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Não sou eu o responsável

Volta não volta, ouvimos Passos Coelho responder, na Assembleia, a quem o acusa de excesso de austeridade, do alvo errado da mesma e das suas consequências devastadoras para a economia portuguesa, que não foi ele, nem o seu governo, que conduziram o País ao descalabro. Que eles, pobres coitados, se limitam a solucionar o buraco herdado e hélas, sem nada poderem fazer de diferente, são obrigados a proceder desse modo, deixando no ar a ideia de que o não fariam se pudessem. Nada mais falso, nada mais simplista, mas também nada mais engana-tolos. O buraco herdado foi-lhes deixado pelo amigo Alberto João, que protegeram até à reeleição e continuam a aplaudir nos congressos, pelos amigos do BPN e pela subida dos juros da dívida. (Qualquer país será frágil se lhe pedirem juros de mais de 6%)
Como não lamentar que não haja oposição da direção socialista perante afirmações deste tipo?

Não foram os responsáveis? A par da arquitetura do euro e da inação da UE, claro que foram. Pelo que andaram a fazer ao longo de 2010 perante a austeridade doseada e atenta à economia proposta pelo executivo minoritário de Sócrates, pelo comportamento miserável na Assembleia e pelo que fizeram em Março e Abril de 2011 ao rejeitarem o apoio dado pela UE ao quarto programa de estabilidade, foram mais do que responsáveis. Foram totalmente responsáveis pelo pedido de intervenção externa e, aliás, desejaram-no. Foram acima de tudo os responsáveis pela irresponsabilidade total.

Atuam contrariados ao baixar os salários e diminuir os direitos dos trabalhadores? Claro que não. É a ideia de competitividade que tinham para o país! Aliás, põem-na em prática com a máxima convicção e frieza.

Por isso, basta de conversa da treta e já é tempo de alguém lhes atirar com estas verdades à cara.

Nota: No DN de hoje, Viriato Soromenho Marques critica a entrevista dada por Vital Moreira, e que eu já aqui critiquei, considerando que a declarada falta de paixão de Vital é eufemismo para falta de princípios, certo, mas concluindo, surpreendentemente, que A.J.Seguro sofre, coitado, devido ao campo minado pelos “socratistas”, de que Vital será um representante. Extraordinário. E qual o fundamento para esta estranha interpretação das palavras de Vital? O facto de ele, na entrevista, se declarar amigo de Sócrates.
Não contacto com Sócrates no Além. Sei apenas que foi ele que convidou Vital para o PE (só por si motivo para eterno agradecimento), mas tenho as mais fundamentadas dúvidas de que as opiniões de VM sobre a Europa e o bom caminho seguido por Portugal coincidam com as de Sócrates. Admira-me mesmo que V.S – Marques não se tenha lembrado um minuto que fosse de Zita Seabra.

Ter razão

Passou um ano sobre o pedido de resgate. Aos poucos, vão-se conhecendo dados sobre o que se passou na altura crucial da apresentação do PEC 4. Sabe-se que, face à especulação com os juros da dívida, José Sócrates andou laboriosamente a negociar com as entidades europeias uma garantia de apoio que nos dispensaria da intervenção externa. Sabe-se também que o tinha conseguido e que tal garantia ficara dada por escrito. Sabe-se que o partido de Relvas e Passos lhe deram o aval quando conheceram o programa e que, ao contrário do que afirmaram, conheceram-no, e detalhadamente, numa reunião com Sócrates. Sabe-se da imediata pressão de Marco António Costa para que Passos recuasse e o chumbasse, derrubando o Governo, sob pena de haver eleições no partido para mudar a liderança, já que a febre da ida ao pote ia alta. Sabe-se do papel do presidente da República totalmente contrário ao interesse nacional, como cada vez mais se comprova. Sabe-se também que o então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, em contacto com banqueiros e jornalistas, torpedeou Sócrates quanto ao pedido de empréstimo, eventualmente destruindo todo o esforço anterior de conquista de uma melhor solução junto da UE. Sabe-se ainda do contributo dado pelos partidos da extrema esquerda, PCP e BE, ao chumbarem o PEC 4, para a chegada ao poder da direita neoliberal e, a par disso, impreparada.
Sabe-se, em suma, que o homem que já tudo fizera para reduzir o défice até 2008, tendo-o conseguido, estava a tentar solucionar da maneira menos dolorosa possível, tendo em conta a nossa integração irreversível na zona euro, a redução da dívida, que entretanto aumentara, não por ser, ele próprio, um irresponsável esbanjador dos recursos públicos e do dinheiro dos contribuintes, mas por forçosamente e, sublinhe-se, com o aval das instâncias europeias, haver necessidade de estimular a economia e de responder ao encerramento de empresas e ao consequente desemprego, na sequência da maior crise económica internacional dos últmos 80 anos. Sabemos também que o grande “pecado” de Sócrates foi ter uma visão de desenvolvimento para o país não assente na mão de obra barata, como na China, que não nos leva a lado nenhum recomendável, mas na educação e qualificação das pessoas, na ciência, na tecnologia e na inovação, que, a prazo, nos daria sustentabilidade às finanças públicas e nos permitiria pagar as dívidas, assim a União Europeia estabelecesse mecanismos que pusessem fim à especulação (o que devia ter feito e não fez). Os verdadeiros irresponsáveis assim não o entenderam. Sócrates, sabe-se agora claramente, continuava, em 2010 e 2011, a lutar, mesmo em minoria na Assembleia, para salvar o país do desastre. Tinha razão. Não se trata aqui de chorar sobre leite derramado. Trata-se de condenar os oportunismos e a inconsciência que, em nada beliscando certas castas, conduzem as populações à pobreza.

