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Europa, carteira e 112

Eu sei que já cheira mal falar da Europa, mas não há como escapar do facto de a União Europeia estar a chegar à sua última encruzilhada nesta crise. A Espanha e a Itália entraram no processo irreversível de subida das taxas de juros, não havendo medidas de contenção da despesa que lhes valham. Em Espanha não sei até se ainda sobram algumas. O ministro das Finanças alemão e a líder do FMI começaram ontem a dizer o que sempre têm dito de cada vez que um país se abeira do precipício, ou seja, “não está prevista, nem será necessária qualquer ajuda a Espanha ou a Itália”. Começamos a estar cansados destas afirmações, destinadas a acalmar mercados que não têm a mínima intenção de se acalmar.

Segundo Paul de Grauwe, economista belga ultimamente muito citado, a UE tem de reformular-se de alto a baixo, revendo os tratados, e o BCE funcionar como a FED norte-americana, com poderes para imprimir moeda. De outra maneira, o problema dos juros não se resolve.
Pergunto-me se os alemães não estão apenas a protelar qualquer decisão mais drástica – nomeadamente o fim da moeda única – para que os seus bancos consigam recuperar o máximo que emprestaram, antes de se fecharem na sua resplandecente galáxia, de onde dirigem os seus súbditos europeus, e reintroduzirem o marco com o mínimo de perdas possível.

Com estas perspectivas negras e agitadas, os cerebrozinhos que nos governam e que continuam a acreditar que assim é que é, só exangues veremos a luz do crescimento, deviam deixar de parasitar a carteira das classes média e média-baixa portuguesas e ter, eles sim, alguma contenção no entusiasmo do saque. Aumentar os transportes públicos daquela maneira e, ao mesmo tempo, não em alternativa, cobrar taxas à entrada das grandes cidades é ir verdadeiramente depressa demais no seu mandato como comissão liquidatária.

Por outro lado, efectuar uma chamada falsa para o 112, ocupando assim a linha, para comprovar a existência de 5 ou 6 segundos, repito segundos, de espera a mais no atendimento de uma chamada (aquela, claro está) em plena Assembleia da República, transformando isso numa estatística nacional instantânea, com direito a televisão e tudo, demonstra grande estupidez.

Perguntinhas a granel

1. Este governo apregoou que não ia desculpar-se com o anterior para justificar medidas duras. Mesmo assim, já fez algumas tentativas e continua (ver aqui e aqui). Não resultaram. Não tem nada a apontar, não foram descobertos quaisquer esqueletos nos armários.
Não se está mesmo a ver que a ideia é mostrarem-se os campeões dos bons princípios, ou seja, levar o povinho a pensar que muito haveria a apontar (embora seja mentira) e que só não o fazem porque assumiram um princípio e o respeitam?

2. A propósito das diferenças (para o triplo) entre os salários dos motoristas ao serviço de Passos e dos motoristas ao serviço de Francisco J. Viegas, lê-se no DN: “Fonte oficial da Cultura classificou o cenário como “normal”, de acordo com “uma uniformidade de critérios”, que pode não ter sido seguida pelas restantes pastas quando forneceram os dados”. Ler notícia aqui

Que critérios? Quer isto dizer, se bem entendo, que os motoristas de Passos ganham mais e que a informação publicada sobre os seus salários é falsa?

3. O papa resolveu puxar as orelhas a D. Policarpo chamando-o ao Vaticano, por ter ousado afirmar que “não há obstáculos teológicos à odenação de mulheres”. Ler aqui
Parece que já não é a primeira vez que o cardeal-patriarca se manifesta nesse sentido. A questão só me interessa do ponto de vista sociológico e cultural, note-se. Mas mesmo assim gostaria de saber o que lhe aconteceria se tivesse mantido a sua opinião?

