O amigo americano

A Alemanha, membro da NATO e “aliada” dos EUA – que ainda lá têm 50.000 soldados estacionados – é considerada pela National Security Agency (NSA) americana como um “partner de terceira classe”, juntamente com outros “alvos” como a China, a Arábia Saudita e o Iraque. Como tal, a Alemanha constitui um dos alvos prioritários do programa Prism de espionagem planetária levada a cabo pela NSA, recentemente denunciado por aquele rapaz que mora na área internacional do aeroporto de Moscovo. Segundo revelou, só na Alemanha a NSA intercepta em dias normais 20 milhões de telefonemas e 10 milhões de ligações de internet, chegando contudo a interceptar um total de 60 milhões de ligações por dia.

Já em França só são interceptadas diariamente 2 milhões (!) de ligações pela NSA. Isto em nome da segurança dos EUA e da luta contra o terrorismo. Em cada ano o programa Prism grava e armazena o conteúdo de muitas centenas de milhões de ligações interceptadas em todo o mundo. Ainda mais grave, os países da União Europeia são também alvo de espionagem em Washington, onde as suas representações diplomáticas são alvo de escutas, intercepções e ciberataques.

Não sei que classificação é atribuída a Portugal pela NSA, mas não estamos no grupo dos países de “primeira classe”, reservado aos amigos Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, que alegadamente são poupados ao permanente vasculhanço americano. Por sinal, o Reino Unido tem um programa de espionagem semelhante ao americano, designado Tempora. Como Portugal não tem grande importância económica, política ou outra, devemos estar no grupo dos amigos de segunda classe, mas isso quer dizer que também os nossos telefones, ligações de internet e computadores são espiados pela NSA, embora não tão sistematicamente como os alemães.

Que a espionagem americana há muito vasculha a blogosfera portuguesa, não é novidade. Sei de casos que o provam sem margem para dúvida. Não duvido, por isso, que muitos blogues portugueses, incluindo este em que escrevo, sejam filtrados pelo programa Prism e que este meu post, em que falo disso, vá ser indexado e talvez guardado pelos nossos amigos americanos. Mas uma coisa é varrer a blogosfera à cata de informação que é pública, outra coisa é interceptar maciçamente telefones, emails ou chats privados e pescar informações nos nossos computadores. Em Portugal, aquilo que o programa Prism faz maciçamente por todo o planeta é considerado crime punível com multas e penas de prisão (artigos 190.º a 199.º do Código Penal).

Os alemães já reagiram às informações de Snowden. O próprio presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, exigiu hoje em termos bastante vivos uma explicação do governo americano, que acusou de tratar os países da União Europeia como inimigos. Os governantes de Portugal, especialmente os ministros dos Negócios Estrangeiros, têm uma inclinação doentia para faxinas dos americanos. Ainda assim, se eu fosse jornalista, era capaz de fazer umas perguntas sobre este assunto ao Portas, se o apanhasse a jeito. Só para me rir com as respostas, claro…

Foi ontem: ouvir quem conhece há décadas a realidade. Ouvir quem se dedica há décadas a estas matérias.

Dulce Rocha esteve hoje a ser ouvida pelo grupo de trabalho sobre a coadoção, no âmbito de várias audições para apreciação na especialidade do projeto de lei do Partido Socialista (PS) que “Consagra a possibilidade de coadoção pelo cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo e procede à 23ª alteração ao Código do Registo Civil”.

Perante os vários deputados, a vice-presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC) defendeu que o projeto de lei do PS, aprovado na generalidade, quis garantir que os direitos da criança ficam assegurados e dá uma proteção adequada, a nível jurídico, das relações afetivas já existentes entre a criança e os seus pais ou mães.

“O IAC sempre defendeu a proteção adequada a nível jurídico das relações afetivas já existentes e, por isso, fazia todo o sentido continuar com essa posição de gostar que fosse reconhecida a importância de manter as relações afetivas privilegiadas que a crianças estabelecem na primeira infância e que são importantes para a sua vida inteira”, defendeu Dulce Rocha.

Na opinião da responsável, o projeto de lei garante maior proteção às crianças que se vêm perante uma “tragédia” na vida quando, por exemplo, o pai ou mãe biológico morre e o outro pai ou mãe não tem qualquer direito jurídico sobre a criança.

Dulce Rocha defendeu igualmente que o projeto de lei do PS vem colmatar uma “incoerência do sistema”, sustentando que “há uma fragilidade no sistema jurídico”.

“Estou mesmo convencida que há uma fragilidade do sistema jurídico na preservação das relações afetivas”, disse a também procuradora do Ministério Público, ressalvando que a posição do IAC sobre esta matéria tem em conta a realidade atual no contexto de diversidade familiar e a forma como a criança fica mais protegida.