O desastre vivemo-lo agora. Depois de uma campanha eleitoral em que o primeiro-ministro foi acusado de arrastar o país para o abismo (agora é de pasmar) e em que choveram mentiras em catadupa, soluções milagrosas e promessas irrealizáveis por parte dos partidos da atual coligação, eis-nos em plena situação de intervencionados, realizando o desejo de tantos. Tudo se deteriorou e a deterioração, já de si previsível, embora saudada, ainda consegue ser pior do que a prevista. O governo de todas as mentiras, que foge para a frente com a teoria, e a prática, do “quanto mais depressa melhor” para podermos voltar aos mercados, prova ser burro e ignorante todos os dias ao partilhar da austeridade concentrada no tempo, intensificando-a ainda mais contra toda a lógica económica, contra o patriotismo e a sensibilidade social e, sobretudo, contra os resultados. Como seria de esperar, uns problemas arrastam outros, o desemprego dispara e a segurança social encontra-se à beira do colapso. Os melhores vão-se embora. O Governo anda desorientado e já não consegue esconder nem disfarçar as sucessivas mentiras, contradições e erros. O regresso aos mercados, que ainda ontem estava marcado para 23 de Setembro de 2013, afinal já nem ano fixo tem, quanto mais mês e dia. Mas, com maioria, dá-se até ao luxo de assumir as trapalhadas quase com orgulho, gozando, e com legitimidade, com as pessoas que neles votaram, numa autêntica pândega, com que muitos jornalistas alinham. A maioria na Assembleia, o apoio do PR e a pouca agressividade da oposição mantê-los-ão, porém, em funções, provavelmente até ao fim da legislatura. O Aníbal de um lado e o Tó Zé e o PCP do outro são um conforto. Este é o verdadeiro desastre.

Críticas à entrevista de Vital Moreira

Vale a pena ler as declarações deste professor de Direito e, desde 2009, eurodeputado, em entrevista ao jornal i. VM tem-se mostrado ultimamente favorável ao Pacto Orçamental e agora, pelo que se percebe, à política e à estratégia deste governo, inclusivamente no que toca à ânsia de se mostrar bom aluno. Convém, no entanto, ter em conta que, no Parlamento Europeu, além de se adquirir forçosamente uma perspetiva da política europeia e, consequentemente, da nacional, diferente da que se tem a partir da “West coast“, o que é enriquecedor e, para qualquer efeito que se pretenda, positivo, também se viaja muito, e muito longe, pelo que alguns detalhes importantes da cena nacional podem escapar. Também se ganha bem, ou seja, não se passa pelos agrumes de quem perde salários, reformas, poder de compra, trabalho e família. Mas as opiniões substanciadas de Vital Moreira, veiculadas durante alguns anos no jornal Público, sempre me mereceram grande respeito, embora nem sempre a concordância.
Posto isto, onde vejo motivos para crítica no que ele diz?
(Está difícil meter o link. Entrevista em http://www.ionline.pt/portugal/vital-moreira-coisas-nao-estao-sair-mal-ao-governo)

Desde já, aqui: “As eleições europeias continuam a ser muito domésticas e alguns dos temas que eu incluí na agenda, como, por exemplo, o da taxa sobre transacções financeiras – que agora está na agenda –, nessa altura foi entendido como um tema assaz polémico e contencioso.”

A taxa, portanto. Considero isto uma má leitura do que se passou (o PS não ganhou). Embora na comunicação escrita Vital Moreira seja quase inigualável em termos de clareza, fundamentação e raciocínio, na comunicação oral e nos dotes oratórios, indispensáveis em campanha eleitoral, a sua mensagem fica altamente prejudicada. Houve até, na altura, quem criticasse Sócrates pela escolha de Vital para cabeça de lista. E a verdade é que Sócrates, apesar da derrota nas europeias, ganhou depois as legislativas. O problema não estava, portanto, na taxa. Estava nos problemas domésticos, claro, na crise económica que já se fazia sentir em consequência da crise do subprime e algo também nele próprio (VM).

Segundo ponto: “E o governo tem uma estratégia clara: fazer o mal todo de uma vez, de modo a poder inverter a situação a tempo das próximas eleições legislativas.
[…]O PS argumenta que essa concentração na austeridade vai levar a uma recessão profunda. Não existe o risco de entrarmos num ciclo vicioso?
É um risco e um custo. A recessão vai ser maior que o esperado. O governo tinha dois caminhos: um era aquele que defende o PS, que é moderar o ritmo e a intensidade da austeridade, outro – e foi essa a opção – concentrar a austeridade sabendo assim que alguma vez se há-de bater no fundo e que depois, antes das próximas eleições, a situação pode inverter-se. O governo pode ser acusado de muita coisa, inclusivamente de ir além da troika e dessa concentração algo excessiva nas medidas restritivas, mas não pode ser acusado de falta de estratégia. Parece-me clara a estratégia. Essa concentração obedece a essa estratégia clara tirando partido dessa envolvente externa que entretanto se verificou.”

Considero estranha a frieza acrítica destas palavras e também o facto de o reconhecimento do despudorado eleitoralismo subjacente à estratégia governativa não lhe merecer o mínimo reparo, para já não falar de discordância, quanto mais não fosse pela ruína que tal modo calculista e insensível de fazer política representa para a vida de milhares de pessoas e para a economia do país; muito pelo contrário, Vital diz mais adiante compreender o Governo (“É mais uma peça da estratégia para o governo se credibilizar ao máximo para o exterior, mostrar que estamos a levar isto a sério e queremos fazer isto rapidamente e em força“). Também nem uma palavra sobre o rumo austeritário desta Europa dominada pela Alemanha e por partidos totalmente submissos face à alta finança, nem sobre o reconhecimento, pelo próprio FMI, de que tais políticas são contraproducentes e assassinas, para já não falar na degradação óbvia da situação portuguesa e na falha sistemática das previsões. Nem sobre a defeituosa arquitetura do euro e a perpetuação e mesmo o agravamento das desigualdades entre norte e sul.

Terceiro ponto: “É preciso que a Comissão tenha mais autoridade política. O Tratado de Lisboa tem uma saída que é a ideia de que o presidente da Comissão deve sair das eleições Europeias e possa invocar ter sido eleito – embora não directamente – pelos cidadãos. Devemos levar até ao fim essa lógica, ou seja, nas próximas eleições europeias os grandes partidos europeus devem apresentar o seu candidato a presidente da Comissão e quem ganhar deve ser o presidente. É essencial para lhe dar autoridade política. É o único modo de ele se impor.”

A ideia de que a Europa pode ter um “governo” encabeçado pelo presidente da Comissão Europeia é uma das grandes utopias políticas contemporâneas que Vital Moreira deveria reconhecer como tal, sobretudo nestes tempos em que a ameaça de rutura paira constantemente. Não se vislumbra no horizonte qualquer possibilidade de os Estados mais poderosos da UE cederem soberania à Comissão (mais pacto, menos pacto à espera de ser violado) e muito menos de lhe atribuírem um poder superior ao seu. O presidente da Comissão está condenado a permanecer um executor e, em termos políticos, um personagem mais do domínio do contorcionismo, se não das marionetas, e tenho dúvidas de que fosse conveniente ser de outra maneira, apesar de o poderio de Roma e o seu império terem durado vários séculos. A Europa, a ser, será uma união de nações, com predominância e domínio das mais importantes. Ponto.

