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Grande, Joana

Deixem-me ir contra a corrente. Não acho que o terço gigante da autoria da Joana Vasconcelos, em Fátima, seja muito feio (podia ser amarelo ou às cores) ou disparatado, visto da perspetiva do seu efeito e função. Para os frequentadores daqueles locais e das suas sessões colectivas, o dito objecto, naquelas dimensões, tem potencial para ser inspirador – seja lá do que seja – e empolgante. Em suma, parece-me eficaz no despertar do fervor e do êxtase religioso, intenção que decerto esteve na base da sua concepção ou da sua encomenda. É um símbolo grande e luminoso da devoção à chamada “Virgem Maria”, uma figura central do culto católico e no nascimento daquele lugar de romaria.

Não sei se a Joana Vasconcelos virou católica fervorosa (ou se já era) e fã de visões místicas e gostou de assinalar assim a sua nova condição, em grande, como sempre. Mas, se não virou, interpretou bem o que lhe foi pedido. Se não lhe foi pedido, então fez uma proposta ganhadora. Há-de haver muita gente, sobretudo à noite, a extasiar-se e, passada a efeméride, a agarrar nas contas do rosário caseiro com mais entusiasmo e “fé” lembrando-se daquele destaque. Objectivo cumprido, acho.

Mas para não parecer que sou boazinha, porque não sou, nos países árabes e noutros da orla do mediterrâneo, como a Grécia  ou a Albânia, há o costume – penso que mais comum entre os homens – de ir dedilhando uma espécie de rosário (sem a divisão em mistérios, só com contas, e estas um pouco maiores – na Grécia chama-se Kombolói; em árabe Masbaha) também para orações a Alá ou, mais simplesmente, na Grécia actual, para acalmar o stress ou apenas para se entreterem. Penso que estes “terços” sejam bem anteriores aos que, para os católicos, passaram a concentrar e servir de guia físico às orações mais típicas – o Credo, a Ave Maria, o Pai Nosso e a Salve Rainha, assim como para a meditação sobre a penitência do Cristo. Olhem, em vez de estarem a fazer outra coisa, as pessoas podem ir dedilhando e sibilando. Pacífico.

Há muito pouca coisa original neste mundo, em particular nas religiões. Aqui, quase nada é unifuncional ou exclusivamente místico.

Tema para discussão

Em comentários à peça jornalística da Fernanda Câncio, hoje no DN, que aborda (desenterra?) (a culpa foi do Marcelo) o esclavagismo, o racismo (há por vezes confusão entre os dois) e o colonialismo portugueses, a meu ver numa perspectiva indiferente a que objectivamente se acicatem ódios (onde praticamente não existem) ou que incute culpas – deslocadamente – nos humanos actuais, fazendo brotar obstáculos inúteis no já de si vulnerável terreno da relação entre países agora independentes e sim, algo miscigenados, isto tudo a pretexto de não se contar “toda a verdade” sobre Portugal nos manuais escolares, descobri uma hiperligação para o vídeo que se segue. Desconhecia o conceito de «marxismo cultural», mas a descrição soa-me a algo de familiar. O termo é uma catalogação, como outras de campos opostos podem ser. E o que se diz pode, por vezes, ser ofensivo para quem genuinamente luta contra discriminações de vária ordem. Mas não faz mal pensar no assunto e discuti-lo. Quanto ao “cancro”, pode ser obviamente, ou não, um termo abusivo. Digam vocês.

(o vídeo é curto e tem legendas)

Sem jeito

Como aproveitar o descontentamento com a emigração e o terrorismo, a crise financeira e a ascensão de partidos fascistas para sonhar com o regresso da revolução anti-capitalista

A posição de Jean-Luc Mélanchon sobre o voto na segunda volta das eleições presidenciais francesas é, por cá, apoiada pelo Bloco de Esquerda. (Do PCP, encontrei esta passagem no Avante! “Por seu lado, o Partido Comunista Francês apelou claramente «a barrar o caminho da Presidência da República a Marine Le Pen», que «constitui uma ameaça para a democracia, à República e à paz», utilizando o único boletim de voto disponível para esse fim.“. Macron será, portanto.) Mas, dizia eu, o Bloco concorda que os eleitores da esquerda derrotada representada por Mélenchon não vão votar, vão votar nulo ou vão votar em Macron. Tanto faz.

