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A nossa saúde e a da indústria farmacêutica

Segundo um antigo laureado com o prémio Nobel de Medicina, Richard Roberts, a investigação de drogas pára onde começa a doença crónica. Não há investimento em drogas que curem definitivamente, porque não são rentáveis. É possível. Haverá algo de verdade no que diz.

Leia aqui a entrevista (em espanhol)

No entanto, consciente de que tanto os investigadores como os dirigentes dos grandes laboratórios farmacêuticos, assim como os membros das suas famílias, também podem tornar-se diabéticos ou cancerosos ou tuberculosos, etc., tendo por isso interesse em ser curados, como levar a sério 100% do que diz o doutor Roberts?

Em defesa da lentidão alemã (artigo de opinião)

Sabemos que opiniões não faltam sobre a crise europeia. Esta é mais uma, a meu ver bastante lúcida. De Fareed Zakaria (CNN) (para quem quiser ler em inglês).

Um excerto:

Many argue that Germany should come up with a dramatic solution to the debt problem. Chancellor Angela Merkel is not leading, critics charge. I disagree. Germany has a good reason for being sluggish. It is trying to force countries like Greece to enact meaningful reforms.

The German concern is that if they come up with some dramatic solution to the euro crisis, such as guaranteeing everybody’s debt, financial panic would end but countries like Greece and Portugal would feel no pressure to undertake necessary reforms.

Ler artigo

Tenho, no entanto, a ressalvar que, embora eu concorde que seria sempre necessário em Portugal grande rigor orçamental e eliminação de despesas inúteis no sector público, processo começado pelo governo anterior, mais tarde interrompido pelo pânico da crise do subprime, e depois retomado com os sucessivos PEC até ao chumbo do quarto pela oposição (pelos vistos, para que tudo fosse agravado e rapidamente), o facto de termos o salário mínimo nacional mais baixo da zona euro e de haver uma tentativa séria de qualificar o tecido produtivo do país e de reformar a administração pública (pelo anterior governo) deveriam tornar as condições do empréstimo mais razoáveis. Prazos mais dilatados que impedissem a recessão, a par de um controlo cerrado do corte das despesas. Já quanto às privatizações das empresas públicas estratégicas que não dão qualquer prejuízo, a matéria devia ser discutível.

A meio do artigo refere-se o papel do BCE. E essa questão é igualmente determinante.

E porque será, A. J. Seguro?

Eu tenho de liderar um combate em nome do PS contra o Governo – e espero que os deputados do PS estejam comigo. À vezes vejo com preocupação camaradas mais preocupados em ver o que eu faço ou digo do que em combater o Governo”, declarou.”

Fonte

Porque será que há camaradas preocupados com isso que dizes?
Não será porque o que dizes e fazes não combate este governo? Ou porque mais do que aquilo que dizes e fazes, os camaradas estão talvez preocupados com o que não dizes nem fazes, mas devias dizer e fazer, como líder?

Ontem, por exemplo, ouvi num canal de televisão que consideras que todas as consultas – cá e no estrangeiro – que recentemente te têm ocupado foram contributos muito úteis para uma tomada de posição sobre o orçamento (!). Com isto, penso que sim, que deves estar preocupado. Mas não é com os camaradas, é antes com o teu futuro.

Lá como cá…

A ânsia de «ir ao pote» justifica todas as piruetas. Aquela oposição grega de direita, que há mais de um ano berra contra as sucessivas medidas de austeridade, mal vê uma hipótese de poder, dá uma volta de 180 graus no discurso.

Chegámos aqui com a política do governo (socialista), o novo acordo para a continuação da ajuda à Grécia é inevitável e é preciso garanti-lo”, declarou aos jornalistas Samaras, que até agora se tem oposto às medidas de austeridade adoptadas na Grécia e a qualquer ideia de um governo de união nacional. Apelo à formação de um governo temporário de transição que tem como missão exclusiva a organização de eleições (legislativas antecipadas) e a aprovação do acordo da UE”, acrescentou Samaras, citado pela Lusa.

O acordo sobre a nova ajuda à Grécia “não deve ficar pendente” e a sexta prestação do empréstimo de 110 mil milhões de euros concedido pela UE e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) “deve ser entregue o mais rapidamente possível para que as eleições decorram em condições normais“, afirmou.”

