Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 493

Dissertação para Marta sobre uma foto de 1966

A Avenida João XXI em 1966 era só meia rua, terminava nuns taipais que davam para uma velha quinta abandonada. Quem reparasse bem, via os quintais e as traseiras dos prédios do Campo Pequeno. Foi preciso deitar abaixo dois desses edifícios para a Avenida ser rasgada do lado da Praça e para ficar ligada ao Areeiro, lá onde durante o Verão se ouviam os ecos dos aplausos das corridas de touros de quinta-feira à noite. Essas pessoas que viviam nesses prédios foram cuspidas para onde? Talvez Olivais, Amadora, Porto Salvo, Cacém ou Queluz. Não sabemos, nem saberemos nunca para onde foram desterrados os seus mais elaborados sonhos de futuro.

Hoje, quando o Sol rasga o silêncio da tua casa, entre a varanda do lado da Avenida João XXI, debruçada sobre a febre do trânsito citadino e a marquise do lado das traseiras, debruçada sobre o sossego dos quintais, ninguém imagina tudo o que aconteceu na Avenida João XXI nestes últimos 44 anos.

A foto regista o que restou das casas demolidas, os carris da linha do Bairro do Arco do Cego, um cilindro vagaroso sobre o saibro, um monte de pedras, um automóvel estacionado, uma camioneta com ferramentas, outro cilindro mais afastado e, bem no meio de tudo, um homem que parece dar vozes de trabalho aos da camioneta. A lentidão visível de tudo isto contrasta com a actual velocidade.

Hoje quem cruza este espaço parece que procura apenas o usufruto da velocidade. Não sabe nem talvez possa vir a saber que em 1966 a Avenida João XXI era só meia rua e terminava nuns taipais que davam para uma velha quinta.

Vinte Linhas 492

Fernando Grade – A minha Amália chama-se Hermínia Silva

Acaba de ser publicado o nº XLVII dos cadernos de Poesia Viola Delta com «poemas sobre as Mãos e outros textos» de 15 autores além de um poema de David Mestre (1948-1998) na contracapa: «Todas vós / e tu Noémia e tu / Branca Rosa do meu coração / por todas / vós / o gengibre, a cola / o fel. Por ti / pkena Suzette do (bairro) Marçal / as bicicletas dormindo, dormindo / sorrias, sorrias / Onde / a manhã / (pedalando, pedalando / a navalha da tua boca) / braba / rompia /encostada / à lata».

O livro abre com o texto de Fernando Grade intitulado «A minha Amália chama-se Hermínia Silva» que responde a Joaquim Ferreira de Bragança, ex-delegado da Editora na dita cidade. Vejamos um excerto: «A verdade é que os restos mortais da cantadeira alcantarense nunca deveriam ter sido levados para o Panteão Nacional. Criou-se assim um precedente levado da breca. Amanhã, quando for embora o futebolista Eusébio da Silva Ferreira, o Eusébio deve ser sepultado no Panteão Nacional. E antes disso, seria o interior leonino José Travassos que foi o primeiro futebolista lusíada a ter dragonas de grande estrela, foi o primeiro nacional seleccionado para uma selecção europeia, através da qual ganhou o apodo de «Zé da Europa». De outro modo não aceito que levem um dia para o Panteão Nacional a Rosa Mota, mais justo seria que levassem a atleta Fernanda Ribeiro, porque é mais medalhada internacionalmente que a Rosinha. Esta, depois de ter deixado as corridas a sério, corre furibunda por uma popularidade barata, não quer ser esquecida nem por mais uma, o que é deveras ridículo. A Hermínia Silva não tina menos carisma; a Amália era muito mais penteadinha.»

Vinte Linhas 491

Irina Marcelo Curto – cruzes e ícones na Rua do Século

No Convento dos Cardais (Rua do Século, 123) está patente até 30 de Junho das 14h30 às 17h30 (excepto aos domingos) uma exposição de 20 trabalhos de Irina Marcelo Curto. O seu interesse pelos ícones desenvolveu-se em 2004 na cidade de Moscovo quando, por sugestão do representante do Patriarca de Antioquia, teve lições com a pintora e restauradora de ícones M. F. Kirillova. Já antes, enquanto viveu no México, se tinha interessado pelos trabalhos em gravura de metal. As suas peças de prata e estanho são criadas com instrumentos originais. Ela desenha os seus próprios modelos, converte-os para metal e assina gravuras de excepcional qualidade.