Que esta posição seja inteligentemente aproveitada e explorada por Marine Le Pen, que objectivamente ganha força, é-lhes indiferente. Ora, acontece que a indiferença nestes casos significa muito. Significa, nomeadamente, que não os incomoda ver Marine Le Pen no poder ou com representatividade reforçada. Aparentemente, seria até divertido, uma revolução fascista a espreitar muito fresca, em pleno século XXI. Seria uma situação extrema que lhes traria, a eles, pensam eles, hipóteses futuras de sucesso. Ou nem será isso. Será mais o espectáculo. Incomoda-os mais ver por lá Emmanuel Macron, um centrista moderado e europeista (não pode!).

Ontem, no programa Prova dos Nove, da TVI 24, Fernando Rosas estava com sérias dificuldades em defender tamanha posição. A má consciência pô-lo irritado (afinal, Mélanchon tinha dado instruções, em 2002, para o voto em Chirac; em Chirac, do partido UMP – da direita republicana), pelo que não lhe restou mais se não uma fuga para a frente. Dizia ele, furioso, que, está bem, a senhora Le Pen é racista e xenófoba e tudo isso, mas, com Macron, nada vai mudar! Nada vai mudar. É este o principal argumento. E como nada vai mudar, diz ele, com a certeza dos fanáticos e/ou interesseiros e/ou apostadores malévolos, conclui-se que é até preferível deixar ir a França para uma deriva fascista e nacionalista, pouco importando que tal arraste a Europa para o abismo da implosão. Não! Calma. Atenção que ele não diz isso. O que ele diz é que não quer isso (enfim, não quer o fascismo; a implosão da UE dir-se-ia que sim). Então como evitá-lo? Ora bem, se no vosso pensamento aparece a palavra «votar», esqueçam, a ideia é que vote em Macron quem quiser; ele, se lá estivesse, esperaria que alguém o fizesse por ele. Faria figas para que alguém o fizesse por ele. Ir lá pôr o voto em Macron é que não. Extraordinária posição, de facto. No fundo, crendo que Macron ganhará, é mau dar-lhe demasiados votos – o homem cometeu o pecado capital de trabalhar na banca, além de ter sido ministro da Economia de Hollande em 2014, apesar de se ter demitido em 2016. Já não é tão mau deixar a Frente Nacional ganhar votos nesta segunda volta à conta dos abstencionistas ou “protestantes” da extrema-esquerda. Ah, desculpem, é mau, é mau: mas haja quem o impeça, que eles não.

O melhor argumento

Longe de mim meter-me nesta pertinente polémica entre Maria Filomena Mónica (Expresso de 4 de Março – “Afinal a minha mãe tinha razão?”), o padre Portocarrero e, agora, uma professora de direito de Coimbra – Mafalda Miranda Barbosa – a propósito dos conceitos de “anulação”, “declaração de nulidade”, “anulabilidade”, “dissolução” e termos afins aplicáveis ao fim dos matrimónios católicos. Adianto apenas que a questão inicial a suscitar a reacção do padre era, mais pragmaticamente, o preço dessas operações e quem as pode pagar. Mas resolveram enveredar pelo direito canónico e os seus conceitos e disposições, algumas inacessíveis à compreensão humana que não recorra à ajuda divina.

Ora, nesse contexto, considero que a frase que aqui transcrevo, extraída da peça da professora Miranda Barbosa, hoje publicada no Observador, é dos melhores argumentos e postulados que se podem utilizar:

[… ] Nem é menos certo que há determinados aspetos da doutrina católica aos quais podemos aceder abrindo-nos à ação do Espírito Santo em nós.[…]

A Helena Matos sabe como nos divertir

“Encontrar um opositor ao líder do PS em funções em qualquer jornal, revista, rádio, televisão, boletim ou papel volante tornou-se com Sócrates e António Costa uma tarefa biologicamente falando quase impossível.