Nesse sentido, defendeu igualmente que a lei, ao lado do superior interesse da criança, tenha também o princípio da relevância das relações afetivas.

De acordo com Dulce Rocha, deveria ser de alguma forma salvaguardado que os tribunais tratam estas situações de forma igual independentemente da zona do país, defendendo que a decisão não deve ficar ao critério dos magistrados: “Isso é permitir a subjetividade quando nestes casos devia haver sensibilidade e não subjetividade”.

A responsável do IAC sublinhou que a preservação das relações afetivas “é a pedra de toque” e a prova de que se está a respeitar o superior interesse da criança.

Relativamente ao argumento de que as crianças criadas por casais do mesmo sexo podem ser alvo de discriminação, Dulce Rocha defendeu que cabe a todos os cidadãos educar pela não discriminação.

As novas regras sobre a falência de bancos garantem mesmo a não intervenção dos Estados?

Segundo as novas regras da UE, a partir de 2018 o dinheiro dos contribuintes não mais poderá ser chamado a pagar a falência de bancos mal geridos. Socorrerão o banco em dificuldades os acionistas, os credores, os detentores de obrigações e, se necessário, os depositantes de montantes superiores a 100 000 euros. Mas será que a regra vai funcionar? De acordo com um artigo hoje publicado na revista Der Spiegel, não. Sobretudo se os bancos em vias de falir forem bancos importantes em Paris, Londres ou Frankfurt. Uma das razões pode ser o historial de desrespeito de regras pelos Estados. Além disso, bastaria que um Estado considerasse e apresentasse a ajuda como um empréstimo bem remunerado, para os dinheiros públicos terem o mesmo destino que até agora, muitas vezes alegando-se que os contribuintes não gastarão um tostão (atendendo aos potenciais ganhos após o restabelecimento do bom estado de saúde do banco).

But the problem lies in the word, “rule.” Financial markets, politicians and citizens have long become accustomed to the EU countries following their self-imposed rules for only as long as they suit them. The Maastricht criteria were forgotten as soon as Germany wanted to borrow more money than it was allowed. And how about the ban on sharing debt liability across the currency union? That was history the moment the union began to fear the consequences of a Greek default. The list goes on and on.

The test for the new banking rules, as well, will not be passed until they are applied to a major bank in the heart of the EU – not in Cyprus, but in London, Paris or Frankfurt. And even then, they will have to be pushed forward against tremendous pressure from the banking lobby, and despite all the economic risks. Experience to date does not suggest that this will ever happen.

Porém, o jornalista parece esquecer o ponto em que bate esta medida. Não são os grandes bancos os visados, embora nesse caso, sim, é claro que o desrespeito das regras fosse quase uma inevitabilidade. São os outros, de preferência da Europa não central. E com os receios legítimos dos depositantes de bancos da periferia, assistiremos à transferência de fortunas ou depósitos mais avultados de empresas e particulares para bancos mais centrais e seguros (os sistémicos para a UE), que reforçarão a resistência a falências ao ponto de ficarem imunes, ou para offshores. E a prazo, não será a concentração e as fusões, como no setor aéreo? Talvez até surjam bancos “low cost“, seja lá isso o que for. Provavelmente é essa a intenção, mas há os entretantos que geram uma insegurança enorme.

Esta medida oferece, à primeira vista, uma boa solução para o risco soberano. Mas será que, numa segunda vista, todo o alcance do acordo foi tido em conta por todos?

“Esta crise voltou a colocar o homem no centro das decisões” – diz a nova nutricionista Isabel Jonet

Isabel Jonet escreveu uma Carta ao Futuro, transcrita pelo Jornal de Negócios. A presidente do Banco Alimentar parece satisfeita e realizada com o facto de 1% da população do mundo ocidental ter posto os restantes 99% a “regressar à essência das coisas” para poder ela própria enfim avançar sem barreiras para a plenitude dessas mesmas coisas. Será para ela a ordem natural das, mais uma vez, coisas. Quanto à visão bucólico-higiénico-purificadora que esta senhora nos expõe (ou será ao Futuro?) sobre a crise, só posso dar-lhe a palavra. Possivelmente sublima o que vê transportando-se para a estratosfera – uma apreciação benigna, diga-se, pois IJ podia dar-se muito bem com César das Neves.

Aproveitando a oportunidade cruel da crise para reflectirmos naquilo que vínhamos fazendo erradamente e para rectificarmos um curso permitiu lançar novas bases para uma sociedade, talvez uma civilização, sustentável. O esforço para regressar à essência das coisas permitiu deixar aos nossos filhos e netos uma herança menos pesada.