Surpreende ainda a afirmação, explicável pela distração?, de que “Por outro lado, este governo começa a colher os efeitos positivos das políticas do governo anterior no caso da educação, da formação profissional, da aposta nas energias renováveis…”, quando o que temos visto tem sido a sistemática obsessão do atual Governo por acabar com tudo o que tenha o selo do anterior.

As noites parvas do PSD

Há pouca paciência para ver televisão ultimamente. A verdadeira asfixia impera agora, não dantes – o Governo, a comunicação social e o PR mal se distinguem e é tudo muito mau. Não vi Marcelo, mas Seguro tratou de lhe amplificar as matreirices, diabruras e arquigolpadas habituais com que se diverte, pelo que foi impossível não saber o que disse no domingo. Para além de suspeitar que talvez o país e os socialistas em particular lhe venham a agradecer a alfinetada (ou picada de escorpião) dada em Seguro, para grande contrariedade do laranjal, o comentário mais pertinente que me ocorre não pode ser outro que não este: que veleidade poderá ter este homem de um dia ser candidato a PR? Seria a intriga e a má língua permanentes e institucionalizadas! Um tiro no pé e uma aflição para os seus correligionários, que saltaram logo para as televisões a elogiar Seguro.

Foi o caso de Ângelo Correia, na SIC-N, em noite de especial parvoice, que leva uma pessoa a duvidar da realidade. Este senhor resolveu dar uma de analista psicológico a propósito de José Sócrates (who else?), afirmando não haver maior prova do seu ego enorme e arrogância enquanto líder do que a adoção do nome Sócrates em vez de Pinto de Sousa, renegando assim a família e as origens (!), para que toda a importância se concentrasse nele próprio (claro está que, segundo ele, Seguro é muito diferente!).
Ângelo, que também é Correia, padece de um mal chamado inveja. Sem o Correia do pai (presumo), o seu nome seria, de facto, uma boa piroseira.
Acontece que uma mãe que dá ao filho o nome de Sócrates, e em Portugal, não está certamente à espera que o mesmo seja ignorado. Pensava num grande homem e o mínimo que se pode dizer é que a aposta não saiu de todo gorada.

A purga

Eis o que se lê por aí, pelos jornais, pela pena de colunistas encartados, provavelmente inspirados nos fabulosos Marques Mendes e Marcelos das nossas televisões: Seguro tem que proceder a uma purga no PS para se poder afirmar como líder da oposição. Nem mais.
Subjacente a esta opinião está a ideia assaz imaginativa de que Seguro tem potencial para ser um ótimo líder e só não o desenvolve devido aos obstáculos criados ou às pressões exercidas pela bancada socratista. Uau!

Esta mensagem, veiculada com total desonestidade por quem devia ter juízo para fazer melhores análises, não passa, observada no dia a dia a prestação pública da criatura, de poeira atirada aos olhos dos mais incautos e permeáveis a spins e, na prática, mais não pretende do que facilitar a vida a Passos, mantendo Seguro à frente da oposição.

Seguro tem tido oportunidades de ouro para mostrar o que vale, o que pensa, o que quer. Fala ou cala-se quando quer e sobre o que quer. Ninguém o impede, ninguém o obriga. Apesar de isso ser indesmentível, quase não houve, até à data, uma oportunidade que este homem não tivesse desperdiçado: falando ou calando-se, a imagem que transmite é a de alguém sem carisma nem personalidade, que não pensa grande coisa sobre coisa nenhuma e, quanto ao que quer, a única coisa que se percebe é que quer ser líder do PS, porque é giro, porque se reúne com líderes estrangeiros, porque o Pedro também é e porque sim. Ah, e quer também conquistar “pelo coração e os afetos” as bases do partido, entendendo-se por isso uma espécie de operação de adormecimento coletivo, a única com aparente sucesso.

Vendo bem, as reações na vida real, fora das “bases”, ao que faz e diz alternam entre a vergonha, os sorrisos amarelos, as expressões intrigadas, o encolher de ombros, a frustração, a desilusão, a troça ou, enfim, a resignação de quem acha que o mal é transitório, mas necessário. De facto, “uma desgraça” é o comentário mais comum ao desempenho de Seguro, proferido inclusivamente por quem votou nele.
Vale a pena recordar duas ou três pérolas desta ameaçada ostra: “Irei fazer uma abstenção violenta”; “Senhor primeiro-ministro, desafio-o para um debate a dois” (enquanto debatia… e a dois); “Não respondo (parado, frente a uma jornalista, no Parlamento, sobre a votação na generalidade da lei laboral e a disciplina de voto). Dou a palavra ao líder do grupo parlamentar, mas se a senhora jornalista quiser ouvir-me, convide-me para uma entrevista na SIC”. E outras declarações igualmente eloquentes, silêncios incompreensíveis sobre temas determinantes para a sua afirmação e programas extraparlamentares totalmente descabidos em relação às tensões políticas do momento.

Qual a responsabilidade dos “socráticos” em tal desastre, gostaria que os ditos comentadores nos explicassem. Em que é que o seu silenciamento contribuirá para a melhoria da qualidade da matéria-prima Seguro, também gostaria que fizessem a fineza de explicar.
Insurgir-se contra a inépcia e o ridículo é apenas um sinal de que há quem não tenha ainda desistido daquele partido. Mas há grande risco de cisão.

Este Teixeira dos Santos

Segundo o jornal i, Teixeira dos Santos afirmou, em conferência no Porto, na universidade onde é professor, o seguinte: Compreendo a Alemanha, devo dizer, porque a Alemanha tem a perceção de que ao fim do dia serão eles que terão que pagar, mas quer garantias. Temos de perguntar não o que é que a Alemanha nos tem que dar, mas o que é que nós temos que dar aos alemães”.
“Isto vai passar por um “contexto de maior condicionalidade”, ou seja: “Acho que os países não podem fazer os orçamentos a seu bel-prazer.”
“Se quisermos – disse isso imensas vezes – que a Europa partilhe o risco soberano temos que partilhar com eles as nossas decisões e não podemos pensar que eles estão aí para ajudar e nós não temos que justificar as medidas e as opções de política”.
Disse ainda que “No próximo dia 06 de abril se comemora um ano desde que deu “um empurrão para que Portugal pudesse superar as dificuldades com que se tem confrontado”, quando foi anunciado que tinha sido feito o pedido de ajuda à Comissão Europeia e que “visa não só um ajustamento orçamental importante, mas também uma agenda de reformas indispensável
“.

