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O grande investimento da direita

Compreendem-se bem estes gemidos de indignação de António Barreto. A direita sente-se enrabada e AB assume, voluntarioso, a sua quota-parte das dores.

O maior investimento estratégico da direita portuguesa de 2004 até hoje foi a tentativa de assassinato de carácter de Sócrates, o ganhador de duas eleições e da única maioria absoluta socialista desde que Soares fundou o PS. O comentador “independente” AB colaborou pressurosamente nessa tentativa desde os seus alvores. Releiam-se os seus “retratos da semana” repletos de ódio, publicados no jornal do Belmiro em 2007 e 2008, quando ainda não havia uma crise financeira internacional cujas culpas se pudessem atirar para Sócrates. Usando de pulhices saloias, AB chegava a interrogar-se se Sócrates não seria fascista: “Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei.” Fosse ou não fascista, Sócrates era então, para AB, “a mais séria ameaça contra a liberdade” que Portugal conhecera desde os anos 70 (Público, 6 de Janeiro de 2008). O carapetão da “asfixia democrática”, espalhado pelo PSD em 2009, também colheu ali inspiração. Veio, então, a crise financeira e a direita mudou completamente de registo: fora Sócrates o seu autor.

O alvo último da longa campanha negra da direita – que desde 2014 conta com a desavergonhada assessoria jurídica do Ministério Público – nunca foi exactamente Sócrates, mas sim o PS. A direita presumiu erradamente que, linchando Sócrates, arredaria o PS do poder durante uma década ou duas. Essa gente vê hoje o seu logro, que o ódio cego de antanho não lhe permitiu vislumbrar. Investiram tudo num papel marado, que em 2015 se desvalorizou completamente. Sentem-se enrabados, mas a culpa é deles próprios, que investiram as suas poupanças e esperanças num pacote de patranhas.

Com efeito, a derrota da direita nas últimas eleições legislativas, a formação do governo de Costa e o balanço francamente positivo de um ano e meio de governação socialista vieram pôr totalmente em causa a racionalidade do maior investimento estratégico da direita no presente século – a diabolização de Sócrates e, por tabela, o aniquilamento do PS e o esmagamento da esquerda.  A campanha anti-Sócrates  já não rende – a não ser, talvez, como mera e triste vingança pela vingança – e não se vê quem poderia substituir Sócrates no papel de bode expiatório e bombo da festa.

A desorientação e o desespero grassam nas fileiras e estados maiores da direita raivosa. O maná da diabolização de Sócrates faliu, é chão que já deu uvas. Continuam a odiar Sócrates com todas as suas forças, mas já não sabem porquê nem, sobretudo, para quê. O grande investimento, que até já tinha granjeado alguns dividendos na bolsa eleitoral, parece agora perdido. Há, porém, saudosos que sonham ainda recuperá-lo. AB dá eloquentes sinais disso mesmo, exibindo em cambalhotas retóricas uma desesperada tentativa de conotar Costa com o “nefando” governo de de Sócrates.

Note-se que, para AB, António Costa teria sido em 2007, quando saiu do governo para a câmara de Lisboa, uma vítima da limpeza que o déspota Sócrates teria levado a cabo no governo, com o objectivo de ficar “enfim só” no poder (Público, 27 de maio de 2007). As lágrimas de crocodilo que AB então verteu por Costa aparecem agora transformadas em libelo acusatório contra o mesmo Costa, a quem acusa de branqueamento e complacência criminosa com o “nefando”. Os objectivos últimos são sempre exactamente os mesmos: atacar um governo de esquerda, atacar o PS e, se possível, apagá-lo do mapa.

O sucesso da geringonça, segundo Vítor Bento

No DN de hoje, Vítor Bento discorre sobre “A improvável geringonça”. Este “técnico” tem-se mantido a uma prudente distância da política – sobretudo a política mais arriscada, como quando recusou as Finanças que Passos Coelho lhe ofereceu. Nem por isso deixa de pensar e escrever politicamente – à direita, naturalmente.

Na sua coluna, o ex-conselheiro de Estado de Cavaco tenta dar a impressão que plana a grande altura sobre a bagunçada da luta política. Dá-se ares de isenção, assenta umas rabecadas fáceis no seu próprio quadrante político e até reconhece uns pozinhos de talento a Costa, sem nomear nomes. Uma pessoa distraída acaso pensará que Bento é um modelo de isenção.

O sucesso da geringonça constitui o objecto das reflexões de Bento, mas começa por apontar dois erros a Coelho: a teimosa recusa da legítima solução de governo encontrada pela esquerda e as previsões catastrofistas falhadas à luz dos resultados económicos até hoje conseguidos. Ora, na opinião de Bento, o que é que Coelho deveria ter feito? Deveria ter olhado para a frente e construído “um programa de futuro”, que “valorizasse” o que duramente conseguira no seu governo “incompreendido”, que respondesse aos “anseios sociais” e que fomentasse uma “alternativa mobilizadora”. Puro blá-blá-blá sem mistura. Como poderia agora Coelho valorizar a sua incompreendida política de 2011-2015, apontada à frustração dos mais elementares “anseios sociais”? Não saberá Bento que a direita perdeu 700 mil votos nas eleições de 2015 porque a sua governação a tornou o absoluto contrário de uma “alternativa mobilizadora”? Adiante.

