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Rui Ramos está sempre a errar. Por mim, pode continuar

Passos Coelho faz muita impressão à oligarquia portuguesa“, começa por dizer Rui Ramos, que termina o seu artigo no Observador de hoje com uma acusação contra desconhecidos de “futilidade oligárquica”. Primeira pergunta: a que “oligarcas” se estará Rui Ramos a referir? Segunda pergunta: quem reprova Passos é oligarca? Querem ver que o país é um bem escondido fenómeno?

 

Rui Ramos, o intelectual que, num jornal passista, mais defende o passismo, está tão viciado na propaganda que nem se apercebe das inanidades que diz. E hoje são demasiadas.

 

Por exemplo, reconhece que não há, de momento, alternativa a Passos dentro do PSD, mas conclui que, sendo as coisas o que são, também não é preciso porque ele é perfeito. E é perfeito porquê? Pois porque tinha razão: as suas políticas foram tão acertadas que agora foi possível reverter os “cortes” (e não percebo a razão das aspas; não terá havido cortes?). Não reparou, contudo, que o próprio Passos veio ontem dizer, na Newsletter do PSD, no final de um palavreado oco e a carecer de especificações, que há que “enterrar as políticas de reversão“. Ou seja, a dose do chamado “ajustamento” que estava a aplicar era para continuar eternamente, alegadamente para tornar Portugal mais competitivo e mais resiliente. Na ponta da Ásia, o Vietname, na ponta da Europa, Portugal. Perfeito. Mas, assim, onde estava o acerto das suas políticas, se o futuro e a estratégia para Portugal eram o eterno empobrecimento, sem perspectiva de reversão da trajectória de miséria? Ou será que Passos enganou Ramos e o amor é mesmo cego?

 

Acontece, entretanto, que nem os nossos credores europeus estão alarmados, nem a maioria dos portugueses está insatisfeita com aquilo a que Rui Ramos continua a chamar “manobra” pós-eleitoral. Refere-se ao acordo político entre as esquerdas com vista a garantir uma maioria duradoura no Parlamento, alternativa à da “falta de alternativa”. RR continua a achar que Passos tinha condições para governar com os votos obtidos nas eleições apesar de não dispor de maioria parlamentar que lhe aprovasse as propostas. Nunca explica como. Será porque pretendia que o PS servisse de (na expressão reprovadora que utiliza para o papel actual do BE e do PCP) “escudeiro” de Passos Coelho? Se assim for, muito me conta.

 

Alega Ramos que o governo sobrevive graças ao BCE e à sua política de compra de dívida, que mantém os juros baixos. Só que o mesmo já acontecia durante o governo de Passos. E até já tardava demasiado, como toda a gente reconhece hoje. Claro que, na altura, o que diziam os PàF era que os juros baixavam porque os mercados estavam entusiasmadíssimos com as políticas de austeridade e sentiam-se confiantíssimos, e que Portugal recuperara a credibilidade. Tretas que Rui Ramos, se não estivesse cego, deveria identificar. Não consta que o país tenha perdido agora a credibilidade. Assim como devia ter percebido a encenação que foi a “saída limpa”. Não viu. Continua a dizer, apesar da banca e da terra queimada que nos legou a coligação, que Passos cumpriu com esmero e sucesso o programa de resgate.

 

Para Rui Ramos, Passos foi um ás porque soube recuperar “a credibilidade externa” (pressupõe-se que perdida). Não diz é que a subserviência, a submissão e o apelo à auto-flagelação dos portugueses foram os presentes inaceitáveis oferecidos para apaziguar a ira dos (considerados) deuses. Coisa irónica, não só não havia deuses, como também os presentes eram absolutamente desnecessários, pois a verdade e o mais extraordinário é que José Sócrates não estava mal visto nem era desconsiderado nas instituições europeias, que até com ele tinham acordado um plano de sustentabilidade que evitava o resgate, plano esse atirado para o lixo porque sim e porque se mentiu. Por outro lado, Costa soma e segue sem qualquer subserviência nem reverência.

 

Ramos diz que Passos pode continuar onde está. Eu digo que deve. Por favor.

2017: o ano da Rússia e valha-nos Zeus

Prestes a terminar 2016, ocorre-me dizer que há muito tempo que não via a Rússia tão presente nos noticiários e devido a posições que considero potenciais “game changers”. E isso é não só uma surpresa como também uma possível antecâmara para uma nova ordem internacional. As “alhadas” em que o Ocidente se envolveu no Médio Oriente (com destaque recente para a Síria) e na Ucrânia, onde não contou com a estratégia de protagonismo e de ambição facilmente concretizável da Rússia, e ainda a perspectiva de ascensão ao poder de Donald Trump, abriram a Putin grandes janelas de oportunidade de afirmação, apesar das informações que temos de que o país está falido.

