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Interrogatórios imperdíveis da Operação Marquês

Onde Carlos Alexandre fica a saber que o engenheiro Carlos Santos Silva também andava a fazer obras na Polícia Judiciária e lhe dá conta de que um elevador estava avariado…

Carlos Santos Silva: E nós fazemos isso. Ainda agora, portanto, no edifício da Policia Judiciária, fomos nós que fizemos a revisão toda do projecto, portanto, e encontrámos também soluções, portanto, para o cliente; o cliente que era o Ministério da Justiça e, portanto, como havia a necessidade por determinação, portanto, da senhora ministra, portanto, reduzir o valor da obra em 15%, não é, e portanto…

Carlos Alexandre: Na… no Palácio, ali na Polícia Judiciária?

Carlos Santos Silva: Sim.

Carlos Alexandre: E embelezou aquilo também com umas soluções optimizadoras poupadoras de recursos?

Carlos Santos Silva: Certo. Não, ainda falta neste momento… só falta o Laboratório de Polícia Científica.

(…)
Carlos Alexandre: Sim, mas encontrou soluções optimizadoras.

Carlos Santos Silva: Sim, sim.

Carlos Alexandre:… luminárias e…

Carlos Santos Silva: Sim, sim e em conjunto.

Carlos Alexandre: … e elevadores. Um há dias foi lá, desceu demais e coiso.

Carlos Santos Silva: Não me diga que há problemas.

Carlos Alexandre: Houve lá um problema, houve, o elevador desceu de repente e tal. Mas pronto, depois
está parado… Parou naquela altura, acho que ainda não levou nada.

Carlos Santos Silva: E com… como sempre com a colaboração também das pessoas, portanto, nomeadamente o eng. Nelson…

Carlos Alexandre: Isso é uma coisa que aconteceu… O eng. quê?

Carlos Santos Silva: Nelson da Polícia Judiciária.

Carlos Alexandre: Ah, sim, sim… O engenheiro Nelson tem lá um gabinete e tal. Eu conheço.

Fonte: Observador

Interrogatórios que ficam para a História

Não posso deixar de voltar a fazer referência, aqui, a mais um artigo do Observador sobre interrogatórios a suspeitos da Operação Marquês. Estes artigos são um bocado deprimentes, por serem de paupérrima substância (finda a leitura, começa a ser regra perguntar-me “So what“?), mas ao mesmo tempo divertem-me ao darem-me testemunho das grandes preocupações do Ministério Público. Hoje trata-se da momentosa questão do blogue Câmara Corporativa e do seu principal blogger, António Costa Peixoto, conhecido pelo pseudónimo Miguel Abrantes. Pelo que se lê, o Ministério Público considera que o blogue não passava de um instrumento de propaganda e, só por isso, já condenável. Mesmo não o sendo (muito menos por encomenda, como confirma o seu principal autor, quando interrogado), eu gostaria muito de saber de onde surgiu a ideia daqueles procuradores de que, em política, não pode haver propaganda. E que toda a propaganda é má, se for favorável a determinado político. De onde raios vem esta ideia? Receio bem que nem eu queira saber a resposta. Mais uma vez, recomendo que leiam. Estas várias transcrições têm a vantagem de nos deixarem perceber a paranóia do  Ministério Público com tudo o que tivesse uma ligação, por ínfima ou marginal que fosse, ao agora acusado.

António Peixoto, além de defender as políticas do governo Sócrates e dar guerra (sempre com fundamento e muitas vezes documentadamente) à miserável oposição, escrevia num português impecável, estava bem informado e atento, tinha sentido de humor, tinha colaboradores de igual excelência, punha a cabeça à roda à direita, enfim, era o que se considera a lâmpada mais brilhante do candelabro em blogger político. Não seria natural que, mais tarde ou mais cedo, amigos comuns o apresentassem a Sócrates? Há alguma coisa de anormal no facto de um primeiro-ministro saber da existência de um blogue de apoiantes e de os querer conhecer? Há alguma coisa de anormal em querer a colaboração de um apoiante com a sua qualidade, experiência e formação para a revisão das suas teses académicas ?

Eu escrevo aqui no Aspirina B desde o tempo em que Sócrates ainda era primeiro-ministro. Defendi as suas políticas como muita gente que conheço. E como milhares de pessoas que desconheço, já que mais de um milhão de portugueses votou nele para as legislativas. Não o conheço de lado nenhum, nunca falei com ele, não conheço nenhum elemento do seu círculo de amigos, nunca fui contactada por ninguém, em suma, sou uma espontânea, uma patega, e, pelos vistos, também uma cúmplice de um terrível crime. O Ministério Público, quer por razões de ignorância quer por má fé, parece entender que deveria ser impossível, se não proibido, alguém estar de acordo com as políticas seguidas por Sócrates. Ora, este é um muito mau princípio para quem se dispõe a lançar um processo da envergadura da Operação Marquês e revela perceber tão pouco do processo político. Estes interrogatórios, e a sua publicação, contribuem enormemente e apesar deles para nos fazer duvidar dos grandes princípios em que assenta toda a tese da acusação.

 

Uma coisa é a investigação sobre a origem do dinheiro e sobre a relação de Sócrates com Carlos Santos Silva. Investiguem, façam-lhes as perguntas que quiserem e eles que se expliquem: se eram empréstimos, se eram adiantamentos, se havia uma sociedade não convencional, enfim, averigúem. E averigúem se de alguma maneira as relações de amizade de um ex-primeiro-ministro com um empresário amigo prejudicaram o erário público, evidentemente. Agora, que se queiram misturar nessa cassarola as relações normais entre pessoas com a mesma filiação política e respectivas práticas correntes (como a associação de pessoas em blogues) e considerá-las como altamente suspeitas e intrigar nos jornais acerca delas é outra coisa bem diferente, que não devia acontecer.