Nas suas pinturas respeita a tecnologia autêntica e antiga; utiliza materiais de bases orgânica e mineral – lápis-lazúli, cinábrio e siena que envolve numa emulsão de ovo e numa solução de álcool. As auréolas e as molduras dos seus ícones são decoradas com luzalite, cornalina, ametistas, granadas, turmalinas e outras pedras preciosas.

Preciosa seria a palavra escolhida se fosse obrigatório escolher uma única palavra para definir esta exposição. A Divindade do Belo é um título feliz para este conjunto. A reprodução que acompanha este texto (convite aos leitores) é uma imagem de preciosa atenção. Pelo que se percebe do trabalho de minúcia do desenho da Mãe e do Filho que segura o globo do Mundo. O Rei dos Reis é ainda uma criança mas já dispõe dos fios que vão fazer girar o Mundo entre milagres e sermões, entre pães e peixes multiplicados e quarenta dias no deserto a meditar. Mas já é o Menino de Sua Mãe que antecipa trinta anos neste abraço o doloroso segurar do corpo descido da Cruz.

Gazeta 125

ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco

LCXXV – «Sabra e Shatila – Um acto de suprema cobardia»

No tempo da Estrada de Macadame a minha relação com a guerra era muito distante. Lembro-me de uma tarde ter fugido para o sótão depois de ter assistido à passagem de largas dezenas de jipes do Exército Português em manobras. A guerra para mim era e foi sempre longe. Houve soldados de Santa Catarina em Cabo Verde, nos Açores, na Índia. O meu primo Luís Freire esteve na Índia e foi feito prisioneiro na invasão de Goa. No tempo da guerra colonial eu próprio estive muito perto de ser mobilizado mas acabei por ser escolhido para uma especialidade (Contabilidade e Pagadoria) que me levou para o Lumiar, Évora e Pontinha onde participei no «25 de Abril». A recente invasão do Líbano por parte do exército de Israel veio trazer à memória dos mais atentos o cenário de uma outra invasão em 1982. Nessa altura o jornalista brasileiro Cláudio Abramo escreveu um notável libelo no jornal «Folha de São Paulo» em 20 de Setembro, faz agora 26 anos. Vejamos: «No sábado, por volta de mil civis palestinianos prisioneiros nos campos de refugiados de Sabra e Shatila foram massacrados por autores desconhecidos. As suspeitas voltam-se para o major Haddad, quisling libanês dos israelitas, que tem uma milícia própria e que combateu ao lado do glorioso exército de Israel na sua brutal invasão do Líbano e que, nesta operação, liquidou vários palestinianos, fez interrogatórios e outros serviços sujos. Esse major Haddad é municiado e mantido por Israel e o mundo sabe que ele recebeu, como presente pessoal de Menachem Beguin, o forte de Beaufort, tomado pelos tanques de Israel aos palestinianos, no início da ofensiva judaica contra o Líbano, um país sem defesa. A ligação entre esse major Haddad e Israel é, portanto, conhecida, reconhecida e sacramentada. Não há dúvida possível. Assim como Israel é satélite americano, o major Haddad é satélite, extensão, braço e arma de Israel. Não há como escapar disso. Se foram os seus milicianos que massacraram os civis palestinianos – entre os quais há crianças e mulheres – o culpado por esse crime hediondo e por esse acto de suprema cobardia (afinal não foram os palestinianos que incineraram os judeus nos fornos, foram os alemães de Hitler) é o primeiro-ministro de Israel, Menachem Beguin, que devota ao major Haddad um carinho todo particular. Beguin é, portanto, o culpado pelo massacre de palestinianos ocorrido no sábado. A acção de Israel foi tão desastrada e deu-se dentro de tão grande violência que o Conselho de Segurança da ONU, pela primeira vez por unanimidade (os EUA tiveram de votar com a maioria), condenou a operação e exigiu a imediata saída dos judeus.»

