Negri, Raposo e os talheres (2)

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Deineka

Caro Henrique Raposo,
Como apenas leu em diagonal o que escrevi, vou-lhe relembrar as três correcções que fiz ao seu artigo na revista do “Diário de Notícias”, que eram para ser de começo de conversa, mas vão mesmo para o fim dela, para não torturar incautos leitores. Não vou perder muito tempo com a sua modesta afirmação de que o marxismo morreu. A afirmação coexiste desde do tempo de Marx e se ainda hoje há quem a discuta é porque estamos perante um moribundo muito saudável. Mas vamos por partes:
1. Não há entre os marxistas uma chancela oficial de quem é ou não é marxista. Ao contrário do que você está convencido, existem muitas correntes no marxismo e até existem várias leituras de Marx. Melhor dizendo, Marx escreveu coisas diferentes e às vezes contraditórias durante a sua vida. Para agudizar esta questão, dá-se até o caso de que as obras de Marx foram sendo conhecidas durante um intervalo de tempo muito grande. Parafraseando Gramsci, que você conhece da autobiografia da Filomena Mónica, cada geração teve de descobrir o seu próprio Marx. Veja bem, se os livros II e III do Capital só ficaram disponíveis no fim do século XIX, já os Manuscritos económico-filosóficos só viram a luz do dia no final dos anos 30 do século XX e os importantes textos que Marx escreveu entre os anos 1858-1863, incluindo o Grundrisse – sobre o qual Negri vai escrever um dos seus livros mais importantes: “Marx oltre Marx” – só são conhecidos depois de 1945!
Você cita as críticas, a Negri, de Samir Amin e de Imannuel Wallerstein, ambos de uma corrente do marxismo que investiga o “sistema mundial capitalista”, mas tem que ter em conta que ao contrário da Santa Madre Igreja, não há um Papa que possa excomungar os crentes. O próprio Wallerstein está ciente da multiplicidade das leituras marxistas quando afirma que “mais do que o fim do marxismo, assistimos ao florescimento disperso e impotente de mil marxismos” (Bidet, Jaques; Eustache, Kovélakis: Dictionnaire Marx Contemporain , PUF, Paris, 2001, pag 59).

8 comentários a “Negri, Raposo e os talheres (2)”

  1. Eu, incauta leitora me confesso, que ainda fui dando uma vista de olhos deste lado, mas nem pensar em ir ao outro, fiquei-me pelo ‘incautos leitores’. Perdi alguma coisa? :)

  2. Lendo o texto do Samir Amin que o HR cita, até me parece que a visão do Negri é mais “marxiana” pura: a principal critica do Amin ao Negri é que este verá a globalização como um processo que acaba com as diferenças entre os diferentes paises, regiões, etc., enquanto Amin defende que o “desenvolvimento” é diferente no “centro” e na “periferia”.

    Ora, aí, a visão de Negri é que é a de Marx (o original, não dos seguidores), que via a expansão do capitalismo como um processo uniforme (e uniformizador): “Os países mais avançados mostram aos mais atrasados a imagem do seu próprio futuro” (ou qualquer coisa parecida).

  3. “Os países mais avançados mostram aos mais atrasados a imagem do seu próprio futuro”

    Daí aquela brilhante ideia/profecia de que a revolução socialista ocorreria em primeiro lugar nas sociedades capitalistas em grau mais avançado de desenvolvimento; a Alemanha e a Inglaterra.

    Desde então, nunca mais os marxistas jogaram no Euromilhões.

  4. Essas manias evolucionistas, enfermaram todo o pensamento do século XIX, inclusivé o de Marx. Uma das “conquistas” do século XX é termos percebido que o mundo pode não ter final feliz. Veja o seu amigo Bush, com a sua política inteligente sobre a guerra e o ambiente, nada nos garante estarmos cá daqui a uns anos…

  5. “Essas manias evolucionistas, enfermaram todo o pensamento do século XIX”

    Eu chamar-lhe-ias manias deterministas ou, talvez mais propriamente, historicistas. O evolucionismo e’ outra coisa e consta que o seu amigo Louca ate’ tem escrito sobre assuntos relacionados.

  6. “Veja o seu amigo Bush, com a sua política inteligente sobre a guerra e o ambiente, nada nos garante estarmos cá daqui a uns anos…”

    Nao, de facto nada nos garante coisa nenhuma. No departamento das garantias quanto ao futuro, so’ mesmo apelando a’ Divina Providencia.

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