Fonte

Neste caso, imagino as pressões externas, dos EUA à Alemanha e à Grã-Bretanha, sobre uns e sobre outros, de uma intensidade garantidamente equivalente às veladas ameaças de morte sobre dirigentes da América latina que, há uns anos, não respeitavam os cânones nem os interesses da alta finança. Tiveram um triste fim. Como no Equador: http://www.youtube.com/watch?v=G9SaiKfKC8c&feature=player_embedded

Agora os tempos mudaram e, afinal, isto é a Europa, não é?
Não escondo uma certa revolta. Refiro-me também ao abandono do referendo, um expediente dilatório que, penso, não vai impedir que as coisas acabem mal. Até quando vai o povo grego aceitar ser transformado em Sísifo? Eles conhecem bem demais a sua mitologia.

O Público errou

Segundo se depreende da notícia de capa do jornal Público de hoje, José Sócrates deveria estar proibido de falar com os seus amigos sobre a situação política do país. Também deveria estar proibido de conversar com políticos “tout court”. Qualquer conversa é imediatamente interpretada como pressão ou, no caso de políticos europeus, como minagem do trabalho do actual executivo.
Ora, eu, que não contacto de forma alguma com José Sócrates, se entender, e entendo, que o próximo orçamento deve merecer o voto contra do PS, estarei, levando mais longe a linha de raciocínio da jornalista, sob a influência da “pressão” de Sócrates. O que é ridículo.
Mais: Seguro que, segundo refere a jornalista, jantou com Sócrates (nada indica que a tal tenha sido obrigado), terá violado com isso alguma lei deontológica ao não ter falado apenas da diferença de clima entre Paris e Lisboa. O mesmo vale para hipotéticas conversas telefónicas com membros do anterior governo. A conversa com Seguro, é claro, levou de imediato a jornalista a afirmar que Seguro “resiste” ao hipotético desejo de Sócrates. O Público devia evitar cair no ridículo, se não mesmo aceitar servir de veículo a pressões eventualmente “relvistas” (ou “seguristas”?), essas sim evidentes com a publicação de tal título, sobre o sentido de voto da bancada do PS.
É pena que não evite. Há no mesmo jornal, por exemplo, uma excelente reportagem sobre o trabalho de um assistente social num bairro pobre do Porto, de cuja leitura é impossível não concluir da importância da educação, da cultura e do acesso ao conhecimento na transformação para melhor das camadas mais desprovidas e iletradas da nossa sociedade. Com vantagens para todos, até do ponto de vista económico. Daqui a alguns anos se perceberá como cortar cegamente no ensino público, nomeadamente na educação de adultos, e em certas ajudas sociais se paga muito mais caro do que os milhares de euros que agora se pouparão.

Gente feliz, sem lágrimas

Arrastados na enxurrada de medidas que visam tornar-nos mais pobres, é sempre reconfortante constatar, quando se levanta a cabeça, que alguém anda contente. Assim:

Paulo Portas – Realizado o sonho da sua vida, ser ministro, é vê-lo a viajar por todo o lado numa actividade que, se não é, parece totalmente autónoma do governo e cujos resultados práticos não se vislumbram. Mas anda feliz.

Passos Coelho – Queria tanto ser primeiro-ministro e dar cabo do Estado e dos serviços públicos, tendo para isso construído uma narrativa de mentiras como nunca visto, que hoje deve sentir-se muito próximo de realizado. Qualquer outra solução para a crise que não o desmantelamento dos serviços, a oferta, em fatias, do sector público ao privado e a redução dos salários deixá-lo-ia altamente frustrado. Por isso, a bem da sua felicidade, esperemos que a crise se mantenha, ou mesmo que se agrave. Ele bem segreda à Merkel.

Cavaco Silva – Feliz por ter corrido com Sócrates que, em 2009, ousou ganhar as eleições à sua amiga Manuela. Feliz por ter sido reeleito. Feliz por ter os da sua cor no governo e feliz por ver os seus amigos do BPN a safarem-se com a máxima serenidade e a conivência da imprensa.

Seguro – O homem anda feliz porque o seu actual estatuto lhe permite reunir com imensa gente – desde a CIP às organizações sindicais, o PR e o PM e, no estrangeiro, com Zapatero, Delors, Hollande, Barroso, PE, enfim um privilégio! De volta à Assembleia, enche de vez em quando o peito, afina a goela e mostra-se indignado, mas, cá para mim, nem sabe bem porquê.

Somos ricos, não sabíamos e possivelmente é melhor nem sabermos

A avaliar pelas declarações sempre surpreendentes do ministro da Economia, alguém descobriu que temos ferro, lítio, ouro e gás natural a rodos, prontinhos a serem explorados por multinacionais estrangeiras de todo o planeta, desde a Austrália ao Canadá. Um dos contratos vai já ser assinado dentro de dias. Poderíamos saber as condições de exploração?

Por outro lado, como conciliar a exploração mineira e de gás com o turismo para a terceira idade estrangeira?

