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Our man in Saint Benedict

Para além dos protestos ridículos das alimárias que nos governam contra as agências de notação e dos comentadores seus apoiantes que parece só agora terem visto a realidade, provocando-nos uma imensa vontade de rir, e para além da austeridade plus plus que este governo se propôs adoptar (a ver vamos) com grande entusiasmo e amadorismo, convém não perder de vista o programa político e a missão de que se incumbiu Passos Coelho e para os quais os aparentes “murros no estômago” são meros acidentes de percurso.

Por estes dias, muitas empresas, sobretudo as mais importantes no mercado, devem andar eufóricas e com mal contida ansiedade perante as benesses que aí vêm, apesar e por causa da degradação da posição do país. Ele é a TSU que baixa mais do que esperavam, ele é as empresas públicas à venda a preço de saldo, ele é a privatização de centros de saúde, ele é a venda das acções douradas, ele é o desmantelamento do Estado com que sempre sonharam, ele é a mão-de-obra barata, ele é a rédea solta, ele é uma ministra da Justiça “amiga”, enfim, o paraíso está bem perto.

Pedro Passos Coelho, por mais empenho que exiba (o homem parece-me cínico) em pôr na ordem as contas públicas para o país voltar a crescer (olha a Grécia, querem que ria ou que chore?) é claramente o seu agente. Depois de devidamente afundado o país em dívida, mais dívida, recessão e desemprego, restará a Passos ser corrido e, depois do interregno e da missão cumprida, retomar a sua florescente carreira de empresário numa das empresas cujos interesses tão diligententemente foi defender para São Bento. Haverá várias, agradecidas, à escolha. E assim tudo acabará bem. Para ele, claro está.

“Murro no estômago”, diz ele

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, classificou hoje como um “murro no estômago” a decisão da agência Moody´s de cortar em quatro níveis o “rating” de Portugal, colocando a dívida do país na categoria de “lixo”.

Fonte

Deixem-me rir! Então e o murro no estômago dado pelo senhor com o chumbo do PEC IV? Lembra-se da imediata subida em flecha das taxas de juros da dívida soberana e da descida drástica da notação dos bancos portugueses e do próprio país? Lembra-se do consequente pedido de empréstimo? Foi ou não foi dado um murro nessa altura? E não pela Moody’s. Agora aguentem-se, porque vai haver mais. Estamos todos atentos. O circo ainda agora vai a meio… E era isto mesmo que desejavam, não era? Ou pensavam que o FMI vinha aí ajudar e tal, vocês seguiam rigorosamente a receita e pronto, Portugal seria uma história de sucesso. Santa ignorância!

Aí vamos nós

Apesar do novo governo, dos seus propósitos “bom aluno”de cumprir o défice e até, ansioso por aplicar a ciência dos manuais de neo-liberalismo, de o fazer mais rapidamente “indo mais além” das medidas acordadas com a Troika, a nossa dívida acaba de ser considerada lixo, com ameaça de nova descida, talvez para esterco. Sócrates já não está, para servir de bode expiatório. O governo diz-se colhido de surpresa e decepcionado. Entrámos, portanto, na via, não romana infelizmente, mas grega! A da tragédia.
Acho tudo isto extraordinário.

O governo, apesar do ar pesado de Gaspar, uma “mente brilhante”, deve achar que assim é que está bem. Parece confortável com o destino miserável do país.

Sabemos o que se vai seguir: cortes atrás de cortes, encerramento de serviços e organismos públicos, privatizações, despedimentos, inclusive na função pública, dado que é inútil reduzir e fundir serviços se não se dispensar pessoal e com isso poupar salários. Menos poder de compra, logo, menos consumo e mais recessão. Mas nenhuma daquelas medidas vai chegar. Não vai chegar nunca! Toda a gente sabe disso e não se faz nada. Tamanha subserviência perante uma Europa indiferente, implacável e arrogante devia ser inaceitável. Há pouco estava um senhor a perorar na SIC-N que o Brasil também já passara por situações de bancarrota no passado e acabou por recuperar. Portanto, a gravidade da situação seria relativa. Por favor! Nós não somos o Brasil nem temos moeda própria que possamos desvalorizar.
O que se passa com esta Europa? Parece-me tudo uma gigantesca hipocrisia.

