Geografias subjectivas

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Com intervalo de dias, falei com dois conhecidos que estiveram há pouco tempo em Luanda. Estranhamente, os guiões das duas conversas seguiram por veredas opostas, rumo a duas cidades totalmente diversas.
Para um deles, Luanda é uma cidade maravilhosa e aberta, onde um europeu pode fazer o seu jogging matinal sem qualquer sobressalto, acarinhado pela hospitalidade de uma população que acorda agora de um longo pesadelo, de novo em paz com a vida. E Angola é uma espécie d El-Dorado, terra de oportunidades sem fim para qualquer alma empreendedora.
O outro dos meus conhecidos garantiu-me que Luanda continua a deslizar no pesadelo: violência sem tino pelas ruas, perigos vários a cada esquina, corrupção a proibir qualquer veleidade de fazer negócios sem um general local de permeio. Ele só sai do seu condomínio devidamente acompanhado, arriscando-se no exterior o menos possível.
Qual destas Luandas existirá mesmo? Porque não as duas? Ou mais ainda?
Se calhar, a cada grande cidade correspondem milhares e milhares de mapas diferentes. A geografia dos medos, afectos, recordações e desejos sobrepõe-se facilmente às minudências topográficas e sociológicas da realidade. Cada cidadão move-se por labirintos muito seus, obedecendo a itinerários intransmissíveis, evitando obstáculos que mais ninguém vê, demandando destinos que só a ele se revelam.
Para uns, o mapa da sua cidade estará para sempre pejado de avisos sobre monstros e perigos terríveis, para outros cada cruzamento liga jardins felizes, bairros solarengos, vizinhos amistosos. Podem até julgar que vivem perto uns dos outros; mas nunca se encontrarão em terreno comum. E não serão os alicerces mais importantes de uma cidade aqueles cavados nos territórios mentais dos seus habitantes?

8 comentários a “Geografias subjectivas”

  1. Belíssimo ponto de vista.
    lembro-me de estar em Nova Iorque e sentir-me perfeitamente segura, mesmo à noite, e quem estava comigo via perigos em cada esquina.
    De Luanda também me chegam relatos contraditórios, como o teu, independentemente de virem de pessoas com anteriores ligações afectivas à cidade.

  2. Eu também me lembro de estar em Nova Iorque e a minha irmã mais nova achar que docas meio desertas ao fim da tarde e ruas macacas a meio da noite eram sítios perfeitamente seguros, sem problema nenhum…:DDD

    (é uma questão de feitio)

    e Luanda é uma cidade com todas as características que os dois pontos de vista ilustram.

    (também conheço um tipo que diz que se sente muito mais seguro em qualquer ponto de Timor a qualquer hora, que na Av. de Roma às 3 da tarde.)

  3. O mapa está soberbo!!!!
    Quanto ao texto, eu estou um bocado como a Susana. Acho que depende do ponto de vista da personalidade de cada um. Eu não sirvo de exemplo porque sou profundamente destemida ( há quem ache que o termo é irresponsável ) e na verdade acho que o perigo está a maior parte das vezes dentro das nossas cabeças. Claro que sucedem azares, com também se cai pela escada abaixo.
    Coisas…!

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