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Se Passos ganhar com tanta incompetência às costas é um génio

A direita está eufórica. As eleições, que estavam praticamente perdidas, é como se já estivessem ganhas. Para Marcelo Rebelo de Sousa, “se Costa ganhar com o processo Sócrates às costas é um génio.” Mas, se calhar, o iluminado Professor está a esquecer-se de um pequeno pormenor: a incompetência crónica do Governo de Passos e Portas. Será que a detenção de Sócrates desencadeou alguma mutação genética que impedirá os membros do Governo de meterem água dia sim, dia sim, daqui até às eleições? Será que os ministros passaram de extremamente incompetentes, a merecerem ser remodelados, a brilhantes governantes? Será que, graças a Sócrates, os partidos da coligação vão finalmente acabar com a guerra constante com que se têm entretido?

E mais, o Professor está a esquecer-se que o PS está mais do que habituado a disputar eleições com processos, ou pseudo-processos, às costas e a ganhá-las mesmo assim.

Um País tão próspero com um Presidente tão miserável

O Presidente da República considera que é preciso combater o pessimismo e por isso abordou os resultados do Índice Global de Prosperidade, um estudo anual que avalia diversos indicadores de 142 países. Segundo o ranking deste ano, Portugal figura na 27ª posição do estudo do think tank inglês Legatum Institute.

“Face ao negativismo que se difunde na comunicação social todos os dias, existe algum conforto em saber que apenas 26 países no mundo são mais prósperos que Portugal em mais de 190 países que existem no mundo”, disse Cavaco Silva.

Cavaco, que como toda a gente sabe sempre foi um optimista, não entende o negativismo dos portugueses. Não entende o pessimismo dos que perderam o emprego, dos que viram os salários e pensões cortados, dos que tiveram de emigrar, enfim, das vítimas do brutal programa de austeridade que nos foi imposto. Não entende porque, apesar de tudo isso, somos um dos países mais prósperos do Mundo. Andamos, portanto, a queixar-nos de barriga cheia. E, de facto, andamos, se nos compararmos com a maioria dos tais 190 países, o que diz bem da miséria que vai por esse Mundo. Adiante.

Mas o que diriam os povos desses países se soubessem que, em Janeiro de 2012, ou seja, antes da devastação causada pelo programa de austeridade, o Presidente do 25º país mais próspero (era essa a posição que Portugal ocupava em 2011), andava a queixar-se publicamente da sua magra reforma, tão magra que nem dava para as despesas?

Se calhar, diriam o mesmo que eu, que se existisse um ranking para a falta de vergonha na cara, Cavaco seria o campeão.

Será que Mario Draghi está de partida?

Não há dia em que a direita não venha acenar com o papão do regresso ao passado, caso o PS vença as próximas Legislativas. Ontem, mais uma vez, Passos advertiu que “se outros vierem, Portugal regressará a alta velocidade a 2010”. Infelizmente, ninguém lhe pediu para explicar o que seria isso de voltar a 2010, ano em que ainda reinava a loucura nos mercados e em que até o batimento cardíaco dos portugueses fazia disparar as taxas de juro.

Passos já não se recorda e desconhece o que era governar naquelas condições. Para sua grande sorte, o ano em que chegou ao poder foi também o ano em que Mario Draghi chegou ao BCE e com ele uma nova política económica que, finalmente, travou as feras dos mercados. Mas não lhe fazia mal um pequeno exercício: imaginar que estamos em 2010 e pensar na velocidade a que teriam subido hoje às taxas de juro portuguesas a partir do momento em que foram conhecidas as previsões económicas da Comissão Europeia.

E é caso para perguntar: quando ameaça com o regresso a 2010, estará Passos a querer dizer que, caso Costa seja eleito, Mario Draghi abandona o BCE e que volta tudo a ser como antes?