Quem o diz é a Helena Matos, colunista do blogue/jornal digital Observador, que mais opositores ao Governo (e ao seu líder) alberga. A não ser aí, onde diariamente “asfixiam” José Manuel Fernandes, Rui Ramos, Alberto Gonçalves, Vasco Pulido Valente, Helena Garrido, o padre Portocarrero, a Maria João Avilez e outros de igual calibre e pensamento, podemos encontrar uma profusão de gente “asfixiada” noutros jornais, como Paulo Rangel, João Miguel Tavares, os Saraivas, o Barreto, o César das Neves, mais três quartos dos escrevinhadores do Expresso, quatro quintos dos do Correio da Manhã e por aí fora. Não chega? Diz que não. É meia louca.

MOAB e FOAB – cultivemo-nos enquanto podemos

Segundo o terrível e quase sempre escabroso Daily Mail, a “mãe” de todas as bombas ( Massive Ordnance Air Blast – MOAB – ou, para facilitar, “mother of all bombs”) tem afinal um “marido”, que é o “pai de todas as bombas”. Mas estão separados. Ele vive na Rússia e é ainda mais potente e portentoso. Quatro vezes mais. Vai buscar, Trump. Tenho uma maior que a tua.

Um puto e uma incógnita (há a hipótese de Putin estar atónito) dos quais dependemos todos.

 

Father Of All Bombs

Mass: 7.1 tons

TNT equivalent: 44 tons (88,000lbs)

Blast radius: 300 metres (984ft)

Guidance: INS/GPS

Mother Of All Bombs

Mass: 8.2 tons

TNT equivalent: 11 tons (21,600lbs)

Blast radius: 150 metres (492ft)

Guidance: GLONASS

 

Não percebo é uma coisa: por que razão a MOAB é guiada pelo sistema GLONASS (o GPS russo)?

Bolo de chocolate e bombas

Depois de dois meses a falar da urgência de dar prioridade à América (pressupunha-se que em relação ao resto do mundo, o que significaria um fechamento) e das boas intenções dos russos, que não queria antagonizar, mas com os quais queria cooperar (ou seja, eles que tratassem dos das cabeças cobertas lá dos desertos), Donald Trump dá uma volta de 180º, bombardeia uma base aérea na Síria (dando a ordem enquanto saboreava bolo de chocolate em Mare-a-Lago), envia navios de guerra para a Coreia do Sul, ameaçando a Coreia do Norte, lança uma bomba de grande potência no Afeganistão contra esconderijos do Daesh, reconhece a importância da Nato, depois de dizer que estava obsoleta e de envergonhar os seus membros, e diz-se pronto a admitir o Montenegro nesta organização, contrariando os russos. O que se passa?

Perguntas e mais perguntas:

  1. Descobriu um passatempo alternativo ao golfe que o pode manter mais tempo na Casa Branca?
  2. Descobriu os prazeres do poderio militar do seu país?
  3. Agora que tomou o gosto pelos “jogos de guerra”, não vai parar?
  4. Terá neste divertimento a participação (e o incentivo) da filha Ivanka?
  5. Nada disto e está apenas a ser levado pelos falcões militares que o rodeiam?
  6. Saberá onde fica o Afeganistão, uma vez que ontem confundiu a Síria com o Iraque?
  7. Estará a ficar cheché? Nunca deixou de estar?
  8. Faz tudo isto para fingir que se está a distanciar da Rússia?

Avalanche de santos

Leio na France 24 que o padre que foi assassinado por dois jihadistas numa igreja na Normandia, Jacques Hamel, enquanto dizia a missa para meia dúzia de fiéis, poderá ser em breve beatificado, o que constitui o primeiro passo para se tornar santo. Os dois miúdos que acompanharam Lúcia nas suas alucinações também estão na calha para a canonização.

