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Fui paga para dizer isto

Se as quintas-feiras de Cavaco foram desconfianças, avisos de cátedra, discordâncias e sensações de deslealdade permanentes, imaginem as do Sócrates, obrigado a aturar com compostura, ali sentada à sua frente, a criatura mais sinistra, rancorosa, dissimulada, invejosa e mau-carácter da nossa democracia, que, todos os dias, incluindo às quintas, urdia planos para o derrubar, desejando obter dele informações privilegiadas para aperfeiçoar as tramóias?

Para quem queria discrição e alegava independência, Domingues está completamente mediatizado e politizado e pelos piores motivos

O PSD e o CDS andam destrambelhados com a boa execução orçamental e os dados da economia e entraram em delírio, mas este lado do país felizmente ainda não perdeu a noção da realidade. O senhor António Domingues (ele, a sua equipa ou só a sua equipa, pouco interessa, porque havia solidariedade nessa questão) não queria apresentar as declarações de rendimentos e de património ao Tribunal Constitucional enquanto administrador do banco público. Não queria. Não queria, ouviram?! Com isso, criou um problema ao Governo. Para o tentar resolver, a esse e ao problema do salário, o Governo aceitou alterar o estatuto do gestor público, na convicção de que tal bastaria para a dispensa pretendida. O Presidente da República fez saber que a lei 4/83 continuaria a aplicar-se apesar da alteração do dito estatuto. Domingues sabia da posição de Marcelo. Domingues sabia também da contestação política que poderia surgir no Parlamento. Quando percebeu as vicissitudes da democracia e a impossibilidade de o ministro das Finanças satisfazer o seu pedido (como se dependesse só dele), demitiu-se, foi-se embora. Não gostou, não comeu. Assunto encerrado.

Mas afinal não. Ao passar a Lobo Xavier as mensagens de telemóvel trocadas com o Ministro, António Domingues entra claramente na luta político-partidária à qual o julgávamos alheio. E fá-lo porquê? Porque, como alega Xavier, não gostou de ouvir o ministro dizer que não existia acordo algum com ele sobre a dispensa das obrigações para com o TC? Mas, esperem aí, tendo em conta o que se disse acima, esse acordo, a existir, alguma vez poderia ser firme e irreversível? Um acordo por SMS? Então e o Presidente, então e a Assembleia? Então – ironia das ironias – e o jogo político dos seus amigos PSDs e CDSs? A vitimização de Domingues é absolutamente ridícula!

Nesta história, falta ainda perceber se Domingues se foi queixar ao amigo do BPI para se vingar – e de quem, senhores? – ou se foi Lobo Xavier que viu ali uma boa oportunidade para fazer chicana política e tentar fragilizar o Governo. Resta saber. Mas a nova comissão de inquérito não deixará de lhe exigir a troca de mensagens que ele, administrador de um banco privado, efectuou com o então administrador e depois ex-administrador do banco público.  Estamos a assistir à génese de um atoleiro da direita.

O António Domingues ficou furioso ao ponto de andar a passar SMS privadas ao Lobo Xavier?

Em defesa de Mário Centeno

A António Domingues e aos restantes novos administradores da Caixa deu-lhes para não quererem apresentar a sua declaração de rendimentos e de património ao Tribunal Constitucional por não gostarem que os jornais fizessem parangonas com a sua situação patrimonial. Podia dar-lhes para pior, como gerir a caixa a partir das torres giratórias do Dubai. Felizmente, queriam apenas discrição. De certo modo, e conhecendo os jornais, compreendo-os. É também sabido que já estavam obrigados por lei a apresentar as ditas declarações ao Banco de Portugal. E acresce que, segundo li, o TC pode, de facto, decidir não tornar públicas as declarações entregues, a serem entregues. Por conseguinte, a exigência da nova equipa, embora bizarra e atrevida, merecia, pelo menos, ser analisada, estudada e equacionada. Não creio que devesse ser imediatamente rejeitada, tanto mais que não brotam do chão, com a chuva, trezentos gestores competentes para o banco público em Portugal.

Agora, para sermos francos, a demora no estudo das soluções mais adequadas para o problema, assim como, a partir de certo momento, o protelar do seu fatal desfecho, não era prejudicial, antes pelo contrário, ao bom desenrolar das negociações com Bruxelas, para “quem” o pormenor das declarações era irrelevante, ridículo ou desconhecido.

