Arquivo mensal: Setembro 2012
Ainda há quem nos consiga fazer rir
(Pausa na política) A morte é um erro corrigível
Se o mundo não for pelos ares graças aos fanáticos e suicidas fundamentalistas islâmicos, à raiva acumulada ou instigada nalguns povos, à ligeireza, arrogância ou provocação de algum governante do tipo António Borges, ou simplesmente a um acaso cósmico, a humanidade poderá viver para usufruir de um mundo semelhante ao gizado e pacientemente construído (tantas vezes involuntariamente) por inúmeros cientistas anónimos da área da biotecnologia, da medicina genética e da inteligência artificial, cujo trabalho é agora divulgado por Michio Kaku, um físico teórico norte-americano de ascendência japonesa, que se especializou na teoria das cordas, lecciona no City College de Nova Iorque e dedica ainda algum tempo a entrevistar para a rádio e a televisão dezenas de colegas cientistas visionários. O seu papel (e desejo) ao publicar livros que fazem o ponto da situação dos avanços tecnológicos é, de certo modo, o de Júlio Verne – prever o futuro. E como o francês acertou!
A vida eterna não viola as leis da física.
A revista Der Spiegel (versão inglesa) entrevistou-o a propósito do seu mais recente livro, de 2011, “Physics of the future. The inventions that will transform our lives”. Vale a pena ler, quer a entrevista, que aguça o apetite, quer o livro (já cá canta). Algo do que descreve virá a ser realidade um dia. Não sei se será um bom e tranquilizante futuro, se um mau e angustiante o que nos espera, mas o que está previsto é, por exemplo, que objetos como uma sanita nos possam dizer instantaneamente o nosso estado de saúde, nomeadamente se há algum tumor maligno em desenvolvimento, ou algum cancro declarado, para ir direta ao que mais nos assusta. Se o veredicto que resulta da mera satisfação de uma necessidade fisiológica for positivo, o mais provável é não termos de entrar em pânico e ficar perdidos; prevê o cientista a possibilidade de comunicarmos, ou melhor “confessarmos”, de imediato à parede do sanitário o nosso problema, parede essa que estará ligada a um médico-robô, que nos dirá o que fazer. A solução ideal poderá vir a ser uma correção genética. No limite, tantas quantas forem necessárias para a vida eterna. Mas já antes de darmos o primeiro berro de protesto por nos lançarem neste mundo, as nossas imperfeições, digamos, poderão ser corrigidas. O que fazemos com os robôs não impedirá, muito pelo contrário, que sejamos nós próprios objeto de aperfeiçoamentos. Podemos fundir-nos. E, sim, podemos trabalhar em nós. Já o fazemos, de resto.
Este e outros temas, como a necessidade de acrescentar a sensação de dor aos robôs para evitar a sua própria destruição em determinados contextos agressivos, ou a possibilidade futura de ligar as lentes de contacto à Internet, são tratados nesta entrevista, que, podendo levar-nos a duvidar e a sorrir, nos permite mesmo assim acreditar na nossa espécie e refletir sobre uma cadeia de questões.
Boas leituras.
Atenção pessoal, o governo perdeu os travões
Primeiro foi a história da TSU. Foi preciso encenar aquela coisa do Conselho de Estado para que Passos Coelho parasse e fizesse marcha atrás.
Agora é a história da privatização da Caixa que, segundo o Expresso, foi “travada” in extremis por Belém e pelo… Banco de Portugal (não estou a delirar).
O governo dá cada vez mais a impressão de ser inimputável, necessitando ter sempre alguém à perna para se evitar o pior. Filme de terror, não é?
