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Ciência – Elogio do deserto

Em situação geocosmológica privilegiada, com um clima e um silêncio que permitem observar de forma nítida e desafogada o universo, a a terra ressequida do norte do Chile que dá pelo nome de deserto do Atacama, onde já foram instalados potentes telescópios, alberga também no subsolo, descobriu-se agora, surpreendentes comunidades de bactérias que levam uma vida extremamente austera, ao ponto de se darem ao luxo de dispensar oxigénio e luz, e que dão ideias aos cientistas quanto à existência de vida no subsolo de Marte. Ler no DN

Por coincidência, e tendo em comum o Atacama, um extenso artigo na revista The Economist de ontem informa-nos que acaba de ser instalada, num telescópio do Laboratório Interamericano de Cerro Tololo, no dito deserto, a maior câmara digital do mundo, com 5 toneladas e 520 megapíxeis. O objetivo é perceber por que razão o universo se está a expandir, não lentamente como se pensava no princípio do século passado, mas a um ritmo cada vez mais acelerado (não, não creio que exista o perigo de rebentarmos, como a rã, no processo). O projeto chama-se “Dark Energy Survey” (DES).

Sabendo-se que a matéria de que são feitas as pessoas, os planetas e as estrelas representa apenas 4% da densidade do universo (massa+energia) e que a “matéria negra”, não constituída por átomos, representa outros 22%, o mistério está em saber o que constitui os restantes ¾ da densidade, estando aí, possivelmente, a explicação para a expansão acelerada do universo. Chamam-lhe “energia negra” e supõe-se que exerça uma pressão negativa, contrária à da gravidade. Se dividirmos a pressão negativa desta energia pela sua densidade (positiva), obtém-se uma força a que os cosmólogos chamam “w” (cujo valor andará à volta de -1). Para relembrar, ou descobrir, como tudo isto se relaciona com as teorias de Einstein, com a constante universal, com as supernovas, a cor vermelha, as oscilações sonoras, o Big Bang, etc., proponho a leitura do artigo, onde também travarão conhecimento com o astrónomo Dr Perlmutter, para quem este problema exigirá ser estudado por mais do que uma geração, ou seja, a incógnita surgiu no século XX, mas, pensa ele, só no século XXII terá resposta.

A fatalidade que podia não ser

“Com alguns brevíssimos sobressaltos pelo meio, a herança que a ditadura legou foi uma herança de conformismo e obediência, que permanece viva, e frequentemente dominante, no Portugal de hoje, com a sua complacência e a sua democracia. Verdade que o PREC não se recomenda. Mas não durou muito e a velha ordem depressa voltou com a sua dignidade postiça e as mediocridades do costume. A troika escusa de se preocupar. Cá na terra nós fazemos sempre, ou quase sempre, o que nos mandam. E não gostamos nada de aventuras.”

Vasco Pulido Valente (no Público de hoje)

VPV invoca sempre os seus profundíssimos conhecimentos da história do Estado Novo para comentar a atualidade política nacional. Diz ele hoje, em resumo, que não tem a Troika que se preocupar com o nosso cumprimento do acordo. Somos, nos últimos 70 anos, um povo submisso e obediente. Com alguns, poucos, interregnos, assim continuaremos a ser.

Não temos, por aqui, dúvidas de que o espírito salazarento, que já tinha reencarnado na figura física de Cavaco, em nada conflituante com a sua maneira de ser autoritária e de vistas curtas, logo na década de 80-90, reencarnou agora, alimentado e endoutrinado pela crise, ainda com maior viço, nas pessoas da coligação que nos governa (da qual fazem parte os “caritativos e beneficentes” do CDS). Este espírito é, volta não volta, explicitado por Manuela Ferreira Leite (que interpreta os “free marketeers” à luz peculiar da sua educação tradicional), em alturas em que, perante as câmaras, o seu sistema nervoso parassimpático suspende temporariamente a atividade.