O “improvável” sucesso (quer dizer que Bento não o previu) da chamada geringonça deve-se, segundo ele, a uma mistura de talento, sorte e cumplicidade dos media. Vejamos então.

No talento, refere a promoção de uma solução de governo nunca antes tentada e o “perceber que, em economia, tudo o que desce acaba por subir, e que, feito o ajustamento [pelo governo anterior], a viragem da onda não deixaria de trazer aproveitáveis dividendos”. Reparando melhor, este falso elogio não explica como surgiu a inédita solução de governo (o eventual talento de Costa não esclarece o essencial, que foi a recusa pela esquerda toda do governo de Coelho), deixa de fora as políticas concretas deste governo, aponta o oportunismo do confisco dos dividendos da política do governo anterior (a actual treta dominante da direita) e refere uma “viragem da onda” económica que, transparentemente, ele considera um bambúrrio e, logicamente, deveria constar do ponto seguinte, a sorte.

Na sorte, o colunista enumera uma salgalhada de coisas, desde a inesperada boa conjuntura económica internacional e o inesperado boom turístico, até à cumplicidade nunca antes vista (diz ele) do presidente da República com o governo (o que também relevaria da sorte). Não se coíbe aqui de mencionar, pasme-se, os “acidentes favoráveis à autoestima do país”, a saber, os êxitos do futebol e da Eurovisão, sem esquecer a visita do papa. Pelo meio refere um “amolecimento da obstinação dos falcões de Bruxelas”, que se teria devido apenas à conjuntura política internacional e não a qualquer mudança de atitude por parte do governo de Portugal. Qualquer burro pode ter sorte, é o que se conclui.

Na cumplicidade mediática, por fim, Bento expõe uma versão light da velha teoria da “asfixia democrática”. Segundo ele, há hoje em Portugal um “controlo do efeito político da comunicação social”, que “se materializa muito mais no que omite do que no que declara.” Dito mais claramente, a comunicação social portuguesa “reproduz e amplifica as notícias ou opiniões convenientes [ao governo], multiplicando-lhes o impacto social” e “ignora ou amortece as inconvenientes, abafando-lhes o impacto.” Bento não está a falar da Coreia do Norte ou da Venezuela. Está a falar de Portugal e do Público, do DN em que ele escreve, do Expresso, da SIC, da TVI, da TSF, da RTP, da CMTV, do Correio da Manhã e não sei se do Observador e do Diabo. Ou seja, uma vastíssima conjura destinada a glorificar o governo e a abafar a oposição – mas completamente inexplicável, dado que os media portugueses estão quase exclusivamente nas mãos da direita.

Os êxitos da geringonça estão a pôr a direita fula, cega e paranóica. Nem almas bentas escapam.

 

Carreiras meteóricas

Dijsselbloem é um político trabalhista holandês que se licenciou em economia agrícola numa cidadezinha do sul do seu país. Do currículo oficial do mangas chegou a constar ser detentor de um mestrado irlandês em economia empresarial, aldrabice depois denunciada na Irlanda por um jornal. O gajo esteve mesmo na Irlanda a passar uma temporada, presumivelmente com uma bolsa que pagou farras e cerveja Guinness, mas não concluiu qualquer curso. Depois de ter sido vereador na sua cidade natal, saltou para deputado do parlamento holandês, onde se ocupou de questões de educação, juventude, ensino especial, professores, etc. Escusado será dizer que não tinha qualquer formação ou experiência prévias nessas áreas. Desde 2012, sem que ninguém saiba explicar porquê, é ministro das Finanças da Holanda. Em 2013, foi feito presidente do Eurogrupo, sem outra experiência política europeia prévia. Em 2014 chegou a falar-se dele para comissário europeu, numa pasta que não lembraria a um careca: Melhoria da Legislação, Relações Interinstitucionais, Estado de Direito e Carta dos Direitos. Pelos vistos, o fulano é um tapador de buracos nato.

Tal como Miguel Relvas, com quem tem várias afinidades, Dijsselbloem tem fama de ser “sincero” e “directo”, isto é, incontinente verbal. Talvez seja esse o segredo da sua carreira ascensional, que nenhuma outra razão parece justificar, além do amor paternal que Schäuble lhe vota. Há tempos, declarou que Claude Juncker bebia demais. O acusado lá teve de ir à televisão negar que tivesse problemas com o álcool. Há poucos dias, referindo-se aos países do Sul da Europa, o gajo disse que “não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e copos” e depois ir pedir dinheiro aos países ricos. Políticos dos países sul-europeus, incluindo Costa e Renzi, reagiram chamando-lhe vários nomes merecidos e sugerindo a sua demissão de presidente do Eurogrupo. Até o líder do Partido Popular Europeu lhe pediu mais respeito e tento na língua.

Como ministro das Finanças da Holanda, Dijsselbloem ajudou o seu partido a cair a pique nas recentes eleições. Com Passos Coelho também tem outras afinidades: estão ambos a caminho do desemprego, depois de carreiras políticas meteóricas em que apenas se distinguiram como serventuários de Schäuble.

A caminho do desemprego… ou da Goldman Sachs?

