Relembrando outro Gaspar

O governo de coligação PS-PSD de 1983-85 (Bloco Central), chefiado por Mário Soares, também teve o seu Gaspar, um adepto fervoroso do tratamento de choque eléctrico sem olhar às consequências sociais ou económicas. Tratamento que aplicou sem dó nem piedade ao país, provocando fome e perto de meio milhão de trabalhadores com salários em atraso. Chamava-se Ernâni Lopes, era independente, fumava cachimbo e não sei se era do Benfica. Como o Gaspar, tinha também vivido longe daqui, muito enfarinhado no FMI e no clube dos ricos de Bruxelas entre 1979 e 1983. Ainda vivo em 2010, Ernâni declarou que o governo de Sócrates tinha que cortar de imediato 20% a 30% nos salários da função pública.

Em 1983-85 Soares apoiou sempre Ernâni, multiplicando-se em declarações em que dizia que vivíamos acima das nossas possibilidades e que só tínhamos uma solução: apertar o garrote, perdão, o cinto. Havia então, é certo, uma inflação que em 1984 ultrapassou os 30%, que tinha que ser drasticamente reduzida, até para podermos entrar na Comunidade Europeia, para a qual Soares nos queria á viva força levar. Não éramos ainda membros plenos, o que também fazia uma grande diferença em relação a hoje. Mesmo assim, quando hoje ouço certas tiradas de Mário Soares contra a austeridade, fico pensativo, a rememorar as suas declarações de 1984, que por vezes ostentavam uma falta de sensibilidade idêntica à de que agora acusa o governo.

Depois de Soares e do Ernâni, em fins de 1985, com a inflação já controlada, veio o boliquímico, que saltou oportunamente para o poder e recolheu os louros imerecidos de uma recuperação económica muito dolorosa para que não contribuiu, da entrada maciça dos fundos europeus, da queda para metade do preço do petróleo, da desvalorização do dólar em mais de 10%, bem como da queda substancial do juro da mesma moeda (a nossa dívida externa era toda em dólares). Tudo do melhor, ao mesmo tempo, para ele poder fazer figura de mago financeiro. Dá raiva só de pensar nisso.

O ódio irracional, doentio, freudiano a Sócrates toldava a visão a muita gente

Manuela Ferreira Leite, uma mulher cheia de bom senso. Mas isso é agora. E sem precisar de mudar de óculos. Só por se sentir interiormente menos perturbada.

Manuela Ferreira Leite disse também que a diminuição do número de funcionários públicos está a ocorrer a um ritmo maior do que o recomendado pela troika e com a mudança do estatuto de despedimento, que não foi pedida pelos credores.

A social-democrata considerou por isso que é difícil alguém conseguir responder se há funcionários públicos a mais, admitindo que em alguns sectores pode haver e noutros não e lembrando que houve trabalhadores que já saíram e que não foram substituídos.

Para a ex-ministra faltam estudos para perceber o impacto da redução em determinados sectores e do que se pretende para o futuro. “Se se quiser aumentar a escolaridade obrigatória e combater o insucesso escolar, se calhar já não há professores a mais”, exemplificou.

Ferreira Leite mostrou-se ainda céptica em relação ao real impacto das medidas do governo para administração pública na consolidação orçamental.

“Não vejo no curto prazo benefícios orçamentais e vejo a médio e longo prazo consequências gravosas para a instituição administração pública. Temos de ter cuidado em não abalar as nossas instituições”, alertou.

Um governo em gozo de maioria absoluta

Não há que andar com rodeios – este Governo está perdido no seu labirinto e o Ministro das Finanças optou por prosseguir até às últimas consequências a aplicação de um modelo que gizara enquanto técnico de gabinete, apesar do seu evidente falhanço. Mas sejamos tenebrosos: não é tanto “apesar de”, mas por causa do seu evidente falhanço. Quando tudo arde, que resta ao incendiário se não deleitar-se com a beleza da morte? Depois, normalmente, suicida-se, mas não vai ser esse o caso de Gaspar.

Mas existe outro elemento igualmente grave na situação atual. Dada a falta de transparência e a identificação perfeita entre o que o ministro pensa e o que é defendido publicamente pela Troika de credores, não é possível destrinçar – e Gaspar faz questão de manter a nebulosa – entre o que são as decisões de um e as exigências dos outros. Assim, nada garante aos portugueses que os despedimentos e os cortes anunciados, logo, o agravamento da austeridade num momento de tão comprovado desastre, sejam imposições dos credores, de cumprimento obrigatório. Porém, o facto é que, se não são, os credores dão-lhes total cobertura. Estão, evidentemente, tranquilos. Não só não moram em Portugal, como também terão orgulho em parir (para nos mantermos numa temática recente) um bom exemplo. Ou forjar um, o que em nada resolve a nossa situação económica.