VPV termina quase invariavelmente as suas crónicas na ideia da fatalidade, demonstrando também invariavelmente, que não é ele próprio um aventureiro, nem sequer um ousado. Nem oralmente, nem em feitos, nem com a pena. Seria o último escriba a contratar por um general que pretendesse, com um discurso, mobilizar as tropas. No que ao atual momento diz respeito, tem, todavia, razão.

Lamento é que esqueça sistematicamente (ou transfigure com fel) o interregno mais importante da história recente do país, o período em que fomos governados pela única pessoa com a determinação necessária para erradicar de vez o bolor e fazer qualquer coisa pelo orgulho, a dignidade e a inteligência das pessoas.

Haverá diferença entre cumprir bem e cumprir mal os programas da Troika?

É o que iremos descobrir, custe o que custar, dentro em breve. Segundo os cânones europeus atuais, a Grécia é o exemplo de um país que não tem cumprido bem o programa imposto. Também segundo os mesmos cânones, se o tivesse cumprido bem, estaria agora a salvo da bancarrota e, das duas, uma, ou já não estaria a precisar neste momento de novo empréstimo (?), ou o dinheiro continuaria a ser-lhe disponibilizado sem dramas contra novos ajustamentos. No fim, ao cabo de três anos, a economia estaria a crescer e o país regressaria aos mercados, dispensando a malfadada Troika. Mas será assim? Como é óbvio, não é.

Portugal, que se vê a si próprio como exemplo de país que cumpre muito bem o programa, não precisará teoricamente de novo resgate em 2012, nem em 2013, podendo nessa altura regressar confiantemente aos mercados, estando a sua economia a crescer a bom ritmo. Ou muito me engano, ou também não será assim.

Muitos, inúmeros cortes já fez a Grécia. Tantos que já teve direito a uma entrada acelerada no amaldiçoado império da recessão. Tivesse a Grécia aplicado sem mácula os sucessivos programas de austeridade, estaria agora em melhor situação? Não estaria. Estaria talqualmente em recessão. Pode a democracia grega viver num turbilhão de ódio e calculismo; podem os grupos de pressão usar de todas as chantagens para protelar a inevitável perda de privilégios; podem os arruaceiros lançar pedras à polícia e incendiar edifícios. Tudo isso acontece. Mas, não fosse esse o cenário e a Grécia não estaria melhor.

Ainda hoje, as notações de vários países europeus “que não são a Grécia”, entre os quais Portugal, levaram nova machadada das agências de notação. Significa isto que, sem mutualização das dívidas soberanas, sem blindagem da Europa contra a especulação e sem crescimento das economias, não há investidor que confie nem especulador que desista. Cumpram-se bem ou mal os programas de austeridade “compactos”, que, de passagem, matam as economias. A provável expulsão da Grécia da zona euro apenas transformará um problema financeiro numa tragédia humanitária. Será que compensa? Alhures e com outro espírito, é onde a Europa tem de encontrar soluções. Com praticamente todas as economia do velho continente em recessão, incluindo a britânica, alguém está a ver hipóteses de sucesso nos programas da Troika, quando o crescimento da própria Alemanha também já começa a desacelerar?
Não gozem com o pagode.

“Should I stay or should I go”

Há uns meses, em mais um impasse sobre a libertação da última fatia do último empréstimo, o primeiro-ministro Papandreou, perante a revolta na rua de Atenas, a contestação dos seus próprios deputados e o boicote e os vitupérios da oposição, quis fazer um referendo ao povo grego. A pergunta não chegou a ser conhecida, mas não andaria muito longe da seguinte: “Aceita as novas medidas de austeridade, sob pena de o país ter de abandonar o euro?” – esta segunda parte da pergunta não figuraria necessariamente, mas estaria pressuposta.

