O comunismo é o inimigo secreto do PCP

Jerónimo de Sousa foi uma boa escolha para o marketing do PCP. Aquele fácies telúrico, aquela verbosidade folclórica simultaneamente operária e rural de um Portugal hoje a desaparecer no envelhecimento, essa retórica a convocar o imaginário de António Aleixo, o timbre e o tónus veterotestamentários, foram características que suscitaram imediata e universal simpatia. Depois do choninhas Carlos Carvalhas, uma bizarra opção para substituir a lenda viva, Jerónimo aparecia como uma carnal pintura mural revolucionária pronta a servir a estratégia de estancamento da sangria eleitoral e de quadros por que passava o PCP em 2004. Iniciou-se um ciclo de acantonamento e conservadorismo que está para durar até que os votos lhes mostrem que a cassete tem de ser mudada.

Bom, que falta ao homem para ser primeiro-ministro? Certamente, não serão promessas que mais do que chegariam para dar ao PCP a maioria absoluta:

Devolver aos trabalhadores e ao povo os seus salários, rendimentos e direitos sociais, indispensáveis a uma vida digna.

Discurso de Jerónimo de Sousa na abertura do XIX Congresso do PCP

A promessa de devolução de salários, rendimentos e direitos sociais aos trabalhadores e ao povo é coisa para lhes garantir 9 milhões de votos sem precisarem de colar um só cartaz. E nem mesmo a ausência de um esboço de explicação por parte de algum comunista vivo, morto ou na clandestinidade a respeito do modo como essa devolução seria feita, e quando, e com que consequências, impede o apelo da proposta. Aliás, o vazio racional só reforça o seu enlace hipnótico, pois não nos confronta com aqueles aspectos sempre aborrecidos que aparecem associados à realidade. A oferta do PCP é maximalista e não perde tempo com dúvidas e condições. Com eles no poder, não faltará massa no bolso das massas e da terra brotarão empregos e serviços públicos. Porque lhes faltam os votos, então?

Os comunistas nunca se atrapalharam na justificação das suas invariáveis derrotas eleitorais, até porque eles são especialistas na utilização desses mesmíssimos processos:

O processo de concentração da propriedade no sector da comunicação social, traduzido na posse de um esmagador número de órgãos por um reduzido número de grandes grupos económicos, afecta irremediavelmente a qualidade, diversidade e pluralismo da informação, da cultura e do próprio regime democrático.

Discurso de Jerónimo de Sousa na abertura do XIX Congresso do PCP

Eis a fatal tese: os jornais, as rádios e as televisões nas mãos do imperialismo impedem que a salvação comunista seja anunciada entre os explorados e oprimidos. Bastaria alterar este cenário, oferecer uns jornais, umas rádios e uns canais TV à Soeiro Pereira Gomes e aí se veria sem demora as gentes a correrem para as sedes do PCP a filiarem-se em êxtase marxista. Ora, nós sabemos que o Jerónimo não é mentiroso. E também sabemos que ele diz sempre a verdade. Nesse caso, que nome vamos dar a um passarão deste calibre que se diverte a gozar com a inteligência dos vizinhos? Não só o PCP ocupa os meios de comunicação social de forma continuada e versátil como não será possível encontrar alguém que esteja a ser intencionalmente afastado da teologia comuna. Pura e simplesmente, se ainda não mandam nisto é só porque o seu paleio não convence mais de quatrocentos e tal mil votantes. Os restantes milhões têm preferido abdicar da devolução de salários, rendimentos e direitos sociais se o preço a pagar for o de ficarem sujeitos ao comunismo à portuguesa.

