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Lágrimas de crocodilo argentino

Numa entrevista dada no domingo passado, Maradona, cada vez mais decadente, chorou lágrimas de crocodilo pelos jogadores de futebol africanos que, vítimas de supostas máfias, são “levados para a Europa para serem nacionalizados” e depois acabam a representar as selecções nacionais de França, Bélgica e Inglaterra – logo por acaso, três equipas que chegaram às meias-finais do Mundial, enquanto a Argentina ficou pelo caminho. Compreende-se a dor de cotovelo de Maradona, dado que a Argentina foi eliminada pela França, uma selecção europeia com uma maioria de jogadores de origem africana.

Meditando sobre isto, de repente dei-me conta que nunca vi nenhum negro ou mulato com a camisola da Albiceleste. Fui verificar e, de facto, em toda a América só a selecção de futebol da Argentina é 100% branca e sempre assim foi – excepto, parece, nos anos 70, quando tinha um guarda-redes suplente de origem africana.

Este chico-esperto do Maradona, que venceu a Inglaterra no Mundial de 1986 com um golo de cabeça marcado com a mão, deveria talvez explicar-nos por que razão a selecção argentina não tem nem nunca teve jogadores de origem africana. E, já agora, confessar-nos por que razão a população da Argentina, que no século XVIII chegou a contar 30-40% de negros, só tem hoje menos de meio por cento, mais exactamente, 0,37%. As razões não são bonitas, têm a ver com carne negra para canhão. Alguns falam mesmo de genocídio deliberado, por sinal cometido já após a libertação dos escravos. Portanto, mais valia que o Maradona calasse a trombeta e aprendesse a saber perder.

Uma voz do além

Ouviram-se repetidamente fortes pancadas vindas de um jazigo e o coveiro foi ver o que se passava. Levantou a tampa do caixão e reconheceu logo o dinossauro de Boliqueime, que ali se encontrava em merecido repouso desde 2015. Passava perto, perfeitamente por acaso, um repórter da Rádio Renascença, que logo aproveitou para entrevistar o paquiderme. Não é todos os dias que se pode entrevistar um dinossauro zombie. Este, pondo-se em bicos de pés dentro do esquife, fez então a seguinte declaração:

“Nas eleições legislativas de 2019 não votarei nos partidos que apoiarem a legalização da eutanásia e procurarei explicar àqueles que me são próximos para fazer a mesma coisa. Estando em causa a defesa do primado da vida humana, entendi que devia fazer uso das duas armas que me restam como cidadão: a minha voz, não ficando calado, e o meu direito de voto na escolha dos deputados nas próximas eleições legislativas.”

Dito isto, o dinossauro zombie deitou-se no caixão e, fazendo utilmente uso do seu direito de não ficar calado, disse para o coveiro:

– Volte a pôr a tampa.

O bando sinistro

A direita portuguesa vai perder as eleições de 2019, segundo as últimas sondagens continuam a dizer. O desespero e a raiva assomam já nos seus colunistas e porta-vozes. Tudo é de esperar dessa cambada raivosa, desde apelos indirectos aos incendiários até elogios à utilização da organização judicial para fins políticos.

Uma equipa sinistra, já muito experimentada, vai estar no terreno, mas não é para apagar incêndios. O seu objectivo é supostamente combater a corrupção, para suposta defesa da democracia. Na verdade, muito insatisfeita com uma democracia que dá vitórias à esquerda, pretende virar contra ela uma justiça politicamente enviesada, ou seja, corrupta. Depois de Sócrates, o seu alvo será agora António Costa, como é óbvio.