Por forte pressão do Eurogrupo, com Merkel e Sarkozy à cabeça, que temiam um “não, não aceitamos”, Papandreou desistiu do referendo. Foi um erro. Sabendo-se que a maioria da população não desejava abandonar a moeda única, perdeu-se uma grande oportunidade para legitimar decisões e acalmar as hostes na Praça da Constituição e arredores. Este segundo aspeto teria sido importante, já que os manifestantes que criam o caos nas ruas de Atenas não representam necessariamente a opinião da população grega. Sem prejuízo das razões de protesto que assistem aos gregos, há e sempre houve na Grécia grupos anarquistas e marginais especialmente vocacionados para a arruaça. E para a violência. É um erro considerar que traduzem o pensamento da generalidade dos eleitores.

Evidentemente que é possível que a Europa não quisesse a consulta popular na altura por, na hipótese de um Não, não estarem ainda preparados os mecanismos necessários para aparar o choque, sobretudo a nível da banca, e para impedir réplicas noutras longitudes.
Mas as coisas vão evoluindo. Na Europa, onde se começa a perceber que o “remédio” não funciona, e na Grécia. A breve trecho, haverá eleições. Se ganhar a Nova Democracia, as medidas tomadas não serão em nada diferentes das atualmente tomadas pelo chefe de governo “tecnocrata” não eleito, que preside à coligação. Sob a tutela da Troika, será esta que continuará a ditar as regras. Se ganhar o conjunto de partidos dispersos mais à esquerda, poderá instalar-se um enorme caos político, nenhum deles tendo uma maioria clara e declarando-se todos contra a Troika. Por outro lado, o prolongamento do mandato de Papademos arrisca-se a provocar a impaciência dos políticos, além de que significaria a aplicação do mesmo programa e as respetivas dificuldades de o fazer passar, ou seja, o prolongar dos dramas a cada libertação de nova fatia. Os mais recentes dados permitem vaticinar que, não tendo a Grécia a mínima possibilidade de pagar as dívidas (as passadas, as presentes e as futuras) com as sucessivas vagas de austeridade, a falência não tardará muito, dependendo apenas de uma decisão europeia.

O mais curioso e preocupante é nós não sabermos sequer neste momento qual é, do ponto de vista da França e da Alemanha, a saída/solução mais conveniente. Parece-me que aligeirar a austeridade está fora de questão. Mas, e se se aligeirar para os portugueses, como já foi, digamos, prometido?
Fosse o povo grego interrogado hoje sobre o desejo de permanecer no euro, temeria a Europa mais o Não ou o mais o Sim? Não sabemos. O desejo de permanência dos gregos poderá tornar-se insuportável.
Por mim, e por mais difícil que seja, desejo cá no fundo que encontrem maneira de serem eles próprios a mandar a Europa “bugiar”.

Concordo

Com Ana Gomes sobre as declarações de Martin Schulz
Nem sempre subscrevo o que diz Ana Gomes, mas desta vez dou-lhe razão. No Parlamento Europeu, muitos deputados se pronunciam sobre, e criticam, as políticas da Alemanha (no caso dos socialistas portugueses, sobretudo as que nos afetam). Schulz sentiu-se livre para falar de Portugal e dar o exemplo de um país que “pactua” com regimes pouco democráticos e desrespeitadores dos direitos humanos, matéria que dá, deu e sempre dará muito pano para mangas. Por outro lado, Schulz deveria saber as razões das coisas e não enveredar por críticas simplistas. Penso que Ana Gomes faz aqui um bom comentário.

Quando li excertos do que Schulz disse (aqui pode ser visto na íntegra), e sobretudo quando chamou “esclavagista” ao regime chinês, fiquei com a ideia de que a intenção do discurso, em geral, era mais a de alertar para a qualidade dos nossos (da Europa, e de alguns países em particular) interlocutores comerciais/financeiros.
Também acho que a exigência de explicações só lhe fez bem.

Passos, estão a ver, não é nada piegas. Já Cavaco…

Apesar das dificuldades financeiras tremendas por que está a passar o barítono feito maestro e apesar de estar a pôr em risco o seu futuro no privado, este farol que nos ilumina não se queixa. Mais, apesar da vida dura que levou até aqui, na JSD, no Parlamento Europeu e na empresa de Ângelo, nunca ninguém lhe ouviu um queixume. Este homem é um exemplo para qualquer português.

