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N gargalhadas e um funeral

Rui Ramos, hoje, no site Observador

[…]

“Descontemos a lenda das “trapalhadas” de Santana. Em 2004, para facilitar o trabalho ao presidente da república, toda a gente teve interesse em fingir-se muito chocada com os incidentes e gaffes governativas do costume. ” […]

 

Cinco gargalhadas, só num período:

a lenda

trapalhadas entre aspas

para facilitar o trabalho ao presidente da República

fingir-se muito chocada” (o homem chegou a ir de férias 20 dias depois de ter tomado posse)

do costume” (qual costume?)

 

 

Ataque de riso, felizmente não fatal:

[…] “No fim, quando o presidente o derrubou, Santana cometeu ainda outro erro: resolveu exibir sentido de Estado, foi respeitoso, resignou-se. Ajudou assim a causa dos seus inimigos, ao parecer ele próprio dar razão ao presidente. ” […]

Chama-se a isto fidelidade canina. Até ao enterro. Irra!

O mundo da Comunicação Social é um circuito fechado que procura a diversão

Parecem uns putos sem nada que fazer, que vêem passar um gato e desatam a inventar tropelias para fazer ao pobre bicho. A direita vê, alinha, sugere mais outras e assim vamos. Aconteceu com a Ministra da Justiça como com vários outros alvos recentes.

Não houve um único canal de televisão que, ontem à noite, não estivesse debatendo a “gravíssima” questão da recondução, ou não, da actual PGR – cujo mandato termina apenas em Outubro. Isto devido a uma pergunta sobre esse assunto feita por um jornalista à ministra numa entrevista desse dia, a que ela respondeu com a sua leitura estritamente jurídica da questão.

À tarde, enquanto Hugo Soares se excitava na Assembleia da República inventando fins para o Estado de direito caso a PGR não fosse reconduzida, já os canais noticiosos faziam alguns ensaios de exploração do tema, com comentadores mais à mão. Mas, para a noite, a noite, já se elaboravam as listas de convidados que, aí sim, saltariam em grande para o palco para protagonizar o inesperado festival. Foi assim que vimos um desfile considerável de especialistas em Constituição e em leituras políticas de rostos e frases, os quais incluíram desde o Paulo Baldaia, a Ana Drago e o José Eduardo Martins até gente séria como o advogado Saragoça da Mata. Eram tantos e em tanto lado que lhes perdi a conta (e o nome).

 

A TVI24, então, levou a palma, antes, suponho eu, de passar ao futebol: convidou, a páginas tantas, nada menos que um painel de quatro analistas, quatro, além do moderador, para debaterem as interpretações do parágrafo da Constituição sobre esta matéria, que, desculpem lá, não são nem podem ser trezentas, nem cem, nem duas. Há uma e única interpretação: o mandato é de seis anos, mas, como nada mais é dito, subentende-se que não é inconstitucional renová-lo. Chegou a acontecer uma vez, há mais de vinte anos. Não voltou a acontecer. Pode voltar a acontecer. Ponto. Mas, para preencher a noite, discutia-se também se Costa estava ou não sintonizado com a Ministra da Justiça, ou se a afirmação dela tinha sido combinada com ele (não sei se alguém chegou a dizer que a Ministra devia ser demitida, mas tal seria totalmente plausível naquele ambiente insano), se a PGR ficava ou não fragilizada até Outubro, se o Presidente da República estaria informado e não sei quê e sabe-se lá que mais. Admito que tenha perdido um conjunto de teses importantíssimas sobre a indispensabilidade da doutora Joana para o bom funcionamento do nosso sistema judicial ou sobre o conceito de ofensa do PR, mas não tive paciência para aturar aquilo.

O Ferreira Fernandes, no DN, diz bem o ridículo do que se passa:

 

Escândalos para tansos

Pesquisa rápida na nossa Constituição

Artigo 220.º
Procuradoria-Geral da República

 1. A Procuradoria-Geral da República é o órgão superior do Ministério Público, com a composição e a competência definidas na lei.

2. A Procuradoria-Geral da República é presidida pelo Procurador-Geral da República e compreende o Conselho Superior do Ministério Público, que inclui membros eleitos pela Assembleia da República e membros de entre si eleitos pelos magistrados do Ministério Público.

3. O mandato do Procurador-Geral da República tem a duração de seis anos, sem prejuízo do disposto na alínea m) do artigo 133.º.

Artigo 133.º

Competência (do Presidente da República)

[… ]

m) Nomear e exonerar, sob proposta do Governo, o presidente do Tribunal de Contas e o Procurador-Geral da República;

Não subestimemos o nosso potencial como farol da humanidade

A propósito da higienização (de “Ὑγίεια”  (lê-se «higuía»), palavra de origem grega, que significa actualmente saúde) dos hábitos alimentares e dos alimentos vendidos em hospitais e escolas públicos, mas também em restaurantes e cafés, deploro este artigo idiota que apresenta como exemplos de boas práticas os países europeus que disponibilizam tacinhas com cubos de açúcar totalmente expostos e à discrição nos estabelecimentos de restauração e, supostamente, chocolates Mars, Coca-Cola, bolachas de chocolate, Bolicaos (que são o que os miúdos gostam) ou sanduiches de maionese com atum  e “cornichons” em tudo o que é máquina ou bar em edifícios públicos como “snacks” para matar as pequenas fomes.

