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Da próxima vez, qual será o órgão ameaçado?

A primeira-ministra da Eslováquia revelou esta terça-feira que Pedro Passos Coelho lhe telefonou para lhe dizer que o impasse em Bratislava lhe estava a provocar “um ataque de coração”, noticia o Financial Times no seu site na Internet.

Fonte

Depois do estômago, que teria levado um murro, agora é o coração, que ameaça não resistir à não aprovação do reforço do FEEF. Acompanharemos atentamente a evolução do quadro clínico…

Mas não temos pena. A via foi escolhida deliberadamente.

Elogio de PSP (II)

Não sou tia, nem prima, nem filha, nem mãe, nem conhecida deste homem, mas, mais uma vez, aqui lhe rendo homenagem e lhe deixo o meu elogio, dando a ouvir a entrevista que deu hoje à Antena 1 e à qual cheguei via o blogue Sem Embargo. Com classe e de forma absolutamente clara, responde a uma série de questões que não passam de insinuações e desinformação do actual governo e que praticamente ninguém questiona/desmente. Parabéns também à Maria Flor Pedroso.

Entrevista audio

Razão e baixa política

O Plano Estatégico dos Transportes (PET) será hoje apresentado pelo ministro Álvaro na Assembleia.
Segundo o Jornal de Negócios, “Com o projecto do novo aeroporto de Lisboa adiado e com o objectivo de proteger a Portela da degradação mais acelerada, o PET prevê que o tráfego das companhias aéreas de baixo custo seja “transferido para outro aeroporto de Lisboa”, admitindo-se as pistas de Alverca e Alcochete como as melhores hipóteses.”
Pelo que tenho lido ultimamente, as companhias “low-cost” andam a pressionar a ANA para obterem o local ideal para aterrar – a Portela, o que leva a TAP a barafustar bastante alto. Deduzo, por isso, que a matéria seja urgente, nomeadamente para a Ryan Air, e que a solução não possa esperar, digamos, três ou quatro anos.
Quando se discutiam, há uns anos, as localizações para o futuro aeroporto, ficou bem claro que Alverca nunca poderia ser alternativa para uma solução Portela+1, dada a coincidência das rotas de aproximação e descolagem com as do aeroporto da Portela. Afinal, porque está Alverca em cima da mesa agora?
E Alcochete? Tem condições tal como está? Que obras serão necessárias? E how much?

Também se fica a saber, por um artigo do Público, que o TGV avança praticamente nos moldes em que o governo anterior o previu, subtraída a nova estação de Évora, desenhada por Souto Moura. (Diz o Público “O Governo avança, assim, com um projecto que mantém, no essencial, o que já estava assinado por Sócrates com o consórcio Elos, que ganhou a concessão do troço de alta velocidade Poceirão-Caia. A linha será construída para suportar comboios que viajam a 350 km/hora,… “.)
O que diziam estas criaturas que agora estão no governo da construção da linha do TGV! A ordinarice em política, pelos vistos, compensa.
Seria bom que o líder da oposição deixasse a “elegância” de lado e o antagonismo ao anterior governo (o que, aliás, o deixa numa situação algo repugnante e insustentável), porque, em primeiro lugar, não se deve ser elegante com gente mentirosa e sem qualquer tipo de escrúpulos e honestidade e, em segundo, porque o governo anterior estava certo em TUDO – seja na resistência a uma subjugação à Troika, seja nas diligências junto da UE, seja na contenção racional das despesas (adm. pública, saúde, educação), seja no ritmo, repito, no ritmo das reformas, seja nos investimentos públicos, seja na aposta na ciência e na educação, seja no modo de promover as exportações, enfim. Tudo.

Palavras para quê?

É um artista português … do PSD. Logo, é sempre necessário clarificar, interpretar, corrigir, desmentir. Mesmo que se ocupe um lugar respeitável no FMI.

Segundo o Público de hoje (sem link) “Numa conferência de imprensa realizada em Bruxelas, Borges fez declarações que foram entendidas pelos jornalistas presentes como uma disponibilização do FMI para, quando o reforço dos poderes do Fundo Europeu de Estabilização Financeira estiverem em vigor, colaborar na tentativa de ajudar a Itália e a Espanha a evitar o contágio proveniente da Grécia, comprando dívida. O FMI pode “investir em conjunto com o FEEF”. “Estaríamos certamente prontos para desempenhar esse papel”, afirmou António Borges, citado pela Reuters. […] No entanto, mais tarde, António Borges, ex-vicegovernador do Banco de Portugal, emitiu um comunicado com o objectivo de clarificar os seus comentários. Aqui, já assinalou que “o fundo apenas pode emprestar os seus recursos aos países e não os pode usar para intervir directamente nos mercados”, acrescentando que o FMI “não está a contemplar qualquer envolvimento no mercado com o FEEF”.