O populista antipopulista

Pacheco Pereira alerta em “O grande abandono”, no Público de sábado, para uma possível irrupção do populismo em Portugal. Os ingredientes base estariam cá todos, ou quase. Os abandonados da política esperam apenas que surja o seu líder, de preferência fabricado pela televisão, para que o salto final para o populismo seja dado.

Eles sabem que o CDS, o PSD, o PS os abandonaram à sua sorte, estão-se literalmente borrifando para as ‘causas fracturantes’ do Bloco de Esquerda, e a ‘linguagem de pau’ do PCP não os mobiliza. Eles esperam no seu fel – até um dia.”

Observador aéreo e supostamente isento, planando a grande altura sobre a cena portuguesa, Pacheco culpa, pois, pelo iminente “salto” de Portugal para o populismo o abandono a que as classes desprotegidas estão alegadamente votadas por todos os principais partidos políticos e, com nuances, pelos outros também.

E em que é que Pacheco se baseia? Directamente na vox populi. No “restaurante popular” que frequenta, Pacheco ouviu o comentário de uma cozinheira à reportagem que a televisão estava a passar sobre a entrega de uma casa provisória a uma família de refugiados chegados da Síria. “Vão-lhes dar uma casa melhor do que minha. Eu trabalho toda a vida e a mim ninguém me dá nada” – queixou-se ela, achando-se talvez com mais direito à casa dos refugiados, que supostamente seriam mandriões –  além de não serem portugueses, parece implícito.

Pacheco aprova: “É verdade. E isto é algo que é sentido como uma enorme injustiça. E é uma injustiça. O bem-estar destas famílias e das pessoas como aquelas que estão ali a trabalhar duramente foi abandonado. E estamos assim a alimentar claramente o populismo.” Por isso avançaria o trumpismo, o lepenismo, etc., etc.

Ainda bem que o comentário da cozinheira e a claríssima aprovação do dito comentário por Pacheco se situam logo no início do artigo, porque assim já não nos deixamos enganar com o que se segue. Porque é completamente estúpido partir de um argumento tipicamente populista para um arrazoado que pretende ser antipopulista.

Ainda se compreende que uma cozinheira mal informada ou iletrada não saiba distinguir a sua situação pessoal, que talvez seja socialmente injusta, da situação desses desgraçados que são escorraçados por uma guerra sangrenta e aqui chegam aos baldões, após peripécias trágico-marítimas e estágios em campos de tendas. Mas como aceitar que o informado Pacheco ache injusto que a cozinheira tenha uma casa eventualmente menos boa do que o alojamento provisório desses desgraçados que fogem à morte?

Será injusto que Portugal, dentro das suas possibilidades, preste um acolhimento minimamente decente a um certo número de refugiados de guerra, sabendo-se embora que muitos portugueses vivem em condições socialmente injustas? Pacheco acha que sim, que é injusto. E nisso irmana-se com todos os populistas que acham o mesmo.

Muito mal, Marcelo!

A nota do presidente da República sobre o caso Centeno, divulgada pela presidência segunda-feira à noite, é a primeira gafe grave de Marcelo desde que chegou a Belém. E dizer gafe é pouco, porque são várias e não são só meras gafes.

Em cinco pontos singelos, o presidente da República começou por revelar que Centeno pôs o seu lugar à disposição do primeiro-ministro – o que não lhe competia a ele, presidente, revelar. Aludiu depois a uma alegada falha de comunicação entre o ministro das Finanças e o gestor Domingues – o que não lhe competia a ele, presidente, relatar. Queixou-se de forma velada de que alguém (Centeno ou Costa?) interpretou indevidamente as “posições do presidente” sobre o assunto da Caixa – deixando para o público a tarefa de interpretar o significado dessa queixa enigmática e de perceber a quem ela se refere. Declarou enfim que, depois de ouvir o primeiro-ministro, o qual lhe disse manter a sua confiança em Centeno, ele presidente “aceitou tal posição”, atendendo ao “interesse nacional, em termos de estabilidade financeira” – sem que se perceba porque é que um presidente tem de aceitar ou não aceitar a confiança do chefe do governo num dado ministro.

Temos, pois, que o presidente Marcelo parece mesmo querer continuar a sua antiga actividade de comentador político, de preferência fazendo revelações apimentadas e inconfidências de bastidores. O mais grave de tudo é o dislate final, que lhe foi já apontado pelo deputado socialista Porfírio Silva e pelo constitucionalista Vital Moreira. Com efeito, os ministros não carecem da confiança política do presidente da República, muito menos da sua “aceitação”, termo que implica um poder que a Constituição não lhe dá. Acrescente-se que também a confiança do primeiro-ministro num ministro não carece da “aceitação” do presidente da República.

Se o presidente quiser, pode formular, perante o primeiro-ministro, todas as dúvidas que entender sobre a permanência ou não de um ministro no governo. Vir exprimir essas dúvidas para a praça pública é insólito e até pode ser estúpido, ainda que não seja propriamente inconstitucional. Absolutamente estúpido e profundamente errado é vir declarar publicamente que “aceita” ou não “aceita” determinado ministro, coisa que definitivamente não lhe compete. Se o presidente está descontente com o governo e se não lhe chegam as reuniões com o primeiro-ministro para fazer as suas pressões ou ameaças, então só tem um caminho constitucional, se não quiser estar quieto e calado: dissolver a Assembleia e convocar eleições.