Em descaramento, melhor que ele, só mesmo o Cavaco, que também chamou piegas aos portugueses – não é que lhes bastaria olhar para a sua (dele) miserável situação económica para não se lamentarem? Pelo caminho, conseguiu que o Banco de Portugal não cortasse nas pensões dos seus reformados. Um caso em que ser piegas resultou.

Não pensava repetir-me, mas Seguro falou em Évora

A estratégia radical deste governo não está a resultar, nem vai resultar, com a dívida a ultrapassar os 110% do PIB (dados hoje conhecidos) e as previsões quase unânimes de incumprimento das metas. Está o PS de Seguro preparado para o que se segue? Visto ao sol de Évora, não o diria.

António José Seguro voltou, este fim de semana, a falar para os jornalistas, mostrando-se igual a si próprio, ou seja, um navegador de águas mansas, impreparado para tempestades: perante o partido e as críticas de que foi alvo, defende-se alegando não ter sido ele a assinar o acordo com a Troika; cá para fora, perante os portugueses, refere um ponto do memorando de que discorda e, sem se alongar mais, acrescenta que o PS respeitará o dito memorando (mesmo que seja impossível não ter visto que o rumo do país exige a revisão de várias cláusulas). De seguida, volta-se para os aspetos gastronómicos da região, evitando úlceras. O entusiasmo de alguns (jornalistas sobretudo) com a primeira afirmação ficou de imediato neutralizado pela última. Pois é, com Seguro, meus senhores, não há clímax. Não chega sequer a haver aquecimento.

O problema é que o atual secretário-geral do PS não compreende que a sua atuação é criticável por muitas outras razões que não têm que ver com os compromissos assumidos com a Troika (espero que alguém lhe tenha lembrado Cavaco, a Madeira, o Novas Oportunidades, Manuel Carrilho, o FMI, Mario Monti e pelo menos 20 outras matérias). Este governo, assumindo futura responsabilidade total pelo desastre, faz questão de dizer que vai, com muito gosto, para além do que foi acordado. E tem-no feito. Mas está a dar o flanco, caso o PS não tenha reparado. A par disso, mente, inventa, ludibria com uma alegada transparência nas contratações, erra em questões importantes como a elaboração do orçamento. Toma de assalto o aparelho de Estado. E Seguro não tem sido contundente nas críticas, nem minimamente convincente. Nem perante os dados que vão sendo conhecidos. Não percebe que “uma oposição construtiva” com este pessoal da “fezada” e do apetite pelo metal, pessoal encenadamente contido, mas no fundo tão assanhado como o Relvas, não surte qualquer efeito. Aqui, a haver construção, só pode ser a de uma alternativa, que passa, em primeiro lugar, por uma personalidade determinada (que está longe de ser), pela identificação clara de uma visão e de um rumo (que se desconhecem), pela defesa do legado positivo do anterior governo (de que se sente visceralmente incapaz) e pela demolição sem dó das teorias gasparistas (para o que não tem habilitações, penso). Ou lhe dão um grande choque elétrico político lá no partido ou preparem-se para a insignificância. Depois de Sócrates, seria uma pena.

Espécie de primeiro-ministro

Qualquer nação que tem amor próprio não anda de mão estendida“, diz Passos, esta espécie de primeiro-ministro.
Quer-se dizer: quando havia que, “custasse o que custasse”, evitar a vinda da Troika e o “estender da mão” devido ao tal “amor próprio”, esta leviana criatura andava a brincar à conquista do poder “custasse o que custasse”. Agora que custa verdadeiramente muitíssimo e que o país se afunda a cada hora que passa, vem falar na nação, no amor próprio e na necessidade de evitar jugos. Alguém no Parlamento que lhe atire com um tomate, please.