O manancial de peritos em informática e de espiões e de colaboradores locais de que a Rússia dispõe e também, há que dizê-lo, a sua determinação na Síria face a inimigos que todo o mundo considera animais menos os que neles continuam a ver hipotéticos instrumentos úteis, são trunfos que lhe granjeiam um respeito que julgávamos morto. O condicionamento imposto a Trump com a não retaliação à expulsão, por Obama, de 35 diplomatas russos, é uma jogada de força. Na Europa, já se temem interferências russas em todas as eleições, e são várias a terem lugar no ano que agora começa. Para variar historicamente e introduzir picante no processo, parecem ser os partidos populistas de extrema direita os novos amigos de Putin, sintoma de que os partidos comunistas que ainda não faleceram terão de recorrer à exo-astronomia para encontrarem defensores do seu ideal e fontes de sustento.

Assim, é com expectativa que aguardo para ver se o novo slogan “Oligarcas, bilionários e Rambos de todo o mundo, uni-vos!” trará mais paz e sossego, além de diversão, a este mundo ou se nos levará a todos para o outro quando os americanos acordarem.

Aos curiosos como eu, aos nossos leitores, incluindo os biliáticos, desejo, mesmo assim, um 2017 feliz e surpreendente.

O romance do ano: Assis “in love” com Passos

A tendência já de há muito se desenhava. Hoje, no Público, temos a declaração.

Pedro Passos Coelho percebe-se a si próprio e como tal apresenta-se ao país como uma espécie de Primeiro-Ministro no exílio. Acredito que isso corresponda simultaneamente ao seu estado psicológico e à sua percepção do que corresponde ao seu interesse político imediato. Depois de uns longos quatro anos de aplicação de uma política de austeridade pura e dura, assistirá agora, com perplexidade, à festiva governação que lhe sucedeu. No fundo sente-se um incompreendido, que só uma grave crise a curto prazo poderá reconciliar com o seu próprio país. Só que esse é precisamente o seu drama político mais profundo; não sendo – estando mesmo muito longe de o ser – um abutre, corre sérios riscos de o país o confundir com essa ave tão pouco popular. Pelo meio, alguns verdadeiros abutres, que os há a sério no PSD, já sobrevoam despudoramente aquilo que antecipam como o seu cadáver político. Tem a seu favor o facto de a história estar repleta de aves dessa natureza condenadas ao fracasso pela precipitação de falsas partidas.”

Síria: quatro não alinhados e um moderador

Para se ter uma perspectiva diferente da versão oficial ocidental sobre Alepo e a Síria, deixo aqui o link para um programa de debate (intercalado com breves reportagens) que ontem, dia 15, passou no canal francês LCI (La Chaîne Info). Dura um pouco mais de uma hora. É preciso perceber francês e ter uma certa paciência com os anúncios iniciais e a meio. Mas vale a pena ouvir os participantes que, não parece, mas foram convidados pelo moderador. Infelizmente, não arranjei maneira de colocar aqui a imagem com ligação direta ao vídeo.

 

Alep seule au monde

 

Pata de urso

As petrolíferas americanas, mais os russos, cujos oligarcas dependem das receitas geradas pelos combustíveis fósseis, ditaram a eleição de Trump (a piratagem dos sistemas informáticos pelos russos aconteceu mesmo, e não tendo apenas como alvo o campo democrata, mas era este que interessava abater; o restante material, o do campo contrário, guarda-se para uma futura necessidade. As notícias falsas também funcionaram na perfeição) e irão procurar continuar a ditar o rumo da política do palhaço rico, que mais não será do que uma marioneta. E porque é que isto acontece? Simples. Os russos não estão interessados na adopção generalizada das fontes de energia alternativas e renováveis, tão apreciadas pelo ocidente, e que por cá ganham rapidamente terreno. A Rússia é o maior exportador de gás natural do planeta e o segundo maior exportador de petróleo. Assim, resolveram dar uma ajudinha logo durante a campanha a quem os podia ajudar. E conseguiram uma inesperada e estrondosa vitória. Depois, foi para eles um prazer assistir ao alarido mediático todo em volta dos escolhidos para as diferentes pastas, mais os tweets do Trump e as suas bizarrias, mais as provocações à China, enquanto tranquilamente ocupava o seu lugar o homem que verdadeiramente interessa nesta estratégia – o Secretary of State. Pois é, os oligarcas russos não estão dispostos a assistir sem luta, e sem guerra suja, ao seu próprio declínio. Parece que os americanos estão dominados.

Esta tese não é minha. É de uma pessoa próxima que vive nos States. Parece algo estapafúrdia, mas, observando o que se tem passado e o que tem sido noticiado nas últimas semanas e dias, penso que faz sentido.