Estava para aqui distraído e não reparei
Duas histórias para contar
Cavaco Silva fez a Portugal o que se sabe e o que não se sabe, nem se sabe se alguma vez se saberá. Destruiu a agricultura e as pescas, não introduziu novas indústrias nem renovou as antigas, desbaratou os dinheiros europeus, aumentou o peso do Estado, chefiou um bando de políticos que enriqueceram no Cavaquistão e construiu algumas boas estradas. Durão Barroso jurou que a sua missão na Terra era ser primeiro-ministro de Portugal, prometendo ser o novo Cavaco e o rosto da salvação nacional, mas fugiu cobardemente passados apenas dois anos da realização do seu destino. Santana Lopes não tinha planeado ser primeiro-ministro no Verão de 2004, o resto do País também não. Quando se esperava que Ferreira Leite assumisse a responsabilidade de aguentar com a irresponsabilidade de Barroso, a escolha recaiu numa figura que de imediato – isto é, no seu primeiro discurso como primeiro-ministro – revelou estar completamente à nora com o poder que lhe tinha ido parar às mãos. Os meses seguintes levaram essa impressão ao seu paroxismo, tendo Santana, um circense bluff que surpreendeu quem o admirava como tribuno, acabado por ser a condição sine qua non para a primeira maioria absoluta do PS.
Esqueçamos estas misérias clássicas do PSD. O que está a acontecer em 2012 é algo que não tem comparação com nenhuma situação de que haja memória em democracia. Atente-se. O actual Governo foi preparado durante mais de 1 ano, logo a partir da vitória de Passos no partido em Março de 2010. Teve o apoio fáctico de toda a oligarquia para a sua viabilidade. Teve a cumplicidade decisiva do Presidente da República para a sua existência. Recebeu a protecção do Memorando e da Troika para qualquer medida ideologicamente radical, por mais impopular que fosse, que quisesse tomar. E que se passa agora? As contas do Estado, que este Governo conheceu com absoluto detalhe antes de tomar posse por via da sua participação na negociação do Memorando, estão muitíssimo piores do que em Março de 2011, do que em Junho de 2011, do que em Janeiro de 2012, do que em Agosto de 2012. Os portugueses estão muitíssimo piores hoje por comparação com o que estavam ontem, amanhã por comparação com o que estão hoje. Porque, ao arrepio da moderníssima lipoaspiração e suave dieta, prometidas na campanha eleitoral, estamos perante uma sangria medieval às mãos de carniceiros. O mata-sanos acha que a doença está no sangue, há que retirá-lo do organismo com cortes e sanguessugas.
Portugal está sob intervenção externa e não tem Governo, não tem Presidente da República e não tem oposição. Mas tem duas histórias para contar: aquela de como chegámos aqui e aquela de como vamos sair daqui. A primeira é fácil de contar. A segunda vai ser escrita por aqueles que sabem ler o tempo.
Será que o Borges fez os exames todos lá na América?
Sobre a abortada reforma da TSU, que todos os assalariados, a maioria dos empresários, grande número de comentadores económicos e cerca de 90% dos portugueses consideraram uma estupidez e/ou um roubo, disse hoje António Borges, no seu português algo claudicante:
Que a medida é extremamente inteligente, acho que é. Que os empresários que se apresentaram contra a medida são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas.
O super-pseudoministro Borges assegurou ainda que a abortada reforma da TSU não implicava uma transferência de rendimentos dos trabalhadores para as empresas: “Não se trata de transferir rendimentos de ninguém para ninguém”. Dando-se conta de estar a negar o inegável, observou todavia, agitando o seu papão preferido:
Acho extraordinário o debate de que estamos a transferir dinheiro do trabalho para o capital. Parece que voltámos ao marxismo e que o capital é uma coisa má.
O Borges tem razão, só mesmo o marxismo é que seria capaz de chamar transferência de dinheiro a uma transferência de dinheiro. Mas ficámos a saber pela boca deste especialista de managerial skills que a maioria dos empresários portugueses é “completamente ignorante” e que jamais passaria no primeiro ano do curso dele. O Borges não se pronunciou sobre as centenas de milhares de manifestantes contra a medida, mas podemos conjecturar sem risco que os considera abaixo de lixo marxista, qualquer coisa como C- num imaginário rating da Standard & Poor’s.
