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Entrevista a Yuval Noah Hariri

Este homem, historiador e professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu um livro brilhante, do qual já aqui falei: SapiensHistória breve da humanidade. Devidamente consumido e saboreado este primeiro, claro que já comprei o segundo – Homo Deus, que é hoje motivo para esta entrevista no Diário de Notícias.

Tal como o entrevistador, isto foi o que pensei ao ler o livro, e ele confirma-o na entrevista:

Olho para o seu livro e imagino o autor como um drone dotado de inteligência artificial a sobrevoar o planeta Terra. Revê-se nesta imagem?

Até certo ponto. Eu tento ser realmente como um drone que voa a grande altitude e observa tudo o que acontece na Terra sem tomar partidos. No entanto, ao contrário de um drone ou de uma inteligência artificial, eu não me foco apenas nos acontecimentos materiais. Tento compreender como as pessoas se sentem e dou um lugar central no meu livro às questões éticas e filosóficas. Não vale a pena escrever História se nos esquecermos da dimensão ética.”

Convém frisar o facto extraordinário de este homem viver e ter sido educado (penso) no lugar da Terra onde há, provavelmente, a maior concentração de templos e locais de culto, símbolos, comunidades e excursões religiosas. Escapar imune a este habitat e conseguir ter uma visão completamente imparcial e distante das grandes questões da humanidade é obra.

Barbies viúvas

 

Porquê de preto e porquê de véu?

As mulheres nas religiões monoteístas do Livro são realmente umas Evas. A não ser cobertas de preto, só desencaminham. Deixar o pescoço e os tornozelos à vista parece-me perigoso. (E não me venham dizer que é o protocolo, pois justamente o protocolo tem muito que se lhe diga)

A indiferença do ateu

[…]Para um ateu militante, Fátima é uma exibição de primitivismo, um desfile de sacrifícios sem sentido, uma exploração de crendices, uma manipulação comercial, em suma um horror, palavra raramente aplicada ao misticismo oriental ou às cerimónias tribais da Papuásia. E sobre Meca, por motivos óbvios, a deferência impera.[…]”

Excerto de “Fátima, um assunto que não me diz respeito” (Observador)

Faz um bom estilo e uma boa pose a Alberto Gonçalves dizer que, sendo ateu, Fátima e a religião lhe são indiferentes. Que não são nada com ele. Que por aí se fica e daí não ousa sair. Isto, deduz-se, como bom ateu que é. E ao contrário de outros. Por isso, abomina – eu diria esconjura – os que fazem do ateísmo uma militância (como se fossem a maioria) e, evidentemente, logo aproveita para caricaturar e generalizar. Os ateus militantes serão de esquerda (socialistas, a sua grande obsessão), marxistas (têm assim uma outra religião, esta sim verdadeiramente perigosa) e, entre outros defeitos, não criticam minimamente a religião islâmica, que inclui as peregrinações a Meca, muito semelhantes às que rumam a Fátima, nem outras religiões mais distantes e insulares. Estas afirmações são um bom exemplo de mentiras para encher o olho e de meias verdades veiculadas por meio de generalizações, muito convenientes ao objectivo perseguido, que é sempre o mesmo.

Sendo o ruído que alguns ateus fazem muito longe de ensurdecedor, não consta mesmo assim que Richard Dawkins, um dos mais conhecidos activistas, seja marxista. Ou Stephen Hawking. Ou o falecido Christopher Hitchens, que dizia meramente o que pensava sobre esta matéria. Não é verdade, mas a questão nem está aí. É evidente que há uma boa razão para que o deus cristão seja o mais “atacado” pelos ateus activistas que vivem no Ocidente. É aquele em que acreditam a maioria dos que por cá acreditam em entidades sobrenaturais. Aquele em nome de quem muita gente nesta parte do mundo foi vítima das maiores atrocidades e massacres (a Santa Inquisição) e que consentiu nos maiores deboches e promiscuidade com o poder temporal que marcaram parte da história pós-romana do catolicismo.