Já se percebeu que Centeno foi trapalhão nas negociações com Domingues e que lhe faltou alguma prudência, o que certamente advém da sua total inexperiência na política. Outra coisa é a histeria da direita, inconsolável com os resultados positivos do primeiro ano de governação de Costa e Centeno e ansiosa que se fale de outra coisa. Mas eis que Marcelo resolve ceder à histeria raivosa e vem dar uma no cravo, outra na ferradura, para assim se justificar e sacudir o capote perante o execrável laranjal – necessidade que até agora não tinha sentido. Muito mal, senhor presidente!

A direita está possessa (com o Marcelo)

A direita está crescentemente fula com o Marcelo. Mal contém a sua raiva. A explosão de fúria de Coelho poderá estar para breve. Falta só a pastilhinha de menta dos Monty Python, de que há tempos aqui falei, para se dar o cataclismo gástrico do chefe da oposição, farto de engolir toda a bicharada marcelina. Até agora ele tem apenas deixado cair uns pingos de fel, umas coisitas lamurientas, mas começam a surgir no seu entourage reações não só de enfado (“o presidente anda com o governo ao colo”), como até de frontal repúdio das declarações de Marcelo – entre estas a recente defesa de Centeno no idiota “caso” da CGD. Marcelo não se ficou por aí, qualificou também de absurda a eventualidade de demissão do ministro das Finanças. Ora esta demissão é presentemente o objectivo n.º 2 do partido coelhista. O objectivo n.º 1 é desde 2015, e continuará a ser, a queda do governo de Costa, peditório para o qual Marcelo  tem notoriamente recusado dar. O objectivo n.º 3 parece ser a desestabilização permanente da Caixa, com vista à futura privatização das ruínas do banco público, outro assunto em que Marcelo já tem aparecido a desancar o coelhismo. E mais objectivos parece não ter o partido coelhista, porque os golpes de Estado estão fora de moda.

Na entrevista de ontem ao El País, Marcelo dá mais um chuto no cu da firma Coelho, Montenegro e Cª, ao afirmar sem complexos que o governo de Costa “superou as expectativas iniciais”, e que isso, “para Portugal, foi positivo”. Coelho, o discípulo dilecto do conspirador Cavaco, deve ter tido terríveis pesadelos a noite passada.

O presidente, sobre cuja pessoa nunca tive, no passado, grande opinião, tem-me surpreendido notavelmente, devo confessá-lo. Não só dou a mão à palmatória, como lhe darei o meu voto em 2021, se tudo continuar como até agora e Marcelo mantiver a presente linha de conduta.

Tentando entender o que move o actual presidente nesta atitude de lealdade institucional para com o governo socialista apoiado pelo Bloco e o PCP, começo por constatar que Marcelo assumiu de facto o seu cargo, desde o início, com um espírito genuinamente presidencial – unir, construir pontes, sarar feridas, como constata o El País. Mas isto não é explicação e não vai fundo. As boas intenções declaradas de um político são muitas vezes traídas pela sua prática.

No passado, como dirigente partidário e líder da oposição, Marcelo tinha falhado, lembram-se? Pelo menos, os pêpêdês correram rapidamente com ele. Antes já tinha falhado como candidato da direita unida à câmara de Lisboa. Como presidente da República, triunfalmente eleito meses depois de uma derrota eleitoral da direita nas legislativas de Outubro de 2015 (39% da direita contra mais de 50% do conjunto da esquerda), Marcelo está a triunfar crescentemente. É o que diz a sua alta cota de popularidade em todas as sondagens. Recorde-se que Marcelo iniciou esta carreira triunfante como candidato auto-proposto contra a vontade do Coelho. Ou seja: no seu partido ou como candidato dos partidos da direita, Marcelo falhou, mas na sua carreira individual, incluindo a de comentador político, Marcelo conseguiu singrar e triunfar. Foi a popularidade individual que angariou como comentador político, pisando, aliás, alguns calos à direita, que lhe deu a capacidade de impor a sua candidatura presidencial aos partidos de direita. É novamente a popularidade individual que mantém o presidente Marcelo em níveis de aprovação muito superiores aos da votação que conseguiu nas eleições presidenciais.

O presidente Marcelo não deve nada ao seu partido – partido, aliás, que ajudou a fundar em 1974, com Sá Carneiro e Balsemão, quando os tristes Coelho e Montenegro ainda mijavam na cama. Marcelo não deve nada aos partidos de direita, que não tiveram outro remédio senão apoiá-lo nas presidenciais de Janeiro de 2016. A sua legitimidade vem-lhe directa e unicamente do eleitorado. O que os partidos da direita esperavam dele eram apenas sonhos húmidos, vãs esperanças, porque o candidato não teve que passar por quaisquer negociações prévias com o Coelho ou a Cristas.

Já pensaram o que seria Marcelo como presidente da República se a direita fosse maioritária na AR? Se a actual solução governativa e a actual composição do parlamento parecem ser muito favoráveis ao intervencionismo e até ao protagonismo político de Marcelo, no caso de um parlamento maioritário de direita e de um governo Coelho-Cristas, que papel sobraria para o presidente? Desconfio que ele não ficaria caladinho em Belém e que procuraria a todo o custo intervir, mas estou convencido que tal presidência seria uma grande seca para Marcelo. Na actual situação é que me parece que ele se dá bem, pois cabe-lhe muitas vezes o papel de fiel da balança. E, sobretudo, porque não tem de aturar os fedelhos sectários e histéricos que hoje mandam no seu partido.