Um dos aspectos mais interessantes desta crónica tem a ver com a palavra «quisling» que o jornalista brasileiro aplica ao major Haddad. Lancei-me à descoberta e consultei o meu velho «New Collegiate Dictionary» da editora Merriam Webster. Lá aparece o nome Vidkun Quisling: nome de político norueguês que nasceu em 1887 e morreu em 1945. Foi colaborador dos nazis e chegou a primeiro-ministro entre 1942 e 1945. Foi julgado e assassinado em 1945, no fim da II Grande Guerra.

Cláudio Abramo terminava a sua crónica aplicando a Menachem Beguin a mesma frase sintética que um dia Carlos Lacerda tinha dito de um ex-presidente: «Ele é mais feio por dentro do que por fora». Eu termino a minha crónica lembrando que é positivo aprender pelo menos uma coisa nova em cada dia. Eu também não sabia qual era o sentido da palavra «quisling» nem sabia quem era a pessoa «Quisling» e fui à procura de uma explicação. Aqui fica para todos os nossos leitores que ainda gostam de pensar pela sua cabeça e não tomam ideias em «comprimidos» dos comentadores televisivos.

Um livro por semana 187

Miguel Torga – Poesia por Aurelino Costa e António Victorino d´Almeida

Trata-se, em termos exactos, de um disco-livro mas não deixa de ser um livro pois o conjunto integra uma antologia breve de Miguel Torga.

O ponto de partida é Trás-os-Montes, S. Leonardo de Galafura:

«À proa de um navio de penedos / a navegar num doce mar de mosto / capitão no seu posto / de comando / S. Leonardo vai sulcando / as ondas / da eternidade / sem pressa de chegar ao seu destino». Para trás ficou a memória de infância:

«Foi um sonho que eu tive: / era uma grande estrela de papel / um cordel / e um menino de bibe. / O menino tinha lançado a estrela / com ar de quem semeia uma ilusão / e a estrela ia subindo, azul e amarela / presa pelo cordel à sua mão. / Mas tão alto subiu / que deixou de ser estrela de papel / E o menino, ao vê-la assim sorriu / e cortou-lhe o cordel.» O caminho do poeta é ser camponês de palavras, pastor de sílabas:

«Tal como o camponês, que canta a semear / a terra / ou como tu, pastor, que cantas a bordar / a serra / de brancura / assim eu canto, sem me ouvir cantar / livre e à minha altura.» E cantar, cantar sempre, haja o que houver:

«Canta, poeta, canta! / Violenta o silêncio conformado / Cega com outra luz a luz do dia / Desassossega o mundo sossegado / Ensina a cada alma a sua rebeldia.»

(Editora: Numérica, Voz: Aurelino Costa, Piano: António Victorino d´Almeida, Desenho capa: Fernando Rocha, Fotos: Nelson Vieira da Silva, Design: Vítor Ferreira)

Vinte Linhas 490

Délio Gonçalves – Todas as filarmónicas perdidas

Quando Délio Gonçalves iniciou a segunda parte regendo a Orquestra de Sopros do Conservatório Nacional nas ruínas do Carmo com a peça «Majestic Solemnity» de Menno Bosgra, senti um arrepio. Mais uma vez percebi que viver é juntar filarmónicas perdidas. A minha primeira filarmónica foi a Catarinense, com o meu avô (trompete), os meus tios (contrabaixo e pratos) e o meu tio-velho Joaquim, a mais bela tarola do Mundo. Depois no Montijo, entre 1957 e 1960, vivi e perdi mais duas – a Imparcial e a Democrática. Perdi também a de Alcochete que ouvi na Senhora da Atalaia. Perdi depois a de Vila Franca de Xira que tocou em Novembro de 1969 no funeral de Alves Redol. Mais tarde perdi a Banda da Carris que ensaiava no cimo do Elevador da Glória e abre o meu livro «Transporte Sentimental». Por outro lado o concerto terminou com a peça «Festival Dance» de Charles Gounod e acontece que o meu neto Thomas passa todos os dias à porta da casa onde viveu Charles Gounod em Blackheath Park. Não é ingénua esta ligação entre o meu avô e a sua solene trompete que tantas vezes ouvi nas missas cantadas da igreja de Santa Catarina e o meu neto que poderá um dia ser um músico mas, mesmo que não venha a ser, passa todos os dias pelos mesmos caminhos do autor do «Fausto». Não me passou despercebido o olhar cúmplice de Carlos Mendes ontem perante o seu filho João que actuou nas ruínas do Carmo com o seu terceto sob o nome de Jazzafari. No fundo, bem no fundo, viver é coleccionar filarmónicas perdidas. Délio Gonçalves dirigiu tão bem a Orquestra que mais do que a música da pauta desenhou uma música na alma de todos nós, os que já perdemos várias filarmónicas.