O sempre escandaloso BPN…

Ontem, apercebi-me de que Mira Amaral percorreu quase todos os canais televisivos para cantar em tom falsamente humilde (mais do que explicar) a sua gloriosa aquisição do tristemente famoso banco. À cabeça, o BIC paga 40 milhões de euros, mas o Estado pagará as indemnizações aos 750 funcionários dispensados. O argumento do senhor era que não podíamos esquecer que a alternativa era o banco fechar portas e toda a gente ir para a rua (repetia isto até à exaustão) e que, quem sabe?, talvez as entrevistas com os potenciais dispensáveis afinal os transformassem em indispensáveis (!), reduzindo o número de dispensados (canta bem, mas não alegra). Ora, há aqui umas coisas que me parecem estranhas: primeiro falou-se no BIC, depois falou-se na desistência do BIC. Depois houve notícia de um grupo de investidores portugueses interessados (e também o Montepio), que pagavam, no mínimo, 100 milhões de euros e não despediam. Por que razão não foi aceite esta proposta bastante mais interessante? Não sabemos. Só sabemos que, de repente, o BIC voltou e com o negócio fantástico fechado. Os 40 milhões nem chegam a sê-lo quando descontadas as indemnizações.
Atendendo às ligações deste senhor com o cavaquismo, é de desconfiar. É possível que não tenha havido melhor oferta mesmo, que os outros se tenham retirado, etc., mas gostaríamos de saber, não era?

Pobrezinhos mas honrados (cheira a mofo por aqui)

O jogo sujo de caça ao poder do último ano e meio produziu os frutos desejados, levando ao poder quem irresponsavelmente tudo fez para lá chegar. Foram eleitos com ampla maioria. Têm legitimidade para governar. Mas, penso eu, nem todos os portugueses que alinharam no jogo e cujo desfecho aplaudiram tinham uma ideia clara do que verdadeiramente os esperava.
Estes últimos meses têm sido como se rolássemos quase tranquilamente num comboio Eurostar rumo a Calais e à travessia. Neste momento, porém, com as medidas anunciadas a nível laboral e da função pública, já podemos ver uma imagem mais nítida do túnel a aproximar-se. Apesar das viajens sob a Mancha decorrerem presentemente sem problemas, cumprindo-se rigorosamente os 20 minutos debaixo de água até à luz, nem sempre foi assim. No princípio, eu própria por duas vezes fiquei “submersa” a centenas de metros de profundidade mais de quarenta minutos devido a avarias imprevistas.
Assim está Portugal. Ou pior. À beira de um túnel totalmente desconhecido e sem quaisquer garantias de segurança. À escala correspondente, se cada 5 minutos valerem um ano, sem contar com imprevistos, tão depressa não emergiremos. Com a agravante de tais imprevistos, atendendo às incertezas várias que pairam sobre a evolução da UE, poderem ser considerados duras provações e mais que prováveis, passe a incongruência. A receita da Troika, consonante com a prática do FMI em qualquer parte do mundo em que exista risco de incumprimento, implica austeridade, cortes, despedimentos e redução de salários e de direitos para os trabalhadores. Tem resultados conhecidos – recessão económica, instabilidade social, desmotivação, desespero, venda do país ao desbarato. E de tal maneira esses resultados são conhecidos (Irlanda, Grécia, mas também Argentina e muitos outros, que, apesar de tudo, tinham moeda própria) que não se compreende como gente que estudou economia e finanças em boas universidades e sobretudo observa a situação política actual defenda convictamente esta via, que sendo desastrosa, apelidam de necessária para o crescimento. Como? Questiono-me se amam o seu país. Haveria que ter evitado isto. Custasse o que custasse, nem que o preço fosse um adiamento da chegada ao poder. Continuar a lerPobrezinhos mas honrados (cheira a mofo por aqui)

Quando é que sabemos que o governo do PSD/CDS está em apuros?