Como impedir o filme de terror Trump na Casa Branca

O Washington Post explica como, em duas versões.

  • Se 38 dos 306 grandes eleitores republicanos transferirem hoje o seu voto para Hillary Clinton, será ela a nova presidente dos EUA.
  • Se 38 dos 306 grandes eleitores republicanos juntarem hoje os seus votos aos dos 232 democratas para eleger outro republicano – por exemplo, Mitt Romney – será este o novo presidente dos EUA.

Se nada disso se verificar, o colégio eleitoral americano dará hoje luz verde a um louco na Casa Branca.

Note-se que Hillary Clinton teve mais 2.864.978 votos populares do que Trump – ou seja, mais 450.000 do que os votos que em Portugal elegeram Marcelo…

Prevê-se estouro para breve

Ontem o PSD do Passos e da Luís levou mais uma rabecada do Marcelo, a propósito do “ruído” feito em torno da Caixa, altamente prejudicial para o banco do Estado e para o país. “Em nenhum país do mundo, nenhum banco consegue eficazmente fazer uma reestruturação estando ao mesmo tempo a debatê-la na praça pública.”

Este presidente não se cansa de pisar os calos do Passos, quando ele entra em modo de demagogia descerebrada.

Mistério, para mim, é a direita andar tão caladinha em relação ao presidente que elegeu. Com a barriga a estalar, repleta dos sapos que o Marcelo já lhe fez ingurgitar, o líder laranja arrisca-se um dia destes a estourar, tal vulcão de lama, como naquela cena de The Meaning of Life. Esperemos que seja depois do Ano Novo, para não estragar as festas.

Rodrigues dos Santos e o fascismo

“O fascismo tem origem no marxismo”, disse e repetiu o antropóide José Rodrigues dos Santos num romance, numa entrevista ao DN e, por fim, num artigo no Público. O Santos (que o jornalista Ferreira Fernandes visa hoje com a habitual pontaria) parece que está farto de vender milhões de exemplares de histórias da carochinha nos supermercados e quer agora entrar para a galeria dos grandes calinos, autores de bobagens galáticas. Numa outra sua incursão sonâmbula pela ciência política, o Santos tinha descoberto que o nazismo não é alemão, porque houve uns eugenistas americanos há oitenta ou cem anos que também queriam eliminar deficientes. Quod erat demonstrandum.

Depois de o Público ter albergado uma exposição detalhada da tese do Santos sobre o fascismo, um académico antimarxista e cheio de pachorra para malucos caiu-lhe em cima no mesmo jornal, transformando-o em pão ralado. Lá lhe explicou, com minúcias de chinês e citando os consagrados na matéria (sem se esquecer de fornecer os números das páginas, como se o andróide as fosse ler), que os fascismos italiano e alemão sempre fizeram do marxismo o seu inimigo número um.

Mas que efeito poderá ter tal argumento sobre a cachola do Santos, que acha que o fascismo nasceu do marxismo porque o Mussolini em rapaz foi socialista? Nenhum. Seria o mesmo que tentar explicar a filosofia de Tomás de Aquino a um orangotango, embora certos gorilas tenham capacidade de aprender linguagem gestual. Por sinal, o Santos também tem esse dom, como tantas vezes tem demonstrado na RTP como entrevistador. Pode-se desligar o som que, só pela fuça e pela mímica do gajo, sabemos perfeitamente o que ele está a (querer) dizer.

Indigência messiânica

Rui Rio, o eterno Messias nortenho, deu anteontem uma conferência. Nela declarou que o actual “regime está desgastado” e por isso são necessárias “reformas que lhe dêem uma revitalização”, tendo afirmado simpatizar com a proposta que o PSD apresentou esta semana relativamente à introdução do voto preferencial.

“Se os dois grandes partidos, acrescidos preferencialmente também dos mais pequenos e da sociedade como um todo, não se conseguirem entender para introduzir reformas no regime, se deixarmos as coisas correrem num ‘laissez faire laissez passer’, o que é vai acontecer? Na minha opinião caminharemos para uma ditadura”, alertou.

Segundo Rio, não se trata de “uma ditadura clássica”, onde há “um general, um marechal ou um coronel ou um professor de Coimbra” a mandar, mas esta passa pelo “enfraquecimento da democracia”, onde “o tal poder político é mais fraco e sempre que tem um outro interesse pela frente, sucumbe perante ele”.

“O ditador é aquele que se vai sobrepor à vontade dos órgãos legitimamente eleitos. Hoje é um, amanhã é outro e são esporádicos. É um totalitarismo diferente, sem rosto, não há ninguém em concreto”, esclareceu.

Rio avisa, por isso, que “não é possível dar um tiro num ditador e restabelecer a democracia no dia seguinte”, mas trata-se de “um funcionamento inquinado que não permite aos órgãos legitimamente eleitos cumprirem integralmente aquilo que devem fazer”.