Um livro por semana 186

«12 pm» de Renato Roque e Jorge Sousa Braga

Trata-se de um livro de fotografias e poemas cujo título contém algo de ambíguo: a expressão «am» vem do latim «ante meridiem» tal como «pm» surge das iniciais do latim «post meridiem» significando, em princípio, 12 pm meia-noite como 12 am será meio-dia. Mas há relógios onde a leitura é diferente, conforme os países e os respectivos construtores. As fotografias deste álbum nascem de uma viagem de Renato Roque de Trondheim para Andalsnes, passando por Trollstigen, Geiranger, Vestnes, Molde, Eide, Bruhagen, Kristiansund, Leira, Edoya, Smola e Veidholmen.

As fotografias são «comentadas» por poemas breves de Jorge Silva Braga («Noite de breu: / onde acaba o mar / e começa o céu?») e o conjunto é apresentado por Jorge Silva Melo: «Invejo o fotógrafo que, com a sua câmara, lá vai sozinho pelo silêncio da paisagem no mais norte da Europa do Norte, Noruega, onde não há pegadas àquelas horas mais que mortas, horas tranquilas de maré baixa. Metem-me medo estas paisagens frias.» Folheando as fotografias do álbum uma a uma, percebe-se que a paisagem só será fria quando estiver despovoada mas há gente, homens e mulheres, nos navios e nas casas, embora a imagem não os registe. Mas estão presentes. Trata-se de um livro caloroso numa paisagem gelada.

(Edições Gémeo R, Coordenação e Design: Rui Mendonça, Tradução: Graça Braga, Regina Siza, Vegard Markhu, Ian Waite, Franzisca Aaarflot, Pedro Fernandes)

Vinte Linhas 489

Alberto Bemfeita na Casa do Registo às Amoreiras

Tem como título «Ponto de situação 2010» a Exposição de Pintura de Alberto Bemfeita que está patente até ao próximo dia 10 de Junho na Casa do Registo da Mãe da Água das Amoreiras – ali no início da Rua das Amoreiras do lado direito de quem sobe.

No texto de apresentação Nuno Nazareth Fernandes define o autor como «um poeta que faz versos com cores, uma tela e um pincel» depois de sublinhar o «extraordinário sentido crítico, sagaz, incisivo, Queirosiano por vezes» deste pintor.

O mesmo é dizer que estão em revisitação todos os mitos da nossa História. Alberto Bemfeita desenha uma bandeira nacional com verde e vermelho (o clássico) mas com uma esfera armilar (insólita) que junta um músico da loiça de Barcelos e a cabeça de Dom Sebastião. O quadro pode ser lido como a nossa desmedida ambição nacional de quem vai à procura de impérios distantes (Alcácer Quibir) enquanto esquece o povo que lhe está à porta do palácio real e não tem trigo (nem milho) para o pão de cada dia.

O quadro do jogo pode ser lido também como uma referência ao poder: Portugal nasceu da cisão entre a mãe Teresa e o filho Afonso cuja astúcia pode ser comparada à dos gatos e daí os bigodes que ostenta, olhando os dados na mesa do jogo.

As interpretações são livres e daí a sugestão de que os leitores passem na rua das Amoreiras perto do Rato para poderem ver esta e outras peças da primeira exposição de Alberto Bemfeita. Talvez não por acaso o espaço chama-se Casa do Registo. O pintor também registou o seu olhar sobre o tempo que nos é dado viver. Que os visitantes façam por sua vez o seu registo individual de cada obra nas paredes de pedra e água.

Vinte Linhas 488


Carolle Perret e Maria Rita na Rua da Misericórdia nº 30

A Allarts Gallery festeja o seu 1º aniversário até ao próximo dia 12-6-2010 com uma dupla exposição – pintura e escultura.