É evidente que, em matéria de interferências na política de outros países, nada aqui é novo, a não ser as técnicas, que acompanham os tempos. Novo é o alvo. É também é sabido que os americanos tinham, e têm, uma grande rodagem nessa matéria das interferências e da manipulação. Mas os russos agora surpreenderam-nos.  Enfim, não aos que “lutam pela mesma causa”. Conjugação de interesses, chama-se a isto. Bem aproveitada.

Ocorre-me que o estado de espírito de quem por lá, nas esferas do actual poder e entre os democratas, e em geral entre a gente decente e bem informada, esteja a deduzir nestes mesmos moldes com base no que se vai descobrindo não deve ser famoso. Que tempos.

 

USA Inc.

Tudo indica que Donald Trump se prepara para gerir o seu país como quem gere uma empresa. Na realidade, como quem gere todas as empresas norte-americanas. Aliás, como quem gere todas as empresas norte-americanas que estejam com ele. E ai das outras.

Assim, com a Rússia, podem fazer-se grandes e bons negócios. Logo, Putin é um amigo. Já era, aliás! Pelo menos para alguns espertalhões, os que sabem da poda. Não os míopes dos Obamas deste país. A política, a geopolítica, os aliados, a NATO, mas o que é que isso? Come-se? Aliás, compra-se? A NATO, por exemplo, é um bando de caloteiros. Ora, como eu dizia, negócios – business – e os russos que tratem do Médio Oriente, que estão mais perto. A gente vende-lhes o armamento que quiserem. Eles gramam. E nós facturamos.

A China, mas quem pensam estes “olhos em bico” que são? Produzem a preços inaceitavelmente baixos e inundam o mercado mundial, e sobretudo a América, com bonés, T-shirts, jeans, alhos e lâmpadas ao preço da chuva. Chuva de Xangai, clima do caraças. Mas dão-nos cabo dos salários e da indústria, como eu disse na campanha. Eu quero pagar mais aos meus trabalhadores. Só que não posso! Pois que os chinocas vão vender para o raio que os parta. Por aqui, porta fechada. Ai dizem que vão vender armas aos nossos inimigos? Ah, ah, mas que inimigos? Que é isso? Quem usa ainda inimigos?  Quem não quer fazer dinheiro?

E a OMC, quem são esses gajos? Têm hotéis? Donald Junior, vê se pões esses gajos a trabalhar para nós. Perdão, a facturar. Olha, a ONU também. Bando de inúteis. No Sudão estão a matar-se? Mas o que é que o Sudão tem para vender, além de areia? Estás-me a dizer que tem petróleo, mas só numa parte? OK, Ivanka, compra-lhes lá uns barris e constrói um hotel com vista para os campos de refugiados. Ou para os campos de guerra. Uns tantos da outra parte podem vir trabalhar nas cozinhas. Quanto à natureza dos hóspedes, no problem. Há ou não há quem goste de ver “walking deads“, afinal? Ali serão reais! Reais, estão a ver? Olha, na Turquia também pode ser interessante.

E é isto. É isto e pode ser mais. As chaminés a fumar na Pensilvânia e no Michigan que será uma alegria. America great again.

A 20 de janeiro, ponhamos os cintos de segurança que este tipo vai divertir-se à grande aos comandos.

Cuidado aí com o orgulho em ser… muçulmana

O credo demasiado ligeiro e apressado da canadiana Ms. Massa, uma cara bonita:

«When it comes to her detractors, Ms. Massa has adopted the following credo: “That negative reaction comes from reading a headline and seeing a photo and deciding they don’t like the way I look. That’s not my problem. That’s theirs.” »

Eu sei que a sociedade ocidental deve respeitar as opções individuais, que uma mulher muçulmana não está mais condicionada nas suas escolhas do que uma filha de católicos ou de evangélicos, ou até de ateus, e que, portanto, o que vale para umas vale para outras, como dizer-se que a liberdade de opção religiosa, ou qualquer liberdade de escolha, é relativa, etc., mas que, esquecendo a intolerância que prevalece nas famílias muçulmanas, aceita-se que se diga que, chegadas à idade adulta, as mulheres que cobrem a cabeça em público o fazem por opção individual. Tudo bem.

Acresce que a “socialização” das vestes femininas muçulmanas menos encobridoras (caso da sua exibição em desfiles de moda) pode ser um bom sinal de integração social, de desdramatização e até de laicização dessas indumentárias. Também passar na rua por um homem de turbante ou de túnica ou por uma mulher de chador ou hijab enquanto usamos calças rasgadas, mostramos o umbigo e parte dos seios e abanamos a cabeleira colorida ao vento pode querer dizer que se aceita a diferença e a liberdade de cada um e que é possível conviver em paz com pessoas educadas para visões do mundo e dos sexos diversas. Na sociedade ocidental, em que, recorde-se, predominam os valores ocidentais, pode querer dizer isso e quer certamente dizer isso.