Resumindo: ou os partidos grandes e pequenos mais a sociedade como um todo se juntam para fazer as reformas que o PSD propõe (e outras que RR tem na manga*) para se revitalizar o regime, ou caminhamos para uma ditadura, para um totalitarismo sem rosto, caracterizado 1) por ditadores esporádicos, hoje um amanhã outro, que se sobrepõem aos órgãos legitimamente eleitos, e 2) por um poder político mais fraco, que sucumbe perante qualquer interesse que lhe apareça pela frente.

Genial. Merece um doutoramento honoris causa em Ciência Política.

* Revelou uma: as eleições legislativas, as autárquicas e até as europeias (!?) deviam ser de 5 em 5 anos, porque actualmente “quem está no exercício do poder está sempre muito em cima dos ciclos eleitorais”.

 

Passos queixa-se de Marcelo

Marcelo não era o homem que o laranjal de serviço queria em Belém. Não tiveram outro remédio senão apoiá-lo, porque era certo que ele ia ganhar as eleições. Entretanto, os piores receios de Passos parecem estar a realizar-se. Marcelo não dá sinais de querer dissolver o parlamento nem, pelo menos por enquanto, de encarar essa possibilidade. Como se isso não bastasse, o presidente apoiado pela direita anda por aí todo contente, “irradia felicidade” e não pára de mostrar “grande apoio” ao governo (Passos dixit).

De facto, o contraste entre o actual e o anterior inquilino de Belém é abismal. Não só quanto a popularidade, mas sobretudo quanto ao sentido com que a função presidencial é e foi entendida por um e por outro. O anterior presidente, de má memória, foi um sectário que usou os poderes presidenciais como uma moca contra a esquerda, quer esta estivesse no poder quer na oposição.

Sabe-se que Marcelo não é nenhum menino de coro. O seu maquiavelismo ingénito foi abundantemente revelado na função de jornalista do Expresso. Para além dos golpes jornalísticos, os golpes propriamente políticos também figuram no seu cardápio. Há muitos anos, Marcelo defendeu um referendo, quando a Constituição ainda o não contemplava, para mudar a Constituição de acordo com os interesses da direita. Era aquilo a que então se chamava o “golpe constitucional”. Este e outros precedentes não podem deixar ninguém à esquerda descansado e confiante. Atá agora, porém, o governo do PS apoiado pela restante esquerda não tem qualquer razão para se queixar do PR.

O descontentamento de Passos relativamente à actuação de Marcelo está bem patente na entrevista que dá hoje ao Sol. Uma certa desorientação mental também. A dada altura, depois de se queixar – o sentido é esse – que o PR “irradia felicidade”, Passos afirma isto:

“O PR tem-se esforçado por duas coisas. Primeiro, por mostrar uma grande cooperação e um grande apoio ao Governo, o que é compreensível, atendendo a que a sua extracção política não tem nada que ver com a maioria que suporta o Governo. Por outro lado, tem a preocupação de suscitar entre todas as forças políticas, uma discussão mais aberta que permita consensos” (sublinhado meu).

Temos pois que, segundo o líder da oposição, a “grande cooperação” e o “grande apoio” do PR ao governo se compreenderiam porque Marcelo politicamente não tem nada que ver com maioria que suporta o governo. O falso silogismo contido nesta afirmação só prova uma coisa, é que Passos acha a actuação de Marcelo totalmente incompreensível.

Foi melhor assim

Ainda bem que o provocador Seabra insultou João Soares. Ainda bem que este perdeu o que não tem, cabeça, e ofereceu bofetadas. Ainda bem que tudo terminou com uma demissão aceite pelo Costa – que já a tinha insinuado por meias palavras, ao dizer que um ministro nem no café pode ameaçar com porrada. Ainda bem que foi agora, porque mais tarde seria pior.

A nomeação de João Soares para a Cultura revelou-se uma aposta desastrada, como em tempos tinha sido a de outro inepto para a governação, Santana Lopes. António Costa arriscou muito com tal nomeação, que surpreendeu toda a gente. Mas não estava escrito que a aposta teria de sair furada. Era um desafio, lá isso era.

Não há propriamente qualificações técnicas muito específicas para se exercer o cargo de ministro da Cultura. Também não é qualquer analfabeto que o pode exercer, mas aquilo de que um ministro precisa, sem falha, é de qualidades políticas, bom senso e seriedade. João Soares assumiu o desafio, mas não lhe soube corresponder, por falta daquelas três coisas. Já o modo como demitiu Lamas tinha sido outra anedota, a pressagiar o que aconteceu agora. O mais forte sinal de bom senso que João Soares deu foi ter-se demitido.

O filho de um grande político não tem forçosamente talento político a correr-lhe nas veias. Raramente se herda isso. De resto, João Soares sempre se queixou da sombra do pai, que alegadamente não o teria deixado medrar na política. Agora ficou patente que só se pode queixar de si próprio.

 

Ora bolas, Ricardo

“Falar de Cavaco Silva nos dias de hoje sem ser para dar pancada é assumir uma posição absolutamente minoritária” – escreve Ricardo Costa, actual director da SIC, sobre o homem que cessou hoje a sua presidência com a mais alta taxa de impopularidade de sempre. Ora Cavaco é, garante Ricardo Costa, “o segundo político mais importante do pós-25 de Abril”. Como quase pede desculpa por ter essa opinião, deduz-se que quis fazer um elogio do fulano.

