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Basta de drama sobre «o interior abandonado»

Como foi possível constatar no desenrolar dos últimos incêndios, há, em geral, vantagens incontestáveis em habitar aglomerações maiores, por oposição a pequenos povoados dispersos, razão pela qual eu tendo a repudiar o tom dramático com que se costuma afirmar que o interior do país está desertificado. Não só a evolução da estrutura do povoamento não é nenhum drama, sendo praticamente inevitável, como também o país não está propriamente deserto. Cidades como Lamego, Castelo Branco, Guarda ou Viseu (as que conheço melhor) e numerosas outras pequenas cidades ou vilas do interior do país que também conheço bem ou pelas quais tenho passado conheceram um notável desenvolvimento nas últimas quatro décadas. As pessoas das aldeias, as que não emigraram, aproximaram-se dos centros populacionais maiores. É normal. A agricultura tradicional, de subsistência, rendia muito pouco, as novas gerações tornaram-se mais exigentes e é mais do que compreensível que procurem oportunidades noutras actividades e locais. Mas, mesmo nas muitas (ou muitíssimas, como se viu nas serranias atingidas pelos incêndios) aldeias que restam, hoje em dia já não podemos dizer que os seus habitantes são uns infelizes, abandonados à sua triste sorte. Nem sequer são todos idosos, ao contrário do que as televisões nos querem fazer crer, a nós e aos próprios habitantes (gerando situações caricatas, como pessoas de 52 anos a dizerem que são os mais novos, mas que há também uma vizinha com 24 e outra com 47 e até uma garotinha com 4).

Primeiro aspecto a salientar: as pessoas que ali vivem gostam de ali viver. Vimos até estrangeiros radiantes com o local e a vizinhança. A paisagem é linda. A qualidade do ar invejável. A qualidade das casas melhorou a olhos vistos. Não se trata pois de nenhum fim do mundo. A melhoria dos acessos, a melhoria dos transportes, a melhoria das comunicações e a melhoria das habitações são visíveis até nas minúsculas aldeias. A distância à vila mais próxima não é intransponível e a assistência médica nunca está muito longe. Fiquei agradavelmente surpreendida com aquele lar de idosos. Que bonito. Depois, há indústrias – fiações, serrações, etc. Não vi, mas devia e pode vir a haver centrais de biomassa. Seria importante.

Em suma, a chamada «dinâmica populacional» e as alterações climáticas obrigam, isso sim, a reprogramar as políticas rural e florestal, assim como a política económica regional. Com pragmatismo e sem drama. Sobretudo sem demagogia barata. Mas as pessoas que vivem naqueles locais são tão ou mais felizes do que as que vivem nas grandes metrópoles. Ainda que sejam poucas, ou talvez por serem poucas. E isso é o mais importante.

Bom senso

Emmanuel Macron apresenta-se com uma perspectiva diferente da do anterior governo em relação à Síria e a Bashar al-Assad. Não há sucessor legítimo à vista naquele país. Logo, a sua partida não pode ser uma condição prévia para a resolução do conflito.

Notícia aqui.

Miséria de Judite

Ponto prévio: quando ainda não tinha as respostas a todas as perguntas que colocara na véspera às diferentes entidades envolvidas no combate ao incêndios do centro do país, não percebi ainda bem o que levou António Costa a ir ontem à TVI deixar-se entrevistar pela Judite de Sousa. Essa. A que resolvera ir para o terreno dos incêndios, no dia anterior, fazer directos ao lado de um cadáver.

Mas foi, está ido. Não foi tempo totalmente perdido, porque o seu tom é sempre apaziguador e a preocupação com o pragmatismo prevalece. Acontece, porém, que, do princípio ao fim, a única coisa que a Judite queria saber com aquela entrevista era verdadeiramente se o primeiro-ministro ia ou não ia demitir a ministra da Administração Interna ou o comandante da Protecção Civil. Pouco mais lhe interessava, por muito que Costa explicasse. Uns minutinhos de conversa e lá voltava à carga. Para ela era limpinho. Impunha-se sangue (ainda mais) e decapitações. O colega que tinha ao lado foi um mero elemento decorativo, insuficiente para lhe roubar o protagonismo que teimou em assumir. Não se percebe porque não estava sozinha.