Ou o estatuto de “santo” está a perder valor, ou a igreja católica está a precisar desesperadamente de mártires (o padre seria um deles, pois, estando a trabalhar, automaticamente “morreu pela sua fé”) ou, terceira hipótese, a igreja anda algo desorientada com a concorrência e a pressão dos muçulmanos em matéria de mártires.

Mas, nesse caso, por que não beatificar todas as vítimas de camiões e automóveis (e aviões) utilizados pelos terroristas islâmicos nos últimos tempos? É certo que andavam simplesmente a passear e distantes do objectivo de “defender a fé cristã”, mas caramba. Foram assassinados em nome de uma seita religiosa antagónica.

Não me posso impedir de imaginar e de me intrigar com a consequência lógica de um atropelamento de um qualquer grupo de padres católicos a caminho do Vaticano por um camião conduzido por um tresloucado jihadista. Passariam todos a santos?

Os “deuses das moscas”* apenas numa semana e em meio urbano

Ainda a propósito da viagem de finalistas do secundário a Torremolinos, uma pessoa amiga fez-me chegar o seguinte texto, escrito por uma mãe cujo filho foi, há poucos anos, a uma viagem do género.

Aquilo que eu sei sobre as viagens de Finalistas do Secundário

O texto foi publicado num blogue para mim desconhecido até agora (“destinoomulher”). Transmite uma visão prática e muito terra a terra desta problemática, que não deixa de ter interesse discutir. No fim, deixa sugestões alternativas a estas saídas turísticas em massa. São sugestões bem intencionadas, eventualmente bem acolhidas por alguns, mas, a meu ver, esquecem o atractivo que é, para a maioria dos jovens, conhecer outros (e quantos mais melhor) para além dos da própria escola.

Mas como resolver isto? O acompanhamento por um maior número de responsáveis capazes de controlar o cumprimento das regras básicas parece-me fundamental.

*”O Deus das Moscas“, livro escrito por William Golding

A construção de uma “percepção social” contra um arguido parece-me crime

No que representa mais um tijolo na construção de uma percepção social negativa sobre o arguido, com base na qual e invocando-a muitos juízes decidem, o Ministério Público dá outra vez notícia, na revista Sábado, das suas suspeitas e teorias sobre José Sócrates. Apesar de o artigo começar com uma referência ao último interrogatório e de nos ser dito que Sócrates esteve nada menos do que cinco horas e meia a “contrariar de forma contundente” as acusações dos procuradores, o que é facto é que nenhuma dessa contra-argumentação nos é transmitida. E foram cinco horas e meia. Segundo o jornalista/porta-voz, o documento do MP, para além do pormenor de nunca mencionar valores definidos para as transacções de dinheiro vivo, refere apenas (da parte do arguido) a negação peremptória das teses do MP, a negação de intervenções em operações de adjudicação, a queixa de falta de provas e o “pedido de realização de novas diligências” por parte  de Sócrates, mas sem que “o resumo do depoimento identifique do que se trata“. Pois é, não interessa o que disse nem o que propôs. Não interessa, claro, ao Ministério Público para efeitos de criação da tal percepção. De quando em vez, o jornalista lá vai dizendo, por exemplo a propósito do caso PT: “O problema é que Hélder Bataglia e Joaquim Barroca, dois dos delatores do MP, desmentem que este negócio abortado fosse um esquema para transferir dinheiro para José Sócrates“. E eram delatores, note-se. Ao longo do artigo há outros pequenos problemas como este. Mas é tudo.

Confrontados assim, avassaladoramente, com a perspectiva do Ministério Público, afigura-se-nos uma lacuna grave, porque propositada, a ausência da contra-argumentação. É bizarro. No fundo, convidam-nos para um julgamento e mandam-nos sair antes do contraditório. Por outro lado, qualquer pessoa informada e com juízo defenderá que as teses das partes não são para andar a ser esgrimidas em revistas. Há locais próprios para o efeito e chamam-se tribunais.

Quanto à seriedade dos jornalistas que deveriam exigir as respostas concretas do arguido nos interrogatórios como condição para a divulgação das teses do MP, infelizmente passo. O jogo é sujo mas envolve receitas chorudas para a Cofina. E se são as próprias autoridades judiciais a convidarem a empresa para o festim… e para o crime, com que argumentos se recusa e se vai ser decente? Seria preciso haver ética. Está à vista que não há.

