Arquivo da Categoria: Valupi

Por favor, leia-me

A crise dos jornais pagos é assunto encantador. Ninguém, no Mundo, tem uma solução que dê provas de ser capaz de estancar a sangria e todos antecipam a catástrofe; pelo que é com gosto que se constata uma iniciativa portuguesa inteligente, esta.

Agora, como responderão o Expresso e o Sol? Talvez se ofereçam para nos entregar o jornal em casa e ainda nos levem o pequeno-almoço.

Um gangue de jornalistas

O Público brinda-nos com uma extensão vocabular que primeiro se entranha, e depois se estranha: gangue. Porquê? Que aconteceu a quadrilha, a bando, a súcia, a corja, a grupo, a malta? Para onde foram os gatunos, os patifes, os malandros, os biltres e os vadios de Portugal? Malta que assaltava carrinhas de valores vai ser julgada em Gaia — não será mil vezes preferível à opção espúria do original? Este, que de original tem o mau gosto, veio da LUSA.

E assim temos como um gangue de jornalistas se juntou para roubar a Língua. Com esta diferença face aos malandros de Gaia: sabem-se impunes.

All’alba vincerò!

Il principe ignoto

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza
guardi le stelle
che tremano d’amore e di speranza…
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia.

Voci di donne

Il nome suo nessun saprà…
E noi dovrem, ahimè, morir, morir!

Il principe ignoto

Dilegua, o notte! Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle! All’alba vincerò!
Vincerò! Vincerò!

Puccini, Turandot, Nessun Dorma, Plácido Domingo e as manhãs vitoriosas. Para ir acordando ao longo do dia, e dos dias.

Biliões

Acabo de ouvir António Guterres a denunciar a economia mundial por mandar para o desemprego biliões de pessoas. Foi na RTP Memória, datado de 1996, mas não perdeu nenhuma das biliões de razões para ser considerada uma questão actual.

abrir o livro

tcehc3b3queipatins1977

O hóquei em patins português morreu no início década de 90, mas do seu funeral só nos chegou notícia em Junho último. Foi enterrado na Suíça, por suíços e franceses. O 6º lugar, a pior classificação de sempre em 70 anos de campeonatos do Mundo, passou por entre as notícias. O povo adepto que se poderia alvoraçar com a desdita também já passou, jazendo na amnésia. Quem tem menos de 40 anos não pode saber o que foi o hóquei em patins português em Portugal. Porque não pode saber o que era viver nos anos 70 e 60 e 50 neste país rural, analfabruto, cobarde e infantil. Um país literalmente desesperado, sem orgulho, que tinha no hóquei a possibilidade de viver a fantasia de se imaginar cosmopolita. Puro delírio. Nem nos Jogos Olímpicos o hóquei em patins podia entrar, quanto mais na atenção do Mundo. A nós se juntavam outros nostálgicos de tordesilhas, impérios e rios de prata, espanhóis, italianos e argentinos. Opulentos miseráveis. O hóquei, desporto para aristocratas, joga-se de bengala. Garbosos, elegantes, altivos, os jogadores sabem-se alados. Em cima dos patins o céu está mais perto, a terra é lisa e desliza.

Por leonina sorte, apanhei a última geração de amor popular, a equipa dos 5 magníficos: Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento. Como a televisão da época ainda não era omnívora e insaciável, brilhavam as vozes dos locutores da rádio. Desses relatos ficou-me uma lição atinente ao poder das metáforas. Em 1977, o Sporting foi campeão europeu. Alguém, cujo nome não fixei, relatava os jogos tendo no seu reportório a expressão: abrir o livro. Dizer-nos que o Sporting estava a abrir o livro correspondia a celebrar os momentos em que a equipa alcançava um nível exibicional que o encantava, o equivalente à entrada da música para premiar o espectáculo do toureiro. Embora a sua voz fosse moldada pela grave solenidade de quem comunica com a audiência, o timbre era de bem contido encómio, de festa sentada.

Os movimentos sincronizados dos atletas, o juízo e gosto linguístico do comentarista, a imaginação púbere do ouvinte, uniam-se estes diferentes planos da realidade para transformar a expressão abrir o livro na minha iniciação ao poder divino das metáforas. Eu tomava conhecimento da existência de um livro onde estavam as jogadas perfeitas, aquelas que não tinham oposição possível nem possível melhoria. Eram absolutas, por isso estavam gravadas num livro. A equipa, por eleição misteriosa, conseguia abrir esse livro de vez em quando. E, enquanto o livro estava aberto, era até bom que a leitura não fosse perturbada pela marcação de um golo. Isso poderia levar à alteração súbita da coreografia mágica em acção, embora fosse esse evento a promessa de redenção, apocalipse e transcendência inclusa no livro agora aberto. O sublime estava no que antecedia a glória, o gozo de uma jogada eterna era preferível ao êxtase de um golo efémero. Mais valia não chegar ao fim, continuar a passar a bola, fintar os adversários, folhear o livro.