Debate fechadinho

A candidatura de Seguro insistia nos três debates: um em cada uma das maiores federações – Lisboa e Porto -, em princípio apenas para os militantes (e por isso fechado a jornalistas), e outro organizado por um canal de televisão.

Além de Lisboa e Porto, Francisco Assis pretendia debates com António José Seguro em duas outras grandes federações, Braga e Coimbra, numa televisão e uma rádio. Como se mantinha oimpasse, candidatura de Assis, sabe o PÚBLICO, prometeu uma resposta até ao fim do dia de ontem, o que aconteceu já depois das 22h.

Fonte

Parece que muito a custo se arrancaram três debates públicos a António José Seguro, que, ao que parece também, só na presença da “família” se sente à vontade e protegido. Como se o partido e as ideias do seu futuro secretário-geral não interessassem ao país. Tem razão Assis. Como se compreende que, nas televisões, apenas um canal de cabo, a SIC-N, acolha um frente-a-frente? E como se compreende que não haja qualquer debate a dois nas rádios? O que teme Seguro? Ainda não ganhou nenhuma liderança e já se mostra tímido. O PS existe para governar o país segundo determinadas linhas ideológicas e, para isso, deve mostrar aos portugueses as linhas que se encontram neste momento em confronto no partido, não é uma espécie de grupo de teatro experimental na sua pior acepção, aquela em que se despreza por completo o público.

“She was a hooker”

Under oath, she told the grand jury that indicted Strauss-Kahn that she cowered in fear after the attack in the hallway on the 28th floor of the Sofitel New York hotel until he had left the room — and then immediately notified her supervisors.

In fact, embarrassed prosecutors disclosed yesterday, “she proceeded to clean a nearby room and then returned to Suite 2806” — the alleged crime scene — “and began to clean that suite before she reported the incident.”

Fonte com link a outra fonte

Perante o que agora se conhece, e que deixa a competência de Cy Vance muito em causa, Strauss-Kahn pode ficar completamente limpo. É claro que a “tara” não lhe vai passar e, pior, é agora conhecida em todo o planeta.
E a camareira? Irá haver quem a olhe com compreensão – mulher pobre, coitada, faz pela vida. O mundo é injusto. E quem a olhe como uma reles pega, que arma uma trama monumental, arruína a carreira de um homem e deveria, ela sim, ir presa.

Conhecendo nós a moral pública americana, estou curiosa em saber o que irá decidir o “prosecutor” de Nova Iorque 1) para salvar a face, 2) para não deixar de tirar partido do caso para dar um sinal à sociedade de que “abusos sexuais” não serão tolerados (mesmo que disso não se trate) e 3) para reparar a terrível injustiça feita a DSK, se é que isso importa.

Ainda falta muito? (e outros assuntos)

1. A líder transitória – mas até quando? até Setembro? – da bancada parlamentar do PS deve rapidamente dar lugar a alguém definitivo, mais aguerrido. É que o governo começou desde cedo a proporcionar matéria para questionamento (a chamada “malhação”). Não deveria, portanto, haver tempo a perder.

2. Não tenho visto muita televisão, mas vou passando por lá. Não verifico que esteja a ser dada importância às eleições no PS. Hello, canais! Trata-se do maior partido da oposição. Mais depressa do que se pensa este governo perde apoio popular e há que saber quem está do outro lado. Estamos todos lembrados do período eleitoral no PSD: dia sim, dia não, lá estavam ou o Paulo Rangel, ou o Aguiar Branco ou o Passos a ser entrevistados. Estou em crer que os portugueses gostariam de conhecer melhor o que têm Seguro e Assis a dizer e como o dizem. Eu própria também estou!