Tudo certo, mais ou menos, ou talvez não, estas afirmações do antigo ministro das Finanças de Sócrates, além de simplistas ou simplórias, explicam bastantes coisas. Desde o diferendo pressentido com Sócrates em torno do pedido de empréstimo até ao recente convite para a PT.

Quanto à primeira parte das afirmações, de a Alemanha querer garantias e de os Estados-Membros terem de abdicar aos poucos de uma parte da sua soberania, claro, claríssimo, se o objetivo for a maior integração europeia; mas essa é uma parte da questão, no contexto desta crise. Teixeira dos Santos não devia ignorar que a outra parte da questão, o que a Alemanha também ganhou durante anos com os incentivos ao consumo dados pelos seus bancos, e pelos seus políticos, inclusivamente quando reunidos em Bruxelas, aos países periféricos, e que, só por si, devia impedir qualquer discurso em torno do “viver acima das nossas possibilidades” ou da teoria do pecado, da pieguice ou da preguiça, deveria igualmente pesar na balança, interessar-nos e ter sido usada (e provavelmente foi, por Sócrates) como argumento para contrariar/evitar a imposição de uma asfixia súbita, concentrada e violenta à nossa economia. Isto, evidentemente, sem prejuízo de um regresso gradual à solvência, como não podia deixar de ser intenção de Sócrates. O recurso à Troika tinha custos avultados para o país, como, aliás, infelizmente, se confirma, ainda por cima com executores destes, apologistas da expiação conducente à redenção.

Quanto ao “empurrão”, agradeço ter-nos confirmado as nossas suspeitas. A minha perspetiva, no entanto, tende a dar absoluta razão ao antigo primeiro-ministro: se, obtido o apoio da Alemanha, do BCE e da CE, como foi o caso com o PEC 4, nos tivéssemos mantido à tona de água nesta borrasca, a par da Espanha e da Itália, fazendo gradualmente as reformas necessárias, sem termos de bater no fundo e condenar milhares à miséria ou à emigração, teríamos sobrevivido e com alguma dignidade. Ouvir Teixeira dos Santos confessar que, também ele, contribuiu para a tomada do poder pelo bando de aldrabões que agora nos governa não é agradável. Deixa até um sabor amargo.

Do canal do Panamá à cena da alta prestação

Com o alargamento do canal do Panamá, não diz Passos Coelho, mas pensa, “vão vir charters de” navios de grande porte largar no porto de Sines mercadorias destinadas ao continente europeu. Pode ser. Nunca se sabe. Tal como deus, o mar é grande e Le Havre e Roterdão, possivelmente, já eram. Mas alguém me diga se faz algum sentido construir uma linha ferroviária “de alta prestação”, que também exige fundos avultados como o TGV, exclusivamente para o transporte de mercadorias internacionais que ainda não existem e não prever o transporte de passageiros/turistas/profissionais vários, estes existentes, bem vivos e normalmente com pressa, numa linha de alta velocidade? Voltamos à imagem de nós, humanos, ficarmos “a ver passar os comboios”?
Além disso, existem alguns estudos que indiquem a disponibilidade das companhias de navegação internacionais para abdicarem das suas rotas habituais de destino europeu, encurtando-as para uma intermodalidade em Sines? A linha interdita a passageiros não será um enorme risco, criado apenas para contrariar decisões do Governo anterior e tentar cumprir a martelo uma promessa eleitoral?

“O primeiro-ministro disse ontem esperar que a ligação ferroviária de mercadorias entre Sines e Badajoz possa estar concluída até 2014. Depois de o Tribunal de Contas (TC) ter decidido não conceder o visto ao contrato de construção da linha de alta velocidade e de o Governo ter deixado cair defi nitivamente este projecto, o objectivo é concretizar a nova obra antes que ocorra o alargamento do Canal do Panamá, igualmente previsto para daqui a dois anos.
[…]
A linha de alta prestação para mercadorias é um projecto há muito defendido pelo Governo e que ganhou força com o chumbo do TC.”

Fonte: Público

Pergunto-me ainda se esse mítico porto de Sines não iria, no apogeu do seu desenvolvimento, destruir completamente uma boa parte de uma das zonas mais bonitas da nossa costa, causando a sua inevitável ampliação e o seu movimento um enorme prejuízo ambiental e turístico.

“Power is nothing without control”*

Menos mal que os socialistas mais próximos da direção de Seguro começam a compreender que não vão longe com a elegância no trato face às vilanias do PSD. Afirmam agora que, depois daquele congresso acusatório do fim de semana, nada será como dantes. Aguardemos para ver. Ou Seguro toma as agressões como ataques ao partido e reage em conformidade ou é esmagado; antes de mais, e como se tem visto, pelo exército adversário, arrastando consigo o partido, ou, senão, certo e sabido, pelas próprias hostes, fartas de hesitações e contemporizações.

A confraria dos raivosos anti-socráticos que se reúne daquela maneira tem um dos expoentes máximos numa criatura de peso chamada Carlos Abreu Amorim. Quem, ontem, no que era suposto ser um frente a frente com Marcos Perestrelo, do PS, resistiu mais de dois minutos a escutar o bulímico deputado laranja na RTP Informação (Grande Jornal, segunda parte, a partir do minuto 23), na expectativa de ouvir o que teria a replicar o seu civilizado e cordato interlocutor, pôde constatar, a par da incontinência verbal aguda de que sofre Amorim e que a moderadora até ao fim não controlou, o espírito vingativo totalmente alucinado que se apoderou do campo laranja e que transparece a cada momento pelas bocas de primários como este ou Menezes e ao qual dão execução ministros como Álvaro e Crato com as suas patrocinadas comissões de inquérito, mais o sindicato dos juízes.
Para esta gente desvairada, não chega o PS ter perdido as eleições. Sem que, racionalmente, ninguém consiga perceber porquê, querem mais. Fosse Amorim um imperador persa do século VI (difícil, devido, nomeadamente, aos óculos) e mataria Sócrates e os seus ministros dando-lhes a beber ouro fundido num cerimonial sádico, envolto em cânticos triunfais ou apocalípticos e concluído em grande orgia e fornicação. Definitivamente, não se enxergam. Estão de tal maneira possuídos que se esquecem do século e do continente onde vivem, a democracia lhes passa ao lado e só desejam ver todo o país num clamor de ódio, gritando vitupérios e brandindo facas na direção de Paris. Calma. E controlo. Mil e quatrocentos anos têm de ter feito alguma diferença.