Assim sendo, depois de aprisionado Cavaco Silva pelas suas próprias limitações ou por agentes políticos bem informados, o Governo, pela mão de Vítor Gaspar, sentado na maioria absoluta que ainda lhe resta, pratica como nunca o exercício da mentira, sobre o passado e sobre os seus próprios atos, insulta instituições como o Tribunal Constitucional, inventa realidades, brinca ao investimento, internacionaliza o circo na Europa, junto de Wolfgang ou de Jeroen, usa e abusa dos cargos de nomeação governamental e contrata e contrata e contrata todos os assessores que pode para os gabinetes ministeriais.

Por mais chantageado ou gagá que Cavaco se encontre, deixar prosseguir este desvario é a maior irresponsabilidade de que um presidente da República jamais virá a ser acusado.

“Marinho Pinto ao natural”

“Peço desculpa por regressar a um tema que abordei há uma semana, mas na segunda-feira cometi o erro de assistir ao Prós e Contras sobre a co-adopção, e às tantas já me estava a sentir tão de esquerda que se tivesse um Palácio de Inverno ao pé de casa tê-lo-ia assaltado nessa mesma noite. Embora tenha muitas qualidades e belos princípios, certa direita (e certo Direito) não se consegue livrar do espectro do fariseísmo, insistindo em fazer da obediência à lei — neste caso, à Lei Natural — um desígnio superior da humanidade.

Não quero estar aqui a repisar os argumentos sobre a coadopção, nem as razões que me levam a considerá-la um caso elementar de direitos humanos, mas interessa-me discutir a questão da Lei Natural, porque é ela — e só ela — que estrutura toda a argumentação dos opositores da co-adopção. Em pleno debate, o bastonário dos advogados, António Marinho Pinto, ao defender que toda a criança tem direito a um pai e a uma mãe, resumiu o seu pensamento desta forma: “é assim que a Natureza organizou as coisas”.

Nesse mesmo dia, Marinho Pinto publicou um artigo no Jornal de Notícias onde desenvolvia a sua tese: “A única coisa perfeita que existe é a Natureza; a única coisa verdadeiramente harmoniosa é a forma como a Natureza ordenou as coisas e os seres; a única coisa verdadeiramente bela é a Ordem com que a Natureza se rege.” Não é difícil descortinar a agenda política por detrás deste singelo momento trovadoresco: Marinho Pinto quer manter as criancinhas longe dessa coisa contranatura que é a família homossexual.

Este é um argumento muito antigo, que foi discutido ao longo de séculos, mas que tem um grave problema numa sociedade laica: ele pressupõe ou a existência de Deus, que, como criador da Natureza, a fez naturalmente boa; ou, pelo menos, a aceitação da Lei Natural como um princípio supremo. O problema é que querer transformar as leis da natureza em categorias morais — ou seja, dizer que determinada coisa está errada por ser nãonatural — é um abuso lógico, que por sinal causou inúmeras barbaridades ao longo da História.

Esse abuso foi muito bem detectado por David Hume no século XVIII, ao contestar a transformação de factos empíricos em valores normativos. Tal constatação ficou conhecida pelo nome de “guilhotina de Hume”, e diz-nos que nos assuntos humanos não se pode concluir o que “deve ser” com base naquilo que “é”. Se Marinho Pinto colocasse o seu pescoço debaixo desta guilhotina, teríamos neste momento em exibição A Lenda do Bastonário Sem Cabeça, porque com todo o seu amor à Natureza ele está, de facto, a confundir a fecundação (um facto) com a paternidade (um valor), e a misturar uma descrição (para haver criança, é necessário um óvulo e um espermatozóide) com uma prescrição (se não houver óvulo nem espermatozóide, não pode haver co-adopção).

Ora, isso faz tanto sentido quanto a intervenção de Pedro Madeira Rodrigues no programa. Contou ele que o seu filho adoptivo, confrontado com a possibilidade de ser criado por duas mães ou dois pais, exclamou: “Ó pai, mas isso é uma estupidez!” Já eu, devo confessar que ontem os meus filhos apanharam-me a beijar a mãe e exclamaram em coro: “Que nojo!”. Preferisse eu Pinto & Rodrigues a David Hume e, diante de uma reacção tão natural de três ex-espermatozóides, estaria agora condenado a defender a ilegitimidade da família heterossexual”.

