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Os foguetes e as canas

Ontem foi grande a festa e o foguetório do governo e seus apoiantes a propósito do acordo alcançado na concertação social. Quem, apesar dos tempos, vê os momentos de televisão das novas personagens saídas sabe-se lá de que toca, arrisca-se a ouvir Braga de Macedo na RTP Informação (como aconteceu ontem, ao fim da tarde) a dizer o seguinte (cito de cor):

Este acordo (na concertação social) veio na hora H. Já devia ter acontecido há mais tempo, mas numa semana em que as agências de rating baixam as notações de vários países europeus, entre os quais a França, é importante mostrar o empenho de Portugal em fazer o seu trabalho e dar confiança aos mercados. Foi mesmo na hora H.”

Não sendo estas as palavras exatas, a hora H foi seguramente referida umas seis vezes durante a intervenção. Para este economista do PSD e próximo membro do Conselho Geral e de Supervisão da EDP, a partir de agora o rating de Portugal vai ser sempre a subir. A revisão da lei laboral no sentido da flexibilização era o pormenor que faltava para inverter a situação de “descrédito” do país face aos mercados. Indiferentes a tanta fé, hoje, no mercado secundário, a rendibilidade exigida pela compra de dívida portuguesa a 5 e 10 anos voltou a atingir máximos (18,2% e 14,6% respetivamente), nada indiciando que vamos sair do lixo na próxima década. Chatice, Dr. Macedo. E logo agora que nos tornáramos tão sedutores para os investidores e nos armáramos de um escudo invencível contra os especuladores de tal maneira resistente que nem o provável incumprimento da Grécia nos poderia jamais afetar.
Acredite que eu até gostaria que a vida financeira e política fosse simples assim e que a situação económica internacional decorrente da globalização, do regresso dos nacionalismos, da apropriação dos Estados pela alta finança, etc., etc. exigisse apenas, dos países europeus, que fossem os bons alunos do diretório alemão e da Troika ou seguissem à risca a cartilha do liberalismo económico, baixando os salários, desregulamentando a economia e reduzindo/suprimindo o papel do Estado. Assim não é e essas vias só nos afundam. Com a austeridade e a perda de poder de compra, cada vez haverá menos dinheiro para pagar dívidas e respetivos juros. Atrelados ao euro, a resposta ou é europeia ou não é nenhuma. Se fosse a vocês, guardaria os foguetes para mais nobre ocasião e, por enquanto, trataria de apanhar as canas. Ou mandar apanhar, mais de acordo com a vossa assumida classe (para já, invisível a olho nu).

Fartos de frases como esta

Portugal tem que ser um dos países mais baratos”, declara Daniel Bessa.

Esta gente que usufrui de um belíssimo salário e/ou dispõe de avultados rendimentos e que, baseando-se em meros cálculos economicistas, que, aliás, qualquer um de nós saberia fazer se o objetivo for o exclusivo desafogo financeiro dos empresários, vem dizer que o melhor é os trabalhadores ganharem o menos possível, revolve-me as tripas, confesso. A “mão-de-obra barata” é constituída por pessoas, com necessidades, com expectativas, com famílias ou com ambição a constituírem uma, pessoas potencialmente com capacidades. Pessoas que, com tiradas como esta, só podem é decidir fugir daqui e sem demora.
Daniel Bessa, que, por vezes, parece ter lucidez suficiente para desejar que a Europa reveja a austeridade, pretende agora, como muita gente insensível, reduzir o país a pessoas analfabetas (ah, pois, a educação e a formação custam dinheiro), desqualificadas e mal pagas que “alimentem” (também literalmente) e perpetuem o nosso incompetente tecido empresarial. Esta é a via para o subdesenvolvimento, caro senhor. Só que não para o seu nem o dos seus filhos, claro.

Oposição precisa-se (em que número é que já vai esta rubrica?)

