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Manela de Ferro 0 X Inteligência 10

O mais extraordinário aspecto da entrevista da Manela é a sua pobreza intelectual. Não atribuo responsabilidade especial à pessoa, que é mediana, mas ao grupo que ela representa: a Comissão Política do PSD. Tendo estado calados antes, durante e depois do congresso, e conhecendo a realidade nacional por dentro, aqueles figurões tiverem tempo para pensar. Porém, a entrevista revela que nada de nada de nadinha de nada foi pensado. Não duvido que as reuniões tenham sido preenchidas com milhares de opiniões, mas ninguém as transformou em pensamento. Só isso explica que a presidente do PSD, na primeira apresentação ao eleitorado em plenas funções de chefia e a 1 ano das eleições, não tenha propostas, nem sequer ideias — apenas conseguindo exibir uma profunda desorientação. E num lance inacreditável, mas tão neurótico que enternece, chegou ao ponto de repetir que o País está de tanga.

Nada me espanta mais do que a imbecilidade da actual oposição à direita. Em vários sentidos, é caso para terem vergonha. Que bostas.

Manela de Ferro 2 X Pacheco Pereira 0

Tenho de bater no Pacheco para ver se ele acorda. Talvez já não acorde, o zombinismo onde caiu por empurrão socrático seja irreversível, mas da minha parte não se poderá queixar de falta de interesse na sua recuperação. É o caso com a entrevista da Manela, ontem. A presidente do PSD disse que o Governo geriu brilhantemente a crise dos transportadores. Claro, não o disse assim, mas assado: Não se deve deitar gasolina na fogueira, situação muito complexa, tempo para estar calada. Ora, foi nesse episódio, num misto de oportunismo de feira com alarme pançudo, que Pacheco Pereira avançou com a patife acusação da falta de autoridade do Estado. Depois, assarapantado com a resolução do conflito, não quis perder a face e tomou a pior decisão: fuga para a frente. No encerramento do congresso do PSD, apareceu em registo Portas a largar bacoradas esquizóides sobre o Governo e o País. E continua, semanas depois, a chapinhar no ridículo. Obviamente, vai ficar caladinho quanto a esta posição da nova chefe da velha oposição.

Genial, e de génio, foi a declaração da Manela relativa aos casamentos homossexuais. De génio, porque se limita a exprimir uma opinião pessoal, sem qualquer interesse político. Mas genial, porque a chocante incapacidade de ler a cultura e sociologia do presente é, em paradoxo, uma estratégia vanguardista. Ninguém mais no PSD se lembraria de afirmar que os casamentos têm como finalidade principal a reprodução. E por esta cesária razão: tirando o Menezes, ninguém no PSD se arriscaria a ser gozado até pelos putos do 9º ano de escolaridade. As vantagens de se assumir um fundamentalismo religioso — o qual só existe como abstracção ideológica, atente-se — são, contudo, evidentes: comunicação lateral com o fundo salazarista que confere identidade a dois terços do eleitorado. Tendo em conta o actual estado de desamparo da direita e centro-direita, é alimento para esfomeados. Pois bem, e que dizer agora perante a aberração? Agora, o Pacheco Pereira vai ficar caladinho.

Afinal, para um artista da política-espectáculo, a verdade é um prato que se come frio. E nos bastidores.

E com esta declaração, Pacheco Pereira inaugura a silly season

Já o ouvi, já o disse e agora repito-o: se repararem bem, verão que Portugal nesta altura não tem governo. Não é sequer aquela pergunta cíclica dos jornais, onde é que está o governo, como se o governo fosse o Wally. O corpo físico do governo sei bem onde está, só que não exerce, não governa. Desde que os powerpoint e as sessões de casting começaram a ter efeitos contraproducentes; desde que o calendário de pau e cenoura, tão bem urdido pelo Primeiro-ministro para esta legislatura, encravou na crise internacional e nos erros nacionais; desde que a certeza de nova maioria absoluta se evaporou; desde que o PS percebeu que podia ter um PCP e BE com 20%, comendo-lhe a sua própria esquerda mais Manuel Alegre; desde que acabou a mistura de narcisismo e de turbulência psicótica que passava por ser oposição e apareceu oposição, o governo não sabe o que fazer e está em estado de estupor. Não há governo, está ali parado diante de uma parede, como no Blair Witch Project.