O repensar do modelo, permitiu um novo desenvolvimento das economias, contribuindo para recuperar os níveis mínimos de confiança e repor os fluxos normais de acesso ao crédito, crucial para fazer face ao desemprego, fundamental para o crescimento.

O Estado teve um papel insubstituível, o que lhe compete. Mas a sociedade civil aceitou o seu papel reeducando comportamentos e readquirindo sobriedade na forma de viver, nas opções pessoais. Recuperando valores que são a pedra basilar de todas as sociedade. Humanizando. Voltando a colocar o Homem no centro das decisões. […]

[…]Foi exigido um regresso ao essencial, um despojamento de tudo aquilo que vinha invadindo as nossas vidas, sem lhes acrescentar valor.

A falta que faz o Millôr

O senado brasileiro, sensível às manifestações de rua dos últimos dias e às declarações de Dilma, acaba de aprovar um projecto de lei que qualifica a corrupção de “crime hediondo”, equiparando-a ao genocídio, ao homicídio voluntário, ao latrocínio (roubo com homicídio), à extorsão com homicídio ou sequestro, à violação, à epidemia intencional com resultado mortal e à falsificação ou adulteração de medicamentos. Note-se que no Brasil a tortura, o tráfico de droga e o terrorismo não são considerados “crimes hediondos” pela lei, sendo apenas “equiparados a hediondos” em certas consequências penais. Mas a corrupção, a partir de agora, é-o, com consequências sobre a pena (a mínima passa para o dobro, quatro anos) e a possibilidade de libertação sob caução, que será negada.

No conceito de corrupção são enumerados: o peculato (quando o funcionário público se apropria de dinheiro ou o desvia no exercício do seu cargo), o peculato qualificado (quando praticado por agente político e funcionário com cargo efectivo de carreira), concussão (exigir vantagem indevida) e o excesso de exacção (quando o funcionário exige tributo indevido). Não foram estabelecidos patamares ou limiares quantitativos de hediondez, razão pela qual é tão hediondo o crime do polícia que abicha uns reais para não multar um automobilista, como o do autarca que desvia uns milhares para o clube de futebol da terra, como o indivíduo que recebe luvas de milhões como “facilitador” de aquisições do Estado, como no caso dos submarinos em Portugal. Além disso, um banqueiro brasileiro que crie empresas-fantasmas em paraísos fiscais e faça toda a espécie de traficâncias para lesar o Estado e o público em milhares de milhões, como no caso BPN em Portugal, continua a não ser considerado um “criminoso hediondo”.

Leio, porém, que naquela terra tropical não basta cometer um crime perfeitamente tipificado como hediondo, como agora a corrupção, para a “moldura” correspondente ser aplicada pelo juiz. Este vai examinar o caso concreto e confirma ou não a hediondez do crime. Vai ser bom para entupir o Supremo. Mas vai dar de ganhar a muitos advogados e, por fora, talvez a alguns juízes.

Não deixará de haver também em Portugal quem louve este ataque histerico-legislativo à corrupção. A mim parece-me sumamente estúpido, ultrademagógico e ineficaz. O grande Millôr Fernandes, se fosse vivo, encontraria a frase assassina para o qualificar.

Judite entrevista uma vítima de Sócrates

Sumário executivo da entrevista de Judite de Sousa a Teixeira dos Santos:

J – Se Sócrates tivesse pedido o resgate uma semana ou até um dia mais cedo, Portugal não estaria agora muito melhor?

T – Bom, não creio que…

J – Então, e umas horas mais cedo? É que o pedido só foi feito às 20.30 de quarta-feira! O que é que Sócrates andou a fazer o dia todo?

T – Bom, não…

J – Desculpe, temos pouco tempo e eu quero mesmo é saber o seguinte: o que disse a José Sócrates quando descobriu que ele era o responsável pela peste bubónica e pela Gripe Espanhola?

T – Bom.