Quando o presidente da República dá uma entrevista a um jornal a criticar o directório franco-alemão, acusando os dois países de se substituirem às instituições europeias e afirmando que existe na Europa uma deriva intergovernamental. Foi ao Expresso. Não tenho link.
Tem graça que não lhe ouvimos nada de semelhante nos últimos dois anos e, no entanto, o problema já era conhecido e as suas consequências já se sentiam em Portugal.

Pois…

“”Debates com Passos não serão de vida ou de morte

Depois da primeira reunião com a bancada socialista como secretário- geral do partido, António José Seguro, declarou aos jornalistas que os futuros debates parlamentares com Passos Coelho não serão de “vida ou morte” ou para “marcar pontos”, afirmando que deseja que sejam produtivos e esclarecedores.
Sobre o debate parlamentar da próxima sexta-feira com o primeiro-ministro, Seguro disse aguardá-lo “com muita serenidade”, afirmando que está “convencido de que decorrerá com elevação e com elegância”, onde irá afirmar quais são as posições do PS sobre temas lançados por Passos Coelho.
Para Seguro, os debates quinzenais que terá no Parlamento com Pedro Passos Coelho, serão esclarecedores: “Os portugueses esperam que os seus mais altos representantes estejam à altura de um debate digno e que falem sobre os seus problemas concretos
.”

Fonte

Bom, pela parte que me toca, elegância seria o último desígnio em que apostaria para um debate com o governo neste momento. Sobretudo perante a catadupa de atropelos, desrespeito de promessas (falo da sobretaxa, mas também da propalada transparência nas nomeações), decisões erradas (como o aumento exorbitante dos transportes públicos, em detrimento de desincentivos ao uso do automóvel (como taxas à entrada das cidades, que reverteriam para os transportes públicos, por exemplo)) contradições e insinuações (o desvio) desta fase inicial do mandato. Seguro está a pôr-se já à defesa e faz muito mal. Tanta coisa que podia dizer aos jornalistas, como, por exemplo, «Vamos ver, há muita matéria com que confrontar este governo, como os senhores bem sabem», ou «Vamos lá a ver, este governo tomou posse apenas há um mês, mas muitos portugueses já se questionam sobre a forma e o conteúdo de algumas medidas», ou ainda «Seremos dignos e construtivos, mas a prestação de contas é parte fundamental da democracia». E preparava-se para o combate verbal. Note-se que estas alternativas de resposta aos jornalistas não deixam de ser todas suaves, ou serenas, como Seguro gosta. Ah, e elegantes. Agora, dizer que os debates, não é este em concreto, é não serão (nunca? até quando? até daqui a 4 anos?) uma questão de vida ou de morte demonstra acanhamento, pouco empenho e falta de ambição, deixando o protagonismo para outros partidos, que bem o aproveitarão, e só não é meio caminho andado para o enxovalho porque do lado de lá está um PM muito pouco brilhante.

Quando o desnível também ofende

Ontem, ao ver estas cenas, pensei que alguém se ia levantar e ir embora do estúdio. Tal não aconteceu. Mas foi uma oportunidade para Mário Crespo usar e abusar do tom seboso, pretensamente conciliador (tantas vezes bajulador), com que dirige aqueles debates e que nos faz desejar que aqueles minutos de serpenteio viscoso passem depressinha (isto quando o entrevistado merece a nossa paragem naquela estação).

Se Alfredo Barroso, apesar da argumentação certeira e pertinente, se deixou exaltar demasiado sem necessidade, Teresa Caeiro mostrou-se em todo o seu esplendor: de uma vacuidade confrangedora, “tia” até dizer chega, incapaz de se olhar politicamente ao espelho e, no geral, mal-criada e com observações despropositadas, como a do “chafurdar na lama” (!).