A equipa alinha assim (é só a ponta do iceberg):

Fernando Negrão – Foi director-geral da PJ entre 1995 e 1999, durante o governo de Guterres. Foi demitido pelo ministro socialista da Justiça, Vera Jardim, e acusado pela PGR de Cunha Rodrigues de violação do segredo de justiça no caso da Moderna (ainda se levava a sério o segredo de justiça). O STJ arquivou a coisa em 2001, por alegada falta de provas. Deputado do PSD desde 2002 até hoje. Breve ministro de Santana Lopes (2004-2005). Foi derrotado nas eleições para a câmara de Setúbal em 2005. Foi derrotado por António Costa nas eleições para a câmara de Lisboa em 2007. Brevíssimo ministro da Justiça do governo fantasma de Passos Coelho (Outubro-Novembro de 2015). Actual líder da bancada parlamentar do PSD (com apenas 35 votos dos 88 deputados), depois de ter perdido a eleição para presidente da Assembleia da República. É um frustradão calejado em derrotas, mas que, em compensação, adora puxar cordelinhos nos bastidores.

Jorge Rosário Teixeira – A sua carreira foi lançada por Fernando Negrão (ver acima), que o meteu na PJ para chefiar a Direção Central de Investigação e Combate à Criminalidade Económica e Financeira. Saiu da PJ em 1999, não se sabe porquê, quando Negrão foi demitido. Em 2004 caiu de para-quedas no DCIAP, na PGR. É o procurador que tem os processos mais importantes do DCIAP desde que para lá entrou. É o mago da Operação Marquês, de que a direita esperava o desaparecimento do PS da cena política e a recondução do governo de Passos Coelho. Propôs em 2014 ao juiz Carlos Alexandre a prisão de Sócrates para depois o investigar, como a PIDE fazia noutros tempos.

Carlos Alexandre – Juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal desde 2004 e, durante muitos anos, o único. Trabalha desde 2004 com o procurador Rosário Teixeira, a quem faz todas as vontades, nomeadamente no processo Sócrates. Embora o juiz de instrução seja incumbido de fiscalizar o procurador nos processos que este conduz, Carlos Alexandre tem basicamente estado às ordens de Rosário Teixeira. É muito pio e participa nas procissões da sua terrinha. Já uma vez disse que a sua vocação era ter sido padre. Noutros tempos teria dado um eficaz juiz do tribunal da Santa Inquisição.

Joana Marques Vidal – Procuradora-geral proposta por Passos e nomeada por Cavaco em 2012, nem é preciso dizer mais nada. Filha de um antigo director-geral da PJ que se gabava de odiar a “classe política” (da democracia). Irmã de um célebre João, ex-chefe do DIAP de Aveiro, que pôs a circular o boato de que Sócrates tinha um fantástico plano para “controlar” os meios de comunicação social. É a responsável máxima de tudo o que a PGR fez e não fez desde 2012. P’ra inglês ver, mandou já duas vezes (2015 e 2018) investigar fugas de informação e violações do segredo de justiça no processo de Sócrates, mas nunca se apurou porra nenhuma. Em Julho de 2018 vai, felizmente, ser despejada da PGR, deixando muitas saudades à direita. O clã Marques Vidal vai, porém, continuar operacional através do mano João, que já é procurador-geral adjunto.

António Ventinhas – É presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, reeleito em Janeiro em lista única. Foi alvo de um inquérito mandado instaurar pelo Conselho Superior do Ministério Público (por 8 votos contra 5) por ter declarado a culpabilidade de Sócrates em 2016, antes mesmo de haver acusados no processo. Defendeu-se com o especioso argumento de que é sindicalista e ficou tudo em águas de bacalhau. Tem acusado o governo de António Costa e a ministra da Justiça de quererem “controlar” o MP para que este não possa investigar a corrupção. Afirmou recentemente estar contra o controlo hierárquico  do MP pela PGR, porque lhe cheira que o próximo procurador-geral não será de direita. Elogiou a Operação Marquês e a actuação de Rosário Teixeira e Joana Vidal nesse processo. É o palhacinho deste quinteto, com ventinhas a condizer.

Iliteracia histórica

As comemorações do 25 de Abril no parlamento vieram dar visibilidade mediática à estrela em ascensão na bancada do PSD e actual líder da JSD, Margarida Balseiro Lopes. No seu discurso, a jovem deputada disse que as conquistas da liberdade são de todos e exemplificou, referindo-se a dirigentes de todos os quadrantes políticos. Isso pareceu ser gentil e fez-lhe colher aplausos mesmo além das bancadas da direita. Falou também da corrupção, que definiu como a captura do Estado e do erário público por interesses privados, e da necessidade de a combater. A imprensa sublinhou ter sido a única voz a falar da corrupção no evento, como se isso tivesse algum significado ou importância.