Como ateia não militante (não ando a colar cartazes), tanto me perplexizam os preceitos e as rezas islâmicas como os católicos ou judaicos. Ou hindus. Repudio o seu primitivismo, a sua irracionalidade e a sua inutilidade. Mais, acho que só fazem mal às criancinhas. Não há divindades em cima de oliveiras. Há, sim, é um enorme cemitério de divindades ao longo da história da nossa espécie. Mas repudio com maior veemência a doutrina e os preceitos islâmicos dada a sua total inflexibilidade e petrificação, o número avassalador dos seus praticantes num mundo aberto e por serem potencial e realmente indutores de violência, muita dela perpetrada em solo ocidental, numa altura em que a religião católica já se remeteu em muito boa medida a domínios como o da vida espiritual, do recolhimento interior, do amor do próximo, da paz, das visões místicas e outros tão indefiníveis como inofensivos. Será para mim uma naturalidade ser chamada de islamofóbica. Quanto a outros cultos, igualmente abstrusos, nunca nos afectaram, não nos afectam e não corremos o risco de ser por eles afectados – o animismo, o xintuismo, o taoismo e sei lá que mais.

Comungando eu do mesmo distanciamento que o Alberto Gonçalves (ena!) em relação a fenómenos como a pantomina de Fátima, e não sendo activista do ateísmo (ah, e muito menos marxista), não considero, porém, que o alheamento de um ateu deva ser total. A liberdade de pensamento, de expressão e de culto (ou não culto) não existe há tanto tempo quanto parece. A vigilância quanto à intromissão das seitas religiosas nas nossas vidas, e na vida de toda a gente, deve ser permanente. Num tempo em que os mais fanáticos dos fanáticos adoradores de entidades sobrenaturais – os muçulmanos – praticamente nos obrigam a um penoso exercício de encarnação em pessoas de há dez séculos para olhar para um fenómeno que julgávamos e desejávamos morto e esquecido, existe o perigo de uma “ressurreição” das afirmações dos credos religiosos ocidentais ou, mais provável, do seu aproveitamento pelos ditadores que vão surgindo no panorama político ocidental, ou até do regresso da ligação igreja-Estado, invocando a questão identitária.

Assim dito, indiferença, sim, mas na dose certa, ou melhor, passe a contradição, uma indiferença atenta. Eu não quero que, à boleia da contraposição de uma religião de paz (como diz o Francisco Bergoglio) a outra de violência, as crendices se imponham e se oficializem outra vez.

As pessoas que vão a Fátima são melhores do que as outras?

Resposta: não. Há de tudo, como “cá fora”. A comprová-lo basta lembrarmo-nos dos mexericos e da maledicência que era habitual ouvirem-se pela boca das pessoas que iam à missa em relação a outros frequentadores do templo. Findas as rezas, à vidinha, pois aquela que acabou de vir da Sacristia é cá uma fingida, de facto. E o padre? Ai, sabe-se lá.

A característica bizarra de certas pessoas acreditarem na existência de uma entidade sobrenatural que as pode castigar ou que, de uma outra perspectiva, vela por elas e as ajuda – mas, note-se, só quando lhe apetece, ou quando a concentração é tanta que o suplicante experimenta transformações físicas benéficas (por vezes não, a comoção pode matar) – é uma coisa lá delas. Se se sentem bem assim, se gostam da companhia de amigos imaginários, se para elas funciona, tanto melhor! Haja liberdade, desde que, obviamente, não me obriguem ao que não quero nem me façam mal em virtude da crença em causa (aconteceu durante demasiados séculos). Por isso, ir de passeata até à Serra de Aire pode até fazer bem à saúde de quem leva uma vida sedentária. O facto de o Governo ter concedido tolerância de ponto faz parte da política de não hostilização de fenómenos de massa inócuos, mas que geram dividendos económicos, e de boas relações diplomáticas com empresas poderosas na manipulação dessas mesmas massas.