Entretanto, à revelia do Borges, a revista online The American, órgão do American Entrerprise Institute, um think tank da direita, publicou uma artigo sobre a reforma portuguesa da TSU, intitulado Um auto-golo em Portugal
Vale a pena citar uma parte, que só diz aquilo que a massa dos portugueses “completamente ignorantes” está farta de saber, isto é, que a medida não faria qualquer sentido do ponto de vista económico e que a última coisa de que Portugal precisa neste momento é de uma quebra substancial da procura agregada:
The public outrage against the government’s social security proposal would suggest that it was ill-advised from a political standpoint in a way that is all too reminiscent of Margaret Thatcher’s poll tax in the United Kingdom in 1989, which cost her so dearly politically. However, the more disturbing aspect of the proposal is that it makes very little economic sense, especially when Portugal is in a deep recession and the IMF-EU program is already forcing it to pursue a pro-cyclical fiscal policy.
The last thing that Portugal needs right now is a further meaningful reduction of aggregate demand. Yet that is precisely what this social security proposal would do. A hike of as much as 7 percentage points in employees’ social security contributions will surely lead to an immediate substantial decline in household consumer spending. This would especially be the case considering how income-constrained most Portuguese households are.
E o artigo termina fazendo votos para que a medida não vá avante, caso contrário a economia portuguesa em 2013 ficará boa para a extrema-unção.
Perante tal atestado de inépcia passado pelos seus pares dos states, resta a pergunta: – Será que o Borges fez os exames todos lá na América? Ou teve umas equivalências à Relvas?
Parcerias entre Políticos e Pulhas
Quem tem medo do Paulo Campos? Porque não chamam o homem às televisões e tratam de o expor e crucificar em directo? Não será este ostracismo o mais acabado exemplo de uma asfixia democrática daquelas farfalhudas? Se o Medina Carreira e o José Gomes Ferreira acharem que não chegam para ele no mano a mano, metam lá também o Crespo, a Moura Guedes, a Helena Matos, aquele bófia que lidera a JSD e um piquete do Correio da Manhã. Vamos lá, malta. Mas será que o laranjal nem sequer o Paulo Campos – o Campos da trapalhada com a Joana Amaral Dias, o Campos saco de encher dos ranhosos, o Campos das centenas de milhões de euros das PPP que terá metido no bolso das construtoras amigas segundo a seríssima opinião da gente séria – consegue apanhar? Se não conseguem, poderão ao menos desmentir estas afirmações ou já nem para tal têm forças tão ocupados como estão a arruinar o País?
“Há longos meses que se assiste a insinuações e calúnias, na maioria das vezes sem qualquer possibilidade de contraditório, apesar de eu, reiteradamente, ter manifestado a minha disponibilidade para exercer esse contraditório”, disse.
Paulo Campos crítica também alguns espaços televisivos em que têm sido analisadas as questões relativas às PPP.
“Nos programas com Medina Carreira [na TVI] e de José Gomes Ferreira [jornalista da SIC], estas questões são semanalmente debatidas, sem que haja a presença de vozes discordantes que possam dar uma visão alternativa relativamente ao que se passa”, afirmou.
“Na maioria dos casos, este combate político tem sido desigual, porque é utilizado um tempo de antena que não é dado à outra parte”, criticou.
“Entendo que nem sempre tem sido veiculada a verdade pelos órgãos de comunicação social. Ainda na quarta-feira, houve uma reportagem de três ou quatro minutos a colocar ex-ministros das Obras Públicas como responsáveis de determinadas PPP e que terminava a dizer que no primeiro trimestre deste ano já se pagaram 250 milhões de euros. Ora, desses 250 milhões de euros que estavam nessa reportagem, nenhum tem a ver com qualquer PPP lançada por governos de José Sócrates, há claramente uma mistificação que é transmitida ao país”, apontou.
