Esta pergunta não é parva

E se…

E se os brilhantes espíritos, os inefáveis artistas que decidiram misturar religião com política de maneira desnecessária e ofensiva, tivessem reflectido duas vezes antes de criar a confusão e interferir com a existência e a segurança de outras pessoas, tinha-se perdido alguma coisa? O que é que se ganhou, em todo o caso? Quem é que ganhou alguma coisa com esse exercício fútil da “liberdade de expressão”?

João Camilo no seu blogue blueeverest.blogspot.com

18 comentários a “Esta pergunta não é parva”

  1. Deixo aqui mais um exemplo de liberdade de imprensa,a que os nossos neoliberais vão de certeza fechar os olhos.

    Stones ‘agreed song censorship’
    Mick Jagger
    The Rolling Stones gave a typically energetic performance
    The Rolling Stones agreed to have two songs censored during their half-time performance at the Super Bowl, National Football League officials have said.

    The sound was cut when frontman Mick Jagger sang lyrics that were deemed inappropriate for TV audiences.

    “We agreed to that plan earlier in the week,” NFL spokesman Brian McCarthy said. “The Stones were aware of it and were fine with it.”

    But the band have called the censorship “unnecessary” and “ridiculous”.

    Lyrics in Start Me Up and Rough Justice were cut, while (I Can’t Get No) Satisfaction was left intact.

    Huge audience

    The Super Bowl, which was held in Detroit on Sunday, attracted its biggest audience in a decade, with more than 90 million viewers.

    It also rated as the most-watched television programme in the US since 1996.

    Comedy-drama Grey’s Anatomy, which was aired on the ABC network after the game, pulled in the biggest audience for an entertainment programme since the finale of Friends two years ago.

    It was also ABC’s highest-rating entertainment show for 12 years.

    Janet Jackson and Justin Timberlake
    Janet Jackson’s breast was exposed at the Super Bowl in 2004
    At 2004’s Super Bowl, Janet Jackson caused outrage in the US when a “wardrobe malfunction” exposed her right breast during a routine with Justin Timberlake.

    The incident, which was broadcast to millions of TV viewers worldwide, led to the CBS TV network being fined a record $550,000 (£292,000).

    This year, TV network ABC broadcast the Super Bowl with a five-second delay while a sell-out 65,000 crowd watched the Rolling Stones live.

    They opened their 12-minute performance with Start Me Up and ended with Satisfaction.

    ABC said the changes to the Stones’ show were made by the NFL and its producers.

    Music stars who have performed at the Super Bowl in the past have included Sir Paul McCartney and U2.

  2. E se… os senhores que se sentiram ofendidos com os bonecos tivessem respondido da mesma forma, faziam uns “cartoons” a ridicularizar a Dinamarca.
    E se… os dinamarqueses se sentissem ofendidos e desatassem a queimar bandeiras e embaixadas da Síria, da Arábia Saudita (…)também, achariamos que a “culpa” era dos “cartoonistas” árabes (a palavra árabe aparece à falta de outra melhor, sem a conotação pejorativa do “arab”)

  3. Quem ganhou com este exercício de liberdade de expressão foram os extremistas xenófobos e anti-muçulmanos no Ocidente, e os extemistas islâmicos no Oriente.

    Tanto uns como os outros ficaram com mais motivos paa atiçar ódios contra o opositor, ficaram com mais “provas” de que o opositor é mau, para apresentar aos moderados de cada parte.

    Os xenófobos anti-islâmicos ocidentais podem agora inundar-nos os olhos de provas de que os muçulmanos não respeitam os nossos valores de liberdade. Os fundamentalistas islâmicos podem agora inundar as massas muçulmanas de provas de que o Ocidente não tem respeito, e despreza, a sua religião.

    Uns e outros ganharam munição para as suas causas de ódio, de separação, e de luta.

  4. cordobes, o valor de cada ação que fazemos mede-se pelas suas consequências. Isto faz parte de qualquer tratado de ética. Leia Kant, sei lá…

  5. E se Salman Rushdie em vez de escrever sobre o islão tivesse escrito sobre a Amadora? E se os Monty Python em vez de usarem a vida de cristo para o filme “Life of Brian” tivessem usado a vida de Zé Manel, motorista da carris? Oh francamente, já não há pacência para este tipo de posts.

  6. A pergunta implica que quem publicou os cartoons tem os mesmos critérios morais de quem questiona. Isso não é forçosamente verdade. E para muita extrema direita que existe por essa europa fora, dificilmente se podia ganhar mais do que o que está a acontecer. E o mesmo se aplica para os extremistas muçulmanos.