Tanta mansidão

O que se está a passar com a reestruturação da administração da Caixa Geral de Depósitos, já devidamente criticada por Pedro Santos Guerreiro, que lhe chama um Albergue Espanhol, e outros comentadores da imprensa, devia merecer a mais contundente crítica da oposição, PS incluído. Mas não ouvi até agora uma única palavra partidária oficial sobre isso. Ontem, com a polémica já instalada na imprensa, no Telejornal ouvi zero sobre o assunto. Ocorreu-me até que o princípio do “respeitinho” que a privatização da RTP está à porta é o que agora dita os alinhamentos.
De acordo com o que tenho lido, todos os quadrantes do governo designaram um seu representante para a nova administração da CGD, o Presidente da República também e os interesses privados ligados ao PSD idem. Conflitos de interesses parece haver vários – desde escritórios de advogados de que são clientes grandes grupos económicos até administradores de empresas da área da saúde. Trata-se de um assalto ao tacho demasiado ostensivo para se deixar passar em claro. A Caixa é um banco público e os seus dirigentes são pagos com dinheiro dos contribuintes. Passos Coelho, que apregoou extrema contenção e combate às clientelas, não se ensaiou duas vezes para aumentar com elementos da sua confiança política, a que nunca chamará “boys”, o número de membros do Conselho de Administração do banco do Estado. Irão estes gestores/administradores preparar o terreno para a privatização? Colher os últimos frutos enquanto é tempo?

Gostaria de ver o governo confrontado com as perguntas incómodas que se impõem. Seria fundamental para começo de “conversa”. A táctica deste governo parece ser a do silêncio até onde for possível. Nunca mais se ouviram Álvaro ou Assunção. Gaspar só interveio mais uma vez depois da célebre conferência de imprensa que anunciou a sobretaxa do IRS. E outra vez, com a solenidade de uma leitura. O ministro da Saúde anda desaparecido, em retiro certamente. Passos não se ouve. Dir-se-ia que toda esta gente teme ser confrontada com perguntas. Mas lá vão cumprindo a praxis habitual. Uma oposição forte precisa-se. Seguro acaba de ser eleito Secretário-Geral do PS e, no seu jeito manso, declarou-se em público amigo pessoal de Passos. Amigo, amigo, portanto. A parte do provérbio que reza “negócios à parte” não convence. Tenho as mais fundamentadas dúvidas sobre a sua capacidade para confrontar este governo com a devida acutilância e desde já.

O quê? Outro SMS?

“António Nogueira Leite, que acaba de ser eleito administrador da Caixa Geral de Depósitos, demonstrou-se surpreendido por não aparecer no comunicado da CGD como vice-presidente do banco, avança o Diário Económico.

Fonte

Que nervoseira, não é, Dr. Nogueira Leite? Da lista de cargos que lhe propuseram e que o imaginamos a recusar com ar displicente, este era o primeiro a agradar-lhe mesmo…

(Um aparte: apesar do jornalista nos contar que se DEMONSTROU surpreendido, nós compreendemos que se tenha mostrado surpreendido)

Questionado sobre a composição da próxima Comissão Executiva da CGD, à margem do IX Fórum da Banca e Mercado de Capitais, em Lisboa, Faria de Oliveira disse que “ainda não está decidido o modelo da nova liderança nem quantos vice-presidentes terá. Mas provavelmente Nogueira Leite será vice-presidente da instituição”.

Fonte

Nervoseira agravada: “provavelmente”? Que desprezo por tão brilhante personalidade…!

Perguntas embaraçosas

Primeira pergunta – A nossa direita não se coibiu de tecer loas a Barak Obama desde a sua eleição. Agora, o jogo dos republicanos em relação ao limite da dívida, que se arrisca a mergulhar de novo a América e o mundo numa crise, assemelha-se muitíssimo às rábulas por aqui também representadas por PSD e CDS no último ano. Em que campo estarão agora? Rejeitarão a imagem que vêem no espelho?

Segunda pergunta – A propósito do 93.º aniversário de Nelson Mandela, afirmou o nosso presidente da República, em tom enfático de veneração, que, apesar dos 27 anos de prisão, nunca o mais ligeiro grão de “ressentimento ou vingança” (fim de citação) aflorou à mente daquele ser superior. Não faz parte da moral cristã, que sua excelência pretensamente pratica, seguir os bons exemplos?