 

Repare-se neste extraordinário comentário ao mesmo artigo do Observador:

maria perry

Ficámos a saber, sem dúvida alguma:

1) João Galamba e Pedro Adão e Silva fazem parte da máquina dissimulada de propaganda do PS. Muito provavelmente eram colaboradores da Câmara Corporativa, pois se não fossem este Peixoto teria logo respondido que não eram.

2) A máquina de propaganda envolve blogues, artigos de jornais e livros sendo este Peixoto um dos revisores/escritores.”

Que horror! Ó João Miguel do Público, não queres escandalizar-te com esta pouca vergonha?

Relações banais entre actores políticos ou simplesmente amigos e instrumentos banais de influência política passam a ser automaticamente vistos como grandes canalhices ou até crimes. Basta saírem no Correio da Manhã e quejandos. Lembre-se que este mesmo comentário é escrito num diário digital que mais não é do que um órgão de propaganda política da direita passista, propaganda, esta sim, remunerada desde a criação deste blogue gigante. Neste caso já não interessa saber por quem, não é?

 

Sócrates – uma sugestão ousada, proveitosa para todos e boa para a indústria cinematográfica

Depois de ler mais um (longo) artigo do Observador em que se explana mais uma tese do Ministério Público sobre grandes crimes cometidos pelo ex-primeiro-ministro (as teses saem agora regularmente na imprensa), apetece-me dizer como o autor do blogue “Ouriquense” – o «Eremita», que li há dias – “O homem que fuja e o Estado que o deixe fugir” (formulação livre, minha).

Eis o original:

Com o povo e a imprensa de referência convencidos da culpa de Sócrates, se no fim não houver condenação não será apenas a reputação da Justiça a ficar comprometida, mas também a da imprensa e de toda a sociedade. Se Sócrates se safa e for o último a rir, a vergonha colectiva paralisará o país como nem no sonho mais húmido de Arménio Carlos. Como nos podemos precaver deste desfecho? Não podemos. Mas Sócrates pode ajudar-nos. Como? Fugindo do país. A fuga de Sócrates é o cenário que minimiza as perdas. A Justiça seria reabilitada, pela confissão implícita de culpa, e a aparente falta de competência do foro policial para impedir a fuga de Sócrates seria muito mais tolerada do que a eventual incapacidade do Ministério Público em fazer prova. Os jornais seriam poupados à humilhação que seria Sócrates sair em liberdade, depois de tudo o que se andou a escrever. E o povo veria engrandecida a dimensão romanesca de Sócrates, logo imortalizada num biopic popular e esquemático realizado por Leonel Vieira, sem um final ambíguo – para grande frustração dos indefectíveis de Sócrates – em que a hipótese de perseguição política não seria definitivamente descartada. Sócrates deve fugir e o Estado, sem nunca o admitir, deve facilitar a sua fuga. Não há desfecho mais vantajoso para Portugal e os portugueses.

Fim de citação.

De facto, se são os argumentos que tenho lido os que dão corpo às diversas acusações, para o MP não passar pela vergonha de os ver ridicularizados, mais valia ter a boa sorte de não julgar o acusado. A tese da “obsessão pelo controlo da comunicação social”, tema da peça do Observador, obsessão que alegadamente começa a manifestar-se na “Gazeta do Interior”, é ocasião para boas gargalhadas. Pela inépcia do “criminoso” e dos seus desajeitados cúmplices face a tão gigantesco objectivo e pela seriedade com que a dita tese se leva a si mesma. São fascículos cómicos, que leio com prazer.

Ai Marcelo

“Entrevista de Costa vista em Belém como mais uma oportunidade perdida”

(Público)

Não me espantaria se o jornal Público se dedicasse por estes dias a acirrar os ânimos entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Havendo um fundamento sério no mal-estar entre os dois, noticiado pelo jornal há uns dias (e as razões estão muito longe de ser todas favoráveis a Marcelo), é também evidente que ao jornal e aos interesses que representa convém explorar este desentendimento – porque aumenta as vendas e “morde” nos socialistas por razões bem conhecidas – e dar com isso uma mãozinha a uma direita que entrou em desespero pela não chegada do diabo nem vislumbre do mesmo. Com a situação económica do país a melhorar a olhos vistos e a Geringonça a não dar sinais de quebrar no essencial, os incêndios e Marcelo oferecem subitamente uma boa tábua de salvação a quem se vê a afundar e sem maneira de chegar ao poder. O David Dinis pode estar numa de ajudar. É que estas notícias, por muito verdadeiras e objectivas que sejam, associadas a uma tragédia nacional, transformam-se, na restante comunicação social, esmagadoramente controlada pela direita, numa guerra do Bem contra o Mal, num contraponto entre “os afectos” de Marcelo e “a frieza” de Costa. Num populismo sem pudor.

É fácil omitir que a função de um não é a função do outro. Que o que se espera de um não é o que se espera do outro. Que as responsabilidades de um não são as do outro. Que Marcelo não foi eleito para governar. Que para isso teria que ter sido eleito para a chefia do PSD, coisa que não foi nem quis. Omitir tudo isto é fácil.

Ora, interesses político-jornaleiros à parte, acontece que Marcelo dá mostras de não se estar a importar nada de participar neste jogo/brincadeira irresponsável e calculista. Mais: não é de excluir que tenha sido o próprio a começá-lo. Num pequeno vídeo passado no sábado no Eixo do Mal (em que se vê Marcelo a discursar na entrega de um prémio a Wim Wenders), Marcelo mostra-se claramente desagradado com a Geringonça pelo facto de a mesma obrigar a negociações constantes com partidos anti-europeus, cujas consequências não são, a seu ver, as melhores para o país. É um escolho, de facto. Mas daí até o Presidente pôr em prática um plano de ataque a Costa e de desestabilização política deveria ir um passo muito grande. E maduramente ponderado. E no entanto, o que vemos é a presidência da República a alegar e a aproveitar as diferenças na exteriorização da “compaixão” pelas vítimas para reforçar a aura de «comandante do povo» de Marcelo e a ideia de incompetência do Governo. Muito mau. Mau de mesquinho. O que é que fez o Costa? Não chorou? Mas, mas, mas … o que é isto? O socorro está a chegar às populações como previsto! Os habitantes locais não atribuem ao Governo nenhuma das culpas que o Presidente deixa subentendidas. Nenhuma.