Sem saber se algo correu mal ou o que correu mal no sistema de comunicações, sem perceber nada de fenómenos atmosféricos raros, sem estar minimamente informada sobre a processo de chegada de reforços estrangeiros, sem justificar o falso alarme criado pelos jornalistas da sua estação (correcção: parece que foram copiados) sobre a queda de um avião Canadair, baseando-se apenas em impressões próprias totalmente discutíveis e rebatíveis e arvorando-se em porta-voz de todos os portugueses (“os portugueses querem saber”), a pirosa da Judite queria ali deter o exclusivo da demissão de toda a gente em directo. Depois ia para o Marquês festejar esta derradeira e irrefutável prova de qualidade jornalística. Esse era o plano. Correu-lhe mal. Terá que recomeçar, voltar atrás, desta vez um directo da morgue em Coimbra, porque não?

Note-se que era toda a gente demitida menos ela, claro. O porquê de isto ainda não ter acontecido é o que os portugueses querem efectivamente saber. Ouviste, Judite? São demasiados anos de pouca seriedade e isenção e de busca de sensacionalismo ao som de “erres” (r) finais pronunciados como “dês” (d) .

Vou fugir de casa porque está muito calor

“É difícil, por isso, não admitir a hipótese de ter havido uma falha da protecção civil. Não se previu o risco de incêndio florestal, não se pôs a população em alerta para a possibilidade do fogo, não se prepararam meios para uma eventualidade, e quando o incêndio rebentou, não se tomaram todas as providências, como, por exemplo, controlar a circulação automóvel. Ao contrário do que disse o Presidente da República, não parece ter-se feito tudo o que se pôde.”

Rui Ramos, no site «Observador»

A quantidade de imbecis que resolve pronunciar-se sobre o drama de Pedrógão culpabilizando o Governo e a Protecção Civil não é surpresa, mas lá que revolta, revolta. Para além do descontrolo inédito do Nicolau Santos, que resolveu acusar a ministra, não se fizeram esperar os disparos vindos de uma das grandes concentrações de biltres que habita, como se sabe, o site «Observador». Rui Ramos, por exemplo, compara este incêndio ao da torre Grenfell, em Londres, onde se pediram imediatamente responsabilidades políticas (este o aspecto da tragédia que mais lhe interessa), e alvitra que, por cá, se deve fazer o mesmo – como se ele precisasse de pretextos para exigir demissões ao actual governo -, pois, como toda a gente vê, apesar do fumo, as duas situações são absolutamente idênticas, iguaizinhas. Um edifício de habitação social cuja manutenção está a cargo de uma autarquia ou dos serviços sociais (sujeitos da e à austeridade), mas sobre cujas obras os próprios moradores também se pronunciam, muitas vezes em seu próprio desfavor, é em tudo comparável a florestas imensas cuja propriedade se encontra dividida por um sem número de particulares obviamente avessos a delas fazerem doação ao Estado. Igual.

Mas igual mesmo só a austeridade de que o Rui Ramos foi grande defensor. E essa é claramente um obstáculo às intervenções do Estado, que Ramos repudia.

Sendo certo que o fim dos serviços florestais e, já antes, dos guardas florestais (como diz este senhor, no Público), foi prejudicial para a prevenção dos incêndios, é evidente que será muito difícil, num regime não ditatorial, que um qualquer governo chegue e confisque toda a floresta interior pertencente a privados, a desbaste, a substitua, a reconverta ou a limpe. Difícil, impossível nestes termos e excessivamente caro. Quem paga tal empreendimento? Além de que os incêndios do Verão não deixariam de acontecer. Aliás, bastaria um primeiro para provocar a queda de tão bem intencionado governo. Por isso, calma. Há coisas a fazer, como a abertura de caminhos, a sensibilização para a diversificação florestal (eu já estou sensibilizada) ou a concessão de incentivos aos proprietários, mas é preciso ver quem paga. O Rui Ramos podia dizer-nos.