3. Ouço pessoas ligadas ao PS dizer que o Seguro “sabe ouvir as bases” e “sabe atrair quadros”. Quanto aos quadros, passo, porque temo curto-circuito na minha mioleira se procurar descortinar de que maneira Seguro atrairia o que quer que fosse fora daquelas federações. Quanto a ouvir as bases, eu não digo que não ouça. A questão é se o que dizem merece ser ouvido, e se não deveriam antes elas próprias ouvir o que alguém inteligente e atento lhes terá para explicar sobre actualidade política e sobre a encruzilhada em que se encontra a esquerda (e o mundo em geral, em que a direita também não escapa). E a questão é também se o que as bases dizem, pressupondo que há alguma unanimidade nisso, é passível de ser tido em conta num programa de governo para o país na hora actual. Em suma, mesmo na hipótese de Seguro poder ser eleito por ser bases-“friendly”, não interessará mais ao PS ter como líder alguém carismático e lutador, com propósitos novos, que conquiste os portugueses em geral? Os chamados “quadros” aproximar-se-ão se virem credibilidade e determinação em alguém.

Thriller internacional – outros contornos?

Esta história chegou-me um dia antes das últimas notícias da libertação de DSK. Pode ou não ser verdade. Que Omar foi preso, foi. Talvez mereça a pena acompanhar as próximas notícias.

“Na manhã de 14 Maio, o dia em que foi preso, Dominique Strauss-Kahn (DSK) tinha sido aconselhado pelos serviços secretos franceses (DGSE) a abandonar os EUA e regressar rapidamente à Europa, descartando-se do telemóvel para evitar que pudesse ser localizado. A delicadeza da informação secreta que lhe tinha sido entregue por agentes “d…elatores” da CIA justificava tal precaução.
Strauss-Kahn tinha viajado para os Estados Unidos para clarificar as razões que levavam os norte-americanos a protelar continuamente o pagamento devido ao FMI de quase 200 toneladas de ouro. A dívida, com pagamento acordado há vários anos, advém de ajustes no sistema monetário – “Special Drawing Rights” (SDR’s).
As preocupações do FMI sobre o pagamento norte-americano ter-se-iam avolumado recentemente. Nesta viagem Strauss-Kahn estaria na posse de informação relevante que indiciava que o ouro em questão já não existe nos cofres fortes de Fort Knox nem no NY Federal Reserve Bank.

Mas Strauss-Kahn terá cometido um erro fatal: ligou para o hotel, já da plataforma de embarque, pedindo que o telefone lhe fosse enviado para Paris, o que permitiu aos serviços secretos americanos agir nos últimos minutos. O resto dos factos são do conhecimento público.
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Sentemo-nos

Vai ser giro observá-los a descalçar esta bota:

Questionado pelos jornalistas sobre o facto de o Governo português ter decidido suspender a construção do TGV, Siim Kallas sublinhou que os fundos comunitários disponibilizados para projectos da rede trans-europeia de transportes “não podem ser realocados”.
“Sempre encorajámos os Estados-membros a não cancelarem os grandes projectos em infra-estruturas”, disse o comissário europeu dos Transportes, lembrando o seu contributo para a criação de emprego
.

Para já não falar dos espanhóis.

Em breve, uma situação, ora deixa ver, “explodida”?

Ontem ouvimos o senhor presidente Oráculo Silva dizer que a situação do país era, como ele já tinha alertado há um ror mas oh que ror de tempo, explosiva. Parece ter grande apreço pela palavra, nem se dando conta que a aplica, por norma, desastradamente. Mas, se não é um oráculo de algibeira, deveria já estar a avisar o país que vai chegar a uma situação … sim, e rima muito bem com a palavra F.
Implodida também dá.

Um líder maior do que o partido

Como compreender que 60% das federações distritais do PS se digam apoiantes, quando não entusiastas, de Seguro, depois de terem estado inequivocamente ao lado de José Sócrates? Qual o seu grau de exigência?

Poderia José Sócrates introduzir determinadas reformas a nível, por exemplo, dos transportes públicos, da saúde ou do arrendamento urbano continuando líder do PS?

Que peso tem o discurso acusatório do PCP (e do agora blocozinho) na imagem pública do PS? Não se imporia uma guerra sem tréguas a esta espécie de seita, extremamente bem acolhida pela direita?