Cinema – 5 estrelas é demais!

Segundo li, o realizador João Canijo reagiu com violência física contra um crítico do Expresso que ousou atribuir apenas duas estrelas ao seu filme “Sangue do meu sangue”. Quer isto dizer que se tem em muito alta conta. Terá razões para isso?
Vi o filme na semana passada. Com tanta crítica laudatória, as expectativas eram altas, mas o que vi não me suscitou tanto entusiasmo como a algumas pessoas. Explico:
O ritmo é, em geral, lento (daí as quase três horas) – longos percursos das personagens de e para casa, à boa maneira dos filmes insuportáveis portugueses, cenas demasiado demoradas. Para percebermos que uma casa é minúscula não é necessário filmar os seus interiores repetida e longamente. As conversas prolongadas às refeições, a dos carapaus por exemplo, que até podem ser realistas, não acrescentam muito à trama.
Duas histórias correm em simultâneo (por vezes os seus protagonistas partilham o écran em diálogos distintos), emanando de e convergindo na casa de uma família pobre dos subúrbios da capital, onde, através da chefe de família, encarnada por Rita Blanco, ganham sentido os laços de sangue que dão o título ao filme. Existe uma solidariedade familiar, embora em facções.
De um lado, o bas-fonds do narcotráfico, história violenta, que culmina na cena final extrema de humilhação e sangue, para muita gente, eventualmente, a cena mais marcante do filme. Palavrões em barda, ao bom estilo “fuck” e “fucking” das centenas de filmes hollywoodianos que já vimos sobre essa temática, desta vez em língua portuguesa. Os actores vão bem, com destaque para o chefe do gangue. Mas só isto não faz um bom filme. O tema é demasiado batido.
Do outro lado, uma história amorosa que parece prometer grande realismo e também alguma originalidade, mas que depois descamba, com grande prejuízo, para um enredo telenovelesco, risível e bastante inverosímil dando, quanto a mim, cabo do filme. Os diálogos são maus e o pior deles todos é o da conversa de rompimento dos amantes, candidato ao pior diálogo da história do cinema. Agravado pelo péssimo desempenho do actor que faz de médico. Já Rita Blanco é sem dúvida uma boa actriz e domina o filme. Quase arrisco dizer que os diálogos que protagoniza são provavelmente de sua autoria, atendendo à qualidade dos restantes.
Em conclusão, o que nos fará dizer que ganhámos algo ao ver este filme? Muito pouco. Que nos subúrbios há muita crueldade e também bons sentimentos, muitas vezes coexistindo na mesma pessoa? Que um criminoso pode ser um bom pai? Que o realizador estudou bem o meio? Sim, tudo indica que sim, e o aspecto para mim mais bem conseguido é o da relação tia-sobrinho. Mas falta contexto, falta história àquela gente. Falta a diferença que faz um bom filme.
Parece-me que, entre alguns dos nossos críticos (no Público, por exemplo, os três críticos atribuem ao filme 5, 5 e 4 estrelas), há uma tendência para valorizar demasiado determinados filmes portugueses só por serem portugueses e não serem maus. Não é assim que vamos lá. Objectividade precisa-se. Cinco estrelas, meus deus?

Que vai Passos fazer à cimeira?

O primeiro-ministro avisou hoje que seria “imprudente aumentar a carga fiscal” sobre o sector privado admitindo que os patrões estão pressionados a cortar nos salários para aumentar a competitividade das empresas.

Sabemos que a racionalização de custos no sector privado significará em muitos casos um aumento do desemprego, a redução dos salários ou de outras compensações como bónus, benefícios e prémios de desempenho. Sabemos que significará em muitos casos a redução dos lucros e portanto dos lucros distribuídos. É o que farão os nossos competidores internacionais. Teremos de fazer o mesmo se quisermos ultrapassar a crise económica e lançar as bases do crescimento futuro.”

Fonte

Pergunto-me se estas (e outras) declarações, se lá chegarem, assim como o empenho deste governo nas suas novas políticas, se dele houver notícia, não causarão alguma perplexidade na União Europeia. Ou seja, para quê procurarem-se soluções europeias para a crise do euro e para “aliviar” a consequente carga brutal de austeridade que pesa sobre as populações de alguns países, entre os quais Portugal, se há palhaços destes a comprazerem-se e a promoverem convictamente o empobrecimento generalizado do país para fazer face aos “nossos competidores internacionais”? Aos nossos competidores internacionais!? Estará a referir-se à China ou à Índia, ou apenas à Roménia e à Bulgária?
Realmente, faltam-me as palavras perante tal frieza.
Corre-se até o risco de a cimeira ser decepcionante para Passos e Gaspar, agora que tudo estava a correr tão de acordo com o plano!
Mas comprova-se, se dúvidas ainda houvesse: Estes dois defendem o que, para políticos, vá lá, normais, seria absolutamente de combater.
Já desde Abril que Angela Merkel e outros se devem debater com esta dúvida: “Ils sont fous, ces portugais?”