Já não há paciência para a democracia, confessa Marques Mendes
Este belo espécimen do que é, e do que vale, a actual direita partidária portuguesa, uma das vozes que não se têm calado a pedir a criminalização de socialistas pelo simples facto de serem socialistas, anda na política remunerada desde 1977. Tinha então vinte aninhos quando se agarrou a ela para nunca mais a largar. Idade presente: 55 bolos de aniversário. Diagnóstico do regime: os partidos não prestam. Retórica: populismo.
É assim a elite escavacada do PSD, a incontrolável projecção no exterior do estado putrefacto em que se encontra:
O antigo ministro dos Assuntos Parlamentares e ex-deputado criticou ainda o que considera serem os “vícios” e a “hipocrisia” da actual vida parlamentar. O Parlamento “é cada vez menos importante e cada vez tem menos prestígio”, afirmou, para depois criticar a “superficialidade” com que muitas matérias são tratadas em Portugal e na Assembleia da República. “Adorei ser líder parlamentar, mas hoje já não teria paciência para me sentar lá”, disse, acrescentando que muitos deputados defendem algumas coisas pessoalmente que depois, na bancada, não assumem.
“DEFINE CONDIÇÕES PARA A RENEGOCIAÇÃO URGENTE DA DÍVIDA PÚBLICA”
PROJECTO DE RESOLUÇÃO DO BE VOTADO HOJE
“No contexto da crise da dívida soberana que afectou Portugal, foi estabelecido um empréstimo através de negociação entre o Governo da República e três instituições, o BCE, a Comissão Europeia e o FMI. Esse empréstimo é definido por um conjunto de condições estritas, consignadas em dois memorandos, que são hoje públicos.
O empréstimo assegura o cumprimento das necessidades de pagamento de dívida cujo prazo se conclui nos próximos três anos, se bem que os seus efeitos se prolonguem muito para depois disso, nomeadamente quanto ao pagamento do novo crédito assim contraído. Portugal substitui assim uma parte considerável dos seus credores, parte que deixará de ser constituída pelo mercado financeiro – isto é, por banco, companhias de seguros e fundos de pensões, além de outras aplicações – e passará a ser constituída, nessa medida, pelas três instituições referidas. Assim, a dívida ficará em grande medida, se bem que não totalmente, concentrada nessas três instituições. Esse facto modifica as condições da sua renegociação e assegura um carácter mais político dessa renegociação necessária.
A renegociação é necessária para evitar a precipitação da bancarrota ou a ameaça da saída da zona euro, que acentuaria a recessão e agravaria a transferência de rendimento do trabalho para o capital que resulta das medidas dos memorandos.
De facto, o juro atribuído a estes créditos é excessivo e impagável, e os prazos são demasiado curtos. O resultado destes contratos será não unicamente a recessão prolongada, o que é aceite e antecipado pelos próprios credores e por quem no Estado português assinou o acordo, mas também a incapacidade de satisfazer as responsabilidades do Estado no futuro imediato, dada a recessão e o aumento do endividamento. Para salvar a economia e para pagar o que é devido, a renegociação é o único plano razoável para a economia portuguesa.
Essa renegociação deve ser feita no imediato. Se for adiada, as condições serão sempre piores porque a economia portuguesa estará já em recessão prolongada ou em depressão, o que implica menos receitas fiscais, mais despesas ou mais cortes sociais e portanto mais dificuldades para as pessoas.
Assim, nos termos constitucionais e regimentais aplicáveis, a Assembleia da República recomenda ao Governo que:
1. Proceda a uma renegociação da taxa de juro e dos prazos do empréstimo contraído, de modo a que essas condições sejam, pelo menos, equiparáveis à de outros contratos estabelecidos em condições semelhantes e nunca mais prejudiciais;
2. Negoceie com as instâncias credoras uma condição de tecto para os pagamentos do serviço da dívida de modo a permitir um investimento público que, direccionado para a promoção da criação de emprego, qualificação dos serviços públicos e o apoio a exportações ou substituição de importações, constitua o estímulo necessário para a recuperação da economia de modo a evitar a bancarrota.”
