Arquivo da Categoria: Valupi

Belas, inteligentes e anónimas

Boa lembrança a do Gibel. A SOCA tem um ano preenchido com blogoliteratura de gineceu. Nesse efémero feminino, encontramos a mesma dinâmica que em qualquer outro blogue, singular ou colectivo, com começos apaixonados e curvas descendentes de participação. O que se produziu neste ano de vida, porém, é material de inquestionável interesse antropológico, sociológico e psicológico — porque servido por um nível médio de qualidade de escrita que consegue notável compromisso entre o conteúdo e a forma. Não sendo um blogue com qualquer pretensão estilística, nem ideológica, habita num reino lúdico onde há cupidos e bestas furiosas em feminil harmonia. Encantador, pois.

Chamo a atenção para algo que transcende o projecto, e que é filão para editores que ambicionem vender o que publiquem (aspecto que deveria ser óbvio, mas que num País sem cultura capitalista se torna esconso). Trata-se da colaboradora Fox Trotter, recentemente desvelada como sofrendo de múltipla personalidade. Ela relata as suas experiências sexuais de um ponto de vista que os homens desconhecem por fatal limitação cognitiva, assim contribuindo para se continuar a desacreditar Freud e outros amantes de charutos. Com mais material reunido, era best-seller garantido. Cá vai um exemplo, com erro ortográfico charmoso e tudo a que temos direito:

Amorzinho, vai-te foder

Acordaste a minha líbido, que tanto demorei a silenciar. Eu, que nos dias em que fodia, fodia todos os dias. Não queria o grelo aos saltos e as mamas duras, a língua a tocar na aresta dos dentes em antecipação. Nem o torpor insensato nas depressões internas das coxas, enquanto sentia escorrer a vontade pelo eixo de simetria. Consegui deixar de me foder com os dedos porque estava farta de me vir sozinha.
Chegas, fascinas-me com palavras. A minha tesão com a tua voz. O teu cheiro, pele, as duas mãos. Rendes-me nua, viras-me de costas, do avesso, prendes-me o corpo à distância do teu. Prendes-me o corpo, presas as mãos (para que não te possa tocar). Dás-me finalmente a língua e penso que te vou ter. E então vais-te, levas-me o sono e deixas, em troca, uma cona a arder.

Papa de sarrabulho

Quase nada foi dito sobre o discurso do Papa Bento XVI na Universidade de Regensburg. A totalidade das minhas leituras revela articulistas a tocar as problemáticas pela rama ou a saltar para fora do texto com velocidades superiores à da luz. E ninguém os poderá censurar, posto que a alocução é intempestiva, dirige-se a intelectos que não sejam só deste tempo; isto é, convoca inteligências de compreensão lenta.

Nos planos da dinâmica paranóica dos meios de comunicação e das ocultas estratégias políticas, o assunto está esgotado, regressando no próximo round. Esticou-se a “reacção islâmica” até parecer o que não foi, saboreou-se o embaraço do Vaticano, cresceu a impaciência das elites culturais perante o fanatismo religioso e ensaiaram-se umas chicuelinas onde se toureou a Razão e nela se espetaram uns ferros com fé. Não foi pouco, mas pouco se aproveita.

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O melhor blogue do mundo

Não apanhei o período da paixão pelos blogues, os anos de 2002 a 2004. Estava de ressaca, anteriores experiências comunitárias na Internet tinham-me já revelado o essencial e o acidental nisto de se comunicar com anónimos através de um teclado. E, talvez por ter começado num outro formato, pouco me fascinou, me fascina, nos blogues.

As leis da selecção natural também se aplicam na blogosfera. Stultorum numerus est infinitus, e nada como a Internet para o comprovarmos. Passado o ciclo da novidade — e exceptuando aqueles que, por variada causa, são militantes do meio ou se sentem obrigados a dar notícia de terceiros — ficamo-nos por um conjunto muito limitado de autores. Olhemos para a listagem de blogues referenciados aqui no Aspirina, por exemplo. A maior parte deles está activa, alguns mantendo um ritmo intenso. Quantos visito regularmente? Dois. Um deles é o melhor blogue do mundo.