A mim, que fico sempre sem saber o que têm a dizer os visados pelas operações do MP, este tipo de artigos, sempre iguais, provoca-me nojo e revolta. Por que razão estas técnicas de denegrimento não são consideradas crime? Um indivíduo é obrigado a ler na comunicação social o que o MP entende divulgar sobre a sua suposta malvadez, no fundo o seu julgamento, e não tem o direito de contra-argumentar, nem pode, porque o julgamento não pode ser feito assim na praça pública! Será isto o Estado de direito? A Procuradora-Geral incentiva esta prática? O Presidente da República entende que tudo está bem e nos conformes ou tem medo?

Pândegos e amofinados em simultâneo

Asfixia, claustrofobia e, ainda há pouco, manipulação democrática. Estas pessoas da oposição, e quando na oposição, fazem questão de dizer que se sentem asfixiadas, enclausuradas e até manipuladas à mínima contrariedade. Não tenho pena da maneira como dizem que se sentem, até porque se trata de teatro, mas o vocabulário arrisca-se a escassear. Como não estão no governo, queixam-se desta maneira algo infantil. Quando tudo decidiam a seu bel-prazer, invocando a Tróica, e todos nós nos sentíamos verdadeiramente asfixiados e impotentes, a ponto de até o PCP ter desistido da agitação e ter assumido uma espécie de síndrome de Estocolmo (mas podiam ser resquícios da aliança tácita do passado), eles sentiam-se livres e eram felizes. Agora amofinam-se.

Têm, porém, reconhecido que todo o sufoco que sentem acontece em democracia. Menos mal. Amenizam a acusação, têm pruridos. Hoje, perante o brandimento da palavra «ditadura» na Assembleia, aguardo com expectativa se o agravamento da situação de mal-estar no sentido de uma mudança de regime – para uma ditadura (que mais ninguém vê) – os levará a manter o qualificativo «democrática». É uma curiosidade minha.

Vem isto a propósito do episódio de abandono da Comissão de Orçamento e Finanças pelo PSD, ocorrido hoje, devido à exigência de «simultaneidade» para dois cálculos da UTAO, e noticiado aqui (segundo a jornalista, com base nos relatos das partes envolvidas).

“Os deputados reuniram para debater o requerimento do PSD que, na sequência do anúncio da venda do Novo Banco à Lone Star, pedia à UTAO um cálculo dos custos para o Estado do alargamento dos prazos do empréstimo até 2046 ao Fundo de Resolução. Mas esse é um cálculo que, por si só, para os partidos da esquerda “não fazia sentido”, disseram aos jornalistas os deputados do PS João Galamba e do PCP Paulo Sá. E foi aqui que todos pareciam de acordo que era necessário fazer um acrescento ao requerimento do PSD, para clarificar o que era pedido.

De acordo com os presentes, foi o deputado Paulo Sá a apresentar uma solução: acrescentar ao requerimento do PSD um pedido de cálculo (também) das alternativas. Ou seja, se o PSD queria apenas avaliar os custos da decisão do actual Governo, o PCP propôs que se requeresse também uma avaliação do que seria se essa opção não tivesse sido tomada, uma vez que as condições, como estavam, previam que os bancos tivessem de pagar até ao final deste ano o valor dos 3900 milhões de euros.

O PSD acusa o PS de tentar “boicotar” a verdade, disse aos jornalistas o deputado Leitão Amaro, e de por isso ter provocado a discussão que culminou com a proposta do PCP. Na versão da esquerda, depois de o PCP apresentar a sua proposta, houve um “entendimento” que os dois pedidos se complementavam e que os dois seriam votados favoravelmente por todos, para que a UTAO pudesse fazer as duas contas em “simultâneo”. E foi esta a palavra que levou os partidos a trocarem acusações.