O que distingue o homo sapiens (com 50 000 anos apenas) dos seus antepassados neanderthal, denisovo ou erectus é precisamente uma capacidade fundamental entretanto adquirida – a de criar ficções (ler o interessante livro “Sapiens – História Breve da Humanidade“, do israelita Yuval Noah Harari). Por uma questão prática de ordem organizativa, de sobrevivência, defensiva, afirmativa, de domínio, identificativa, etc., a invenção de realidades, de histórias – também chamado pensamento abstracto – deu-nos uma vantagem decisiva sobre as restantes espécies. Como não podia deixar de ser, com a distribuição dos sapiens pelo mundo, tipicamente em grupo, e com o seu estabelecimento em locais precisos, cada comunidade criou as suas próprias ficções, que a necessidade de supriorização, de marcação do território ou de combate a invasores depressa transformou em antagónicas. Em certas zonas do mundo, como na Europa, houve a genialidade de pôr de parte essa razão para antagonismos. Outras haverá e já nos chegam. Instituiu-se, pois, a liberdade religiosa – cada um acredita no sobrenatural que entende ou não acredita em sobrenatural nenhum e vamos ao que interessa, ou seja, organizarmo-nos segundo as regras do direito (lá está, outro exemplo de abstracção) e procurar perceber, já que estamos aqui, como é que aqui chegámos e o que é isto do universo. E o que fazer com a nossa inteligência e os conhecimentos de que dispomos.

Sugiro, pois, que se olhe para estes fenómenos das peregrinações a lugares considerados sagrados não só como comuns a múltiplas e variadas crenças desde tempos imemoriais, experiências místicas (possíveis de serem vividas, eventualmente com maior proveito, em contextos artísticos, amorosos e outros), como também algo sem efeito de maior na sociedade, a não ser uma breve, mas bem-vinda dinamização da economia, o reforço do espírito caritativo entre alguns (mas que se dispensa se vier acompanhado de proselitismo; além de que há alternativas laicas) e sobretudo o da recolha de fundos valiosos para a perpetuação da empresa ICAR, que, hoje em dia, não faz mal – embora talvez pudesse fazer melhor se os seus representantes pudessem acasalar com outros adultos. Mas enfim, lá está, para esta comunidade concreta, parece que o sexo é bom demais para não ser pecado para os seus pastores.

Livros

Ainda não li, pode até ser uma desilusão, um conjunto de teorias sem fundamento, mas, há pouco, na France24 (na rubrica “Le journal de l’Afrique”), vi uma pequena entrevista com o autor, que me pareceu um homem bem interessante, a dizer coisas, para muitos, escandalosas e inaceitáveis. (Tudo a propósito da questão das reparações pela escravatura exigíveis, ou não, à França; ele diz-se contra)

«Les Arabes ont razzié l’Afrique subsaharienne pendant treize siècles sans interruption. La plupart des millions d’hommes qu’ils ont déportés ont disparu du fait des traitements inhumains.
Cette douloureuse page de l’histoire des peuples noirs n’est apparemment pas définitivement tournée. La traite négrière a commencé lorsque l’émir et général arabe Abdallah ben Saïd a imposé aux Soudanais un bakht (accord), conclu en 652, les obligeant à livrer annuellement des centaines d’esclaves. La majorité de ces hommes était prélevée sur les populations du Darfour. Et ce fut le point de départ d’une énorme ponction humaine qui devait s’arrêter officiellement au début du XXe siècle.»


Os grandes democratas anti-capitalistas

Mélenchon e os seus apoiantes não ganharam na primeira volta das eleições presidenciais francesas e não passaram à segunda. Porém, impantes com uns inesperados 19% na primeira, fizeram-se caros no apoio a Macron na segunda volta, mantendo a ambiguidade quanto à indicação de voto, convencidos de que deles dependia, em exclusivo, o futuro da França. Muitos acabaram por votar Macron, outros não votaram, outros votaram em branco e houve até alguns que votaram em Marine Le Pen.

Pois esta gente, decerto grandes democratas, não achou melhor do que vir para a rua logo no dia seguinte à vitória de Macron protestar contra ele e contra o capitalismo (viam-se cartazes), dizem que para “avisar”.