Assim, não me surpreende que o ministro das Finanças, com outros problemas bem mais importantes para resolver lá fora, como o da autorização e o das condições e implicações da recapitalização do banco público, e a necessidade de entretanto apresentar e garantir uma equipa competente, entendesse que poderia satisfazer aquela exigência de alguma maneira. E mais, que, se não conseguisse, conseguiria outras coisas bem mais importantes entretanto em Bruxelas. Parece-me que foi o que aconteceu.

Onde está, neste contexto, o problema de Centeno tentar manter a equipa até garantir em Bruxelas uma luz verde para uma capitalização pública que não afectasse o défice? Onde está o problema de trocar SMS com o dr. Domingues dando-lhe a entender que a sua exigência poderia vir a ser resolvida (se é que foi isto que aconteceu)? Quer isto dizer que o iria ser? Não, não quer. É essa a relatividade de uma prova como uma conversa telefónica ou uma mensagem. Não conhecemos a intenção por trás das palavras. Tratava-se de uma negociação. A resposta final, aliás, nem dependia do ministro! Por outro lado, a equipa de Domingues sabia ou não sabia dos entraves e até da opinião do Presidente? É claro que sabia. Mas manteve-se até ao fim do ano! Seria, portanto, melhor não se meter em vinganças parvas. Mudar de advogados ou de ambições seria bem mais sensato e decente.

Mas por que alimenta o governo a chicana destes decadentes?

António Domingues demitiu-se há mais de dois meses. Teve as suas razões – uma delas porque o que exigiu não foi possível passar no Parlamento, apesar de o Governo lhe ter dito que satisfaria a sua exigência de mudança do estatuto do gestor público (pela via legal, claro), compromisso que cumpriu, eventualmente prevendo, ou garantindo-lhe, consequências improváveis. António Domingues foi à sua vida, seguramente lamentando que a política se tenha metido no seu caminho, como se o banco público lhe pudesse ser oferecido como privado de bandeja. Foi embora e parece-me que em boa hora.

O ministro Mário Centeno esteve, durante uns meses, entalado entre a urgência de dar uma administração independente, competente e credível à CGD – ao mesmo tempo que negociava com Bruxelas as condições da recapitalização-, e as exigências dos novos gestores, que exageraram na noção da sua imprescindibilidade.

Esclarecida e mais do que esclarecida está também a questão de o PSD e o CDS mais não quererem do que criar confusão com aspetos secundários e ultrapassados, insistir numa tecla por não terem mais nenhuma, tocá-la com mais força de cada vez que ouvem as boas notícias da economia e das contas públicas. É isto e nada mais do que isto. Como se as discussões entre Centeno e Domingues tivessem de ser fáceis e 100% do domínio público!

Mas agora, senhores, agora o assunto está encerrado. Já chega, já percebemos, a Caixa já seguiu em frente, basta!

António Costa e Mário Centeno deviam acabar com isto. O que é que Mário Centeno ainda tem que responder mais? E se o PSD está a querer fazer chantagem com a demissão do ministro para aprovar futuras medidas, tornem-na pública e, se for caso disso, vamos para eleições ou proponham-nas ao presidente e ele, se não as entender como benéficas, que venha pôr ordem na desmiolada direita. Não foi bem o que fez.

Lembro que esta oposição está constituída pelo maior grupo de aldrabões que jamais passou por um governo democrático em Portugal, daqueles mesmo aldrabões em assuntos importantes, que chegaram ao poder com base em mentiras e que nenhum pudor tiveram em continuar a mentir em várias etapas da governação, e que nenhum deles foi demitido. São pessoal mais do que rodado em jogadas oportunistas e irresponsáveis. Portanto, olhando para as sondagens, o melhor é mesmo mandá-los bugiar. Neste momento, só eles próprios se gramam e mais ninguém tem paciência para o espectáculo que dão.

O vibrador da direita

Ler a caixa de comentários à crónica do Alberto Gonçalves no Observador é testemunhar o grau de excitação e a qualidade orgasmática que (ainda) faltava à direita atingir naquele jornal digital (blogue é outro nome que se lhe pode dar; outro ainda é blogue de avençados) . Pazinhos, paguem-lhe bem, não o deixem fugir mesmo (sim, confirma-se que este é o medo de alguns comentadores). A vossa alegria sofreria rude golpe e seria uma pena. Pão e circo (e por que não sessões de pornografia!) são fundamentais para as hostes deprimidas da direita.