*De um anúncio a uma marca de ténis pneus muito conhecida

Sacrifícios do lombo e pregos de sola

Passado um ano da operação “assalto ao pote”, estou impressionada.
A combinação, pelo atual primeiro-ministro, de uma linguagem vulgar a tender para o rasca e de uma outra, moralista, que retrocede no tempo até ao Cardeal Cerejeira do nosso imaginário causa uma enorme urticária a pessoas que já viram o país a ambicionar outro destino mais edificante e civilizado e a desejar enterrar de vez os diáconos Remédios do passado. Já só nos faltava mesmo um rapazola inculto que pensa que, não filtrando as palavras, chega ao coração do povo que ele mesmo deliberadamente empobrece, utiliza a linguagem moralista bacoca ouvida a alguma bisavó e ao mesmo tempo vai distribuindo, com total insensibilidade, benesses pelos amigos.

O líder do PSD reconheceu, esta sexta-feira, que os portugueses têm sido “compreensivos” com sacrifícios que lhes têm saído do “lombo”, e apesar de uma oposição a quem “tudo parece um prego” porque “anda sempre com um martelo na mão”.
“É porque nós não desistimos, não queremos renegociar, não queremos fazer essa flexibilização, nós queremos ser exigentes e intransigentes no cumprimento das nossas obrigações. É assim que gente honrada faz, é assim que quem quer o crédito reconhecido pelos outros tem que fazer, é o que os portugueses estão a fazer com o nosso Governo”, defendeu
.

Jornal de Notícias

Reunião da comissão política nacional do PS – oftalmologista precisa-se

Perante a posição assumida na reunião por Francisco Assis de que o partido deveria acabar com a clivagem passado recente/futuro, que, e agora sou eu a falar, além de contraproducente, é insustentável face à estratégia dos adversários, e, em vez disso (retomo Assis), assumir o seu património político sem ruturas, eis as reações dos apoiantes de Seguro, lidas no Jornal de Negócios:

«Na sequência destas intervenções, Jorge Brilhante Dias, membro do Secretariado Nacional do PS, pediu ao colectivo dos dirigentes socialistas para também se empenhar na defesa do secretário-geral, António José Seguro, quando ele é alvo de ataques externos.

Depois, vários membros da Comissão Política próximos da direcção de Seguro defenderam que o PS não pode acantonar-se na defesa do seu passado, já que por essa via perderá margem de manobra como partido de oposição.

José Junqueiro, José Luís Carneiro, Ricardo Gonçalves e João Paulo Pedrosa assumiram posições nesse sentido e consideraram que é estratégia do Governo pôr o PS a discutir o passado, impedindo assim a afirmação de propostas alternativas.»

A cegueira, pelos vistos, tem nomes. Se a estratégia claríssima e aparentemente única do Governo é atacar o governo anterior a propósito de tudo e de nada, mas sobretudo a propósito do muito que corre mal atualmente, e de tudo destruir e desmantelar como se peçonha tivesse, e se o PS não tiver resposta para isso, e uma resposta vigorosa, acontece o lamentável espetáculo a que temos assistido: a atual direção do partido apresenta-se frouxa, sem desejo ou incapaz de contra-atacar, torna-se e torna o partido vulnerável, permite que passem por verdades as afirmações mais delirantes, caluniosas e viciosas dos atuais governantes e deputados da direita, coloca-se em posição de penitência e, na prática conivente com as críticas, deixa brilhar a atual maioria enquanto ela própria faz figura de urso.
Quanto ao impedimento que tal “acantonamento” no passado representa à apresentação de propostas alternativas, a cegueira continua, mas desta vez em direção ao umbigo. Alguém sabe, por acaso, o que pensa Seguro em matéria de Educação, Saúde, Ciência, Energia, prioridades da nossa economia, políticas laborais? E, já agora, o que lhe desagradou concretamente na governação anterior?
Se, nesse particular, esfregassem os olhinhos, veriam que tínhamos uma enorme, imensa e poderosa alternativa nas linhas políticas traçadas pelo governo de Sócrates. E não, não foram elas que nos levaram à bancarrota, ponto que deveria ser justamente entendido de uma vez por todas pelas atuais luminárias da direção socialista.

Ai, se eu te pego…

Como era intuito do PSD ao decidir inopinadamente pedir uma comissão de inquérito parlamentar ao BPN depois de a ter recusado, “Ninguém pode ficar de fora dessa responsabilidade.” Foi assim que o secretário-geral do PS, António José Seguro, admitiu a possibilidade do ex-primeiro-ministro, José Sócrates, responder perante a nova comissão de inquérito ao BPN, que hoje tomou posse no Parlamento.”
Fonte

Acho bem.
Sócrates continua a reinar. Ao ponto de, sozinho, poder constituir o ponto alto, se não o único, da ordem de trabalhos de toda uma comissão.
Só para ver o nervosismo, a inveja e as humilhações que iria provocar nas hostes, assim como o alvoroço jornalístico, a sua vinda valeria a pena. Suspeito até que seria decretado feriado nacional para todo o Portugal o poder admirar. Ainda mais vindo de Paris.

Só que… “Nossa! Assim ele vos mata.”
‘Tou avisando.

Democracias desiguais

Lê-se no Der Spiegel (versão inglesa) que o pacto orçamental proposto pela Alemanha aos 27 Estados-Membros e recentemente assinado por 25 (com exceção do Reino Unido e da República Checa) carece, para ser aplicável na Alemanha, da aprovação de, pelo menos, dois terços dos membros do Bundesrat, a câmara alta da Alemanha, onde têm assento os representantes dos diversos Estados (Länder) e onde a CDU de Merkel não tem maioria. Acontece que, por exemplo, no Estado de Baden-Württemberg, governado por uma coligação de Sociais-Democratas (SPD) e Verdes, são exigidas contrapartidas em matéria fiscal para essa aprovação. Isto porque, dizem eles, a satisfação das exigências do Pacto exige-lhes uma aceleração da consolidação orçamental, impossível de concretizar no curtíssimo prazo previsto (como em todo o lado na Europa, as dívidas “locais” são elevadas). A coligação que dirige o referido Land exige, pois, liberdade tributária, nomeadamente para aumentar os impostos sobre os mais ricos. A política tributária é decidida a nível federal. Há, portanto, a probabilidade de o Pacto não passar na própria Alemanha, o que não é muito importante a nível nacional, dado que já existe na legislação alemã um travão à dívida. Mas, a nível europeu, haverá decerto grande impacto.