Claro, as coisas mudam. E, como dizem os franceses, shit happens. Numas próximas eleições, tal como o profeta Jerónimo anunciou à assembleia dos crentes, é inevitável que o comunismo desça sobre a terra e que o mal seja banido por toda a eternidade. Nessa altura, o que se verá é isto:

a conquista do poder pelos trabalhadores, a socialização dos principais meios de produção e circulação, a planificação da economia e, sobretudo, a construção de um sistema de poder que promova e assegure a participação empenhada e criadora das massas na construção do seu próprio destino

Discurso de Jerónimo de Sousa na abertura do XIX Congresso do PCP

Está muito claro: o PCP oferece aos portugueses uma sociedade onde ser trabalhador qualifica para a governação, onde se nacionalizarão indústrias, serviços e bancos, onde um grupinho de eleitos fará grandiosos planos económicos à prova de erro e onde o regime se transforma numa máquina de participação das massas, agora finalmente empenhadas na construção do seu destino quer queiram ou não, e habilitando-se ao devido castigo caso o destino que se lembrem de criar venha estragar, sequer manchar, essa maravilha que produz destinos perfeitamente iguais uns aos outros tal como manda o partido na sua luta contra o capitalismo, a exploração e o imperialismo.

Contem comigo para espalhar esta boa nova, camaradas!

Para os que não vêem diferenças entre Passos e Sócrates

Durante os seis anos da governação de Sócrates, assistimos a uma verdadeira revolução na Educação. Desde o prolongamento do horário escolar no primeiro ciclo, facilitando, e muito, a vida aos pais, passando pela introdução do inglês, música, etc., até à remodelação das escolas, fez-se muito pela igualdade de oportunidades no acesso à Educação. E ainda se aliou a tudo isto uma forte aposta na Ciência e Tecnologia. Percebia-se a estratégia: arrepiar caminho, para que se reduzisse o colossal desnível que, em matéria de escolaridade, separa Portugal dos países mais desenvolvidos. Inexplicavelmente, ou talvez não, esta estratégia teve opositores para todos os gostos. A começar pelos professores e pela extrema-esquerda e a acabar na direita em peso. Tudo gente que vive muito melhor com a triste realidade da Educação em Portugal do que com a simples ideia de que é possível, com as medidas certas, melhorar o desempenho do País.

Se não gostaram da estratégia de Sócrates, talvez prefiram o plano de Passos e companhia. Talvez apreciem a frieza, e o alívio, com que o actual primeiro-ministro diz que a Constituição não é empecilho para que se alterem as regras de financiamento do ensino público. Ignorando por completo as dificuldades que as famílias já sentem para manter os filhos na escola, mesmo sem essas novas medidas. E omitindo as inevitáveis consequências negativas de tal decisão.

Agora, sim, vai fazer sentido falar em festa. A festa do abandono escolar e a grande festa que vai ser ver Portugal cada vez mais na cauda do Mundo.

PEC-Men

Todo o discurso do Governo, de modo obsessivo e cada vez mais desesperado, é a repetição de um e só um facto: estamos sujeitos ao Memorando de Entendimento. É à volta dessa evidência que os agentes políticos se posicionam e estabelecem as estratégias de curto e médio prazo, vindo do Executivo e sua maioria parlamentar o retrato de um país sem qualquer autonomia política – nem sequer para tentar alterar as condições do resgate.

Ao princípio, e até ao começo de 2012, foi este o discurso:

Depois de acrescentar que o diagnóstico da situação do país feito pelo PSD “não estava muito desviado da observação atenta especializada que o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional tinham”, Passos Coelho concluiu: “Quer dizer, há algum grau de identificação importante entre a opinião da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional e o que é a nossa convicção do que é preciso fazer”.

“Por isso, não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas. Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal para vencermos a crise em que estamos mergulhados”, reforçou.

Passos: Portugal vai cumprir o programa “custe o que custar”, diz Passos

Assim que se viu o buraco criado pelo fanatismo, a meio do ano, o foco foi logo dirigido contra o PS, reactualizando-se o discurso da culpa. Só que desta vez, e poucos meses depois do júbilo laranja por estarmos sob domínio da Troika, os socialistas eram acusados de terem colocado Portugal neste aperto. O tal aperto que, segundo o próprio Passos, era quase igual ao programa eleitoral do PSD e que andou a ser pedido pela direita portuguesa desde 2010. Faz isto algum sentido? Quando se utiliza a “verdade” como arma política, permitindo tratar como mentiroso qualquer um que discorde, faz. Porque os proprietários da “verdade” transformam em “verdade” tudo o que dizem. Têm “verdades” para todos os gostos, ocasiões e oportunidades.