Voltando à Protecção Civil, diz-nos o escriba que a mesma devia ter avisado as pessoas para o perigo que representavam as altas temperaturas esperadas. Ah bom! Só que esse aviso foi feito, é sempre feito! Além de que as pessoas não são desprovidas de pele nem de glândulas sudoríparas, e também de raciocínio. Assim, deduzo que o que a Protecção Civil deveria ter feito era ou colocar um carro de bombeiros em cada aldeia ou organizar uma operação gigantesca de evacuação de todos os habitantes do interior do sobre-aquecido país, que assim abandonariam as suas casas, animais e pertences e viriam passar uns dias ao litoral ou à casa lisboeta do Rui Ramos. Eram apenas três ou quatro milhões. Nada de mais. Tudo exequível e muito útil.

Ainda ontem atravessei de comboio a Beira Alta. Vi paisagens lindas, planícies, montanhas, pinhais, eucaliptais, florestas de espécies variadas, muitas delas nascidas em áreas há poucos anos ardidas, e também um rio, uma albufeira, enfim, tudo exposto aos quase 50 º C que bem senti no corpo no fim de semana. Parecia estranho, mas nada ardia. Nem o comboio foi tomado de assalto pelas populações avisadas. Deveriam as pessoas das aldeias da Beira Alta ter todas abandonado as suas casas perante a forte possibilidade de incêndio e a ministra que tal ordem não deu demitir-se? Basta de imbecilidades.

Que história essa a do fim do pluralismo em França

O novo partido/movimento de Emmanuel Macron prepara-se para conquistar, amanhã, cerca de 80% dos lugares do Parlamento francês («L’Assemblée»*), nos dias de hoje um feito estratosférico. Escândalo! Acabou-se a democracia! – gritam à esquerda e à direita, e ao centro-direita, os restantes partidos franceses. Para além de a Marine Le Pen alardear, apatetadamente, pois é grande amiga de Putin, que será como na Rússia, a direita pensa que o problema é não ter tido propostas ainda mais à direita e a esquerda pensa que o problema do PS é não ter tido políticas ainda mais à esquerda, isso enquanto Mélanchon se afunda nesse tal lugar “mais à esquerda” que alimenta as quimeras socialistas.

Este artigo – Le vide politique derrière le procès en démocratie – explica bem a razão das preferências por Macron. Por mim, desejo-lhe, a ele e à França, o maior dos sucessos.

 

*Sorry, tinha-me escapado o “l”em Assemblée.

A Irlanda do Norte, a sério?

O apoio que Theresa May vai negociar com os membros do DUP, partido unionista da Irlanda do Norte, em ordem a poder governar arrisca-se a desestabilizar o acordo de paz alcançado pelo Governo de Tony Blair em 1998 para aquela parte do Reino Unido (ver aqui e aqui, ou aqui, sobre o Good Friday Agreement e o Acordo de St. Andrews, que o alterou em 2006).

Há pouco, ouvi o antigo secretário de Estado de Blair, Jonathan Powell, que foi também o principal negociador para a Irlanda do Norte, lembrar, na Sky News, que ficou consagrada no acordo a neutralidade do Governo de Londres em relação aos partidos políticos e ao governo da Irlanda do Norte. Powell, que afirma que todos perderam nestas últimas eleições (o que é objectivamente verdade), não vê possibilidades de um governo estável ou sequer viável com base numa tal coligação, que ameaça agitar de novo a Irlanda do Norte, já que o partido que irá apoiar o Governo de May não deixará de exigir  contrapartidas que defendam os seus interesses.

Neste momento, é difícil vislumbrar uma (outra) solução para a situação criada por estas eleições. Tudo indica que o Reino Unido vai continuar agitado e com poucas condições para negociar a saída da União Europeia. Deviam deixar a Irlanda do Norte sossegada. Os LibDem seriam uma alternativa, caso quisessem, claro.

“Don’t worry, be (very) happy” – gozar que nem um danado

 

Dá bem para perceber que Vladimir Putin anda radiante e muitíssimo descontraído com a palhaçada que ajudou a instalar na Casa Branca. Sempre pronto a desculpar Trump, como aliás este faz em relação a ele, Putin (e também Lavrov) não perde uma oportunidade para gozar “o pratinho” e mostrar-se acima das preocupações do resto do mundo civilizado.