Convém, pois, lembrar ao actual Presidente que 1) é preciso muito mais do que beijinhos, abraços e selfies para resolver os problemas das pessoas atingidas por uma catástrofe – tarefa exigente e criteriosa que não incumbe ao Presidente; 2) nem toda a gente tem feitio para “santo” curandeiro, neste caso de “feridas psicológicas”, como Marcelo parece querer ser; 3) Marcelo não tem o direito de expor a sua personalidade (que crê impecável, mas que muitos vêem como calculista) por contraponto à de outros, que não andam aos beijos e eventualmente encaram as suas funções de forma diferente, colocando o objectivo de eficácia a outro nível.

Esta afirmação (referente à entrevista a António Costa, ontem, na TVI), se verdadeira, vinda de Marcelo, é inaceitável : “Primeiro-ministro falhou a reconstrução da sua imagem junto dos portugueses“. (vd. link acima) O que queria o Presidente? Que Costa se ajoelhasse, lhe pedisse perdão, pedisse perdão aos portugueses e chorasse?

A que ponto de irracionalidade estamos a chegar?

Um presidente simpático poderia ter mais juízo. A sério que é a visão de Santana Lopes no poder que o move?? Se é, é ridículo.

Quando percebemos o que “sem emoção” quer dizer

Já se desconfiava que o Presidente Marcelo regressara à sua faceta de golpista espertalhão ou mesmo maquiavélico, que vigorou durante mais de metade da sua vida política, ao “desancar” publicamente no Governo para vir de imediato (enquanto a vítima recupera do choque) colher os louros das medidas por este tomadas – alegadamente por pressão sua – e que afinal o Presidente já conhecia, inclusive o seu calendário. O mesmo se pode dizer da sua alegada pressão para que a ministra da Administração Interna fosse demitida. A ministra seria demitida independentemente da vontade do Presidente e a decisão de substituição não só já estava tomada, como também já fora comunicada ao Presidente. Desconfiava-se. Ora bem, tudo isto é hoje confirmado nesta notícia. E não acredito que seja spin do Governo. É apenas anedótico que Marcelo pense que nada se iria saber.

Em suma, o Presidente atraiçoa o Governo, ou “passa-lhe a perna”, se preferirem, aproveitando os crimes dos incendiários e fenómenos atmosféricos raros em situação de seca extrema, deixa o Governo estupefacto (mas, não obstante, diligente e profissional no seu programa de medidas e com uma comunicação ao país do primeiro-ministro), vai para o terreno distribuir abraços e beijinhos, deixando espalhar a ideia da frieza dos outros e, quando está para ser conhecido o que verdadeiramente se passou, ruma aos Açores, como se nada fosse, a distribuir “afectos” enquanto elogia, a uma distância de segurança, o Governo.

Como classificar esta porcaria?

Porque é que não ouço ninguém a falar da necessidade de um inquérito aos últimos incêndios?

Já aqui me insurgi contra o jornalismo vergonhoso que por estes dias se faz. Não disse, mas digo agora, que melhor fariam os jornalistas se, em vez de fazerem jogos políticos e acusações, fossem investigar as horas a que os incêndios começaram, a quantidade de acendimentos por concelho, as queimadas confirmadas e outras questões que conviria apurar, para além das condições meteorológicas concretas. Porque a questão é a seguinte: metade de Portugal ficou de repente a arder, num só dia, e o prejuízo em vidas humanas, vidas animais, explorações agrícolas, indústrias e florestas foi incomensuravelmente maior do que em Pedrógão Grande. Se, no caso dessa tragédia, se abriu um inquérito sério, por que razão não se faz o mesmo para esta tragédia de dimensões nunca vistas?

Inúmeras pessoas (os chamados populares) residentes nesses locais são peremptórias em afirmar que nada daquilo foi normal. E não hesitam em avançar teorias da conspiração de contornos políticos. É certo que a terra, o mato, a vegetação em geral estavam para além de secos. O vento também só acrescentou desespero à impotência. Mas a distribuição generalizada dos fogos pelo território já não parece a ninguém coincidência. Por isso, o mínimo que se deveria fazer seria mandar investigar. O Governo deveria, por assim dizer, contra-atacar. Começando, dado não ter ainda outros dados, com a falta de educação das populações e a incúria das autoridades municipais, em vez de se torturar com sentimentos de culpa, ir atrás da conversa do Marcelo e gizar grandes planos de ordenamento florestal. Porque a verdade é esta: quem quiser pôr uma mata a arder (ou duas, ou três), põe, haja caminhos ou não haja caminhos, bons acessos ou maus acessos, muitos ou poucos bombeiros e equipamentos de combate. Não há que ter medo de lançar um inquérito. A extensão da tragédia mais do que o justifica. Ainda há pouco ouvi na TSF um agricultor da região de Penacova que perdeu todas as suas plantações de medronheiros. Bem tratadas, limpas, suficientemente dispersas para garantir que algumas se salvariam em caso de fogos. Não adiantou. Perdeu tudo. Ordenem o território, limpem as florestas, mas não tenham ilusões de que quem quer fazer o mal o fará novamente.

Na Idade Média, matavam-se (queimavam-se) três ou quatro judeus na sequência de um terramoto e o assunto ficava arrumado. No século XXI nada fica arrumado com a “queima” de uma ministra. Por isso, caro António Costa, como vítima que também sou destes incêndios, eu quero saber o que aconteceu no fim de semana passado.