Eu acho que o Macron, a quem parece não faltar coragem para ser directo no confronto com adversários e a quem não faltam condições para ser franco no debate de ideias, uma vez que não tem atrás de si um PS francês anquilosado ao qual teria de prestar contas de eventuais “desvios” ideológicos, fará bem se decidir reunir com pessoas como estas, em espaço público, e perguntar-lhes claramente que regime querem em alternativa ao capitalista e ao da livre iniciativa, por que acham que os trabalhadores  franceses não estão devidamente protegidos e como acham que devem ser reguladas as relações nas empresas com vista a uma maior justiça, produtividade e eficiência no mundo de hoje. Não no de ontem. Eu penso que será capaz de o fazer e de, se não calá-los ou paralisar-lhes a agressividade, como fez a Marine Le Pen, pelo menos deixar muitos a pensar.

É triste imaginar a França entregue à anarquia e ao protesto fácil. Será o terreno mais fértil de todos para a instauração de um regime autoritário ao gosto de Marine Le Pen e da sua Frente. O irónico, apesar disto, é ver as sondagens para as legislativas a darem a maioria dos votos dos franceses ao partido do Macron (26%), ao Partido Republicano (24%) e à Frente Nacional (19%), nenhum deles da extrema-esquerda do protesto, muito longe disso, e apenas 15% ao Mélenchon. Dá que pensar. Nem todo o barulho é representativo.

Desculpe o meu entusiasmo em apoiá-lo, majestade

Da desproporcionada reacção de Rui Moreira às declarações normais de Ana Catarina Mendes, apenas pouco reverenciais para o gosto da majestade, sobre o regozijo dos socialistas em caso de vitória do candidato por eles apoiado (que considerou ser uma vitória também deles), destaco o desenvolvimento que entretanto Moreira incutiu ao problema ao declarar que, apesar de desprezar e dispensar o partido socialista na sua próxima candidatura, pretende manter a colaboração com o conhecido dirigente socialista Manuel Pizarro. Sim senhor, sua Eminência; a lata.

Se Rui Moreira aprecia tanto o trabalho, a lealdade e a competência de Manuel Pizarro, se é amigo dele, porque o coloca numa posição impossível, ou seja, na posição de ter que escolher entre abandonar o PS ou deixar de trabalhar com ele? Que história é esta?

Rui Moreira parece achar que os partidos são um escolho, uma tropa dispensável na democracia, que têm peçonha, mas, se os mesmos têm pessoas competentes, o que há a fazer é roubá-los para lhe darem brilho, a ele, um não conspurcado independente que não precisa dos partidos para nada, apenas dos seus militantes. Um pedante.

Manuel Pizarro devia, agora sim, ficar ofendido. E candidatar-se à Câmara.

Grande, Joana

Deixem-me ir contra a corrente. Não acho que o terço gigante da autoria da Joana Vasconcelos, em Fátima, seja muito feio (podia ser amarelo ou às cores) ou disparatado, visto da perspetiva do seu efeito e função. Para os frequentadores daqueles locais e das suas sessões colectivas, o dito objecto, naquelas dimensões, tem potencial para ser inspirador – seja lá do que seja – e empolgante. Em suma, parece-me eficaz no despertar do fervor e do êxtase religioso, intenção que decerto esteve na base da sua concepção ou da sua encomenda. É um símbolo grande e luminoso da devoção à chamada “Virgem Maria”, uma figura central do culto católico e no nascimento daquele lugar de romaria.

Não sei se a Joana Vasconcelos virou católica fervorosa (ou se já era) e fã de visões místicas e gostou de assinalar assim a sua nova condição, em grande, como sempre. Mas, se não virou, interpretou bem o que lhe foi pedido. Se não lhe foi pedido, então fez uma proposta ganhadora. Há-de haver muita gente, sobretudo à noite, a extasiar-se e, passada a efeméride, a agarrar nas contas do rosário caseiro com mais entusiasmo e “fé” lembrando-se daquele destaque. Objectivo cumprido, acho.