Pelo rumo que as coisas estão a tomar, o que está o PS à espera para se deixar de paninhos quentes em relação a Passos Coelho? (Ai este erro da escolha do Seguro vai-lhes sair caro). O homem, como político, é e sempre foi um aldrabão. Desde as técnicas de desgaste aplicadas na discussão do orçamento para 2011 e a cena do pedido de desculpas aos portugueses pela excessiva austeridade, passando pela reunião com Sócrates que declarou convictamente não ter existido até ser desmascarado sem que nem um traço se alterasse na sua expressão facial, pela campanha eleitoral despudoradamente enganadora, pela invenção de um desvio colossal a todos os títulos negado pelo INE, pela proteção e cobertura fraudulentas dadas a Alberto João até à sua eleição em Outubro, até à quantidade exata de nomeações partidárias e às respetivas justificações inverosímeis, o homem é uma fraude. Um barítono sinistro.

Compreende-se muito mal que haja gente com responsabilidades fora dos partidos do governo que ainda lhe dê crédito. Alguns exemplos lamentáveis:
– Mário Soares continua a dizer que o acha um cidadão com qualidades e bem intencionado. (Dada a diferença de idades, tipo um rapazinho asseado)
– Pedro Guerreiro, ontem na SICN, excluía a possibilidade de o homem ser sonso, considerando-o apenas um ingénuo. Eu, que acho que Pedro Guerreiro não é sonso, admiro-me que seja ingénuo.
– O vice-presidente da bancada parlamentar do PS, José Junqueiro, vem hoje afirmar (a propósito do número de nomeações partidárias) que “o primeiro-ministro está mal informado” (mal informado? O sócio de Relvas?). Que brandura! Mais um que aderiu à oposição “elegante” de Seguro.
– Zorrinho, que sempre vi como pessoa cheia de iniciativa, desde que se encostou a Seguro, parece um menino de sacristia. Os seus pruridos em fazer escarcéu perante os piores atropelos deste governo só para não amedrontar sabe-se lá quem são penosos.

Em surpreendente contraste, ainda ontem, Lobo Xavier, um seu acérrimo apoiante, mostrou-se o mais furioso dos três esgrimistas da Quadratura a propósito das nomeações para a EDP e a AdP.

É triste, toda a gente o diz, a democracia exige, é preciso oposição, mas assim o PS não vai a lado nenhum. Assistir impavidamente em nome do respeito pela alternância democrática à saída da toca de toda a rataria salazarenta, que já nem se ensaia para proferir as maiores barbaridades, e nada dizer (salvo honrosas exceções, mas a título pessoal – Assis, Silva Pereira, João Galamba, Isabel Moreira, Pedro Nuno e alguns mais, e felizmente a blogosfera de esquerda) com medo de uma troika que já não tem nada a ver com o que se está a passar não é postura que se aceite do maior partido da oposição. Sabemos que governar na atual conjuntura não é fácil, mas ninguém disse que a política era fácil. Há que ter coragem. Seguro não tem, não quer ter e deve ser corrido. Portugal está a regredir e este primeiro-ministro é apenas a voz que distrai, ou encanta, enquanto a vampiragem toma conta da cidade.

Saidinhos do forno para uma mesa em Berlim, Álvaro?

Diz o ministro Álvaro que os pastéis de nata constituem um exemplo de falha incompreensível nas nossas exportações. Admito que lá em Vancouver, de onde veio, não se vendam, mas em qualquer capital europeia onde haja portugueses com padarias, há pastéis de nata, certo e sabido. Até já os tenho encontrado em supermercados. Até na África do Sul, tenho a certeza, há pastéis de nata.
Evidentemente que este não é um produto que possa sair de Portugal, como o vinho ou o azeite, pronto a consumir. A menos que se congelem! No caso dos pastéis, exportaram-se os portugueses que os fabricam por lá, mas serão essas as exportações que nos interessam, ou este homem já não tem remédio?