Um novo partido ecologista sobre os escombros do BE?

Calma, dir-me-ão, o anúncio da morte do BE é muito exagerado. Talvez. E a verdade é que vão estar 8 deputados na Assembleia, com um mandato para quatro anos, os quais, além do tradicional protesto, vão ter de seguir uma estratégia. Adianto já que a mesma me parece bem simples: por cada intervenção que o bloco fará contra as medidas do governo PSD/CDS, fará uma intervenção e meia a lembrar ao mundo o quão ligado está o PS ao acordo da Troika, ao ponto de ter sido o responsável pela sua assinatura. Nada de novo nesta frente, portanto. Pelo menos com estes deputados, formatados pela actual Mesa. Desejo-lhes felicidades democráticas no exercício de tão repetitiva e vã função!
Entretanto, lá fora, e nos bastidores, o processo histórico continua, e particularmente activo sobre o agrupamento. Tão activo que Louçã corre o risco de chegar à famosa Mesa e não encontrar por lá ninguém. Ou então, a concretizar-se o desejo de Miguel Portas, encontrar uns jovens com menos de 30 anos a dizerem que terão todo o prazer em coordená-lo a partir de agora.

Entra agora aqui o tema do nosso eurodeputado que se transferiu para o grupo dos Verdes no Parlamento Europeu, depois de romper a união de facto com o partido português pelo qual fora eleito, deduz-se que por se terem esvaído os 50% de afinidades que a ele o ligavam, sempre um bom argumento para ruptura conjugal.
A menos que queira permanecer além-Pirinéus e fazer carreira política como apátrida num partido verde continental, o seu regresso a Portugal, dentro de dias (se ceder às pressões) ou daqui a dois anos, fá-lo-á pensar certamente, ganho que está um genuíno gosto pela política, no partido ou movimento que o poderá acolher para poder prosseguir a militância. Inscrever-se no PCP para militar nos chamados “Verdes”, dando o braço a Eloísa? O preço parece demasiado elevado (refiro-me à inscrição, já que Eloísa é jeitosa) para tanta independência. E que teria Eloísa em comum com Cohn Bendit?

Então aonde militar, e com saúde?
Não me preocupa, obviamente, o futuro do eurodeputado recém-amigado. É lá com ele. É mero pretexto para a reflexão sobre a viabilidade de um novo partido ecologista sobre os eventuais escombros do BE.
Um pouco de contexto, pois. Em matéria de verdura, e de verdura ameaçada, existem seguramente em Portugal focos preocupantes de poluição, como cimenteiras, celuloses, suiniculturas e outros, porém não tão graves como os que estiveram na origem dos movimentos ecologistas que foram surgindo há décadas na Europa central, altamente industrializada e com centrais nucleares, ou nos países nórdicos, atravessados pelo círculo polar árctico, que os torna hipersensíveis às mudanças climáticas, ou ansiosos e excitados com elas, suspeitamos. Há ainda outra fonte de onde brotaram tais movimentos. Morto o comunismo e, pelo odor fétido libertado pelo cadáver, os seus derivados – o marxismo-leninismo, o trotskismo, o maoismo, etc. -, mas havendo sempre entusiastas do alternativo e do “fora do sistema”, os movimentos ecologistas, transformados entretanto em partidos, constituíram um bom substituto das causas perdidas, capaz de manter aceso o espírito de luta e constestação ao capitalismo, agora pela via da rejeição da poluição. Alguns acalmaram-se e já vestem fato, às vezes ocupando as cadeiras do poder.
Talvez por não nos faltar natureza vicejante e praias deslumbrantes e limpas, inclusivamente nos arredores das maiores cidades, os Verdes do PCP, como ramo, são um pouco atrofiados e, como causa, um pouco envergonhados, tendo içado o cartaz e a bandeira, mas não largando as calças do avô…

Regressando ao Rui Tavares, potencial activista “verde”. O seu ex-BE, um bloco não tanto de esquerda, mas antes de cimento, decorado de estrelas luminosas mas cadentes e perfumado de erva, mas um bloco – duro, fechado, inflexível e errante, e ultimamente, por força quiçá do erro original, das circunstâncias e da história, sujeito a fortes pressões contraditórias, perdeu o brilho, o “glamour” e, mais do que isso, ameaça abrir fendas irreparáveis ou mirrar pela força da erosão. Não se vislumbra saída.