O que Pacheco Pereira faz é admirável, sob qualquer ponto de vista. Primeiro, oferece conteúdos intelectualmente superiores num discurso acessível para o leitor médio (tal como faz na imprensa, onde alia o rigor da reflexão à simplicidade da argumentação), expondo a sua erudição e amplitude de interesses sem proselitismo. Depois, usa o meio para servir a comunidade, o que acontece com a publicação de e-cartas, fotos, textos de autor (a surpreendente parceria com Agustina), referências à blogosfera e, muito importante, com a reflexão e crítica da blogosfera enquanto objecto sociológico e ecossistema. Por último, mas cada vez mais longe do fim, a sua produção é constante; assim cumprindo a promessa, inclusa na etimologia, de os blogues serem diários e diários.

Com tudo, talvez o traço que mais me impressiona no Abrupto, e na pessoa que o faz, seja a ausência de cinismo. Há melancolia, sim, inevitável consorte da lucidez, e até essa apenas implícita, mas não há expressão do cinismo. O cinismo é imbecil, e o Abrupto é um dos mais poderosos antídotos contra a estupidificação nacional; logo, água choca para um lado, azeite puríssimo para o outro.

Lendo as suas “Regras Próprias“, não há como evitar a conclusão: eis o melhor blogue do mundo. Do meu mundo, pois claro.

SOMOS UM ATERRO LITERÁRIO!

É uma sorte podermos ter o Fernando Venâncio no Aspirina. A sua generosidade intelectual é de uma cepa rara, aquela que quer criar comunidade. E talvez por isso (ou por acaso, que tanto faz) tenha aparecido aqui este desopilante exercício do Renato C., a merecer itálico e acenos de cabeça:

O problema da parvalheira literária deste País não tem origem na estrutura crítica, que melhor ou pior acaba, as mais das vezes, por resultar inócua para o compto das vendas da grande maioria das edições.

O disparate reside, antes, no mesmo velho factor social que de tão devassado e moribundo perverte e arruína todos os demais: a Educação.

À força de uma sólida educação, composta por toda a sorte — ou azar — de lixo mediático com que entopem os neurónios às criancinhas inocentes, na verdade elas nunca passam disso mesmo: criancinhas; a inocência esvai-se, ainda assim.

Basta observar os comportamentos nas estradas, nos restaurantes, nas empresas, nos hipermercados, nas repartições, nos jardins, nas praias, em toda a parte. Aliás, até mesmo neste blogue… O português, essa coisa abjecta, polui com as suas atitudes infantis, inescrupulosas, pouco cívicas e nada inteligentes cada nanograma de ar que o rodeia. Cospe para o ar. Dá tiros no próprio pé.

E isto nem sequer está inter-relacionado com o nível socioeconómico das pessoas… Era bom se assim fosse, que sempre tínhamos a recorrente desculpa de sermos um País pobre e-tal-e-coiso. Mas, na verdade, a única diferença é que os economicamente ricos, embora tão pobres como outros quaisquer, detêm mais recursos para branquear os seus comportamentos.

Os piores canais e programas de televisão alcançam as maiores audiências; os piores jornais são os mais lidos — salvo honrosas excepções —, e a generalidade dos jornalistas são maus ou sofríveis ou acabam por evoluir para esse estádio à medida que acumulam experiência; as editoras recorrem ao tradicional “é o que vende” para ficarem de consciência tranquila; qualquer brutitates que saiba contar anedotas em público, ou qualquer crica com um par de cara ou um palmo de mamas, salta em menos de um fósforo para a ribalta das figuras públicas e lá se mantém, se estrategicamente fizer umas plásticas de quando em vez… E quando se dá por eles, zás! — derramaram as suas fartas pústulas num livro com a história da “minha vida”. Minha nossa! — quer dizer.

Se não, reparem que não é um problema confinado aos autores literários portugueses… Se quiserem algumas obras de referência de autores estrangeiros (das quais muitas são livros de vulto e, a seu tempo, best-sellers lá fora), tê-las-ão de ler em Inglês, Francês ou mesmo Espanhol. Contudo, se se dedicarem a esgravatar nos escaparates constatarão que não falta cá nada do lixo internacional. A bosta que se escreve em todo o mundo é traduzida e publicada à velocidade de uma corrida de burros. Porque muitas vezes os direitos para publicar a obra são alvo disso mesmo: de uma corrida de burros.