Cá dentro é que está o pote

Penso que já não falta muito (e é esse o meu desejo) para que a maior parte dos países europeus olhe com olhos de ver o que se está a passar com esta crise do euro. As soluções para os países em dificuldades não avançam e a receita é somar austeridade à austeridade por uma razão muito simples: a Alemanha está a ganhar e a beneficiar muitíssimo com o arrastar da situação. As yields pedidas pelos investidores pela compra da sua dívida são tão baixas que, ontem, eram inferiores a zero. O desemprego baixou para percentagens irrelevantes. As maiores empresas registam lucros superiores a 70% desde há um ano. Suprimido calculistamente o salário mínimo há três anos, os vizinhos romenos, por exemplo, são contratados ao preço da chuva (400 € mensais + almoço) e ainda acham que fazem bom negócio. Desempregados e técnicos qualificados de países como Portugal oferecem-se para trabalhar por bom preço. As exportações de maquinaria, tecnologia e automóveis para os países emergentes (mercados tão grandes ou maiores do que o europeu) compensam a quebra nas exportações dentro do mercado único. Na verdade, tudo corre bem, para já, à Alemanha, o que não lhe dá qualquer incentivo a mudar de rumo. Concentrando todo o dinheiro, cabe-lhe ditar as regras. Em seu benefício também, nem Sarkozy ainda percebeu o engodo para que foi atraído, embora se tenha voluntariado para o isco. Merkel sabe desde o início, ou não conhecesse a história recente do seu país, que não lhe convém aparecer sozinha a liderar o processo.
Hoje, já Mario Monti vem dizer que não pode ser apenas aquele duo a liderar e a decidir o futuro da Europa, excluindo países como o seu, uma economia forte, sob pena de se abrirem as hostilidades a nível externo, instigadas pelas que inevitavelmente se abrirão a nível interno (até um tecnocrata, desde que inteligente, não demora muito a sentir as necessidades e a força silenciosa dos governados). Outros países da zona euro com a corda na garganta, como a Espanha ou a Irlanda não podem por muito mais tempo limitar-se a cumprir as ordens de Berlim, para sua grande glória, enquanto as suas populações fogem, definham ou se violentam.

Por cá, qual o estado de espírito deste governo? Olhando para além do ar grave, encenado, com que se apresentam, tudo na boa: com maioria confortável, as pessoas, os 9,5 milhões de portugueses que não são as suas “elites”, não existem. Assim, Gaspar faz umas contas para ver se batem certo com o que a Troika quer e erra essas mesmas contas na primeira curva, mas não é grave porque a comunicação social é amiga e ele fala com voz competente, Paulo Macedo corta no SNS, sem plano verdadeiramente definido para o tornar eficiente, ou sequer para o manter, Crato corta no ensino, mas mais no público para satisfazer compromissos eleitorais e não lhe interessa muito que se ensine a quem não tem condições para aprender, tomam-se umas medidas ad hoc aqui e ali, mas, no fundo, com a Troika a ditar a orientação geral, os rapazes, com Passos e Relvas à cabeça, estão radiantes por irem finalmente entregar, com boa cobertura, o poder às empresas e estas aos amigos, que os recompensarão principescamente quando chegar a hora da partida. O “big” pote estava claramente guardado para depois do primeiro semestre.

Crise europeia? Merkel e Sarkozy? Conjugação de estratégias entre periféricos? Governar um país? O que é que isso verdadeiramente interessa? O que é um país, ao fim e ao cabo?

Descaramento total

Como evitar que Portugal se transforme num país de velhos sem esperança, quando o bronco número dois deste governo insiste em mandar lá para fora os mais novos e mais qualificados (deduzimos que com plena noção de que por lá assentarão arraiais e por lá se reproduzirão), elogiando-os até por tal serviço prestado?

Ao conversar com jovens portugueses, em Maputo, “tive grande orgulho naquilo que vi e ouvi”, perante um “outro tipo de emigração”, diferente da dos anos 60, com destino à Europa.

“Esta é uma emigração muito bem preparada. Nós investimos significativamente nos últimos 20 anos numa geração e hoje não lhes damos aquilo de que eles precisam, que é o emprego”, referiu.

Em Moçambique, com aqueles jovens, Miguel Relvas disse ter ficado “com a sensação de que pátria deles é o momento onde estão, a circunstância em que estão”.

Fonte

O charme improvável de Celeste

No pacote de seis premiados por este governo com um enorme tacho na EDP , figura a doutora Celeste Cardona. Esta senhora deve ser extremamente competente e versada, ou algo de muito meritório deve ter feito em prol do seu partido, o CDS, ou não seria tão encaminhada para os mais variados cargos nos últimos 10 anos. Ela própria se deve surpreender. E orgulhar. Não é qualquer um que é sistematicamente a escolha natural. Depois de ministra da Justiça no governo de coligação de Durão Barroso, saltou para a Administração da CGD e agora para o Conselho Geral e de Supervisão da EDP, a par de Catroga, Teixeira Pinto, Braga de Macedo e Ilídio Pinho, todos prestadores de altos serviços. Dir-se-ia que o CDS não tem mais ninguém a quem recompensar para preencher a sua quota-parte nos super-lugares partidários? Perguntar não ofende.