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Pesadelo

Não é que estes elementos do PSD não tenham o direito de definir um programa para o país totalmente neoliberal, que tenha por objetivo reduzir o Estado à coleta de impostos aos mais remediados, à promoção da caridade e à manutenção da ordem pública. Têm. Não têm é o direito de esconder esse programa na hora das eleições, iludir os portugueses com a eliminação das “gorduras do Estado” que tudo resolveriam, imputar responsabilidades por uma bancarrota inventada ao anterior primeiro-ministro (que nada tem a ver com os desígnios desta nova gente para Portugal) e invocar, com base nisso, um pesado fardo do qual estão a libertar os portugueses, a coberto de uma Troika de credores cujas ideias radicais e principal objetivo bem conhecem.

Honestidade seria o mínimo que os portugueses lhes deveriam exigir, já que o tal primeiro direito lhes assiste. Mas o comportamento, e bem assim a entrevista de ontem, foram tudo menos honestos. Além de medíocre, o que já seria de esperar, a prestação de Passos na televisão foi sobretudo reveladora da intenção permanente deste governo de ludibriar, e cada vez mais inabilmente, quem os ouve. Começou pela ligeireza com que se referiu à derrapagem monumental de Gaspar no orçamento deste ano, que pelos vistos pouco importou, pois o que conta é a intenção e a intenção é empobrecer o país (para reduzir o peso das importações na balança externa, pasme-se; mas isso levar-nos-ia longe). Depois desligou-a completamente da nova carga brutal de impostos para 2013. A questão dos 4000 milhões de euros de cortes na despesa foi metida numa embrulhada de discussão do Estado social até ao verão, enquanto declarava que até fevereiro as medidas estariam definidas. A própria necessidade dessas medidas também não foi explicada claramente, nem o papel da Troika nesse particular. É certo que os entrevistadores deixaram muitas perguntas por fazer, algumas flagrantes, como quando ficou claro que afinal as chamadas gorduras são salários e prestações sociais. As novas condições de que Portugal poderia beneficiar também não entusiasmaram esta espécie de primeiro-ministro, que possivelmente vê nelas uma séria perturbação do modelo Excel de Gaspar.

Devido às mentiras que andou a propalar durante um ano, antes de ser eleito, tornou-se evidente que as artimanhas para implementar o seu verdadeiro programa são mais que muitas e não têm limites. E percebe-se mesmo que são eles que apresentam um programa de medidas mais drástico à própria Troika, que rejubila, claro (“Vocês têm um Ministro das Finanças muito impressionante”, disse Selassie). Enquanto a população estiver controlada…

E, de facto, em matéria de manifestações, esta entrevista teve uma forte componente de provocação. Não havendo Presidente da República nem coragem no parceiro de coligação (o que saberá o Relvas de Cavaco e de Portas?) para pôr um travão nesta corrida para o abismo, o que foi dito é que as manifestações são uma espécie de romaria, falou-se mesmo em festa, lamentavelmente estragada por alguns, mas uma festa que o Governo até saúda, desde que não lhes compliquem a vida. Irão até onde puderem e enquanto puderem, é o que podemos concluir. Os cortes que sucederão a cortes que sucederão a cortes, que foi a única perspetiva aberta por esta entrevista, não terão opositores porque o povo é pacífico. Até dá vontade que não seja.

Subsídios para o estudo da cultura da calúnia em Portugal

*

Não podia ser mais oportuno este livro, nem estar a sua organização em melhores mãos. Mas há que não perder, igualmente, a oportunidade de anotar o fenómeno do Entroncamento que surge por arrasto: ele junta quatro notáveis da cultura da calúnia em Portugal – Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Lobo Xavier e Miguel Frasquilho – a uma ranchada dos mais retintos e perigosos socráticos. É o mesmo que levar os lobos às ovelhas sob a desculpa de que se tornaram vegetarianos de repente.