Perante isto, que mais não é do que a democracia a funcionar, mas que também prova que não estamos desligados uns dos outros, nós perguntamo-nos, olhando para o nosso caso, se não haverá algo de muito errado no funcionamento da Europa. Se não deveríamos nós ter também uma palavra a dizer antes de aceitarmos que nos matem a economia e nos “enxotem” e depois nos “roubem” os nossos melhores quadros. Se a democracia, na Alemanha, condiciona a política da chanceler que por lá é eleita, incluindo a sua política europeia, como aceitar o regime de ditadura sem apelo que é imposta por quem tem o poder do dinheiro a quem não tem sequer o direito de votar no ou na chefe do executivo alemão? Porque razão hão de os problemas do Estado de Baden-Württemberg ser mais importantes do que os da Lusitânia?

Álvaro ao ataque, queixando-se

Então foi assim:

O ministro Álvaro foi ao Parlamento para ser confrontado com a atribuição das verbas do QREN e, não tendo resposta para as acusações de diminuição de poderes e de falta de políticas económicas, passou ao ataque, um ataque algo bizarro, encheu o peito de instruções políticas, voltou-se para o Partido Socialista e acusou o seu líder de não ter mão na bancada. Em resumo, indireta e desajeitadamente, queixou-se, no fundo, como quem diz: “Ó Seguro, vê lá se controlas estes gajos, se não estou tramado!”

Ideia a reter: Seguro é amigo do Álvaro se souber impor-se aos deputados mais incómodos. Força, Seguro!

“Após uma discussão que oscilou entre a questão puramente política (quem manda nos fundos europeus? Santos Pereira ou o ministro das Finanças?), alimentada sobretudo pelo PS, e explicações técnicas sobre a aplicação dos fundos europeus, o ministro decidiu questionar a própria tutela dos socialistas. E fê-lo na intervenção de encerramento. Acusou o PS de criar “números políticos” e “cortinas de fumo” com a gestão dos fundos comunitários e perguntou, dirigindo-se a Seguro: “Será que o PS não deveria estar preocupado com um líder que não tem peso político para disciplinar a sua bancada?”

Fonte: Público

 

Uma explicação do outro mundo

Há três semanas, o PSD recusou na Assembleia uma comissão de inquérito ao BPN, proposta pelo Bloco e apoiada pelos restantes partidos da oposição (o CDS absteve-se). O PS reagiu à recusa e, usando de um direito potestativo, anunciou que apresentaria o seu próprio requerimento, pensando fazê-lo hoje mesmo, para que a dita comissão comece a trabalhar rapidamente, centrada principalmente na reprivatização recente do banco, mas não excluindo a sua nacionalização (apesar de já ter sido objeto de uma comissão de inquérito durante a legislatura anterior) e posterior gestão. O PSD, vendo aqui uma oportunidade para chicana política e um meio de distração dos lamentáveis episódios governativos, reviu subitamente a sua posição, recuou e resolveu apresentar o seu próprio requerimento, antecipando-se ao PS.

Não vou tecer considerações sobre a utilidade desta comissão e o foco que cada partido pretende que ela tenha. A história mais recente da venda do banco ao BIC é, porém, muito pouco transparente e precisa de ser esclarecida. Não posso é deixar de assinalar a extraordinária teoria de Luís Campos Ferreira, possante deputado do PSD, exposta, em nome pessoal, num debate ontem na RTP Informação. Segundo ele, a razão pela qual o PS pediu a comissão de inquérito ao BPN é interna, ou seja, a fação Seguro quer encostar à parede os “socráticos” confrontando-os com o processo de nacionalização do BPN (para acreditar, ouvindo a teoria e vendo o seu inventor a cores, ir aqui ao Grande Jornal de 4ª feira, parte 2, a partir do minuto 14 – estou com problemas técnicos em pôr aqui o vídeo).

Comprova-se: no PSD há uma concentração de cérebros por metro quadrado 50 vezes superior à de Silicon Valley.

Do sentido de oportunidade de Seguro

Enquanto assistimos a sucessivos episódios que demonstram a total inépcia, a técnica da mentira e o embuste de quem nos governa e aos golpes baixos de Cavaco ao estilo agressivo e trapaceiro do Correio da Manhã, assim desviando as atenções das suas próprias misérias e das do governo na tentativa de as centrar no eterno Sócrates, Seguro, o líder da oposição, anda afastado na província em mais um roteiro, desta vez dedicado ao Serviço Nacional de Saúde, um tema que, embora importante, eternamente importante, está muito longe de estar no olho do furacão neste momento. Já não é a primeira vez que Seguro anda a “tratar de assuntos” à margem das grandes polémicas. Já não é a primeira vez que Seguro perde oportunidades políticas. Que outros aproveitam.

Como era de prever, não tardaria muito a que os Relvas e Coelhos impreparados que ganharam as eleições com base em mentiras começassem a perder o Norte, tendo, mesmo assim, demorado alguns meses. Valeu-lhes que uma Troika lhes definiu um programa de cortes e vendas. Não fossem os cortes e as vendas da Troika e não teriam outra política, exceção feita à que consiste em colocar os amigos e apoiantes em cargos importantes do Estado.
Ora, se algum efeito positivo as manobras de Cavaco poderão ter será o de agitar as águas no PS, demasiado espartilhado pelo timorato Seguro (e não estou a falar do Memorando). Seguro não está à altura do combate. Seguro não assume e muito menos defende as políticas do governo anterior, nas quais se centra o ímpeto demolidor do governo atual. Seguro transforma o PS num alvo facílimo para a maioria, que se sente perfeitamente à vontade para mandar para os jornais e para o ar todas as falsidades de que se lembre. Seguro é incapaz de as desmontar, Seguro está pronto a aceitá-las como verdades, Seguro não gostava de Sócrates. As sondagens não mostram Seguro a capitalizar grande coisa.