A maior vítima da josémanuelfernandização

O Público é, actualmente, um jornal para imbecis dirigido por um irresponsável (para me restringir aos eufemismos). Como se explicará o apagamento de um evento de inquestionável importância política como aquele que reuniu Primeiro-Ministro, Ministra da Educação, Ministro das Obras Públicas, Bastonário dos Engenheiros e Bastonário dos Arquitectos na sexta-feira passada? O que se pode ler no DN, Expresso, Sol, SIC, RTP e TSF, por exemplo, não existiu para o Público. Mas tal apagamento não se deveu a um menor interesse pela temática da Educação, bem pelo contrário.

Na edição de sábado, a manchete foi feita com este simulacro de notícia: DREN quer excluir da correcção dos exames os professores que se afastam da média. Nela se relata que um professor protestou contra uma frase dita pela directora regional de Educação do Norte, Margarida Moreira. A frase tem a peculiaridade de, mesmo fora de contexto, ter um sentido neutro e legítimo. Também se pode ler a resposta dada pelo director do GAVE, Carlos Pinto Ferreira, que participou na referida reunião, o qual oferece um esclarecimento óbvio para a interpretação da dita. Isto é, nem sequer faltaram contributos racionais para que os responsáveis do jornal pudessem avaliar com algum rigor a relevância do episódio.

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O segredo da felicidade

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[toca na imagem para aumentar a felicidade]

Sou inimigo da ideia de felicidade. Por isso, repito as palavras de Flaubert, carta a Louise Colet em 1846, que permanecem definitivas:

Etre bête, égoïste, et avoir une bonne santé, voilà les trois conditions voulues pour être heureux ; mais si la première nous manque, tout est perdu.

Quem tem um inimigo, está abençoado. Pode lutar com ele, desenvolver as forças, crescer extraordinariamente. Descobrir que o Diabo só faz o que Deus lhe permite, e que todo o mal que nos acontece é para nosso maior bem, aprende-se na arte da guerra; hoje raramente ensinada, pervertida pelas suas imitações, estando os mestres incógnitos nas catacumbas da sapiência. Este paleio de paragem de autocarro só para introduzir uma ruiva americana: Gretchen Rubin. Esta senhora teve o discernimento de querer viver da escrita, e está num país onde tal é possível sem dificuldades de maior. Tanto assim que já guarda no bornal uma besta célere, e anda danada a tentar meter mão noutra. A data prevista para a prova dos 9 são os finais de dois mil e ditos. Contudo, o livro já se vende sem existir e sem que alguém tenha ainda dado um tusto por ele. Ei-lo: The Happiness Project.

Como se pode ler logo no cabeçalho, Gretchen está a escrever uma obra que vai misturar Aristóteles, Santa Teresinha do Menino Jesus e Oprah, entre muitas, muitas e muitas outras fontes. O tema em estudo é o Everest da arrogância e cowboismo imperialista: a felicidade. Entenda-se por felicidade, pegando nos três exemplos históricos indicados, a realização, a santidade e o sucesso. Vale tudo, pois. Estamos em pleno bacanal semântico. E como se não bastasse, provando que ainda não há tecnologia que consiga introduzir juízo no sistema neuronal de um americano, a autora propõe-se identificar as regras para alcançar a felicidade. Identificadas, vai testá-las. A sua vida passa a ser o laboratório da eficácia dos ensinamentos recolhidos, mas só durante um ano. Isto obriga a um qualquer calendário fechado de testes. Se, por hipótese, reunir 12 conjuntos de regras, poderia ter 1 mês para cada exercício. Se forem 52, uma semana. Mas talvez sejam centenas, como ela ameaça no topo da sua loja, e com durações variáveis. Por exemplo, os ensinamentos de Buda a serem testados durante 3 meses, de preferência no Verão; a biografia de Bill Gates levando a um fim-de-semana passado na garagem; e o caminho místico de S. João da Cruz apenas tendo direito a umas horas de gasto depois de um filme maroto à meia-noite, procurando aplicar o despojamento radical da Noite Escura no tempo que restar até o Sol nascer, et pour cause.