Os professores gostam de ser tratados como gado

Há quem defenda que um dos maiores erros de Sócrates foi a forma como lidou com os professores, e é um facto que estes contribuíram, e muito, para criar uma imagem negativa do Governo anterior. O primeiro-ministro era arrogante, a ministra era sinistra e as escolas eram vítimas de asfixia, razões mais do que suficientes para que os professores estivessem permanentemente em luta e de luto. Mas à luz do que se tem passado nestes três últimos fatídicos anos, percebemos que Sócrates e a sua ministra da Educação nada poderiam ter feito para impedirem o ódio dos professores. Se não fosse a avaliação teria sido outro motivo qualquer a manter acesa a verdadeira guerra que abriram contra o anterior Governo. Os professores, sem tugirem nem mugirem, foram completamente manipulados e usados como arma por um sindicato e pelo seu líder que, como é mais do que óbvio, esteve, e continua a estar, muito mais empenhado em defender os interesses do seu partido do que os interesses da classe que diz defender. E o principal interesse do seu partido era, e é, combater o PS e derrubar os seus Governos. E os professores deixaram-se usar como arma para que Mário Nogueira levasse a cabo essa missão. Aparentemente, não estão arrependidos. Apesar do verdadeiro caos que está instalado nas escolas, não estranham a apatia de Mário Nogueira, não há queixas de arrogância por parte do actual Governo ou de os professores não estarem a ser tratados com a dignidade que merecem, nem ninguém está de luto pelo fim da escola pública. Pelo menos, não há razões para que se realizem as manifestações de 200 mil professores com que brindaram o Governo anterior. Estão suspensas. Guardadas para o ministro da Educação do próximo Governo socialista, seja ele quem for e faça ele o que fizer.

Das duas, uma

Passos Coelho sucedeu a Sócrates no Governo. Sócrates viu toda a sua vida profissional e pessoal ser esmiuçada ao mais ínfimo pormenor. A devassa, as insinuações e as suspeitas estenderam-se inclusive a amigos e familiares. Como é que, depois disto, alguém assume o cargo de primeiro-ministro e não tem sempre à mão todos os documentos relativos ao passado profissional,  preferindo, em vez disso, alegar esquecimento?

Ou é muito estúpido, ou está mesmo convencido de que essas coisas só acontecem a alguém que não seja do seu partido.

Seguro promete instabilidade política

Seguro, que jamais cometeria os erros que Sócrates cometeu, que teria, se fosse ele o primeiro-ministro na altura, impedido os efeitos da maior crise internacional das últimas décadas de atravessarem a fronteira, travando assim a vinda da Troika e a subida da direita ao poder, garantiu ontem que se demitiria se um hipotético Governo por si liderado se visse obrigado a subir impostos. Muito bonito, Seguro não quer o poder pelo poder e está muito preocupado com os sacrifícios que têm sido impostos ao povo. Mas não percebi como é que essa hipotética demissão salvaria o povo de uma subida de impostos e de ainda mais sacrifícios. Se Seguro tivesse mesmo de cumprir a promessa e demitir-se do cargo de primeiro-ministro, tal seria a prova de que a situação económica do País não se encontraria nada famosa. E Seguro garante-nos que num cenário desses seria melhor juntar à crise económica uma grave crise política. Já para não dizer que muito provavelmente voltaríamos a ter a direita no poder, com tudo aquilo a que nos têm habituado, incluindo subidas de impostos. Para quem passa a vida a apontar os erros dos outros, prometer uma coisa destas, enquanto candidato a candidato a primeiro-ministro, não está nada mal. Não está mal se a ideia for dar ainda mais munições à direita para atacar o PS, o que, diga-se, parece ser a grande e única especialidade de Seguro.

Brincar aos governantes e aos governadores

Em 2011, ainda mal tinha chegado ao poder, Passos Coelho garantiu que seria sempre ele a dar as más notícias. Na altura, houve quem tivesse visto nestas palavras uma indirecta ao seu antecessor. Parece que Sócrates deixava essa desagradável tarefa para outros. Imagine-se o que se diria se Marques Mendes fosse socialista e tivesse feito no tempo de Sócrates o que tem feito ao longo destes três anos de Governo PSD/CDS. Na verdade, tem sido ele a anunciar praticamente todas as medidas do Governo e tem podido fazê-lo tranquilamente. A comunicação social não só não critica este método do Governo como acha normal que seja um comentador no seu espaço televisivo a fazer os anúncios que caberiam ao primeiro-ministro ou a qualquer outro membro do Governo. E ontem ficámos a saber que Marques Mendes não presta este serviço exclusivamente ao Governo. Aparentemente, também passou a ser porta-voz do Banco de Portugal. Ontem, os jornais, ao mesmo tempo que noticiavam que o Governo estava em negociações com o Banco de Portugal e com Bruxelas com vista a arranjar uma solução para o imbróglio do BES, revelavam qual seria essa solução pois a mesma já tinha sido avançada por Marques Mendes. E Marques Mendes sabe sempre o que diz. Pensava eu que este é um daqueles assuntos que tem de ser tratado com pinças já que tudo o que é dito pode ter, e tem, consequências. Mas, afinal, não é assim. A negociação das acções do BES está suspensa até que haja informação relevante acerca do plano de recapitalização do banco e quem transmite essa informação é o Marques Mendes. Mais uma vez, tudo normal para toda a gente incluindo o Governador do BdP. Para a anedota ficar completa só falta ouvir, logo à noite, o Governador repetir o que já foi dito por este verdadeiro gigante do comentário televisivo.