Como tem sido defendido por vários Deputados do PS, este é o caminho. Se o que se vai acordando com a TROIKA é inalterável, então teremos de rever, por maioria de razão, tudo o que aprendemos acerca da revisão de tratados internacionais. Há fatores, como os que se reconduzem à fórmula da “alteração de circunstâncias” que não só justificam como obrigam a que se revejam contratos, acordos, tratados.
É bom, no que a esta renegociação diz respeito, que Portugal aumente o seu poder negocial juntando-se a outros em condições análogas.
Renegociar a dívida é devolver uma democracia cada vez mais usurpada por condições que esbulham o poder viver e o poder escolher.
O projecto de resolução do Bloco de Esquerda para a renegociação da dívida pública foi chumbado pela maioria PSD/CDS e PS, mas teve o meu voto favorável e a abstenção de seis socialistas.
Exactissimamente
O nazi, a Moura Guedes e o Maserati
Foi nisto que a direita portuguesa se transformou, esta decadência e marginalidade, ou assim se revelou no seu ódio a Sócrates – o qual é também um ódio ao Estado de direito, à democracia e à honra:
Excelente post do Hugo: austeridade versus democracia. Aquilo que devia estar a ser repetido sem parar
“A impunidade da Ministra da Justiça é que devia acabar” “A Ministra da Justiça não pode ser a Ministra do Justicialismo”
As somas nulas do governo
Na oposição, a plateia laranja agitava histericamente o espantalho das fundações e das PPP – símbolos máximos das gorduras e da ruína do Estado. No poder, os Abranhos, Gouvarinhos e Acácios, obrigados a fingir que cumprem algumas promessas, só têm produzido pilhérias, como diria o pai deles, o Eça.
Com previ, a histeria anti-fundações pariu um rato. Gastaram um pipa de massa num censo de palhaçada que classificou a Gulbenkian, a mais importante fundação portuguesa, abaixo da fundação do Alberto João Jardim, denunciada na Madeira como uma falsa fundação, ou seja, uma organização que existe para receber “donativos” de origem duvidosa, para financiar actividades partidárias e para isentar esse partido de diversos impostos e taxas, como o IMI. Agora vêm os governantes propor a extinção de 11 fundações universitárias, medida essa que não vai representar 1 cêntimo de poupança e quiçá, a prazo, vai aumentar a despesa do Estado. No melhor dos casos, será de soma nula.
Quanto a Serralves, Casa da Música, Casa das Histórias de Paula Rego, etc., a decisão segue o lema principal de Passos Coelho: “Que se lixem!” De facto, Portugal não merece ter museus nem salas de concertos. A propósito: quanto terá custado a construção e manutenção até hoje do Centro Cultural de Belém, obra faraónica da época do sr. Silva, em cujo reinado se fez também a mais faraónica sede de um banco em Portugal, a da CGD? Será que Ferreira Leite também engloba o CCB e a sede da CGD naqueles investimentos que “arruinaram o Estado” e “comprometem o futuro dos nossos filhos”?
O guru de Economia da Rádio Católica, o esverdeado Sarsfield, foi ontem à TV explicar que antigamente é que era bom: um milionário quando morria deixava o pastel para uma fundação e o Estado não tinha que lá meter um tostão. (Nunca foi verdade: o próprio Botas perdoou todos os impostos a Calouste Gulbenkian e à Fundação). Agora não, lamenta-se o esverdeado comentador, as fundações querem “viver à pala” do Estado. Sarsfield, que de vez em quando não recua perante as opiniões mais trogloditas, não explicou (também ninguém lhe perguntou!) porque é que o censo do governo não abrangeu as 100 fundações da Igreja e quanto é que estas recebem em subsídios e benefícios fiscais do Estado.