Como é que esta inusitada “entente” entre o par de jarras mais grotesco e perverso da história política da humanidade pós-segunda grande guerra vai pacificar o mundo e torná-lo mais justo, próspero … e de preferência e literalmente mais respirável é o que está por demonstrar e provavelmente está-lo-á para a eternidade, e esperemos que esta não seja interrompida por uma trágica e fatal mudança de humor. Trump não bate bem da bola.

Para já, cheira-me apenas a grandes negócios em proveito próprio e de um círculo restrito de personagens na América, que representam o que de mais ignorante e retrógrado por lá existe entre os ricaços, a uma enorme e suspeita tranquilidade da parte do ditador russo, enquanto, a nível interno e como exemplo para o mundo, continuam a ser convenientemente eliminados, por fantasmas certamente, jornalistas e críticos diversos ou adversários políticos do sinistro Vladimir, ou seja, por lá continua a ser “Как обычно” (“business as usual“, diz-me o Google), e isto não pode deixar de lhe ser referido sem gozo.

A benevolência, o companheirismo:

“Eu não julgarei Trump, porque foi o Presidente (Barack) Obama quem tomou estas decisões. Talvez o atual Presidente considere que estas não foram devidamente pensadas. Talvez pense que não existam os recursos necessários”, declarou Putin no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo (a propósito da decisão do presidente Trump de abandonar o acordo de Pais sobre o clima).

O gozo:

“Aliás, nós devemos ser gratos ao Presidente Trump. Hoje, dizem que inclusivamente nevou em Moscovo. Aqui (em São Petersburgo) está frio e está a chover. Agora podemos sempre culpá-lo (Trump) e ao imperialismo norte-americano, que sempre tem a culpa, mas não vamos fazê-lo”, brincou.

“Don’t worry, be happy”, disse o presidente russo em inglês no final da sua intervenção.

Entrevista a Yuval Noah Hariri

Este homem, historiador e professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu um livro brilhante, do qual já aqui falei: SapiensHistória breve da humanidade. Devidamente consumido e saboreado este primeiro, claro que já comprei o segundo – Homo Deus, que é hoje motivo para esta entrevista no Diário de Notícias.

Tal como o entrevistador, isto foi o que pensei ao ler o livro, e ele confirma-o na entrevista:

Olho para o seu livro e imagino o autor como um drone dotado de inteligência artificial a sobrevoar o planeta Terra. Revê-se nesta imagem?

Até certo ponto. Eu tento ser realmente como um drone que voa a grande altitude e observa tudo o que acontece na Terra sem tomar partidos. No entanto, ao contrário de um drone ou de uma inteligência artificial, eu não me foco apenas nos acontecimentos materiais. Tento compreender como as pessoas se sentem e dou um lugar central no meu livro às questões éticas e filosóficas. Não vale a pena escrever História se nos esquecermos da dimensão ética.”

Convém frisar o facto extraordinário de este homem viver e ter sido educado (penso) no lugar da Terra onde há, provavelmente, a maior concentração de templos e locais de culto, símbolos, comunidades e excursões religiosas. Escapar imune a este habitat e conseguir ter uma visão completamente imparcial e distante das grandes questões da humanidade é obra.

Barbies viúvas

 

Porquê de preto e porquê de véu?

As mulheres nas religiões monoteístas do Livro são realmente umas Evas. A não ser cobertas de preto, só desencaminham. Deixar o pescoço e os tornozelos à vista parece-me perigoso. (E não me venham dizer que é o protocolo, pois justamente o protocolo tem muito que se lhe diga)

A indiferença do ateu

[…]Para um ateu militante, Fátima é uma exibição de primitivismo, um desfile de sacrifícios sem sentido, uma exploração de crendices, uma manipulação comercial, em suma um horror, palavra raramente aplicada ao misticismo oriental ou às cerimónias tribais da Papuásia. E sobre Meca, por motivos óbvios, a deferência impera.[…]”

Excerto de “Fátima, um assunto que não me diz respeito” (Observador)