Mau Maria. Afinal em que é que ficamos?

O primeiro-ministro anunciou hoje que o Governo vai apresentar até ao final de agosto um conjunto de medidas de contenção para colmatar o «desvio» de cerca de «dois mil milhões de euros» encontrados nas contas públicas.”

Fonte

Porque é que isto me cheira a “pensando melhor, vamos levar para a frente esta boca dos 2000 milhões”?
O ministro das Finanças não referiu qualquer desvio deste calibre. A Troika não o detectou. Será que as críticas ao carácter preventivo do imposto extraordinário levam agora Passos a encontrar uma justificação a posteriori para a aplicação do imposto e, eventualmente, outras medidas que aí vêm, como encerramento de serviços e despedimentos?
O Expresso dava a notícia dos 2000 M€ em título, mas, como já é prática habitual, no desenvolvimento da mesma, a jornalista apenas se fundamenta em afirmações do PM, segundo as quais “se tudo continuasse como até agora, havia expectativas fundadas de chegar ao final do ano com um desvio de 2,1 a 2,3 mil milhões de euros”. Esta frase é bastante ambígua. Expliquem-se de uma vez por todas, se fazem favor.

E se a Antártida era isto…

…como seria a paisagem por aqui?

Não resisti a mostrar esta imagem para dar a sonhar a quem esteja na praia, com desejos de que o faça com o prazer acrescido de quem vive um privilégio.

Segundo os últimos estudos da professora Jane Francis da universidade de Leeds, há 55 milhões de anos, o pólo Sul, para nós o continente gelado, era um local extremamente agradável para se viver, uma zona tropical, onde habitavam mamíferos, como castores e outros. A equipa chegou a esta conclusão depois de, num projecto de perfuração e com a ajuda de tecnologias de satélite, ter encontrado sedimentos de pólen de plantas que só florescem nos trópicos. As quantidades astronómicas de CO2 presentes na atmosfera durante milhões de anos são a explicação. Clima e dióxido de carbono, definitivamente, não se largam. E o que provocou a existência de uma quantidade astronómica de CO2 (1000 ppm (partes por milhão)) na atmosfera de então? O Guardian foi a Edimburgo saber e disse-nos.

Felizmente para nós, o tempo geocósmico é lento. Os cientistas são, no entanto, unânimes a dizerem que estamos a acelerar perigosamente os ciclos climatológicos.

Haverá margem?

A comunicação de ontem do nosso Ministro das Finanças suscita-me uma série de questões sobre política actual que conviria discutir com a máxima abertura. Para além do estilo inédito do novo governante, acabado de chegar da “Europa”, e do qual se gosta ou não ou, se não se gosta, até se pode considerar encobridor de uma certa crueldade, ele não deixa de ser um liberal, imbuído de um forte espírito privatizador e apologista de um capitalismo totalmente transfronteiras. No fundo, aceita de bom grado, se é que não advoga, a perda de independência. “O capital não tem fronteiras” parece ser a sua casa. Aparentemente, mas só do seu ponto de vista, está em total consonância com a corrente política actualmente dominante nas países europeus, maioritariamente de direita. Chamo, no entanto, a atenção para o facto de os principais dirigentes europeus, ao contrário do senhor Ministro, serem altamente zelosos e protectores dos interesses dos seus países, acima de tudo.

Ora eu pergunto se haverá, se haveria, margem, neste momento, para um governo de esquerda num país da zona Euro? Se haveria margem, por exemplo, para um José Sócrates, com uma visão mais “soberana” do país e directrizes de desenvolvimento próprias. Penso que seria difícil. Em sede do Conselho Europeu seria sempre visto como um pária. Ou então, para satisfazer os ditames dos seus parceiros europeus mais ricos, seria sempre visto como um traidor pelos seus eleitores em Portugal. Uma questão na qual o PS deverá reflectir.