Houve outras alusões no seu discurso que não mereceram destaque da comunicação social.  Uma delas foi a sua referência a duas revoluções, a de 1974 e a de 1975. Como quem diz: – Estamos aqui a comemorar a revolução de 1974, mas também houve a revolução de 1975, coitadinha dela, que não se comemora e, se calhar, é tão ou mais importante do que a outra. É uma variação suave do tema há muito glosado por gente da direita, que opõe o 25 de Novembro (a boa revolução) ao 25 de Abril (um golpe militar marxista).

Ora em Novembro de 1975 – duas décadas e tal antes de a deputada Balseiro Lopes nascer – não houve revolução nenhuma, mas apenas uma operação militar que fez abortar uma tentativa de insurreição de extrema esquerda e restabeleceu a ordem nos quartéis que não obedeciam à linha de comando nem aos órgãos de soberania, incluindo o VI governo provisório. Após essa operação militar, os órgãos de soberania mantiveram-se todos no seu lugar e a Assembleia Constituinte continuou o seu trabalho de elaboração da Constituição, que viria a ser aprovada em Abril de 1976. Em Novembro de 1975, o povo também não veio em massa para as ruas apoiar os militares, como fizera em Abril de 1974, mas a maioria do país, que entretanto já se expressara em eleições livres em Abril de 1975, suspirou de alívio por ter sido abafada uma tentativa revolucionária. Se se pode falar de revolução em Novembro de 1975, é dessa, a que foi abortada.

A história foi obviamente mal contada à deputada Balseiro Lopes, que também não deve saber o que é uma revolução. Os mestrados em direito e gestão não exigem que se saiba isso.

O Cerejo mostra como é

Como é que se transforma uma notícia sobre as irregularidades apuradas por uma inspecção à gestão de Santana Lopes na Santa Casa da Misericórdia numa notícia sobre a “demora” de Vieira da Silva em aprovar os resultados dessa inspecção? O Cerejo mostra como é que isso se faz no Público de hoje.

Na notícia praticamente só se fala de Vieira da Silva, incluindo no título, em que Santana está ausente. As irregularidades apuradas na gestão de Santana na Santa Casa são assunto meramente colateral. Só falta agora vir o Santana fazer coro com o Cerejo e denunciar o “encobrimento” de Vieira da Silva.

Se por acaso Vieira da Silva tivesse publicado o relatório da inspecção em fins de 2016 ou em 2017, logo as habituais carpideiras do Público e o próprio Santana viriam denunciar a manobra do governo para o “sanear” ou para o impedir de chegar à liderança do PSD. Vieira da Silva seria acusado de fazer um favor a Rui Rio e o blog do Zé Manel Fernandes falaria de uma conspiração do Bloco Central.

Alinháceos

Criei agora este neologismo para designar as aves da capoeira que desde ontem cacarejam freneticamente para que o governo português alinhe com os nossos aliados e expulse imediatamente diplomatas russos.

Paulo Rangel e Fernando Negrão são os primeiros a merecer o crisma de alinháceos. Para eles, alinhar com a histeria de Teresa May é um dever patriótico de todo o bom português. Pensar, reflectir, usar de prudência, ponderar os nossos interesses de país independente é antipatriótico e indigno. Alinhar é que é baril — nem que seja alinhar com o MI-6, o serviço de espionagem de sua majestade.

É caso para o PSD apresentar rapidamente uma proposta de lei para a alteração do hino nacional. Onde originalmente estava, pela pena de Henrique Lopes de Mendonça, contra os bretões, marchar, marchar, que depois a República oportunista amansou para contra os canhões, marchar, marchar, espera-se que o PSD de Rangel e Negrão proponha agora pelos bretões, alinhar, alinhar.