Poderá o (ainda) eurodeputado e outros criar um novo partido, dando-lhe um qualquer tom de verde? Fará sentido em Portugal? Não soará a imitação, a tardio, a sucursal, para já não falar em sobreposição? Em que poderá transformar-se o BE? Em coisa nenhuma? Pulveriza-se e os dois ímanes mais próximos, PS e PCP, captam devidamente as partículas?
A coisa é mais séria do que parece, sobretudo para os seus elementos, porque aquelas pessoas existem e têm arranjado emprego (e família) sentando o traseiro na Assembleia e no delírio de acabarem com o PS. Mas a coisa também é séria, porque, a existir alguma força partidária naquele espaço, o que não é de todo obrigatório, seria útil ao grande partido do centro-esquerda poder contar com um potencial parceiro de coligação não agarrado a radicalismos serôdios. Construirá esta gente alguma coisa – verde, amarelo ou azul celeste – sem Louçã? Contra Louçã?

Um bom livro

Cleopatra – A Life

Cleópatra chamou aos seus filhos gémeos (de Marco António) Alexandre Hélio (Sol, em grego) e Cleópatra Selénia (Lua). Alexandre – em homenagem a Alexandre da Macedónia, do qual se considerava descendente. E Cleópatra, porque em toda a dinastia ptolemaica os nomes das mulheres distribuíam-se por quatro variantes, uma das quais esta. Apesar de ser rainha do Egipto, as divindades gregas, romanas e egípcias eram aceites com alguma facilidade, pelo menos a nível superior da pirâmide social. O livro é fascinante. O inglês magnífico. Ganhou o prémio Pulitzer deste ano.
Cleópatra e todos os outros protagonistas – Júlio César, Marco António, Octávio, generais vários – viveram nos anos imediatamente anteriores ao nosso ano zero (um), embora, evidentemente, nem suspeitassem o que isso fosse. Foram, portanto, contemporâneos de Herodes (e da temível sogra), amplamente descrito no livro – o que remete para a temática ali mais abaixo de J. Cristo pedreiro, que já devia andar por ali.
Mas o que interessa também é a história dos países do Mediterrâneo naquela altura, o império romano e o preço de o manter/alargar, as longas ausências de Roma, a inconcebível violência de tudo aquilo, a beleza de Alexandria…

Fuga de cérebros

Lemos no Jornal de Negócios:

«O gabinete do primeiro-ministro, contactado, também não quis prestar esclarecimentos. “Não fazemos comentários sobre isso. A fuga de informação não partiu de nós e não quisemos tirar vantagens dela”, sublinhou ao Negócios um assessor de Passos Coelho.»

Nos últimos 5 anos falou-se mais em “fugas de informação” do que nos últimos 100. Não haverá português nenhum que não saiba o que são. Ora, falar de fuga de informação a propósito da notícia de que o primeiro-ministro e comitiva viajaram em classe económica num voo da TAP é um rotundo disparate vindo da assessoria de Passos. Nem era suposto tal acto ser segredo, muito pelo contrário se a ideia era dar o exemplo, nem jamais poderia sê-lo: pelo menos 100 passageiros presenciaram o evento e não consta que o comandante tenha feito, lá do cockpit, um apelo ao sigilo.

Ir mais longe e enfim descansar (socratista, eu?!)