Eu gostaria de aqui lembrar, em matéria de saúde e higiene, que, em muitos desses países “exemplares”, como a Bélgica ou a França, os trabalhadores de padarias e pastelarias desconhecem por completo a utilidade de objectos como luvas ou pinças e servem os clientes agarrando os bolos e os pães com as próprias mãos – sabendo nós como manuseiam o tempo todo moedas e notas e como é inevitável que, ao longo do dia, cocem a cabeça (ou outras partes do corpo que me abstenho de nomear, mas mesmo assim nomeio o nariz) pelo menos umas vezes. Pois é, são países, como a Holanda, em que a comida típica de rua é batatas fritas com maionese ou salsichas gordas com maionese e cebola (Alemanha) e onde os distribuidores automáticos são invariavelmente abastecidos com “gauffres”, cobertas ou não de chocolate, barras de chocolates e por aí fora. Saudável até dizer chega.

Convém, no entanto, assinalar que é notória a evolução no bom sentido dos snacks oferecidos em locais públicos, como o metro e outros, em muitos desses países. A opção de pão escuro, com vegetais e carnes saudáveis e ausência de molhos está já bastante generalizada, assim como os sumos de fruta mais saudáveis que os refrigerantes tradicionais, carregados de açúcar disfarçado pelo gás. Sinal de que há alguma preocupação com a alimentação saudável e uma clara discordância daquilo a que a articulista despeitada chamaria “o Estado a meter o bedelho onde não é chamado” (embora eu desconheça se há por lá legislação que regulamente a oferta de alimentos em máquinas ou quiosques). Mas é uma boa tendência. Quanto aos hospitais estrangeiros, desconheço o que as máquinas oferecem, mas tenho péssimas recordações da comida de um hospital de renome em Bruxelas. Já o de Viseu, público, onde ainda há pouco tempo esteve a minha mãe, as refeições eram verdadeiramente cinco estrelas. Sei, porque provei, dado o pouco apetite da paciente. Muito melhor a comida e mais saudável e saborosa do que em muitos dos restaurantes ali à volta. Infeliz e inexplicavelmente, o bar e as máquinas à entrada não acompanhavam em quase nada aquele excelente regime dispensado aos doentes. Pelos vistos, é o que se pretende mudar. Parece-me bem. Referir que se passará a vender aipo é caricaturar sem grande piada.

Correndo o risco de parecer agente do Governo ou do ministro da Saúde, que não sou, se não queremos miúdos obesos e adultos diabéticos ou hipertensos, o Estado tem que fazer alguma coisa. Não só a nível da educação e da melhoria do nível de vida das pessoas, mas também cumprindo a sua parte da responsabilidade na oferta de alimentos por contrato público, já que a outra parte da responsabilidade, sem dúvida a mais importante, para o bem e para o mal, cabe à família. A utilização do episódio da lagarta no prato de uma cantina escolar, ou de frango cru noutra, para desdenhar de toda e qualquer medida de prevenção de doenças que incida sobre a alimentação é apenas ridícula. Por coincidência, nessa escola de Braga, até era uma empresa privada a prestar o serviço, regime que tem tudo para agradar à colunista. Qualquer expediente serve para criticar o Governo. Quanto aos alimentos biológicos, se é verdade que os produtos biológicos são mais caros, também é verdade que o incentivo assim dado a tipos de agricultura que utilizam menos químicos é positivo. Isto anda tudo ligado.

Não há incendiários em Portugal

Não ouvi, na mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa, uma única, ainda que ligeira, referência aos criminosos que ateiam incêndios por esse país fora. Será que Portugal é aquele país mirífico em que não há incendiários? Pior do que isso: se há, farão essas bestas parte das “graves falhas do Estado” de que tanto se ouve falar e por isso não convém serem mencionadas, ou serão uma inerência, “vindos com o território” e por isso ignoráveis? Talvez estivesse o Presidente demasiado concentrado no incêndio de Pedrógão Grande e Castanheira de Pera, onde não parece ter havido mão criminosa, pelo menos nas chamas que consumiram tudo o que passou por aquela terrível estrada, e onde terão ocorrido fenómenos naturais absolutamente raros. Estes, aliás, também omitidos da sucinta mensagem, por muito importantes que sejam as alterações climáticas para o planeamento futuro das culturas e das reservas de água. Pode ser. Mas não devia.

Nos incêndios de Outubro, porém, de muito maiores dimensões e prejuízos materiais, e sobre os quais se aguarda ainda um relatório exaustivo, vários acendimentos em cadeia, ou vindos do ar ou a horas inexplicáveis – no dizer dos próprios habitantes locais – apontam claramente para mãos criminosas, nem todas pertencentes a indivíduos mentalmente perturbados. Aliás, há inúmeras pessoas presas por atearem incêndios. Nada a dizer sobre isso? O aproveitamento por  criminosos de terrenos em seca extrema (e estamos a falar em três meses depois de Pedrógão, onde a seca já era aflitiva) mereceria, a meu ver, da parte do Presidente, uma advertência séria, um alerta, enfim,  uma menção. Uma menção, por exemplo, à necessidade de investigar as suas motivações e de agravar ou tornar de utilidade pública as suas penas.

Também não vi nenhum apelo a que as autarquias locais controlem melhor os locais de construção, os seus mecanismos de protecção contra incêndios, a limpeza das matas, a segurança das estradas, etc. Nem uma referência aos meios necessários para o fazerem. Nem ao infeliz fenómeno da retirada ou da redução do Estado no que toca aos serviços às populações, que foi um objectivo bem preciso e posto em prática pelo anterior governo.