Sim, desculpas para quê?

Apesar das desculpas com desvios, que darão a entender que, quase exclusivamente por isso (sendo o resto alegadamente “prevenção”), estas medidas violentas, recessivas e de empobrecimento da população são absolutamente indispensáveis – elas ou a bancarrota, dizem – convém não esquecer em momento algum que estes governantes, antes de o serem, e os seus apoiantes sempre se mostraram fervorosos defensores de medidas deste género como solução para o país, tendo até achado conveniente a vinda da Troika. Entendiam que os trabalhadores ganhavam demais, no privado e no público, que gastavam demais, que havia contratos escritos a mais. Estas medidas apelidam-nas, às tantas, de reformas estruturais, aplicando-as agora mais facilmente sob o chapéu-de-chuva do memorando e da crise.
Por isso, dispensamos totalmente o ar compungido com que Passos e Gaspar se apresentam, um com óculos, outro com olheiras, aos portugueses.
Não alardeavam que o peso do Estado na economia e do funcionalismo público era excessivo? Pois agora mais não estão do que a tratar desse aspecto do seu programa, degradando as condições de trabalho e baixando as remunerações dos funcionários públicos, convidando muitos, sobretudo os mais qualificados, a saltar do barco. Tudo perfeito, portanto.
E não alardeavam que as empresas se viam constrangidas pelo peso das obrigações sociais e salariais, sendo essa a razão por que não eram competitivas? Pois esse problema está também a ser resolvido através da consequência colateral da redução dos salários públicos – a redução dos do privado também. Além do aumento do desemprego, um factor importante, que determina o preço das novas contratações.
Não venham, por favor, com ar dramático, anunciar aquilo que sempre desejaram e não tinham condições para pôr em prática!
É que, quando se aplicam as políticas concebidas para alcançar os resultados desejados, para quê lamentá-lo e arranjar desculpas, dando a entender que, se pudessem, se tivessem margem, se não tivesse havido desvios, nunca fariam tal coisa? Fariam e com muito gosto.
Acaba-se com os serviços públicos degradando-os, acaba-se com os funcionários públicos desmotivando-os, acaba-se com as reivindicações privatizando e transforma-se o país numa economia competitiva, à luz das suas teorias, precarizando e escravizando o trabalho. No fim, cantam o hino nacional com os empresários seus amigos.
Passos já declarou que não entende que deva pedir desculpa aos portugueses. Compreendemos.

O que falta e quem falta?

Segundo uma nova proposta legislativa da Comissão Europeia, pretende-se dinamizar a construção e a renovação de infra-estruturas transeuropeias – de transportes, energia e telecomunicações – para «interligar a Europa» e consolidar o mercado único. Trata-se de investimentos avultadíssimos nas chamadas “ligações em falta” e na modernização das existentes, que implicam uma forte participação de fundos europeus. Isto numa altura de crise económica e financeira generalizada na Europa. Os corredores definidos ligarão por exemplo, em termos genéricos, a fronteira russa (com a Finlândia) a Sines, Dublin ao Pireu, Estocolmo à Calábria. Não é bonito? As redes transeuropeias dão pelo menos um certo ar de território comum sem fronteiras, de comunicação e movimentos facilitados. Na prática, sabemos que não é bem assim, ou que não chega, mas, se as infra-estruturas nos aproximarem, será mais difícil regredir para os tempos das fronteiras fechadas.

A Comissão, aparentemente, está aqui a dar uma ajuda à dinamização da economia com o que não deixa de ser um grande investimento público (europeu), embora exigindo a participação do sector público nacional e do sector privado. A ver vamos se esta proposta “passa” no Conselho.

Neste contexto deve ser vista a adesão do nosso novo governo de aldrabões e distribuidores de areia à construção de novas linhas ferroviárias. Cedo piaram com recusas radicais e, mais cedo do que previam, engoliram em seco, tendo de recorrer à imaginação de um assessor qualquer para transformarem a alta velocidade em “alta prestação”.