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P.S. 1: Não faço a mínima ideia se Putin mandou envenenar aquele agente duplo russo que foi parar ao hospital. Quanto ao governo de Teresa May, penso que das duas, uma: ou também não faz a mínima ideia quem foi, mas convém-lhe enormemente que tenha sido o Putin, ou sabe perfeitamente quem foi, mas nunca o confessará. Num caso como no outro, o lema de Rangel e Negrão de “alinhar com os nossos aliados” é imbecil. Que é que Portugal tem que ver com essas merdas de espiões ingleses e agentes duplos russos?

P.S. 2: Lembre-se que a mais recente invenção da direita inglesa contra o popular líder trabalhista Jeremy Corbyn foi acusá-lo de ter sido colaborador dos serviços secretos da Checoslováquia comunista. O jornal Independent publicou sobre isso há um mês uma reportagem hilariante, recordando a velha história de acusações falsas com que a imprensa de direita britânica (quase toda a imprensa britânica!) sempre tentou difamar os dirigentes trabalhistas insinuando a sua ligação ao Kremlin. Depois de Harold Wilson, também Michael Foot e Neil Kinnock foram alvo dessas acusações porcas, vindas de gente ligada aos serviços secretos britânicos e disseminadas pelos jornais do costume. Assim, não me custa nada imaginar que por detrás da actual histeria de Teresa May esteja simplesmente um plano cozinhado por ela e pelo MI-6 para atacar a popularidade de Corbyn. Desde as últimas eleições, os conservadores ingleses estão mesmo assustados com a perspectiva de uma próxima vitória trabalhista.

P.S. 3: E porque é que foram Rangel e Negrão a cacarejar pela cor laranja? Não há galo naquela capoeira?

Política de terra queimada

Há muito se percebeu que a direita demagógica e incendiária se prepara para jogar forte, se não tudo, na questão dos incêndios. Basta ler o Expresso de hoje, onde se declara solenemente que o “futuro do governo” (eleições de 2019) depende do “êxito ou fracasso na luta contra os fogos”.

Segundo esta visão irresponsável do problema dos incêndios, é tudo uma questão da eficácia da “luta” que este governo lhe der. Em vez da anterior visão dos fogos florestais como desastre de raiz ordenamental, climatérica e demográfica, tenta agora impor-se a tese imbecil de que, se em 2018 houver fogos, a culpa será deste governo. A direita desesperada encara a coisa como um maná político, pois parece que não tem mais nada por onde pegar.

Para já, vai preparando o terreno: todas as medidas que o governo toma são estimadas como insuficientes, atrasadas ou inadequadas (veja-se o Expresso de hoje). Depois dirá que tinha avisado. Assim, bastará haver fogos este ano para se “provar” que tinha razão.

Se, porém, houver poucos fogos em 2018, a marosca irá pelo cano abaixo. Resta à direita rezar para que haja mais incêndios ou, quiçá, dar uma ajudinha. Bora atear incêndios para deitar o governo abaixo?

Um que perdeu o pio

O catedrático de Direito e ex-consultor de Cavaco que em Outubro de 2015 alertava para o despautério de Portugal poder ser governado por “uma estranha aliança de derrotados” — e que também achava que o PR deveria poder dissolver o parlamento em qualquer momento do seu mandato — parece que perdeu o pio. Carlos Blanco de Morais só tem escrito sobre questões internacionais ou então sobre as lutas no seio do seu partido, o PSD, onde recentemente se atrelou a Rui Rio. Não diz uma palavra sobre o tal estranho governo de derrotados e “marxistas”.

Estará engasgado ou mudou de opinião?

O planeta preso por um cromo?

Dennis Rodman, um cromo improvável, aparentemente charrado, foi apresentado ontem à noite por Stephen Colbert em The Late Show como a pessoa que é, possivelmente, “tudo o que resta entre os EUA e uma guerra termonuclear com a Coreia do Norte”. O Colbert é um grande brincalhão.

Segundo Rodman, ex-campeão de basquete, Kim Jong Un “is just a kid”, mas também “probably a madman”. Entre um puto e um louco, escolha-se o melhor para lidar com bombas nucleares.

Para descanso do planeta, o carniceiro norte-coreano terá dito em tempos a Rodman, numa das suas seis viagens ao encantador paraíso comunista, que não quer a guerra.