Faz um bom estilo e uma boa pose a Alberto Gonçalves dizer que, sendo ateu, Fátima e a religião lhe são indiferentes. Que não são nada com ele. Que por aí se fica e daí não ousa sair. Isto, deduz-se, como bom ateu que é. E ao contrário de outros. Por isso, abomina – eu diria esconjura – os que fazem do ateísmo uma militância (como se fossem a maioria) e, evidentemente, logo aproveita para caricaturar e generalizar. Os ateus militantes serão de esquerda (socialistas, a sua grande obsessão), marxistas (têm assim uma outra religião, esta sim verdadeiramente perigosa) e, entre outros defeitos, não criticam minimamente a religião islâmica, que inclui as peregrinações a Meca, muito semelhantes às que rumam a Fátima, nem outras religiões mais distantes e insulares. Estas afirmações são um bom exemplo de mentiras para encher o olho e de meias verdades veiculadas por meio de generalizações, muito convenientes ao objectivo perseguido, que é sempre o mesmo.

Sendo o ruído que alguns ateus fazem muito longe de ensurdecedor, não consta mesmo assim que Richard Dawkins, um dos mais conhecidos activistas, seja marxista. Ou Stephen Hawking. Ou o falecido Christopher Hitchens, que dizia meramente o que pensava sobre esta matéria. Não é verdade, mas a questão nem está aí. É evidente que há uma boa razão para que o deus cristão seja o mais “atacado” pelos ateus activistas que vivem no Ocidente. É aquele em que acreditam a maioria dos que por cá acreditam em entidades sobrenaturais. Aquele em nome de quem muita gente nesta parte do mundo foi vítima das maiores atrocidades e massacres (a Santa Inquisição) e que consentiu nos maiores deboches e promiscuidade com o poder temporal que marcaram parte da história pós-romana do catolicismo.

Como ateia não militante (não ando a colar cartazes), tanto me perplexizam os preceitos e as rezas islâmicas como os católicos ou judaicos. Ou hindus. Repudio o seu primitivismo, a sua irracionalidade e a sua inutilidade. Mais, acho que só fazem mal às criancinhas. Não há divindades em cima de oliveiras. Há, sim, é um enorme cemitério de divindades ao longo da história da nossa espécie. Mas repudio com maior veemência a doutrina e os preceitos islâmicos dada a sua total inflexibilidade e petrificação, o número avassalador dos seus praticantes num mundo aberto e por serem potencial e realmente indutores de violência, muita dela perpetrada em solo ocidental, numa altura em que a religião católica já se remeteu em muito boa medida a domínios como o da vida espiritual, do recolhimento interior, do amor do próximo, da paz, das visões místicas e outros tão indefiníveis como inofensivos. Será para mim uma naturalidade ser chamada de islamofóbica. Quanto a outros cultos, igualmente abstrusos, nunca nos afectaram, não nos afectam e não corremos o risco de ser por eles afectados – o animismo, o xintuismo, o taoismo e sei lá que mais.

Comungando eu do mesmo distanciamento que o Alberto Gonçalves (ena!) em relação a fenómenos como a pantomina de Fátima, e não sendo activista do ateísmo (ah, e muito menos marxista), não considero, porém, que o alheamento de um ateu deva ser total. A liberdade de pensamento, de expressão e de culto (ou não culto) não existe há tanto tempo quanto parece. A vigilância quanto à intromissão das seitas religiosas nas nossas vidas, e na vida de toda a gente, deve ser permanente. Num tempo em que os mais fanáticos dos fanáticos adoradores de entidades sobrenaturais – os muçulmanos – praticamente nos obrigam a um penoso exercício de encarnação em pessoas de há dez séculos para olhar para um fenómeno que julgávamos e desejávamos morto e esquecido, existe o perigo de uma “ressurreição” das afirmações dos credos religiosos ocidentais ou, mais provável, do seu aproveitamento pelos ditadores que vão surgindo no panorama político ocidental, ou até do regresso da ligação igreja-Estado, invocando a questão identitária.

Assim dito, indiferença, sim, mas na dose certa, ou melhor, passe a contradição, uma indiferença atenta. Eu não quero que, à boleia da contraposição de uma religião de paz (como diz o Francisco Bergoglio) a outra de violência, as crendices se imponham e se oficializem outra vez.

As pessoas que vão a Fátima são melhores do que as outras?