Mas para não parecer que sou boazinha, porque não sou, nos países árabes e noutros da orla do mediterrâneo, como a Grécia  ou a Albânia, há o costume – penso que mais comum entre os homens – de ir dedilhando uma espécie de rosário (sem a divisão em mistérios, só com contas, e estas um pouco maiores – na Grécia chama-se Kombolói; em árabe Masbaha) também para orações a Alá ou, mais simplesmente, na Grécia actual, para acalmar o stress ou apenas para se entreterem. Penso que estes “terços” sejam bem anteriores aos que, para os católicos, passaram a concentrar e servir de guia físico às orações mais típicas – o Credo, a Ave Maria, o Pai Nosso e a Salve Rainha, assim como para a meditação sobre a penitência do Cristo. Olhem, em vez de estarem a fazer outra coisa, as pessoas podem ir dedilhando e sibilando. Pacífico.

Há muito pouca coisa original neste mundo, em particular nas religiões. Aqui, quase nada é unifuncional ou exclusivamente místico.

Tema para discussão

Em comentários à peça jornalística da Fernanda Câncio, hoje no DN, que aborda (desenterra?) (a culpa foi do Marcelo) o esclavagismo, o racismo (há por vezes confusão entre os dois) e o colonialismo portugueses, a meu ver numa perspectiva indiferente a que objectivamente se acicatem ódios (onde praticamente não existem) ou que incute culpas – deslocadamente – nos humanos actuais, fazendo brotar obstáculos inúteis no já de si vulnerável terreno da relação entre países agora independentes e sim, algo miscigenados, isto tudo a pretexto de não se contar “toda a verdade” sobre Portugal nos manuais escolares, descobri uma hiperligação para o vídeo que se segue. Desconhecia o conceito de «marxismo cultural», mas a descrição soa-me a algo de familiar. O termo é uma catalogação, como outras de campos opostos podem ser. E o que se diz pode, por vezes, ser ofensivo para quem genuinamente luta contra discriminações de vária ordem. Mas não faz mal pensar no assunto e discuti-lo. Quanto ao “cancro”, pode ser obviamente, ou não, um termo abusivo. Digam vocês.

(o vídeo é curto e tem legendas)

Sem jeito

Como aproveitar o descontentamento com a emigração e o terrorismo, a crise financeira e a ascensão de partidos fascistas para sonhar com o regresso da revolução anti-capitalista

A posição de Jean-Luc Mélanchon sobre o voto na segunda volta das eleições presidenciais francesas é, por cá, apoiada pelo Bloco de Esquerda. (Do PCP, encontrei esta passagem no Avante! “Por seu lado, o Partido Comunista Francês apelou claramente «a barrar o caminho da Presidência da República a Marine Le Pen», que «constitui uma ameaça para a democracia, à República e à paz», utilizando o único boletim de voto disponível para esse fim.“. Macron será, portanto.) Mas, dizia eu, o Bloco concorda que os eleitores da esquerda derrotada representada por Mélenchon não vão votar, vão votar nulo ou vão votar em Macron. Tanto faz.

Que esta posição seja inteligentemente aproveitada e explorada por Marine Le Pen, que objectivamente ganha força, é-lhes indiferente. Ora, acontece que a indiferença nestes casos significa muito. Significa, nomeadamente, que não os incomoda ver Marine Le Pen no poder ou com representatividade reforçada. Aparentemente, seria até divertido, uma revolução fascista a espreitar muito fresca, em pleno século XXI. Seria uma situação extrema que lhes traria, a eles, pensam eles, hipóteses futuras de sucesso. Ou nem será isso. Será mais o espectáculo. Incomoda-os mais ver por lá Emmanuel Macron, um centrista moderado e europeista (não pode!).