Adoro a credibilidade das instituições europeias…

…logo pela manhã:

Num relatório que analisa o desemprego em Portugal, a chefe de missão pelo BCE defende que as subidas do salário mínimo (em relação ao salário médio) estão a fazer aumentar o desemprego no país.

Ah, ah, ah…! “Aumentar o desemprego”. Que mundo paralelo é este? É o Observador que descobre esta pérola de objectividade e oportunidade e publica. Quem mais?

Dona Teodora, a sonora

Lendo o que esta senhora diz, só podemos não querer sair do procedimento por défice excessivo, não é? O raciocínio é o seguinte: sair é perigoso, porque se pode voltar a entrar. Por isso, segundo os seus doutos avisos, seria melhor mantermo-nos “lá dentro”, porque isto de sair e entrar é mau para os resfriados. Ora abóbora. Se não saíssemos era porque não saíamos e o Governo era horrível porque não fazia o necessário para nos livrar do sufoco. Se saímos, ah e tal, sim, mas existe o risco de “recaída”. Afinal que virtude existe no uso da palavra por certas pessoas?

Claro que voltar a entrar seria mau, embora não péssimo, mas isso também diria o Monsieur de La Palice, ó Dona Teodora. E se nos cai um meteorito gigante na pinha? Olhe que convinha avisar-nos, hem? Pode ninguém pensar nisso.

No entanto, Teodora Cardoso, a presidente desta entidade, tem dúvidas sobre o ajustamento estrutural até 2021 e avisa que nada garante, hoje, a 100% que Portugal não viola de novo o limite de 3% do défice. Aliás: “sair do défice excessivo e entrar no ano seguinte seria péssimo”, avisa.

 

Toca a dinamizar o mercado de transferências televisivo + crítica musical

 

Programação da noite das quintas-feiras da TVI24 e da SIC N. Serei eu a única a achar que o Pedro Silva Pereira tem nível a mais para estar a aturar o Paulo Rangel no programa “Prova dos Nove”? Eu sei que ninguém merece “levar” com tão impertinente e mal-comportada personagem em contexto de debate político, mas Pedro Silva Pereira tem um discurso demasiado claro, bem articulado, responsável e sério para tão básico e demagógico oponente. O Fernando Rosas também sofre com a incontinência verbal do tripeiro. Ainda ontem ameaçou abandonar o programa se a criatura não se calasse. Em suma, Paulo Rangel tem provado que estará sempre definitivamente a mais num painel de debate com adversários políticos. A sua argumentação oscila entre um estilo tentativamente rebuscado, e totalmente artificial, que lhe advém do exercício da advocacia, e um estilo menino Acácio malcriado e respondão. Não convence ninguém e só perturba. E não me refiro a perturbações profundas.

Por sua vez, ali ao lado no comando, o programa “Quadratura do Círculo”, na SIC Notícias, que começa pouco depois, está um tanto ou quanto estagnado e sonolento. Penso que o Pedro Silva Pereira na Quadratura, ao lado do Pacheco Pereira e do “pipi” do Lobo Xavier iria dar o picante necessário para voltarmos a olhar para aquilo com interesse. Muito gostaria de ver a postura do Pacheco caso aceitasse o desafio.

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Gosto de música e consumo todos os géneros. Depende da hora do dia, do local e da disposição. De manhã, por exemplo, ninguém me verá a ouvir música clássica. À tarde ou à noite já sim, e de preferência em salas de concertos. Já os últimos “hits” da pop, do rock, do rap, do hip hop e por aí fora é de manhã ou nunca. Nada (ou tudo) a ver, mas aqui há um ano, mais ou menos, a fadista Carminho e os HMB, uma banda dita “soul”, resolveram conjugar vozes e estilos e o resultado foi muito bom na interpretação de “O amor é assim”. Agora, não sei se por imitação, ouve-se por aí na rádio, felizmente poucas vezes, uma “canção” que junta também uma fadista, a Ana Moura, e o rapaz das argolas, o Agir (aliás, com uma boa voz). O resultado desta combinação é um desastre. Não percebo como é que a Ana Moura não cortou a tempo esta parceria e deixou sair a produção.