No entanto, alguém me explique por que razão uma mulher há de ter orgulho em não sair de casa sem cobrir totalmente os cabelos com um lenço (e o corpo com vestes largas para esconder as formas), alegadamente para não suscitar a lascívia dos “machos”. Que orgulho haverá em se considerar e ser considerada não mais que uma “fêmea” que se arrisca a ser atacada se mostrar o cabelo e as pernas? Isto no mundo ocidental, entenda-se, pois no outro está instituído e exarado em acta há vários séculos que os machos são bestas.

Considerando eu que a sociedade ocidental evoluiu no bom sentido no que respeita às mulheres e compreendendo eu que a mudança das mentalidades dos imigrantes não acontece de um dia para o outro, custa-me a aceitar que, ainda que indiretamente, se encorajem, ou que não se desencorajem de todo estes sinais externos de mentalidades há muito ultrapassadas por cá. Da minha perspetiva, tolerância transitória e apreciação do pitoresco são uma coisa. Excessivo respeito por hábitos e práticas indignos contra os quais lutámos e aceitação acrítica ou indiferente dos mesmos é outra coisa. Reagir parece-me saudável.

Assim, aquela mulher lá em cima pode apresentar todos os telejornais que quiser escondendo o cabelo por “pudor” e nos canais que o entenderem. Já achar bem ou achar graça a isto é que não devia acontecer. E se aos homens não incomoda, às mulheres livres devia incomodar. E mais, não considero que qualquer reação a isto se enquadre sempre no conceito de “hate”, termo usado na peça. Pode ser repugnância e bem sentida. E incómodo. É que a pena não faz nada pela evolução dos humanos. Nem o silêncio.

A entrevista a Costa, mais o antes e o depois

Foi premonitório e certeiro o que António Costa disse à entrada para as instalações da RTP: que era muitas vezes mais importante responder diretamente às pessoas que lhe fazem perguntas, como acontecera há uns dias, do que responder a estas entrevistas com jornalistas que muitas vezes enveredam por assuntos que apenas interessam aos próprios enquanto agentes dos media. Também à entrada, uma jornalista perguntou a Costa se se tinha preparado melhor para esta entrevista… Insinuando que, para a outra, estava mal preparado? Que deselegância, para não dizer que estúpida insinuação de boas-vindas.

De facto, os temas mais demorados foram completamente os que fazem os títulos dos jornais e que, já se viu pelas sondagens, interessam muito pouco à generalidade da população. Os jornalistas detiveram-se demasiado tempo na Caixa Geral de Depósitos, mas lamentavelmente não à volta dos princípios (o porquê de um banco público, dados sobre o plano para a Caixa, qual a explicação para o ruído criado no Parlamento, etc.); sempre à volta da coscuvilhice. Sobre o Novo Banco, chegou André Macedo ao ponto de querer saber qual o preço que estaria bem para o Governo. Isto é absolutamente ridículo, estando em curso o processo de venda. Depois lá foram abordados temas como a dívida, o código laboral, as relações com a oposição, com o Presidente da República, os transportes públicos, tudo muito bem respondido por Costa, embora com pouco tempo, ficando André Macedo com cara de parvo pela ignorância e o sectarismo que demonstrou nas perguntas e interrupções.

E o pós-entrevista? Não deu para acreditar: os comentadores convidados para os painéis tanto na RTP3 como na TVI24 eram todos da direita, ou seja, contra Costa. Como é óbvio, nem um minuto perdi com aquele espectáculo, mas deu para ver que eram o David Dinis, a Helena Garrido, o Paulo Ribeiro, o José Manuel Fernandes…

Como é, Bloco? Mandam ou não passear o PSD?

É evidente que aquela aliança do Bloco com o PSD e o CDS para deitar abaixo a administração da Caixa deu ideias à direita para continuar a “entalar” uma certa esquerda que, em nome de uma propalada pureza de ideais, cai demasiado facilmente em armadilhas:

A demissão de António Domingues está longe de ser o último episódio da novela da Caixa Geral de Depósitos (CGD). O próximo está já marcado pelo PSD para terça-feira quando for discutido o projeto de lei social-democrata que volta a pôr em cima da mesa os salários dos gestores da Caixa, mas não só.

A proposta do PSD – que se destina a todo o setor empresarial do Estado – prevê a criação de quotas de género (num mínimo de 33% de mulheres na administração), um limite ao número máximo de administradores e a publicitação na internet, não só das orientações de gestão dadas pelo governo, como os relatórios trimestrais das administrações.”