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O que é um pessimista?

A notícia, de ser Portugal o pardieiro onde há maior percentagem de pessimistas, não surpreende. É que Portugal é também um dos países onde é mais difícil encontrar portugueses. Se o português fosse pessimista, teria sido capaz de ir até às especiarias montado em cascas de noz? Esses portugueses eram optimistas. Conseguiam dar a volta às coisas, mesmo às coisas muito grandes.

Desde que se expulsaram e esconderam os judeus que a terra ficou entregue ao pessimismo. E é na sabedoria judaica que se encontra a definição acabada do pessimista:

Um pessimista é alguém que, perante duas más opções, escolhe ambas.

Eis Portugal no seu pior.

A terceira força de oposição interna no PSD

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Para além de um Passos Coelho que está a fazer tudo bem para suceder sem espinhas à Manela, para azar da política nacional, e de um Santana que está a fazer tudo o que pode para se suceder a si próprio, para sorte da nacional-politiquice, há uma terceira força de oposição interna no PSD: o ódio às mulheres. O PSD é o partido que mais exuberantemente representa o homem português medíocre e bimbalhão. Claro, homens medíocres e bimbalhões encontram-se em todos os partidos, mas não na frequência com que eles ocupam funções de militantes e dirigentes sociais-democratas.

O traço que consagra a mediocridade e bimbalhice do homem português comum é a redução da mulher a veículo sexual e mão-de-obra escrava, e esse processo mantem-se hoje igual ao que era no passado. Não é um acaso que, 34 anos depois do 25 de Abril, não se conheça da intelligentsia social-democrata qualquer especial preocupação com a condição feminina. De Marcelo a Pulido Valente, passando por Pacheco Pereira, José Miguel Júdice, Miguel Sousa Tavares e qualquer outro nome de referência, o estado calamitoso em que vivem as mulheres portuguesas é ignorado. Desemprego, diferenças salariais, acesso a cargos directivos, representação política, violência doméstica e abandono social, eis um primeiro rol de indicadores que não tiram o sono à social-democracia publicada. Sim, falar de mulheres enquanto cidadãs não tem graça nenhuma, quão mais agradável é continuar a vê-las como bonecas disponíveis e infantilóides ou mães solícitas e sacrificadas. Assim, ter 109 mulheres em mais de mil congressistas, em Guimarães, não incomoda ninguém. Esta proporção, 10 para 1, é o exacto retrato da realidade nacional no que diz respeito à influência política e cultural das mulheres.

Muita coisa mudou nos últimos 25 anos, muita. Há muito mais mulheres com muito mais dinheiro, liberdade, opções. E, por causa disso mesmo, a sua inércia e demissão em face da responsabilidade política própria é trágica para todos, até para os medíocres e bimbos. É a calamidade das calamidades, isto das mulheres não ambicionarem a mais do que serem omnipotentes consumidoras.

O que ganhou Portugal com o fracasso no Euro 2008

Ganhou um cronista de referência, Ferreira Fernandes. As suas crónicas na TSF foram o feliz abraço entre uma cultura jornalista clássica, hoje em extinção acelerada, e uma elegante e apaixonada coragem de exprimir, a marca de autor. Para além de saber escrever, e de saber pensar, também sabe falar e contar. As rádios e televisões têm ali alguém que agarra audiências pelas melhores razões e com as melhores consequências. É aproveitar, porque desta estirpe não tem aparecido ninguém nas novas fornadas.

Pelo menos 97% está contra o aborto

A conclusão a tirar desta notícia é a de que, podendo, os mais interessados na questão do aborto votariam* contra o mesmo numa percentagem de 97%. Pelo menos.