Há uma maré negra nas edições livreiras portuguesas. É um facto. Mas isso pouco ou nada se deve à acção dos críticos — muitos apenas na forma tentada — literários. Eles são normalmente gente boa que vasculha no lixo e por vezes se deixa contaminar. Apenas isso.

Falta, na listagem do insigne suprapostador, a Margarida Rebelo Pinto, o José Rodrigues dos Santos, o Miguel Sousa Tavares, o Gastão não-sei-quantos e outros que me neurastenizam a molécula (e que decerto me perdoarão pelo facto de me não serem mnemónicos)… Enfim. Mas nem todos são maus. Alguns escrevem bem e eu até os aprecio — o que, se eles soubessem — os encheria de contentamento e orgulho.

Afinal, o que faz falta é uma secção de reciclagem literária nos ecocentros do País. Quando assim for, pode ser que o aterro se dissipe…

Soube-me bem desabafar. Mas já criticava qualquer coisinha tenra…

Até já.

PS — Também acredito no Pai Natal.

Renato C.

A Bola é redonda

Portugal foi uma equipa de virgens e fiduciários, fazendo do acaso o terceiro e único segredo das vitórias, e perdeu contra uma colectividade de reformados. Há consolo nisto, a vetustez ganhar à imaculada predestinação. Consolo e alívio, pois já se tinham esgotado as epifanias do pensamento mágico, esse que no futebol exorbita para lá da suposta fronteira que separa a loucura normal da normalidade da loucura. O que é de mais esfalfa, arrenega, mesmo que se trate de milagres (ou sobretudo, pois os milagres favorecem a procrastinação e desvitalizam a assistência).

Oui, desejava que a França ganhasse para que Zidane colhesse a sua mitologia. O homem merece pela elegância com que serviu a física do chuto na bola. Mas já antes tinha preferido perder com a Inglaterra. Porque os nativos da velha Albion começam e acabam os jogos a cantar, perene sinal de saúde étnica, ficando eu a roer-me de inveja por ter nascido em terra onde já ninguém canta. E antes teria sido melhor a eliminação face à Holanda. É que nos Países Baixos o civismo é alto, com o Mundo a carecer mais desse tipo de flores mediáticas do que das imagens da sardinha assada (apesar da filha-de-putice de não nos terem passado a bola no tal reatamento, barbaridade nunca antes vista entre países com corpos diplomáticos reconhecidos). Assim como teria sido vantajoso, para a segurança internacional, a derrota com o Irão. Os apanhadinhos da bola, como Ahmadinejad, estão a uma finta de substituir a retórica corânica pela intelectualidade de balneário; o que levaria à troca da belicosidade pela inanidade e provocaria um “efeito dominó” capaz de pacificar todo o Próximo e Médio Oriente. Finalmente, achei escandaloso o golo do Pauleta contra Angola. Vi nisso o pé do colonizador, displicentemente esmagando a alegria não de um povo, mas de todas as nações que sofreram a exploração do homem e da mulher brancos. E das duas uma: ou Pauleta devia ter sido coerente, seguindo o critério zelosamente aplicado nos jogos seguintes onde tudo fez para evitar marcar, ou, se só tinha levado um golo para gastar na Alemanha, pois que o guardasse para a meia-final onde fez verdadeira falta. Mas como a coisa se passou, apenas conseguiu acrescentar desperdício à arrogância.

O melhor deste Mundial, contudo e com tudo, foi mérito do jornal A Bola, naquela que é uma cacha de dimensão histórica. Na passada quarta-feira, no dia do jogo com a França, publicou uma coluna onde se apresentava ao leitor desportivo a vida, obra e importância filosófica de Nietzsche. Só isso já seria ocasião para pasmo e abertura de garrafas de espumante nacional, mas o melhor estava no fim. Termina-se a biografia dizendo que os nazis invocaram a obra do sifilítico autor para justificarem a “estupidez do holocausto”. E para mim, de pé, com uma sandes de queijo na mão que mal tinha começado a esculpir, o jornal entornado em cima do balcão de um tasco, desapareceu o enigma que tanto humilhou a minha enfezada inteligência. Foi-me sugado violentamente, chegando a causar vertigem. Enfim, agora, “aquilo”, afinal, e com tudo pesado, tudo ponderado, tudo bem pensado, o que aquilo era, lá no fundo, era mas era uma estupidez. Que estupidez a minha não ter percebido mais cedo.

