Negri, Raposo e os talheres (1)

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Caro Henrique Raposo,

A sua resposta esmagou-me, não que você tivesse argumentado, mas como me atulhou de citações, ainda hoje estou a sacudir frases de cima. Por gosto e para que “afine a pontaria”, como com tanta graça escreve, vou-lhe responder:
– Homem, pode estar de arma na mão, mas está virado ao contrário!
De qualquer forma não dei o tempo por mal empregue, ao reler os dois artigos que Slavoj Zizek escreve sobre Negri , que você cita mal (já lá vamos), deparei com uma passagem que lhe endereço; Thomas De Quincey no seu “Assassínio considerado como uma das belas artes”, dá o seguinte conselho: quantas pessoas começaram por uma simples morte, que no momento, pareceu-lhes não ter nada de repreensível, e acabaram por se comportar mal à mesa!
Meu caro Henrique Raposo, o problema é esse mesmo, você começa por escrever sobre autores que não estudou e vai acabar por trocar os talheres na refeição. E é sobretudo isso que, no seu caso, eu quero evitar.
Você cita Zizek, pretendendo demonstrar que o pensador esloveno considera que Negri não vai beber a Marx. Se tivesse tido a atenção de ler na integra os dois artigos, em vez de andar à procura de frases espúrias, teria descoberto que Zizek afirma que “voilà, exactement, ce que Michael Hardt et António Negri essaient de faire dans Empire, un essai qui touche à son but dans sa tentative d’ecrire le Manifeste communiste du vingt-et-unième siècle” (Zizek, Slavoj: “Hardt et Negri ont-ils Réécrit le Manifeste Communiste ? », em Que Veut L’Europe ?,Climats, Paris, 2005, pag 91), apesar do elogio, Zizek mais à frente vai criticar Negri e Hardt não por não terem sido fiéis a Marx, mas por não terem ido buscar Lenine. Para ele, Negri falhou depois de ter analisado o processo sócio-económico global não foi capaz de apontar as medidas radicais necessárias e que a esse respeito, “L’Empire reste un ouvrage prémarxiste.<Quoi qu’il en soit, peut-être la solution reside-t-elle dans la prise de conscience du fait qu’il n’est pás suffisant de revenir vers Marx, de renouveler l’analyse de Marx, mais qu’il est nécessaire de se tourner vers Lénine.» (Ob. Cit. Pag 94), o sublinhado é meu.

13 comentários a “Negri, Raposo e os talheres (1)”

  1. Mas que pachorra; depois de andar a azucrinar os colegas de bancada sobre quem é que é um verdadeiro liberal, conservador, e mais não sei o quê, agora deu nisto: ele é que sabe quem é que são os verdadeiros marxistas, quem é que é a verdadeira esquerda. Mai nada. Um conselho: caga. Tudo o que de mais bem escrito e argumentado possas dizer só lhe vai servir para seu auto-convencimento.

  2. Caro Nuno,
    Estás lixado! Agora é que o HR vai atirar-te com o derradeiro post, conhecido por «Bacalhau com Todos». Em quatro parágrafos vai conseguir citar meia Amazon. E ainda vai conseguir provar que o Pinto da Costa é do Benfica…

  3. Toda a gente sabe que o Zizek não é passível de citação visto que é um material (muito jeitoso e barato) para vedar portas e janelas. Ainda ontem:

    – Olá, boa tarde.
    – Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?
    – A minha porta da rua deixa passar a água quando chove e…
    – Não diga mais. Temos a solução para si. Já ouviu falar de Zizek?
    – Zikek, Zizek… Não.
    – Pois olhe, é um magnífico produto vedante oriundo do Cazaquistão ab-so-lu-ta-men-te infalível.
    – Pois olhe – arranje-me por favor um pacotinho.
    – Pois não.
    – E quanto custa?
    – 90 cêntimos.
    – Ó.
    – Pois é, melhor e mais barato não há.

  4. Tens toda a razão, eu próprio tenho uma prateleira vedada com ele. Mas quem o começou a citar foi o Raposo. E se queres que te confesse, o sentido de humor do Zizek encanta-me. A minha fraqueza é o Slavoj, a tua é a música no coração: é a vida!

  5. João Pedro,
    Para discutir preciso de responder a um texto. Não tens que ficar ofendido comigo, o teu segredo de seres um metaleiro versão musica no coração está a salvo.
    E é verdade, acho muita graça às historietas do Zizek. Tem uma sobre as ideias dos povos e os formatos das sanitas que ta cito se a conversa continua.

  6. Não é a primeira vez que vejo duas pessoas perderem a compostura por causa do Zizek. Acontecia por vezes entre os meus vizinhos do 4º esquerdo, com mais frequência na Primavera.

    O que me lixa é ter de pagar um jantar ao meu primo. Estava a contar com esse dinheiro para iniciar um movimento nacional de redução do défice público. Agora, olha…

  7. Valupi,
    O défice que se lixe. Aceito todos os livros do Zizek para somar aos 30 que cá tenho: são excelentes para combinar com as cortinas. Como tenho uma mesa estranha, também preciso mais do Badiou, do qual me faltam muitos e são muito caros.

  8. Por acaso, Nuno, uma coisa que se pode dizer do Zizek é a de ser divertido. E isto sem desprimor. Mas eu não sou um leitor do senhor, apenas curioso quando calha. O seu estilo é demasiado fragmentário e eu suspeito de tudo o que meta psicanálise selvagem ao barulho.

    Aproveitando o balanço, o que recomendas? Ou melhor, que obra te interessou mais, se é que esta pergunta faz sentido?

  9. Gosto de humor e de histórias bem contadas. Acho que ele se repete um pouco. Gosto mais de dois: Um sobre o Lénine e o The Ticklish Subject. Mas as leituras têm entusiasmos e por agora estou no Mike Davis, À espera que o Sporting liquide o clube de amanhã.

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