Resposta: não. Há de tudo, como “cá fora”. A comprová-lo basta lembrarmo-nos dos mexericos e da maledicência que era habitual ouvirem-se pela boca das pessoas que iam à missa em relação a outros frequentadores do templo. Findas as rezas, à vidinha, pois aquela que acabou de vir da Sacristia é cá uma fingida, de facto. E o padre? Ai, sabe-se lá.

A característica bizarra de certas pessoas acreditarem na existência de uma entidade sobrenatural que as pode castigar ou que, de uma outra perspectiva, vela por elas e as ajuda – mas, note-se, só quando lhe apetece, ou quando a concentração é tanta que o suplicante experimenta transformações físicas benéficas (por vezes não, a comoção pode matar) – é uma coisa lá delas. Se se sentem bem assim, se gostam da companhia de amigos imaginários, se para elas funciona, tanto melhor! Haja liberdade, desde que, obviamente, não me obriguem ao que não quero nem me façam mal em virtude da crença em causa (aconteceu durante demasiados séculos). Por isso, ir de passeata até à Serra de Aire pode até fazer bem à saúde de quem leva uma vida sedentária. O facto de o Governo ter concedido tolerância de ponto faz parte da política de não hostilização de fenómenos de massa inócuos, mas que geram dividendos económicos, e de boas relações diplomáticas com empresas poderosas na manipulação dessas mesmas massas.

O que distingue o homo sapiens (com 50 000 anos apenas) dos seus antepassados neanderthal, denisovo ou erectus é precisamente uma capacidade fundamental entretanto adquirida – a de criar ficções (ler o interessante livro “Sapiens – História Breve da Humanidade“, do israelita Yuval Noah Harari). Por uma questão prática de ordem organizativa, de sobrevivência, defensiva, afirmativa, de domínio, identificativa, etc., a invenção de realidades, de histórias – também chamado pensamento abstracto – deu-nos uma vantagem decisiva sobre as restantes espécies. Como não podia deixar de ser, com a distribuição dos sapiens pelo mundo, tipicamente em grupo, e com o seu estabelecimento em locais precisos, cada comunidade criou as suas próprias ficções, que a necessidade de supriorização, de marcação do território ou de combate a invasores depressa transformou em antagónicas. Em certas zonas do mundo, como na Europa, houve a genialidade de pôr de parte essa razão para antagonismos. Outras haverá e já nos chegam. Instituiu-se, pois, a liberdade religiosa – cada um acredita no sobrenatural que entende ou não acredita em sobrenatural nenhum e vamos ao que interessa, ou seja, organizarmo-nos segundo as regras do direito (lá está, outro exemplo de abstracção) e procurar perceber, já que estamos aqui, como é que aqui chegámos e o que é isto do universo. E o que fazer com a nossa inteligência e os conhecimentos de que dispomos.

Sugiro, pois, que se olhe para estes fenómenos das peregrinações a lugares considerados sagrados não só como comuns a múltiplas e variadas crenças desde tempos imemoriais, experiências místicas (possíveis de serem vividas, eventualmente com maior proveito, em contextos artísticos, amorosos e outros), como também algo sem efeito de maior na sociedade, a não ser uma breve, mas bem-vinda dinamização da economia, o reforço do espírito caritativo entre alguns (mas que se dispensa se vier acompanhado de proselitismo; além de que há alternativas laicas) e sobretudo o da recolha de fundos valiosos para a perpetuação da empresa ICAR, que, hoje em dia, não faz mal – embora talvez pudesse fazer melhor se os seus representantes pudessem acasalar com outros adultos. Mas enfim, lá está, para esta comunidade concreta, parece que o sexo é bom demais para não ser pecado para os seus pastores.