A quem, por questões de saúde, se recusar a ir ler, não posso deixar de informar que o tema que inspira e acompanha a vibração é o seguinte: quem defende governos de centro-esquerda é pago para o fazer. Quem defende governos de direita ou extrema-direita fá-lo por convicção e amor.

E se Ricardo Salgado tiver razão?

Não sei onde nem como Luís Rosa obteve toda a informação contida nesta sua peça no Observador sobre as declarações de Ricardo Salgado no interrogatório no DCIAP. Mas, tomando como referência o Correio da Manhã, o tema “Hélder Bataglia (e Álvaro Sobrinho) vs. Ricardo Salgado” e a Operação Marquês até não parece mal tratado de todo. A história da relação de Hélder Bataglia com o GES, descrita por Salgado, faz sentido. O “arranjinho” de Bataglia com o Ministério Público também se compreende melhor à luz das declarações de Salgado aqui reveladas.

Se Bataglia mentiu para se safar, como também aventa Miguel Sousa Tavares ali em baixo, como e de quê acusar Sócrates?

Vale a pena ler.

“Assunto encerrado” e que vigore o absurdo e o desacordo

Quem for ler o que diz a Wikipedia sobre o Acordo Ortográfico de 1990, e julgo que o que lá se diz está correcto, fica com uma ideia de irreversibilidade do Tratado Internacional que o estabelece. De facto, ainda que o processo tenha sido demorado, a verdade é que os vários países, começando por Portugal e pelo Brasil, foram-no ratificando ao longo do tempo, já só faltando Angola. Nada a fazer, portanto, dir-me-ão. Está em vigor, queira isso dizer o que queira. Mas «nada a fazer» é, neste caso, uma expressão demasiado assustadora para ser aceite. Estarão as próximas gerações condenadas a não fazer distinção entre «para» (imperativo e presente de «parar») e «para» (preposição)? A não saber onde pôr os hífenes, se em «cor de laranja», se em «cor de rosa», se em «cor de chumbo» ou em «cor de burro a fugir»? A sentirem-se intrigadas por «concessão» (ou «recessão») não ser o mesmo que «conceção» («receção») e pelo facto de a segunda palavra ter o «e» aberto? Estas e outras aberrações e dificuldades não fazem qualquer sentido. Não fazem para os brasileiros, que se borrifam, pois não têm que escrever os vocábulos da forma agora imposta neste lado do Atlântico, e sobretudo não fazem para nós, que os escrevíamos como os brasileiros.

No blogue Causa Nossa, a propósito da recente tentativa de revisão do acordo, Vital Moreira diz que ainda bem que o Governo veio dar o assunto por encerrado. Bom, diplomaticamente, cabe a Augusto Santos Silva dizer que o acordo está em vigor e tem que ser respeitado, havendo apenas que esperar pela sua ratificação por todos os signatários. No entanto, se bem entendo, não fecha a porta a uma revisão (DN: “O Acordo Ortográfico está em vigor em Portugal, é um acordo internacional que obriga o Estado português”, referiu o ministro, acrescentando que “evidentemente que nada está isento nem de crítica nem de possibilidade de melhoria“.). Logo, o assunto pode felizmente não estar encerrado, ao contrário do que é dito.

Em Portugal, poder-se-á dizer que o AO90 vigora, mas o facto é que não é amado. Só os organismos públicos (e os professores, mas excluindo muitos universitários) o cumprem, ou tentam cumprir, e muitas vezes mal e com dúvidas. Se isto não é razão para pôr as autoridades a refletir sobre o que está mal e a admitir que se questione a irrevogabilidade do acordo internacional, pelo menos na parte que nos toca, não sei o que poderá ser.

Esta afirmação de Vital Moreira que passo a citar tem muito que se lhe diga:

A língua portuguesa é um património plurinacional dos países que a compartilham, de que Portugal nem sequer é o maior dos condóminos“.

Isto equivale a dizer que o Brasil, o país da CPLP com maior número de habitantes e de falantes, ditará sempre as regras de futuro do português, por ser o “condómino” de maior peso, limitando-se a ouvir os outros por uma questão de boa educação e a conceder-lhes uma migalhas da sua própria grafia. Um absurdo. Sendo a língua a mesma na sua estrutura gramatical e vocabulário de base, é impossível não reconhecer a cada comunidade de falantes o direito de a ir enriquecendo e utilizando de acordo com lógicas e contextos próprios, coisa que, aliás, reconhecemos aos brasileiros. As harmonizações, a fazerem-se, só deveriam ser fruto de uma necessidade comum, que não parece existir, pelo menos no que respeita à maior parte dos vocábulos abrangidos.