Subsídios de férias e de Natal

Alguém será capaz de explicar decentemente por que carga de água os despachos relativos à contratação de adjuntos pelo Governo têm mencionado (e continuam a mencionar) que estes têm direito a subsídio de férias e de Natal? E por que razão nalguns casos já denunciados o “lapso” foi corrigido e noutros se apresenta o argumento de que não é necessária qualquer correção porque está pressuposto que não terão direito a eles enquanto durar o programa de assistência económica e financeira? (E agora em tom de Consultório Jurídico) Como controlar o cumprimento prático dessa subentendida norma?

Ainda a propósito de subsídios cortados, no todo ou em parte, na função pública, a dona Ana Avoila, o senhor Bettencourt Picanço ou o sindicalista Mário Nogueira onde andam? Na anterior legislatura fartavam-se de chinfrinar e vociferar para as câmaras (é daí que os conheço), mas agora parecem extremamente “confortados” com o quase supremo ataque ao funcionalismo público (apenas um grau abaixo dos despedimentos).

Da impossibilidade de uma alternativa

Que a Alemanha possui o recheio e a chave do cofre europeu, todos sabemos. Que, por isso, e enquanto a sua situação económica for boa, não tem interesse em alterar o rumo da política europeia por si definida, também sabemos e, imaginando-nos alemães, até compreendemos, apesar de não termos de nos resignar, não sendo nós, de facto, alemães e sendo o nosso interesse diferente. Que Portugal está temporariamente subjugado pelos atuais credores e sem margem para não cumprir os termos do acordo de empréstimo sob pena de entrar em bancarrota também não há grandes dúvidas. Mas que estas circunstâncias anulem a luta política interna já não é compreensível. O atual governo, se governa mal, deve ir embora. Se diz mentiras, inventa desvios colossais e comete erros flagrantes na elaboração do orçamento, deve suscitar um clamor de revolta e ser corrido na primeira oportunidade.

Ainda ontem, Passos disse cínica e ambiguamente que não deixaria de cumprir um acordo que não negociou. Ora, todos sabemos que, não só não deixa de o cumprir por se identificar com ele (nas suas próprias palavras), como também o ultrapassa em dureza, declarando repetidas vezes, e com grande entusiasmo e frieza, ir “ainda mais longe”, o que só nos pode levar a concluir que, fora ele a negociá-lo, o acordo seria ainda mais violento para a população. Donde, a expressão “o acordo que não negociou” não passa de veneno sobre os seus antecessores, lançado de uma maneira parva e reles. Não só o PSD participou nas negociações como também não foi dada qualquer hipótese ao anterior governo de não ser ele a negociá-lo, como pretendia Sócrates, que, de modo sábio mas incompreendido, tudo fez para o evitar.

Voltando ao primeiro parágrafo, a nossa situação de escravizados não pode nem deve impedir a constituição de uma alternativa interna a este governo. E aqui discordo do que diz Porfírio Silva no final deste seu post Reflexões em voz baixa. Não falando já no princípio da igualdade na distribuição dos sacrifícios, bastante desrespeitado neste momento, e que os socialistas poderiam garantir melhor, ou no radicalismo neoliberal da dupla Gaspar/Passos e a sua visão, deslocadamente salazarenta, dos trabalhadores e dos apoios sociais que a oposição pode e deve combater e, uma vez no governo, repudiar, há também as características pessoais de quem governa e de quem pode vir a governar. Esta tropa fandanga que tomou de assalto o executivo com base em mentiras é leviana, socialmente insensível, experimentalista usando cobaias humanas e focada no dinheiro, perfeitamente confortada com o facto de este não ter pátria e de Portugal, irremediavelmente, fatalmente, convenientemente pobre, dever enxotar os seus miseráveis habitantes para longe e ser posto à venda. Francamente, não me parece difícil propor uma alternativa aos portugueses. Assim haja um líder à altura.