O pedido de “ajuda” externa, protelado até ao limite por José Sócrates pelas razões já conhecidas, que não vou aqui repetir, e acertadas, como em breve iremos sentir na pele, levou a que, na recente campanha eleitoral, os dois principais partidos utilizassem slogans diferentes, ou pelo menos frases marcantes, sobre essa matéria. Sócrates, lutando, mas frustrado com a falta de solidariedade europeia no combate à especulação financeira com os juros da dívida e a sentir a perda de soberania a aproximar-se, para grande gáudio dos seus opositores, optou por proclamar, chegadas as eleições, que as medidas da Troika não eram o mais importante e que, para austeridade, chegariam, como, aliás, já teria chegado o PEC IV. O programa de reformas do governo PS iria prosseguir nos restantes domínios, com as prioridades já traçadas. Não convenceu, obviamente. Ele próprio se sentia em conflito com o papel para que o empurraram.

O PSD escolheu outro slogan. Para ultrapassar a questão da efectiva perda de soberania (conhecida, mas nunca referida, claro), decidiu gritar, impante, que “iremos ainda mais longe do que as medidas da Troika”. Por um lado, era uma maneira de iludir a triste realidade e de iludir os outros. Por outro, do ponto de vista da psicologia de massas, é uma frase que resulta, porque pressupõe que a base de partida é positiva: o que nos impuseram em termos de políticas ainda não está à vista para ninguém, muito menos aplicado, não doendo nem deixando de doer; a imagem benéfica que nos levam a atribuir ao que aí vem podia, e ainda pode por mais alguns dias, ser explorada perfeitamente. Mais ou menos, é como dizer: “Vêem ali aquele solar antigo? Está em obras, mas há uns tempos que as mesmas não avançam! Observámos a sua degradação (“Aqui para nós”, segreda Relvas, “contribuímos até para ela, sabem? Bloqueámos as obras. Questão de baixar o preço de venda…” (leia-se vitória nas eleições)). A vista é deslumbrante, floresta até ao rio, jardins, fragrâncias mil. Pois dos alicerces ao telhado, vereis, tudo novo! Mas não nos ficaremos por aí! Haverá mais. Vão ficar surpreendidos.” (e nós logo a imaginar courts de ténis)

Se assim não vendessem cobertores, como os venderiam?

Bom, por estes dias, aguardamos com alguma ansiedade a tal surpresa, embora ainda não tenhamos visto sequer a mais pequena martelada no solar. Em Bruxelas, há dois dias, insistia Passos Coelho em que irão já ser tomadas, de imediato, medidas adicionais, prolongando o slogan da campanha. A tal surpresa, mais cedo do que o prometido? Excelente! Posso ir comprar as raquetes!

E quanto ao “Ir mais longe?” Segundo as teorias que animam por estes tempos o PSD, quase tudo no Estado pode ser dispensado. Os privados prestarão com muito mais eficácia e eficiência os serviços aos cidadãos e, sem a concorrência de empresas públicas, as privadas poderão enfim sentir-se livres para se organizar, criar empregos, exportar, vender cuidados de saúde, etc. Não é verdade que “empresas prósperas, trabalhadores felizes”? Pois é. Mais ou menos, dependendo dos salários, que por sua vez dependem dos que estão lá fora, sem emprego. O novo Ministro da Educação propõe mesmo que os exames nacionais sejam encomendados a privados, sem dúvida muito mais competentes e, a haver vários, mais baratos.

Ora, nessa óptica, poderiam ter começado melhor. Ir mais longe, muito mais longe, logo no governo, por exemplo. Para quê ministros e secretários de estado pagos pelo orçamento de Estado? Consideremos os vários sectores da economia – Energia, Banca, Indústria Transformadora, Agricultura – e dos serviços – Justiça, Educação, Saúde. O primeiro-ministro eleito reunia as diversas empresas de cada ramo, através das suas associações representativas. Não precisaria sequer de estar presente. O objectivo último já todos sabem qual é. Cada associação elegia então um decisor que representasse os seus interesses e definisse as políticas mais convenientes, pagava-lhe bom salário e teríamos o país governado. Revista a Constituição, o mesmo valeria para os serviços – privatizados, entregues. Restaria o ministro das Finanças para cobrar os impostos, de preferência baixos para as empresas. Passos poderia então ir dormir descansado para Massamá. Ser primeiro-ministro não é mesmo a profissão ideal?