A comunicação social não anda mal

Anda péssima. Não se consegue ler uma única notícia imparcial e objectiva, um único destaque sério, um único comentário aceitável. Parece tudo contaminado, a funcionar em circuito fechado. Os jornalistas excitam-se uns aos outros, vão atrás dos “soundbytes” de alguns políticos da sua eleição. Os comentadores idem. Um mundo paralelo. Este é um caso em que nunca me pareceu tão positivo que a generalidade dos portugueses não compre jornais e prefira o futebol aos canais noticiosos. É que, de facto, o bacanal e a festança que vão pelos OCS parecem ser coisa de elites, coisas da capital, coisas demasiado elaboradas para os campónios que somos todos nós. Comigo passa-se que me sinto totalmente alheia ao que para aí vai. Tomemos os exemplos do tratamento respeitoso dado a Assunção Cristas – que lhes vendeu lixívia e eles compraram -, ou  da ministra Urbano de Sousa. É evidente que esta pediria a demissão e que Costa a aceitaria. Aliás, a ministra já o tinha feito ainda antes de Marcelo discursar. E não, não concordo (tal como Costa) que a catástrofe de Pedrógão fosse razão para a demissão. Então porquê a insistência em que “Marcelo força saída da ministra”, que “Costa é cego”, que “levou um puxão de orelhas” (viram como Eduardo Cabrita surgiu como escolha pronta, tendo eu ouvido meia hora antes do anúncio do novo ministro um jornalista/repórter à porta de Belém a dizer que Costa não teria seguramente tempo para escolher um substituto para Constança antes do início da próxima semana, como se tivesse sido colhido de surpresa?), que, se não fizer não sei o quê, “Marcelo o vai chumbar“, etc., um etc. tão longo que seria fastidioso estar aqui a detalhar? Passem uma vista de olhos pelos jornais. É que nem se dão conta do ridículo da hipótese e da ameaça que deixam no ar ao falarem em chumbo: se Marcelo chumbasse Costa (dissolução da Assembleia e convocação de eleições), a seguir seria Marcelo a levar um chumbo monumental em sentido inverso do povo que diz amar e representar – pela instabilidade desnecessária que provocaria quando tudo corre bem excepto a meteorologia, pela inoportunidade e exagero da decisão, pela indefinição e o estado calamitoso do PSD, pela vitória reforçada do mesmo Costa. Por tudo isto, recomendo, pelo menos, pelo menos, calma. Eu compreendo que desejem vender o máximo, tornar o vosso negócio lucrativo e darem-se a importância de fazerem de contra-poder, mas se o tentarem fazer sendo ordinários e indo contra o mais razoável bom senso, estão a cometer suicídio. O Tavares do Público, por exemplo, o cómico de sábado à noite, acha que o Passos se revelou o grande estadista que é ao obrigar Portas, o da decisão irrevogável, a ficar em 2013. Ó Tavares, o Passos?? Fala-me da Merkel, fala-me do Cavaco, fala-me da Troica, mas … o Passos?? E não, nem sequer me fazes rir.

Há também os casos em que os títulos das notícias, como este, hoje, no Público – “Sócrates terá usado ex-ministros em crimes de corrupção no TGV” são escolhidos propositadamente para darem a entender uma coisa que, vai-se a ver, fica totalmente nebulosa, quando não negada, ao ler-se o desenvolvimento. Aliás, o texto, que transcreve a tese do MP no assunto em apreço, acaba por mostrar bem como o Ministério Público pode efectivamente, como dizem os advogados, ter-se entregue ao delírio e à efabulação no processo Marquês. Aqui impõe-se a leitura. Fica-se perplexo com o título, outros já houve em que se ficou escandalizado, mas pelo menos não se fica revoltado com o raio e o abstruso da maioria das opiniões. Mas que a pressão mediática da direita é desproporcional e desproporcionada, é.

Vermes

Acabei de percorrer a A25 desde uma das zonas mais críticas dos fogos de ontem – Nelas, Mangualde, Gouveia – em direcção a Aveiro. Isto porque me foi impossível fazer o trajecto habitual, que inclui o IP3 na zona da barragem da Aguieira, Penacova e Souselas em direcção à A1. Estava há muito cortada esta estrada. Pois toda a A25, ao meio-dia, estava envolta numa escuridão imensa (consta que já desde a Guarda, ou seja, de lés a lés), parecendo quase que o sol não tinha nascido, havendo ainda, nomeadamente na serra do Caramulo, pequenos focos moribundos no meio da desolação total.

Antes, passara a noite com a casa envolta numa nuvem densa de fumo, um ar irrespirável, um vento quente fortíssimo que fazia bater com estrondo tudo o que era porta e janela entreabertas. Nas mesas, em volta dos candeeiros acesos, uma névoa de fumo. De manhã, os carros estavam cobertos de fagulhas. O chão, as varandas, tudo sujo. Falando com vários habitantes locais, entre os quais o dono da oficina onde deixara o meu carro para uma pequena reparação de pintura, constatei a ansiedade, a consternação e, desculpem o termo, o “aparvalhamento” com o que estava a acontecer (“ardeu lá em cima a mata do Conde! “- diziam-me, referindo-se à propriedade de Paes do Amaral – que afinal escapou por pouco) e ouvi relatos de pessoas que se apresentaram ao trabalho e as instalações já não existiam – pequenas e médias empresas, oficinas como aquela, etc., outras que não puderam sequer sair para o trabalho. Pessoas sem dormir.

Este era o panorama. De um pouco mais longe, tivémos notícia de que todos os pinhais da família, na região de Tondela, arderam. Não sobrou nada nas margens do Dão e do Dinha. Cinzas.

Pois não ouvi da boca de ninguém a mais ligeira referência à culpa do Governo, ou da ministra, ou dos comandantes dos bombeiros, ou da Protecção Civil. Nada. Todos têm consciência de que o fenómeno foi demasiado avassalador e incontrolável para se poder apontar o dedo a este ou àquele dirigente (mas não aos incendiários, claro, que garantem ser a causa) e que, neste caso concreto de quase bombardeamento, seria difícil uma organização melhor ter evitado tais tragédias. O presidente da câmara de Oliveira do Hospital dizia, na rádio, que nem que dispusessem de 2000 bombeiros teriam conseguido controlar aquelas chamas, tamanha era a rapidez da propagação. Enfim, para apoteose final de uma extraordinária e longa “época de incêndios”, este 16 de Outubro esteve, infelizmente, à altura.