Quando leio estas notícias, para mais com o retrato sociológico estampado onde se vê maturidade nas mulheres responsáveis, fico sempre esmagado pelo absurdo: qualquer pessoa acorreria ao choro de um recém-nascido abandonado, e tudo faria para o salvar, não precisando para nada de conhecer a sua mãe e pai, nem se inibindo de procurar dar-lhe calor, alimento e protecção por não saber como o sustentar nos anos seguintes. Pura e simplesmente, esses outros problemas nem sequer apareceriam no momento de agir a favor do bem maior. Perante um bebé, o melhor de nós torna-se força e vontade. Mas perante esse mesmo bebé 7 meses mais novo, muitos nem o estatuto de ser humano lhe reconhecem. Tratam-no como uma doença. Que, só por azar, lhes aconteceu no corpo e na vida.

Isto de se querer abortar porque apetece é uma animalidade que desapareceria em 7 meses — aliás, menos; muito menos.

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* Ou delegariam o seu voto em quem os representasse.

José Manuel Fernandes Challenge

Desafio-te a descobrir quantos preconceitos serôdios e primários se encontram neste parágrafo — retirado completamente ao calhas — do editorial do Público de hoje, e onde se fala da Ferreira:

A vantagem de ser mulher é sentir-se que é directa, terra a terra, que sabe quanto custa o pão, o leite ou um quilo de carne numa altura em que a distância entre os políticos que passam no interior de carros de vidros fumados e o cidadão comum se agravou. Ter idade, cabelos brancos, rugas é, até porque ninguém os deseja ter, um factor de autenticidade que aproxima a nova líder do PSD de um eleitorado que não é tão novo como se julga (sobretudo se pensarmos que os mais novos se abstêm mais do que os mais velhos).

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Sim, estamos em época de exames, também por cá.

Scolari, vai-te embora – V

Um treinador que descura, desaproveita e diminui um jogador como Quaresma, merece um prémio: o de treinador mais imbecil do Mundo. Quaresma bate bem a bola, como raros, mas bate mal da bola, como tantos. Vê-se que há ali um Dani em potência. Só que o Filipão Sargentão era também o auto-propalado rei da motivação, até a sua psicóloga aparecia a botar sentenças. Cadê? Como é possível que Quaresma, Nani e Hugo Almeida não tenham lugar na equipa do Petit, Nuno Gomes e actual Sabrosa? No Entroncamento nunca se viu nada tão estranho.

Quando Mourinho foi para Inglaterra, ninguém acreditou que ele viesse a ter sucesso. Agora, passa-se o mesmo com Scolari. Só que agora vai tudo ter razão, e o homem não vai conseguir aquecer o lugar até ao Natal.

Scolari, vai-te embora – IV

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Pode ser que Portugal ganhe à Alemanha. E que ganhe os dois jogos seguintes. E pode ser que o faça com exibições notáveis. Se for assim, será uma desbunda que fará bem a toda a gente lusa, onde se incluem os que não nasceram cá, nalguns casos nem falando português, mas para quem o nome Portugal traz um sopro de alegria. Porém, os sinais esotéricos apontam para a derrota. Conjuga-se a húbris do seleccionador com a mística alemã e a tragicomédia nacional activada pela traição de Scolari. Antevê-se o desaire dentro de poucas horas. Mas seja o que for que aconteça, o resultado não será mais do que a expressão do destino — ou seja, da sorte.

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Uma campanha alegre

A revista Happy Woman está há uns meses com uma excelente campanha publicitária. Encontro-a nas carruagens do Metro e consiste em anúncios para ler. Só por isso, por não se limitar à convencional fórmula da frase em cima de imagem, tem um mérito que justificaria 3 ou 4 medalhas daquelas que os presidentes da República distribuem no 10 de Junho lá por razões que só eles entendem e que ninguém perde tempo a discutir. O mais importante nas peças da campanha, todavia, é o acesso à psique feminina. Os textos são listagens de gostos relativos a um universo de temas variados e contrastantes. E será preciso pertencer ao grupo de tontos que continua a festejar o resultado do referendo na Irlanda para não dar o devido valor às informações que estão a ser generosamente veiculadas pela revista. Da peça actualmente exposta, eis as 3 revelações que mais me impressionaram:

Gosto do Freud

Gosto de pensar alto

Gosto de dizer “panóplia”

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Um país sem interior

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Portugal é um imenso litoral. No princípio do mês, fiz uma viagem de carro que me levou de Lisboa a Miranda do Douro, passando por Portalegre, Castelo Branco, Belmonte, Foz Côa e tudo o mais que pude apanhar pelo meio. Missão secundária: chegar a Mirandela e fazer de comboio a linha do Tua. Missão principal: pegar no mapa, abrir os olhos, e ir para onde me desse na real gana.

A gana, se real, leva-nos longe. Foi assim que descobri um castelo a ser recuperado no Alegrete, um parque aquático em Mosteiros, uma casa de sonho na Esperança e um caminho mágico entre Rabaça e S. Julião. Tudo isto ainda na Serra de S. Mamede, estava no começo da viagem. No dia a seguir, Castelo Branco, iria para uma das regiões mais desertas no mapa. Malpica do Tejo, Soalheiras e Rosmaninhal, uma finisterra encostada à fronteira, uma fronteira de terra sem fim.

A gana, a minha, leva sempre para fora do alcatrão. Foi assim na travessia da Serra da Malcata, onde os pneus do meu bólide pertenciam agora à espécie mais ameaçada de extinção no território. Percorri veredas que deixariam tractores grandalhões com miúfa de lá poisar os rodados. E valeu a pena? Ora, tudo vale a pena quando se contempla a barragem da Meimoa. Ou a da Póvoa. Ou a do Maranhão. Ou a próxima.

A gana, afinal, aproxima. No Escarigo, ali mesmo ao pé de Almofala e da Vermiosa, ’tás a ver?, fica um dos locais mais belos da Galáxia. E eu tive o ranço de o apanhar aberto, sem saber ao que ia, incauto ao entrar, tendo lá parado num acaso. Duas senhoras faziam a limpeza e contaram-me histórias, falaram-me do tecto, levaram-me à sacristia. Disseram-me que a capital é Lisboa e não Escarigo só por causa de um grão de trigo — e como isso é tão delirantemente verdadeiro se escutado naquela igreja.

Passei por aldeias, estradas sem nome, montes e cabeços em parques naturais, vias terciárias, caminhos perdidos onde apetece procurar o destino. E concluí duas coisas: (i) o Portugal das estradas esburacadas acabou, mesmo no cu do mundo; (ii) e já não existe interior. Já não há distância, nem tempo de viagem, nem curvas. O que há é o outro lado do litoral.

Dá ideia que não se passa nada em Marte

Tenho a explicação definitiva para a falta de animação na paisagem marciana, onde não se vê ninguém, nem sequer uma carroça lá muito ao fundo ou um cão vadio a mijar nos aparelhos da nave. É esta: faz tempo que os marcianos emigraram para a Terra. Mas ainda podem ser reconhecidos pelo uso de cartolas coloridas em desafios de futebol, senhores, e calças de ganga cortada pela meia-canela, ou pouco abaixo do joelho, com botas de salto a dar pelo tornozelo, senhoras.

A circularidade do quadrado

Na última edição da Quadratura do Círculo o grande tema foi a crise dos transportadores. Foi uma edição onde se riu muito, um riso de alívio. Lobo Xavier, figura que devia ser substituída por nada acrescentar que valha a pena conhecer, e Pacheco Pereira, reduzido à má-fé da superficialidade e enviesamento, foram de uma previsibilidade bovina: só falaram da suposta falta de autoridade do Estado. António Costa não precisou de suar a camisola e ficou no registo pachola. Carlos Andrade estava com uma curiosidade infantil, deslumbrado com a solução pacifista e querendo saber se ela se iria repetir nos próximos conflitos. Nenhum se lembrou de citar Tucídides.