João Miguel Tavares, hoje, no Público

Lágrimas de crocodilo

O Gaspar está em sofrimento, coitadinho. E apelou ontem à simpatia de quem o ouvia porque as últimas semanas têm sido muito difíceis para um benfiquista como ele. Diz ele que “perder sucessivamente por 2-1 em alguns casos depois do tempo regulamentar é de facto uma grande provação”. Esquece que graças ao seu Governo e ao seu fanatismo, os benfiquistas, os sportinguistas, os portistas e restantes adeptos e não adeptos estão em sofrimento, e não é desde as últimas semanas, a provação já leva dois anos.

E fez este apelo no mesmo dia em que, no Parlamento, desvalorizou as previsões da OCDE, revistas em baixa, argumentando que há uma “discrepância de algumas décimas”, coisa sem importância. Pois é, mas bastam umas décimas a mais na recessão para que mais uns largos milhares de portugueses, incluindo muitos benfiquistas, percam, não um título ou uma taça, mas o emprego e a esperança no futuro. O que vale é que no fim podem sempre contar com a simpatia do ministro.

Não é isto extraordinário?

Toda a razia atual é feita em nome dos ganhos de competitividade. Dois anos volvidos, somos ou não mais competitivos? A resposta é um rotundo NÃO. Piores que nós, na Zona Euro, só a Grécia. É o que nos diz a instituição que avalia estes aspetos dos países – o International Institute for Management Development (IMD), no seu relatório anual.

Entre os pontos fracos do país ao nível empresarial, o IMD destaca o acesso ao crédito. A inexistência de crescimento económico, a fraca resiliência económica, a elevada taxa de desemprego, nomeadamente o elevado desemprego entre os jovens, também pesam negativamente. No indicador da eficiência governamental, os factores que mais prejudicam a competitividade portuguesa são os encargos fiscais, a elevada dívida pública e ainda a coesão social.

Como aspectos positivos de Portugal, o IMD destaca as infra-estruturas, a mão-de-obra qualificada, as leis de imigração e as energias renováveis.

“Os rankings são baseados em quatro pilares principais. Um deles é o desempenho económico e, por comparação internacional, é possível verificar que Portugal não tem bons indicadores relativos à economia doméstica, nomeadamente o desemprego”, sublinha Anne-France Borgeaud.

Em suma, desregulámos o mercado de trabalho, reduzimos os custos do trabalho, cortámos em cada salário e reforma para, alegadamente, pagarmos a dívida, provocámos com isso a falência de empresas e o aumento em milhares das pessoas desempregadas, entristecemos o país, para agora sermos informados de que todas essas medidas não só não pagam dívida nenhuma como também não a estancam e, mais surpreendente, tiram competitividade ao país.

E escusa a direita de argumentar com os efeitos fantásticos desta violência no longo prazo, pois nenhuma das vítimas atuais jamais o viverá em idade ativa. A brincadeira está a sair cara de mais no curto e no médio prazos. Esta novilíngua que pretende criar com as palavras (como “ajustamento” e “ganhos de competitividade” (perdas, na verdade)) uma realidade diferente da que existe tem de acabar. Portugal não está a ficar mais competitivo, pelo contrário, e, se está a ajustar alguma coisa para melhor, é o futuro de Vítor Gaspar.

No meio de tão miserável quadro, não posso deixar de destacar o parágrafo que refere os aspetos positivos, os únicos que nos restam – todos eles herança do governo anterior, que, a propósito, certamente manejaria com muito mais cuidado as cordas do programa de resgate, que outros tornaram inevitável. Sejam os avaliadores quem sejam, os alicerces de um país diferente estavam, reconhecidamente, lançados. Este interregno experimentalista mas essencialmente punitivo é uma das páginas mais negras da nossa História.