Marcelo passou a mensagem de que, assim como o bom desempenho da economia, o crescimento do emprego, o equilíbrio das finanças públicas foram obra do Governo, que não podia deixar de ser elogiada, também as trágicas consequências dos incêndios se devem a umas tais “falhas do Estado”, conceito que o Zé Povinho que o adora confunde facilmente com o Governo, e com alguma razão. Em matéria de incêndios, Marcelo tem ainda muito em que meditar e tem sobretudo de sair da sua zona de conforto, que consiste em aproveitar os dramas das famílias atingidas e enlutadas para permanentemente lançar nódoas sobre o Governo. Sem qualquer razão. E já cansa este arremesso.

Haja sentido de humor… e liberais contra a prosperidade das empresas

“Evidentemente não há aqui nenhuma interferência política porque o Governo português não interfere no pernil de porco.”

A revista Sábado e o Correio da Manhã estão entretanto a definir um novo alvo de perseguição: Mário Lino. Que fez ele agora? Está na administração de uma das empresas exportadoras de carne que mais ganhou com contratos de exportação. Não pode? Não pode. Ou não seria notícia.

Eu apoio estes

 

Desconhecia que, em Barcelona e Tarragona, os independentistas catalães não tinham obtido a maioria nas recentes eleições. Agora, parece que os unionistas destas duas cidades – maioritários – se preparam para declarar unilateralmente, não a independência, mas a permanência (em Espanha) enquanto comunidade autónoma, para o que já lançaram um movimento internáutico para recolha de assinaturas. Alegando que o governo da Catalunha (a Generalitat) lhes fica com demasiadas receitas. Seria, obviamente, interessante e tornaria este enredo muito mais picante a perspectiva de, caso os independentistas catalães declarassem outra vez a independência da Catalunha em relação a Espanha, esta nova comunidade contra-declarasse a sua em relação à Catalunha. Viva, pois, a Tabarnia, que nos torna a existência tão mais colorida! E justa. Nunca demos por que Barcelona fosse uma cidade oprimida. Pelos vistos, os barceloneses também não. Portanto, um feliz e atilado ano novo, assim como um feliz PIB, para a potencial Republica Catalana.

Jornalismo de sarjeta e… calma!

Hoje, logo pela manhã, o DN noticiava que o valor do financiamento atribuído à Raríssimas quadruplicara com o actual governo. Escândalo, sugeria a manchete. Falcatrua, sugeria também, isto de o ministro Vieira da Silva ter passado pela associação tivera como resultado um favorecimento imoral. O quádruplo das verbas previstas pela governo anterior é muito múltiplo. Mas é verdade?

Não, é mentira. O insuspeito Observador foi ler melhor os despachos e chegou à conclusão de que as verbas são praticamente as mesmas – na ordem dos 1 200 000 euros, apesar do aumento do número de camas. Com o esclarecimento do Ministério da Saúde (também reproduzido pelo site), mais se confirma a fraude noticiosa do DN.

Até à hora a que escrevo, o DN mantinha a notícia inalterada.

Sobre este assunto da Raríssimas e a tentativa logo pronta de envolver um importante membro do Governo nas eventuais irregularidades (pela jornalista da TVI e pela oposição de direita), importa referir uma entrevista que ouvi ontem, por acaso, na SIC Notícias (já depois das 21h00) ao ex-tesoureiro denunciante das irregularidades e na qual, pelos vistos mais moderado, ele sublinha que gostaria que o problema não fosse levado para o campo dos ministros ou políticos que tenham colaborado com a associação, porque não é aí que ele está. Que convém não perder o foco: a gestão danosa, autoritária e prepotente da presidente agora demissionária. Pareceu-me ser um reparo ao próprio jornalista. Li também que não é a mesa da Assembleia Geral que aprova as contas. Podendo nós questionar-nos por que razão este senhor demorou algum tempo a denunciar as irregularidades observadas, parece, de facto, ter havido abuso de poder e aproveitamento por parte da presidente. Se são pecadilhos ou crimes, a justiça o dirá. Convém, porém, não esquecer que o trabalho realizado no que aos doentes diz respeito é meritório, muito meritório mesmo, atendendo aos casos que as imagens mostram, e que a dirigente de uma associação deste tipo tem todo o direito e, porventura, o dever de tudo fazer, incluindo lobbying, para aumentar a visibilidade da associação, inclusive a nível internacional, e os donativos para a causa. Parece-me ir demasiado entusiasmo na justiceira e assanhada (sempre em direcção aos mesmos) Ana Leal. Um entusiasmo politiqueiro, telenovelesco e de devassa que não se justifica de todo num trabalho sério.

Respeito por quem o não merece

A propósito do recente caso da associação Raríssimas, ia eu escrever que a história pessoal da senhora Paula Brito da Costa (um filho com uma doença rara, que acabou por matá-lo), que está na origem da formação da associação, poderá ter levado quem tem o dever de controlar e fiscalizar a não querer ferir quem seguramente sofreu horrores através da execução da mera ideia da desconfiança. Por outro lado, uma pessoa com a história da Paula reúne as condições para se atribuir um vedetismo que de outro modo lhe estaria para sempre vedado.

Mas houve quem se adiantasse a mim.

 

Genealogia da imoralidade

Eremita

Tantas notícias sobre a Raríssimas e ainda nenhum jornalista se lembrou de relatar como surgiu esta associação. Pode não ser parte da explicação para o que está a ser alegado, mas é seguramente parte da história. Mexam-se, cambada de preguiçosos. 