Não posso deixar de sublinhar que já o nosso saudoso Sócrates (ai, não me batam! Ele era mesmo bom) insistia em dinamizar a economia por esta via (estas vias?), sobretudo em tempos de crise, em que não há gato pingado privado que invista um tuste em coisa nenhuma. Chamaram-lhe alucinado ou lunático ou simplesmente teimoso.
Para que tais investimentos fossem possíveis, era necessário, evidentemente, dar um abanão nas instituições europeias e concretamente nos comissários para facilitar os financiamentos. Tudo o que Sócrates estava decidido a fazer e fazia e que estes não ousariam nunca. Agora ainda menos, quando assumiram voluntariamente a posição de vassalos. Pelos vistos, decidiram eles próprios, lá na Comissão, abanar-se. Já não é mau. E se, com isso, fazem governantes como estes que agora temos fazer figuras de parvos, tanto melhor.

Quem morde o isco das sucessivas mentiras?

A catadupa de mentiras, antes, muito antes, e durante o processo eleitoral, que levou o actual governo ao poder e com que, já em funções, prossegue para sustentar a sua actuação não poderá continuar por muito mais tempo. A menos que dêem um golpe de Estado ainda mais clássico, que implique censura a jornalistas e televisões, vai-lhes ser difícil prolongar a farsa, esperando não serem desmascarados. E, mesmo assim, como tentam!
Tardiamente do ponto de vista político e a uma hora de pouca audiência, na sexta-feira à tarde, foi o ex-secretário de Estado das Finanças, Emanuel Santos, finalmente convidado pela RTP Informação para esclarecer o “buraco” de mais de 3000 milhões alegadamente da responsabilidade do anterior governo e com que o actual primeiro-ministro justificou as novas medidas de austeridade. Com legítima indignação, Emanuel Santos repõe a verdade.
Pouco tempo depois, o vídeo não só percorreu os blogues de esquerda como ficou disponível no YouTube. É que a Internet substitui-se rapidamente à “nobreza” do horário das televisões quando as coisas que lá se passam interessam. Apesar disso, entre as19h00 e as 22h00, o espaço das televisões está predominantemente reservado aos Joões Duques, Barretos, Gomes Ferreiras, Miras Amarais e Medinas da nossa praça, os quais são convidados a pronunciar-se mais em cima dos acontecimentos para deixarem uma primeira impressão na opinião pública. Técnicas.
Note-se a forma escandalosa e despudorada como Passos adiantou aos jornalistas que entretinham os telespectadores nos minutos que antecederam a sua comunicação ao país que haveria um novo desvio de 3000 milhões nas contas públicas. E a forma como os jornalistas caíram que nem patinhos. Engoliram o isco, o anzol e a cana! Nem esperaram para confirmar de que desvio se trataria. A insinuação em relação ao anterior governo começou de imediato, ainda nem o discurso tinha começado. A ideia ficou, evidentemente, a pairar sobre todo o discurso, tornando as violentas medidas “compreensíveis” e, mais uma vez, lançando o ónus e o descrédito sobre o governo anterior. Chegado o discurso, nem uma palavra sobre a Madeira. Zero. O principal responsável pelo agravamento da dívida e do défice, o mentiroso-mor e distinto militante do PSD, está, para este governo, completamente “limpo”. Ganhou as eleições e não se fala mais nisso, ou melhor, não se fala mais nele. De tal maneira que ninguém sabe de que modo essas dívidas astronómicas se vão repercutir nas contas e nos orçamentos!
Não sei até que ponto a revolta e os desmentidos posteriores de pessoas autorizadas têm efeitos esclarecedores na opinião pública sobre o calibre desta gente. Está à vista que há aqui uma guerra a travar. Enquanto puderem, vão usar esta estratégia. Quando começarem a não poder, reforçam o ataque passando à fase em que exigem o julgamento dos “responsáveis” pelo estado do país, sabendo nós a quem se referem. Essa fase parece já ter começado. E é perigosa. Mais uma razão para que houvesse uma liderança da oposição determinada e combativa da parte do principal partido. Por enquanto, não há.
Que a situação do país é péssima ninguém tem dúvidas. Que esta cambada chegou ao poder pela via do embuste e desprezando completamente o interesse do país, cada vez mais pessoas percebem. Desculparem-se eternamente com a situação herdada tem os dias contados. Devido à crise externa, o anterior governo viu-se obrigado a aumentar a dívida e o défice, que até 2008 estava a conseguir controlar. Quando começou a pressão sobre a dívida soberana começou a cortar a despesa, sempre com a resistência ou a oposição dos restantes partidos, PSD incluído e à cabeça. A precipitação do derrube do governo só agravou as coisas.
Seria melhor que parassem de mentir e que não varressem o Alberto João para debaixo de um tapete – persa – caro para nós e conveniente para ele. Já alguém ouviu do ministro Gaspar alguma coisa que se relacione com austeridade agravada para os madeirenses? Eu não.