Os objetivos do PSD são lógicos e conhecidos: desestabilizar o acordo quadripartido de governo, colocando pressão sobre os seus elementos, 2) impedir a solução pública para a Caixa e 3) iniciar as já típicas campanhas de lançamento de sujidade para cima de quem governa, valendo-se dos inúmeros amigos de que dispõe na comunicação social. A estratégia para tal é clara e está à vista de todos: até agora mortiços e sem hipóteses de ataque, descobriram o filão da CGD e, tendo alcançado uma vitória com a súbita decisão do Bloco de aprovar a reversão do estatuto do gestor público, absolutamente desnecessária dada a avaliação em curso pelo Tribunal Constitucional e as exigências do Presidente da República sobre a apresentação das declarações de rendimentos e património, trata-se agora de apelar mais uma vez à advogada pureza/ grandes causas e à burrice do Bloco para prosseguirem os seus intentos.

Eu só pergunto: o que impede o Bloco de os mandar passear? O receio de que a suspensão da “pureza” não agrade ao seu eleitorado? Parece-me estupidez aguda. Sabem o que é uma balança? Se não sabem, informem-se, comprem uma e utilizem-na para fins úteis frente aos vossos eleitores. Acaso os limites salariais para altos cargos públicos alguma vez preocuparam o PSD? E as quotas para as mulheres? Não nos façam rir.

E por falar em rir… jamais irei chorar pelo Bloco, mas é pena a triste figura que fazem na tentativa de serem puros. Há quem aproveite e os utilize e pelas piores razões. Sempre foi assim. Se vos falta matéria para negociar com o PS, como acontece em política e com o PCP, ponderem ao menos se é mesmo melhor alinharem com este nojo de direita – cínica, hipócrita, oportunista, interesseira e rasteira. E sobretudo que já mostrou em quatro anos ao que vem. Ainda haverá quem não tenha percebido?

 

Esta direita é um nojo (capítulo XXXII)

Quando nada mais há a fazer, a direita cria tempestades em copos de água, borrifando-se no país, como demonstra o caso CGD, ou atira, na comunicação social, lama para os seu rivais para ver o que é que dá. Vem isto a propósito da notícia da revista Sábado, logo reproduzida pelo Observador, pela Renascença e os habituais comparsas destas tácticas, segundo a qual António Costa foi escutado fortuitamente em conversa com um seu assessor, Bernardo de Lucena, que fora embaixador em Cabo Verde, no âmbito de uma investigação em curso a esquemas de emigração ilegal com suposta corrupção, em que esse ex-embaixador acabou sendo suspeito (alegadamente). Sem levar a fundo as averiguações (ou talvez por isso) e só porque sim, a Sábado resolve publicar a notícia dando-lhe este título:

Exclusivo SÁBADO
Escutaram, quebraram o sigilo bancário e quase prenderam assessor de Costa

O diplomata foi envolvido num esquema relacionado com vistos em Cabo Verde. Os mandados foram passados, foi-lhe quebrado o sigilo bancário e decretadas escutas telefónicas que apanharam conversas com António Costa

Um alarme, como veem.

Só mais adiante surge o parágrafo que devia, este sim, ter dado o título à notícia (que não li na íntegra, por falta de acesso, mas para o caso pouco importa):

{…} Mas tudo poderá não ter passado de uma denúncia caluniosa ou de uma enorme trapalhada que levou até o MP a ouvir e a gravar telefonemas com a intervenção do primeiro­-ministro, António Costa.

Entretanto, o MP já veio esclarecer, em comunicado, o que se passou, esvaziando o “balão” da Sábado, que, no entanto, continha a tal ventoinha que quiçá já produziu o efeito inicial desejado, ou seja, o da distribuição de lama. Sabem como é – António Costa >amigalhaços >governo >corrupção >gente presa.

Isto não vai acabar nunca. Um aviso para os distraídos.

Ordem no galinheiro, s.f.f.

E pronto. Está concluído com êxito mais um tiro no pé do PSD. De algazarra em algazarra a propósito da CGD, chegaram ao ponto de perderem por completo a noção do que fazem com esta história da ida a Bruxelas e a Frankfurt de António Domingues. O que tenho mais a dizer sobre isto? Pois que se podem juntar (ainda mais) ao Correio da Manhã. O convidado futuro presidente do banco público português vai ter reuniões com a Comissão e com o BCE para apresentar o seu plano? Ah, ali há marosca. Falta de transparência. E essas reuniões já eram conhecidas, tendo sido discutidas na AR? Não interessa. Se não havia, passou a haver. Domingues podia (e devia) lá ir, mas afinal é melhor que não possa. Decisão do PSD. O PSD não teve imaginação para mais do que agarrar-se à grafonola que já ia com as ondas. E vai daí, marosca é pouco: fale-se em falha grave, porque não em crime! Repito, nada disto havia há umas semanas, mas agora há. Logo, siga a peça e … o ministro das Finanças está em maus lençóis, o primeiro-ministro já está para além disso – está mesmo à beira do cárcere. E depois? Ora, com os dois virtualmente demitidos, é só um empurrãozinho e Passos tem o caminho aberto para São Bento. O Montenegro dá o mote, o Rangel, à noite, cacareja na TVI, o rapaz Leitão Amaro debita a lição na SIC Notícias o melhor que sabe e pode frente ao João Galamba, a Graça Franco desconfia e afronta-se na RTP 3 e uma pessoa não tem alternativa se não desligar a televisão e retomar a leitura do livro, em má hora interrompida. Pachorra! Algazarra mais estúpida não há. Respondeu bem João Galamba, respondeu bem Carlos César e respondeu bem António Costa, ouvido hoje de manhã. Assunto arrumado, meninos, podem ir inventar outra. Vejam lá se mais inteligente, tá?