versa fiada

Júlio Magalhães tem uma relação especial com Marcelo e “a direcção não quer que o professor se vá embora da TVI”, explica ao JN uma fonte do canal de Queluz de Baixo

Já vi a expressão “uma relação especial” ser utilizada em muitos contextos (o amoroso é dominante), mas, neste, só pode significar uma coisa: Júlio Magalhães gosta de dedicar a parte final do seu telejornal a fazer de boneco, aceitando ser pago para isso. O professor é um palrador com ar simpático, não fora a política. Mas, de facto, todo o pivô que aceite sentá-lo à sua mesa na condição de abrir a boca duas ou três vezes, apenas para introduzir os temas da comentarice dominical, ouvindo passivamente e sem a mínima réplica (aparentemente como cláusula contratual) os frequentes dislates e basófias de Marcelo, está deliberadamente a deixar os seus créditos jornalísticos atravessar um troço arriscado. Foi o que aconteceu com Ana Sousa Dias e Maria Flor Pedroso (ainda que esta ensaiasse, de vez em quando, ligeiros contrapontos). Ambas recuperaram dessa travessia, mas lembrar-nos-emos sempre da figura que fizeram. Presumo que não haja na TVI quem mais se queira prestar a esse papel (?). Ou então a afabilidade de Júlio Magalhães ou a sua admiração por Marcelo casam tão bem com as pretensões deste último que lhe dão o direito de exigir a sua manutenção no papel. Sob pena (acabo aqui, recorrendo à técnica estilística do blogger Maradona).

(Nota: Vou passar a escrever segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico. Profissionalmente, estou obrigada a isso desde 1 de janeiro. Além disso, também na escrita pessoal, não me causa qualquer repulsa. No texto supra, nem foi necessário alterar nada.)

Inteligência: ou se tem ou não se tem

Neste miserável ano de 2011/2012, em que um governo sem qualquer outra estratégia para o país que não seja a dos cortes cegos e do empobrecimento com vista a uma mão-de-obra barata assumiu o poder, vale a pena ler esta entrevista dada ao jornal i por uma destacada cientista/matemática portuguesa a trabalhar nos Estados Unidos, Irene Fonseca. Entre outras coisas, diz ela:

Ir para o estrangeiro tem sido aliás um apelo dos nossos governantes para enfrentar esta crise. Para si é um apelo que faz sentido ou fica angustiada com a eventualidade de o melhor de Portugal sair de Portugal?

Desculpe, não percebi a pergunta. Os governantes aqui encorajam os nossos a saírem?”

(…)”Nos EUA, há uma grande preocupação nossa e também da administração vigente com a investigação científica. Entre os cortes que têm sido feitos, a Nacional Science Fundation, tem sido poupada. Ao contrário, o nosso orçamento está a ser aumentado.”

(…) “Dou-lhe mais um exemplo: o Google foi um projecto sem calendário nem prazo financiado pela National Science Foundation e o resultado desse projecto é um instrumento que toda a gente usa. Era um projecto de três indivíduos que fizeram uma proposta, obtiveram financiamento e apresentaram resultados. Isto exige uma aposta do Estado. Claro que há um risco, mas há sempre qualquer coisa de bom que sai da investigação”.

Sem ciência, não há desenvolvimento. O objectivo de competir com a China ou com a Índia no tipo e nos custos de produção revela uma estratégia demissionária, classista, insensível e, além do mais, condenada ao fracasso. Alguém tem ideia de quais as áreas da ciência em que este governo gostaria de apostar para que o país possa figurar no mapa de países civilizados, para que exista uma via alternativa ao marasmo e para que não se perca o avanço conseguido nos últimos anos? Um governante como Passos que não dá o mínimo sinal de gostar (muito menos de se orgulhar) do seu país e da sua gente nem tem a inteligência suficiente para incentivar (incluindo financeiramente) o que de melhor há e o que de melhor se faz ou poderá fazer por cá não merece o lugar que ocupa. Aldrabão sem pátria, foi para o governo para pôr a ganhar dinheiro a maioria de empresários patos-bravos que vota PSD e que nunca deixou de por aí andar.