Para quem tinha vontade de elogiar, podia ter feito melhor. Porque “importante” quer dizer muito pouco sobre o verdadeiro valor de um político. Salazar, o maior inimigo da liberdade e da democracia no século XX em Portugal, foi o político mais importante do país durante quarenta anos. No fim, até teria mais adeptos do que Cavaco tem hoje. Os maiores carniceiros e liberticidas do mundo durante esse século também foram todos muito importantes – e, em geral, muito populares, até deixarem de o ser.

Ricardo Costa usa o truque de falar do político e não do presidente Cavaco, para fazer abranger pelo elogio ao presidente os anos de vacas gordas do primeiro-ministro. Mas não fica por aqui o chico-esperto na sua intenção de branquear o presidente cessante. Cala, por exemplo, o mega-escândalo das escutas de Belém, uma refinada canalhice vinda directamente de um presidente da República. Sobre as acções da SLN e as mentiras que Cavaco repetidamente disse a esse propósito (que nunca tinha comprado acções do BPN), Ricardo Costa declara agora que foram apenas um erro de “comunicação”, porque tanto esse caso como o do valor da sua pensão de reforma teriam sido “facilmente explicáveis e entendíveis”. Isto dito por quem era director do Expresso quando o escândalo das acções foi revelado pelo mesmo semanário! Que a polémica em torno da pensão de reforma de Cavaco era fácil de evitar, não se duvida. Bastava que o fulano estivesse calado! Mas a compra e venda de acções a Oliveira e Costa, fora do mercado e a preços de favor, não tinha qualquer possibilidade de ser explicada nem entendida. Quem acabou por pagar esse meio milhão de euros a Cavaco e à sua família fomos todos nós, como se sabe.

Se a fama de honesto que Cavaco granjeou entre muitos dos seus apoiantes é totalmente incompreensível, o modo mesquinho, dúplice, ultra-sectário e vingativo como exerceu a sua presidência perdurará na memória colectiva. Que Cavaco não era pessoa “especialmente talhada” para o cargo de presidente é a menor das críticas que se lhe pode fazer, mas mesmo esse juízo é alegado por Ricardo Costa como atenuante. Coitadinho do homem, estava tão sozinho em Belém…

Ora bolas, Ricardo!

Liberdade de escolha

Segundo Fernanda Câncio , haver brinquedos rotulados de brinquedos de menina e brinquedos de menino é um espartilho que configura uma discriminação de género. Em nome da liberdade de escolha, diz a jornalista, deve dar-se às crianças a possibilidade de escolher o brinquedo da sua preferência, sem espartilho. A questão surgiu a propósito dos brinquedos que a McDonald’s oferece às crianças com os Happy Meals, umas refeições merdosas de que as crianças gostam porque trazem brinquedo. A empresa decidiu agora acabar em Portugal com a discriminação de género na oferta dos brinquedos, como já fazia na América. Fica tudo na mesma, inclusive os brinquedos de menina e de menino, só que sem o rótulo… Extraordinário avanço!

A secretária de Estado da Igualdade, Catarina Marcelino foi taxativa: “Não há brinquedos de menino e de menina. A prática de dividir brinquedos por sexo é uma atitude discriminatória que reforça os estereótipos de género.” Não sei se já dá prisão.

João Miguel Tavares perguntou à Fernanda Câncio, com alguma razão, se não há perfumes de homem e de mulher, roupa de homem e de mulher? E perguntou mais: “Estará Catarina Marcelino disposta a avançar com legislação para acabar com as secções feminina e masculina do El Corte Inglés? E casas de banho separadas? Não serão também elas uma forma perniciosa de reforçar os estereótipos de género?” Claro que ninguém tinha falado em produzir legislação, mas não faltará muito.

Fernanda Câncio não gostou nada dos exemplos do Tavares, mas infelizmente não explicou porquê. Eu não me importava nada de conhecer essas razões. Em nome da liberdade de escolha, talvez houvesse senhoras que gostassem de usar os quartos de banho dos homens, pelo menos quando os delas têm fila à porta. E talvez houvesse senhores que preferissem usar os quartos de banho das mulheres, quando os deles estão ocupados. Ou, até, quando os das senhoras estiverem mais asseados. Bora acabar com essa discriminação jurássica?

A propósito, o ancestral urinol masculino é uma coisa sexista. Devia ser proibido e colocado num museu, como o de Marcel Duchamp. E os meninos que mijem sentados, que é para saberem o que a vida custa.

Amor livre católico

Quem vai ser a primeira-dama? Como aparentemente estamos numa sociedade tolerante e sem tabus, ninguém se ocupou dessa questão durante a campanha presidencial. Num país primitivo como os EUA não seria possível omiti-la. Curiosamente, as revistas de fofocas portuguesas estão agora, depois da eleição de Marcelo, a explorar o tema. Já se afirma, mesmo, que não vai haver primeira dama.

Segundo a biografia disponível de Marcelo, ele é casado pela Igreja, mas está separado desde 1980. Nunca quis pedir o divórcio civil porque, segundo ele, isso iria contra as suas convicções religiosas. Também nunca quis pedir a anulação canónica do casamento, “pelas mesmas razões” – ou seja, não se sabe porquê, porque as “mesmas razões” obviamente não se aplicam a algo que é permitido pela Igreja.