Shame on you, Mr. Seabra!

Recuperando a tradição dos itálicos, eis um comentário vindo deste post do Luís. A nossa comentadora Maria de Fátima oferece-nos um texto com donaire.

Sucede que o artigo a que este post alude não é, infelizmente, um artigo com cabeça, tronco e membros. Trata-se de uma série de três artigos preguiçosos em que Seabra confunde “espaço público” com blogosfera e, não contente com isso, considera, do alto do seu sabe-se lá o quê, que a fórmula crítica de EPC está esgotada. Assim mesmo, tal e qual, o crítico Seabra que aponta armas à falta de argumentação de alguma crítica, esqueceu-se de consolidar este tenebroso veredicto sobre EPC, deixando na gaveta o suco da barbatana que o levou a semelhante conclusão na fronteira de uma intolerável pureza ou desejos de uma crítica velada. E assim, de delírio em delírio, Seabra chega ao ponto de afinfar em Pulido Valente porque este teve a ousadia de publicar um livro recenseado no jornal onde colabora três vezes por semana. Haja santa paciência e, a este propósito, escuso-me de explicar o que quer que seja, ou antes, que quereria Seabra que Pulido Valente fizesse? Que enquanto colaborador do Público não escrevesse livros, que enquanto escritor não assinasse colunas de opinião, que o Público ignorasse olimpicamente o livro de Pulido Valente, que José Manuel Fernandes se recusasse a escrever sobre o que é, sem sombra para dúvidas, um livro incontornável? Seabra quereria que aos leitores do Público fosse vedada uma nota crítica, uma linha que fosse sobre um livro de um opinion maker que escreve livros e é editado? O que faz correr Seabra, é como quem diz, é assunto de interesse e debate, mas nunca da forma leviana e burocrata com que produz o levantamento do número de vezes em que uns e outros escrevem, opinam, dizem, pensam nos jornais, blogues ou televisões. Seabra tem, para mal dele e nosso, uma alma de contabilista, enfim, para não lhe dar outro nome, que lhe dá uma pinta de Jack Bauer, agente federal com a cabeça à roda com o dia mais longo da vida dele. A Bomba Inteligente que me perdoe, mas, coitada, no meio daquilo tudo é o menos porque é realmente o menos. Quem diz a Bomba, diz George, e quem diz este diz os outros que Seabra procurou em arquivos sem tom nem som, como se os tivesse atirado aos ares e de caras lhe saíssem aqueles nomes e não outros. Um tipo que se nos apresenta como um crítico de força e sem território comprado, um crítico daqueles que tem o rabo torcido e com uma volta na ponta, deveria ter dedicado mais energia e empenho ao assunto. Shame on you, Mr. Seabra!

Maria de Fátima

Advérbio ad lib

Não faltam causas, problemas, projectos, escândalos, louvores, denúncias. O facto de já estar tudo dito, e redito, não impede que esteja sempre, e ainda, tudo por dizer. Aproxima-se o dia em que cada indivíduo terá 10 blogues — com um deles em estado de comatosa actividade, um outro, colectivo, aonde irá muito de vez em quando, e os sobrantes como orgulhoso currículo dos serviços prestados. Este será padrão obrigatório, as coisas vão chegar aí. Mas o que importa é que em cada um dos 10 blogues, se detivermos o tempo para ler com atenção, iremos encontrar grandes verdades expostas por esse indivíduo. E essa é que é a verdade, desse grande indivíduo.

No meu caso, o que me inquieta, o que posso erigir como verdade a ser publicitada, e que até poderá ser decisivo para a providência do mundo (como convém), diz respeito ao jornal Público. Acontece eles não terem um corrector ortográfico nos seus computadores, situação que me aflige e põe em risco a integridade da língua portuguesa. A prova foi entregue pelo articulista David Mariano, no suplemento MIL FOLHAS, o tal que é dedicado aos livros e aos escritores. Pois bem, o Sr. Mariano, recenseando uma biografia de Mengele, não foi de modas: no primeiro parágrafo grafa concerteza. O paginador, para que não ficassem dúvidas, compaginou a palavra na transição da quinta para a sexta linha, obtendo con-certeza. E o revisor, se os tiverem, terá abençoado o revisionismo gramatical. Ah!, calhou o episódio no dia 10 de Junho. Acaso? Não seja ingénuo.