Um povo em vias de extinção

Se existisse uma lista vermelha de povos ameaçados de extinção, os portugueses apareceriam no topo da lista, é isso mesmo que estes números revelam. E pode dizer-se que este Governo tem trabalhado arduamente para que esta situação tenda a agravar-se ainda mais. Mas se calhar não estou a ver bem, afinal, o empobrecimento de um dos povos mais pobres da Europa era mesmo o único caminho, a emigração de milhares de jovens era mesmo inevitável, o clima de incerteza que se instalou com a dose de austeridade, sem fim à vista, até é benéfico e a prova de que tudo isto é verdade é que o ajustamento é um sucesso. É um sucesso se a ideia for extinguir-nos.

Como é que o Governo e os cérebros da Troika garantem um futuro em que tudo será sustentável ao mesmo tempo que ignoram o gravíssimo problema demográfico que o País enfrenta? Como é que se pode falar de crescimento económico sustentável sem ter em conta este factor? É que nem uma medida para contrariar esta tendência. E não me estou a lembrar de algo tipo cheque-bebé, deus nos livre, essa foi uma das medidas mais estapafúrdias anunciadas pelo anterior Governo. Nem de inverter o processo de empobrecimento, isso está completamente fora de questão nos próximos anos ou décadas. Estava a pensar em medidas sérias e eficazes, daquelas que não correm o risco de ser ridicularizadas e que garantidamente estimulariam o aumento do número de nascimentos. Por exemplo, sortear um Audi por mês, ou por semana, entre todos os recém-nascidos. Seria um sucesso, mais um.

Que mal fizeram os lisboetas a Seguro?

Esta não é a primeira vez que António Costa se chega à frente para disputar a liderança do partido. A primeira foi há pouco mais de um ano e culminou no chamado “Documento de Coimbra”, que, de certa forma, selou o acordo a que Costa e Seguro chegaram.

Ora, por que razão Seguro, ou algum dos seus apoiantes, não disse nessa altura o que pensava da atitude de Costa? Afinal, Costa não tinha ainda o argumento dos maus resultados eleitorais obtidos pelo PS, apenas discordava da forma como Seguro conduzia a oposição ao Governo. Por que razão Seguro não denunciou logo ali a natureza de Costa e por que motivo não se ouviu falar de “ambição pessoal”, de “interesses obscuros” e do “regresso ao detestável passado socrático”?

Pelo contrário,  Seguro mandou a ética e a sua nova maneira de fazer política às urtigas, trancou-se muito bem trancado na sua gaiola e apoiou a candidatura de Costa à Câmara de Lisboa. É caso para dizer que para Seguro o que é bom para Lisboa não serve para o País. E mais, pelo que se tem ouvido, a actual direcção socialista só se lembra do maléfico passado socrático, mas Costa é um político no activo. Sendo assim, por que carga de água Seguro e os seus apoiantes não fundamentam as suas acusações com exemplos do presente? Porque não reconhecem que erraram ao dar-lhe apoio nas autárquicas e denunciam o péssimo trabalho de Costa à frente da maior Câmara do País? Mistério.

O que será que os move?

Para muito boa gente de direita, o principal motivo da actual disputa interna no PS é o “cheiro a poder”. E alguns avançam que o “triste espectáculo” que o PS está a dar é razão mais do que suficiente para não votar neste partido. Não deixa de ter piada ouvir isto da boca de pessoas que pertencem a um partido que, desde 74, já se deu à trabalheira de organizar 35 congressos, o PS realizou 19, e que só nos últimos 20 anos conheceu 9 presidentes contra 4 secretários-gerais do PS, no mesmo período.

Se no PS cheira a poder, a que tem cheirado no PSD?

Conta de sumir

Factualmente, a notícia é esta: ontem, 15 minutos depois do arranque do debate quinzenal no Parlamento, o primeiro desde o desafio de António Costa a António José Seguro, a bancada socialista tinha 34 deputados presentes (em 74), ou seja, a maioria dos eleitos do maior partido da oposição estava em falta. Depois, a pouco e pouco, lá foram aparecendo, acabando por compor a bancada.