E no entanto, os jornalistas, ouvidos também na rádio, dirigindo-se à ministra Constança, apenas queriam saber se a senhora se demitia ou quando é que se demitia e o que queria dizer António Costa com as consequências políticas do relatório de Pedrógão. Pergunto-me se estas bestas de jornalistas têm sequer a noção do ridículo ou da sua condição de vermes.

Chama-se a isto discernimento

Passos Coelho fez três coisas extraordinárias como primeiro-ministro, que basicamente consistiram em não fazer coisa alguma. Foram três simples, mas magníficos, “nãos”. 1) Passos Coelho não se intrometeu na comunicação social. 2) Passos Coelho não se intrometeu na justiça. 3) Passos Coelho não ajudou Ricardo Salgado. Pode parecer pouca coisa a Fernanda Câncio, mas é muitíssimo. Reparem: não há aqui troika, nem liberalismo. Apenas respeito pela decência num regime democrático. Nesse campo tão importante, Passos merece os mais rasgados elogios, numa ruptura abençoada com o tenebroso arco 2005-2011.

Caluniador do Público

 

1)Passos não se intrometeu na comunicação social – E para quê, se é e era toda de direita? É só passar a vista pelas direcções respectivas: o Ricardo Costa e companhia, entre os quais o convertido Pedro Santos Guerreiro, no Expresso e SIC. O  carro de combate Gomes Ferreira. O David Dinis no Público. Os do Observador. O Baldaia no DN. O António Costa no Eco e RTP. Os inomináveis no Correio da Manhã. Os da Sábado. Os do Sol e do i. O que resta? O JN? Incompreensível para mim é como alguém de esquerda consegue ganhar eleições nestas circunstâncias.

E a televisão pública? Que história é essa do Poiares Maduro “ter afastado o Governo”? Qual governo? Olha o lindo estado em que se encontra a RTP noticiosa e comentadora, a começar pelo Rodrigues dos Santos. É este o exemplo de isenção que tem para mostrar o Tavares?

2)Passos Coelho não se intrometeu na justiça – E para quê, se está completamente tomada pelos seus correlegionários e tem como jornal oficial o Correio da Manhã e porta-voz a Felícia Cabrita? Mais confortável com a justiça do que o Pedro estava era impossível. Criminalizou-se o governo anterior, tudo era investigável judicialmente, desde o primeiro-ministro até aos cartões de crédito dos ministros, a Teixeira da Cruz queria inclusivamente vê-los todos na choldra. Que conforto e que prático assim, não é? Mas por falar em intromissão, quem é que se intrometeu na Justiça?

O Macedo que a criatura refere noutra passagem mais do que provavelmente não tinha escapatória e serviu de excepção para o Tavares poder falar nele.

3) Passos não ajudou Ricardo Salgado – Ao contrário de quem, pode saber-se? E ajudou quem, em vez do Salgado?

Sócrates muito bem

Nas grandes questões da acusação, quero dizer. PT, BES, Vale do Lobo, Lena. Trouxe documentos, provas, argumentação credível. Será importante ver o que o MP tem de facto para apresentar como prova das acusações.

Mas a principal conclusão da entrevista é a seguinte: quantas mentiras, interpretações abusivas, meias verdades e truncagens anda o Correio da Manhã a publicar há anos com a conivência ou em conluio com o Ministério Público? E porquê?

Afinal a conta que tinha como beneficiário o primo de Sócrates, a derradeira prova, a que faltava!, fora encerrada em 2008? Eh pá. Francamente. Não fomos informados. Não estava preparada para isto. Ó Correio da Manhã, atão?

O Dâmaso nem sabia o que dizer no espaço de comentário que se seguiu à entrevista. Amanhã, porém, contra-atacará com mais uma manchete. É isto.

Sorriso alemão – amarelo. “Aufwiedersehen, Schäuble!”

 

Outubro de 2016:

“Portugal estava a ser muito bem-sucedido até entrar um novo Governo, depois das eleições […], declarar que não iria respeitar o que os compromissos com que o anterior Governo se comprometeu”, disse o governante, respondendo a questões dos jornalistas em inglês, numa conferência em Bucareste.

As considerações do governante alemão não se ficam por aqui. Wolfgang Schäuble diz mesmo que avisou o governo português contra os riscos do caminho que está a ser seguido.

Está a acontecer da forma como eu avisei o meu colega português [Mário Centeno] porque eu disse-lhe que se seguirem esse caminho vão correr um grande risco e eu não correr esse risco”, afirmou o governante em Budapeste.

Outubro de 2017:

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, que participa hoje no Luxemburgo na sua última reunião do Eurogrupo, apontou Portugal como “prova” do sucesso da política de estabilização do euro e a ilustração de um “final feliz”.

Desandam assim

Passos – um que não percebeu nada.

Schäuble – um que finge não ter percebido nada e, na hora da despedida, tenta chamar sua a vitória dos outros, que dantes execrava e ameaçava.

Dijsselbloem –  um que não sei se terá percebido alguma coisa; o braço direito do anterior no Eurogrupo; o xenófobo (lembram-se dos gastos em mulheres e copos atribuídos aos países do sul?) que ainda se há-de enfrascar com o melhor vinho do mundo.  Oferecido pelo Augusto Santos Silva, um dos melhores ministros dos Negócios Estrangeiros que tenho visto. Citando-o:

Augusto Santos Silva, comentou que “é evidente para todos, todos que leem jornais, que (Schäuble) começou por exprimir desconfiança em relação a este Governo, e é claro para todos que terminou, ou terminará, o seu mandato como ministro das Finanças da Alemanha apresentando Portugal como um exemplo de como as coisas devem ser feitas”. (DN)

Diz que a luta vai ser dura*

Neste momento, olhando para o único candidato que se propõe liderar o PSD, Rui Rio, não se vislumbra ninguém – nem Montenegro, nem Marco António, nem Rangel, nem Poiares Maduro – que avance como candidato para dar seguimento às “ideias” de Passos. E quais são essas ideias? Convém recordar.