Carolle Perret nasceu em Berna (Suíça) e diplomou-se em artes aplicadas no ano de 1972 na Áustria. Fez trabalhos publicitários em Paris e Lausanne mas depois de 1991 dedicou-se em exclusivo à pintura. Utiliza uma antiga (medieval) técnica de «têmpera» sobre madeira, técnica anterior à descoberta do óleo. As suas personagens são freiras (ou monjas) sempre disponíveis para uma brincadeira extravagante; uma dessas aventuras pode ser, por exemplo, a tentativa de apear o cavaleiro português da Praça da Figueira em Lisboa.

A sua pintura instala o desassossego no Mundo e suscita o sorriso de quem a descobre – até os relógios ficam sem horas…

Maria Rita nasceu em Minde (1975) e desde os 11 anos que se aproximou do barro. Concluiu os cursos de Cerâmica e de História de Arte em 1998 tendo começado a estudar no ARCO em 1995. Expõe regularmente desde 2003 e utiliza de preferência como material o barro branco embora também trabalhe com porcelana, papel e cartão. As suas «Lolitas» são um encanto pois mais ninguém as faz assim – na doçura do olhar e na grandeza dos pés. Tudo o que é insólito nestas bonecas de barro branco concita ternura em quem as descobre. Guiados pela simpatia de Marta Costa, os visitantes podem festejar o 1º aniversário desta Galeria saindo mais ricos do que entraram. Graças às inesperadas peças de duas artistas.

Dona Viola Minha Dama

Viola da Terra, menina

Nas mãos de Hélio Beirão

Cria uma voz divina

Na humana condição

Viola de cinco parcelas

Nas mãos de José Elmiro

Traz a luz das estrelas

Até ao ar que eu respiro

Volta o som das trindades

Júlia, David, José Beirão

Um ciclone de saudades

Sai de dentro do violão

Viola regional Terceirense

Por ela a Terra tem voz

Assim a morte se vence

Nas festas de todos nós

A morte não mata Lira

A Lira fugiu na canção

A sua vida ainda respira

Nas mãos de Hélio Beirão

Entre Angra e Monte Brasil

O cicerone é uma viola

Sai uma música gentil

Que não precisa de escola

Olhos pretos numa esquina

O Sol perguntou à Lua

Por onde foi a menina

Que vinha por esta rua

Está na viola da Terra

Escondida na madeira

O amor em pé de guerra

Perdura uma vida inteira

Sapateia e chamarrita

Chegou no sabor a beijo

Casa dos Açores, visita

Debruçada sobre o Tejo

Um livro por semana 185

«A Carvão» de Fernando de Castro Branco

Fernando de Castro Branco (n. 1959) reúne nestas 313 páginas os seus cinco volumes anteriores e os recentes «Arte do espaço», «Marcas de verões partidos» e A carvão». Poesia que se organiza numa voz pessoal e muito própria, ramifica-se logo em duas direcções: Natureza e Cultura. A Natureza está em poemas como «Folha de gelo»: «As noites continuam a arrefecer no Planalto. Antigas / lendas descem pelas telhas e é necessário guardar o lume / inteiro para escrever esta folha de gelo». A Cultura surge nas referências ao Cinema, à Pintura, à Ficção ou à Poesia, tanto estrangeira (Neruda, Maria Zambrano, Ezra Pound, Rimbaud – entre outros) como nacional – por exemplo Ruy Belo, Duarte Faria, A.M. Pires Cabral, José Agostinho Baptista ou Sophia: «Em Creta haverias de falar da dura luz, da redundância / da sabedoria e de Sophia. Também da pureza das águas, / da transparência dos instantes, dos mil anos / das oliveiras e dos barcos. Ou a canção / do silêncio sobre os sepulcros / em forma de palácios».

Outras leituras são possíveis. O poeta parte do individual («Continuo alegremente a festejar dias de aniversário, há gente morta por todo o lado») para chegar ao colectivo: «Há tantos amigos tombados no fundo da memória / e assim os deixamos entregues a cicatrizes incuráveis / às laboriosas aves de rapina do remorso. Minha culpa / minha máxima e intransferível culpa».