Em termos de análise parece legítimo ligar esta realidade a uma outra, conhecida dias antes: 45 deputados do PS pediram então à presidente do partido, e também deputada, Maria de Belém, que convocasse um congresso extraordinário eletivo, ao arrepio da vontade da direção de Seguro.

E os dois factos, somados, permitem uma opinião: a maioria da bancada socialista, oriunda das listas hierarquizadas nas últimas eleições a que concorreu José Sócrates (outro facto), está a colocar os interesses internos à frente dos interesses do País. Utiliza o tempo de trabalho, pago pelos impostos dos portugueses, para tomar posição na luta pelo poder que está a decorrer no interior do PS.

Assim, sim, somam-se dois factos e chega-se a uma opinião. Há mais uns quantos factos, mas o João Marcelino fez muito bem em ignorá-los, não vamos complicar uma soma tão simples.

Por exemplo, este debate quinzenal também foi o primeiro após a discussão da moção de censura que o PCP apresentou ao Governo. O João Marcelino já não está recordado, mas nesse debate o secretário-geral do PS, que tinha dado uma certa indicação de voto aos seus deputados, resolveu não comparecer no debate, e não se ausentou apenas 15 minutos, só apareceu para a votação final. Também é um facto que os tais deputados que exigiram a convocação de um congresso extraordinário estão longe de estar sozinhos nessa exigência. O jornal que o João Marcelino dirige está farto de dar notícia de outros militantes e ex-dirigentes do PS a exigirem exactamente o mesmo. Mas como não pode dizer que só o fazem porque estão todos a ser manipulados por Sócrates, fez bem em ignorar mais este facto. Claro que o que motivou a actual disputa pelo poder no PS, ou seja, o facto de Seguro ter obtido um mau resultado nas últimas eleições, também é melhor não se acrescentar à soma. E está fora de questão juntar o facto de as sondagens mostrarem que há uma parte significativa de eleitores que concorda com as exigências dos tais deputados.

Na realidade, o Marcelino nem precisava de facto nenhum para chegar à conclusão a que chegou. Podia simplesmente ter dito que os deputados socialistas, escolhidos por Sócrates, andam a esbanjar o dinheiro dos nossos impostos, porque sim. Para alguns dos seus leitores era o que bastava.

Até que ponto estão dispostos a pôr os estatutos à frente da política?

Parece que os apoiantes de Seguro, para além de estarem impedidos, por lei, de contestar o líder, também estão impedidos de o elogiar, de se baterem pelo seu projecto político para o País (o homem tem um, não tem?), de elogiar a sua inteligência política e a sua capacidade de liderança. Sobre isso, nada. Daquele lado da barricada, só se fala de estatutos, de pareceres jurídicos e da legalidade ou ilegalidade dos temas que podem ser levados a discussão nos órgãos do partido. Quem os ouve pensa que estão num julgamento e não em campanha, tal é o zelo na defesa das leis do partido.

Mas é sobre isso que tenho algumas dúvidas. Até que ponto estão dispostos os apoiantes de Seguro a pôr os estatutos do partido à frente das questões políticas? Por exemplo, se Seguro for o candidato do PS às próximas legislativas, perder as eleições e não se demitir, continuarão os seus apoiantes a agarrar-se aos estatutos? E se ganhar por pouco? E se, em qualquer dos casos, Seguro alegar que o melhor para o PS e para o País é formar Governo com o PSD de Passos, obrigando o PS a alinhar naquilo que tem sido a pior governação de sempre, será que estes zelosos militantes socialistas vão continuar a chapar-nos com os estatutos do partido na cara? Há algum limite ou, aconteça o que acontecer, em primeiro lugar estará sempre a defesa dos estatutos?

Já que estamos perante políticos tão responsáveis, tão transparentes, tão verdadeiros e essas coisas todas que só estão acessíveis aos puros, com certeza, não se importarão de nos esclarecer.

Isto parece a Liga dos Últimos

Temos o Presidente da República mais odiado e impopular de sempre, o pior Governo de que há memória e, como se não bastasse, também temos o líder da oposição mais imbecil que este País já viu.

Mas ainda não vimos nada, aposto que neste Verão, com o empenho de todos eles, se vão bater recordes de imbecilidade.