Adenda: Em casa, disseram-me que na reportagem original da TVI é referido que a Raríssimas foi criada pela sua ainda presidente, e que a grande motivação foi o seu filho, vítima mortal de uma doença rara. Por isso, encolhi a última frase do post – como quem enfia a viola no saco. Mas a tese continua válida e é muito simples: quando uma associação nasce nestas circunstâncias, aumenta a probabilidade de a sua fundadora e presidente se atribuir uma legitimidade indevida e de os mecanismos de fiscalização ficarem limitados por um cuidado em não pôr em causa quem tem a biografia ideal para fundar uma associação de apoio a crianças com doenças raras. É claro que a posteriori esta (alegada) falha de fiscalização é indesculpável, mas não surpreende que aconteça.

 

Ó Zé Manel, actualiza-te

O homem da intriga de Belém e do jornal Público à época e, depois, ferrenho apoiante de Passos mostra-se hoje muito descoroçoado com os dois candidatos à liderança do PSD – Rui Rio e Pedro Santana Lopes. Não admira. São, de facto, dois déjà vus para os quais nos custa olhar. O Passos ao menos ainda se apresentou com um livrito onde alinhavara umas ideias neoliberais inspiradas pelo António Borges, novidade em Portugal, naquele tempo em que foi fácil culpar os socialistas pelo desastre financeiro da selvajaria bancária (ironia: pelos abusos dos exactos neoliberais que o Zé Manel tanto preza), e uma voz bem colocada para mentir com estilo. Rio e Santana são, de facto, os marretas do camarote.

Mas o que enfurece a sério o Zé Manel é a falta de um programa verdadeiramente neoliberal, a que ele chama simplesmente “liberal”, o qual explicita por eufemismos.

[…]”Há quem no PSD dê indicações interessantes sobre as linhas de fractura com o PS – e não apenas com o PS da geringonça. Quem defenda, por exemplo, que o partido deve ser pela igualdade solidária, e não pelo igualitarismo social, que deve acreditar num Estado social que liberta, autonomiza e responsabiliza o cidadão e não num Estado social que o cativa, condiciona e infantiliza. Quem acredite que a exigência na educação pode tornar os cidadãos mais iguais em vez de presumir que o facilitismo os trata por igual, tal como defenda que a família e a comunidade devem guiar a educação em vez de ser o Estado a formatá-la. E por aí adiante, já que estas frases estão todas, quase palavra por palavra, num artigo recente de Paulo Rangel, um artigo que era quase um manifesto da candidatura à liderança do PSD que afinal nunca existiu.”[…]

 

Fonte: Observador

“Há quem no PSD” – leia-se “ele e os do Observador”.

Mas vamos aos eufemismos. Assim, “igualdade solidária” será o quê? Ora pois, a caridade. A caridade torna os pobres iguais aos ricos. Iguais no sentido em que têm o que comer e o que vestir. Mas, como pobrezinhos sempre houve e vai haver, o programa governativo deve visar, não a igualdade e a dignidade permitidas pelo acesso à educação e a empregos condignos, mas a”solidariedade social”. Instituições dedicadas a isso. No fundo, os pobrezinhos são precisos para fazerem baixar o custo da mão de obra.

“Um Estado social que liberta, autonomiza e responsabiliza” será então o quê? Nada mais do que um Estado que liberta tanto, que começa por se libertar, isso sim, a si próprio das suas responsabilidades e que promove o “cada um por si” e a insegurança total. Um Estado mínimo, de preferência inexistente, que tão apreciáveis efeitos teve nas recentes tragédias nacionais e na obsolescência dos transportes públicos. Mas onde é que existe tal Estado virtuoso no mundo civilizado?

E a “exigência na educação” será mesmo o quê? Escolas públicas com turmas atulhadas, professores mal pagos e os “filhos-família” nos colégios privados, misturados com três ou quatro pobrezinhos para disfarçar? Se “a família e a comunidade devem guiar a educação”, como se promove então a igualdade? Não se promove, não é? Nessa perspectiva, ganham as famílias e as comunidades mais ricas. Sendo assim, como se garante a laicidade e a neutralidade do Estado se deixarmos que a Igreja católica, a dita “comunidade”, ou as comunidades islâmicas (noutros países), por exemplo, deitem mão à educação? E que dizer do “facilitismo” alegadamente praticado por quem não segue a cartilha neoliberal? O suposto “rigor” traduzido em exames a cada esquina, como defendeu Crato, parece não ter dado resultados brilhantes. Qual facilitismo?

Enfim, este homem quer a Troica e o Passos de volta. Na falta de Passos, o Rangel serviria. Pequeno pormenor: a pobreza libertadora já foi chão que deu uvas, já se viu o que é, e nem a Troica já seria o que o Zé Manel gostaria que fosse. Basta olhar para o Centeno na Europa.

 

 

Um director com zero valor acrescentado

Paulo Baldaia, no seu esplendor habitual, falsamente preocupado com a suposta duplicação de tarefas de Mário Centeno e com a falta que fará ao país, caso seja eleito presidente do Eurogrupo, exprime hoje a sua inútil opinião nos termos que poderão ler aqui:

Ministro cá e presidente lá

 

Contraponha-se a esta a perspectiva de Rui Tavares, um poço de bom senso nos dias que correm:

 

CENTENO NO EUROGRUPO: CUSTARÁ ASSIM TANTO A ADMITIR O ÓBVIO?