É óbvio que a Redacção do Público não tem posses para adquirir o software em causa, tendo recorrido a este estratagema para fintar a Administração e revelar a ignomínia. Solidários, lançamos uma campanha para a oferta de um corrector ortográfico (actualizado) ao jornal do Sr. Belmiro, com licenças em número suficiente para, pelo menos, cobrir os articulistas do suplemento MIL FOLHAS; de todos os cadernos, o mais epistemologicamente carente de cuidados ortográficos. Vamos chamar-lhe Operação Dou Concerteza, e podem enviar os vossos donativos aqui para o Aspirina (que nós tratamos do resto).

1925

Entre o sem-número de razões para se ler o romance Nome de Guerra, de José de Almada Negreiros, está o título do capítulo XLV:

OS PALERMAS QUE NÃO PERCEBEM NADA DA VIDA SÃO PIORES QUE OS MALANDROS

Portugal versão 89.5

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O programa mais popular, et pour cause, da TSF é o Fórum. Não carece de apresentação. É um formato que marcou a rádio dos anos 90, tendo chegado a ser programa de culto. Hoje, continua a ser uma referência; mas do quê?

Quem procurar no Fórum da TSF a resolução de qualquer problema, seja ele qual for, estará a padecer de ingenuidade sem remissão. O mesmo para os que pretenderem ver radiografias da Nação onde apenas se mostram postais ilustrados. Piores, ainda, estarão os que reagem emocionalmente às reacções emocionais dos participantes, maldizendo a qualidade das discussões. Erros crassos.

O mérito do Fórum está no ser um vazio. A TSF abre um espaço que oferece ao ouvinte, e isto é o essencial. Essa situação cria a oportunidade de se actualizarem as competências cívicas do auditório. Uma dessas competências é pilar da vida em sociedade: a capacidade de elaborar espontaneamente um discurso oral que tenha ordem e tónus. Ora, em Portugal não se cultiva a oralidade na escola, com isso conseguindo-se duas coisas: o atrofio intelectual e cultural de gerações sucessivas; a grotesca ilusão de que o Santana Lopes é um tribuno de excepção; quando o facto de ele aparecer como excepção apenas carimba a miséria comunicacional da classe política.

É ataraxicamente curioso ver os programas de promoção da leitura, obra de sábios instituídos pelo Governo e pagos pelo Estado, a ignorarem a relação causal entre leitura e fala. A leitura só faz sentido para que se enriqueça a competência do falante em ser falante, levando a interacções comunitárias mais profícuas. Logo, a motivação para a leitura obtém-se a partir da motivação para a relação com o outro ao nosso lado. É esse mesmo plexo de carências e desejos que nos habitam genética, biológica, psicológica e culturalmente que permitiria usar os autores clássicos de modo inteligente — mas isto na condição da Escola conseguir formar adultos, o que implicaria que a Escola conseguiria mostrar as camadas pulsionais, imorais e abismais que sustêm e preenchem as obras clássicas. E ela não consegue, nem irá conseguir.

No Fórum da TSF, pelo menos, há quem se treine diariamente no exercício da civilização. A civilização, como alguns dizem cheios de razão, é uma grande conversa.

Primeiras impressões

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As quais levei comigo, por troca com outras impressões:

Homo Ludens, Johan Huizinga, Edições 70

Às Avessas, Vasco Pulido Valente, Assírio & Alvim

Elogio da Cidade de Lisboa, Damião de Góis, Guimarães

Conto lá voltar, para colher mais impressões. E com Vossas Senhorias, que vos tem impressionado na Feira do Livro?