(Editora: Cosmorama, Capa: Antoine Pimentel, Grafismo: Jorge Melícias)

Balada do licor da quarta classe

Mal chegado de Lisboa

Bebi sem que esperasse

Num balcão de Foz Côa

O licor da quarta classe

Com amêndoas e figos

Entre pipas de vinho fino

Desenha mapa de amigos

Num coração de menino

Que todos vão guardar

Dentro da adulta idade

Os rios foram para o mar ´

Essa é a única verdade

Quarta classe data sabida

Na vida feita caminho

Há uma frase sentida

Já és um homenzinho

Nesse licor de Foz Côa

Que nunca tinha bebido

Há a marca duma pessoa

E um espaço percorrido

Disse adeus a Trancoso

Deixei na Meda verdades

Num comboio vagaroso

Desenho duas saudades

A Menina de Vilarouco

Princesa nesta paisagem

O sorriso nunca é pouco

No calor duma viagem

O licor da quarta classe

Memória, fim da infância

Entra sem que o sonhasse

No mistério e na distância

Vinte Linhas 487

Mêda, Trancoso e Foz Côa – As gaforinas de Susana e os selos da Lituânia

O barco vai de saída do cais do Pocinho até à foz do rio Côa. Ouve-se a música de Fausto a empurrar a bandeira verde do município de Foz Côa. Afinal Vila Franca das Naves e Escalhão ficam a poucos quilómetros por este rio acima. No usufruto da velocidade, as gaforinas de Susana dançam com o vento que liga o pó da pedra dos socalcos à humidade da massa líquida do rio. Na cadeira ao lado, Amadeu Baptista procura que não se percam na espuma breve os selos da Lituânia, os mais difíceis de juntar. Vinho fino, amêndoas e figos secos dão forma alegre à mesa das palavras. João d´Ávila trouxe Mário Cesariny, Almada Negreiros, Fernando Pessoa e há-de convocar Pedro Homem de Melo à noite no Clube Trancosense. Fernando Castro Branco, Jorge Velhote, Maria Estela Guedes, Nuno Dempster e Aurelino Costa trazem nas suas vozes e poemas a geografia e as memórias dos seus lugares de origem e de pertença: Porto, Bragança, Britiande, Ilha de São Miguel, Viseu, Lamego, Póvoa de Varzim, Trondheim. Amadeu Baptista guarda, cioso e atento, os selos da Lituânia para que o vento do Douro não os espalhe na água acabada de acordar pelo barco da poesia e das artes plásticas.

Jorge Maximino é o capitão desta nau de sonhos onde cabe sempre o inesperado: seja a música de Simão Mimoso, sejam as leituras de Carlos Pedro. Nos próximos dias 4 e 5 de Junho chegam aqui os filmes. Partem os poetas e aparecem os realizadores: Manuel Mozos, Jorge Murteira, Jorge Pelicano e Rosa Silva. No comboio entre Celorico da Beira e Santa Apolónia às memórias da fraternidade entre os livros e as pessoas juntam-se as imagens das gaforinas de Susana e dos selos da Lituânia de Amadeu Baptista.

Sobre um tema de Vitorino Nemésio

Viver nas ilhas pequenas

É comprar paz com desconto (Vitorino Nemésio)

*

Viver nas ilhas pequenas

É ter mais tempo nos dias

Entre manhãs tão serenas

E as noites longas e frias

O dia tem horas cheias

Passam os vários vapores

E na sombra das baleias

Há vozes de trancadores

O vinho das cepas velhas

Desce com a neve do Pico

Desde a porta até às telhas

É nesta adega que eu fico

No sossego das lagoas

Na distância das fajãs

Perdi a voz das pessoas

Na gramática das manhãs

Viver nas ilhas pequenas

É comprar paz com desconto

Ter numa factura apenas

A vida ponto por ponto

Um livro por semana 136

«Casas do Espírito Santo» de Carlos Lobão (coordenação)