O professor Xavier Viegas ou “o relatório é meu”

O principal autor do relatório sobre as investigações ao incêndio de Pedrógão Grande está a querer assumir um protagonismo que não lhe fica nada bem. Xavier Viegas pode, evidentemente, estudar e investigar livremente tudo o que quiser nesta vida e na outra, se os deuses o chamarem a tal, mas foi-lhe encomendada uma investigação e um relatório pelo Governo. Não pode andar por aí a espalhar a ideia de que está a ser alvo de censura (deste mesmo Governo), ainda que, dias mais tarde, se lembre de dizer que afinal a censura é da Comissão Nacional de Protecção de Dados. Há, num Estado de direito, regras a cumprir. Evidentemente que, tratando-se de um relatório encomendado e pago pelo Estado, há entidades e procedimentos a ter em conta depois da sua entrega. O professor podia não ter entregado o relatório nem receber nada por ele. Era livre de o fazer. Mas, como o entregou ao departamento do Estado que lho pediu – o MAI -, devia saber da existência de regras, nomeadamente quando se trata de assunto tão delicado quanto a identidade e história de vítimas mortais de tragédias.

A decisão de publicar o relatório na íntegra e a título pessoal suscita dúvidas do ponto de vista jurídico. É um acto desafiador, que não estou certa de não se integrar nos sintomas da doença que mais ordem democrática ceifa actualmente – o populismo. Outra maleita infelizmente existente desde, pelo menos, a invenção da imprensa, é o gosto súbito de “génios ocultos” pelo mediatismo. O senhor parece padecer das duas. Se se confirmar, tenho pena.

O investigador Xavier Viegas vai revelar dados do relatório sobre o incêndio de Pedrógão Grande, argumentando que o parecer da Comissão Nacional de Proteção de Dados vincula o documento, mas não a investigação que lhe deu origem.

“Nós entendemos que este parecer relativo ao relatório que entregámos ao MAI”, Ministério da Administração Interna, “vincula o MAI e, de certo modo, restringe o MAI à publicação do relatório com aquele capítulo” – o número 6 que não foi tornado público -, “com ou sem nomes” de mortos e outras pessoas envolvidas.

Mas, de modo algum, nos pode cercear na nossa liberdade de dar a conhecer os dados da nossa investigação, porque, como investigadores, temos a liberdade, não só de investigar, como a liberdade, e até obrigação, de dar a conhecer os dados da nossa investigação”.

À Lusa, Xavier Viegas lembrou o processo que levou à não publicação do sexto capítulo do referido relatório – do qual, numa primeira fase, foram retirados os nomes das pessoas envolvidas e que, depois, foi sujeito a um parecer da Comissão Nacional de Proteção de Dados [CNPD], segundo o investigador, após um pedido nesse sentido do atual ministro da Administração Interna. Recorde-se que o investigador e diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra acusou a Comissão de Dados de censura.

Xavier Viegas alega não ter conhecimento de qualquer caso análogo em que tivesse estado envolvido e compara a restrição da publicação resultante do trabalho da equipa de 13 investigadores por si liderada à censura da informação do Estado Novo sobre as cheias na região de Lisboa em 1967.[…]

[…]

Embora considere que “partes do parecer” da CNPD entram em terrenos que alega não compreender, nomeadamente “em que medida é que correspondem à proteção de dados pessoais”, Xavier Viegas admite que a identidade de pessoas e “algum pormenor, algum detalhe, possa ferir alguma suscetibilidade” e, nesse aspeto, disse respeitar a posição da Comissão “e a cautela que faz”.

Mas, seguindo a recomendação implícita desse parecer e que também já nos tinha sido dada pela anterior ministra [da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa], temos estado junto das famílias das vítimas e das pessoas envolvidas no nosso relatório a procurar obter autorização para publicar os dados do relatório, se possível mesmo com identificação de pessoas, se necessário sem essa identificação”.

Xavier Viegas garantiu: “Os contactos que temos tido são positivos, no sentido de que as pessoas nos dão toda a liberdade de divulgar esses casos”.

Já sobre a possibilidade de voltar a fazer um relatório a pedido do Governo, agora para os incêndios de 15 de outubro, Xavier Viegas não diz se aceitará ou não. Alegou que não é a existência de um pedido nesse sentido que limita a “liberdade e o interesse de investigar”, e revelou que a equipa que lidera já avançou para um novo estudo. “Sendo um evento de tal magnitude para o nosso país, nós como investigadores de incêndios florestais e da segurança das pessoas não podemos deixar de olhar para ele”.

Mas o que se passa com a CGD?

Num espaço de quinze dias têm sido demasiados os episódios de irritação total com o funcionamento online da Caixa Geral de Depósitos para eu não aproveitar este espaço para dar nota pública. Passo a enumerá-los:

  1. Tentativa de compra de um bilhete da CP online com o cartão de crédito – operação inviabilizada porque tinha que aderir ao sistema 3D Secure (15 dias antes fizera uma compra semelhante, com o mesmo cartão, sem problemas). Fui à Caixa Directa online para activar o serviço. Impossível. A página que se abria não apresentava qualquer caminho para concretizar a operação. Telefonema para o meu gestor. Nada. Não atendia. Telefonema para o número fixo da agência. Nada. Ninguém por trás daquele número. Telefonema para o número de atendimento geral, o 707 24 24 24. Meia hora à espera e nada. Apenas numa segunda tentativa, meia hora depois, consegui que me atendessem. Perante o meu desagrado, o funcionário pediu desculpa e dispôs-se a analisar o problema. Quinze minutos de espera depois, confirmou que sim, que havia efectivamente um problema e que iam tentar resolvê-lo o mais rapidamente possível e depois me avisavam por e-mail. Assim foi. Passados uns dias, comunicaram-me que o problema estava resolvido e que já podia aderir ao 3D Secure. De facto, desta vez consegui. Se funciona agora ou não, ainda não sei, porque não fiz entretanto qualquer compra online. Espero não ser a próxima irritação.
  1. Num dos dias seguintes, quis entrar no Caixa Directa online para uma mera consulta e foi impossível – recebia como resposta que a minha sessão tinha expirado (eu que ainda nem entrara!). Telefonema para o 707. Desta vez atenderam depressa. Disseram que aquilo acontecia, o sistema talvez estivesse em manutenção, ou que era do Google Chrome, que eu tentasse pelo Edge que talvez conseguisse. Enfim, irritação maior. Nem tentei o Edge. No dia seguinte, lá consegui entrar. Mas as irritações não acabaram aqui.
  1. Hoje mesmo, tentativa de pagamento de uma compra numa loja com o cartão Multibanco. Nada. Operação anulada. Quatro tentativas e sempre a mesma mensagem. Passei para o cartão de crédito. Nadinha. Que o cartão estava inválido. Pensando que o problema talvez estivesse na rede SIBS, experimentei o cartão de outro banco. Milagre! Funcionou. A operação decorreu normalmente. Fui directa à minha agência para protestar e saber o que se passava com aqueles cartões. Resposta da funcionária: “Ah, isso acontece, é do sistema, não tem nada a ver com os cartões.” “Mas qual sistema? Usei o cartão de outro banco e funcionou”. “Ah, não, é o sistema da Caixa”, respondeu ela, como se isto fosse perfeitamente vulgar e aceitável. Quer-se dizer, se eu não tivesse ali outro cartão, não poderia fazer aquele pagamento, teria de me vir embora, voltar lá ou desistir da compra (que podia ser importante), e a senhora funcionária da agência não viu qualquer problema nisto. Limitou-se a experimentar os cartões na caixa automática, viu que estavam OK e ala para o próximo cliente. “Isto acontece”, disse-me, com grande ligeireza e indiferença.

Ora, sendo já demasiados os episódios de mau funcionamento do sistema informático deste banco público, pelo menos para mim, que sou uma cliente relativamente recente, começo a perguntar-me se não haverá algum ataque deliberado contra a Caixa para minar a sua relação com os clientes ou minar o seu funcionamento em geral. Pergunto-me. Isto porque me recuso a acreditar que entraram num esquema de autodestruição. Mas nunca se sabe. A vontade de abandonar definitivamente este banco é mais do que muita neste momento. Se é certo que podemos estar perante ataques informáticos com objectivos maliciosos, também é verdade que alguns funcionários (não o que primeiro me atendeu do 707, atencioso e diligente) não parecem minimamente preocupados com o mau funcionamento do sistema informático do banco nem com os incómodos que isso traz aos clientes. O que me leva à hipótese da incompetência e/ou da má formação do pessoal. Nenhuma das hipóteses é boa. Mas a do boicote exterior deveria também ser levada a sério. Aqui deixo o alerta.

Interrogatórios imperdíveis da Operação Marquês

Onde Carlos Alexandre fica a saber que o engenheiro Carlos Santos Silva também andava a fazer obras na Polícia Judiciária e lhe dá conta de que um elevador estava avariado…

Carlos Santos Silva: E nós fazemos isso. Ainda agora, portanto, no edifício da Policia Judiciária, fomos nós que fizemos a revisão toda do projecto, portanto, e encontrámos também soluções, portanto, para o cliente; o cliente que era o Ministério da Justiça e, portanto, como havia a necessidade por determinação, portanto, da senhora ministra, portanto, reduzir o valor da obra em 15%, não é, e portanto…

Carlos Alexandre: Na… no Palácio, ali na Polícia Judiciária?

Carlos Santos Silva: Sim.

Carlos Alexandre: E embelezou aquilo também com umas soluções optimizadoras poupadoras de recursos?

Carlos Santos Silva: Certo. Não, ainda falta neste momento… só falta o Laboratório de Polícia Científica.

(…)
Carlos Alexandre: Sim, mas encontrou soluções optimizadoras.

Carlos Santos Silva: Sim, sim.

Carlos Alexandre:… luminárias e…

Carlos Santos Silva: Sim, sim e em conjunto.

Carlos Alexandre: … e elevadores. Um há dias foi lá, desceu demais e coiso.

Carlos Santos Silva: Não me diga que há problemas.

Carlos Alexandre: Houve lá um problema, houve, o elevador desceu de repente e tal. Mas pronto, depois
está parado… Parou naquela altura, acho que ainda não levou nada.

Carlos Santos Silva: E com… como sempre com a colaboração também das pessoas, portanto, nomeadamente o eng. Nelson…

Carlos Alexandre: Isso é uma coisa que aconteceu… O eng. quê?

Carlos Santos Silva: Nelson da Polícia Judiciária.

Carlos Alexandre: Ah, sim, sim… O engenheiro Nelson tem lá um gabinete e tal. Eu conheço.