Mais coadoção: atitudes

De um lado:

parlamento, democracia, debate sem insulto, legitimidade do vota contra ou a favor ou da abstenção, aprovação na generalidade, discussão democrática na especialidade, na qual se ouvirá vozes contra e a favor, onde se terá em conta estudos das mais respeitadas instituições que são referência mundial e nacional, que, estudando as famílias em questão há décadas, são um apoio à coadoção (Instituto de Apoio à Criança, as Ordens pertinentes nacionais, a Associação americana de psicologia, a Academia americana de pediatras, a Associação de psiquiatria americana, a Associação americana de psiquiatria infantil, a de pediatras, a de médicos, etc), onde se ouvirá argumentos contrários, votação final global, mais uma vez democrática, uma perspetiva perderá, outra vencerá, todos aceitaremos o resultado;

De um outro lado:

uma ideologia de terror e uma espécie de crime de ódio:

O Dr. Marinho Pinto é um troglodita mas… desta vez FOI BRILHANTE! A Dra. Isabel Moreira deveria ter vergonha e enfiar-se pelo chão abaixo tal a figura INDECENTE que anda a fazer!E a ofender GRAVEMENTE o PAI e a Mãe que tem

Maria Teixeira Alves

Relvas já se foi, Coelho ainda aí anda

O comissário europeu responsável pelo Fundo Social Europeu disse á deputada Ana Gomes que o Gabinete de Luta Antifraude da União Europeia está desde finais do ano passado a investigar os indícios de fraudes revelados pelo jornalista Cerejo no Público, relativos ao financiamento da empresa Tecnoforma e da ONG que dava pelo nome de Centro Português para a Cooperação, entidades que, como se sabe, eram dirigidas por Passos Coelho. Quando o caso veio à tona, o primeiro-ministro sacudiu a poeira do capote e o ministro Relvas (secretário de Estado da Administração Local no governo da época em causa), metido no assunto até às orelhas, continuou mais uns meses no governo do Coelho a fingir que não era nada com ele.

Relembra agora Cerejo, entre outras coisas, que foram gastos mais de 300.000 € para formar zero (0) técnicos de aeroportos:

Um dos projectos mais caros aprovados no quadro do Foral em todo o país foi então apresentado pela Tecnoforma na região centro e contemplava 1063 formandos que deveriam tornar-se técnicos de aeródromos e heliportos municipais. O total do financiamento aprovado, com [o secretário de Estado] Miguel Relvas a patrocinar directamente o projecto, ultrapassava 1,2 milhões de euros. Na região centro existiam à época nove aeródromos municipais, mas só três tinham actividade, ainda que residual, e uma dezena de trabalhadores. No final, a Tecnoforma recebeu apenas um quarto do subsídio aprovado, mas nenhum dos inscritos conseguiu ver a sua formação certificada.»

É assunto que parece ter entrado por um ouvido aí do pessoal do costume e saiu pelo outro, sem mais consequências. O DIAP de Coimbra está a olhar para os indícios há longos meses e o DCIAP de Lisboa também. Lá para 2019 devem conseguir espremer qualquer coisa dali. Até agora, que se saiba, ninguém investigou porra nenhuma, a não ser o jornalista.

Cordeiro, bode ou ovelha?

O ex-bastonário dos advogados Rogério Alves e actual defensor de Duarte Lima disse no julgamento que está a decorrer que o seu cliente é um “cordeiro oferecido para sacrifício” e que “está a fazer a expiação do antagonismo que se criou entre o cidadão e a classe política”.

Note-se bem: um cordeirinho imolado, a expiar as culpas dos políticos. Só lhe faltou citar os nomes dos políticos culpados, como um em que eu estou cá a pensar.

Em relação ao filho de Duarte Lima, o mesmo advogado afirmou em tribunal que “Pedro Lima está aqui apenas na qualidade de filho do bode expiatório do país”.

Cordeiro e bode, portanto. E a gente a pensar que Duarte Lima era mais tipo ovelha. Negra.

Marinho e Pinto – um homem que sendo presidente da Ordem dos Advogados não lida com o Direito

Estudos?

– Não!

Adoção singular já permitida para todos.

– “a criança tem direito fundamental a um pai e a uma mãe”

Então…mas já temos adoção singular, logo não há pai e mãe

– isso não interessa nada

Este é Marinho. Há quem admire  o homem com uma  prestação no prós e contras, onde acusou todas as mães que tiveram um filho sem um pai de “más mães” e onde aplicou aos homossexuais a famosa treta panfletária que dizia que todos os males do mundo se deviam aos judeus, para dar dois exemplos.