Mundos paralelos

As pessoas sofrem horrores com medo de confessar que fizeram um aborto”, diz ao DN. Enquanto franciscano, o teólogo tem uma licença especial que lhe permite absolver o aborto a uma mulher que procure o perdão. “Em alguns casos, só conseguem fazê-lo ao fim de 30 ou 40 anos.” Ontem, na carta apostólica Misericordia et Misera, o Papa Francisco autorizou todos os padres a absolver as mulheres que tenham abortado e que procurem o perdão, mantendo a autorização que tinha dado para o Ano Jubilar da Misericórdia, que terminou no domingo. Os sacerdotes portugueses ouvidos pelo DN mostraram-se satisfeitos com a decisão do Papa.

Todos os sacerdotes passam agora a poder absolver as pessoas que praticaram o aborto e que se arrependeram, sem necessidade de passar pelo bispo ou pelo Papa. Em Portugal, há sacerdotes com licenças especiais que lhes permitem perdoar o pecado do aborto. “As reservas que existiam eram fruto de tradições. Nós, franciscanos, já tínhamos uma licença especial para absolver. E havia outras pessoas para quem estava desbloqueado”, adianta o padre e teólogo Carreira das Neves.

Franciscanos, seus privilegiados, hem? Há alguma razão para a especificidade do vosso perdão?

E as mulheres? A quantidade delas que foram parar ao inferno? Já viram? A decisão do Papa Francisco terá agora efeitos retroativos ou há almas que serão eternas vítimas das más interpretações do espírito cristão? Ah, mas o inferno é uma realidade virtual? Então, estamos a brincar?

Mas, como era aqui na Terra? O que acontecia até agora às mulheres arrependidas de tamanho crime e que arriscavam confessá-lo? Eram escorraçadas da Santa Madre Igreja, ficando os restantes fiéis intrigados sobre a razão do afastamento? E quando esclarecidos, olhá-las-iam de lado, atirar-lhes-iam pedras? E as mulheres que não chegavam a confessar, morriam “em pecado”? Horror dos horrores. Saberiam da licença especial para perdoar dos franciscanos? Se não, porque não? Este perdão universal agora determinado pelo Papa equivale a uma carta verde para abortar ou haverá um registo (eletrónico, pois há liberdade de escolha do confessor) para prevenir abusos? Perguntas e mais perguntas. Ser teólogo não é fácil. Muito menos neste momento em que todos vemos onde leva a extrema fé. Por outro lado, também não vos são feitas muitas perguntas, não é? Há vidas piores.

Estes problemas (do perdão às abortivas) considerados verdadeiramente importantes – e que por isso me fazem duvidar da sanidade mental de pessoas que aparentam ter neurónios, mas não se riem do que dizem – são a prova de que dentro deste mundo, mesmo deste “ocidental”,  há mundos de outro tempo, de outra dimensão, em que basicamente se continua a infantilizar as pessoas e concomitantemente a assustá-las com o sobrenatural e a levar à letra, e a sério, ideias caducas e ridículas, do tempo em que os animais falavam e ainda nem Shakespeare era nascido. É inacreditável. Neste caso do perdão ao aborto, como se as mulheres não tivessem mais com que se torturar depois de decidirem interromper uma gravidez do que com a salvação da sua “alma”. Não vou enumerar aqui os dilemas e as angústias concretas. Para cada um, basta pensar um pouco.

O castigo (ou o perdão) divino está tão deslocado no mundo real que parece um fenómeno do mundo do ISIS. E o triste é que é, embora com consequências menos violentas. Nem para os verdadeiros crimes o castigo ou o perdão divino interessam. Não resolvem nada.

Em ciência, fala-se na possibilidade de universos paralelos, eventualmente com idades diferentes, dada a imensidão do espaço. O estudo dessa teoria está a avançar e eu espero viver para saber as conclusões. Infelizmente, este mundo paralelo criado e mantido pela religião é outra coisa e em nada contribui para o conhecimento do universo ou dos universos nem sobre o espaço-tempo e o nosso caráter mortal. É de lamentar que demasiada gente desperdice o seu tempo com morais sobrenaturais e salvações e acate sem qualquer distanciamento histórias bizarras. Eu estou no outro, ao lado, a olhar com estranheza.