Oposição precisa-se

E pronto, aí vamos nós a todo o pano para o calvário grego, para o abismo, para o reino de Hades.

Ontem, Passos justificou as medidas duríssimas do próximo orçamento, muito para além das exigidas pela Troika, mais uma vez com a descoberta de desvios enormes, da ordem dos 3000 M€, na execução orçamental. Aproveitou, evidentemente, a ocasião para lançar culpas difusas ao anterior governo. Como não concretizou, insinuou. O facto é que continua a não dizer que desvios são esses e a que se devem: à quebra das receitas fiscais? à integração da dívida oculta da Madeira? a quê? a quê exactamente? Note-se que, em todo o discurso, não se lhe ouviu uma única palavra sobre a querida ilha.
Ora, os portugueses têm o direito a saber exactamente a que desvios se refere o governo quando os invoca para aumentar a austeridade desta maneira. Caso contrário, teremos de concluir 1) ou que tudo não passa de uma agenda neoliberal que, à boleia da Troika e com grandes actores teatrais, visa desmantelar completamente o Estado, reduzir salários e entregar tudo aos privados, que agradecerão a mão-de-obra barata, ou 2) a Madeira tem aqui um peso não revelado, ou 3) as duas razões combinadas. Mas queremos saber!

Constato e lamento que, nos comentários que se seguiram à comunicação, o PS tenha mostrado que continua a passar ao lado de grandes oportunidades, optando por uma argumentação em novelo. Custará assim tanto ser incisivo e contundente?

Curtas – personagens contemporâneas que exigiriam alguém diferente de Seguro

Cavaco

“Cavaco Silva dedica apenas dois breves parágrafos da sua intervenção à situação portuguesa. Para dizer, basicamente, que o país honrará os seus compromissos, mas que para isso também é necessário que a União tome, também ela, as “decisões sistémicas” necessárias para estabilizar o euro, fortalecer os sistemas fi nanceiros e promover o crescimento.” (in Público)

Exactamente o que Sócrates dizia e que, à época, deixava Cavaco com o seu sorriso hidráulico suspenso… aparentando nunca ter ouvido falar da Europa lá em Boliqueime, enquanto engendrava o próximo golpe e a oposição, no Parlamento, se divertia a chumbar tudo o que significasse redução de despesa que não fosse despedimentos.

Paulo Portas

Diz o Público que: “Antes de chamar “tempestade perfeita”, expressão outrora utilizada por José Sócrates, à “confluência dos problemas estruturais [portugueses] com as actuais crises das dívidas soberanas na zona euro”, Portas, à saída de um encontro com o seu homólogo britânico, William Hague, confi rmou que o chumbo, pelo Parlamento eslovaco, do alargamento do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), “é mais uma dificuldade para um país [Portugal] que já tem imensas dificuldades pela frente”, garantindo, contudo, que esta “não é insuperável”. Portas lembrou que o panorama nacional se deve a uma “situação típica de gastar hoje, usar amanhã e pagar um dia”. Apesar da ironia, o ministro dos Negócios Estrangeiros fez questão de sublinhar que a “realidade portuguesa é diferente” da dos outros países benefi ciários do resgate financeiro, dando como exemplo o facto de “o programa que está a ser seguido usufruir de amplo apoio no Parlamento”.

Soundbytes habituais. Desta vez, do exercício resultou esta espécie de slogan publicitário: “Gastar hoje, usar amanhã e pagar um dia”. Missão soundbytiana do dia cumprida, portanto. E não é que lhe assenta na perfeição? É que me ocorrem de imediato os submarinos e a Madeira, ah, e os submarinos!
“Amplo apoio no Parlamento” – Ah, pois.

Gaspar e Passos, Lda.

“O Governo vai deixar cair a redução da Taxa Social Única (TSU), que não vai constar da proposta de Orçamento do Estado para 2012. Apesar de o relatório das Grandes Opções do Plano (GOP) referir a possibilidade de se avançar com uma redução faseada da taxa, o Diário Económico sabe que a medida acabou por ser descartada numa reunião entre membros do Executivo e da ‘troika’.”Fonte

Palavras para quê? Lembram-se dos debates com Sócrates para as eleições legislativas? A descida da TSU era tão-só a pedra filosofal.