Agitação institucional

Com as vacinas em dia, leiamos este artigo de Vasco Graça Moura no DN de hoje, do qual aqui transcrevo estes sugestivos parágrafos:

Os problemas imediatos da Europa e de um país falido como o nosso não se resolvem com cortejos da ideologia desfilando nas ruas e avenidas e movimentos de massas. Tão pouco se resolvem com bloqueamentos do aparelho de Estado cujos resultados só podem ser negativos.
Como a situação vai piorar, as reacções corporativas tendem a agravar-se. Se não houver autoridade, rapidamente se chegará a uma situação de desregramento e conflitualidade social de consequências imprevisíveis
.”

Não vou sequer mencionar o quão imposssível teria sido este artigo há uns meses, nem o aproveitamento que a direita fez na anterior legislatura das manifestações de rua e o quanto estas lhe convieram. Como já percebemos, essa é a desfaçatez característica de gente politicamente rasca.
Mas acontece que este governo e os seus fanáticos admiradores estão manifestamente a descontrolar-se no que respeita à agitação social. Revelam-se mais agitados do que os poenciais agitadores. Será mesmo assim?

Na Universidade de Verão do PSD, Passos decidiu introduzir o tema da potencial contestação no seu dircurso de encerramento, aparentemente a despropósito, pois, na altura, até Jerónimo e a CGTP se encontravam a banhos! De novo o brandiu em intervenções na Assembleia e noutros locais públicos. Muitos dos comentadores televisivos seus apoiantes não largam o espantalho.

Ora, em matéria de protestos, a única coisa que constatámos até agora (além das três dezenas de professores não colocados que invadiram, sem o Mário Nogueira, o ME) foi a manifestação da CGTP no sábado passado, um evento que, em termos relativos, tendeu para o pindérico.
Não sei se é burrice ou se existe algum desígnio neste aparente esforço de convocação – provocação? – das, digamos, forças do mal. A pergunta mais directa e extrema que me ocorre fazer é a seguinte: será que pretendem mesmo impor um regime de ditadura, servindo-se para isso da agitação social, desejada, mas que, pobres coitados, tarda? Gente! Mais de 50% dos eleitores votaram em vocês, ainda por cima avisados das medidas “duras”! Não devia esse dado apaziguar-vos?
O facto é que, seja inépcia, seja estratégia altamente sofisticada, esta linha de actuação deixa-me, depois de perplexa, inquieta.
Claro que há uma terceira hipótese: a de tudo não passar de um jogo com regras tacitamente combinadas. Ou seja, o PCP que, se não agita alguma coisa, perde a sua razão de existir e teme a decepção dos seus apoiantes, vai-se manifestando de vez em quando. Como ajudaram a pôr lá este governo, os seguidores não haverão de ser muitos.
O governo, por sua vez, sabendo bem a distância intransponível que separa Jerónimo de 1917, vai, mesmo assim, invocando o papão da agitação social e das suas consequências tremendas para ir impondo mais e mais auteridade, à medida que a recessão for provando que o programa de cura é um logro. E assim vamos. Iremos?

Vinculados “per omnia secula seculorum”? Amen (da extrema-unção)

Diz António José Seguro que o PS está vinculado aos seus compromissos internacionais, vulgo, nesta fase da nossa vida, ao acordo com a Troika.
Muito certo.
Eu só gostaria de saber, no caso de a situação se deteriorar visivelmente e se constatar que o cumprimento à risca das medidas (perturbado, para quem observa, pelo lema do “ir mais longe”) está a agravar helenicamente a recessão do país, se o PS não pode ousar apelar a uma renegociação do acordo, não pode ousar pressionar as instâncias europeias para que revejam o tipo de remédios impostos e não pode ousar propor outras soluções.
Estará o PS condenado à paralisia do pensamento?

Estado permanente

Manuela Ferreira Leite foi questionada pelos jornalistas sobre a questão da omissão de dívidas públicas na Madeira, tendo considerado que “sobre o Alberto João Jardim já está tudo dito”.