O rendado aberto da lei das rendas

A demissão do Estado, ou a “democratização da economia”, parece ter começado em grande com as novas disposições em matéria de arrendamento, mas, estranhamente, numa lógica muito pouco liberal. Não existe o sacrossanto mercado neste caso concreto da actualização das rendas mais antigas. Senhorio e inquilino são encarregados de “democratizar a economia”, tendo o privilégio de dar aplicação ao novel conceito engendrado pelo governo.
O princípio subjacente ao que foi anunciado é o de que são os senhorios e os inquilinos quem deve regularizar, entre si, a actualização da renda. O valor de mercado do imóvel não entra em momento algum da peça, nem li ainda em lado nenhum o que se prevê para o problema muito presente, premente e concomitante das obras de renovação.
Caso concreto: um inquilino paga actualmente 50€ por uma habitação antiga, com boa área, mas degradada. O senhorio poderia propor-lhe, por achar justo para cobrir eventuais despesas com obras, 300€ mensais. Sabe, porém, que, se o inquilino não aceitar, ao pô-lo na rua, terá de pagar-lhe uma indemnização de 18 000€ (e por alminha de quem?). Muitos proprietários possuem não só um, mas vários fogos em situação semelhante, o que obrigaria a multiplicar 18 000 por X. Por isso, antes de propor 300, o proprietário pensa nas consequências e propõe apenas 150. Se o inquilino aceitar, duvido muito que o senhorio aceite fazer obras (e o que diz a lei quanto a isso?). Se não aceitar, o senhorio poupa umas coroas na indemnização e o inquilino vai à procura de outra casa, imaginamos que por 100€, ou pelos mesmos 50€, muito mais pequena ou muito mais longe. Mas nada disto continua a ter em conta o valor real de mercado da habitação em causa. Porquê?

Os que beneficiem de rendas antigas e não provarem a sua incapacidade financeira, vão ter em breve a sua renda atualizada“, lê-se no jornal. E os que provarem essa incapacidade? O senhorio mantém-lhes a renda? Aumenta, e o Estado paga a diferença? Ou o senhorio vai negociar a renda com o Estado?

Por que razão tem sido difícil, até agora, mexer na lei da actualização das rendas? Porque grande parte do ónus caberia ao Estado – pessoas idosas, com baixos rendimentos, são quem habita os prédios mais antigos e, em caso de aumento substancial das rendas, seria o Estado a sustentar o diferencial, ou o novo alojamento dos despejados, para não ser acusado de desumanidade e de práticas anti-constitucionais, uma vez que os proprietários, e bem, entendem não ser responsáveis pelo congelamento das rendas, sendo antes suas vítimas, sentindo-se até, na maioria dos casos, reféns dos inquilinos. Além disso, a denúncia do contrato por parte do senhorio, mesmo que fosse para requalificação do imóvel ou a sua venda, contra a vontade do inquilino, esbarrava sistematicamente com processos morosos e a tradicional lentidão da justiça.

Sem contestar que a lei do arrendamento urbano precisava de uma valente reforma, aliás já prevista pelo anterior governo, as novas disposições parecem-me algo bizarras, do tipo “entendam-se!”, que estamos com pressa. Estou curiosa quanto à sua aceitação pelos proprietários e prevejo uma avalanche de processos no novo Gabinete do Arrendamento.

Não me digam que também têm medo de pedir explicações ao alemão

Confesso que não sei se penso que as palavras do deputado do PS Pedro Nuno Santos sobre a utilização da “bomba atómica” contra os credores alemães são, de facto, exageradas e inaceitavelmente radicais. Depois de ouvir as proferidas pelo presidente do «Bundesbank» e também membro do Conselho do BCE, apelidando os países em dificuldades na Zona Euro de “alcoólicos” a quem aliviar o garrote é o equivalente a acreditar no pedido de um último trago de um ébrio incorrigível, a ideia de não pagar e de dizer aquilo e muito mais ganhou bastante pertinência.
Esteve bem a RTP ao alinhar as duas notícias em sequência, no Telejornal, embora, na altura em que discursou, Pedro Nuno desconhecesse as declarações de Weidmann. Que aliás permitiram olhar a “ousadia” do deputado com outros olhos.

Acho mesmo inadmissível que nenhuma autoridade portuguesa, e já agora de outros países do sul, exija um pedido de desculpas a Jens Weidmann, o ariano.