Lomba

Que tem para nos dizer, no Público, este “inconcebível” mas não “inimitável” cronista? “Eu não sei se há aqui ou não mais do que fumo. E bem sei que não se pode responsabilizar ex-governantes por gerirem de forma danosa contra o interesse do Estado e o erário público. Mas enquanto o antigo secretário de Estado das Obras Públicas, o inimitável Paulo Campos, o homem do Aeroporto de Beja, se passeia por aí com a sua conhecida displicência, seria bom que tudo isto fosse muito bem escrutinado e investigado, desde logo na sede própria que é o Parlamento, visto que não é porque o homem saiu do governo que não tem de prestar contas sobre a forma como negociou a revisão das concessões de auto-estradas. Esta gente inconcebível andou a brincar com o nosso dinheiro. E assim se faliu um país.”

Mais um que, além de apelar a atiradores furtivos, gostaria de, na falta deles, ver todo o governo anterior, e só ele, na prisão (porque o conceito de “gente inconcebível” obviamente não inclui nem Cavaco, nem Ferreira Leite, nem Oliveira Costa, nem sequer Santana ou Barroso) e arranja uns rodriguinhos pseudo-irónicos para passar por pessoa decente.
A gente desta laia tenho a dizer o seguinte: o que dizem de meter na prisão toda a oposição que, sendo o governo minoritário, tudo fez para boicotar certas medidas de contenção de gastos de que são exemplos flagrantes o congelamento das transferências para a Madeira ou o estatuto da carreira docente, ou mesmo o encerramento de escolas e maternidades, além do chumbo do PEC 4? A responsabilização levar-nos-ia longe. Tão longe que fariam melhor em estar calados. Se fossem decentes.

Da próxima vez, qual será o órgão ameaçado?

A primeira-ministra da Eslováquia revelou esta terça-feira que Pedro Passos Coelho lhe telefonou para lhe dizer que o impasse em Bratislava lhe estava a provocar “um ataque de coração”, noticia o Financial Times no seu site na Internet.

Fonte

Depois do estômago, que teria levado um murro, agora é o coração, que ameaça não resistir à não aprovação do reforço do FEEF. Acompanharemos atentamente a evolução do quadro clínico…

Mas não temos pena. A via foi escolhida deliberadamente.

Elogio de PSP (II)

Não sou tia, nem prima, nem filha, nem mãe, nem conhecida deste homem, mas, mais uma vez, aqui lhe rendo homenagem e lhe deixo o meu elogio, dando a ouvir a entrevista que deu hoje à Antena 1 e à qual cheguei via o blogue Sem Embargo. Com classe e de forma absolutamente clara, responde a uma série de questões que não passam de insinuações e desinformação do actual governo e que praticamente ninguém questiona/desmente. Parabéns também à Maria Flor Pedroso.

Entrevista audio

Razão e baixa política

O Plano Estatégico dos Transportes (PET) será hoje apresentado pelo ministro Álvaro na Assembleia.
Segundo o Jornal de Negócios, “Com o projecto do novo aeroporto de Lisboa adiado e com o objectivo de proteger a Portela da degradação mais acelerada, o PET prevê que o tráfego das companhias aéreas de baixo custo seja “transferido para outro aeroporto de Lisboa”, admitindo-se as pistas de Alverca e Alcochete como as melhores hipóteses.”
Pelo que tenho lido ultimamente, as companhias “low-cost” andam a pressionar a ANA para obterem o local ideal para aterrar – a Portela, o que leva a TAP a barafustar bastante alto. Deduzo, por isso, que a matéria seja urgente, nomeadamente para a Ryan Air, e que a solução não possa esperar, digamos, três ou quatro anos.
Quando se discutiam, há uns anos, as localizações para o futuro aeroporto, ficou bem claro que Alverca nunca poderia ser alternativa para uma solução Portela+1, dada a coincidência das rotas de aproximação e descolagem com as do aeroporto da Portela. Afinal, porque está Alverca em cima da mesa agora?
E Alcochete? Tem condições tal como está? Que obras serão necessárias? E how much?

Também se fica a saber, por um artigo do Público, que o TGV avança praticamente nos moldes em que o governo anterior o previu, subtraída a nova estação de Évora, desenhada por Souto Moura. (Diz o Público “O Governo avança, assim, com um projecto que mantém, no essencial, o que já estava assinado por Sócrates com o consórcio Elos, que ganhou a concessão do troço de alta velocidade Poceirão-Caia. A linha será construída para suportar comboios que viajam a 350 km/hora,… “.)
O que diziam estas criaturas que agora estão no governo da construção da linha do TGV! A ordinarice em política, pelos vistos, compensa.
Seria bom que o líder da oposição deixasse a “elegância” de lado e o antagonismo ao anterior governo (o que, aliás, o deixa numa situação algo repugnante e insustentável), porque, em primeiro lugar, não se deve ser elegante com gente mentirosa e sem qualquer tipo de escrúpulos e honestidade e, em segundo, porque o governo anterior estava certo em TUDO – seja na resistência a uma subjugação à Troika, seja nas diligências junto da UE, seja na contenção racional das despesas (adm. pública, saúde, educação), seja no ritmo, repito, no ritmo das reformas, seja nos investimentos públicos, seja na aposta na ciência e na educação, seja no modo de promover as exportações, enfim. Tudo.