 

 

 

 

 

Não é tempo de alguém pôr ordem nisto?

Onde está a decência destas pessoas?

Tenho estado fora do país. Mas li que velhas práticas se repetem. Depois de umas incursões noutros jornais e revistas, o Ministério Público continua alegre e impunemente a manter viva a parceria com o Correio da Manhã para a divulgação das teses que não consegue provar no que respeita à Operação Marquês. Li até, e quase não acreditei, que estavam a ser transmitidas numa televisão as gravações dos interrogatórios.

Eu diria que isto é demais e que já dura há demasiado tempo. “Eu diria”, não. Eu digo. Mas a Ministra da Justiça o que tem a dizer sobre isto? Achará bem e normal o que se está a passar com a Justiça? Com os prazos que não são prazos, mas um apontamento anedótico da lei? Os atropelos descarados ao Estado de Direito não lhe merecem um reparo? Quem é afinal o responsável por este esquema viciado, que desrespeita por completo os direitos dos arguidos, condenando antes de acusar? Nada lhe é apontado, de nada é acusado? É possível ouvir sem rir e sem agarrar no telefone a Procuradora-Geral dizer que vai abrir um inquérito interno? Não há nenhuma conversa a ter com esta senhora sobre esta matéria? O Presidente da República, que em tudo intervém, não acha que é tempo de tornar a Justiça séria, digna, imparcial, racional e, enfim, competente?

Porque o que se passa de aberrante é o seguinte: o MP prende um indivíduo porque lhe apetece, já lhe apetecia há algum tempo, instigado pelo ambiente político e por raiva corporativa, e porque entende que o povo vai adorar. A comunicação social é avisada para o “show”. Não há a mínima prova consistente para o acusar, mas isso parece não interessar. O indivíduo é mantido preso durante meses e apenas libertado a contragosto do senhor juiz, que, por ele, o manteria preso até ao fim dos seus dias. O MP, obrigado a investigar, patina nas investigações. Chamam-se então uns jornalistas e combina-se que se lhes passa um determinado material, neste caso as suas teses, suposições e desconfianças. Os jornalistas aceitam, olá se aceitam!, e publicam. Publicam, aliás, sabendo que tais teses e desconfianças devem ser lidas como verdades. Não discutem. O negócio é comprar e depois vender da maneira mais atraente. Aliás, os que menos discutem e contrapõem, e pelo contrário acentuam por todos os meios a mensagem pretendida pelo “fornecedor”, são os que terão garantido o prolongamento da parceria e, logo, maiores receitas para o seu jornal. Assim, pobres dos jornais que não queiram entrar no esquema. E triste o dia em que o esquema acabar!

O objectivo é sempre o mesmo: destruir a imagem não só do, mas também dos arguidos até já não ser possível alguém decidir pela sua inocência, sobretudo “do” arguido por excelência. Mas entretanto, o que sabemos nós do que diz Carlos Santos Silva, por exemplo, o alegado depositário da fortuna de Sócrates? Nada. Zero. Era sequer rico?? Por que razão dá o MP crédito ao que disse Helder Bataglia? O homem não estava sujeito a um mandado de captura internacional? Não estaria disposto a dizer tudo o que agradasse aos ouvidos dos procuradores para poder circular em liberdade? No meio disto tudo e para reforçar a seriedade do processo, a defesa não tem acesso ao material fornecido aos jornalistas. Não conhece o que dizem as pessoas ouvidas, não conhece a acusação. Não pode exercer os seus direitos. Acresce que a classe dos juízes ri-se em peso de cada vez que é interposto um recurso e afasta os colegas que com eles não riem. Isto é uma autêntica bandalheira. Uma pouca-vergonha. E quando a pouca-vergonha vigora na Justiça, há ou não há algo a fazer? Tem que haver.

 

“Eu vejo-os todos entendidos e chateio-me, claro que me chateio!”