Carlos Lobão é o grande entusiasta das edições do Clube de Filatelia O Ilhéu da Escola Secundária Manuel de Arriaga na Horta. Este livro sobre o Espírito Santo é resultado desse labor. São 120 páginas com muitas fotografias e um título feliz – «Casas do Espírito Santo». Na verdade as casas do Espírito Santo em Santa Maria e São Miguel chamam-se teatros, na Graciosa e na Terceira são impérios, em São Jorge, Pico e Faial são ermidas ou capela e nas Flores e Corvo são casas. Muitos impérios têm anexos (local onde se preparam as sopas além de espaço onde se guardam as varas, os lampiões, os estandartes, as bandeiras e os utensílios de cozinha) que ganham nomes diferentes de Ilha para Ilha: casa das sopas (São Jorge), talho (Flores), copa (Faial), despensa (Terceira) e copeira (Santa Maria e Flores). Página a página cada fotografia com as suas cores e as suas mensagens («Deus é Caridade, União e Caridade») ou as suas abreviaturas (DES – Divino Espírito Santo) vai comovendo o leitor. Todas são especiais e diferentes entre si (há umas que até são amovíveis) mas o Império dos Outeiros na Agualva apresenta uma pauta musical gigante nas suas paredes. Convite óbvio a que das paredes saltem as notas para serem cantadas na alegria convocada dum encontro feliz. Em Santa Maria o Império do Santo Espírito tem a particularidade de o azulejo referir «Triato de Nossa Senhora da Piedade construído em 2002 pela Junta de Freguesia do Santo Espírito». Esta aliteração prova a ingénua diferença entre língua e linguagem, entre cânone e prática. Para fechar com chave de ouro fica a quadra da contracapa do livro: «Império é casa serena / Onde se entra por bem / Em tamanho a mais pequena / E a maior que o mundo tem».

(Edição: Clube de Filatelia «O Ilhéu» Escola Secundária Manuel de Arriaga – Horta)

Sobre um tema de Emanuel Félix

(poema – autógrafo para Manuel Emílio Porto)

O motor duma traineira

Que fundeou na baía

Trabalhou a noite inteira

Mas só o poeta o ouvia

O motor duma traineira

Que fundeou na baía

Trabalha a noite inteira

Numa faina de alegria

E faz à sua maneira

Sumário dum novo dia

Como se uma feiticeira

Desenhasse a profecia

Duma vida verdadeira

Longe da monotonia

O motor duma traineira

Vem acordar o poema

Numa mesa de madeira

O poeta tem um dilema

Há a palavra pioneira

Que desenha no cinema

O fogo de uma lareira

Criando um novo sistema

O poeta escuta a traineira

Que dá a força ao poema

O motor duma traineira

Que fundeou na baía

Trabalhou a noite inteira

Mas só o poeta o ouvia

Vinte linhas 486

Príncipe Real – António Costa bem pode dizer «o jardim não foi destruído»

Foi inaugurado no passado dia 22-5-2010 o cemitério do Príncipe Real que outro nome não merece o jardim morto depois de uma falsa requalificação. Mais ainda do que o Vereador dos Espaços Verdes, o presidente António Costa bem se esforçou em repetir uma ladainha – «o jardim não foi destruído» – mas quanto mais repete a frase mais se torna óbvio que ela não altera a realidade: o jardim, criado por volta de 1870 cujo nome é uma homenagem a D. Pedro V, já não existe. O que existe no seu lugar é uma área devastada por uma febre de destruição (um arboricídio), por uma sanha de ódio às árvores em geral, por uma pressa em facturar exemplares novos a todo o custo mesmo contra o parecer da Autoridade Nacional de Florestas. Mas não só. Primeiro os da CML cortaram as árvores, depois apresentaram um cartaz com fotografias que não eram destas árvores nem podiam ser. Só algumas (poucas) estavam mesmo doentes mas foram todas abatidas as da cercadura do lado da Escola Politécnica e as do lado da Rua de O Século. Mas não contentes com o arboricídio criminoso ainda se propuseram mudar o pavimento substituindo o empedrado e o asfalto por um saibro que já provou não servir no antigo jardim de São Pedro de Alcântara, hoje simples miradouro. E parece que estão felizes com o facto de o saibro voar para dentro das chávenas dos cafés dos pobres que aqui são obrigados a viver além de sujar a nossa roupa e os vidros dos nossos automóveis. Bem pode António Costa repetir que «o jardim não foi destruído» que a realidade ali está para o desmentir – o jardim de 1870 morreu e é hoje apenas um cemitério de árvores mortas. E os da CML esqueceram-se da capela mortuária.