Respeitemos o código

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Dan Brown é um honesto e esforçado rapaz. É claro que teve sorte, pois não há fórmulas para sucessos da grandeza deste, mas o seu livro vem recordar-nos duas verdades que importa divulgar em Portugal:

a) O capitalismo é bom, o capitalismo é culto: permite enriquecer a escrever livros. Esse facto, servido como está de desvairados exemplos, incluindo casos nacionais, deveria moldar os programas de aprendizagem da Língua logo a partir do Ensino Básico.

b) As religiões estão a saque. Depois de milhares de anos a saquearem-se umas às outras, as religiões são agora as vítimas do laicismo. Qualquer espertalhão que mande para o ar uma acusação estilosa contra as religiões, ou se divirta a imaginar versões alternativas das suas histórias, tem a certeza de pôr a funcionar uma caixa-de-ressonância que lhe faz o trabalho de promoção. Mais eficaz do que o selo de qualidade da Rainha e sem gastar um tostão.

Para uma reflexão descontraída e saudável do fenómeno, leia-se esta investigadora de Cultura Pop.

Estimada e leda MUSA

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No Verão de 2003, três alfacinhas de férias na Zambujeira do Mar, cercados por fogos de dimensão histórica, incendiaram-se num projecto: organizar, editar e publicar, com distribuição internacional, um livro exclusivamente só com peças de design gráfico de artistas portugueses. Na Primavera de 2006, conseguiram-no.

MUSABOOK foi o nome escolhido; e desse projecto nasceram outras actividades preparatórias, complementares e divergentes, reunidas sob a marca Musa. A editora é a IDN, de Hong-Kong, uma das maiores e mais reputadas editoras mundiais em design gráfico.

O feito é tanto de realçar quanto em Portugal, como indulgente e auto-intitulado “país de poetas”, não existe cultura visual. Essa iliteracia estética está patente na feia paisagem urbana, na modéstia da pintura, na pobreza da ilustração, no deserto do cinema. Mesmo assim, e até por isso, o espírito que animou o projecto tinha um cunho decisivamente nacional e geracional.

Este vosso humilde escriba assina, com outro criptónimo, um dos textos introdutórios no livro, mas não faz parte do trio fundador, sequer partilha as mesmas disciplinas. Acontece, apenas, haver uma coincidência de olhares. Consequentemente, o que atrás fica escrito não tem um único caractere imparcial.

Domingueiros

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Ao domingo o PÚBLICO é um festim de inteligência. Botam discurso alguns concidadãos que, por díspares esteios convergindo num mesmo desígnio, nos tentam aproximar uns dos outros. Por ordem de paginação:

António Barreto
Analisa com detalhe, diagnostica com rigor. A sociedade aparece-lhe decadente e incorrigível. A salvação nacional está na friável dependência de um jacarandá sito no cruzamento das ruas do Salitre e Rodrigo da Fonseca, Lisboa. Ou de outros florescimentos bem mais improváveis.

Frei Bento Domingues, O. P.
Abre portas, janelas e clarabóias no claustro Católico. A luz fere pupilas habituadas à escuridão, a corrente de ar constipa os desagasalhados. O sermão deste domingo tem leituras de Julia Kristeva. Mas muito piores do que os cegos que não querem ver, dentro da Igreja, são os cegos que não querem pensar, fora dela.

João Bénard da Costa
Uma voz apaixonada. Que se dá em lusco-fusco, sombreando evidências, iluminando mistérios. Escreve como um escultor. E, como um escultor, dá forma à nossa memória colectiva. Cinzelada com golpes de erudição. Entalhada na pedra macia de uma vida que se projecta, bem realizada.

Francisco Teixeira da Mota
Colunista discreto, por estar confinado a uma só temática. Da sua leitura nasce uma perplexidade lateral: a quem interessa que o povo não se interesse pela aplicação do Direito? A Justiça é mais importante do que as Obras Públicas, a Economia, a Saúde, a Educação. Eis mais uma coisa que não nos ensinam na escola.

Vasco Pulido Valente
O “vate português valente”, cantor dos dias do fim de uma Nação moribunda. Os que se limitam, com desdém ou acinte, a apontar o seu pessimismo, como se fosse uma falha de etiqueta no banquete da ilusão ou um estrupido a afligir o sono já sem sonhos, são cúmplices da desgraça.

Gineceu

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Helena Roseta é uma das minhas personalidades políticas favoritas. Foi íntima de muitas figuras que fizeram a nossa História na segunda metade do século XX. Foi uma das fundadoras do Botequim, tinha 24 anos. É arquitecta. É mulher. E sempre que fala parece dizer o que pensa.