Ontem, no programa Prova dos Nove, da TVI 24, Fernando Rosas estava com sérias dificuldades em defender tamanha posição. A má consciência pô-lo irritado (afinal, Mélanchon tinha dado instruções, em 2002, para o voto em Chirac; em Chirac, do partido UMP – da direita republicana), pelo que não lhe restou mais se não uma fuga para a frente. Dizia ele, furioso, que, está bem, a senhora Le Pen é racista e xenófoba e tudo isso, mas, com Macron, nada vai mudar! Nada vai mudar. É este o principal argumento. E como nada vai mudar, diz ele, com a certeza dos fanáticos e/ou interesseiros e/ou apostadores malévolos, conclui-se que é até preferível deixar ir a França para uma deriva fascista e nacionalista, pouco importando que tal arraste a Europa para o abismo da implosão. Não! Calma. Atenção que ele não diz isso. O que ele diz é que não quer isso (enfim, não quer o fascismo; a implosão da UE dir-se-ia que sim). Então como evitá-lo? Ora bem, se no vosso pensamento aparece a palavra «votar», esqueçam, a ideia é que vote em Macron quem quiser; ele, se lá estivesse, esperaria que alguém o fizesse por ele. Faria figas para que alguém o fizesse por ele. Ir lá pôr o voto em Macron é que não. Extraordinária posição, de facto. No fundo, crendo que Macron ganhará, é mau dar-lhe demasiados votos – o homem cometeu o pecado capital de trabalhar na banca, além de ter sido ministro da Economia de Hollande em 2014, apesar de se ter demitido em 2016. Já não é tão mau deixar a Frente Nacional ganhar votos nesta segunda volta à conta dos abstencionistas ou “protestantes” da extrema-esquerda. Ah, desculpem, é mau, é mau: mas haja quem o impeça, que eles não.

O melhor argumento

Longe de mim meter-me nesta pertinente polémica entre Maria Filomena Mónica (Expresso de 4 de Março – “Afinal a minha mãe tinha razão?”), o padre Portocarrero e, agora, uma professora de direito de Coimbra – Mafalda Miranda Barbosa – a propósito dos conceitos de “anulação”, “declaração de nulidade”, “anulabilidade”, “dissolução” e termos afins aplicáveis ao fim dos matrimónios católicos. Adianto apenas que a questão inicial a suscitar a reacção do padre era, mais pragmaticamente, o preço dessas operações e quem as pode pagar. Mas resolveram enveredar pelo direito canónico e os seus conceitos e disposições, algumas inacessíveis à compreensão humana que não recorra à ajuda divina.

Ora, nesse contexto, considero que a frase que aqui transcrevo, extraída da peça da professora Miranda Barbosa, hoje publicada no Observador, é dos melhores argumentos e postulados que se podem utilizar:

[… ] Nem é menos certo que há determinados aspetos da doutrina católica aos quais podemos aceder abrindo-nos à ação do Espírito Santo em nós.[…]

A Helena Matos sabe como nos divertir

“Encontrar um opositor ao líder do PS em funções em qualquer jornal, revista, rádio, televisão, boletim ou papel volante tornou-se com Sócrates e António Costa uma tarefa biologicamente falando quase impossível.

Quem o diz é a Helena Matos, colunista do blogue/jornal digital Observador, que mais opositores ao Governo (e ao seu líder) alberga. A não ser aí, onde diariamente “asfixiam” José Manuel Fernandes, Rui Ramos, Alberto Gonçalves, Vasco Pulido Valente, Helena Garrido, o padre Portocarrero, a Maria João Avilez e outros de igual calibre e pensamento, podemos encontrar uma profusão de gente “asfixiada” noutros jornais, como Paulo Rangel, João Miguel Tavares, os Saraivas, o Barreto, o César das Neves, mais três quartos dos escrevinhadores do Expresso, quatro quintos dos do Correio da Manhã e por aí fora. Não chega? Diz que não. É meia louca.

MOAB e FOAB – cultivemo-nos enquanto podemos

Segundo o terrível e quase sempre escabroso Daily Mail, a “mãe” de todas as bombas ( Massive Ordnance Air Blast – MOAB – ou, para facilitar, “mother of all bombs”) tem afinal um “marido”, que é o “pai de todas as bombas”. Mas estão separados. Ele vive na Rússia e é ainda mais potente e portentoso. Quatro vezes mais. Vai buscar, Trump. Tenho uma maior que a tua.

Um puto e uma incógnita (há a hipótese de Putin estar atónito) dos quais dependemos todos.

 

Father Of All Bombs

Mass: 7.1 tons

TNT equivalent: 44 tons (88,000lbs)

Blast radius: 300 metres (984ft)

Guidance: INS/GPS

Mother Of All Bombs

Mass: 8.2 tons

TNT equivalent: 11 tons (21,600lbs)

Blast radius: 150 metres (492ft)

Guidance: GLONASS

 

Não percebo é uma coisa: por que razão a MOAB é guiada pelo sistema GLONASS (o GPS russo)?