Em todo o caso, entre o chalado do Trump e o louco do Kim Jong Un, dificilmente se arranjaria um mediador mais condizente. Veja-se, a propósito, a t-shirt do malandro.

As dores do Tavares

A coluna do J M Tavares hoje no Público, “Mário Centeno no ninho dos falcões”, pode servir para um instrutivo estudo de caso sobre diferentes tipos de dores, nomeadamente a dor de cotovelo e a dor de corno. Estas expressões são muitas vezes usadas indistintamente na linguagem coloquial, como se fossem a mesma coisa. Pero hay que distinguir, como dizem os nossos hermanos.

A dor de cotovelo é basicamente inveja. Centeno provoca intensa dor de cotovelo aos spin doctors da direita, porque lhe invejam os resultados económico-financeiros da governação nos últimos dois anos e ainda mais lhe invejam, agora, o reconhecimento europeu traduzido na sua eleição para presidente do Eurogrupo. O cotovelo de Tavares já não aguenta. Nota-se bem que escreveu esta prosa de braço ao peito.

A dor de corno, como o nome indica, tem mais a ver com o ser-se preterido por quem se era amado. O reconhecimento dos méritos de Centeno pelos seus pares europeus, que são maioritariamente de direita, provoca compreensivelmente intensa dor de corno nos advogados da direita portuguesa, que se sentem traídos e feridos no seu ego afectivo. Assim, Dijsselbloem e Schäuble, tão amigos que eram de Passos e Maria Luís, são agora visados pela ironia amarga do dolorido Tavares, que visivelmente os considera uns traidores. Até os banqueiros alemães, os supostos malandros que mandam na Alemanha, são acusados de terem apoiado a escolha de Centeno – o qual, por tabela, aparece figurado como o homem dos ditos banqueiros. Toda essa gente é alcunhada, por conveniência momentânea do argumento, de “falcões”.

A dor de cotovelo e a dor de corno, claramente distintas na sua origem e conteúdo, têm todavia em comum uma consequência para quem as padece, a saber, serem más conselheiras. A pessoa de cotovelo ou corno dolorido não aceita a dura realidade, por isso trata desesperadamente de diminuir e depreciar o que ou quem lhe causou essas dores. É o que faz Tavares, valendo-se das alegações, piruetas e álibis mais curiosos para tentar figurar a eleição de Centeno como uma má notícia para a esquerda e uma espécie de castigo ou correctivo para o governo de Costa, que agora ficaria mais obrigado do que antes a respeitar as “exigências da zona Euro”. Também não podia Tavares dispensar a dose habitual do seu conhecido alucinogénio wishful thinking, traduzido no desejo de que a eleição de Centeno e as suas novas funções e obrigações tornem os partidos de esquerda apoiantes do governo de Costa “cada vez mais irrequietos”.

Mas nada disto é convincente para o próprio Tavares, nem lhe alivia decisivamente as dores, pelo que acaba subrepticiamente dando o braço a torcer, com um queixume e uma censura dirigidos à oposição de direita. Diz ele: “Falar só de Finanças já não chega”. Continuar a insistir nisso “é puro e simples suicídio”, sentencia ele gravemente. De facto, daí só têm vindo “boas notícias”, que são o pesadelo de Tavares e a dor de cabeça da direita. Por isso, vinham agora a calhar uns incêndios, mas a estação deles já passou. Talvez umas inundações?

Um herói e um santo

Belmiro o homem livre, Belmiro o independente, Belmiro o rebelde, Belmiro o irreverente, Belmiro o filantropo. Toda a comunicação social tece loas ao falecido engenheiro que “nunca condicionou” o Público, que teve de lutar “contra todos os governos”, que “nunca se encostou ao Estado” nem quis trabalhar nos “sectores protegidos da economia”. Um herói e um santo.

Estarão a falar do mesmo empresário rebelde que se gabava de ter “quatro amigos meus” como ministros de Cavaco, quase meio governo? O mesmo homem que depois teve a lata de chamar “ditador” ao dito Cavaco por ter despachado os tais seus amigos?

