O governo de coligação PS-PSD de 1983-85 (Bloco Central), chefiado por Mário Soares, também teve o seu Gaspar, um adepto fervoroso do tratamento de choque eléctrico sem olhar às consequências sociais ou económicas. Tratamento que aplicou sem dó nem piedade ao país, provocando fome e perto de meio milhão de trabalhadores com salários em atraso. Chamava-se Ernâni Lopes, era independente, fumava cachimbo e não sei se era do Benfica. Como o Gaspar, tinha também vivido longe daqui, muito enfarinhado no FMI e no clube dos ricos de Bruxelas entre 1979 e 1983. Ainda vivo em 2010, Ernâni declarou que o governo de Sócrates tinha que cortar de imediato 20% a 30% nos salários da função pública.
Em 1983-85 Soares apoiou sempre Ernâni, multiplicando-se em declarações em que dizia que vivíamos acima das nossas possibilidades e que só tínhamos uma solução: apertar o garrote, perdão, o cinto. Havia então, é certo, uma inflação que em 1984 ultrapassou os 30%, que tinha que ser drasticamente reduzida, até para podermos entrar na Comunidade Europeia, para a qual Soares nos queria á viva força levar. Não éramos ainda membros plenos, o que também fazia uma grande diferença em relação a hoje. Mesmo assim, quando hoje ouço certas tiradas de Mário Soares contra a austeridade, fico pensativo, a rememorar as suas declarações de 1984, que por vezes ostentavam uma falta de sensibilidade idêntica à de que agora acusa o governo.
Depois de Soares e do Ernâni, em fins de 1985, com a inflação já controlada, veio o boliquímico, que saltou oportunamente para o poder e recolheu os louros imerecidos de uma recuperação económica muito dolorosa para que não contribuiu, da entrada maciça dos fundos europeus, da queda para metade do preço do petróleo, da desvalorização do dólar em mais de 10%, bem como da queda substancial do juro da mesma moeda (a nossa dívida externa era toda em dólares). Tudo do melhor, ao mesmo tempo, para ele poder fazer figura de mago financeiro. Dá raiva só de pensar nisso.