Mas acrescentou: “Aquilo que, pessoalmente, não deixo de fazer é de relembrar que o Eng. Sócrates, o ministro Teixeira dos Santos deixaram o País numa situação de tal forma caótica e endividada, e fizeram-no de uma forma tão consciente e com todo esse endividamento, [que] deixaram o País num tal estado, que me parece, pelo menos, impensável que o Partido Socialista possa sequer abrir boca sobre a questão da Madeira”.

Fonte

Se a malta do PSD odeia Sócrates e não perde pitada para contaminar a opinião pública, o partido tem na doutora Manuela o expoente máximo desse ódio; a senhora vive enraivecida e incita implicitamente à vingança. Só prova o quanto o homem a perturbou e não deve ter sido pelos crimes que cometeu, que não foram nenhuns. Terá sido por razões como a humilhação, entre outras, mais pessoais.

Obnubilada como ficou, Alberto João, aos seus olhos, é um pândego, um bacano, no fundo, um amigo. A senhora é, assim, pouco séria, apesar da sua aparência. Pensar que é grande amiga de Cavaco explica muita coisa.
Supomos que seja uma devota. Não é próprio nem muito cristão mentir aos portugueses, caluniar os seus inimigos políticos e omitir o estado em que ela, sim, deixou as finanças públicas depois de ter sido ministra das Finanças, sem que tivesse havido qualquer crise internacional que obrigasse a gastos extraordinários.

Devia ter vergonha!

Esta mulher é muito pouco democrática e considera-se, e aos seus, com direito divino à cadeira do poder. Representa o pior da herança salazarista.

Entretanto, como refere o Valupi mais abaixo, são muitos dos “seus” que mantêm a polícia ocupada, e esses, sem “montagem” criminal nem trama ficcionada.

Porca miseria

Não vi ontem a entrevista a sua excelência. Mas tive ocasião de assistir à autêntica feira de comentadores que teve lugar imediatamente a seguir e que me alertou para a eventualidade de se ter passado algo de importante. Parece que o governo fazia 100 dias e que o presidente queria comemorar a efeméride daquela maneira, à conversa com a Judite de Sousa, aparentemente metendo no meio uma aula de economia e finanças para papalvos.

Mas o que aqui me traz é, em primeiro lugar, o espectáculo do autêntico corrupio de opinadores que, durante três horas, deram lustro às cadeiras dos três canais de cabo. Contei para aí uns vinte e tal! Ia ali uma grande excitação e eu, de repente, achei que este país não é muito normal. Perto da meia-noite ainda se comentava a entrevista?!

Quanto ao que ouvi, no geral em tom crítico, concluí que pouco se extraiu de substancial, que a questão da Madeira foi abordada da maneira previsível, ou seja, por evasivas ou argumentos esfarrapados, confirmando-se a estratégia de fazer eleger o Jardim a todo o custo, ocultando a dívida oculta, até onde foi possível, aos portugueses que a vão pagar, Cavaco dizendo que o homem não é caso único, que tem um estilo muito próprio (ouvi Pedro Santos Guerreiro dizer, com alguma graça, que, mais do que uma questão de estilo, era uma questão de estalo), etc. Que Cavaco tem uma óptima solução para a crise do Euro da qual ninguém se tinha ainda lembrado e que, talvez por isso, apenas a comunica aos portugueses.
Em suma, não perdi nada, como já não esperava perder, diga-se, e os canais de cabo passaram uma noite assaz animada e divertida.

Em segundo lugar, venho aqui dar conta do momento verdadeiramente lamentável da noite: os comentários do PS à entrevista, através de Zorrinho. E que disse ele? Que, bom, foi uma entrevista institucional. Uma entrevista institucional? Pouco mais disse. Ora, tendo em conta as mentiras, ofensas e ataques ao governo anterior (do qual Zorrinho fez parte) e os atentados à inteligência que foram certas passagens da entrevista e também os comentários e críticas posteriores feitas não só pelo Bloco e o PCP como também pela generalidade dos comentadores, isto não se admite. Portanto, claramente havia, quanto às palavras de Cavaco, muito mais a dizer e a oportunidade foi totalmente perdida.
Hoje leio no Público que a actuação do líder do PS e do líder parlamentar no debate de ontem com o governo foi considerada “patética e desastrosa” pelos outros deputados socialistas. Na minha opinião, já vem sendo assim há uns tempos. Para já não falar da ida de Seguro a São Bento para conversar com o amigo Passos…

Esta direcção não vai, não pode ir, longe.