Claro que a tipologia da calúnia em cada uma destas poderosas personalidades públicas varia segundo as díspares circunstâncias, indo desde a aparentemente mais inócua, onde vimos Frasquilho a contradizer-se a si mesmo a respeito do Governo socialista conforme assinava relatórios internacionais pelo BES ou declarações políticas pelo PSD, ou habitual, onde vimos e vemos Lobo Xavier em exercícios oligárquicos de assassinato de carácter, até à mais desvairada, obscena e canalha, aquela que Ferreira Leite e Pacheco Pereira desenharam como estratégia para as eleições de 2009 e que os foi deixando literalmente possessos.

Recordemos:

Eu compreendo que o Presidente da República, até pelas coisas graves que tem certamente para dizer face aos ataques que lhe têm sido dirigidos, não queira falar em período eleitoral. O que diria perturbaria e muito o período eleitoral. Mas temo que só depois das eleições é que se vá saber demasiadas coisas sobre esta governação e sobre o Primeiro-ministro. E temo que isso seja um fardo muito difícil de gerir, ganhe quem ganhar as eleições. Seja no caso Freeport, seja na questão da eventual espionagem aos seus opositores, seja no ataque à TVI e ao Público, seja nos múltiplos negócios que estão por esclarecer, da OPA da Sonae à crise do BCP e à interferência da CGD, seja no caso BPN e nos nunca esclarecidos movimentos do dinheiro da Segurança Social, seja na tentativa de compra da PT da Media Capital e etc,. etc. Um etc. demasiado grande.

Pacheco, pondo a carne toda no assador a poucos dias das eleições legislativas de 2009

Então eu já tenho medo de ouvir o telemóvel com medo de estar a ser escutada, agora ainda vou ter medo de sair de casa com medo de ser seguida?

Ferreira Leite, escolhendo Aveiro para se passar por vítima de eventuais escutas na precisa altura em que decorria uma operação de espionagem a Sócrates a partir de Aveiro

Já não há pachorra para perder sequer uma caloria a emitir juízos sobre o carácter, a ética e a decência destes infelizes. Já se disse no tempo próprio o que havia a dizer. O que importa realçar no contexto é a evidência de terem sido os ataques a Sócrates igualmente ataques a todo e qualquer um que estivesse ao seu lado. O ódio chegou a um tal paroxismo que o Pacheco se permitiu caluniar – e a troco de dinheiro – que em certos blogues escreviam funcionários e membros do Governo, mas sem disso ter a mais vaga prova e dessa mentira nunca tendo assumido a responsabilidade. Logo, se pessoas de quem ele tudo desconhecia, menos as palavras que livremente publicavam em registo particular, lhe apareciam como alvos legítimos para o seu alucinado fel, quão mais e por mais pungentes razões lhe devem ter surgido aqueles que estavam perto de Sócrates, alguns deles exercendo poder governativo.

Eis que nesta quinta-feira teremos o José Pacheco Pereira a ilustrar com a sua magnífica presença e supinos considerandos uma obra de sócraticos ferrenhos, daqueles com as unhas todas encardidas das socratices que andaram a fazer. Que vai dizer o nosso Marat da Marmeleira? Não faço ideia. Mas tenho uma absoluta certeza a respeito do que não vai dizer, isto:

“Peço desculpa, fui um traste com este, com aquela, com os outros, por isto e por aquilo. Agora, e com a vossa licença caso se considerem ressarcidos, falemos do livro.”