    Quem sai a perder é quem acha que não só não se deviam publicar cartoons desta forma (atenção, não publicar não é a mesma coisa que proibir a publicação) como é muito errado reagir a eles desta forma. E já nem falo da violência. Qual seria o sentido de boicotar os produtos portugueses por causa de alguma coisa publicada pelo jornal “O Crime”?

  7. Daniel,

    Rushdie teria escrito sobre a Amadora um romance fabuloso. E um Zé Manuel according to Monty seria de partir o seu e o meu coco.

    «Este tipo de posts» apenas pergunta, muito delicadamente, se não há ainda um resto dessa coisa incorrectíssima, e ó tão burguesa, chamada bom-senso.

  8. Daniel M.,

    Eu sei que não devia ter insistido no bom-senso. Estava a dar-lhe antecipadamente razão, sem eu deixar de tê-la.

    Deixe. Belo site o seu. Saiba só que pode pedir tranquilamente uma Carlsberg em Marrocos. No pior dos casos, hão-de perguntar-lhe: «Pode ser uma Heineken?».

  9. Sim, o exemplo da Carlsberg não é famoso mas, veja lá, não me meta em chatices que esse texto não é sobre o “choque de civilizações”, o tema do dia.

  10. Num parque de campismo em Marrocos (onde éramos dos poucos europeus, senão os únicos) entrámos os dois no bar e pedimos três cervejas. O barman olhou para nós com ar reprovador e avisou,

    – Só podem pedir uma cerveja por pessoa.

    -Mas já aí vem um amigo nosso, dissemos.

    -Quando ele chegar, pedem então a terceira cerveja.

    Para compensar, a cerveja não era Carlsberg nem Heineken, mas sim “made in Casablanca”, e por sinal nada má. Ou talvez fosse do calor…

  11. Daniel, sabotemos sempre alegremente o tema do dia.

    Mas ficando nele. Olhe Marrocos, de que você falou. Não sei se você está em Lisboa. Mas, se sim, lembre-se de que está bem mais perto de Tânger que de Madrid. Tem aí um choque de civilizações quase à porta.

    E daí… Marrocos até nem é bom exemplo. Um gajo está lá muito, mas mesmo muito à vontade. Pouca coisa lá nos «choca», para lá da revulsiva pobreza dos subúrbios.

  12. Fala-se da deflagração presente como se fosse premeditada. O momento civilizacional a que chegámos é que é, de si, explosivo. Na Dinamarca aconteceu apenas um rastilho circunstancial. Mais nada.

  13. Com as recções Islãmicas, e dos seus defensores; em nome de uma esquerda perdida que apoia os árabes porque estes são inimigos de Israel e estes são amigos dos EUA, leia-se o Grande Satã ou Porco Capitalista, conforme as preferências; caíu outro véu e empurraram-se alguns centristas para a direita.
    Nas próximas presidenciais passarão à segunda volta O Cavaco e o Portas. O Portas da direita porque à esquerda portuguesa vai acontecer o que aconteceu à esquerda francesa, esta votou em Chirac contra Le Pen, a de cá votará alegremente em Cavaco contra Portas.
    No fim ganhou-se a iluminação da escumalha, que tal como em França tem tendência para a destruição da propriedade privada, e por isso é tão querida dos amantes de Proudhon.
    Em nome da segurança a Europa encostar-se-á à direita com o mesmo medo com que apresenta desculpas aos terroristas e olha desconfiada para a esquerda que deles tanto gosta.

  14. Nós aqui somos fundamentalistas do consumismo e do deixa andar , se o vizinho da porta ao lado morrer.Que nos interessa a nós ? Se nem o conhecemos ! O pior vai ser quando , começar-mos a ser também caricacturados, aí só pode ser de pedintes e maltrapilhas .
    Mistíco

  15. Mas que pergunta mais parva a de J. Camilo! Claro que se tinha perdido alguma coisa: tinha-se perdido o direito de dizer disparates, de blasfemar, de chatear-só-por-chatear. O j. Camilo não defende a censura, defende antes essa forma mais refinada de censura que é a auto-censura. Por esta via, o artista, antes de realizar seja o que for, terá que fazer um exame de consciência e colocar a si mesmo certas perguntas: será que a minha obra vai contribuir para a paz no mundo, para a elevação moral e espiritual da humanidade, para a alegria no seio da família?
    Seria lindo – um big brother dentro de cada artista.

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