Colhe juntar-se a edição de As Escolhas de Marcelo deste domingo. Marcelo foi pelo mesmo caminho: atacou Sócrates fenomenologicamente, falando de efeitos e não de causas. E pior, imitou o bufão Portas na expressão do desejo de futuras, e ainda mais graves, perturbações da ordem. À sua frente, Maria Flor Pedroso deu uma lição magistral de controlo e domínio do subtexto a partir da escolha das perguntas e, acima de tudo, dos enfáticos silêncios. De tal maneira que Marcelo se foi abaixo em segundos, acabando com a voz esganiçada, agastado.

Pacheco e Marcelo são duas putas velhas que vivem da política como espectáculo, pejadinhos dos vícios que consistem em tentar que nada se altere de fundamental na política portuguesa. Ficaram banzos com a gestão e desenlace da crise dos transportadores. Nunca tal tinham visto cá na terrinha, sabendo perfeitamente que eles próprios não saberiam lidar com a situação — e não amam Portugal o suficiente para reconhecerem que o Governo assumiu profissionalmente uma situação que era nova e imprevisível. Os que nada perceberam e gritaram por cargas policiais, os que anseiam por novas perturbações sociais descontroladas para tirar dividendos do caos, e até aqueles que ficaram e estão calados como se a política não lhes dissesse respeito, são iguais a este par de jarras. Uns trastes que já esgotaram o prazo de validade, e que só pretendem continuar a circular sem terem de pensar fora do quadrado.

Enorme peta

Está em Marte uma nave a esburacar solo à procura de bichinhos, ou cheiro deles. Entretanto, uma das áreas onde se vai mais longe no conhecimento é a dos supercomputadores. As capacidades de cálculo já alcançadas são decisivas para a sobrevivência da Humanidade, seja no plano científico ou militar. A última novidade vem da IBM, o Roadrunner, o primeiro supercomputador a atingir os mil biliões de operações por segundo: se cada uma das 6 mil milhões de pessoas na Terra pegasse numa calculadora e trabalhasse em conjunto num cálculo 24 horas por dia, 365 dias por ano, demoraria 46 anos para conseguir fazer o que o Roadrunner faz num dia. Segundo a IBM, o Roadrunner é o primeiro supercomputador híbrido do mundo, incluindo 12.960 processadores que são versões modificadas do Cell que equipa a PlayStation 3, que trabalharão em conjunto com 6.948 processadores AMD Opteron. O poder de processamento do IBM Roadrunner é equivalente ao de 100.000 computadores portáteis e é mais de duas vezes superior ao do antigo detentor do título de computador mais rápido do mundo, o IBM BLueGene/L, afirma a empresa.

Parece pouco? Mais fruta: o Roadrunner precisaria de apenas uma semana para executar cálculos que o supercomputador mais rápido do mundo, há 10 anos, levaria 20 anos para completar. Quebrar a barreira do petaflop é o maior desafio da supercomputação desde que a barreira do teraflop foi quebrada, há 11 anos. O próximo objetivo da IBM, após esta conquista, é criar um sistema na escala ‘exa’. O supercomputador será usado no Los Alamos National Laboratory para trabalhar com problemas de segurança nacional, testar materiais nucleares e sistemas de armas nucleares, além de prever mudanças climáticas a longo prazo e estudar o universo. A máquina ainda tentará descobrir a cura para o HIV, segundo o líder da divisão de computação de alta performance do Los Alamos, John Morrison.

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Scolari, vai-te embora – III

Dentro dos prejuízos já causados pelo anúncio da saída do seleccionador nacional a meio do Europeu — como sejam as sucessivas e contraditórias informações sobre o processo, os conflitos entre futebolistas e jornalistas, os boatos que cruzam negócios de transferências com o comportamento de responsáveis federativos, a geral perplexidade e desconsolo dos adeptos portugueses e até as declarações escocesas de Eusébio em que se vira ao pontapé contra os avançados pátrios —, o pior é a repetição do anglicismo timing. Parece que jornalistas e comentadores perderam o tempo de aproveitar a oportunidade de estar à altura da ocasião nesse momento.