Sim, há quem admire  a prosa contra a coadoção do bastonário. Leia-se um excerto (Jornal de Notícias) da prosa do homem cuja prestação no debate acima referido é admirada:

“Como diz Reeves, a vida implica todos os níveis do real e, por isso, é que o momento mais belo na vida de qualquer ser humano é aquele em que ele é retirado todo sujo da vagina ensanguentada de uma mulher ou então arrancado da sua barriga esventrada por uma cesariana e é exibido triunfantemente à mãe que o pariu. E esse momento é belo porque é nesse instante que aquele monstrinho sujo, enrugado, roxo e disforme passa de feto a pessoa, ou seja, adquire personalidade jurídica e torna-se sujeito de direitos e de deveres ou, se quisermos, passa a ser um centro autónomo de imputações. É assim que nasce um ser humano. E esse momento é belo também porque a mulher que berrava de dores passa a rir-se de alegria e beija pela primeira vez esse filho (em outras espécies animais, as mães são ainda mais autênticas pois lambem demoradamente os recém-nascidos). Esse momento é belo, sobretudo, porque é o instante em que as dores da vida se metamorfoseiam na felicidade apoteótica da maternidade e da paternidade.

Eu lembro-me bem desse momento. Nunca esquecerei o momento em que nasci e, sobretudo, nunca esquecerei o primeiro beijo que a minha mãe me deu – quase moribunda por me ter parido”.

Marinho e Pinto in “O mais belo momento da minha vida”

 

Que se segue à vergonha, Cavaco?

O Presidente da República diz que devemos ter vergonha por haver quem passe fome neste país.

Os portugueses devem sentir-se «envergonhados por estarmos no século XXI, Portugal ser uma democracia, ser um país que, apesar de tudo, está num desenvolvimento acima da média. No entanto, alguns de nós sofrem de carência alimentar»

Dezembro de 2010, vésperas das eleições presidenciais de 2011

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Cavaco já sentiu vergonha por existir quem passasse fome cá pelo burgo. Estávamos em 2010, um ano em que os socialistas arruinavam o País distribuindo pelos mandriões o rico dinheirinho que a gente séria se esfalfava a ganhar só para depois ser obrigada a entregá-lo ao Estado. Esse período tem um nome histórico, cunhado por uma das mais probas e exemplares figuras da política nacional de todas as eras: “Regabofe”. Num ciclo de regabofe, dizem os cientistas sociais, o poder está invariavelmente nas mãos do PS que o usa para conduzir o País à bancarrota no mais curto espaço de tempo. Essa pulsão, que nem Freud explicaria, gera alguns famélicos, é sabido – geralmente, indivíduos tão mandriões, tão sornas, tão socialistas que nem sequer têm energia para se levantarem da cama e irem buscar uma saca de euros acabados de imprimir à repartição pública mais próxima. Foi destes infelizes que Cavaco falou indignado e pesaroso, juntando-se na ocasião a uma magnífica iniciativa destinada a conseguir alimentá-los com as sobras dos restaurantes; uma técnica conhecida como “alimentação intravenenosa”, muito aplicada por especialistas em caridade à la carte.

Pois bem, Cavaco. Que estado de alma nos recomendas em Maio quase Junho de 2013, estando o da vergonha tão, mas tão, desactualizado?

O mix do laranjal: traição e canalhice

Vítor Gaspar lembrou nesta terça-feira o que defende ter sido “a situação de fragilidade” em Portugal que levou, em 2011, ao pedido de resgate financeiro à troika, quando o PS estava ainda no Governo. “O Governo português negociou mal, numa situação extremamente fragilizada”, disse na comissão parlamentar de acompanhamento do programa de ajustamento português.

Num confronto de posições entre Governo e PS, o ministro das Finanças defendeu que o então Governo socialista “negou a possibilidade de resgate até ao último momento” e que esse facto “fragilizou o país”.

Gaspar salientou como exemplo da má negociação a taxa de juro dos empréstimos iniciais e o plano de pagamento da dívida que estava muito concentrado nos anos de 2016 e 2021.

Fulano que ainda não acertou uma conta desde que é Ministro das Finanças

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«As medidas que agora aparecem são melhores para os portugueses» do que as do PEC4, afirmou, recordando contudo que «é um programa de austeridade, que é preciso por causa de seis anos de Governo socialista, que levou o país à beira da bancarrota».

Eduardo Catroga critica a atitude do Governo que se «apresenta como vítima e como vencedor de uma negociação que foi sobretudo negociada pelo maior partido da oposição». «O PSD deu um grande contributo para este processo. Portugal vai ter uma grande oportunidade para fazer as medidas que se impõem, para dar esperança», disse ainda.