Pode ser que, noutros países europeus onde os governos de direita não estejam a implementar medidas tão radicais e recessivas como em Portugal, as oposições sociais-democratas ou socialistas tenham alguma dificuldade em encontrar um discurso e políticas alternativas convincentes (no entanto, mesmo em França, tudo parece indicar que a simples mudança de personalidades agrada ao eleitorado). O caso de Portugal é diferente. Este governo quer desmantelar o Estado (exceto os cargos que ainda pode distribuir pelos amigos) e os serviços públicos, propósito verdadeiramente raro na Europa, e ainda mais raro no próspero Norte. O governo de Sócrates, ao mesmo tempo que procurava o rigor orçamental sem cair em desregulamentações ultraliberais, pressionava a Europa (na realidade a Alemanha) para que, reconhecendo o esforço de ajustamento, desse condições de crescimento ao país. As críticas ao atual líder do PS prendem-se com o facto de não fazer uma defesa clara dessa linha de atuação (ou, se a defende, apresenta-a como nova, nunca reconhecendo mérito a quem já se bateu por isso e pagou um elevado preço), linha essa que é a única que, ainda hoje, faz sentido: um ajustamento gradual tendo em conta a crise brutal de 2008 e ao que ela obrigou, acompanhado de estímulos à economia. Seguro não defende o legado positivo do governo anterior, nem quando atacado pelo atual de maneira mentirosa ou demagógica. Com tanta matéria criticável na atuação de Passos e seus sócios, Seguro mostra-se no geral pactuante, hesitante e receoso de fazer ondas. Merece ser criticado e duramente. Além de não ter qualquer carisma nem visão própria para o país. Neste momento, e dando de barato que o abandono do clube do euro é uma impossibilidade (perspetiva que pode mudar perante um sufoco sem fim à vista, dependendo da situação a que chegarmos dentro da moeda única), é para todos claro que a situação internacional obriga a um completo rigor orçamental. Mas rigor orçamental não é sinónimo de desmantelamento do Estado nem de empobrecimento programado. É aqui que deve entrar um bom líder da oposição, que se mostre genuinamente crítico do fundamentalismo dos atuais governantes e convicto de saber fazer diferente para melhor, o que, repito, não me parece difícil. E que lute por isso. Não é de todo o caso do atual secretário-geral do PS.

Inépcia política total

Repare-se bem no que diz Seguro sobre o programa imposto à Madeira:

“É “um acordo entre familiares do PSD, que aplica àquela região autónoma a mesma receita do Continente, isto é, empobrecer”, disse o líder socialista, acrescentando que a Madeira “vai ser duplamente prejudicada” com esta opção.”

Fonte

Ou seja, começando por dizer que é tudo em família, o que nos prepara para uma conclusão de que os madeirenses sairiam beneficiados para lá do razoável, Seguro surpreende-nos depois dizendo que se trata de uma família, sim, mas, desafiando toda a lógica, uma que gosta de empobrecer, que terá aparentemente feito uma espécie de pacto de empobrecimento (!), concluindo estranhamente que a Madeira vai ser duplamente prejudicada. Enfim, um quadro em que Jardim ou não existe ou não encaixa.

Seguro prova mais uma vez que perspicácia política é coisa de que, já tendo ouvido falar, não possui. Para efeitos políticos, toda a população do continente concorda que se imponha um programa duro à Região Autónoma da Madeira. Mais: dificilmente aceitaríamos que Jardim manhosamente “se safasse” com os seus esquemas habituais e ameaças separatistas. Em suma, o governo marca aqui um ponto aos olhos dos eleitores do continente. Quem não vê isto, é burro.

Nesta questão da Madeira, se Seguro não tem uma posição claramente entendível (conhecendo-o, admito que ande ali a navegar entre defender o povo madeirense – que, convém lembrar, sempre votou maciçamente em Jardim e, mesmo conhecendo as falcatruas e as inevitáveis consequências em 2011, continuou a votar nele em peso – e acusar o PSD de alguma coisa), melhor seria que se calasse. Mas, se lhe pedem que fale, ao menos que refira as vigarices continuadas de Jardim e o interesse dos madeirenses em arredá-lo do poder; ou a conivência e proteção de que beneficiou até ser reeleito. Tudo o que for além disto só pode dar asneira.