Estarão a falar do mesmo empresário de sucesso que exigia que outro governo lhe entregasse a PT, para compensar o enorme fiasco da Optimus?

Estarão a falar do mesmo empresário desinteressado que disse que para alguém “mandar” no seu jornal tinha primeiro de “lá meter o dinheiro”?

Um dos mitos mais hilariantes que se pretendeu criar acerca de Belmiro relaciona-se precisamente com o Público. Ele era um homem tão desinteressado, tão desinteressado, que até criou e manteve, com défices crónicos de milhões alegadamente pagos do seu bolso, um jornal que hoje é “o órgão principal da opinião de esquerda e de extrema-esquerda”. Uma simples googlada permite saber quem escreveu esta bojarda alucinante.

Receita eficaz

 

Há 28 anos, uma aldeia transmontana, Veiga do Lila, resistiu heroicamente à tentativa da Soporcel de substituir 200 hectares de olival por eucaliptos. Não queriam lá essa árvore que lhes sugava a água e trazia incêndios. A empresa de celulose, que utilizava fundos europeus, era apoiada pelo governo de Cavaco e pelo ministro da Agricultura, Álvaro Barreto, que antes e depois foi presidente da Soporcel. O governo enviou para o local soldados armados da GNR, que carregaram sobre a população e efectuaram prisões. Em vão: a população arrancou 180 hectares de eucaliptos já plantados e a Soporcel acabou por desistir.

Hoje aquela zona é terra de nogueiras, amendoeiras e oliveiras. E em 28 anos nem um incêndio houve.

Uma história exemplar, bem contada e bem ilustrada aqui.

 

Juízes trogloditas desculpam a moca

Os  juízes Neto de Moura e Maria Luísa Arantes, do Tribunal da Relação do Porto, chumbaram o recurso contra uma sentença do Tribunal de Felgueiras que punia apenas com pena suspensa dois criminosos que sequestraram e agrediram gravemente uma mulher na cabeça e no corpo  com uma moca de pregos. Quando da agressão, a vítima estava separada há quatro meses de um deles, o marido, a quem fora infiel, e tinha sido amante do outro durante um mês, após o que o tinha deixado também. Meses volvidos, e depois de repetidas ameaças de morte tanto por parte do marido como do ex-amante, os dois homens encontraram-se e resolveram em conjunto sequestrar a mulher e agredi-la com uma moca de pregos. O Tribunal de Felgueiras condenou os dois homens a prisão, mas com pena suspensa.

No acórdão que negou provimento ao recurso, os juízes da Relação do Porto escreveram nomeadamente o seguinte:

Este caso está longe de ter a gravidade com que, geralmente, se apresentam os casos de maus tratos no quadro da violência doméstica. Por outro lado, a conduta do arguido ocorreu num contexto de adultério praticado pela assistente. Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372.º) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse. Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher. Foi a deslealdade e a imoralidade sexual da assistente que fez o arguido X cair em profunda depressão e foi nesse estado depressivo e toldado pela revolta que praticou o acto de agressão, como bem se considerou na sentença recorrida.

(Pág. 19 do acórdão datado de 11 de Outubro de 2017, que se pode ler aqui).

Isto passa-se em Portugal, não no Irão ou na Arábia Saudita, onde também se considera o adultério da mulher muito mais grave do que o do homem e onde “a sociedade” também “vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído”. A alusão dos juízes trogloditas à Bíblia também é curiosa, pois aludem veladamente ao Antigo Testamento e não ao Novo, onde a conversa é totalmente diferente, como é sabido (João 8, 1-11). E que dizer das saudades que os juízes do Porto têm do Código Penal de 1886? Será que também têm saudades das lapidações?

 

 

Desmistificando

Quando as coisas correm bem, aparecem o PSD e o CDS e dizem que isso se deve a eles, quando as coisas correm mal, é culpa deste governo. Ora Assunção Cristas devia ser a última pessoa a apresentar uma moção de censura motivada pelos incêndios, pois foi ministra da Agricultura durante quatro anos no último governo e não se notabilizou por ter tomado quaisquer medidas eficazes nessa área, muito pelo contrário (Constança Cunha e Sá hoje, na TVI, às 21h 30).

