Uma Esquerda limpinha de cima a baixo

A Esquerda é muito sensível, muito consciente e muito exemplar. Tão sensível, tão exemplar e tão consciente, que toma sobre si todo o peso do Mundo. Por isso a vemos por aí intimamente encurvada, vergastando-se, pedindo penitência. A Esquerda assusta-se à ideia de que haja havido algum grande crime que não denunciou, alguma grande injustiça de que não lavou expressamente as mãos. E assim se dispõe a pagar por todos: por quanto o filho faz, por quanto fez o pai. Onde a Direita é uma balzaquiana vendendo frivolidade, a Esquerda sofre cronicamente de má consciência. Só a santidade a satisfaz. Resultado: tão entusiasmada anda no caminho da perfeição que qualquer chantagem fundamentalista terá nela uma presa feliz. E aí anda ela, pronta a entregar-se a quantos integrismos, locais ou mundiais, lhe apareçam. Para qualquer azar, a menina anda sempre limpinha de cima a baixo.

13 comentários a “Uma Esquerda limpinha de cima a baixo”

  1. Ficamos sem saber a que esquerda te referes, Fernando – à doida, à cega, ou àquela que nos faz lembrar a estou-fraca africana? Pergunto isto animado por uma sede de pesquisa que não se esqueceu que aqui há meia dúzia de dias eleitorais ainda andavas a rezar avé-marias silenciosas com a mente no Alegrito bombástico.

    Escrevi isto e já estou arrependido. O post onde encavalitaste este ainda merece mais reparo. Afinal és uma boa pessoa politica. As minhas desculpas.

  2. Tiozinho,

    A Esquerda que viso é – hoje estou numa de nominalismo – aquela que a si mesma se chama «Esquerda». O que quer dizer muita gente. É a Esquerda sensível a opções colectivistas (tirar aos ricos para dar aos pobres), a que eu de facto pertenço. E se já não pertencesse por convicção, o próprio fisco a que declaro se encarregaria de me pôr a pertencer.

    Deixo a sugestão de que todo o tributável honesto é de Esquerda. Ou de que passamos à Direita sempre que trapaceamos. Estás a ver, tio, somos seres complexos. Mas ricos.

    Pelo resto, não hesites em mandar umas bocas. São boas bocas, as tuas.

  3. Bom comentário. Como dizia Mao Tsé Tung, hoje tão vilipendiado (desde que a maior parte dos ex-maoístas se assumiu como os fachos que sempre foram), o critério distintivo é e sempre será a luta de classes.

  4. É verdade tudo isso. Só que não é só para estar de bem com a sua consciência. A esquerda é filha de Cristo. O que a define é a compaixão. E estou a falar a sério. Um dia destes volto a isto.

  5. “A Esquerda assusta-se à ideia de que haja havido algum grande crime que não denunciou, alguma grande injustiça de que não lavou expressamente as mãos.”

    Em que ficamos amigo?
    A tal “sua esquerda” quer denunciar todos os crimes ou expressamente lavar as mãos?
    Não seria melhor começar a pensar antes de escrever?
    Digo eu…

  6. Samuel, ora aí está um grande conselho: pensar antes de escrever. Se calhar não pensei que chegasse (pelo menos para si), de modo que vou fazer novo esforço. Leia assim:

    «A Esquerda assusta-se à ideia de que haja havido algum grande crime que não denunciou, alguma grande injustiça que, sempre bem-comportada e serviçal, não tomou sobre os ombros.»

  7. Parafraseando o grande João Pedro George, não percebi nada.

    Que esquerda vês tu a pedir penitência, Fernando? Que esquerda vês tu a entregar-se a integrismos? Que esquerda vês tu de má consciência?

    Talvez precise de óculos, estes que tenho já estão velhos e têm as lentes riscadas, mas só vejo integrismos na direita. Vejo o integrismo da superioridade ocidental em cada palavra de mentacaptos como o Vasco Rato, vejo o integrismo religioso desde a América e o seu cortejo de IDiotas à vasta maré de fascismo islamita que varre os países muçulmanos. Na esquerda vejo equilíbrio e o assumir de todas as realidades, as que nos agradam e as que nem por isso.

    Será a isso que chamas má consciência? Eu a isso chamo chegar à idade adulta, abandonando idealizações parolas e encarando as coisas como elas são. É que só é possível ultrapassar os crimes cometidos em nome da esquerda não os escondendo. E só é possível ser realmente de esquerda, hoje e no futuro, se deixarmos de lado e defenitivamente as simplificações maniqueístas. Que a chantagem fundamentalista exista e seja abjecta, tal como tudo aquilo que emana da extrema direita é abjecto (e há alguma dúvida de que da Al Qaeda ao Hamas, passando pela teocracia iraniana e por muitos outros apeadeiros, o integrismo islâmico é de extrema direita?), não significa que devamos escamotear as causas próximas e longínquas que a geraram e potenciaram.