Os assuntos da língua já não se decretam autoritariamente em Lisboa” – acrescenta ainda Vital Moreira.

Então? Foi o Brasil ou Cabo Verde que nos propuseram a queda das consoantes mudas? Difícil de acreditar. Impossível.

Dizem-nos que havia também um objectivo económico (venda mais fácil de livros de Portugal nos outros países), mas, segundo leio, também esse não se está a concretizar. Não houve diferença.

Importante mesmo é que, se o objectivo principal invocado era harmonizar e simplificar a ortografia, esse objectivo gorou-se logo à partida, pois, para além das muitas grafias facultativas, em muitos casos até se verifica o oposto de uma harmonização – fica diferente o que dantes era igual.

Voltemos a Vital Moreira: “Primeiro, tendo endossado o AO de 1990 (como se relembra nesta excelente comunicação), a ACL (Academia de Ciências de Lisboa) carece de qualquer legitimidade para, passados estes anos todos, vir questionar a autoridade e legitimidade científica do Acordo.”

Esta crítica só aparentemente é certeira, porque, se o acordo não está a cumprir os objectivos visados nem está a ser aplicado por uma parte dos países membros, estamos de facto perante um problema, eventualmente imprevisto, cuja solução não pode ser a ignorância do mesmo ou a pretensão de que tudo está a correr às mil maravilhas. Não está e há razões para que a própria Academia dê a mão à palmatória.

Segundo, antes de propor qualquer “aperfeiçoamento” do AO, a ACL deveria apresentar essa iniciativa na sede própria da CPLP, que é a Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP).”

Muito certo, nada obsta a que isso aconteça, mas o facto de dentro de Portugal andar uma grande embrulhada à volta do acordo, merecendo este até o desacordo de quem o propôs, é a prova provada de que o seu principal promotor deve primeiro definir o que quer.

Enfim, eu que até já escrevi em conformidade com o AO durante algum tempo por a tal ser profissionalmente obrigada e, fora da profissão, ter entrado em modo “piloto automático”, deixei-me agora disso, pois verifico que o acordo emperra de facto em alterações absurdas, que, em Portugal pelo menos, dificultam em vez de facilitarem a pronúncia e a compreensão.

Portanto, senhores do IILP, reúnam-se por favor e quanto antes melhor. Mas Portugal deveria apresentar uma proposta internamente consensual. Facilita que muitos defensores do acordo reconheçam haver nele absurdos.

 

“Um sabujo da Internet”, ó Dâmaso?

As páginas e páginas que o Correio da Manhã tem vendido com artigos sobre o Sócrates assentam num ódio inexplicável. Se dúvidas houvesse, e há muito que não há, a colunazinha assinada pelo Eduardo Dâmaso no CM de ontem, ao lado de páginas onde mais uma vez se repete a lenga-lenga do Ministério Público sobre o dinheiro de Carlos Santos Silva, que os juízes e toda a gente sabem ser do Sócrates, pois um engenheiro civil com negócios múltiplos e variados, no país e no estrangeiro, viveria na pobreza mais extrema não fossem os esquemas do amigo Sócrates, mas, dizia eu, a colunazinha do Dâmaso prova como nada do que o pasquim publica sobre esta matéria é minimamente objectivo e sem agenda.

Ora, para além do Sócrates, ou por causa dele, o Dâmaso odiava o Miguel Abrantes, do blogue Câmara Corporativa, e fica hiper-raivoso por saber que “Miguel Abrantes” era o pseudónimo de um senhor chamado António Peixoto, ex-funcionário do Ministério das Finanças, e que dizem ter sido remunerado a título particular pelo trabalho como bloguista político. Chama-lhe, então, “sabujo” (e ainda “cãozinho de guarda”). O termo é feio e ofensivo. Ó Dâmaso, a tua vontade era abatê-lo fisicamente, não era? Ou criares condições para? Porquê o ódio?

Ora, acontece que o autor do referido blogue era de uma competência, objectividade e qualidade que jamais observei em nenhum outro bloguer político. Não sei de onde saiu, nem onde o Sócrates ou algum seu amigo o desencantou, nem a sua história anterior como escrevinhador, mas o que é certo é que o Câmara Corporativa era imbatível em qualidade e eficácia. Era imperial. Fazia inveja. O Pacheco Pereira vivia obcecado.