Trumpusconi, uma desgraça. Quero confiar nos americanos

Felizmente há nos Estados Unidos quem esteja seriamente preocupado com o exuberante homem da poupa amarela que se prepara para assumir o comando da mais poderosa nação do mundo.

Neste artigo que aqui trago (cuja leitura integral recomendo) e de que deixo alguns excertos, publicado na VOX, o autor implora que se aja neste prazo crucial de 100 dias até à tomada de posse para pôr algum travão no previsivelmente sem freios comboio trúmpico e evitar um futuro sufoco.

As letras garrafais do título talvez ajudem.

We have 100 days to stop Donald Trump from systemically corrupting our institutions

The transition period is our last best chance to save the republic

 

 

[…]As Tyler Cowen wrote several months ago, “If there were a President who wished to pursue vendettas, the regulatory state would be the most direct and simplest way for him or her to do so. The usual presumption of ‘innocent until proven guilty’ does not hold in many regulatory matters, nor are there always the usual protections of due process.”

And Trump is certainly a vengeful man. As he wrote in his 2007 book, Think Big And Kick Ass, “When someone intentionally harms you or your reputation, how do you react? I strike back, doing the same thing to them only ten times worse.”[…]

[… ]The crucial difference is that Berlusconi’s Italy was a full member of the European Union, with many critical economic policy decisions made in Brussels, its citizens protected by the European Court of Human Rights, and Angela Merkel and the European Central Bank eventually able to bully the Italian parliament into booting him from office. If Merkel couldsomehow induce Congress to dump Trump in favor of Mike Pence, she almost surely would — but this is the United States of America, and nobody can save us from ourselves.[…]

[…]As Ezra Klein has written, he operates entirely without shame:

“It’s easy to underestimate how important shame is in American politics. But shame is our most powerful restraint on politicians who would find success through demagoguery. Most people feel shame when they’re exposed as liars, when they’re seen as uninformed, when their behavior is thought cruel, when respected figures in their party condemn their actions, when experts dismiss their proposals, when they are mocked and booed and protested.

Trump doesn’t. He has the reality television star’s ability to operate entirely without shame, and that permits him to operate entirely without restraint. It is the single scariest facet of his personality. It is the one that allows him to go where others won’t, to say what others can’t, to do what others wouldn’t.

Trump lives by the reality television trope that he’s not here to make friends. But the reason reality television villains always say they’re not there to make friends is because it sets them apart, makes them unpredictable and fun to watch. “I’m not here to make friends” is another way of saying, “I’m not bound by the social conventions of normal people.” The rest of us are here to make friends, and it makes us boring, gentle, kind.” […]

[…]Personnel is policy, and if fealty to Trump determines the personnel, then fealty to Trump will also be the policy.[…]

[…]Above all, senators from both parties who know in their hearts that we are living through a dangerous moment need to avoid falling prey to wishful thinking. Because Trump is a vengeful and irrational man, picking a fight with him over an SEC commissioner or an assistant attorney general feels unpleasant, and many would simply rather duck the issue. But that vengeful and irrational nature is precisely why the fights must be picked and must be picked now.

Não é burro*

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De acordo com alguns leitores, tal afirmação nunca foi proferida por Trump. Segui o link aqui deixado e parece-me credível. Tal não impede, porém, e isto é uma maneira de corrigir as coisas bastante trivial, que eu ache que, se não disse, poderia ter dito. Mas, se não disse, não tenho dúvidas de que o pensou. É facílimo imaginá-lo a fazer uma aposta em como vai dizer tudo o que lhe apetece, verdades, mentiras, insultos, ofensas, ameaças, o cardápio completo de incorrecções, e vai ganhar as eleições. Foi o que aconteceu. Assim, mantenho que não é burro, que seguiu um capricho e se divertiu à brava com o resultado. Agora, o mais provável é não fazer nada do que andou a apregoar e faz sentido que tenha já anunciado que a América vai ser um enooorme estaleiro de construção civil. É o seu negócio, afinal.

OMG!

A esta hora, Trump ganhou e é o próximo presidente norte-americano. Como já foi dito, estamos perante uma espécie de segundo Brexit. Bastará agora Trump abrir a boca nas próximas horas, dias e semanas, à semelhança de Boris Johnson e Nigel Farage, para começarmos a ouvir muitos dos seus votantes a dizerem que não era a sério. No entanto, tal como na Grã-Bretanha, os dados estão lançados e não há outro caminho se não seguir em frente, não há volta a dar. Nas aterragens de emergência verdadeiramente arriscadas dizem aos passageiros em pânico: “brace for impact!” Os passageiros fazem-no com um misto de terror e de esperança de sobreviver. Assim se devem sentir 60% dos americanos e 70% do resto do mundo neste momento.