Afinal, queremos ser iguaizinhos à Grécia

Vítor Gaspar anunciou ontem no Parlamento que Portugal beneficiará das novas condições que serão aplicadas à Grécia. É um anúncio espantoso. O Governo não pode ouvir a oposição, ou seja quem for, falar em renegociação do Memorando. A postura tem sido a de total subserviência em relação à troika, creio que o primeiro-ministro chegou mesmo a dizer que se sentia muito confortável com as condições que nos têm sido impostas. Por outro lado, a falta de solidariedade com os gregos tem sido inacreditável. Ninguém, e muito menos Portugal, quer ser confundido com tal país. Se não estão satisfeitos é deixá-los espernear sozinhos, que nós por cá não temos nada a ver com isso. Mas, atenção, se os gregos conseguirem melhores condições, nós queremos igualdade de tratamento. O que chamar a uma postura destas?

E, já agora, o Governo que diga o que chamar a isto. Já vi a palavra ‘renegociação’ escrita nalguns jornais, mas é óbvio que não é a palavra certa.

Se Cavaco nada fizer no prazo de 8 dias contados da data da receção do OE, pois assim será

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=2912685

Bem sei que a direita já disse mais do que uma vez que parte deste OE é “culpa” do TC, quando o TC adiou os efeitos da sua decisão e o Governo teve o luxo inconstitucional de brincar às contas com duas remunerações de funcionários públicos e mais duas (reformas e pensões) de reformados e pensionistas. Como se viu, a brincadeira ajudou nas contas, mas sobretudo no efeito recessivo causado pela contração do consumo imedita por parte dos atingidos, aquando do anúncio da medida inconstitucional. É um efeito psicológico imediato, pois.

 Agora voltam a atacar quem descontou 14 vezes por ano uma vida inteira para uma pensão ou uma reforma, roubam dinheiro alheio, roubam remunerações e fingem que devolvem um ou uma, imediatamente aniquilados por um sistema fiscal maoista.

Tem o Governo, o PSD e ultimamente o CDS por estranho que aquela coisa chata de nome Constituição me permita agir com mais 22 Deputados e que se o TC nos der razão, manda a democracia calar ou, em comentando com o termo “culpa”, explicar, no quadro de um Estado de direito, que a “culpa” é de quem, de acordo com a decisão soberana, violou a Constituição e não do decisor soberano defensor da constitucionalidade.

 

Que saudades do tempo em que o Parlamento, ou mesmo a Assembleia, impunha limites e encontrava soluções

Aquilo que está a ser feito a este país tem de ter um limite. Esse limite passa por este Parlamento.

De uma coisa poderão estar certos: é que em democracia há soluções, as soluções de Governo passam por esta Assembleia.

Manuela Ferreira Leite, na tarde de 23 de Março de 2011, assim justificando a ruína e entrega do País a Passos e ao dr. Relvas

Num universo paralelo algures perto de si

Perante protestos e apartes da bancada social-democrata, Teixeira dos Santos afirmou: «Há neste PSD um lado que defende propostas radicais e aventureiras. Radicais, porque saem fora do consenso europeu e da sua própria família política. É exemplo a sugestão de que não são precisas mais medidas para se cumprirem os objectivos orçamentais.».

«Aventureiras, porque entraram por caminhos desconhecidos sem explicitar os perigos que contêm. É exemplo a polarização populista contra o PEC IV como acordado com a União Europeia e o Banco Central Europeu», completou.

Sem se referir directamente ao presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, o ministro das Finanças apelou: «Em tempos de crise e emergência o radicalismo e o populismo são perigosos. Quando os problemas são especialmente sérios, e é este o caso neste momento, torna-se tentador procurar soluções em jogadas de alto risco. Temos de resistir a essa tentação».

Segundo Teixeira dos Santos, «existe um outro lado no PSD, um lado moderado e herdeiro de uma orgulhosa linhagem europeísta», que tem «um sentimento de responsabilidade» e que «trará o PSD ao debate sobre o PEC IV».

O ministro das Finanças elogiou «a prudência, contra a tentação radical», e dramatizou: «Tudo será muito mais difícil se o nosso sistema político não souber resistir às tentações que enfrenta neste momento».