1) Redução/degradação dos serviços públicos, entre os quais a saúde e a educação, de modo a abrir portas à actividade de privados que, ironia, estabeleceriam acordos altamente lucrativos com o Estado para receberem os cidadãos descontentes. A isto chamam “diminuição do peso do Estado”. Como é óbvio, tal não diminuiria, porém, o peso financeiro para este mesmo Estado e, no que respeita à educação, poria seriamente em causa a igualdade de acesso e a laicidade do ensino e deixaria o Estado com o papel de garantir os serviços mínimos para os pobrezinhos.

2) Privatização de tudo o que é empresa pública – as que ainda restam: TAP, transportes públicos, vertentes da Justiça e da segurança, etc. Nem que seja a empresas estatais estrangeiras.

3) Redução acentuada dos impostos para as empresas, alegando que se criariam mais empresas e mais empregos (de preferência mal pagos e não qualificados).

4) Redução concomitante da TSU para os patrões e concomitante privatização dos fundos de pensões, alegando que o fundo da segurança social está depauperado (claro que nada, para eles, teria a ver com o mau desempenho da economia).

5) Desregulamentação das leis do trabalho, fim do salário mínimo, fim dos contratos colectivos, liberalização dos despedimentos.

6) Entrega dos “casos sociais” e dos casos de pobreza a organizações de caridade, de preferência católicas.

7) Indiferença total pela ciência e a investigação financiadas pelo Estado. Idem aspas para a cultura. E por aí adiante.

Bom, o programa da Troica acolhia e acolheu mais do que bem todas estas ideias, como vimos, embora no início não fosse tão longe. Foi por isso que Passos não só não viu qualquer obrigação, fardo ou contrariedade no cumprimento daquilo que apelida agora, com gigantesco descaramento, de “imposições”, como também fez questão de ir ainda mais longe.

Não sei, nem ninguém sabe, qual o programa de Rui Rio. Assim como não sei se chegará sequer a ser candidato – não é de excluir que se desculpe com a falta de adversários e desista também, dando oportunidade a Passos de viver o seu momento “irrevogável”. Ao contrário do Pacheco Pereira, não me parece que, com excepção do André Ventura, os passistas estejam desesperados por barrar o caminho a Rio, que representa, pelo menos para ele, Pacheco, a social-democracia. Pensarão que o próximo líder é para queimar. Acresce que, de Passos, não se pode dizer que tenha sido um caso de sucesso perante os portugueses. Depois do que se viu nas últimas autárquicas (e durante) e dos afastamentos que provocou, a sua mediocridade já não deixa dúvidas. O que aconteceu foi que ele e o seu staff conseguiram convencer boa parte do eleitorado, em 2011, mentindo como nunca dantes se vira, a votarem neles e, posteriormente, de que não havia alternativa ao que andavam a fazer. Mas havia, é claro. E que alternativa! Será, por isso, difícil alguém que não tenha a “lábia” do André Ventura (mas esse é tão ligeiro que dificilmente poderia ser levado a sério para uma função de responsabilidade), apresentar-se com um programa do género do lá acima referido. A não ser que minta, mas aí penso que já pouca gente estará desprevenida.

Portanto, não sei que luta dura será essa que se prevê para o PSD. Rui Rio sozinho? Não há luta nenhuma. Rio contra Santana? Uma luta de salamaleques, logo, uma não luta. E, a bem do respeito pela política e por si próprio, espero que Santana tenha juízo e continue na Santa Casa. Só mesmo se o Passos voltar atrás para desafiar Rio. Não é de todo impossível, atendendo ao choro convulsivo que vai pelo Observador e atendendo a que ninguém mais aparece. Além de que era essa a intenção inicial de Passos. A não ser assim, digam-me qual a luta dura, por favor, que eu não vejo lutador nenhum.

 

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*Ouvi e li, nos dois últimos dias, vários comentadores referirem-se assim à corrida para a liderança do PSD

Calma, Jerónimo. Acabou a autocrítica?

Quem irá compreender que o PCP “solte os cães” por ter obtido resultados decepcionantes nas autárquicas? O comité central não vê nenhum ridículo, ou pior, um enorme risco nessa hipótese de trabalho?

Jerónimo de Sousa, justificando a perda significativa de autarquias, está a enganar-se a si próprio e aos seus ouvintes, se acredita nisto que diz, e passo a citar (ver DN):

“Não se pode omitir o quadro de hostilização que acompanhou a intervenção do PCP e da CDU ao longo dos últimos meses e a sua negativa influência na afirmação do nosso trabalho, da nossa obra, da nossa intervenção e do nosso próprio projeto” .

Assim em retrospectiva, não dei por tamanha hostilização. Pelo contrário. António Costa trata o PCP com mais respeito do que a sua expressão eleitoral faria esperar. A não ser que Jerónimo se refira à Autoeuropa, onde, na ausência de comissão de trabalhadores, a influência do sindicato afecto à CGTP criou realmente um problema maior do que seria desejável. E toda a gente o percebeu. Embora só alguns comentadores o tenham dito. Acaso o PCP pretende convencer o pagode que não faz um feroz jogo político de auto-afirmação?.

«O líder comunista falou ainda de uma “campanha sistemática de ataque anticomunista que, com pretextos diversos, procurou avivar preconceitos, atribuir ao PCP posicionamentos e valores que não são seus” e de uma “ação persistente de desvalorização do papel do PCP na vida política nacional, silenciando a sua atividade e iniciativas, incluindo dando a terceiros e projetando noutros o que era o resultado da sua iniciativa e trabalho”.

Qual campanha, Jerónimo? Qual silenciamento? O que é que foi atribuído a outros, quando devia tê-lo sido ao PCP?

Mas há que concretizar os autores. É aqui, e não é bonito:

«Jerónimo de Sousa salientou que nesta “ação geral de ataque” e “desvalorização” do partido houve um “papel assumido pelos outros principais partidos”, nomeadamente PS e BE.