É absolutamente intolerável que, perante as mentiras de Nuno Crato sobre a Parque Escolar, perante o desfecho do episódio da Lusoponte, as trapalhadas com os dividendos da EDP, os salários da TAP e CGD, e perante os ataques velhacos de Cavaco, Seguro entregue a oposição ao Bloco de Esquerda e não diga nada ou diga palavras de circunstância, como as de não compreender a utilidade das acusações de Cavaco. Não compreende e o problema está aí: devia compreender, porque são extremamente úteis para alimentar o ódio a Sócrates que é o único combustível desta direita.

Houve quem dissesse que o caso “Prefácio do ajuste de contas” contribuiu para unir o partido socialista. Aparentemente, numa primeira fase, sim. Mas só aparentemente. Vistas bem as coisas, a atual direção saiu muito pouco a terreiro para corroborar e apoiar os que não demoraram a repor a verdade e a decência. Positivo seria, pois, que o caso servisse para agitar as águas a sério lá no Rato no sentido de dar uma liderança capaz ao partido.

É impossível Seguro unir o partido e a razão é muito simples: os seus melhores elementos, que estão bem cientes do que valem, não se identificam com ele. Nem poderiam: o desnível é demasiado. Do lado de Sócrates estavam e estão os melhores.

Sorte a dele que a Constituição diz umas coisas e não diz outras

Cavaco vem invocar hoje o artigo 201.º da Constituição para justificar algumas das declarações/revelações/acusações do seu prefácio. Ora, o artigo 201.º já existia na Constituição em 2011. Invocá-lo, retrospetivamente, em 2012, um ano depois de não o ter usado como fundamento para a demissão do governo em 2011 é de uma estupidez a toda a prova (apesar de sabermos a razão porque não o usou, se recordarmos a impressão deixada pela violência e a intenção dos seus discursos de vitória e de tomada de posse). Tanto mais que considerou a atitude do governo como a mais grave deslealdade dos últimos 30 anos. O homem é burro e tem conselheiros igualmente burros.
Já para o caso de um presidente que conspira com a comunicação social para descredibilizar um governo e dar a vitória nas eleições a uma amiga sua, ou que apela a manifestações de rua para dificultar a ação de um governo, será a Constituição omissa?
Pelos vistos, é. Trata-se de casos não previstos. Pensou-se não ser possível. Ingenuidade do legislador.
Por isso, esta criatura hipócrita e amoral sente-se perfeitamente à vontade para escrever o que lhe apetece, incluindo falsidades e idiotices, escamoteando todo o seu comportamento lamentavelmente inconstitucionável. E com o alvo da sua raiva longe e/mas com demasiado nível para responder a idiotas (como ele bem sabe e aproveita).

Esteve um lindo sábado

1. Aguardo com impaciência o aparecimento de Mário Crespo na SIC-N com uma nova T-shirt. É que acaba de ser corrido do Expresso, tendo o jornal publicado hoje a sua última crónica (sim, escrevia lá), da qual consta o parágrafo que deu origem à rescisão. Perdão, censura. (*Adenda: Nele, Crespo sai em defesa ardente de Luis Marinho e acusa o jornal de apenas publicar a resposta deste a Miguel Sousa Tavares na página das cartas à redação, sugerindo que o jornal favorece a “maledicência e a arruaça”). Uma nota explicativa da Direção, na página 17, e… adeus.

2. O Correio da Manhã, não aguentando as saudades da sua galinha dos ovos de ouro, assentou arraiais em Paris e anda pelas ruas da cidade atrás de Sócrates a escutar-lhe as conversas. Talvez até tenha contratado um detetive. Tudo indica que os métodos do News of the World vêm já a seguir.

Não deixa de ser uma qualidade, mas Sócrates continua um romântico ingénuo. Man, assim que sais de casa, ’tás a ver?!

3. É impressão minha ou este Governo está a aproximar-se a passos largos da fase Santana Lopes? Quem devia ser político não tem manifestamente preparação e quem é técnico e não político não pode ser político porque não sabe. E assim começa a ser impossível acompanhar as trapalhadas – Lusoponte, exceções (nos cortes salariais) que afinal são adaptações (Relvas), os fundos do QREN, as preces a São Pedro, os lares de enlatados para velhinhos, etc. Help. E o Seguro é tudo o que temos como alternativa.

Uma conclusão impressionista de alguém inexpressivo

No editorial de hoje do DN, João Marcelino lá vai fazendo uma súmula daquilo a que a qualquer pessoa atenta ocorreria dizer acerca do caso do momento – o espírito vingativo de Cavaco e uma lista de razões óbvias ou abstrusas para mais uma argolada presidencial – até que, cansado de ser sensato e temendo ser acusado de socratista, ou de desleal (adjetivo da moda) ao patrão, avança para a seguinte afirmação, com a qual remata o tema:
Sobra o País que, talvez agoniado, pensa seguramente que Sócrates seria muito bem capaz de fazer aquilo que Cavaco ontem fez. Ou seja, estão bem um para o outro.”

Extraordinária conclusão. João Marcelino acha que o país (metonímia para ele próprio) “seguramente” vê Sócrates, em funções, a escrever um prefácio de um livro seu a acusar diretamente Cavaco, ou outro político qualquer com quem se tenha relacionado institucionalmente, de deslealdade e outras ofensas políticas extremas. Chatice que, podendo-o fazer, não o esteja a fazer, não é?
Pois, a quem interessar possa, este “País” do Marcelino que sou eu está muito longe de achar tal coisa e já viu o suficiente para saber do que são capazes uns e outros no nosso panorama político. De tudo o que se constata nuns e não é investigado, sendo, pelo contrário, disfarçado, abafado ou desvalorizado, e do nada que se prova nos outros, por mais aturadas e dispendiosas as investigações, nada esse que, no entanto, é constantemente servido no altar sacrificial da imprensa com condimentos os mais variados e agressivos, de tal forma que a narrativa já prossegue autónoma dos factos e dos protagonistas, que não deixam de ser pessoas e estar vivas.