Bolo de chocolate e bombas

Depois de dois meses a falar da urgência de dar prioridade à América (pressupunha-se que em relação ao resto do mundo, o que significaria um fechamento) e das boas intenções dos russos, que não queria antagonizar, mas com os quais queria cooperar (ou seja, eles que tratassem dos das cabeças cobertas lá dos desertos), Donald Trump dá uma volta de 180º, bombardeia uma base aérea na Síria (dando a ordem enquanto saboreava bolo de chocolate em Mare-a-Lago), envia navios de guerra para a Coreia do Sul, ameaçando a Coreia do Norte, lança uma bomba de grande potência no Afeganistão contra esconderijos do Daesh, reconhece a importância da Nato, depois de dizer que estava obsoleta e de envergonhar os seus membros, e diz-se pronto a admitir o Montenegro nesta organização, contrariando os russos. O que se passa?

Perguntas e mais perguntas:

  1. Descobriu um passatempo alternativo ao golfe que o pode manter mais tempo na Casa Branca?
  2. Descobriu os prazeres do poderio militar do seu país?
  3. Agora que tomou o gosto pelos “jogos de guerra”, não vai parar?
  4. Terá neste divertimento a participação (e o incentivo) da filha Ivanka?
  5. Nada disto e está apenas a ser levado pelos falcões militares que o rodeiam?
  6. Saberá onde fica o Afeganistão, uma vez que ontem confundiu a Síria com o Iraque?
  7. Estará a ficar cheché? Nunca deixou de estar?
  8. Faz tudo isto para fingir que se está a distanciar da Rússia?

Avalanche de santos

Leio na France 24 que o padre que foi assassinado por dois jihadistas numa igreja na Normandia, Jacques Hamel, enquanto dizia a missa para meia dúzia de fiéis, poderá ser em breve beatificado, o que constitui o primeiro passo para se tornar santo. Os dois miúdos que acompanharam Lúcia nas suas alucinações também estão na calha para a canonização.

Ou o estatuto de “santo” está a perder valor, ou a igreja católica está a precisar desesperadamente de mártires (o padre seria um deles, pois, estando a trabalhar, automaticamente “morreu pela sua fé”) ou, terceira hipótese, a igreja anda algo desorientada com a concorrência e a pressão dos muçulmanos em matéria de mártires.

Mas, nesse caso, por que não beatificar todas as vítimas de camiões e automóveis (e aviões) utilizados pelos terroristas islâmicos nos últimos tempos? É certo que andavam simplesmente a passear e distantes do objectivo de “defender a fé cristã”, mas caramba. Foram assassinados em nome de uma seita religiosa antagónica.

Não me posso impedir de imaginar e de me intrigar com a consequência lógica de um atropelamento de um qualquer grupo de padres católicos a caminho do Vaticano por um camião conduzido por um tresloucado jihadista. Passariam todos a santos?

Os “deuses das moscas”* apenas numa semana e em meio urbano

Ainda a propósito da viagem de finalistas do secundário a Torremolinos, uma pessoa amiga fez-me chegar o seguinte texto, escrito por uma mãe cujo filho foi, há poucos anos, a uma viagem do género.

Aquilo que eu sei sobre as viagens de Finalistas do Secundário

O texto foi publicado num blogue para mim desconhecido até agora (“destinoomulher”). Transmite uma visão prática e muito terra a terra desta problemática, que não deixa de ter interesse discutir. No fim, deixa sugestões alternativas a estas saídas turísticas em massa. São sugestões bem intencionadas, eventualmente bem acolhidas por alguns, mas, a meu ver, esquecem o atractivo que é, para a maioria dos jovens, conhecer outros (e quantos mais melhor) para além dos da própria escola.

Mas como resolver isto? O acompanhamento por um maior número de responsáveis capazes de controlar o cumprimento das regras básicas parece-me fundamental.

*”O Deus das Moscas“, livro escrito por William Golding