E o que fazia de tão abjecto o “Miguel Abrantes” para deixar os direitolas de cabeça perdida? Divulgava notícias falsas? Mentia sobre a governação? Mentia sobre a oposição? Não, nada! Limitava-se a repor os factos quando eram por outros distorcidos, deixava a direita desorientada, apresentava números, documentação, citações, fazia humor quando era preciso, enfim, um profissional genial. Não sei se recebia dinheiro pelo trabalho. Se recebia, era merecido. Se há crime nisso, confesso que me surpreende.

Pessoas ligadas ao PSD confessaram espalhar notícias falsas e minar os programas de debate radiofónicos e nada lhes foi apontado.  O Dâmaso não lhes chama “tralha”, como chama aos blogues anti-direita. Inúmeros bloguistas, que não pertencem à tralha e são gente fina e mesmo escorreita,  transitaram para o governo do Passos. E o “Miguel Abrantes” é que é o “sabujo”?

Como se fosse possível nada fazer

Começamos a ler opiniões sobre o que se passa nos Estados Unidos que se inclinam na seguinte direcção: protestar contra as medidas de Trump e as suas “executive orders” é contraproducente, é o que ele e o seu “staff” desejam e é totalmente ineficaz. E diz-se que é o que “desejam” porque os protestos são por eles (os da máquina do Trump) considerados um escape para o choque e as tensões provocados pela nova administração, um escape capaz de fornecer bem-estar aos participantes pelo cumprimento de um dever de consciência. No final, regressam a casa e ao trabalho e tudo se acalma. É um desejo com possibilidades de se realizar, de facto.

Este artigo (“The immigration ban is a headfake”), que se enquadra nessa perspectiva, aventa uma teoria ainda mais sofisticada: que a proibição de entrada no país a cidadãos de determinados países muçulmanos decretada por Trump serve para duas coisas. Primeira, testar os limites da obediência dos serviços; segunda, distrair as atenções de medidas muito mais graves que estão a ser tomadas, como a nomeação de Steve Bannon, o fascista e supremacista branco, para o NSC.

Também o jornalista comunista Pedro Tadeu, no DN de hoje, diz que os protestos não são maneira de combater o Trump. Que tal exige paciência e tempo.

Tudo isto pode ser verdade. Mas estas opiniões não deixam de ser derrotistas e imobilistas. No caso do Pedro Tadeu, a sua teoria de que o que Trump disse em campanha foi o que a maioria dos americanos sente e continua a sentir e a apoiar (fica subentendido que por ser verdade), e que por isso há que ter em conta e respeito(?) pela base de sustentação do novo presidente, parte de um princípio não atendível: o de que o retrato de declínio, má governação, pobreza e desemprego traçado sobre a América corresponde aos dados mensuráveis e observáveis. E de que as medidas por ele propostas e agora postas em prática conduzem a algum bom porto. É evidente que não corresponde e que não conduzem. São mentiras propagadas aos quatro ventos para justificar esta chamada «revolução», sustentada pelas petrolíferas, pelo ramo hoteleiro do próprio Trump, pela indústria das armas e pelos sectores mais retrógrados em matéria de direitos sociais, tolerância e igualdade, que nunca deixaram de existir nos Estados Unidos. Não reagir e não conduzir um combate inclemente contra as mentiras e a prepotência é pactuar com elas.

Ao contrário do Tadeu, eu espero que os norte-americanos civilizados e sensíveis aos valores da democracia e dos direitos humanos não se calem e não desistam de lutar. Nem que haja uma guerra civil. Trump não foi eleito por estar tudo mal nos Estados Unidos e a precisar de uma revolução. Nem por causa do protagonismo da China. Nada disso. O problema mais grave da especulação financeira que causou uma desgraça mundial há bem pouco tempo não irá ser resolvido com os Goldman Sachs contratados pela nova administração nem há qualquer vantagem em tentar dar cabo da China. De todo. Nem é essa a preocupação, de resto. Trump foi eleito porque lhe apeteceu divertir-se, em primeiro lugar, e porque tinha do seu lado uma poderosa máquina de marketing e propaganda, porque contou com a ajuda profissional da Rússia para o desgaste da opositora, porque esta já de si não era convincente nem genuína e porque todos têm medo do terrorismo e pouca gente consegue desligar o terrorismo da religião muçulmana, não sendo fácil esse desligamento para o combater.

