 no meio da selva. E a coisa ameaçava o terceiro, a caminho do intervalo, o que teria sido, literalmente, espectacular.

Dias antes, jogo com a Académica, Chalana tinha estado na conferência de imprensa onde falou dos 3-0 como quem anuncia o desastre do Titanic aos familiares das vítimas, aos investidores arruinados e aos jornalistas incrédulos. E não era para menos: tal como com esse paquete de luxo, provando que a História se pode repetir duas vezes como tragédia, também o caríssimo Benfica tinha erros na estrutura, materiais de fraca qualidade e uma quantidade ridícula de botes de salvação. O afogamento era certo, marejava-se o coração da Nação Benfiquista.

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Fitna – II

O nosso amigo Carmo da Rosa pregou uma inteligente, e clássica, partida a propósito da publicação do vídeo Fitna. Os resultados estão à disposição dos interessados; e valem, para mim e principalmente, por esta evidência: o problema do terrorismo islamita, mais as melindrosas e desvairadas questões conexas, não se resolve com o silêncio das vítimas, muito menos com silenciamentos. O facto de ser uma ameaça potenciadora, ou geradora, de desequilíbrios psíquicos (vide exemplo nos comentários), e de posições confusas (vide exemplo nos comentários), e de contradições obscenas (vide exemplo nos comentários), mais urgente e meritório torna o diálogo com os apavorados, os medrosos e os preconceituosos. Até com os imbecis.

E o Fitna? As centenas de milhões de crentes muçulmanos não pareceram muito preocupadas com as peculiaridades da política holandesa, e as manifestações foram raras e sem entusiasmo. A reacção mais violenta, e ironia das ironias, ainda é a de Kurt Westergaard, o qual protestou por aparecer o seu famoso boneco à má-fila, sem o terem sequer avisado. Para os distraídos, fica claro quais são os limites da liberdade de expressão: os direitos de autor. Qualquer outro limite, e excluindo a legislação aplicável, é inadmissível e deve ser denunciado como ofensa à Civilização.

Por cá, jornalistas e blogues preferiram ignorar a surpreendente peça de Geert Wilders. Não me pagam para explicar o fenómeno, mas como observador aponto para um aspecto notável do Fitna: em nenhum passo se promove a violência contra pessoas, etnias ou credos. Aliás, desconfio que o registo baralhou por completo os axónios a muito boa gente, contribuindo para explicar a mudez geral. O que fica da narrativa é uma comunhão com o sentimento de perplexidade perante a aberração de actos e intenções. A mensagem poderia — e deveria! — ter vindo de um crente islâmico, pois o mal faz vítimas entre todos os que procuram viver em paz.

Entretanto, um palonço saudita, de seu nome Raed Al Saeed, deu que falar com o vídeo Schism. O filme é completamente idiota, risível de tão tonto, mas assinala a possibilidade de diálogo com a nova geração de muçulmanos cosmopolitas. Basta que eles consigam entender que a religião cristã já foi derrotada faz tempo, muito tempo. O cristianismo não passou de um momento da cultura ocidental, o que veio a seguir é uma divindade muito mais poderosa: a liberdade.

O Fernando, o Jorge e o blogodrama

No dia 31 de Março, o Fernando anunciou a sua saída. Neste momento em que publico, não há mais nenhum escrito dele, nem em comentário, nem em post. E a mim não chegaram emails, telefonemas, mensagens escritas, pombos-correio ou sinais de fumo com declarações a respeito, sequer meras pistas. Significa que ignoro as razões para a súbita partida, estando como outros que o interrogaram na caixa. Mas sei o seguinte: independentemente das hipóteses credíveis (uma delas, por vários apontada e com alta probabilidade, remete para aqui — mas pode não ter sido esta a causa, ou terem sido várias, esclareça quem souber), não se deve substituir a palavra de outrem. Se nada se quer explicar, pois que nada se tente adivinhar. Tenho, porém, algo a dizer na ocasião.

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Apologia de Patrícia e Rafael