A Helena Garrido (aqui, no Observador), dando voz à direita em geral, continua sem compreender o porquê de terem perdido os seus aliados tradicionais no combate aos socialistas – o PCP e o Bloco. Está inconsolável. Vai daí, carrega nas hipérboles e diz que Costa tem mais poder do que qualquer outro anterior primeiro-ministro em democracia; chama, pasme-se, guardiões da democracia aos dois partidos – “críticos e escrutinadores da democracia, da liberdade, do cumprimento da lei e da ética” (ena!).

Lamenta-se da seguinte maneira trágica: “O que nos pode restar? Quem pode impedir que este Governo se transforme numa espécie de “o Estado sou eu”?

Ah, Helena, que triste, parte-se-nos o coração de a ver tão angustiada, como se, no governo anterior, aqueles dois partidos tivessem algum poder de fogo contra os abusos dos passistas e portistas!

Surpreende porém que, apesar do choro, mantenha ainda algum sentido de humor, como aqui:

“[…] quem acompanhava a economia lembra-se como era importante ouvir as análises dos comunistas aos Orçamentos e como se devia estar sempre atento ao que afirmava o Bloco, primeiro com Francisco Louçã e depois com Catarina Martins.” Ah, sua maluca. Danada para a brincadeira. Mas eles continuam a pronunciar-se!

Mas Helena acaba por tocar num ponto sensível e muito importante da actual situação: pelos vistos, o PSD e o CDS não podem fazer o papel que ela considerava atribuído aos comunistas e bloquistas, a saber, o de escrutinadores e guardiões das liberdades. Mas e não podem porquê? Ela responde: porque já foram poder. Ora bem, aqui é que bate o ponto. Se tivessem exercido bem esse poder, e sido um bom governo, a actual solução não teria tido sucesso. Se não tivessem feito figuras tristes no panorama europeu, por exemplo, ou na condução da governação, ou a nível da moral e da ética, estariam agora em muito boas condições para darem lições aos outros. É um facto, não estão. Choremos, portanto.

Engraçado é que, por muitos encómios que teça aos seus ex-chuchus da extrema-esquerda, Helena acaba por lhes dizer que eles estão bem é na contestação e no protesto. Nunca na assunção de responsabilidades. Para elogio não está mal.

 

Forte humor partidário e situação da oposição

Hoje de manhã, no carro, ouvi, na Antena 1, Luís Montenegro, do PSD, dizer que, em caso de rompimento definitivo do acordo que estabelece a base de apoio ao Governo PS, não era obrigatório irmos para eleições. “Em tese, não é?”, dizia a jornalista e ele corroborou, acrescentando que, como o PS é actualmente minoritário no Parlamento, poder-se-ia formar um governo de coligação PSD-CDS com o apoio do PS. É claro, ó Montenegro! Como é que ninguém vê tal evidência? (Esta anedota já se encontra relatada aqui)

Percebe-se que as eleições são a última coisa que lhes interessa, dadas as sondagens. Então, dedicam-se ao anedotário, procurando convencer-nos de que ainda vivem na ilusão de que a vitória obtida em 2011 lhes vale para mais alguma coisa do que para darem o lugar a outros.

A questão é a seguinte: a tropa passista continua a ser actualmente o PSD; não há outra gente. Com ela, continuaríamos com as mentiras, com a submissão à linha única de pensamento austeritária, com a destruição da escola pública, da Caixa pública, os esquemas esquisitos na banca, com o desprezo pelo Estado social, de regresso à caridade e à emigração, etc. Além de que é difícil descortinar quem, na direita, com um mínimo de credibilidade, gostaria de se lhes associar. A estes, aos mesmos.

Por mim, podem continuar a manter o Passos como líder do partido e, portanto, da oposição. É a melhor garantia de que não haverá desentendimento à esquerda. O PSD tem dificuldade em perceber isto. Ou talvez não, pelo menos o PSD que ainda disponha de algumas cabeças pensantes, pois é verdade que, neste tempo de vacas magras para eles, alguém tem que estar na liderança e agradecem que esta direcção aprecie o sacrifício. Mas esta tropa está convencida de que a táctica passada da pulhice, da chicana e da irresponsabilidade os há-de levar ao poder de novo. Já são conhecidos, é impossível.