O presidente do Automóvel Clube

Falemos de automóveis. O presidente do ACP gosta de automóveis, o que é normal e, para a profissão que exerce, indispensável. O problema é que gosta tanto que considera inadmissível não os ver aos milhares a circular na cidade. Ora essa visão da cidade não só é totalmente contrária ao bem-estar dos seus habitantes, como também contraria todas as práticas actualmente seguidas nas grandes capitais e cidades europeias.

Já não é a primeira vez que Carlos Barbosa critica medidas da Câmara Municipal de Lisboa que vão no sentido de reduzir o trânsito automóvel na cidade, sobretudo em certas zonas.
Ontem, a propósito do plano de transformação da Av. 24 de Julho numa alameda arborizada, o que implica a redução do número de faixas de rodagem, declarou, segundo o Público, que
o presidente do município, António Costa, só faz “asneira” no que toca à mobilidade
na cidade e, como tal, devia sair da autarquia. E que:
A cidade de Lisboa é liderada por um presidente e por um vice-presidente que têm uma obsessão, que nunca vão conseguir na vida, que é pôr todos os portugueses a andar de bicicleta. Tudo o que puderem destruir em mobilidade em Lisboa vão fazê-lo”.

Repare-se que, para Carlos Barbosa, mobilidade, nas cidades, significa utilização do automóvel.

O que eu verifico hoje em dia, em cada cidade europeia onde vou, é, quase sem excepção, a aplicação de uma política urbana que privilegia 1) o alargamento considerável e generalizado dos passeios, 2) a redução consequente das faixas de rodagem, 3) a implantação de lombas nas ruas onde não circulam autocarros para obrigar os automóveis a reduzir a velocidade, 4) o incentivo ao uso dos transportes públicos e 5) a criação de ciclovias quase por todo o lado, a par da disponibilização de bicicletas para aluguer em locais próprios (é só ver o que se passa em Londres, Paris, Bruxelas, para já não falar nas cidades holandesas).

A conclusão a que chegaram os autarcas das grandes cidades é que o excesso de automóveis a circular diminui a qualidade de vida dos habitantes, dificulta, isso sim, a mobilidade geral e desertifica os centros das cidades. Não quer isto dizer que toda a gente tenha de andar de bicicleta. Eu ando e, sempre que o tempo o permite, é nela que me desloco para o trabalho. Membros da minha família deslocam-se em Lisboa de bicicleta e estão contentíssimos com as novas ciclovias, algumas delas permitindo até descobrir uma cidade desconhecida. Acresce que, em comparação com outras cidades, Lisboa tem excelentes transportes públicos.
Portanto, seja bem-vinda a nova avenida 24 de Julho.

A propósito desta avenida: não acham, os lisboetas que nos lêem, que a linha de comboio que parte do cais do Sodré para Cascais é um dos principais factores de “divórcio” daquela zona da cidade com o rio? Para mim, é. Sei que implica muitos milhões, mas o ideal seria construir uma linha subterrânea, pelo menos no troço em Lisboa, e tirar de vez aquele comboio da superfície. Esta medida, estou certa, mereceria a aprovação até do sempre mal-disposto presidente do Automóvel Clube.

E siga a farsa

Depois de tanto Passos como Gaspar terem dito que o programa de austeridade para a Madeira seria conhecido até final de Setembro, portanto ainda antes do dia das eleições, Miguel Relvas declarou ontem que não, que não garante que tal aconteça. Muito bem. Já estávamos a estranhar. A operação “Comédia em três actos” prossegue de acordo com o plano. A revelação das medidas penalizadoras para os madeirenses (esperemos, ainda que também duvidemos) antes de Jardim ser eleito era uma nota dissonante na escala. Foi agora corrigida.

Mas diz ainda o jornal:

Relvas lembrou ainda que, “ao contrário do que aconteceu no passado”, foi “o Governo que divulgou” o problema financeiro da Madeira, garantindo que para o executivo “não há dois tipos de agenda, a pública e a não pública”. “A realidade é pública e é esse o caminho que temos seguido nesta e noutras matérias. O trabalho que está a ser feito é técnico e não me cabe a mim e ao Governo impor prazos.”
Fonte

Ó José Relvas! Ministro! Foi o governo que divulgou? Em Setembro? A um mês das eleições? Com os candidatos no terreno?
E depois: Trabalho técnico? A gente queria só as linhas gerais, o plano geral, entende? O que foi prometido.