As alegadas convicções religiosas nunca impediram Marcelo de, continuando casado pela Igreja, namorar outra mulher, com a qual diz “sair” e passar férias há 35 anos. Com essa namorada, que diz ser a sua “sensação espiritual”, partilha a convicção católica de que o casamento dura até à morte. Não se trata de uma união de facto, porque Marcelo nunca quis viver com a sua “namorada” e ela aceitou esse papel. A situação difere substancialmente da do primeiro-ministro Sá Carneiro, que, perante um divórcio litigioso que se anunciava demorado, assumiu plenamente a sua relação com Snu Abecassis. Sá Carneiro, antigo militante da Acção Católica, não era menos religioso do que Marcelo, mas queria divorciar-se. Não concordava com a Igreja e assumiu coerentemente essa discordância. Marcelo, pelo contrário, diz concordar com a Igreja, mas não assume coerentemente essa concordância.

À luz da doutrina da Santa Madre Igreja, Marcelo vive em pecado, tal como Sá Carneiro viveu os últimos anos da sua vida. À luz das leis que nos regem, Marcelo pode namorar quem lhe apetecer sem ser acusado de bigamia. Porém, se em actos oficiais exibisse uma namorada como sua consorte, talvez perturbasse o protocolo. Exporia, sobretudo, a hipocrisia das suas “convicções religiosas”. De facto, estas permitem-lhe, por um lado, estar casado pela Igreja, passar a imagem de um católico muito cumpridor que não se divorcia e, por outro lado, namorar há décadas outra mulher e ainda fazê-lo sem ter que a aturar todos os dias (e ela a ele). Isto talvez seja o sonho perfeito de muita gente, mas sempre foi considerado amor livre. A novidade que Marcelo pretende patentear é o amor livre católico.

Outra vez o piropo

Fernanda Câncio anuncia com sensacionalismo no Diário de Notícias que “Piropos já são crime e dão pena de prisão até três anos”. Segundo a jornalista, teria passado despercebida uma lei publicada discretamente em Agosto passado e que, supostamente, criminaliza o piropo.

Fui consultar a alteração em causa do Código Penal, efectuada no verão passado por iniciativa da deputada social-democrata Carla Rodrigues. Ao contrário do que Fernanda Câncio diz, essa alteração da lei não criminaliza o piropo (o que seria absurdo), mas sim a formulação de propostas de teor sexual ‒ propostas indesejadas, como se subentende. O artigo do Código Penal em causa (170.º) intitula-se “Importunação sexual” e criminalizava já anteriormente os actos de exibicionismo sexual e os contactos de natureza sexual  indesejados, vulgo apalpões, roçadelas e afins. Após a alteração, ficou assim o artigo 170.º do Código Penal, destacando a frase que foi acrescentada:

Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela actos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.

Como se pode constatar, o Código Penal alterado não fala de piropos nem de galanteios, mas sim de propostas de teor sexual indesejadas e importunadoras, colocadas ao mesmo nível dos actos de exibicionismo sexual e dos contactos físicos não consentidos de natureza sexual.

Veja-se a definição de piropo no dicionário da Porto Editora:

Piropo (do castelhano piropo) ‒ palavra ou frase lisonjeira que se dirige a uma pessoa revelando que se acha essa pessoa fisicamente atraente; galanteio.

A palavra é de origem espanhola, mas este dicionário dá uma definição mais adaptada aos tempos actuais do que o dicionário da Real Academia Espanhola, o qual, na sua edição de 2014, define o piropo como um galanteio dirigido especialmente à beleza de uma mulher:

Piropo ‒ dicho breve con que se pondera alguna cualidad de alguien, especialmente la belleza de una mujer.

Concluindo: de acordo com as definições vigentes, é absurdo fazer passar o piropo, qualquer piropo, por um acto de importunação ou assédio sexual. Tentar pôr sinal de igual entre um dito lisonjeiro (ou galanteio) e uma javardice de importunação sexual é algo que não se compreende, a não ser como sintoma de perturbação neurótica. É, de resto, colocar-se ao nível do importunador incapaz de entender a distância que vai de um galanteio a uma agressão verbal de cariz sexual.

Para embelezar a sua estante

O jornal Público e a Cinemateca estão a vender os noticiários filmados da propaganda salazarista a 4,95 euros por DVD. O Jornal Português (1938-1951) era uma pastilha mensal de 10 minutos de “actualidades” que tinha de se gramar nas salas de cinema antes da projecção do filme em cartaz ‒ um bom motivo para se chegar atrasado. A Cinemateca, que é do Estado, preparou e embalou esse material “incontornável” da história de Portugal para o diário do costume o distribuir pagantibus em cinco volumes. Ficam muito bem na estante e podem ser passados para a família na noite de Natal. É o presépio do Estado Novo, com Salazar, Carmona e Cerejeira nos principais papéis.

Em Espanha, o No-Do (1943-1976), que foi o equivalente noticiário filmado sob o regime franquista, está gratuita e integralmente acessível online para todo o mundo, graças à RTVE, a rádio e televisão pública espanhola. Apesar de ser uma “sociedade mercantil”, a RTVE oferece gratuitamente o seu material de arquivo. Outra visão, outra mentalidade…