Uma coisa é certa: aquela poupa loira no alto da cabeça vai cair nos próximos dois anos, o que será provavelmente a única coisa boa a que o mundo vai assistir. A que preço iremos ver Trump a compreender que a vida não é um “reality show” sempre divertido?

Acudam à Helena Matos

Impressionante como a colunista do Observador abre fogo a propósito de tudo e de nada contra a Câmara Municipal de Lisboa. E o Governo nacional, evidentemente, que isto é tudo uma cambada. Imagina-se vítima de ocultação/sonegação de informações e parte do princípio de que ninguém em Lisboa quer dizer nada ao pagode, que se fala e fala e fala e anuncia e nada (de decente) acontece (!), que bom bom era ninguém pagar nada e a cidade ficar um mimo por intervenção divina ou por milagre de uma administração privada que nos poria a pagar exatamente da mesma maneira ou pior e com margem. Ou então, bom mesmo era a gestão entregue a Carmona Rodrigues outra vez. A sério. Ah, e tudo isto tem que ver com o modo de estar na vida das esquerdas. Convencidas de que só elas sabem fazer. E se só elas, Helena? Ai, pum! desmaiou.

Prossigamos. Vai haver uma Feira Popular para os lados de Carnide? Protesta: não sabe de onde vêm os 70 milhões de investimento anunciados e exige o nome e o NIF dos investidores, assim como a lista de compras, vendas e concessões por metro quadrado já. A distribuição exata dos postos de trabalho previstos. O número de carrosséis, rodas gigantes e montanhas russas e quem os vai instalar e o preço dos bilhetes. E quer que os moradores das imediações organizem manifestações ruidosas para fazer cair o executivo camarário por causa do ruído dos divertimentos, como fariam se a Câmara estivesse nas mãos dos amigos da Helena. É que, atenção, não sendo satisfeitas estas exigências, que mais ninguém ainda fez, o que é incompreensível, é tudo uma vigarice. Desde o Carmona Rodrigues e, presumo, do Santana Lopes do túnel, que a Câmara está entregue a vigaristas e incompetentes de esquerda, diz ela. Deve achar que a cidade está feia e pouco atrativa, querem ver?

Os obras da Segunda Circular foram suspensas em virtude de uma fraude não detectada anteriormente no concurso? Mas o que é isto? Rigor? Ela quer as obras já e mesmo assim! Depois, se se descobrisse um conflito de interesses estando a obra já em curso, ah, aí estaria a Helena a dizer que os socialistas são isto e aquilo e, no meio, as palavras corrupção e incompetência.

Mas afinal, ó Helena, dir-se-ia que nem tudo é conversa e há mesmo muitas obras em execução ou já executadas, adjudicadas sem qualquer problema ou esquema, e que tornam a cidade mais bonita e desfrutável. Pois é, a Helena não teve espaço, mas numa próxima oportunidade protestará porque a cidade está caótica. Possivelmente protestaria por haver carros e passeios estreitos a mais, ou passeios ocupados por carros, e em seguida também por haver carros a menos e pessoas a mais nas ruas em passeios demasiado largos.

Mas isto é um caso clínico. Esta história da Feira Popular, que vos parece? É isto normal?

Quanto às taxas. Voltemos às taxas.

E acalmemos a Helena, pelo menos com as taxas turísticas, que ela nem sequer paga. As outras são pagas praticamente em todo o lado – IMI, taxa de esgotos, etc. Em Bruxelas, por exemplo, paga-se ainda uma “taxa de chefe de família”, cuja designação nunca percebi. E há obras constantemente. E os muitos sítios feios da cidade têm agora alguma ou muita graça.

Paris –  a taxa turística era 1,50 € em 2015, mas aumentou e tornou-se flexível em 2016

Berlim – 5% sobre o preço do alojamento

Amesterdão – idem, 5 % por pessoa e por noite

Barcelona – varia entre 0,65 € e 2,25 € em função do tipo de alojamento

Roma, Florença, Veneza, etc. – variável em função do alojamento, mas pode chegar aos 7% em Roma

Bruxelas – 7,5 € por noite.

A ira da Helena é profunda e não vai passar facilmente. Como sabemos? Porque ela partilha connosco os temores das suas noites em claro e os pesadelos de quando dorme, a saber: se fosse uma Câmara liderada pela direita, haveria uma revolta armada da esquerda contra a instalação em qualquer lugar de uma “instituição popular” do Estado Novo como é a Feira Popular. Bem lembrado, Helena. Bem visto. Há noites em que dormir descansada é perda de tempo.