Quanto às PPP, o governo fez mais ou menos o mesmo passe de ilusionismo. A tal poupança que a renegociação dos contratos vai originar tem como contrapartida para as empresas que o Estado – através das Estradas de Portugal, etc. – vai assumir encargos que nos contratos cabiam às empresas. Soma nula, no melhor dos casos, previu ontem na SIC o economista Caldeira Cabral, da Universidade do Minho.
Alternativa mesmo
O futuro para os países do sul da Europa apresenta-se cada vez mais negro. Nem a Grécia, nem Portugal, nem a Espanha (e vamos a ver a Itália) conseguirão sair do buraco para onde estão a ser empurrados enquanto continuarem membros da união monetária. Mas ninguém ousa propor seriamente o regresso à moeda nacional, o que me parece estranho, pois já por cá tivemos o FMI no passado e recuperámos em dois anos. Fantasmas vários são permanentemente acenados. Pergunto-me se, para a maioria da população, o abandono do euro seria assim tão catastrófico, ou pelo menos tão mais catastrófico do que a sua preservação, que é o que acontece de momento.
A permanência no euro implica claramente o controlo das operações de crise pela Alemanha, o maior contribuinte. E em que têm consistido? Desde o rebentar da bolha financeira que a estratégia não tem sido outra senão a de ganhar tempo para que os bancos nortenhos estabilizem a sua situação e recuperem ao máximo da exposição à dívida dos meridionais, aos quais se impõem políticas de austeridade/rapina insuportáveis. O BCE tem sido um mero joguete nesta estratégia. Ora não diz nada de diferente da chanceler e dos ministros alemães, atendo-se estritamente aos seus estatutos, ora aparenta ultrapassar as personagens pela esquerda e promete comprar dívida soberana sem limites no mercado secundário, aliviando um pouco a pressão sobre os países em dificuldades, mas logo impondo condições de tal maneira teutónicas que praticamente anulam os efeitos do anúncio anterior, como se vê com o caso atual da Espanha. Agora já nem a ajuda à banca espanhola parece estar garantida, depois das declarações de recusa de países como a Finlândia, Holanda e Alemanha. Enquanto isto, a economia dos países que se encontram a “cumprir pena” sem julgamento vai-se destruindo, o património é vendido ao desbarato, o nível de vida das populações regressa aos anos 60, muito antes da adesão à CEE, o Estado social esfuma-se e a democracia deixa de existir, pois nenhum governo se aguenta muito tempo aplicando políticas ostensivamente suicidas, ainda que as assuma como suas.
Estamos, pois, a chegar a uma encruzilhada. Não intervindo o BCE para parar a especulação no início, já empobrecemos tanto quanto teríamos empobrecido se tivéssemos abandonado a moeda única. Vamos empobrecer mais, como tudo indica e nos exigem. Se, em cima disso, e por força da situação espanhola, formos forçados a sair do euro, então será o abismo, se bem que temporário, e, mais grave ainda, a sensação de que foi totalmente perdido o tempo gasto nas sucessivas austeridades. É verdade que toda a Europa está a aplicar políticas de contenção orçamental. Mas são de intensidade muito variável e incidem sobre bases de rendimentos muito diferentes. E não põem em causa o generoso Estado social. Como pedir a pessoas que ganham 500 euros que passem a ganhar 300? Além disso, há notícias de que bancos suíços terão há pouco tempo comprado maciçamente dívida alemã, francesa, holandesa, etc., conferindo a esses países vantagens incompreensíveis sobre outros. Já não existe União Europeia. Há muito que entrámos no “cada um por si” e no “quem pode pode”.