Fonte: Observador

Interrogatórios que ficam para a História

Não posso deixar de voltar a fazer referência, aqui, a mais um artigo do Observador sobre interrogatórios a suspeitos da Operação Marquês. Estes artigos são um bocado deprimentes, por serem de paupérrima substância (finda a leitura, começa a ser regra perguntar-me “So what“?), mas ao mesmo tempo divertem-me ao darem-me testemunho das grandes preocupações do Ministério Público. Hoje trata-se da momentosa questão do blogue Câmara Corporativa e do seu principal blogger, António Costa Peixoto, conhecido pelo pseudónimo Miguel Abrantes. Pelo que se lê, o Ministério Público considera que o blogue não passava de um instrumento de propaganda e, só por isso, já condenável. Mesmo não o sendo (muito menos por encomenda, como confirma o seu principal autor, quando interrogado), eu gostaria muito de saber de onde surgiu a ideia daqueles procuradores de que, em política, não pode haver propaganda. E que toda a propaganda é má, se for favorável a determinado político. De onde raios vem esta ideia? Receio bem que nem eu queira saber a resposta. Mais uma vez, recomendo que leiam. Estas várias transcrições têm a vantagem de nos deixarem perceber a paranóia do  Ministério Público com tudo o que tivesse uma ligação, por ínfima ou marginal que fosse, ao agora acusado.

António Peixoto, além de defender as políticas do governo Sócrates e dar guerra (sempre com fundamento e muitas vezes documentadamente) à miserável oposição, escrevia num português impecável, estava bem informado e atento, tinha sentido de humor, tinha colaboradores de igual excelência, punha a cabeça à roda à direita, enfim, era o que se considera a lâmpada mais brilhante do candelabro em blogger político. Não seria natural que, mais tarde ou mais cedo, amigos comuns o apresentassem a Sócrates? Há alguma coisa de anormal no facto de um primeiro-ministro saber da existência de um blogue de apoiantes e de os querer conhecer? Há alguma coisa de anormal em querer a colaboração de um apoiante com a sua qualidade, experiência e formação para a revisão das suas teses académicas ?

Eu escrevo aqui no Aspirina B desde o tempo em que Sócrates ainda era primeiro-ministro. Defendi as suas políticas como muita gente que conheço. E como milhares de pessoas que desconheço, já que mais de um milhão de portugueses votou nele para as legislativas. Não o conheço de lado nenhum, nunca falei com ele, não conheço nenhum elemento do seu círculo de amigos, nunca fui contactada por ninguém, em suma, sou uma espontânea, uma patega, e, pelos vistos, também uma cúmplice de um terrível crime. O Ministério Público, quer por razões de ignorância quer por má fé, parece entender que deveria ser impossível, se não proibido, alguém estar de acordo com as políticas seguidas por Sócrates. Ora, este é um muito mau princípio para quem se dispõe a lançar um processo da envergadura da Operação Marquês e revela perceber tão pouco do processo político. Estes interrogatórios, e a sua publicação, contribuem enormemente e apesar deles para nos fazer duvidar dos grandes princípios em que assenta toda a tese da acusação.

 

Uma coisa é a investigação sobre a origem do dinheiro e sobre a relação de Sócrates com Carlos Santos Silva. Investiguem, façam-lhes as perguntas que quiserem e eles que se expliquem: se eram empréstimos, se eram adiantamentos, se havia uma sociedade não convencional, enfim, averigúem. E averigúem se de alguma maneira as relações de amizade de um ex-primeiro-ministro com um empresário amigo prejudicaram o erário público, evidentemente. Agora, que se queiram misturar nessa cassarola as relações normais entre pessoas com a mesma filiação política e respectivas práticas correntes (como a associação de pessoas em blogues) e considerá-las como altamente suspeitas e intrigar nos jornais acerca delas é outra coisa bem diferente, que não devia acontecer.

 

Repare-se neste extraordinário comentário ao mesmo artigo do Observador:

maria perry

Ficámos a saber, sem dúvida alguma:

1) João Galamba e Pedro Adão e Silva fazem parte da máquina dissimulada de propaganda do PS. Muito provavelmente eram colaboradores da Câmara Corporativa, pois se não fossem este Peixoto teria logo respondido que não eram.

2) A máquina de propaganda envolve blogues, artigos de jornais e livros sendo este Peixoto um dos revisores/escritores.”

Que horror! Ó João Miguel do Público, não queres escandalizar-te com esta pouca vergonha?

Relações banais entre actores políticos ou simplesmente amigos e instrumentos banais de influência política passam a ser automaticamente vistos como grandes canalhices ou até crimes. Basta saírem no Correio da Manhã e quejandos. Lembre-se que este mesmo comentário é escrito num diário digital que mais não é do que um órgão de propaganda política da direita passista, propaganda, esta sim, remunerada desde a criação deste blogue gigante. Neste caso já não interessa saber por quem, não é?

 

Sócrates – uma sugestão ousada, proveitosa para todos e boa para a indústria cinematográfica

Depois de ler mais um (longo) artigo do Observador em que se explana mais uma tese do Ministério Público sobre grandes crimes cometidos pelo ex-primeiro-ministro (as teses saem agora regularmente na imprensa), apetece-me dizer como o autor do blogue “Ouriquense” – o «Eremita», que li há dias – “O homem que fuja e o Estado que o deixe fugir” (formulação livre, minha).