Livros

Ainda não li, pode até ser uma desilusão, um conjunto de teorias sem fundamento, mas, há pouco, na France24 (na rubrica “Le journal de l’Afrique”), vi uma pequena entrevista com o autor, que me pareceu um homem bem interessante, a dizer coisas, para muitos, escandalosas e inaceitáveis. (Tudo a propósito da questão das reparações pela escravatura exigíveis, ou não, à França; ele diz-se contra)

«Les Arabes ont razzié l’Afrique subsaharienne pendant treize siècles sans interruption. La plupart des millions d’hommes qu’ils ont déportés ont disparu du fait des traitements inhumains.
Cette douloureuse page de l’histoire des peuples noirs n’est apparemment pas définitivement tournée. La traite négrière a commencé lorsque l’émir et général arabe Abdallah ben Saïd a imposé aux Soudanais un bakht (accord), conclu en 652, les obligeant à livrer annuellement des centaines d’esclaves. La majorité de ces hommes était prélevée sur les populations du Darfour. Et ce fut le point de départ d’une énorme ponction humaine qui devait s’arrêter officiellement au début du XXe siècle.»


Os grandes democratas anti-capitalistas

Mélenchon e os seus apoiantes não ganharam na primeira volta das eleições presidenciais francesas e não passaram à segunda. Porém, impantes com uns inesperados 19% na primeira, fizeram-se caros no apoio a Macron na segunda volta, mantendo a ambiguidade quanto à indicação de voto, convencidos de que deles dependia, em exclusivo, o futuro da França. Muitos acabaram por votar Macron, outros não votaram, outros votaram em branco e houve até alguns que votaram em Marine Le Pen.

Pois esta gente, decerto grandes democratas, não achou melhor do que vir para a rua logo no dia seguinte à vitória de Macron protestar contra ele e contra o capitalismo (viam-se cartazes), dizem que para “avisar”.

Eu acho que o Macron, a quem parece não faltar coragem para ser directo no confronto com adversários e a quem não faltam condições para ser franco no debate de ideias, uma vez que não tem atrás de si um PS francês anquilosado ao qual teria de prestar contas de eventuais “desvios” ideológicos, fará bem se decidir reunir com pessoas como estas, em espaço público, e perguntar-lhes claramente que regime querem em alternativa ao capitalista e ao da livre iniciativa, por que acham que os trabalhadores  franceses não estão devidamente protegidos e como acham que devem ser reguladas as relações nas empresas com vista a uma maior justiça, produtividade e eficiência no mundo de hoje. Não no de ontem. Eu penso que será capaz de o fazer e de, se não calá-los ou paralisar-lhes a agressividade, como fez a Marine Le Pen, pelo menos deixar muitos a pensar.

É triste imaginar a França entregue à anarquia e ao protesto fácil. Será o terreno mais fértil de todos para a instauração de um regime autoritário ao gosto de Marine Le Pen e da sua Frente. O irónico, apesar disto, é ver as sondagens para as legislativas a darem a maioria dos votos dos franceses ao partido do Macron (26%), ao Partido Republicano (24%) e à Frente Nacional (19%), nenhum deles da extrema-esquerda do protesto, muito longe disso, e apenas 15% ao Mélenchon. Dá que pensar. Nem todo o barulho é representativo.

Desculpe o meu entusiasmo em apoiá-lo, majestade

Da desproporcionada reacção de Rui Moreira às declarações normais de Ana Catarina Mendes, apenas pouco reverenciais para o gosto da majestade, sobre o regozijo dos socialistas em caso de vitória do candidato por eles apoiado (que considerou ser uma vitória também deles), destaco o desenvolvimento que entretanto Moreira incutiu ao problema ao declarar que, apesar de desprezar e dispensar o partido socialista na sua próxima candidatura, pretende manter a colaboração com o conhecido dirigente socialista Manuel Pizarro. Sim senhor, sua Eminência; a lata.

Se Rui Moreira aprecia tanto o trabalho, a lealdade e a competência de Manuel Pizarro, se é amigo dele, porque o coloca numa posição impossível, ou seja, na posição de ter que escolher entre abandonar o PS ou deixar de trabalhar com ele? Que história é esta?

Rui Moreira parece achar que os partidos são um escolho, uma tropa dispensável na democracia, que têm peçonha, mas, se os mesmos têm pessoas competentes, o que há a fazer é roubá-los para lhe darem brilho, a ele, um não conspurcado independente que não precisa dos partidos para nada, apenas dos seus militantes. Um pedante.

Manuel Pizarro devia, agora sim, ficar ofendido. E candidatar-se à Câmara.