 

Uns tiram, outros põem

Em 2015, a universidade jesuíta americana de Saint Louis retirou uma estátua que tinha no seu exterior, representando o grande jesuíta Pierre-Jean De Smet empunhando uma cruz junto a dois índios, e colocou-a no interior do seu museu. De Smet foi um amigo dos índios americanos, como se sabe. A estátua tinha sido considerada por várias entidades e pelos alunos da universidade, que são de todos os credos e não apenas católicos, como um alegado símbolo colonialista e supremacista branco. Os jesuítas cederam e tiraram-na da vista pública, apesar dos remoques de gente conservadora.

Em Julho de 2017, em Lisboa, o provedor da Santa Casa, Santana Lopes, com o apoio do presidente socialista da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, colocou no Largo Trindade Coelho uma estátua de outro grande jesuíta, António Vieira, empunhando uma cruz junto a três crianças índias. Vieira foi um amigo dos índios, como se sabe. Houve recentemente uma manifestação contra a estátua, por alegadamente glorificar o colonialismo e o “escravagismo selectivo”, e logo uma contramanifestação de nacionalistas de extrema-direita. Não houve porrada, mas podia ter havido.

A estátua da Universidade de Saint Louis antes de ser retirada.

 

Medina na inauguração da estátua de Vieira em Lisboa

 

Não gosto da estátua de Vieira, completamente ultrapassada esteticamente e espiritualmente, mas nunca me passaria pela cabeça que ela glorifique o racismo, o colonialismo ou o escravagismo. Menos gosto de quem teve a ideia de a lá colocar, Santana Lopes, nem do motivo por que o fez – autopromoção em vésperas de regresso à política. Menos ainda de quem foi lá fazer a tal contramanifestação. Em suma, não há nada nesta história nem neste monumento que me agrade, excepto que posso concordar teoricamente com uma homenagem da cidade de Lisboa a António Vieira, que foi um grande lisboeta, um grande português e um grande cidadão do mundo, também perseguido pela Inquisição e grande mestre da nossa língua. Quero pensar que foi esse o motivo do apoio de Medina, e não o pensamento nas eleições autárquicas de Outubro, mas muito provavelmente estou a ser ingénuo.

Culturalmente, Lisboa está, de facto, a anos-luz da América (apesar do Trump) e de Nova Iorque, onde em 2017 se inaugurou uma fantástica estátua no coração de Manhattan, a Rapariga sem Medo, desafiante do popular Touro Enraivecido que já lá estava. É uma moderna, inteligente e bonita homenagem à mulher americana. Aqui fica, como contraponto.

O cúmulo do descaramento

Na sua acusação do processo contra Sócrates, o Ministério Público tem o descaramento de fazer 34 referências a “informações” do Correio da Manhã, o cano de esgoto tipográfico que desde sempre julgámos ser o órgão de divulgação das “informações” provenientes do Ministério Público.

Perante isto, torna-se urgente apurar se o Correio da Manhã é realmente a cloaca do Ministério Público, como se pensava até agora, ou se afinal é o Ministério Público que é a esterqueira do Correio da Manhã.

 

O Expresso julgou, está julgado

“Salgado criou offshore só para pagar a Sócrates”, titula hoje em grandes parangonas o semanário de Balsemão, numa das quatro páginas dedicadas a emitir sentença sobre o antigo primeiro-ministro. Não sei se a lei prevê possibilidade de recurso desta sentença para a justiça…

Na última página do 1.º caderno, o cabalista Henrique Monteiro esfalfa-se a desmentir a tese da “cabala” da defesa de Sócrates. Monteiro é perito nisso. Para ele nunca há cabalas  – quando não gosta de quem as denuncia ou quando gosta de quem as engendra. Daí o histórico acto censório desse falso jornalista, a sua vergonhosa recusa em publicar, quando era director do mesmo Expresso, em Setembro de 2009, o email que provava flagrantemente a conspiração de Belém e do Público contra o dito primeiro-ministro Sócrates. Na altura, Monteiro não gostou da cara política de quem lhe fez chegar o email, por isso recusou publicá-lo. Hoje titula assim a sua coluna no Expresso: “A cabala dada olhe-se o dente”. Traduzindo: “Desconfio logo de denúncias que vêm da cor política adversa à que eu sirvo”. Já em 2009 Monteiro pensava e actuava exactamente do mesmo modo. Nada de novo debaixo do sol.