Eis o original:

Com o povo e a imprensa de referência convencidos da culpa de Sócrates, se no fim não houver condenação não será apenas a reputação da Justiça a ficar comprometida, mas também a da imprensa e de toda a sociedade. Se Sócrates se safa e for o último a rir, a vergonha colectiva paralisará o país como nem no sonho mais húmido de Arménio Carlos. Como nos podemos precaver deste desfecho? Não podemos. Mas Sócrates pode ajudar-nos. Como? Fugindo do país. A fuga de Sócrates é o cenário que minimiza as perdas. A Justiça seria reabilitada, pela confissão implícita de culpa, e a aparente falta de competência do foro policial para impedir a fuga de Sócrates seria muito mais tolerada do que a eventual incapacidade do Ministério Público em fazer prova. Os jornais seriam poupados à humilhação que seria Sócrates sair em liberdade, depois de tudo o que se andou a escrever. E o povo veria engrandecida a dimensão romanesca de Sócrates, logo imortalizada num biopic popular e esquemático realizado por Leonel Vieira, sem um final ambíguo – para grande frustração dos indefectíveis de Sócrates – em que a hipótese de perseguição política não seria definitivamente descartada. Sócrates deve fugir e o Estado, sem nunca o admitir, deve facilitar a sua fuga. Não há desfecho mais vantajoso para Portugal e os portugueses.

Fim de citação.

De facto, se são os argumentos que tenho lido os que dão corpo às diversas acusações, para o MP não passar pela vergonha de os ver ridicularizados, mais valia ter a boa sorte de não julgar o acusado. A tese da “obsessão pelo controlo da comunicação social”, tema da peça do Observador, obsessão que alegadamente começa a manifestar-se na “Gazeta do Interior”, é ocasião para boas gargalhadas. Pela inépcia do “criminoso” e dos seus desajeitados cúmplices face a tão gigantesco objectivo e pela seriedade com que a dita tese se leva a si mesma. São fascículos cómicos, que leio com prazer.

Ai Marcelo

“Entrevista de Costa vista em Belém como mais uma oportunidade perdida”

(Público)

Não me espantaria se o jornal Público se dedicasse por estes dias a acirrar os ânimos entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Havendo um fundamento sério no mal-estar entre os dois, noticiado pelo jornal há uns dias (e as razões estão muito longe de ser todas favoráveis a Marcelo), é também evidente que ao jornal e aos interesses que representa convém explorar este desentendimento – porque aumenta as vendas e “morde” nos socialistas por razões bem conhecidas – e dar com isso uma mãozinha a uma direita que entrou em desespero pela não chegada do diabo nem vislumbre do mesmo. Com a situação económica do país a melhorar a olhos vistos e a Geringonça a não dar sinais de quebrar no essencial, os incêndios e Marcelo oferecem subitamente uma boa tábua de salvação a quem se vê a afundar e sem maneira de chegar ao poder. O David Dinis pode estar numa de ajudar. É que estas notícias, por muito verdadeiras e objectivas que sejam, associadas a uma tragédia nacional, transformam-se, na restante comunicação social, esmagadoramente controlada pela direita, numa guerra do Bem contra o Mal, num contraponto entre “os afectos” de Marcelo e “a frieza” de Costa. Num populismo sem pudor.

É fácil omitir que a função de um não é a função do outro. Que o que se espera de um não é o que se espera do outro. Que as responsabilidades de um não são as do outro. Que Marcelo não foi eleito para governar. Que para isso teria que ter sido eleito para a chefia do PSD, coisa que não foi nem quis. Omitir tudo isto é fácil.

Ora, interesses político-jornaleiros à parte, acontece que Marcelo dá mostras de não se estar a importar nada de participar neste jogo/brincadeira irresponsável e calculista. Mais: não é de excluir que tenha sido o próprio a começá-lo. Num pequeno vídeo passado no sábado no Eixo do Mal (em que se vê Marcelo a discursar na entrega de um prémio a Wim Wenders), Marcelo mostra-se claramente desagradado com a Geringonça pelo facto de a mesma obrigar a negociações constantes com partidos anti-europeus, cujas consequências não são, a seu ver, as melhores para o país. É um escolho, de facto. Mas daí até o Presidente pôr em prática um plano de ataque a Costa e de desestabilização política deveria ir um passo muito grande. E maduramente ponderado. E no entanto, o que vemos é a presidência da República a alegar e a aproveitar as diferenças na exteriorização da “compaixão” pelas vítimas para reforçar a aura de «comandante do povo» de Marcelo e a ideia de incompetência do Governo. Muito mau. Mau de mesquinho. O que é que fez o Costa? Não chorou? Mas, mas, mas … o que é isto? O socorro está a chegar às populações como previsto! Os habitantes locais não atribuem ao Governo nenhuma das culpas que o Presidente deixa subentendidas. Nenhuma.

Convém, pois, lembrar ao actual Presidente que 1) é preciso muito mais do que beijinhos, abraços e selfies para resolver os problemas das pessoas atingidas por uma catástrofe – tarefa exigente e criteriosa que não incumbe ao Presidente; 2) nem toda a gente tem feitio para “santo” curandeiro, neste caso de “feridas psicológicas”, como Marcelo parece querer ser; 3) Marcelo não tem o direito de expor a sua personalidade (que crê impecável, mas que muitos vêem como calculista) por contraponto à de outros, que não andam aos beijos e eventualmente encaram as suas funções de forma diferente, colocando o objectivo de eficácia a outro nível.

Esta afirmação (referente à entrevista a António Costa, ontem, na TVI), se verdadeira, vinda de Marcelo, é inaceitável : “Primeiro-ministro falhou a reconstrução da sua imagem junto dos portugueses“. (vd. link acima) O que queria o Presidente? Que Costa se ajoelhasse, lhe pedisse perdão, pedisse perdão aos portugueses e chorasse?

A que ponto de irracionalidade estamos a chegar?

Um presidente simpático poderia ter mais juízo. A sério que é a visão de Santana Lopes no poder que o move?? Se é, é ridículo.