A paciência e cortesia públicas de que Sócrates sempre deu mostras no que toca à figura do PR não têm qualquer paralelo com a falta de contenção e de vergonha de Cavaco, que conspirou, e de que maneira, a partir de Belém, com a colaboração de um jornal, lançando suspeitas de espionagem sobre o alvo da sua raiva. Sabemos que não esteve nem está só nestes e noutros métodos semelhantes de abate de adversários. Outras personalidades da direita que nos governam os utilizarem e utilizam sem hesitar. Os comentadores políticos idem. Ainda ontem, o capcioso Pedro Lomba se lembrou de invocar, na SICN, o Freeport e as escutas do Face Oculta/”a tentativa de controlo da comunicação social” por Sócrates, também chamado mais pomposamente «o atentado contra o Estado de direito», para tentar justificar o desagrado crescente de Cavaco com o ex-primeiro-ministro e um possível desejo (para Lomba compreensível) de o demitir (!). Pobre do Sócrates. Perante estes abutres da direita, não passou de um anjinho. Os grupos de comunicação social em Portugal pertencem todos, sem exceção, a figuras da direita – Balsemão, Joaquim Oliveira, Belmiro de Azevedo… Nem se percebe como ainda temos notícia de certas coisas que se passam. Vale-nos a Rede e as traições/rivalidades internas que, desde tempos imemoriais, muito põem a descoberto. Mas enfim, nada disto pode ver nem dizer Marcelino. Marcelino acha que colocando Sócrates ao nível de Cavaco pode ir dormir descansado, cumprida, segundo ele, a regra da imparcialidade, ainda que com uma afirmação sem nexo.

Marcelino, que por uma reviravolta alinha agora com o atual governo, é, na televisão, um comentador inexpressivo e hirto. Não ri nem chora, não se entusiasma nem se indigna, não gesticula, não se mexe na cadeira, não ajeita o cabelo. Ao menos que se deixasse de impressões e de conclusões insustentadas.

Que fazem um presidente calculista e um governo de incompetentes?

Ou um presidente pulha (destaco o caso das escutas ou o discurso da tomada de posse) a armar-se em engraçadinho e um governo de mentirosos (a lista de mentiras já vai demasiado longa desde a queda do anterior governo para caber aqui)?

O que fazem, pois, estes laranjas sem qualidade, sobretudo quando cada vez é mais difícil disfarçar o rancor e a vergonha de si próprio, um, e a impreparação e a incompetência, outros? Evidentemente lançam calúnias sobre terceiros e tudo fazem para não deixar morrer a imagem do “diabo” perante a opinião pública. O governo, está visto, conta com o Correio da Manhã e o Cavaco, para dissipar o halo malcheiroso que ele próprio criou em torno da sua figura, antecipa a publicação de uma espécie de memórias, totalmente a despropósito, disparando sobre o anterior governo.

Leia-se o que diz o ainda presidente, com grande cinismo, sobre o ano de 2010: “Logo a seguir às férias do verão, o Primeiro-Ministro [Sócrates] começou a informar-me, com algum detalhe, sobre as intenções do Governo e sobre as dificuldades que poderiam surgir nas negociações com os partidos da oposição, em particular com o PSD. Foi-me assim possível, durante cerca de dois meses, acompanhar de perto as questões políticas e financeiras relacionadas com a aprovação do Orçamento, desenvolver contactos com dirigentes partidários, apoiar as negociações e favorecer os entendimentos”, lembra.

Assim, diz, “conseguiu evitar-se a ocorrência de uma crise política que, a precipitar-se naquela altura, seria particularmente grave, uma vez que, nos termos da Constituição, me encontrava impedido de dissolver a Assembleia da República e convocar novas eleições”.
(in Público)

Evidentemente, não somos parvos. Aqui está um engraçadinho que não faz rir. Cavaco o conciliador, o genuíno defensor do interesse do país é coisa que não existe. As eleições para a Presidência eram em Janeiro. Cavaco tudo fez para evitar uma crise política ANTES por um único motivo: queria ser reeleito. Depois de reeleito, tratou de mandar abaixo o Governo e sem perder tempo. E a crise política já era oportuníssima. Como se viu e vê. Este presidente causa repulsa.

O maior resgate bancário de sempre

«A Grécia É Uma Fachada para Esconder o Maior Resgate Bancário de Sempre

FEVEREIRO 27, 2012 – 1:33AM | POR NICK DEARDEN (original inglês aqui. A tradução não é minha)

Os ministros da zona euro que se encontraram em Bruxelas na noite passada para decidir o futuro da Grécia deviam ter assistido à oportuna conferência da Universidade de Londres sobre aprender lições com a América Latina. A lição principal é de uma importância premente: as políticas económicas impingidas à América Latina no início dos anos 1980 foram uma excelente forma de ajudar os bancos dos EUA a recuperar da crise, mas uma maneira terrível de resolver a crise da dívida da América Latina, criando em vez disso duas décadas de mais dívida, pobreza e desigualdade. Sem qualquer dúvida, foi precisamente este o objetivo dessas políticas — mudar o fardo da crise financeira do sistema financeiro para as nações em desenvolvimento. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial emprestaram dinheiro a dezenas de países que de outra forma teriam entrado em incumprimento, por forma a manter os reembolsos da dívida a fluir de volta para os bancos do mundo rico que tinham dado origem à crise através das suas estratégias temerárias. De seguida, esses países, que não beneficiaram de todo destes fundos “de resgate”, foram compelidos a implementar políticas de ajustamento estrutural que levaram à privatização da indústria, à libertação de dinheiro do controlo governamental e à abertura dos mercados à competição selvagem com empresas norte-americanas e europeias convenientemente subsidiadas. A pobreza multiplicou-se, a desigualdade proliferou e a finança foi proclamada rainha. A mesma lógica jaz mal disfarçada por detrás do “resgate” à Grécia que os ministros das finanças europeus estão hoje a concertar. Não há sequer uma tentativa de fingir que o povo grego vai beneficiar com estes fundos. É reconhecido que as medidas adicionais de austeridade que a Grécia tem que implementar para receber estes fundos, a que os sindicatos gregos apelidam de “atrozes”, vão causar estagnação e desemprego prejudiciais ao reembolso da dívida. Em 2020 a dívida da Grécia vai ainda representar uns insustentáveis 120% do PIB do país — e isso é se as coisas correrem mesmo muito bem.
O golpe adicional nas pensões de mais 13% e do salário mínimo em 22% e a grande redução da despesa com a concomitante perda de empregos no setor público, apenas pode ter como resultado uma depressão mais longa e profunda. Até as agências de rating já reconheceram a futilidade de forçar os países a uma estagnação contínua. Portanto, qual é o objetivo do “resgate”? Manter dinheiro a entrar no sistema financeiro europeu. De facto, a provável criação de uma conta
escrow ou de caução significará que o povo grego vai ser completamente contornado — o dinheiro vai ser emprestado por instituições europeias, sendo no fundo dinheiro dos contribuintes — e entrar nos cofres dos bancos europeus. É um resgate bancário numa escala gigantesca.
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