Para além do facto, não despiciendo, de estar implicitamente a fazer comparações inaceitáveis entre a dívida da Madeira e a do continente, a confundir deliberadamente ou por estupidez as razões de ambas e a branquear no fundo Jardim e o seu desrespeito grave pela lei (cerca de 7000 milhões de euros ocultados da contabilidade, a quase totalidade dos quais vai ser paga por nós). A dívida astronómica da Madeira (ocultada, ocultada) não tem absolutamente nada que ver com a crise de 2008, nem com a resposta ao encerramento de empresas nem com o apoio aos desempregados, como no continente, que, aliás, foi autorizado a desrespeitar os limites do défice e a aumentar a dívida pela própria União Europeia. No continente, todas as contas públicas eram acompanhadas pelas instâncias europeias, sendo impossível ocultações. Seguro não pode ignorá-lo. Esta sua postura ambígua e populista é totalmente descredibilizadora e sobretudo politicamente ineficaz.
Jardim e o PSD formam, de facto, uma família, mas uma família política em que leviandades e fraudes e vigarices de toda a espécie não escasseiam. Este é o ponto.

Nova administração laranja da Caixa quer ainda mais companhia

Segundo o jornal i, os novos administradores da CGD andam insatisfeitos e frustrados, porque “a teia de Armando Vara se mantém viva”, apesar de Vara já não pertencer aos quadros de topo da instituição há imenso tempo. Ora isso não pode acontecer, tanto mais que ainda há alguns amigos na bicha, não é? O tentáculo de Vara “estrategicamente” por lá deixado, ou seja “pessoas ligadas ao PS”, está a causar impaciência. Os laranjas gostam de total exclusividade.

Governo entalado entre uma má receita e Angola

Para que serviu este governo até agora?

Depois de ter empurrado entusiasticamente o país para a ajuda externa, eis para o que serviu:

1. Para sacar do apito e chamar a malta ao pote.
2. Para agraciar os empresários seus apoiantes com todas as facilidades pretendidas.
3. Para ir sacar ao bolso dos portugueses dinheiro suficiente para pagar a dívida (e os respetivos juros) contraída junto de uma Tríade pela qual ansiavam.
4. Para varrer do país milhares de trabalhadores e quadros qualificados, entre os quais médicos e investigadores.
5. Para permitir a Vítor Gaspar testar as suas teorias económicas.
6. Para atacar e desmotivar os funcionários públicos.
7. Para empobrecer 95% do país, na tentativa desmiolada de concorrer com a China (no fabrico de vassouras? Sapatilhas?).

Confrontados agora com a subida contínua das “yields” num mercado totalmente indiferente, por um lado, à voz de Passos e à sua alegada credibilidade e, por outro, à matraqueada competência de Gaspar, com as críticas da Tríade à falta de políticas para o crescimento, à morte da atividade económica e à manutenção de certos monopólios muito ligados ao Estado, a desorientação e o desassossego começam a grassar entre as hostes, e o exterior (a Europa, a Grécia), e evidentemente já não o outro governo, começa a ser o grande acusado do agravamento da situação do país. O que ganhámos, pois?
“Estamos a fazer o nosso trabalho, resta à Europa fazer o seu”. Mais ou menos, é o que agora dizem. Mas já o dizia Sócrates, quando então os estarolas o acusavam de tudo e mais um par de botas e se entretinham com um toca e foge político, encenações de desculpas e outras técnicas de brincar com o fogo. Até ao incêndio. É que já na altura havia pactos de estabilidade, assim como vigilância e controlos das contas do país pelas instituições europeias. O que constatamos hoje, por exemplo? Que Mario Monti, numa Itália ameaçada pela especulação como nós à altura, está não só a fazer tudo para evitar ajuda externa, como também a aplicar no seu país, muito mais anquilosado do que o nosso a nível das estruturas económicas e sociais, as mesmas medidas que Sócrates aplicou há anos, ou seja, o combate às corporações, a liberalização das farmácias e dos táxis e muitas outras, nomeadamente o investimento público em infraestruturas ferroviárias e outras, para dinamizar a economia, ao mesmo tempo que vai pressionando Angela Merkel a rever a sua inflexibilidade, lembrando-lhe oportunamente que a mesma corre o risco de ressuscitar velhos ódios entre os povos. E lembro que Monti não é nem nunca foi de esquerda. Verdadeiramente, ganhámos o quê?