Que queiram proteger um correligionário prevaricador já é lamentável, ainda mais em tempos alegadamente de grande rigor. Que queiram proteger concretamente o Alberto João depois de confessadas ilegalidades e à custa de uma austeridade acrescida para toda a população portuguesa e que de outro modo não seria necessária é demais.
De facto, a chantagem que Jardim exerce sobre esta gente é impressionante. Têm medo de quê, afinal?
Já nem pergunto, como alguns, com que cara pedem sacrifícios aos portugueses. A cara com que o fazem está à vista. É tranquila. É a tranquilidade do descaramento.
A protecção a Jardim passou há muito os limites da decência.

Governo a voar, dívida da Madeira a triplicar

Já não restam dúvidas: a prática, de tão repetida, merece ser considerada uma estratégia. Sempre que algum embaraço, dificuldade ou comunicação importante surge ultimamente em Portugal, o primeiro-ministro encontra-se no estrangeiro.
Neste momento em que está a ser oficialmente anunciada pelo responsável das Finanças da ilha, e pelo próprio Jardim, uma dívida escondida de 5,6 mil milhões, o triplo, portanto, do que fora declarado há dias, Passos voou para Nova Iorque, Gaspar para Washington, Portas idem e Aguiar para a Polónia. Não temos, portanto, hipótese de lhes fazer qualquer pergunta (esqueçam Vítor Gonçalves, que parece que lhes foi na peugada agarrado ao microfone). Que conveniente!
Mas é pena, porque eu, por exemplo, gostaria de saber o seguinte: “Esta dívida descomunal não afecta as metas do défice? Se não, porquê? Se sim, como vão resolver o problema?”

Esta brilhante, mafiosamente solidária, família PSD que nos governa, governa a ilha e preside à República não hesitaria, porém, em mandar um pelotão de fuzilamento a Paris, tivesse o buraco sido descoberto no continente. Não que não tivessem procurado. Não que não tivessem insinuado. Não que não tivessem espumado.

Mas um buraco destes na Madeira é, como dizer? É nada! Nada de especial. Nada que o amor da família não resolva.

No meio disto tudo, quem me parece mais surpreendentemente pulha acaba por ser Vítor Gaspar. Um independente, lembre-se. Percebe-se mal que um personagem daqueles, com aquela voz pausada de académico sério, vindo do BCE, penso, pactue com estes pantomineiros que, conhecendo a situação da Madeira pelo menos há meses, tudo fizeram para que Jardim, mais polémica, menos tontaria, mais ocultação, menos revelação, chegasse a Setembro em condições de ser reeleito. Pior: tudo indica que Gaspar conhecia o guião desde o início, desde o primeiro acto, o tal que intitularam de Desvio Colossal.

Causas reais da crise da zona Euro

“The eurozone debt crisis is big enough that there’s plenty of blame to go around, and some of it certainly should go to the crisis countries themselves. But it must also be recognized that as soon as those countries adopted the euro, powerful forces were set in motion that made a financial crisis likely, and very possibly unavoidable, no matter what the governments of the peripheral euro countries did. Irresponsible behavior by the periphery countries did not set the stage for the eurozone crisis; the common currency itself did.”
Fonte

Este é o último parágrafo, e conclusão, de um artigo de Kash Mansori publicado ontem e para o qual Paul Krugman remete no New York Times de hoje. Vale a pena ler o artigo completo e olhar bem os gráficos. É que, na verdade, já cheira mal a propalada “irresponsabilidade” dos países da periferia. A partir do momento em que aderimos ao Euro, as regras clássicas alteraram-se e as explicações também clássicas chumbam constantemente o teste da realidade.
Politicamente, convém a certos países e forças políticas acusar Portugal, nomeadamente, de despesismo nos últimos anos (claro que, a nível interno, os penúltimos já não interessam). As coisas não são bem assim. E repare-se que, no artigo, os gráficos só vão até 2007. O que se passou a nível internacional desde 2008 só veio deitar mais lenha para a fogueira da Santa Inquisição, apesar de os inquisidores locais saberem perfeitamente que o governo português agiu, no aumento da dívida e do défice após a falência do Lehman Brothers, em concertação com a União Europeia, à qual prestava contas. A perda da maioria absoluta em 2009 e os boicotes sistemáticos às tentativas de redução das despesas também têm forte tendência a ser esquecidos pelos desonestos políticos e comentadores da nossa praça.
Há muito mais nesta crise do que pecadores e puros.