Seguro faz-se de vítima, mas nem isso faz bem

Seguro finalmente falou. Para mobilizar os socialistas e mostrar que é o líder de que o partido precisa? Não. Falou para se fazer de vítima. Veio acusar Costa de ter transformado a vitória socialista numa derrota. Mas pergunto eu, se de facto o PS tivesse tido uma grande vitória seria assim tão fácil a um único homem transformá-la numa derrota? Na opinião de Seguro, sim. Mas se calhar não é bem assim. Se o PS tivesse atingido a meta que Seguro traçou para estas eleições, levar os portugueses a mostrarem um cartão vermelho ao Governo, se tivesse esmagado a direita, como se exigia, nem Costa nem ninguém conseguiria transformar a vitória em derrota. Os resultados eleitorais falariam por si.

Na verdade, o António Costa até está a fazer um grande favor a Seguro. É que quem começou a festejar assim que os resultados foram conhecidos foi a direita. Passos e Portas ficaram radiantes e não o disfarçaram. E tinham motivo. Tirando Seguro que viu nos resultados uma grande vitória, em todas as televisões rádios e jornais se falava numa vitória escassa do PS. No dia seguinte, Pires de Lima afirmava convicto que “o Governo está em condições de vencer as próximas eleições legislativas”. Quem pôs um travão a esta euforia foi o António Costa com o seu anúncio. Se não tivesse acontecido, a direita estaria até hoje a rebolar a rir com a “grande vitória” do PS. Portanto, Seguro e os seus apoiantes em vez de se fazerem de vítimas e de fazerem acusações idiotas deviam meditar no que terá levado a direita a ficar eufórica, apesar de ter sofrido uma derrota histórica.

Quem terá sido o autor do “mito”?

Passos Coelho afirmou hoje que “não devemos esfolar um coelho antes de o caçar”. E estava a falar de si próprio. Mas a verdade é que este coelho caça-se e esfola-se sozinho. Vejamos, também hoje, afirmou que não passa de um “mito” a ideia de que seria possível fazer o ajustamento sem cortar nos salários e nas pensões. Lá está, para o caçar basta um clique e num ápice temos o coelho já esfolado à nossa frente:

“Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro”, afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento do fórum de discussão “Mais Sociedade”, no Centro de Congressos de Lisboa.

Ele chama-lhe mito e eu garanto que há quem lhe chame mentir descaradamente com quantos dentes tem na boca.

O soldado Pires deve ter comido alguma coisa que lhe caiu mal

Pires de Lima, o soldado disciplinado, mandou a disciplina às urtigas e de uma penada desmentiu a ministra das Finanças e o ministro da Saúde. A taxa sobre as guloseimas, que ambos tinham admitido poder vir a existir, é pura ficção. Pires de Lima não ouviu falar dela em nenhum Conselho de Ministros e, sendo assim, não passa de especulação que só prejudica a economia.

Se calhar, termos um Governo cujos ministros passam a vida a desmentirem-se uns aos outros, publicamente, com aquela espécie de primeiro-ministro a assistir, também não faz bem nenhum à economia. Mas isto sou eu a especular, não foi nada disso que se passou.

Não tarda nada aparece um outro membro do Governo, ou o próprio Pires de Lima, a esclarecer que tudo não passou de um mal-entendido, que os jornalistas perceberam mal e que a tal taxa está apenas a ser estudada por um grupo de especialistas, que ainda por cima não fazem a mínima ideia de quando terão o relatório concluído. E não se fala mais nisso.

Uma relação impecável

Cavaco, que há umas semanas falava nas décadas de austeridade que ainda temos pela frente, lembrou-se ontem que afinal é preciso abrir janelas de esperança. Parece um nadinha contraditório, mas não é. É verdade que os comentadores já não se atropelam para ver quem faz a melhor tradução do que Cavaco quer dizer nas entrelinhas, mas desta vez não é necessário o contributo desses especialistas, esta é muito fácil de traduzir. Quando o Governo falava em mais cortes, Cavaco falava da necessidade de austeridade por muitos e muitos anos, agora que o Governo está a ser acusado de anunciar medidas eleitoralistas, Cavaco diz que é preciso abrir janelas de esperança. Bate tudo certo. Portanto, se o primeiro-ministro fala do aumento do salário mínimo e o ministro da Economia diz que esse aumento só ocorrerá lá mais para o fim do ano ou princípio do próximo, ou seja daqui a um ano, não é eleitoralismo, nem é estar a gozar com a cara dos milhares que recebem essa miséria de salário, é abrir uma janela de esperança. Se Portas anuncia que o IRS deve começar a “inverter a trajectória de agravamento”, nesta legislatura, só mentes muito perversas podem ver aqui eleitoralismo, é óbvio que Portas está apenas a abrir uma mais uma janela. E, seguindo sempre este princípio, podem anunciar o que quiserem. Até podem anunciar que um dia, nas próximas décadas, hão-de ter uma ideia acerca do rumo que o País deve seguir.