Dito isto, e olhando para a Europa, seria desejável que não fossem precisos Trumps europeus, com toda a artilharia pesada dos tipos extremistas de direita – a xenofobia, o racismo, a homofobia, a intolerância, a loucura -, para se dizer o que deve ser dito e fazer o que deve ser feito em matéria de imigração e terrorismo e de defesa dos nossos valores, e também de funcionamento da moeda única. A social-democracia parece ter medo de exigir respeito pelos princípios que nos trouxeram desenvolvimento e bem-estar. Depois não se queixe. É que ninguém poderá chamar aos valores da trupe do Trump os valores ocidentais. A falta de coragem tem riscos.

Irreal! “God” digo eu

Como descrever isto? Trump não tem descrição possível. Um multimilionário rodeado de ouro discursando como se fosse um pregador pé-descalço no sertão brasileiro do século XIX. Vivemos tempos extraordinários, de facto. Penso que ainda não acreditamos em nada do que diz, olhamos para o Mike Pence e desejamos que tenha algum senso, mas receio que façamos mal. O que vai acontecer, céus?

Mas respiremos fundo. A cerimónia. Esta cerimónia, com aqueles padres, aqueles coros, aqueles mórmons, as leituras da Bíblia, recuámos quantos anos? Setenta?

A tia Assunção a fazer um número. Saiu-lhe tão mal

O senhor mentiu! O senhor mentiu perante este Parlamento” – vociferava há pouco Assunção Cristas na AR, dirigindo-se a um impávido António Costa. Dizia ela que o acordo de concertação social não tinha ainda sido assinado, que tinha fontes seguras, seguríssimas e fresquíssimas segundo as quais não, não tinha sido assinado por todos. O senhor mentiu! Costa não se descompôs e respondeu-lhe que, embora não houvesse cerimónia oficial de assinatura, as assinaturas lá estariam (como já estavam, de facto, em curso).

Bom, para até o José Gomes Ferreira vir dizer depois, na SIC N, que a tia dramatizou (calma, a «tia» não é dele e, além disso, começou vergonhosamente por corroborar Cristas), que era evidente que o acordo estava firme e que a assinatura era uma mera formalidade, o excesso de calor acusatório e de drama correu mesmo muito mal à líder do CDS. Quanto ao Ferreira, o texto em rodapé na televisão confirmando a assinatura não lhe deu outra hipótese que não fosse reconhecer o óbvio, caso contrário estaria a pedir, por detrás da autoridade dos seus óculos, a demissão de António Costa.

Mas, para além deste número patético de agressividade com tiros de pólvora seca, Cristas ainda se atreveu a dizer que o Governo PS era minoritário e que buscava acordos para poder governar, pelo que, atenção, Costa não devia estar ali. Este lembrou-lhe que o seu governo não era de coligação, como o anterior, uma espécie de fusão, e fez-lhe um breve resumo do acordo específico estabelecido com os restantes partidos à sua esquerda e o que isso implica. Infelizmente, esqueceu-se de lhe lembrar que, se o PSD tivesse podido governar, uma aspiração chumbada por uma maioria na Assembleia mas que Passos continua a considerar viável, só poderia fazê-lo precisamente buscando acordos a toda a hora, numa base muito mais instável do que aquela em que o governo assenta. Há uma razão para estar na oposição.

Não tenho por hábito acompanhar, nem sequer ver mais tarde, os debates quinzenais na Assembleia, mas hoje deu-me para ir ver o que se tinha por lá passado. Diria que ninguém tem juízo e sentido de responsabilidade a não ser o governo. Consigo perceber a estratégia dos elogios de Costa ao PCP e ao Bloco e respectiva coerência, mas o que dizem e o que pretendem,  benza-os deus, é totalmente irrealista e o desprezo pelos chamados “patrões” é inaceitável, mesmo que Costa tenha repetido ad nauseam que 56% das empresas abrangidas pela baixa (transitória) da TSU têm menos de 10 trabalhadores e 80% menos de 50. Não interessa. Para esses partidos, ser patrão é uma espécie de crime e o seu mero estatuto faz deles uns malfeitores. Idem para os banqueiros. Obviamente, para eles, só o Estado pode ser patrão e banqueiro. Há pachorra para esta conversa? Não há.

O PSD parece que fez triste figura, como seria de esperar, mas confesso que não vi. Apenas as acusações de António Costa, que me pareceram suficientes para os arrumar.

O proteccionismo de Trump e outros ataques

Porque é que, na Quinta Avenida, em Nova Iorque, toda a gente tem um Mercedes estacionado à porta de casa e na Alemanha ninguém tem um Chevrolet?”