    Não vivemos num mundo a preto e branco. E não tem nada de má constiência reconhecer isso.

  8. Jorge,

    Numa coisa concordaremos (eu apenas vou carregar na nota): qualquer ditadura é de Direita. A do Pinochet, a do Fidel, a do líder da Coreia do Norte cujo nome não quer lembrar-me. Isto falando em vivos.

    A Esquerda é, pois, o espaço do desafogo, e do «equilíbrio» (termo teu) e do «assumir de todas as realidades» (idem idem).

    Mas há um problema: é difícil, é mesmo muito difícil ser de Esquerda. Ou porque o conforto da Direita atrai e obnubila, ou porque a gente quer ser tanto, tanto de Esquerda que se… desequilibra.

    Eu acho a Esquerda culpabilizada, que se carrega continuamente com os crimes do Planeta, um tanto – serei simpático – exagerada.

  9. Lá estás tu a ser maniqueísta. Não, pá, nem todas as ditaduras são de direita. A tirania iluminada, em que – para usar o chavão – se partem alguns ovos em prol da dignidade humana da maioria, é um conceito de esquerda. E se existisse seria de esquerda. O problema é que ao fim de algum tempo todas as tiranias iluminadas que existiram até hoje se esqueceram da dignidade humana e passaram a preocupar-se exclusivamente com a manutenção do poder. Aí, mudam-se de armas e bagagens para direita, por mais que a retórica permaneça esquerdista. Foi o que aconteceu em Cuba, por exemplo.

    E continuo sem encontrar essa esquerda carregada com os crimes do planeta de que falas. Não conheço nenhuma esquerda que se responsabilize pelo nazismo ou pela guerra do Iraque, só para dar dois exemplos mais bem conhecidos. COnheço, isso sim, uma direita histérica que procura atirar para a esquerda com essa responsabilidade e todas as outras. É para a direita histérica que a culpa de cada mosca que morre grelhada naquelas lâmpadas azuis que há nas churrasqueiras é da esquerda. É para a direita histérica que a direita nunca tem culpa de nada (ou quando tem, são os direitistas histéricos que não se assumem de direita por forma a que sejam sempre os outros a arcar com a responsabilidade). A esquerda assume as suas responsabilidades, dá aos outros as responsabilidades que lhes pertencem e segue em frente, aprendendo com os erros.

    Pelo menos a que não é autista, que a que o é também nunca tem culpa de nada.

  10. Não te vou bater palmas por aí alem, Fernando. Mas o retruque ao Jorge (George?) deu para as despesas e o tempo que perdeste, além de que gostei muito de rotulares de direita todas as ditaduras de esquerda. Pelo menos agradou aos colegas que aqui leram as tuas palavras ao portão da fábrica.
    Todavia, fico a sentir-me “defenitivamente” como o tio Tadeu: o Jorge também não me diz que esquerda misteriosa é essa que trabalha tão bem com a maromba colorida e não maniqueista. Nem tampouco me dá uma ideia aproximada (provando ao mesmo tempo que não tem acções num banco politico muito chegado ao sionismo”liberal”) de quantos andarão a ler os “pensamentos” do Mussolini nos paises muçulmanos. Lembrar aqui que um dos estratagemas do Mussolini quando andou às voltas pela África era levar muita banha de porco rançosa para conservar à distância algum muçulmano menos amistoso.
    Das outras considerações que ele faz com ares de doutor que tem o rei na barriguinha de “assumir todas as realidades”, pouco mais há a acrescentar. Vou dormir e espero que ele me acalme amanhã de manhã, desenrolando o seu novelo de esquerda pinkória.

    PS. Espera ai, enquanto estava a escrever, o homem saiu-se com uma resposta que incluiu, entre outros mimos, este: “A esquerda assume as suas responsabilidades, dá aos outros as responsabilidades que lhes pertencem e segue em frente, aprendendo com os erros”. É sionista, autoritário e não o esconde. Duvido que haja antídoto que nos defenda contra esta nova espécie.

  11. Andronicus, vai ver se estou lá fora. Já agora, aproveita e compra um cérebro e alguma educação, que não pareces ser dono nem de uma coisa nem da outra.

  12. Jorge,

    Segui o teu conselho. Fui lá fora e não te vi, retraido fantasma.

    Não sei a que tipo de “educação” te referes, mas se é àquela que posso provar com várias fotografias que tirei na queima das fitas com cara de parvo, vieste bater a porta errada. Também podes estar a pensar nessoutra educação que não custa nada a gente pobre, mas aí perdeste uma belíssima oportunidade para estares calado, já que não fui eu que usei e abusei de corriqueirices de senhor sabido como “autista”, “mentecapto”, “histérica”. Matéria deveras ofensiva.

    E tens razão, a minha dura-máter está a ameaçar ruptura sob pressão de vácuos acumulados. Preciso dum pneu novo. Malditos nervos. Ou malditas coisas muito retorquíveis que gente sã como tu escreve entre duas aspirinas.

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