Não se brinca com a honorabilidade de Seguro

Seguro, visivelmente transtornado, lamentou, no final do debate quinzenal de hoje, que Passos tenha optado por “uma estratégia lamentável”, ao tê-lo acusado de, no passado, ter defendido um segundo resgate, coisa que, garante, nunca defendeu. Realmente, não se faz. Mas, pergunto eu, Seguro só se apercebeu da tal estratégia lamentável, por parte do Governo e das bancadas da maioria, no debate de hoje? Pelo que me tenho apercebido, Passos usou a estratégia do costume, exactamente a mesma que tem utilizado em todos os debates no Parlamento. A única diferença é que, neste debate, o “baixou nível” não serviu só para atacar os governos socialistas, também serviu para atacar Seguro, que prontamente lembrou que “em política não vale tudo”. Pois não, mas quase.

Se for para atacar o passado do Partido Socialista, sobretudo os governos de Sócrates, vale tudo e mais alguma coisa. Passos e os deputados da maioria podem recorrer ao mais baixo nível e às estratégias lamentáveis que quiserem, que de Seguro, ao contrário do que aconteceu hoje, não ouvirão um lamento. Terão como resposta o que sempre tiveram: silêncio.

Já faltou mais para proporem o fim dos partidos

Não há dúvida de que estamos em maré de ideias inovadoras. Desta vez foi Durão Barroso que nos brindou com uma ideia “surpreendente”. Diz ele, em entrevista ao Expresso, que, a bem do consenso, para além de “os principais partidos estarem condenados a governar em conjunto”, o próximo Presidente devia ter o apoio de PS, PSD e CDS. Mas, se calhar, está um bocadinho baralhado. Parece-me que é exactamente o contrário, ou seja, o próximo Presidente, independentemente do seu partido, após a eleição, devia apoiar, igualmente, o PS, o PSD, o CDS e, já agora, os restantes partidos.

Se está tão preocupado com o futuro do País, o ainda Presidente da Comissão Europeia, devia ter dito, claramente, que o próximo Presidente da República deve evitar a todo o custo comportar-se como o Cavaco. Um Presidente que tudo fez para derrubar o anterior Governo e que, não satisfeito, ainda se colou descaradamente ao actual, só porque é da sua cor política. Talvez assim nos tivesse surpreendido, não pela ideia em si, mas pelo teor da entrevista.

Qual é, afinal, o papel do vice-primeiro-ministro?

Esta semana está a correr lindamente à maioria. Primeiro foi a trapalhada do líder da bancada parlamentar do PSD a dizer uma coisa e a ministra das Finanças a vir de imediato desmenti-lo. Não foi bonito, mas hoje a trapalhada atingiu outro patamar. Resumindo, o primeiro-ministro aproveitou a visita a Moçambique para avisar que quem manda é ele e não o Ministério das Finanças e que tudo o resto é especulação. Para quem está sempre tão preocupado com a imagem do País que passa para o exterior, não estiveram nada mal. E revela bem o consenso que existe entre os membros do Governo. O Cavaco até devia dar estes episódios como exemplo do consenso que não se cansa de pedir à oposição.

Curiosamente, quem veio pôr água na fervura foi o ministro Marques Guedes, e digo ‘curiosamente’ porque existe no Governo um vice-primeiro-ministro, que sendo vice talvez devesse substituir o primeiro-ministro, quando este está ausente, e usar a sua magnífica inteligência e experiência política para evitar estes tristes espectáculos. E mais ainda porque o que motivou tudo isto foi um assunto que lhe é tão caro, as pensões, ou melhor, os cortes nas ditas. É estranho, ou talvez não, que quem tudo fez e faz e fará para proteger os pensionistas assista a tudo isto tão caladinho.

Seja como for, arrisca-se a que um destes dias o primeiro-ministro, para voltar a mostrar quem manda (as pessoas esquecem-se com frequência), o despromova de Vice para Ministro dos Vistos Gold. Assentava-lhe bem e seria muito mais condizente com a actuação que tem tido nos últimos tempos.