Universo gasparino

Estejam calados e, de preferência, quietos

Nalguma televisão perto de si é altamente provável que ouça comentadores (e jornalistas atordoados, como Helena Garrido) a desafiarem o PS a calar-se – a propósito das críticas feitas aos excessos do incompetente Gaspar – ou a apresentar alternativas 1) ao aumento brutal de impostos para 2013 (incluindo do IVA na restauração) e 2) à reforma do Estado social agendada para daqui a três meses e que tem de garantir um corte de pelo menos 4000 M€ na chamada “despesa” do Estado. Quando ouvir tal censura/desafio, lembre-se do seguinte: o PS, que conta com quadros altamente competentes e experientes, nunca se lembraria, nem com o Seguro na liderança, de enfiar pela garganta dos portugueses uma dose cavalar de um medicamento tão forte e repleto de efeitos secundários. Muito menos o faria com requintes de malvadez, ou seja, deliberadamente e com uma folha de cálculo na mão, como parece. Mas o PSD, sempre básico na burrice, não se lembrou de outra coisa!
Gaspar e os que, por vacuidade, nele apostaram as fichas todas fizeram asneira e da grossa ao quererem ir mais longe do que o programa da Troika – destruíram a economia muito para além do previsível em contexto de “assistência” externa (que haveria que evitar!), não obtiveram as receitas pretendidas, não reduziram a dívida, não reduziram o défice e aumentaram a despesa do Estado. Perante estes resultados, seria de esperar que avançassem de mansinho, disfarçassem mas negociassem alguma inversão ou mera suspensão de trajetória e não tivessem o desplante de criticar quem os critica por se terem estatelado desta maneira apesar dos avisos. Mas desplante é coisa que não lhes falta. Assim, vão ao depósito da São Caetano, onde o diligente Moreira da Silva os municia, e começam a disparar contra os outros, proclamando que quem ousa criticar deve apresentar alternativas. Ó alminhas! A alternativa, apesar de ser tarde, era saírem daí e não terem aberto o buraco que abriram, mas, dada a impossibilidade, pelo menos não mexam mais onde não sabem. Quietos fariam menos estragos. Se o encerramento de restaurantes devido à insustentabilidade da nova taxa de IVA vos traz menos receitas do que a manutenção da taxa nos 13%, o melhor será absterem-se de intervir nessa área. E, se a retirada de 4000 M€ a mais da economia em 2012 através dos cortes “além da Troika” produziu o descalabro que hoje se vive, sente ou observa, parem de retirar mais dinheiro da economia (mais 4000 em 2013 a somar ao que se subtrairá com os novos cortes previstos no OE) e poupem-nos ao discurso subsequente de que não podemos pagar o Estado social que temos. Nós sabemos porquê. E sobretudo mudem de ferramenta – vão buscar o cérebro. Não tarda muito não teremos sociedade que justifique sequer um Estado.

“O Citigroup prevê uma contracção de 4,6% do produto interno bruto português (PIB) em 2013 e de 2,4% em 2014 e a “fadiga causada pela austeridade está a crescer rapidamente”, salienta. A dívida pública deverá crescer para um valor equivalente a 140% do PIB até 2014, sem reestruturação, estima o banco.”

Um mal nunca vem só

A primeira entrevista da nova liderança bloquista não produziu qualquer novidade política que justifique o gasto de neurónios no seu armazenamento. O único ponto de interesse foi mesmo o do formato, apreciar os protocolos e minudências que uma dupla de dirigentes a discursar ao mesmo tempo iria exibir.

E o que se viu foi uma linguagem não-verbal e uma atitude interventiva onde a diferença de idade, mas também a de género, estava a condicionar a parelha. Assim, Semedo indicou subtilmente a Vítor Gonçalves que não queria ser ele a falar em primeiro lugar. Qualquer racionalização desta opção, seja para evitar aparecer como o elemento preponderante ou para se armar em cavalheiro com uma senhora e sua precedência em contexto social, o que revela é o mais clássico e entranhado machismo. E deste começo em diante a coisa só piorou, pois passou a mostrar zelo na protecção da sua companheira sempre que a via em apuros; sendo o caso mais óbvio aquele da temática bancária em que o jornalista estava a explorar uma fatal ignorância no argumentário da Catarina. Isto significa, então, que ao machismo temos de acrescentar o paternalismo.