Em suma, que esta história é longa e não acabou, se e enquanto a linha política da UE continuar a ser a austeridade cega e a punição dos mais fracos, independentemente das consequências a nível doméstico, qualquer político que queira assumir as rédeas de um país como o nosso dando alguma esperança de saída deste sufoco terá de apresentar-se com a hipótese de saída do euro na bagagem. Caso contrário, (já) não adianta. Será queimado vivo. Mas precisamos de alguém que fale claro. Para dentro e para fora.
Das Fundações – requerimento do PS
“Ex. ma Sr.ª Presidente da Assembleia da República
O XIX Governo Constitucional apresentou à Assembleia da República uma Proposta de Lei que
pretendia determinar a realização de um censo dirigido às Fundações, com vista a avaliar o
respectivo custo/benefício e a sua viabilidade financeira, de modo a decidir sobre a manutenção
ou extinção das Fundações actualmente existentes.
Essa Proposta foi apresentada, não só como medida que visava cumprir a meta do Programa de
Assistência Económica e Financeira a Portugal, que prevê a realização de uma avaliação
detalhada de todas as entidades públicas em todos os setores das administrações públicas, mas
principalmente, como uma medida do programa do Governo que definiu como prioridade
relevante “a redução da estrutura organizativa do Estado e dos seus custos, bem como a
promoção de uma maior eficiência operacional e uma maior eficácia governativa”.
Como insistentemente referiram ao longo do último ano, o processo avaliativo das Fundações
integra o Plano de Redução e Melhoria da Administração Central (PREMAC) e visa garantir uma
redução da despesa efetiva do Estado, uma racionalidade da despesa pública e um ganho de
eficiência na gestão dos serviços.
Aliás, o próprio Governo defendeu que “a racionalidade da despesa pública associada à
manutenção de fundações e à concessão de apoios financeiros a estas entidades tem elevada
relevância para o processo de ajustamento orçamental em curso”.
Com base na Lei n.º 1/2012, de 3 de Janeiro, o Governo realizou o censo proposto e apresentou
na passada Terça-Feira, por Resolução do Conselho de Ministros, a sua decisão política relativamente às Fundações.
Perante o resultado anunciado o Partido Socialista entende que o Governo tem o dever e a
obrigação de explicar ao povo português e ao Parlamento o motivo pelo qual uma medida tão
importante no processo de ajustamento orçamental em curso se traduziu na extinção de 4
Fundações, na recomendação do encerramento de 13 entidades ligadas a instituições de ensino
superior e 21 outras cuja “competência decisória” se encontra cometida às autarquias.
Importa pois determinar se o Governo sobrevalorizou a questão e não existiam assim “tantas
gorduras” nas Fundações ou o Governo não foi rigoroso na sua análise e nas opções que
tomou.
Em nome da transparência e do rigor que devem pautar as decisões políticas, o Partido Socialista entende que os portugueses e o Parlamento têm o direito de conhecer os estudos que
fundamentaram a proposta apresentada pelo Governo relativamente às Fundações e à
concessão de apoios financeiros pelo Estado a essas entidades.
O Partido Socialista considera que a verdade da decisão política é um princípio estruturante da
democracia e numa altura em que o Governo aumenta os sacrifícios aos portugueses é
igualmente necessário explicar detalhadamente as medidas que adota relativamente ao corte na
despesa do Estado. E essa explicação é ainda mais importante quando na comunicação social
várias Fundações que aparecem na lista apresentada pelo Governo como tendo cortes
significativos ou totais salientam que atualmente não recebem qualquer apoio financeiro do
Estado.
Neste contexto, nos termos regimentais e constitucionais aplicáveis, requeremos ao Senhor
Primeiro-Ministro, através de Vossa Excelência, que, em nome da transparência e rigor, sejam
remetidos ao Grupo Parlamentar do Partido Socialista todos os estudos que fundamentaram a
decisão política adotada pelo XIX Governo Constitucional na Resolução do Conselho de
Ministros n.º 79-A/2012, de 25 de Setembro”.