Neste jogo não vale tudo e sabemos perfeitamente que a hipótese de não pagamento ou de renegociação da dívida por parte de alguns países, ou mesmo a hipótese de abandono da moeda única, causa extrema apreensão, para não dizer pânico, aos países ricos do euro e aos seus banqueiros. Cada um joga com os trunfos que tem, ou não? Na realidade, a guerra foi-nos declarada na última cimeira e a ocupação está totalmente em curso.

Mas, ainda que sob ocupação ou por causa dela, não devemos ter medo de pôr tudo com clareza em cima da mesa, inclusivamente da mesa do Conselho Europeu. Os próprios irlandeses, pela voz do primeiro-ministro, já mostraram não considerar tabu a ideia de abandonar o euro por via de um referendo ao novo pacto de estabilidade, versão de Dezembro 2011.

Encontramo-nos neste momento, seguindo obedientemente a receita alemã, sem qualquer perspectiva de futuro, por mais défices que corrijamos e austeridade que imponhamos. Solidariedade, com declarações como as de Weidmann, não é vocábulo compatível com epítetos como “alcoólicos”. E solidariedade não é caridade. A criação do euro nos moldes em que foi feita foi um erro. De todos. Os desequilíbrios enormes entre as economias dos países já existiam e a moeda única não os apagou: disfarçou-os por uns tempos.

Assim sendo, parece-me que, esquecendo o tom irado e agressivo do deputado do PS, alguém tem de defender os interesses do país, começando por defini-los e equacioná-los face à conjuntura que se vive. O governo de Passos pensa que os interesses da economia portuguesa são exactamente os mesmos da alemã. Poderiam até ser, noutro tipo de Europa com outro tipo de gente, mas acontece que não são, e as palavras do presidente do Banco Central alemão são inaceitáveis.

Barreira dos 7%

Lembram-se de ouvir dizer que o governo Sócrates devia ter pedido “ajuda” antes, nomeadamente quando os juros da dívida pública a 10 anos atingiram os 7%, sendo a recusa a causa mais apontada pelos direitolas para o “estado a que chegámos”? (pobres demagogos)
O safado irresponsável não quis saber. Continuou “levianamente” a resistir, com o aval da UE.
Agora, o “safado irresponsável” do Mario Monti, numa altura em que a Itália já está obrigada a pagar 6,47% pelos empréstimos a 5 anos e mais de 7% a 10 anos, também não está a pedir a “ajuda” da Troika. Um criminoso, portanto. Um irresponsável. Não é? Se não, porque será?

“Os mercados accionistas abriram negativos, mas as quedas agravaram-se depois da emissão de dívida italiana, que, pelo prazo de cinco anos, teve de pagar 6,47%, – um nível de juros incomportável a longo prazo. Desde a cimeira Europeia da semana passada, os juros das dívidas soberanas não dão qualquer sinal de correcção.” (do Público)

Conforto não lhes falta – Passos fala estrangeiro

Vamos lá a saber. Como interpretará a grande maioria da população do nosso país as seguintes palavras do primeiro-ministro, ontem proferidas para as televisões:”o Governo está absolutamente confortado com a proposta” (feita pelo ministro da Saúde)?

Contexto: aumento das taxas moderadoras e “plafond” ainda não atingido.

«Questionado se os aumentos das taxas moderadoras que estão previstos não poderão deixar portugueses sem acesso à saúde, o primeiro-ministro respondeu que “não” e que “o Governo está absolutamente confortado com a proposta” feita pelo ministro da Saúde.» (ler no DN)