Teixeira dos Santos

Bem o ex-ministro das Finanças. Um abismo entre a sua seriedade e a leviandade da Judite. No entanto, apesar desta estar sobretudo, se não exclusivamente, preocupada com paixões/vinganças/cortes de relações, com a eterna culpabilização de Sócrates e outras questões picantes que constam das telenovelas da sua estação e de continuar a não perceber ao que nos levou o pedido de ajuda – afinal mantém um belíssimo emprego – Teixeira dos Santos não deixou de confirmar a tensão que existiu na altura com José Sócrates. E aqui, como não podia deixar de ser, o orgulho falou mais alto: fazendo embora claros elogios à intuição política do então primeiro-ministro, não reconheceu a sua própria deslealdade. Que existiu, de facto. É certo que perdoável, como o próprio Sócrates já há muito deve ter reconhecido. Mas, oh desgraça, já me estou a orientar pelo espírito da Judite. De facto, tudo isto já se intuiu há muito do que se foi lendo e das declarações do próprio José Sócrates, e a verdade é que esta entrevista foi muito mal conduzida, pouco ou nada tendo de análise política. E teria sido interessante reservar pelo menos uma última parte para conhecer a perspetiva do antigo ministro das Finanças sobre a austeridade à moda europeia. Com outro entrevistador, a conversa merecia ter sido mais longa.

Gaspar tem razão. Está tudo excelente.

PIB per capita – 2012 (1ª estimativa)

Eurostat  – PIB per capita em Paridades Poder Compra (PPC)

(atualizado em 18 de junho 2013)

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O PIB per capita em Portugal baixou pelo 2º ano consecutivo, atingindo, em 2012, 75% da média da União Europeia. Este é o valor mais baixo da série.

 Face ao ano anterior, Portugal apresenta o 2ª maior decréscimo no PIB per capita (a seguir à Grécia e juntamente com o Chipre e Holanda).

 O PiB per capita português é o 2º mais baixo da zona euro (a seguir à Estónia e juntamente com o da Grécia e Eslováquia) e o 8º de toda a União Europeia.

 Na zona euro, o PIB per capita manteve-se, pelo 2ª ano consecutivo em 108% da UE27.

 O PIB per capita português encontra-se, por exemplo, 42% abaixo do PIB per capita da Irlanda; 38% abaixo do PIB per capita da Alemanha; 31% abaixo do PIB per capita da França; 23% abaixo do PIB per capita de Espanha, ou 18% abaixo do PIB per capita do Chipre.

 

Eh pá, ajudem o Poiares, pás!

Temos de confrontar os nossos problemas com os olhos bem abertos e afugentar o medo paralisante. Temos de confrontá-los sem optimismos vazios, nem fatalismos estéreis. Somos e seremos sempre realistas.

[…]

Governar com realismo também significa fazer assentar a relação do Governo com os Portugueses naquela confiança que só o contacto constante e permanente com a realidade pode cultivar, sem recorrer a falsas promessas, sem vislumbrar admiráveis mundos virtuais, mas decidindo e agindo com responsabilidade, abertura e transparência.

Pedro, tomando posse, Junho de 2011

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O primeiro-ministro fez hoje uma espécie de anúncio do fim da crise, apontando 2012 como o ano “do princípio do fim da emergência nacional”.

“Em 2012 planeamos obter já um superavit orçamental de 0,4 por cento do PIB [Produto Interno Bruto]. Em 2013 conseguiremos finalmente travar o crescimento da dívida pública e, daí em diante, reduzir-se-á o endividamento do Estado”, afirmou.

O primeiro-ministro acrescentou ainda que a despesa pública, em percentagem do produto, “descerá significativamente já este ano, mas em 2012 e 2013 será alvo de grandes reduções na ordem dos, respectivamente, três e dois pontos percentuais.”.

O primeiro-ministro assegurou ainda, que a redução da despesa pública em percentagem do PIB “começa já em 2011 e prosseguirá até 2015, a um ritmo e a uma escala que o país não conheceu nas últimas décadas e que inaugurará uma nova relação do Estado com a sociedade e com os cidadãos em geral”.

Coelho também falou no aumento de impostos, garantindo que o Governo procurou “proteger os mais desfavorecidos”. Um aumento que considerou necessário, para “proteger o país de efeitos muito negativos que resultariam de percalços não resolvidos”. Foi já depois do discurso, em declarações aos jornalistas, que revelou que o Governo estima que se mantenha a receita fiscal prevista e, como tal, “não serão necessários mais aumentos de impostos”. Perante a insistência dos jornalistas sobre se ainda há margem para numa situação excepcional agravar os impostos, Passos Coelho assegurou que, perante um país “tão cansado e tão extenuado com os aumentos” de impostos, não lhe iriam “arrancar a ideia de que se calhar ainda vamos ter que aumentar mais impostos”.

Pedro, rodeado de miúdos, Setembro de 2011

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Um dos problemas do País é que pensou durante muitos anos só no presente sem antecipar, sem planear o futuro.

[…]

O Governo está a procurar oferecer esperança aos portugueses, mas uma esperança assente na realidade porque durante muito tempo este país viveu fora da realidade e, nesse sentido, para nós é fundamental que a esperança que vamos oferecer aos portugueses, que o futuro que estamos a preparar aos portugueses, seja a partir da verdade, a partir da realidade.