“Vimos uma intervenção do PS a desenvolver uma ação a partir dos seus candidatos e alguns dirigentes partidários, particularmente concentrada em municípios de maioria da CDU, de ataque à gestão da CDU baseada em argumentos falsos e muitas vezes ofensivos”, atirou o secretário-geral, criticando também a “opção do BE de fazer da redução da influência da CDU o seu objetivo principal, não olhando a meios para, por via da falsificação e mesmo da calúnia, denegrir a CDU e o poder local”.»

Bem, vamos por partes. Então, foram os candidatos. Foi durante a campanha. Jerónimo pretende que, em disputa eleitoral, os candidatos não procurem vencer apontando os erros e fraquezas dos adversários. Os candidatos do PCP não o fazem? Ou Jerónimo quer que acreditemos que em Beja, ou em Almada, ou em Castro Verde, os candidatos comunistas trataram os seus adversários com a delicadeza de um mordomo, nunca os acusando de nada, nem de “políticas de direita” e outras invenções convenientes que fazem parte do seu habitual vocabulário? Ou talvez devesse o PS não concorrer a câmaras “do PCP” para não “hostilizar”?

E que dizer do argumento de que o BE foi o culpado da perda de câmaras do PCP? Tenho reservas quanto ao Bloco, mas haja sentido da medida, camarada.

«Já sobre a derrota em 10 autarquias — nove municípios para o PS e uma para um movimento de independentes — o secretário-geral reiterou ser esta uma “perda, sobretudo para as populações, para o serviço público, para os direitos dos trabalhadores das autarquias”.

Paternalismo. O PCP arroga-se o exclusivo de defender “as populações” e “os trabalhadores”, pois mais ninguém o faz. Nem os eleitores o veem! Logo, quem não votou na CDU é burro. Empáfia.

«Ainda em análise aos resultados da noite de domingo, Jerónimo de Sousa assinalou o “falacioso argumento de combate a ‘maiorias absolutas’ concebido para retirar votos à CDU e que merecia uma mais ampla denúncia”. »

Eh, lá! Falácias? Como se o PCP nunca argumentasse contra as maiorias absolutas dos outros.

«Denunciou ainda como “muitas pessoas que dirigiam palavras de reconhecimento” pelo papel do PCP na derrota do governo de direita e que não “tinham tomado a consciência de que a possibilidade de assegurar que esse caminho prosseguisse, e se ampliasse, residia no reforço do PCP e do PEV, e não no PS”.

“E isso pesou no resultado eleitoral e ampliou-se à medida que o PS anunciava que precisava de mais força para prosseguir a sua ação governativa. Em certa medida, e para uma parte da população, as eleições locais foram transformadas em eleições de natureza nacional”, criticou.»

O PCP incompreendido. Jerónimo esquece o seu papel no derrube do governo PS em 2011 e a entrega do poder ao Passos. Jerónimo acha que o seu partido foi o grande autor das medidas do actual governo e que isso mereceria um reconhecimento, através do reforço do número de votantes. Não percebo. Está Jerónimo a dizer que o PS não queria melhorar a vida das pessoas? É que esse foi mesmo o ponto de partida para o entendimento a três! Ó Jerónimo, foram eleições locais, onde os dinossauros já estão fora de moda, homem. Mesmo os do PCP. Vai na volta, os candidatos do PS deveriam apelar ao voto no PCP. Era isso?

“aqueles que fazem o aproveitamento negativo dos resultados eleitorais contra o PCP, só podem esperar a nossa ainda mais decidida determinação na dinamização da ação política e do reforço do PCP para as batalhas futuras que aí estão”.

Não sei a quem se está a referir ou a que batalhas. Porém, se acha que é o PS que vai fazer “o aproveitamento negativo dos resultados eleitorais” e o PCP lhe faz uma declaração de guerra com os sindicatos, é melhor preparar-se para novas derrotas ainda piores. É que tudo estará clarinho como a água. «PCP furioso com derrota autárquica solta os sindicatos contra o Governo» dava um belo título de jornal. E verdadeiro. Para recuperar o eleitorado, não há melhor. Ou haverá?

Um chavão: a política tem muito de hipocrisia

Que desilusão, que hecatombe, que desgraça. Muito me divirto e também me espanto com o clamor de escândalo das pessoas ligadas ao PSD, e de vários comentadores, em relação ao resultado das autárquicas. Como se não estivessem nada à espera. Por favor, meus caros. Então a escolha de Teresa Leal Coelho para candidata à Câmara de Lisboa não era, desde o início, uma aposta perdida? A sério que não? Ainda por cima depois da antecipação de Assunção Cristas, feita carro de combate, e dos seus propósitos e discurso populistas impossíveis de bater por Teresa Leal Coelho? Alguém no seu perfeito juízo achou que Teresa poderia pontuar acima da Assunção, ela que desde o primeiro minuto e até durante a campanha não conseguiu disfarçar o cumprimento de um frete? E no Porto? Por acaso alguém tinha sequer ouvido falar no candidato do PSD? Ainda hoje apenas sei que tem Almeida no apelido. Por acaso é motivo para espanto a sua derrota com uma votação insignificante? E na Figueira, em Faro, em Oeiras, em Sintra, em Viana, em Gaia, em Coimbra, etc., etc., nunca ninguém imaginou que os candidatos do PSD pudessem ser atropelados? Claro que sim. Qual é então a grande derrocada, a grande hecatombe, a grande surpresa?