Resposta de Sigmund Gabriel, ministro da Economia alemão: “Fabriquem automóveis melhores.”

Este é apenas um exemplo da guerra de palavras entre Trump, o elefante, e o resto da loja de porcelanas do mundo, que já teve início com a China e se irá intensificar a partir do momento em que o “desbocado” tomar posse e fizer questão de mostrar ao mundo todo o seu deslumbramento com o novo universo em que se inicia e toda a sua ignorância.

Vale, por isso, a pena ler neste artigo do “The Guardian” as reacções (também as russas) à entrevista que Trump concedeu à Bild e ao The Times:

(Alguns excertos)

Germany’s deputy chancellor and minister for the economy, Sigmar Gabriel, said on Monday morning that a tax on German imports would lead to a “bad awakening” among US carmakers since they were reliant on transatlantic supply chains.

“I believe BMW’s biggest factory is already in the US, in Spartanburg [South Carolina],” Gabriel, leader of the centre-left Social Democratic party, told the Bild newspaper in a video interview.

“The US car industry would have a bad awakening if all the supply parts that aren’t being built in the US were to suddenly come with a 35% tariff. I believe it would make the US car industry weaker, worse and above all more expensive. I would wait and see what the Congress has to say about that, which is mostly full of people who want the opposite of Trump.”[…]

[…]“If you go down Fifth Avenue everyone has a Mercedes Benz in front of his house, isn’t that the case?” he said. “How many Chevrolets do you see in Germany? Not very many, maybe none at all … it’s a one-way street.”

Asked what Trump could do to make sure German customers bought more American cars, Gabriel said: “Build better cars.”

Sobre a referência de Trump à admissão de um excessivo número de refugiados pela Alemanha e sobre a Nato, foi esta a resposta alemã:

There is a link between America’s flawed interventionist policy, especially the Iraq war, and the refugee crisis, that’s why my advice would be that we shouldn’t tell each other what we have done right or wrong, but that we look into establishing peace in that region and do everything to make sure people can find a home there again,” Gabriel said.

“In that area Germany and Europe are already making enormous achievements – and that’s why I also thought it wasn’t right to talk about defence spending, where Mr Trump says we are spending too little to finance Nato. We are making gigantic financial contributions to refugee shelters in the region, and these are also the results of US interventionist policy.”

Repito que vale a pena ler este artigo. Trump também declara na entrevista que apoia o Brexit e acusa a Alemanha de ser hegemónica na Europa e de pôr o continente ao seu serviço. É verdade. No entanto, isto não pode deixar de nos levar a pensar que Putin não diria melhor e a considerar a existência real de uma marioneta loira. O que interessa a Trump e à América o desmantelamento da UE? Querem ver que ainda vou defender a União tal como está? Não.

Shame

Estou a assistir à conferência de imprensa de Donald Trump, na CNN. Alguém me diz que diferença existe, com base na apresentação inicial que fez, entre este homem e um vendedor de cobertores numa das nossas feiras? Custa a crer que, dentro de nove dias, esteja a presidir à maior nação do mundo. Depois de enumerar as (três) empresas do sector automóvel que vão construir instalações em território americano desistindo de o fazer no estrangeiro, retive a seguinte frase: “Vou ser a pessoa que mais empregos criou na história da humanidade”.  Não percam, se puderem, este documento vivo do desastre humano. Como se os Estados Unidos dispusessem de todas as matérias-primas necessárias para todas as suas indústrias. Vai ser lindo de ver.

Assistindo ao painel que comentava antes do início da conferência, ocorre-me dizer que Putin está a ter um sucesso tremendo (ou “tremendous”, como Trump adora dizer e diz vezes em conta, a par de mil “fantastic” e mais mil “amazing”, para caracterizar as pessoas da sua escolha e as maravilhas que vão operar para tornar a América “great again”). O ambiente político parece ser de total incredulidade e mal-estar. Como é possível o próximo presidente, ainda antes de tomar posse, estar em guerra aberta com os serviços secretos?  Fará uma purga sem fim ao jeito de Erdogan?

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Para complementar, e já que Trump pôs uma advogada a falar sobre as soluções para os seus conflitos de interesses, vejamos onde trabalha esta advogada:

A rebuscada teoria de que a subida dos salários é uma descida – Helena Garrido «vintage»

Ler os colunistas do Observador é sempre edificante e emocionante. Pode por vezes ser uma aventura inesquecível.