Porque insiste a RTP?

Vítor Gonçalves tem ar de ser excelente pessoa. Como correspondente em Washington, fazia um bom trabalho. Como entrevistador da RTP1 não tem competência. Já diversas vezes o demonstrou – entrevista a Sócrates; entrevista aos dois principais candidatos nas recentes eleições.
Vi a entrevista a Passos Coelho intermitentemente, mas julgo ter visto as partes principais, complementadas com excertos passados nos canais de cabo. As perguntas mais óbvias na sequência do que dizia o entrevistado ficaram sistematicamente por fazer.

Exemplos: “O senhor continua a viajar em económica?” “Claro,[bla, bla] Nova Iorque em económica [bla, bla…], a comitiva também [bla,bla…], acto simbólico [etc.]”.
Pergunta que se impunha: “E a TAP continua a não cobrar as viagens aos governantes?” Vítor Gonçalves ZERO.

TGV: “O TGV sempre vai avançar?” “Não! Está suspenso, o que se está a estudar é um comboio “de alta prestação” [bla,bla…].
Pergunta que se impunha: “Mas o seu ministro referiu-se hoje mesmo ao factor de competitividade que tal linha representa”; ou “E essa via só será construída em Portugal?”.
ZERO.

Madeira: Passo directamente à pergunta que se impunha. “Mas o senhor acha ou não acha que foram cometidas infracções graves à face da lei, confessadas pelo próprio? Dizer que é grave e até muito grave e nada fazer não é pactuar com práticas fraudulentas, que tiveram como consequência o agravamento da austeridade para todos os portugueses?”

Redução de cargos dirigentes e organismos da função pública: Diz Passos: “Nunca um governo foi tão longe no corte da despesa”. Ora, sabendo-se que isto é mentira, porque não contrapôs Vítor Gonçalves que o governo anterior reduziu muitos mais?

Tudo isto e muito mais transformou aquela entrevista numa espécie de verborreia sem contraditório, à laia do Professor Marcelo. Mesmo assim, Passos bate Marcelo por muitos pontos na arte da representação.

A encenação

O caso da Madeira e as reacções que entretanto suscitou (ou não suscitou e devia ter suscitado) permitem-me tirar algumas conclusões. Estas pessoas que nos governam e que deitaram abaixo um governo legítimo, bem intencionado, competente, patriota e com uma visão para o desenvolvimento do país, em nome de uma suposta credibilidade e transparência, tinham conhecimento da ocultação de dívidas substanciais pelo governo regional da Madeira (impossível o deputado Guilherme Silva, membro destacado do PSD, não saber) e encenam agora o número da grande surpresa, não só cá como lá fora.

Ora, se fosse mesmo uma surpresa, como se compreende que, em nome da tal credibilidade e da moralização da vida política, de cuja ausência acusavam o governo anterior, se limitem a dizer que, enfim, não se compreende, mas que é ao povo da Madeira que cabe fazer o seu juízo? Ao povo da Madeira? Mas se é esse povo o beneficiado com as falcatruas! Porque não antes à maioria esmagadora dos portugueses, cujos interesses o primeiro-ministro é suposto defender e em nome de quem actua?

A vinda da Troika não deve ter escapado a Alberto João, mesmo vivendo numa ilha. Também não lhe deve ter escapado que as continhas iriam ser esmiuçadas.
Não será preciso ter uma inteligência superior para perceber que tudo foi combinado com Alberto João de modo a que este solicitasse uma auditoria às contas da ilha (para poderem vir dizer isso mesmo, e que eu mesma já ouvi: ”Mas se até foi o presidente do governo regional a solicitá-la! Querem maior prova de honestidade?”). Mas, atenção, só agora, quando o pouco tempo que medeia até às eleições de Outubro já é, de si, impeditivo de uma não candidatura de Alberto João.
Ou seja, apesar do buraco, havia que eleger AJJ, logo, vai-se mais longe do que o exigido no Memorando, alegando que se trata de ganhar credibilidade a nível externo e mostrar empenho, quando, no fundo, se procura arranjar dinheiro tributando os continentais para “prevenir”(sinónimo de cobrir) surpresas, que, afinal, não o eram.