Palácio de São Bento, quarta-feira, 26 de Setembro de 2012
Deputado(a)s
CARLOS ZORRINHO(PS)
INÊS DE MEDEIROS(PS)
ANTÓNIO BRAGA(PS)
MOTA ANDRADE(PS)
JOSÉ JUNQUEIRO(PS)
ISABEL SANTOS(PS)
ODETE JOÃO(PS)
BASÍLIO HORTA(PS)
SÓNIA FERTUZINHOS(PS)
Good food for good thought
Childhood vaccines do not cause autism. Barack Obama was born in the United States. Global warming is confirmed by science. And yet, many people believe claims to the contrary.
Why does that kind of misinformation stick? A new report published in Psychological Science in the Public Interest, a journal of the Association for Psychological Science, explores this phenomenon. Psychological scientist Stephan Lewandowsky of the University of Western Australia and colleagues highlight the cognitive factors that make certain pieces of misinformation so “sticky” and identify some techniques that may be effective in debunking or counteracting erroneous beliefs.
The main reason that misinformation is sticky, according to the researchers, is that rejecting information actually requires cognitive effort. Weighing the plausibility and the source of a message is cognitively more difficult than simply accepting that the message is true — it requires additional motivational and cognitive resources. If the topic isn’t very important to you or you have other things on your mind, misinformation is more likely to take hold.
And when we do take the time to thoughtfully evaluate incoming information, there are only a few features that we are likely to pay attention to: Does the information fit with other things I believe in? Does it make a coherent story with what I already know? Does it come from a credible source? Do others believe it?
Misinformation is especially sticky when it conforms to our preexisting political, religious, or social point of view. Because of this, ideology and personal worldviews can be especially difficult obstacles to overcome.
Even worse, efforts to retract misinformation often backfire, paradoxically amplifying the effect of the erroneous belief.
“This persistence of misinformation has fairly alarming implications in a democracy because people may base decisions on information that, at some level, they know to be false,” says Lewandowsky.
Misinformation: Why It Sticks and How to Fix It
*
Tradução:
Venham do erro ou da intenção, os preconceitos, as difamações, as calúnias, os assassinatos de carácter e as campanhas negras resultam em danos irreparáveis para as vítimas. Foi por isso que apareceram logo nos primórdios da democracia, na antiga Grécia. Para aqueles que fazem da política uma arena onde vale tudo, não é preciso gastar calorias a desenvolver um projecto político nascido da inteligência e dirigido à vontade – basta odiar os adversários e dizer a verdade, essa.
Coisas que podemos começar a fazer hoje mesmo
Titulares de cargos politicos ou a laranja mecânica dos julgamentos antecipados
Não devia ter sido notícia a ocorrência destas buscas.
Não devia, num mundo há muito morto onde todos punham a luta partidária de lado para defender a separação das esferas da política e do Ministério Público e dos Tribunais.
Sabemos bem quando começou, de forma sistemática, essa coisa que arrumou com a suada conquistada presunção de inocência ou com a apologia do silêncio, quando não há sequer arguidos nem julgamentos em curso.
Mas a morte mediática de gente que não é gente porque anda na porca da política, com a ajuda de fugas de informação, tem autores vários, mas um só com 20 valores, aquele, o da “verdade” – lembram-se? – esse valor contra-Kantiano.
Resposta simples, ontem, a de Diogo Feio, dizendo que não comenta notícias destas nem participa no perigo da justiça mediática.
Pidescos o líder do grupo parlamentar do PSD e a inevitável Ministra da Justiça, pedindo “rapidez” e “exigindo” o “apuramento de responsabilidades”. A Ministra, que sabe tanto de princípios decorrentes do Estado de Direito como eu de Química nuclear, afirma mesmo que “acabou a impunidade”.
Assim: temos buscas, temos condenação.