O Expresso e Monteiro julgam sem provas contra Sócrates e escondem provas quando elas dão razão a Sócrates.

O Expresso julgou, está julgado.

Os mais racistas da Europa?

Segundo os dados de um inquérito às atitudes sociais dos portugueses apresentados hoje no Público, Portugal está entre os países da Europa “que mais manifestam racismo”.

É sempre bom conhecer as nossas realidades, ainda que elas possam desmentir velhos mitos (o “luso-tropicalismo”, a “Nação multirracial”) ou desagradar ao nosso amor-próprio e aos nossos sentimentos patrióticos. Não me soaria mal se a conclusão do estudo fosse a de que não somos muito diferentes dos europeus em geral em matéria de racismo. Dizer-se, porém, que somos dos povos mais racistas da Europa, soa-me a falso. São meras impressões minhas, pois são, mas o inquérito em causa também não me inspira confiança nenhuma.

No dito inquérito, Portugal aparece destacadamente no 1.º lugar dos 20 países europeus considerados numa comparação internacional quanto a “racismo biológico”, aquele que é geralmente considerado como a mais primária modalidade de racismo. As perguntas que pretendiam medir o racismo biológico foram estas: “Acredita que há raças ou grupos étnicos que nasceram menos inteligentes do que outros? Acha que há raças ou grupos étnicos que nasceram mais trabalhadores do que outros?” Tais perguntas, além de malparidas (os indivíduos é que “nascem”, não os grupos étnicos, e, de resto, à nascença, nenhum indivíduo é inteligente ou trabalhador), apenas indagam sobre crenças ou preconceitos, não sobre práticas discriminatórias. Pode haver correlação entre ambas, mas o preconceito racial (crença) e a discriminação racial (prática) não são a mesma coisa nem têm as mesmas consequências – algo que o inquérito ignora em absoluto.

Portugal aparece ainda no 5.º lugar quanto a “racismo cultural”, modalidade em que a liderança pertence à Noruega, país em que, estranha e paradoxalmente, o “racismo biológico” é dos mais baixos entre os 20 países (18.º lugar). A pergunta que serviu para avaliar o “racismo cultural” foi esta: “Pensando no mundo de hoje, diria que há culturas muito melhores do que outras ou que todas as culturas são iguais?” Uma pergunta particularmente condicionante e filha da mãe, porque quem não achar que “as culturas são todas iguais” será logicamente contabilizado como racista cultural.

Torna-se evidente que este inquérito (parte integrante, aliás, de um inquérito à escala europeia do European Social Survey) utilizou perguntas que previsivelmente conduziam a um tipo de resultado desejado. Com outras perguntas e outras metodologias, os resultados seriam provavelmente bastante diferentes.

De facto, outras fontes sobre temas idênticos, como os inquéritos periódicos europeus divulgados pelo Portal da Opinião Pública, não confirmam a liderança dos portugueses, nem no racismo nem na xenofobia. Nestes inquéritos periódicos europeus, as perguntas aos inquiridos e as metodologias são diferentes das do inquérito acima referido. Não se procura saber se o inquirido acredita que há raças que “nascem” menos inteligentes ou mais trabalhadoras, mas sim, por exemplo, se o inquirido recusa ter vizinhos de outras raças. Uma pessoa que diz (ou finge) que não é racista, mas que não quer vizinhos de outras raças ou não aceita que os seus filhos casem com pessoas de outros grupos étnicos (questões clássicas dos inquéritos sobre racismo) é, para mim, muito mais nitidamente racista do que uma pessoa que apenas acredita numa menor inteligência ou aptidão para o trabalho de certas raças, mas que apesar disso, na prática quotidiana, mostra respeitar e, sobretudo, não discrimina as pessoas de outras raças.