Haveria apenas uma maneira de desmentir estas conclusões: a retirada da confiança política a Jardim, que, aliás, como se vê no vídeo, confessa ter escondido deliberadamente as dívidas, e uma intervenção do presidente da República, censurando tal comportamento, pedindo a aplicação rigorosa da lei para estas infracções ou até, dada a confissão feita pelo próprio, demitindo-o. Penso que tem poderes para isso. Se nada disto for feito, fica o golpe de teatro e o que isso revela de desonestidade, partidarismo e compadrio, que o actual governo sobrepõe sem hesitar e com grandes dotes teatrais ao interesse da população portuguesa em geral. É uma má opção, até porque a “moralização” do caso AJJ só poderia trazer dividendos políticos a esta coligação.

Um amor de sindicalista

“São imposições da Troika.” (suspiro) parece desabafar agora, resignado, Mário Nogueira, este cordeirinho.

Se dúvidas ainda houvesse de que as lutas organizadas pela FENPROF no governo anterior eram mera guerrilha política contra o PS servindo-se do descontentamento dos professores com as novas exigências, estas palavras de Mário Nogueira ao Expresso de hoje (sem link, sorry) desfazem-nas completamente, sendo muito elucidativas.

“Cada um tem o seu estilo. Lurdes Rodrigues era duríssima, de difícil relação nas reuniões [já Mário Nog. era de uma afabilidade que comovia…]. Com Isabel Alçada não havia qualquer problema de relacionamento, mas percebia-se que era extremamente frágil do ponto de vista político [Ah, esta já estava a prazo]. Agora há uma coisa que temos a certeza, é que cada vez mais as ideias estão condicionadas às regras da troika [Jura!]. Eu não sei se este ministro acha bem fazer mega-agrupamentos, presumo até que não, mas o certo é que já anunciou que vai fazer mais. As políticas hoje são impostas por fora.”

Ai são? Que conformismo, que conformismo, senhores. Em que acreditava, em que acredita este homem afinal? Até me faz pena, porque suspeito que seja no regresso do PS ao poder para olear de novo as espingardas!
Como se conclui claramente, estes comunas adoram ter cá a troika. Não são mesmo umas crianças? Com gente desta, como podemos indignar-nos que venham aí uns alemães puxar-nos as orelhas e obrigar-nos a ajoelhar, ameaçando com a cana?

Uma última nota:
Depois de tanta azáfama, o que conseguiu o PCP com o seu sindicalista? Que os professores votassem maciçamente no PSD. Missão cumprida, portanto.

Impunidade total? A vida de um palhaço também pode acabar mal.

Como já desconfiávamos, o “buraco” da Madeira é muito maior do que o recentemente anunciado. 1600 milhões de euros relativos a três anos.
E como também já desconfiávamos, o Governo sabia-o, apesar de não dizer, como lhe convém.

Andam, pois, os continentais a ser saqueados para o Estado pagar as dívidas da ilha intencionalmente ocultadas, ao mesmo tempo que as culpas dos chamados “desvios” são descaradamente atiradas para o executivo anterior.
Esta trafulhice de Jardim assemelha-se em tudo à que os gregos andaram a fazer para aderirem ao euro: falsificação de números e ocultação de dados.

Penso que alguma coisa deveria acontecer a Alberto João Jardim e ainda antes das eleições de Outubro. Não estamos em tempos de brincadeiras e, a dele, já foi longe demais.

Para retomar um tema de há dias, na Bélgica, os burgomestres eleitos das “comunas” geograficamente flamengas, mas de maioria francófona, não foram nomeados pelo governo da Flandres pelo simples facto de terem desrespeitado uma circular que obriga a que toda a comunicação da comuna com os cidadãos que nela habitam se faça exclusivamente em flamengo e só depois, se o pedirem formalmente, lhes são enviadas as missivas em francês. Ora, os ditos burgomestres tinham tão-só enviado as convocatórias para as eleições em folhas bilingues, ou seja, de um lado em flamengo, do outro em francês. O governo da Flandres, acusando-os de “falta de ética”, não os nomeou ainda, passados já dois ou três anos da sua eleição.

Jardim comete infracções verdadeiramente graves e com consequências trágicas para o país e nada lhe acontece?

(Não, não vale a pena tentarem comparações com José Sócrates.)

Pessimismo em forma de notícia

Um país que, provavelmente, nunca deveria ter existido, a Bélgica, tal como a conhecemos, está prestes a desaparecer. Com alguma precipitação, direi mesmo que poderá ser já para o mês que vem. E o seu desaparecimento, quem sabe, poderá preceder de pouco tempo o fim da União Europeia ou, pelo menos, da zona euro.