Lembramo-nos tão bem de quando Sócrates não queria pagar a dívida

Nem baixar o défice! Tudo começou a tornar-se claro por volta de 2007/2008, ia o governo com mais de dois anos de exercício e satisfeito da vida com o défice herdado, de 6,3%, quando, de repente, se deu conta de que o mesmo caíra para uns escandalosos 2,8%! Como fora possível? Sócrates não queria; achava que ter um défice elevado era bom, significava que Portugal poderia num dia glorioso avistar-se da Lua: as suas obras sumptuosas, douradas, faraónicas seriam o cartão de visita do planeta! E ele, o seu responsável.
Mas enfim, azar, aconteceu. O défice baixou. E que fez o nosso homem? Ouviu dizer que rebentara um escândalo em Wall Street, umas vigarices valentes, uns “subprime”, uma bolha imobiliária que rebentara e que, diziam-lhe, estava a causar um tsunami na Europa, com fecho de empresas e quebra acentuada das receitas. Viu ali então uma ocasião única para voltar a elevar o défice e aumentar a dívida para níveis mais compatíveis com o seu gosto e as suas teorias económicas extravagantes, que, sabe-se hoje, assentam no princípio de que quanto maiores as dívidas dos Estados melhor, e que as dívidas não são para pagar em nenhuma circunstância. Esta informação chegou-nos directamente de Poitiers, com o selo de garantia do Correio da Manhã. Não ouvimos o mesmo que o director do jornal nem o orador o confirmou, mas, se eles o dizem… vamos discordar porquê?

Foi assim que, apesar das ordens estritas da União Europeia para que nenhum Estado-Membro apoiasse a economia e que, nos diferentes países, se deixassem as empresas em dificuldades ir à falência – caso da Alemanha, que deixou imediatamente falir a Volkswagen -, Sócrates, teimoso, insistiu em aumentar os apoios aos desempregados e conceder incentivos à economia, prevendo, inclusivamente, investimento público para compensar a falta de investimentos privados e não deixar morrer a economia. Tudo, claro, contra as directrizes da Comissão que até nem tinha adoptado um pacote de medidas de estímulo intitulado “Plano de Relançamento da Economia Europeia”.

Contente por finalmente estar a conseguir aumentar a dívida e o défice para valores totalmente do seu gosto, e não vendo, não vendo mesmo, tão enebriado estava com os gastos sumptuosos, que os especuladores começavam a encontrar na zona euro um filão promissor e potencialmente inesgotável, começou a pedir à oposição que lhe desse todo o apoio possível ao aumento do endividamento. Foi isso, não foi? E aí, ironia!, constatou que a dita oposição, sim, lhe dava todo o apoio : não queria impostos, não queria sacrifícios, havia limites! Ele queria gastar mais e eles até alinhavam!
Só para contrariar, porém, e contra tudo o que pensava, até mesmo contra as novas directrizes da União Europeia, Sócrates começou a reduzir a despesa e a seguir uma via de maior austeridade, através dos PEC.

E a oposição? Uns, que não, que não podia ser, que havia direitos adquiridos. Outros, que não, que assim não, que havia maneiras simplicíssimas de cortar na despesa, que não se justificavam aumentos do IVA, nem cortes de 5% nos salários, nem suspensão das transferências para a Madeira, nem escalões no ensino. Que fariam melhor e mais rápido sem sacrifícios para os portugueses, que já se sentiam no limite.
Transpostos estes argumentos para o megafone do presidente da República e depois para o das televisões, tomaram o poder.

O resto da história e os limites da austeridade já são de todos conhecidos.

Mas aventesmas como esta ou Freitas ou Henrique Monteiro do Expresso e outros pulhas, que até admitem que a crise é sistémica e que a sua origem nacional é altamente discutível, continuam a debitar que Sócrates foi o responsável pelo estado a que chegámos, agora revigorados pela descoberta de que, para ele, as dívidas não se pagam (o que desde a primeira hora do seu governo se demonstra, não é?) e, portanto, os défices não se baixam. Até quando vamos ter de aturar estes vómitos?

Dissidentes do BE…

…chamam “institucionalizados e parlamentarizados” aos militantes da facção actualmente dominante no partido (Fonte). Sendo então os que lá estão os finos e acomodados, podemos esperar a formação de um partido de rua, à margem das instituições? É desta que vamos ter o nosso Outubro Vermelho, camaradas?

Folgo, no entanto, em saber que alguma coisa mexe no reino do Louçã ou pós-Louçã ou anti-Louçã. 200 são muitos!

Perguntas inocentes no rescaldo de dois assuntos

1. Havia ou não havia uma vontade imensa de entrevistar José Sócrates? A mini-entrevista de ontem foi quase nada, mas, apesar disso, ouvi o jornalista Carlos Daniel na RTP-I a dizer que, se soubesse que Sócrates dava entrevistas, ele e muitos outros jornalistas também gostariam de o ter entrevistado! Impossível de esconder a invejinha de Isabel Damásio, ah, ah!
Espantoso o fascínio de Sócrates e o interesse pelo que terá a dizer (apesar dos gritos histéricos, que Freud explica).