Noutra frente, convidando os portugueses a emigrar e dando um sinal claro de que Angola nos é fundamental como destino dos indesejados, entre outras coisas com Prós e Contras patéticos como o de há uns dias, Relvas e companhia colocaram Portugal à mercê da chantagem angolana, que, repleta de petro-kuanzas, não é meiga. Ai de quem fale publicamente mal de Angola. Foi assim que um programa de rádio português, crítico da política angolana, foi há dias censurado e erradicado das antenas pela direção do canal público. O que se seguirá? Se a situação se agravar, irão estas práticas liberticidas ser toleradas?

Entre a cegueira económico-financeira militante e as negociatas do Relvas, desta feita com a mão-de-obra a exportar, o Governo está bastante entalado.

A lei laboral: a palavra a quem sabe

Sabemos que constam do acordo com a Troika medidas tendentes a reduzir os custos para as empresas. Na impossibilidade de descida da TSU dadas as consequências catastróficas de tal medida para o saldo da segurança social (de que Sócrates tinha plena consciência, por isso a contestava) e o descalabro que provocariam as medidas compensatórias (aumento do IVA, por exemplo), este governo concentrou-se na facilitação dos despedimentos, permitindo às empresas novas contratações mais baratas (com a preciosa ajuda do aumento do desemprego), no aumento dos dias de trabalho por ano e na redução dos custos com horas extraordinárias, incluindo a redução do custo do trabalho aos sábados. Lembremos que estas medidas, houvesse ou não Troika, seriam tomadas de qualquer maneira, já que se enquadram no modelo económico defendido por este governo, que mal podia esperar. Dentro em breve, a Troika, embevecida, poderá até deixar de frequentar o hotel Ritz com a regularidade prevista. Passos receberá um prémio, seguramente, e o futuro será seu.

Mas as teorias da Troika não devem, nem podem, ser consideradas uma Bíblia, até porque têm uma única fonte de orientação, muito pouco poética/fantasiosa: a recuperação, pelos credores, dos montantes em dívida. Há quem entenda poder e dever discuti-las e contestá-las, gente que pensa e, sobretudo, que gostaria de se orgulhar do seu país.

Não conhecia nem nunca tinha ouvido este professor universitário de nome Luis Bento, mas tive prazer em ouvi-lo, ontem, na RTP Informação.

Diz ele, a propósito do acordo na concertação social, que a falta de competitividade das nossas empresas tem muito pouco a ver com a lei laboral, longe de ser a mais rígida da União Europeia, devendo-se antes a fatores como os custos da energia, os custos dos transportes, a má gestão (uma gestão que muitas vezes bloqueia no momento de dar o salto em frente) e, um fator que tende a ser esquecido, os custos de periferia.
Diz mais – que é insultuoso dizer-se que o acordo é benéfico para todas as partes quando haverá um flagrante agravamento das condições de trabalho; que o modelo de “desenvolvimento” assente na mão-de-obra barata não logrará qualquer sucesso a médio prazo, se tivermos em conta que até a própria China já começa a deslocalizar empresas para países vizinhos com custos laborais ainda menores.

Luis Bento, em tom sereno. Clicar para abrir o vídeo. Minuto 1.28.