Palavras para quê?

É um artista português … do PSD. Logo, é sempre necessário clarificar, interpretar, corrigir, desmentir. Mesmo que se ocupe um lugar respeitável no FMI.

Segundo o Público de hoje (sem link) “Numa conferência de imprensa realizada em Bruxelas, Borges fez declarações que foram entendidas pelos jornalistas presentes como uma disponibilização do FMI para, quando o reforço dos poderes do Fundo Europeu de Estabilização Financeira estiverem em vigor, colaborar na tentativa de ajudar a Itália e a Espanha a evitar o contágio proveniente da Grécia, comprando dívida. O FMI pode “investir em conjunto com o FEEF”. “Estaríamos certamente prontos para desempenhar esse papel”, afirmou António Borges, citado pela Reuters. […] No entanto, mais tarde, António Borges, ex-vicegovernador do Banco de Portugal, emitiu um comunicado com o objectivo de clarificar os seus comentários. Aqui, já assinalou que “o fundo apenas pode emprestar os seus recursos aos países e não os pode usar para intervir directamente nos mercados”, acrescentando que o FMI “não está a contemplar qualquer envolvimento no mercado com o FEEF”.

Agitação institucional

Com as vacinas em dia, leiamos este artigo de Vasco Graça Moura no DN de hoje, do qual aqui transcrevo estes sugestivos parágrafos:

Os problemas imediatos da Europa e de um país falido como o nosso não se resolvem com cortejos da ideologia desfilando nas ruas e avenidas e movimentos de massas. Tão pouco se resolvem com bloqueamentos do aparelho de Estado cujos resultados só podem ser negativos.
Como a situação vai piorar, as reacções corporativas tendem a agravar-se. Se não houver autoridade, rapidamente se chegará a uma situação de desregramento e conflitualidade social de consequências imprevisíveis
.”

Não vou sequer mencionar o quão imposssível teria sido este artigo há uns meses, nem o aproveitamento que a direita fez na anterior legislatura das manifestações de rua e o quanto estas lhe convieram. Como já percebemos, essa é a desfaçatez característica de gente politicamente rasca.
Mas acontece que este governo e os seus fanáticos admiradores estão manifestamente a descontrolar-se no que respeita à agitação social. Revelam-se mais agitados do que os poenciais agitadores. Será mesmo assim?

Na Universidade de Verão do PSD, Passos decidiu introduzir o tema da potencial contestação no seu dircurso de encerramento, aparentemente a despropósito, pois, na altura, até Jerónimo e a CGTP se encontravam a banhos! De novo o brandiu em intervenções na Assembleia e noutros locais públicos. Muitos dos comentadores televisivos seus apoiantes não largam o espantalho.

Ora, em matéria de protestos, a única coisa que constatámos até agora (além das três dezenas de professores não colocados que invadiram, sem o Mário Nogueira, o ME) foi a manifestação da CGTP no sábado passado, um evento que, em termos relativos, tendeu para o pindérico.
Não sei se é burrice ou se existe algum desígnio neste aparente esforço de convocação – provocação? – das, digamos, forças do mal. A pergunta mais directa e extrema que me ocorre fazer é a seguinte: será que pretendem mesmo impor um regime de ditadura, servindo-se para isso da agitação social, desejada, mas que, pobres coitados, tarda? Gente! Mais de 50% dos eleitores votaram em vocês, ainda por cima avisados das medidas “duras”! Não devia esse dado apaziguar-vos?
O facto é que, seja inépcia, seja estratégia altamente sofisticada, esta linha de actuação deixa-me, depois de perplexa, inquieta.
Claro que há uma terceira hipótese: a de tudo não passar de um jogo com regras tacitamente combinadas. Ou seja, o PCP que, se não agita alguma coisa, perde a sua razão de existir e teme a decepção dos seus apoiantes, vai-se manifestando de vez em quando. Como ajudaram a pôr lá este governo, os seguidores não haverão de ser muitos.
O governo, por sua vez, sabendo bem a distância intransponível que separa Jerónimo de 1917, vai, mesmo assim, invocando o papão da agitação social e das suas consequências tremendas para ir impondo mais e mais auteridade, à medida que a recessão for provando que o programa de cura é um logro. E assim vamos. Iremos?