O tal governo económico que muitos acham indispensável existir para dar estabilidade ao euro não poderá nunca ser separado de uma visão politico-ideológica para a Europa no seu conjunto. Enquanto os países com mais peso tiverem governos de orientação neo-liberal, um país com um governo de esquerda será sempre mal visto. E o curioso é que os próprios cidadãos desse país entenderão que terão mais interesse em votar em partidos da linha dominante na Europa. Tudo pensado, verão nisso uma vantagem. Veja-se o que acontece neste momento em Portugal. A maioria acata pacificamente as decisões desta espécie de “delegação” do governo federal da Alemanha. Será isto uma ante-câmara de um governo europeu? Não estará o eleitorado a ser instruído para vender a sua autonomia e identidade em troco de paz e pão?

Como se fosse possível

FMI critica debate público na Europa sobre nova ajuda à Grécia

O Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que o debate na zona euro sobre a ajuda adicional à Grécia e a participação dos credores privados no segundo pacote de resgate é um «enorme problema» à geração de confiança na economia helénica.

Fonte

Esta é boa. Não é que eu não admire os «mercados» e os especuladores pelo bem que fazem à sociedade, mas então agora os analistas, comentadores, economistas, simples cidadãos, políticos, etc. não podem discutir, adivinhar, vaticinar, defender, criticar ou chafurdar no novo pacote de ajuda à Grécia? Ou a Portugal, ou à Irlanda! Pretenderiam mantê-lo em segredo? Esta gente passa-se.
A menos que queiram dizer que, como os decisores não se entendem, o melhor é calarem-se. Pois… Veja lá se consegue, Madame Lagarde. Teremos que contratar o Assange? É que a pressão da opinião pública e publicada perante a cacofonia que por aí vai pode ser uma maneira de dar um pontapé para a frente nesta Europa.

Que raio de métodos

Segundo o jornal britânico The Guardian, a CIA organizou, com a colaboração de um médico e de uma enfermeira de Abbottabad, no Paquistão, uma campanha de vacinação generalizada contra a hepatite B apenas para obter o ADN dos familiares de Bin Laden, suspeito de habitar a povoação. As vacinas ficaram-se pela primeira dose das três obrigatórias. Espero que, apesar disso, tenham surtido efeito.

Mas não posso deixar de lembrar-me do evangelho de S. Mateus, segundo o qual e cumprindo-se uma pofecia do Antigo Testamento, Herodes, rei da Judeia, terá mandado assassinar todas as criancinhas de Belém no intuito de impedir, na fonte, que o seu trono fosse usurpado pelo recém-nascido “Rei dos Judeus”.

Ai, as fontes de inspiração da CIA! Vá lá que não se tratou do extermínio de uma população. Mas ao menos podiam ter administrado as três doses…

Passaremos agora a olhar as campanhas de vacinação nos países mais pobres com outros olhos. É ou não é? Que a agulha entrava, já suspeitávamos, mas que também trazia alguma coisa de volta já demorariamos mais a pereceber.

A que preside este presidente?

RTP

Já sabíamos que Durão Barroso pouco se tem afirmado à frente da Comissão Europeia. Ontem, em entrevista ao canal 1 da RTP, veio confirmar não só isso mesmo, mas também a total ausência de visão própria da Europa e dos últimos acontecimentos e até o desconhecimento de muito do que se tem dito sobre eles, parecendo Barroso viver noutro planeta. Serão efeitos da irrelevância a que os principais líderes europeus o votam? O homem, no entanto, deixa transparecer que assume o seu papel de joguete “com inteira responsabilidade”. A entrevista foi medíocre. Não pelas perguntas, que até não foram mal colocadas, embora tenham deixado de fora alguns assuntos e pudessem ter ido mais longe noutros, nomeadamente a questão do PEC 4 e da reacção da UE. Mas sobretudo pela falta de qualidade das respostas: vagas, desinteressantes, sem chama, circulares. Em suma, uma entrevista batante inútil e que só serviu para expor o total servilismo de Barroso e a descoordenação e desorientação que paira na Comissão, que parece mais intrigada com tudo o que se passa do que competente para o enfrentar.