Vinte Linhas 485

Uma releitura de «A Capital» de Eça de Queiroz

Integrado nas actividades da Livraria Fabula Urbis (Rua Augusto Rosa 27 – Lisboa) estou envolvido num clube de leitores cuja primeira tarefa foi a leitura comentada de «A Capital» de Eça de Queiroz. Dois aspectos me tocaram em especial.

Primeiro as duas frases que Artur, o jovem candidato a jornalista e dramaturgo, vindo lá de Oliveira de Azeméis, preparou para (julgava ele) impressionar o Melchior no jornal «O Século». Eis as duas definições:

Lisboa é a estação central da inteligência.

A Província é a penitenciária do espírito».

Depois a maneira como Eça de Queiroz descreve a saudade que Artur começa a sentir no momento em que recebe onze mil réis do Rei Bamba, curiosa a alcunha do homem que lhe leva coisas ao «prego». Assim: «Então, quando sentiu o dinheiro na algibeira, Artur teve subitamente uma vaga saudade enternecida de Lisboa, da vida que deixava. A cidade, coberta dum bom sol, com os seus cartazes nas esquinas, as lojas dos livreiros abertas, as carruagens rolando, parecia-lhe ser o único lugar possível para uma existência inteligente: se não conseguira chamar a atenção da senhora de vestido de xadrez na véspera, poderia ser mais feliz outras vezes! Nunca o Melchior lhe parecera tão afectuoso; e achava, de repente, nas fisionomias que passavam um vago tom inesperado de simpatia.

Comovido disse: Ao menos, pela última vez, jantemos juntos, Melchior».

Recomendo a experiência aos nossos leitores, o livro aguenta-se bem e vale a pena.

Um livro por semana 184

«Um gesto em nome do Espírito Santo» de Carlos Lobão (coordenação)

Implantadas em Portugal pela Rainha Santa Isabel e trazidas para os Açores pelos primeiros povoadores continentais, as festas em honra do Divino Espírito Santo são celebradas nas nove ilhas do Arquipélago tendo sido exportadas pelos açorianos para os EUA e para outras terras de emigração.

No caso concreto deste livro de 96 páginas são as freguesias da ilha do Faial que surgem com as suas festas religiosas e profanas: Feteira, Castelo Branco, Capelo, Praia do Norte, Cedros, Salão, Ribeirinha, Pedro Miguel, Praia do Almoxarife, Conceição, Matriz, Angústias e Flamengos. O texto de apresentação é de Pedro Lima e as fotos são de: Glória Rodrigues, Pedro Silva, Cátia Cunha, Marta Duarte, Cátia Escobar, Célia Silva, Pedro Lima, Adolfo Fialho, Mário David, Pedro Sousa, Paulo Sousa, António Ramires, Carlos Lobão e Estela Teles.

Como adverte Pedro Lima «as festividades estão ameaçadas pela massificação cultural e pelo consumismo que marcam o nosso tempo. O carácter profano destas festas está cada vez mais a valorizar-se em relação ao religioso. Os impérios ficam esquecidos ou abandonados. Em vez do arraial prefere-se os media. O individualismo e a crescente indiferença religiosa acentuam-se».

(Edição: Clube Filatélico O Ilhéu – Escola Secundária Manuel de Arriaga, Autor: Carlos Lobão, Revisão: Ilídia Fialho, Apoio: Câmara Municipal da Horta)

Balada da velha rua

Velha rua de Lisboa

Que por acaso foi minha

Queria tornar-me pessoa

Tinha uma alma sozinha

Trabalho das nove às seis

Ao sábado toda a manhã

Ganhava trinta mil réis

O Inverno pedia mais lã

Bilhete de sete tostões

Uma zona em atrelado

Saía no largo Camões

Veiga Beirão atrasado

Avançava tão resoluto

Nas três cadeiras fatais

Sebentas do Instituto

As Chagas já são sinais

Cidade hostil para mim

Minha voz não se ouvia

Fosse assado, fosse assim

Nunca tinha uma alegria

A guerra era uma ameaça

Que sentia convocada

Nas fardas donas da praça

A morte foi medalhada

Nos cafés entre boatos

Com açúcar e amargura

Lia notícias e relatos

Visados pela censura

Já tantos anos passados

Olho de novo esta rua

Se viveu noutros lados

Tem uma que chama sua