«Tivemos uma reunião altamente frutuosa com a troika, que percebeu a nossa atitude diferenciadora, de defesa do Estado social. O PEC 4 ataca pensões, não falava em reduzir o gordo estado paralelo…»

Eduardo Catroga disse ainda que «houve uma adesão a este princípio de que o PSD, se for Governo, fica com autonomia para propor um novo mix de políticas, se por acaso aparecerem amanhã [quarta-feira] surpresas de medidas penalizadoras para os portugueses».

Fulano que se encheu com a vinda da Troika

O TGV morreu, viva o TGV!

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Que pena, que oportunidade perdida, a Manela não ter ganhado as eleições de 2009. Ela era o único animal racional em toda a Via Láctea que teria conseguido transformar a maior crise económica mundial dos últimos 80 anos num abalozinho. E a sua receita eleva-se ainda hoje como um hino à inteligência e à bondade: salvar-nos do novo aeroporto e do TGV, as principais causas das nossas desgraças passadas, presentes e futuras; aproveitando para dizer à União Europeia que recusávamos o dinheiro já garantido para as obras e que ela o podia enfiar onde mais lhe apetecesse menos nas infraestruturas estratégicas de Portugal e Espanha. Era o famigerado programa do “pára tudo”, mas ainda numa versão tímida, dois anos antes da entrada em cena dos meninos que estão realmente a conseguir parar mesmo tudo, incluindo a actividade do estômago, do coração e dos neurónios dos portugueses.

Muito deve gargalhar a direita com o avacalhamento que se permite fazer deste país de tansos e broncos.

A guerra na Europa é entre os países que bebem vinho e os que bebem cerveja

Há uma interessante querela comercial em curso com a China (é uma constante). Pressionado pelos produtores de vinho nacionais, o Governo chinês está a pensar impor uma taxa sobre as importações de vinho europeu (como sabemos, maioritariamente francês, mas também italiano e espanhol). O mais provável é que, a par dessa razão, se trate também de uma estratégia diplomática chinesa que visa tirar partido das atuais dissonâncias intraeuropeias, sobretudo entre o par franco-alemão. A velha questão de dividir para reinar, agora totalmente facilitada pela dispensabilidade de provocar a divisão, pois já existe (a este propósito, ler isto).

Entram agora em cena os painéis solares. A França, de certa forma em retaliação e fortemente prejudicada pelo dumping chinês, esse sim bem real, resolveu propor uma taxa europeia sobre a importação de painéis solares da China, vendidos aqui a um preço imbatível graças aos já conhecidos fatores das ajudas de Estado e dos custos laborais, o que ameaça seriamente a nossa produção. A Alemanha, interessada em chorudos negócios com a China, cujo primeiro-ministro está de visita, opõe-se. Este tema foi ontem tratado numa reportagem no telejornal francês.

A conclusão do jornalista – que faz o título deste post – não podia ser mais expressiva e realista.

Ser cego e/ou obtuso é isto

O problema da Europa é que não é suficientemente competitiva a nível mundial. Muitos de nós conseguíamos ganhos dentro da União Europeia: Portugal exportando para a Espanha, o meu país exportando para a Alemanha. Mas agora, com a Europa sem grande crescimento, temos todos de encontrar oportunidades lá fora. É por isso que temos de ser todos mais competitivos.

Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo

Ó homem, e porque é que a Europa está agora “sem grande crescimento” e sem perspetivas de o vir a ter? E porque é que tinha de chegar a esta situação? E porque é que não saímos dela? E porquê…? (estou a engasgar-me)

Convém ler a entrevista dada por este senhor a Teresa de Sousa, do Público, e testar o nosso grau de contenção ao lermos, de cada vez que lhe é lembrada a desgraça causada por estes programas, que tudo isto é necessário para melhorar a competitividade. Melhorar a competitividade. Melhorar a competitividade, ouviram? Melhorar a competitividade! Matar o consumo, mas melhorar a competitividade. Expulsar milhares de cidadãos, mas melhorar a competitividade. Criar um exército de desempregados, mas melhorar a competitividade, ah, e fazer reformas estruturais. Empobrecer os que ficam, mas melhorar a competitividade. Matar o mercado único, mas melhorar a competitividade.
A Europa já não existe, nem quer existir. Nem como mercado comum. É assim que estamos.

E nem estas últimas declarações o ilibam de repetir a cartilha dominante na Europa. Além de me parecerem erradas.

E como já disse, creio que a CE está certa quando diz que, quando a economia enfrenta grandes problemas, devemos permitir um pouco mais de tempo. O problema continua a ser que, se levarmos demasiado tempo, a recuperação da economia também levará mais tempo.

É isto sequer verdade?