Acordaram tarde, não são unânimes e parecem delirar

“A Europa não pode permitir que o euro seja destruído por três empresas privadas norte-americanas”, disse a comissária luxemburguesa, exigindo mais transparência e mais concorrência na avaliação de Estados pelas referidas agências.

“Só vejo duas soluções, ou os Estados do G-20 decidem desmantelar o cartel das três agências de ‘rating’ norte-americanas, e de três agências fazer seis, por exemplo, ou criar agências de ‘rating’ independentes na Europa e na Ásia”, acrescentou Reding.

Fonte

1. Das três agências referidas, uma tem propriedade francesa – a Fitch. Existem centenas de agências de notação, mas estas são as mais influentes. Até uma agência ganhar credibilidade passarão muito anos.

2. A Moody’s mais não fez do que reconhecer oficialmente que os planos de austeridade impostos pela Troika aos Estados em apuros não resolvem a situação e, pelo contrário, a agravam. A conclusão de que a análise feita pela agência e a consequente decisão visam atacar o euro é baseada na susceptibilidade de quem sabe perfeitamente que aquilo é verdade (como está demonstrado pelo exemplo da Grécia) e não gosta que lho lembrem.

3. Na Comissão, já ouvimos Olli Rehn a defender a criação de uma agência europeia, Barroso a não achar boa ideia, preferindo regulamentar as existentes, e agora a comissária Viviane Reding a defender a divisão das três para dar lugar a seis e nenhuma nos Estados Unidos. Eis o que me parece já próximo do delírio.

4. É evidente que estas agências têm muito de questionável, começando pela notação excelente dada a instituições financeiras à beira da falência, em 2008. Mas só agora que se sentem “às aranhas” para resolver a crise das dívidas soberanas europeias é que se lembram de atacar as agências de notação financeira? O próprio BCE se tem orientado pelas suas notações!

Our man in Saint Benedict

Para além dos protestos ridículos das alimárias que nos governam contra as agências de notação e dos comentadores seus apoiantes que parece só agora terem visto a realidade, provocando-nos uma imensa vontade de rir, e para além da austeridade plus plus que este governo se propôs adoptar (a ver vamos) com grande entusiasmo e amadorismo, convém não perder de vista o programa político e a missão de que se incumbiu Passos Coelho e para os quais os aparentes “murros no estômago” são meros acidentes de percurso.

Por estes dias, muitas empresas, sobretudo as mais importantes no mercado, devem andar eufóricas e com mal contida ansiedade perante as benesses que aí vêm, apesar e por causa da degradação da posição do país. Ele é a TSU que baixa mais do que esperavam, ele é as empresas públicas à venda a preço de saldo, ele é a privatização de centros de saúde, ele é a venda das acções douradas, ele é o desmantelamento do Estado com que sempre sonharam, ele é a mão-de-obra barata, ele é a rédea solta, ele é uma ministra da Justiça “amiga”, enfim, o paraíso está bem perto.

Pedro Passos Coelho, por mais empenho que exiba (o homem parece-me cínico) em pôr na ordem as contas públicas para o país voltar a crescer (olha a Grécia, querem que ria ou que chore?) é claramente o seu agente. Depois de devidamente afundado o país em dívida, mais dívida, recessão e desemprego, restará a Passos ser corrido e, depois do interregno e da missão cumprida, retomar a sua florescente carreira de empresário numa das empresas cujos interesses tão diligententemente foi defender para São Bento. Haverá várias, agradecidas, à escolha. E assim tudo acabará bem. Para ele, claro está.