2. Back to Brussels: Será que a Alemanha e a França estão convencidas de que o reforço, a generalização e o maior controlo das medidas de austeridade vão mesmo convencer os “mercados” a acabarem com a especulação? Não é hoje que o euro explode, mas os mercados na segunda-feira vão dizer como é. No fundo, não quererá mesmo a Alemanha acabar com isto tudo?

Ia já longa a madrugada em Bruxelas quando, após nove horas de negociações intensas, os líderes dos 17 países do euro fizeram divulgar uma declaração conjunta em que se comprometem a seguir o essencial das propostas franco-alemãs de reforço da disciplina orçamental. Angela Merkel queria que as novas regras ficassem inscritas na “pedra”, ou seja no Tratado de Lisboa e no quadro jurídico da União Europeia e das suas instituições.

Ou, lido em inglês, no site da BBC:

“Even so, the main impact of these changes will be in the long term.

Last night’s historic agreement has little to say about debt, about the absence of growth, about the European economies that continue to grow apart.

The major test will be whether a commitment to budgetary discipline frees up the European Central Bank to act more aggressively in the markets and so lower the borrowing costs of troubled countries like Italy and Spain.

The head of the ECB, Mario Draghi, was circumspect last night, saying only that the agreement was “going to be the basis for a good fiscal compact and more discipline”.

Freitas: onde está a decência?

Freitas ontem à noite

Depois de várias reviravoltas políticas, que passaram pela criação do CDS após o 25 de Abril, pelo abandono do partido mais tarde, o que lhe grangeou o estatuto de persona non grata no Largo do Caldas e levou à cena caricata da retirada da sua fotografia das paredes, por uma candidatura à Presidência da República, uma passagem pela AG da ONU e pela participação em governos de diferentes cores, nomeadamente no primeiro de José Sócrates, do qual saiu, não em conflito (embora quem pudesse ter razões de queixa (políticas) fosse Sócrates), mas devido a problemas graves de saúde, Freitas do Amaral decidiu atacar o antigo primeiro-ministro com a mais descarada das ligeirezas e o mais descarado dos populismos e, direi eu, oportunismos. Este ataque já data de há uns meses, bem antes das últimas eleições. O tempo suficiente para que a cambada que agora nos governa o considere digno do lugar de presidente do conselho de administração da Galp. Pois é.

Freitas, como a direita rasca que nos calhou em sorte, tem proferido afirmações verdadeiramente incompreensíveis para quem deveria ter mais, muito mais do que dois dedos de testa. Freitas faz completa tábua rasa das circunstâncias em que Sócrates foi forçado a governar desde 2009, após uma campanha sem paralelo de ataques pessoais, da crise internacional do subprime, cujas consequências já então se sentiam fortemente aqui na Europa, da gravidade de uma eventual recusa de formar governo nessa altura crucial e da abertura de uma crise política, das directrizes da União Europeia no sentido de se incentivar a economia, da inversão brusca dessas mesmas directrizes mal a Alemanha resolveu o seu problema e mal começou a especulação em torno do euro, do comportamento velhaco das oposições.

Crespo, que não perde uma que alimente o ódio contra o ex-primeiro-ministro, convidou-o para o Jornal das 9. Claro que o pretexto foi o lançamento de um livro (estamos no Natal, afinal!).
Imagino que Portas não ache muita piada à nomeação de Freitas para a Galp, sendo por isso conveniente carregar os tons das acusações ao anterior governo. No balcão do Crespo, Freitas aproveitou o vídeo da palestra de Sócrates em Poitiers para desferir mais um golpe completamente oportunista, baseado numa deturpação propositada das afirmações de Sócrates, e ridículo, pois qualquer pessoa percebeu que o problema de que falava o conferencista era o do pagamento das dívidas de alguns países a um ritmo de mata-cavalos. Era o problema da necessidade de desenvolvimento dos países. Era o da diabolização das meras dívidas!
Freitas não é burro ao ponto de não o perceber. O problema dele, como resulta claro, é o que o move. E aí, não se vislumbra nunca nada de muito edificante. Um distinto catedrático que perdeu mais uma boa oportunidade de se distinguir da podridão.