Poiares Maduro, Junho de 2013, com manifestas dificuldades em perceber o que se passa à sua volta

Afinal, o Maduro tem muito para comunicar diariamente

Confesso que quando o ministro Maduro anunciou que a partir de agora passará a reunir diariamente com os jornalistas não percebi como tal seria possível. Como é que um Governo paralisado, que nem sabe o que é governar, que se limita a cumprir atabalhoadamente o que a troika exige, que nem às quintas-feiras após os conselhos de ministros tem tido nada que se aproveite para nos comunicar vai passar a ter matéria para o fazer todos os dias? A resposta pareceu-me clara no final do último conselho de ministros em Alcobaça quando o ministro falou aos jornalistas. A tal reunião parece que tinha como objectivo fazer o balanço dos dois anos de governação e traçar as linhas gerais para os próximos dois, e o que comunicou o ministro? Informou-nos que o Governo não está a negociar o limite do défice para 2014 e que ainda não tem as medidas que anda a anunciar há meses. Ora aqui está a pista que faltava, o ministro vai fazer uma lista diária de tudo o que o Governo não fez naquele dia. Não vai faltar matéria. Todos os dias se exigem medidas concretas ao Governo para ultrapassar a crise, e todos os dias a resposta é a mesma: não há medidas. E se pensarmos a coisa ministério a ministério, e tendo em conta o tempo que passa sem ouvirmos o anúncio de uma medida, uma única, da boca da maioria dos ministros, diria que o melhor é o ministro passar a reunir com os jornalistas, não uma, mas duas vezes por dia.

Revolution through evolution

Violence against Women at Epidemic Proportions
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Face it: Monogamy is unnatural
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Risk Of Hypertension In Older Adults Reduced By Volunteering
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Babies Seeing Violence Show Aggression Later
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Getting Enough Sleep Could Help Prevent Type 2 Diabetes
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Prominent Scientists Sign Declaration that Animals have Conscious Awareness, Just Like Us
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Rationality in Markets Is Cognitively Unnatural
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Mindfulness Can Increase Wellbeing and Reduce Stress in School Children
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New Runners Need Not Sweat Over Shoes
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Some Parents Want Their Child to Redeem Their Broken Dreams

“As certezas do brilhante amor”, por João Miguel Tavares

O recente debate sobre a co-adopção permitiu que nos confrontássemos com os nossos valores mais profundos: o que é uma família?, o que entendemos por “lei natural”?, qual o verdadeiro interesse superior da criança? São questões fundamentais, que merecem uma boa discussão. E por isso nesse debate eu estive – e estou – convictamente do lado da aprovação da lei, que me parece um caso elementar de direitos humanos, valorizando relações afectivas já existentes em detrimento de preconceitos antinatura.

Este não é o local certo para avançar com demorados argumentos filosóficos e políticos, mas é o sítio certo para reflectir sobre a perplexidade que sempre me acompanhou ao longo deste debate: ver os opositores da co-adopção por homossexuais defenderem, com absoluta certeza, que a família perfeita – a única, no seu entender, que assegura o crescimento equilibrado de uma criança – é aquela que replica a estrutura da família tradicional, sugerindo que tudo o que se afasta desse cânone é disfuncional ou, pelo menos, desaconselhável.

Como por esta altura o caro leitor já saberá, encontrar uma família mais tradicional do que a minha não é tarefa fácil. Eu não só sou um monogâmico praticante com quatro filhos, como namoro com a mesma mulher desde 1992, tinha eu uns ridículos 18 anos e ela nem isso. Mas o facto de me ter casado com a minha primeira namorada, e de até hoje me considerar muito feliz com essa decisão, não me faz andar por aí a pregar que esse é o único, nem necessariamente o melhor, caminho para a felicidade

O orgulho que sinto pela minha família, e a felicidade que, apesar de inúmeras confusões e frustrações, sinto no seio dela, dá-me para a gratidão – não para a imposição. Eu agradeço a todos os santinhos a imensa sorte que tive, mas não me passa pela cabeça achar que existe uma fórmula fechada para se construir uma família equilibrada ou que as certezas sobre o meu mais brilhante amor são facilmente extrapoláveis.

Nós vivemos ainda numa extraordinária ignorância sobre o funcionamento da nossa cabeça e sobre a matéria de que são feitos os nossos sentimentos. E por isso, tenho para mim que a atitude mais sábia é manter uma permanente modéstia e seguir o conselho de Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres.” Este deveria ser o primeiro artigo de todas as leis da República. E esta é a única certeza que aqui deixo.

Ontem, na revista do CM