Helena Garrido, por exemplo. Helena Garrido discorda, como sempre discordou, dos aumentos do salário mínimo, na linha da discordância da direita passista, ou seja, com base na ideia de que o aumento dos salários prejudica os empregadores e, logo, as empresas e, por conseguinte, o investimento, a competitividade, a criação de emprego, etc. Por isso, haverá que manter os salários ao nível mais baixo possível, de preferência – embora nunca o dizendo em voz alta – eliminando o salário mínimo (ou mesmo o salário, já agora, porque não?). No entanto, como nenhum dos prejuízos enumerados se verifica normalmente nem se verificou depois do último aumento do SMS, para continuar a discordar de toda e qualquer medida do actual governo, HG lembrou-se de conjecturar que o mais recente aumento do salário mínimo é um factor de manutenção dos baixos salários porque … e vejam bem porquê… porque, por exemplo, as pessoas que já ganhavam 557 euros (portanto, mais do que o salário mínimo) continuarão a ganhar o mesmo, pois os patrões terão um benefício de um vírgula tal por cento na taxa para a segurança social se pagarem esse salário mínimo, não tendo um incentivo para outros.

Bom, não sei se os trabalhadores que já ganhavam 557 euros – e muito me admiraria que alguém ganhasse exactamente este montante – contarão para efeitos da prevista redução da TSU. Se o mundo fosse justo, não deveriam contar, nem que, para isso, fosse obrigatório passarem a ganhar 560 euros (terá este item feito parte das negociações da “feira de gado”? Enquadrar-se-ia lá bem). Mas o que decorre normalmente do aumento do salário mínimo é precisamente o aumento correspondente dos restantes salários, pois dificilmente um trabalhador que não ganhasse o salário mínimo iria aceitar que os colegas que ganhavam menos fossem aumentados e ele não. Também não é de crer que os patrões despeçam pessoas que ganham, por exemplo, 600 euros para as substituir por outras, com menos experiência, que possam ser remuneradas com o novo salário mínimo, quarenta euros mais barato. Altamente improvável. E mais uma vez, se o mundo fosse justo, os tribunais fossem céleres e a inspecção do trabalho funcionasse, tal não poderia acontecer. Além de que não me parece que seja do interesse de nenhum patrão este tipo de substituições altamente ostensivas.

Porém, pode dar-se o caso de estar enganada. Se assim for, corrijam-me, pois não sou economista. Pode até acontecer que os patrões baixem os salários todos dos seus trabalhadores para os 557 euros de modo a pagarem menos TSU, como parece antever Helena Garrido. Mas uma tal hipótese afigura-se-me como próxima do absurdo. Além de que deve ter sido ponderada e consequentemente desvalorizada há muito tempo e em muitos lugares.

Ora bem, para se divertirem como eu, deixo aqui dois excertos finais do artigo:

É impossível não recordar o caso da TSU na era da troika e que caiu pela força de uma manifestação de dimensão histórica dia 15 de Setembro de 2012 sob o lema “Que se lixe a troika”. A medida passava pela redução da TSU a cargo dos patrões e o seu agravamento na parcela suportada pelos trabalhadores – cada um pagava 18%. Era neutra em relação ao nível salarial – aplicava-se de igual forma a todos os salários – mas reduzia os custos salariais à custa do poder de compra dos trabalhadores. Uma medida politicamente impossível mas que, reduzindo o poder de compra, não criava incentivos para baixar salários.[…]

[…]Neste caso teríamos de pensar o que aconteceria se este prémio para salários baixos não estivesse a ser aplicado – e o que aconteceria seria seguramente mais poder de compra, mas a prazo. E o que interessa, na política que garante votos, é o que acontece aqui e agora. Assim se perpetua uma estrutura de produção de baixos salários.”

Portanto, é isto: o que convém é não aumentar salário nenhum (talvez com excepção do da própria). Em suma, Madame Garrido, segundo a senhora, se uma subida dos salários é na prática uma descida (que mais ninguém constata), uma descida é que era bom, pois acabaria por ser uma subida. Já desconfiávamos.

Beijinhos.

Um artigo da revista «Politico» sobre Putin e a nova ordem/guerra mundial

Vale a pena ler, embora eu esteja convicta de que a autora será acusada, por alguns, de alarmismo a mais e de sobrevalorização do homem do Kremlin e, por outros, de ainda ter expectativas positivas quanto a Donald Trump.

Putin’s Real Long Game

The world order we know is already over, and Russia is moving fast to grab the advantage. Can Trump figure out the new war in time to win it?