Era uma lição relativa à condição paradoxal do humano, o único animal que lê. O único animal que vai de patins.

Cineterapia

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SICILIA!_Danièle Huillet & Jean-Marie Straub

Agosto de 2007, meados, é a melhor altura para ir à Sicilia!. Chegar de barco, viajar de comboio, visitar a mãe e andar a pé. A paisagem é toda a branco e preto, cinzenta, mas cheia de Sol. Até as sombras são imitações da luz. E cada pessoa fala com a confiança de quem se sabe escutada até ao silêncio diafragmático, aquele entre cada cigarra. Aquele, por onde passa a alma ou o comboio. Fala-se sereno, tão calmo, mesmo no brado, que ainda se dispõe de tempo para cantar. Cantam-se as palavras ditas. Canta-se a palavra pensada. Cantar é a única forma de transmitir a verdade, o ritmo da vida, a verdade.

Este é um dos mais amorosos filmes na História da arte, garanto-o eu que não sei o que digo. Os realizadores amam o texto, amam a luz, amam o cenário, amam os actores, amam o cinema e amam-se a si próprios, feliz casal, também como espectadores. Tenho vergonha de enaltecer este ou aquele aspecto, adivinhando-me desastrado e inconveniente, bruto na carícia da filigrana. Prefiro retirar-me para o Oeste, lembrando aos papalvos que Cassavetes se filiava em Capra e Huillet&Straub em Ford. Porque isto, do cinema no cinema, é mesmo como aparece.

Esses lupanares chamados fnac, em conluio com esses chulos chamados ATALANTA FILMES, reuniram as suas pérfidas intenções para nos proporcionar momentos do mais exaltado gozo, no segredo dos nossos pardieiros estéticos, e apenas em troca de vil papel-moeda ou moeda-cartonada. É fartar, por Baco!

100 Torga com Torga

Pátria

Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma…
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma

Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
– Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras…

Vindo de um cultor do iberismo cultural (o único iberismo legítimo e inteligente, mesmo que usualmente demasiado lírico para dar fruto — e só lírico, quando precisa igualmente de ser filosófico), pode ser poema útil para os infelizes a quem nunca explicaram o que a palavra pátria pode querer dizer. Já agora, recorde-se um comentário sharkíssimo.

Iberismo soviético

Ligando com o saboroso diálogo abaixo, de Daniel de Sá, e ao arrepio da silly people que não leva a sério a ameaça iberista, colhe recordar um dito de Fernando Lopes Graça, contando 75 anos (muito boa idade para ter juízo; ou falta dele, é conforme), em 1982 (já com História mais do que suficiente no bucho para merecer um valente puxão de orelhas):

Porque a separação de Portugal de Espanha foi um erro histórico, sem querer com isso dizer que deixássemos de ser portugueses. A própria Galiza não se considera espanhola; a Andaluzia e a Catalunha também não. Há o problema grave dos bascos… Penso que deveria haver uma federação, tal como a federação dos povos soviéticos, cada um com a sua personalidade, mas com um projecto social, político e económico comum. Continuo a defender essa ideia, sem a absorção de qualquer parte por outra.

Como se vê, Saramago pertence a esta funesta linhagem dos que viveram em negação da liberdade. Malhas que o Império tece.

euGoogle

igoogle3.bmp

A popularidade do Google nasceu da relevância dos resultados, da simplicidade de utilização e de um ambiente visual minimalista. Por comparação com as páginas dos motores de busca da época (2000, o ano da vitória no boca-a-boca), pesquisar na caixa do Google era uma experiência de respeito absoluto pelo utilizador. Só a nossa pesquisa e os nossos resultados interessavam, não nos mandavam palha para cima dos cornos.

Hoje, Google é uma marca fornecedora dos mais variados e originais serviços. Um deles está nos antípodas da experiência inicial, embora mantenha o mesmo princípio: respeito absoluto pelo utilizador. Refiro-me ao iGoogle, o serviço de gadgets para personalização da página Google. A imagem supra mostra menos de metade dos meus. Eis um potencial problema: não conseguir parar com os acrescentos. Mas as vantagens são óbvias e demasiado importantes para abdicarmos do serviço.

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