As duas comunidades nunca se amaram. Ora porque os valões, francófonos, quando eram ricos (minas, fábricas de armamento, Congo) menorizavam os flamengos, quando não subjugavam, e mais tarde os acusaram de colaborarem com os nazis, ora porque, mais recentemente, os flamengos floresceram industrialmente e não vêem, obviamente, razões para financiarem os do sul, desde há algumas décadas em declínio. As diferenças linguísticas também não ajudam. Com o respaldo da vizinha França, os francófonos têm clara facilidade em expandir a sua língua, a que, aliás, os inúmeros estrangeiros que habitam a região de Bruxelas aderem espontaneamente, e, por essa razão, os flamengos erguem barreiras e fazem questão de afirmar e enaltecer a sua até ao absurdo (poupo-vos os pormenores).

Depois das eleições legislativas de Junho de 2010 – 2010, repito – não foi possível formar um governo, dadas as incompatibilidades insanáveis entre o partido mais votado na Flandres, o NVA, liberal e de tendência separatista, e os partidos francófonos, com o PS, o vencedor, à cabeça. Desde há 15 meses, portanto, que o anterior governo se mantém provisoriamente em funções, com poderes diminuídos, aguardando a formação de um novo executivo baseado no resultado das eleições.
As negociações para formar um governo têm continuamente fracassado, mesmo quando, ao cabo de um ano de alta tensão, já se prescindiu da participação do NVA, cujas exigências se tornaram inaceitáveis para os francófonos.
Para agravar ainda mais a situação, hoje, o primeiro-ministro, Yves Leterme, anunciou que abandonará o governo no fim do ano para ir ocupar um lugar de topo na OCDE. Adeus e passem bem, decidiu, tal elefante em loja de porcelanas.

Perante este cenário, há quem desdramatize, dizendo que, bof, o rei nomeia um substituto et voilà, e quem dramatize, dizendo que a separação está agoara iminente ou, os dramáticos mais moderados, que, saindo o primeiro-ministro, o governo tem obrigatoriamente de cair, havendo lugar a eleições. Que, por si só, nada resolverão, evidentemente, podendo até o NVA sair reforçado.

O país de que falo é uma micro-Europa. Quando tudo vai bem economicamente, as divergências atenuam-se; quando vai mal, chega-se rapidamente à beira da ruptura. Há já quem diga que a divisão do país será um incentivo a que, por exemplo, a Escócia, a Catalunha ou o norte de Itália lhe sigam o exemplo. Se juntarmos a tudo isto a crise generalizada, política e económica, que a Europa atravessa neste momento, o horizonte afigura-se bastante carregado. Há já quem fale em guerra.

Como nos filmes e por várias vezes ao longo da história, não é de onde mais se espera que surge o primeiro tiro.

Passos e os concursos de ideias

Quero propor-vos a introdução do debate, da crítica, do escrutínio, da participação, como princípios fundadores da reforma do Estado, incluindo do Estado social”, afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento das jornadas parlamentares do PSD, no Fundão.

Segundo o primeiro-ministro, “daqui para a frente, o nível de exigência e de vigilância da sociedade portuguesa sobre o modo como é gasto o dinheiro dos seus impostos e como é prosseguido o interesse público pelas instituições do Estado terá de ser muito maior”, e por isso é decisiva a participação dos cidadãos “num debate colectivo sobre as melhores soluções para ultrapassar este momento“.

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Lembram-se da abertura do PSD a propostas dos cidadãos para cortes na despesa pública? E lembram-se dos milhares de propostas recebidas? Então devem também lembrar-se do quão úteis foram para a rapidez de execução desses cortes, de tal maneira rápida que nos escapou completamente… Até sermos finalmente informados pelo ministro das Finanças de que são muito difíceis e devem ser bem pensados.
Pois, animado com o êxito da anterior iniciativa, Passos lança agora um novo convite à apresentação de sugestões de reforma do Estado social. Temos, portanto, a garantia i) de que a reforma será rápida e bem feita (ordem para rir) e ii) que o homem não tem a mínima ideia sobre o assunto e que não sabe o que há-de fazer sob a pressão dos seus correligionários, que lhe apontam o facto de os cortes não se inserirem em qualquer plano de reforma do Estado (tão matraqueada na campanha eleitoral). Pretende, por isso, ganhar tempo, lançando um diálogo fictício. E poeira, claro.