As situações em que os dois coordenadores apareçam juntos para interrogatórios serão raras face ao conjunto das tarefas que terão pela frente, pelo que as suas prestações só tenderão a melhorar depois deste tirocínio. O que realmente estimula o cidadão apaixonado pela cidade é o seguinte corolário: a opção do BE pela liderança bicéfala faz do género a sua causalidade. Não há nenhuma outra razão para termos este casting a não ser a vontade do realizador em fazer um filme com actores seus predilectos que garantissem uma daquelas comédias românticas com obrigatório final feliz. Semedo e Catarina não tinham passado comum que justificasse a sua simultânea elevação à chefia do partido. Eles apenas se limitaram a aceitar o casamento que outrem lhes arranjou por correspondência e sem direito a namoro.

Louçã podia ter escolhido quem quisesse para a sua sucessão. Logo, já que estava com a ideia fixa nesta parolada de querer parecer moderno ou porque não confiava em ninguém o suficiente para o deixar sozinho à frente do barco, poderia ter escolhido dois homens, duas mulheres, dois idosos, duas moçoilas, um casal de bichas ou um preto e um cigano. Poder podia, mas, grande alquimista que é e para sempre será, quis ter um homem e uma mulher, e que esse homem fosse sábio e que essa mulher fosse fértil. Onde é que estamos? No Éden. A ver a tal comédia romântica. Uma fita onde a política desaparece no naturalismo. A história do Ocidente, aliás, não tem sido outra coisa – a fragilidade do político perante a constante tentação da sua substituição pelas abstracções cósmicas ou pelas forças ctónicas.

Sabemos que a água canalizada está cheia de drogaína quando…

“Posso bem com aqueles que pensam diferente de mim e posso bem com aqueles que acham que estamos a seguir um caminho de austeridade excessiva. Confio muito na inteligência dos portugueses”, declarou Pedro Passos Coelho no encerramento do XIV congresso regional do PSD-Madeira.

Segundo o responsável, o PSD tem de “saber ir contra a corrente e manter firmeza”, adiantando que o partido e o Governo “não quer alinhar na demagogia e no populismo que nos trouxeram até aqui”.

Pedro “Eu já ouvi o primeiro-ministro dizer, infelizmente, que o PSD quer acabar com muitas coisas e também com o 13º mês, mas nós nunca falámos disso e isso é um disparate” Coelho

O CDS ia apresentar muitas propostas na especialidade, pois

As mudanças no IRS inscritas no orçamento demonstram a “força” e a “determinação” do CDS-PP . Mais: a sua “utlilidade” e “os limites que está disposto a aceitar”.

Agarrados à sua “identidade”, os populares conseguiram a ofensiva redução de 0,5 pontos percentuais da sobretaxa.

Eis o preceito do CDS. Eis a norma que identifica o fluente “partido dos contribuintes” com, imagine-se, 10% dos votos a valerem a redução da sobretaxa em 0,5%.

Este é o CDS de agora.

É o que resta.

É uma triste antevisão.

O CDS-PP assinou o seu suicídio: o enorme aumento de impostos que corresponde ao enorme fracasso da estratégia de Orçamento do Estado para 2012. O CDS- PP é cúmplice de um orçamento inexequível, é muleta da cegueira quanto aos dados da execução orçamental que provam  o completo fracasso do aumento de impostos. O CDS é suporte e executante de um orçamento recessivo, negado por todos, mentiroso nos dados que apresenta. O CDS-PP sublinhou tacitamente por baixo tudo o que foi afirmado por Vítor Gaspar.

Mas o Partido do contribuinte que ia apresentar muitas propostas na especialidade poderá dizer que conseguiu a redução de 0,5 pontos percentuais da sobretaxa.

É memorável.