Uma das provas de Portugal estar amaldiçoado desde Alcácer-Quibir reside no facto de esta pessoa nunca ter sido Primeira-ministra ou vir a ser Presidenta da República.

Velha Lísbia

Imagem do Expresso
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Foi para isto que votei no homem: José Sá Fernandes apresentou uma ideia que é, no seu também simples pragmatismo, um manifesto de amor a Lisboa; e, por extensão, ao meu Portugal sonhado, às cidades por inventar, à História das estórias, à cultura da lógica da batata e da ética dos tomates, ao comércio da praça, ao turismo que envaidece, aos namorados da eterna esperança, às crianças de 90 anos, aos solitários que gostariam de estar sós, aos bem casados para incredulidade dos amigos, aos escrivães de versos banais, aos oradores de improvisos previsíveis, aos que lêem jornais por uma questão de sobrevivência, aos maluquinhos das fotografias, aos que se encantam com passeios de domingo às quartas-feiras, aos que não podem perder as manhãs de Sol, aos que escutam o Tejo a passar na alma, aos que ainda esperam partir nas caravelas, aos profetas da Velha Lísbia, aos que alucinaram e pedem informações, àqueles a quem apetece muito e já e no agora deitarem-se ao comprido num banco sem terem coragem para tal nem para muito menos, aos que passam de carro e juram voltar sabendo que estão a mentir por saberem que estão a jurar, aos que marcam o primeiro encontro num jardim por causa dos pontos de fuga, aos cães sempre aparvalhados, aos pássaros sempre de cabeça no ar, aos gatos sempre a pensarem lá nas coisas deles, a todos os puros de coração que nunca são falados sendo mais do que os outros que nunca estão calados e às minhas pernas.

Trata-se de demolir um acto de ódio a Lisboa, feito nos anos 70 na avenida 24 de Julho, criando no seu lugar um lugar. Para a catarse ser completa e exemplar, o prédio na posse da Direcção-Geral da Administração Pública deveria ser destruído e varrido do mapa pelos lisboetas. Eu iria.

Onde estavas no 25 de Abril de 1986?

Eu estava nas instalações da rádio Nova Antena, algures perto de Loures. Era o tempo da pirataria, um tempo de entusiasmo e aventuras hertznianas. O meu saudoso amigo Hermenegildo Gomes tinha sido convidado para fazer um programa nesse dia, ele que era realizador da RDP. Veio a fazer vários ao longo dos anos e a dar apoio à estação de sortidas formas, incluindo cursos de formação. Se bem o conheço, fez tudo de borla — era de outra geração… Já agora, o Gil teve um papel no 25 de Abril que talvez nunca venha a ser conhecido. Falava disso impante de orgulho, mas só em raras ocasiões de desvario alcoólico, e sem revelar o segredo.

Gravado em mim, dessa noite na Nova Antena, ficou o lamento de alguém que tinha ido fazer um périplo pela região à procura de festejos do 25 de Abril. De volta, disse num misto de estupor e contida raiva: “Não há nada… já ninguém festeja o 25 de Abril…”

O 25 de Abril não inspira artistas, intelectuais, políticos, académicos. O salazarismo também não. A Guerra Colonial, idem. As convulsões da Primeira República, idem. O fim da Monarquia, aspas. A diáspora portuguesa, aspas. Portugal não se conhece, vivemos sem memória. E talvez uma das causas esteja na suavidade da Revolução, o apagamento instantâneo do passado. 40 anos de uma execranda governação que ficaram sem culpados, sem sequer um acto solene de acusação. Começava assim o ciclo que repetia um dos aspectos operativos do regime precedente: a opacidade. Só que desta vez, supremo artifício, uma opacidade democrática onde o inimigo já não tinha rosto. A coberto desse véu, Portugal transformou-se num pardieiro de corruptos que, afinal, vieram substituir os anteriores ou apenas obrigaram à mudança das regras para os restantes. Como se diz noutros lugares, o Diabo é mais poderoso quando nos convence da sua inexistência.

Enquanto não acertarmos contas com o passado, cobrando factos e nomes, continuaremos com o futuro mal-parado.