Não é, evidentemente, nenhuma. É farsa e simultaneamente um grito de impotência, que pode, ou não, ter consequências na liderança do partido. Não se sabe. A verdade é que há muito que o PSD de Passos está sem identidade e à procura de uma. É neoliberal ferrenho, como pretendia António Borges? É populista e demagógico como o CDS? É de extrema-direita? É como o André Ventura gostaria que fosse? É social-democrata, como desejam muitos dos seus mais destacados militantes, que também andarão às voltas com uma definição de social-democracia distinta da de António Costa? Neste momento, estamos sem saber. Certo é que todo este clamor não passa de um enorme charivari abstruso, a meus olhos. É impossível ninguém ter visto, até anteontem, o bom momento que o país atravessa e o quão mais importante seria, para o PSD, desenhar uma estratégia inteligente para contrapor à actual aliança governativa e sobretudo escolher candidatos fortes para derrotar os socialistas. É claro que toda a gente viu. O problema é que uns se recusaram a ver em Passos Coelho o bluff que sempre foi (os do Observador ainda não vêem e o João Miguel Tavares deseja-lhe, por hipocrisia ou insanidade, que faça a maratona do deserto e depois volte), se recusavam a ver que seria difícil ter do seu lado gente com qualidade, e outros precisaram de um motivo invocável para pressionar a saída de cena de um indivíduo que viveu sonhando que a maioria obtida em 2015 e o desastre que fatalmente se seguiria ao entendimento conseguido entre o PS e a extrema-esquerda o colocariam de novo no poder. Passos, pelo seu lado, não saiu porque não percebeu nada. Nada do que aconteceu ao PSD nestas autárquicas foi inesperado. É uma grande chatice, mas ou deixam lá o Passos, e para isso calam-se, ou pensam numa estratégia alternativa e mexem-se. Mas não se mexerem também é uma hipótese.

Catalunha: “I say Yes, you say No”

Oh, como é bom estar a observar o que se passa em Espanha sentada num cadeirão. Aquele senhor do risco ao meio e óculos, Puidgemont, Carles, parece-me demasiado exaltado. Haverá motivos para tanto? Estariam os catalães tão oprimidos que ninguém, nem eu, deu por nada? Que mal lhe terão feito os de Castela? Ou a Andaluzia, que até lhes fornece mão de obra barata? Os cravos vermelhos também ficam ali muito mal. Não gosto. É usurpação abusiva.

Por outro lado, o Rajoy onde pensa que vai a fazer-lhes o favor de pôr umas pessoas a sangrar? Não há diplomacia entre as autonomias? Devia haver.

Irónico que o “sangue quente” típico dos nosso vizinhos abranja afinal também os catalães. Vejam lá isso. Nós, sim, estamos de fora, “hermanos”. Ventos do Atlântico, estão a ver?

Bom, visto daqui, não me parece que a declaração unilateral de independência sobreviva às contas que teriam que ser saldadas (em desfavor da Catalunha), às purgas que teriam que ser feitas, às transferências de populações, ao imbróglio com a UE, à exclusão do FC Barcelona do campeonato espanhol, às eleições locais (enfim, nacionais). Uma coisa é criar um inimigo externo para criar unanimismo (vd. Coreia do Norte, Putin), outra bem diferente é haver-se com o que há, sem mais sacos para bater. Mas, ó gentes, admito estar enganada. Temos o exemplo do Brexit a lembrar-nos que o passo para a irreversibilidade não custa a dar.

E, no entanto, um dizer Sim e outro dizer Não não pode senão conduzir a uma mesa de negociações, que é por onde se devia ter começado, digo eu aqui do cadeirão. Arranja-se um mediador ou a mesa é para partir?

Os resultados vistos da colmeia passista

Há mais abelhinhas e vespas no Observador, cujas ressentidas e elaboradas análises aguardaremos com expectativa, mas estas foram, para já, as convidadas a tecerem um rápido comentário sobre as eleições autárquicas de Domingo.

 

Maria João Avillez: O meu PSD! Oh, como estou triste! Não, não pode ser. O PSD é eterno. O que aconteceu foi que o partido foi escolhido para bombo da festa, havia que o destruir, desse por onde desse. A culpa não foi da Teresa Leal Coelho nem de Passos nem das suas escolhas. O PSD era o alvo a abater, meus queridos. Houve uma “tentativa de destruição maciça do PSD”. Sem razão nenhuma, estão a ver! São os tempos.  Olhem lá para fora. O mundo está a ruir. A culpa é dos maus.

Alberto Gonçalves: O futebol. Porto! Porto! E aquele do aeroporto em Coimbra, ah, ah. Pensava que ganhava. E nunca mais recomeça o jogo?

Helena Matos: PCP, por favor, não acham que chegou a altura de soltar a Ana Avoila e o Mário Nogueira? Então? Não querem vingança? Vá lá, ajudem-me aqui, por favor. Dêem-me cabo da Geringonça e do Costa que eu já não posso mais.

Rui Ramos: Calma, o PSD, sozinho e em coligação, não ficou assim tão distante do PS a nível nacional. No Porto, a culpa do insucesso do PSD até foi do Rui Rio e do Paulo Rangel, ouçam o Rui Moreira. Mas os críticos no PSD que avancem, se tiverem coragem. Passos, I love you! Até marcaste conselho nacional e congresso antecipadamente, mais sério e honesto do que tu não há. Vais ganhar em 2019.

José Manuel Fernandes: O PSD perdeu. Uma derrota pesada. Há que dizê-lo. Estou de luto. Mas em 2013 também perdeu e nas legislativas de 2015 ganhou. Por isso, há esperança. No fundo, a culpa foi dos candidatos escolhidos, muitas vezes não da responsabilidade do Passos. Enfim, também, olhando para o país em geral, “os melhores” decidiram candidatar-se como independentes. Assim não admira!

Em Lisboa, Cristas provou ser muito diferente de Portas (!), mas pensa bem, Passos, se virmos bem, o CDS e o PSD somados têm maior percentagem de votos do que em 2013 e prova-se assim que um discurso popularucho-demagógico, pronunciado com mais convicção, como o de Assunção, pode levar a PàF de novo ao poder. Estás a ouvir, Passos? Tens que ser assim esganiçado, descarado, ousar propor 30 estações de metro, riscar da memória das pessoas, com frescura, tudo o que fizeste antes e descer de botas de safari até aos bairros populares. Ela é que a sabe toda.

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Passos, fica! (eu também quero)