Princípios dos anos 80 numa Escola Secundária em Lisboa. O 8º D tem fama de turma terrível. Alguns repetentes parecem indomáveis, e alguém decidiu que vão ficar juntos. Um dos poucos professores do sexo masculino na turma é o setor de Matemática. Tem os cabelos no ar e cara de Einstein grosseiro. Quando se põe a escrevinhar no quadro, e ouve conversas, é de poucos avisos. Começa a resmungar vitupérios imperceptíveis e dispara pedaços de giz na direcção do ruido. Uma vez, enervou-se tanto que chegou a atirar o apagador à cabeça do José João, que nunca se cala, mas falhou. Noutro dia, mandou para o chão tudo o que estava em cima da sua mesa, incluindo o livro dos sumários, num grande gesto dramático. Teve o seu efeito, mesmo se improvável vir a saber qual. Vejo o setor de Matemática algumas vezes, no fim-de-semana, todo composto a ir comprar o jornal ou a tomar café, e gosto muito de lhe dizer boa-tarde. Mas não é sobre ele a história, é sobre a professora de Português. Acho que deve ser bonita, mas é tão mais velha do que eu que nem penso nisso. Acontece que nas suas aulas há grande animação. O José João, sempre o mais maluco, tira pintelhos e esfrega-os na boca do choninhas da frente. O Álvaro manda papéis de um lado para o outro da sala, e respondem-lhe. O Manel não pára de rir, não sei com quê. Outros sopram nas esferográficas sem carga, o que faz uns sons marados. De cada vez que a setora vira as costas no quadro, o barulho de fundo, constante, transforma-se em alarido, balbúrdia. A tribo sabe que tem a presa encurralada, por isso avança para o esquartejamento. Numa certa aula, as lutas de papéis ganham tal furor bélico que os rapazes deitam carteiras pelo chão a servir de barricadas. A setora sai da sala a chorar e não volta mais, nunca mais. Meses passados, vem outra, a qual nos fala com grande calma e simpatia. Mas, no seguimento da batalha, um grupo de valentes guerreiros é chamado ao Conselho Directivo. Eu sou um deles, não sei porquê, talvez por ser repetente. Vamos enfrentar o professor Vítor, o presidente, de quem se diz ser o animal mais feroz da escola. A pequena e atafulhada saleta de um barracão pré-fabricado vai-se enchendo com o bando dos 4, calhando ser o último a entrar. Ainda não tenho os dois pés dentro quando a porta é empurrada com pujança viril pelo iracundo e barbudo Vítor. Umas amostras da minha epiderme, zona do ombro, são agora posse de um pedaço de madeira da escola. Está dado o mote, segue-se meia-hora de ameaças, antevisão de expulsões e calamidades familiares, entremeadas pela repetição da frase que não esquecerei, Porque eu não tenho medo de ninguém, de ninguém!, locução expelida com estrondo superior ao que a porta fez ao encontrar a parede. Uma coisa fica rapidamente esclarecida: o professor Vítor não tem medo de muita gente, e nesse conjunto de números complexos incluí-se, inequivocamente, o grupo de 4 rapazes do 8º ano de escolaridade à sua frente. Isso pode ser atestado pelo tom de voz estridente, rosto crispado, postura corporal agitada e os regulares avanços na nossa direcção só para ficar olhos nos olhos, calado, esperando alguma coisa que não chega a nomear. Dizemos que sim, e que também, e pois. Fazemos protocolares promessas de eterno retorno ao comportamento ordeiro. Quando o super-homem acaba o responso, o qual tinha ido bem para além do mal, descobrimos que Deus pode estar morto mas nós, e até ver, não fomos destruídos. Estamos é mais fortes, e mais fortes ficamos de cada vez que contamos aos outros o confronto com o profe Vítor, só para exibir orgulhosas cicatrizes e medalhas. É assim, 13 e 14 anos e já dominamos o essencial da filosofia nietzshiana; quem disse que não se aprende nada na escola? Mas quando voltarmos das férias grandes é que vai ser bom: droga, violência e prostituição, cardápio para um 9º ano inesquecível e romântico.

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Nokiafolia

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O que se passa na Finlândia tem suscitado a admiração de muitos, e por excelentes razões. Desde o sucesso económico à qualidade da educação, do gosto das vodkas ao gostinho das saunas, passando pela Nokia, actual ex-líbris do país com metade da nossa população. O mais recente escândalo político e social na Finlândia vem, precisamente, do apego ao telemóvel. Ilkka Kanerva deixa hoje de ser o ministro dos Negócios Estrangeiros por se ter revelado na imprensa que enviou 200 SMS para Johanna Tukiainen, uma dançarina erótica. O teor das mensagens abrange tópicos variados, como sejam as temáticas relativas à roupa interior, aos apalpões e à menage com a mana de nome fadista, Julia.

Na imagem vemos Johanna à esquerda e Julia à direita, ambas em roupa interior e mostrando a matéria apalpável. Também se exibe um perturbador copo com sumo de laranja (?), já a menos de meio. E deste inusitado quadro ressalta uma importante lição: quando os problemas de indisciplina com telemóveis atingem o próprio Governo finlandês, talvez seja melhor relativizarmos a perturbação emocional de uma adolescente portuguesa.

-1=+10=100

A redução do IVA em 1% serviu para cada um ver nela o que lhe apetecesse. E podemos recolher dois ensinamentos:

A economia é uma ciência que deve mais à psicologia do que à matemática.

A economia, como o desejo sexual, começa na cabeça. O que leva a um corolário: a economia, como o desejo sexual, pede cabeças arejadas.

A redução de 1% poderá ser insignificante para alguns políticos e industriais, mesmo para o consumidor, mas para o cidadão é uma boa notícia. Aumenta em 10% a sua confiança. E se há coisinha onde todos estarão de acordo é no valor da confiança, seja para a economia, a política ou o sexo: 100%.