O ping-pong de Loff e Ramos

 Sobre a polémica entre os historiadores Rui Ramos e Manuel Loff, que tem andado nos jornais e na blogosfera, por exemplo aqui  ou aqui , apetecia-me quase dizer que estão bons um para o outro. Não o digo, porém, porque sendo ambos cultores duma história ideologicamente orientada e politicamente militante, que não me agrada, é-me contudo mais antipática a obra do relativizador-edulcorador-amnistiador do salazarismo, Rui Ramos. Em vários livros, Ramos consegue ir mais longe do que os velhos historiadores monárquicos no denegrimento sistemático da I República, raiando frequentemente o delírio. A visão alucinada que Ramos tem da I República serve-lhe precisamente para adocicar a imagem da Ditadura Militar e do salazarismo que lhe sucederam. Não me parece duvidoso que Ramos obteria um prémio do SNI com a sua História de Portugal (na parte da sua autoria), se o saudoso organismo da propaganda salazarista tivesse durado até hoje, com alguma inevitável “renovação na continuidade” pelo caminho. De Loff conheço menos obra, é certo − apenas dois ou três capítulos de um seu antigo livro, além de entrevistas em que expõe a sua visão sobre o fascismo e o salazarismo. Não li O Nosso Século é Fascista!, nem desejo ardentemente lê-lo.

 São precisamente o conceito de fascismo e o qualificativo de fascista que mais têm andado às bolandas neste chato ping-pong entre Ramos e Loff. Na raiz do problema, para Ramos, parece estar a facilidade com que em Loff salta o qualificativo de fascista; em compensação, o que enfurece Loff é o rebuscado branqueamento do salazarismo que o Ramos faz na sua história do Estado Novo. Se calhar têm ambos razão, o que sói acontecer nestes casos.

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O sonho de uma Universidade de Verão

A Universidade de Verão do PS faz parte do puzzle que, se algum dia for completado, permitirá descobrir o que levou Seguro a boicotar o PS na sua tentativa de derrubar Sócrates e ocupar-lhe o lugar. Sócrates acabou com esta iniciativa enquanto foi secretário-geral, a qual era organizada pelo Seguro. Estará aqui a origem da vingança? Terá sido essa decisão a natural consequência de Sócrates não querer Seguro no seu círculo próximo, provavelmente por não confiar nele pelas razões que o futuro agora passado se encarregou de exibir? Será que a interrupção desta iniciativa teria ficado sem consequências caso Sócrates tivesse levado Seguro para o Governo ou o tratasse como o príncipe que ele se imaginava? Si non è vero è ben trovato, pois a ambicionada presença de Seguro à frente do PS e a inépcia da sua estratégia com líder da oposição são um verdadeiro enigma – e estamos mesmo perante uma ignomínia pelo seu apagamento da história de como a direita provocou uma crise política para trazer a troika e assim ganhar as eleições e ficar com carta branca para os negócios à custa do Estado Social.

Este evento reúne figuras da política activa e teorizada, destinando-se a uma audiência presencial de 110 jovens militantes socialistas. Acreditando na imprensa, os carolas mandantes elaboraram uma bibliografia que inclui tudo e mais alguma coisa, não faltando obras que nem após vários anos de estudo consecutivo se podem considerar assimiladas: A Política, de Aristóteles; Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels; Teoria Geral da Política, de Norberto Bobbio; A Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos, Benjamin Constant; Ensaios Morais, Políticos e Literários, David Hume; Da Democracia na América, Alexis de Tocqueville; A Política como Profissão, Max Weber. Há muito, muito e muito mais na listagem, coisas incríveis e espantosas. Pelos vistos, a lógica é a de que os neófitos cheguem à Universidade de Verão com esta papelada toda lida para poderem opinar ou, quiçá, meramente entender o que vão ouvir. E não pensem que vão escapar ao rigoroso escrutínio do TPC, pois o programa vai distribuir a rapaziada por três salas após cada painel. Isso vai dar 30 e tal galfarros por cada “Reunião de Turma”, os quais terão 60 minutos para chegarem ao local devidamente reciclados de líquidos e nicotina, após o que terão de conseguir sentar-se, acalmar e calar, e ainda não descurando que terão de chegar a horas ao encerramento do painel para não atrasar o programa das festas. Tudo somado e subtraído, ficam à volta de 15 minutos para gastar na discussão colectiva a respeito dos grandes pilares da civilização ocidental e o rumo ao socialismo.

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Os limites das lentidões

Não simpatizo com Mariano Rajoy. Preside a um governo de direita em que pontuam personagens ligados ao setor mais conservador da Igreja católica e herdeiros do franquismo, que, em matéria social, por exemplo, querem fazer inverter certas políticas relativas às mulheres. A sua figura também não suscita qualquer empatia e personifica o oposto de um político mobilizador. Mas compreendo o homem e a sua reação perante o aperto em que o país se encontra atualmente: protela por todos os meios um pedido oficial de resgate, nos termos por nós amargamente conhecidos, e joga os seus trunfos.

Plenamente consciente do peso da Espanha na moeda única, começou por um desafiante, embora desajeitado, “mãos ao ar senão eu mato-me” (numa expressão feliz de Braga de Macedo), dirigido à Alemanha e às instituições europeias, prosseguiu depois para negociações bem sucedidas sobre uma ajuda exclusivamente à banca, que acelerou a criação de uma união bancária a nível europeu, e, apostado em que o BCE, com um italiano na presidência, aceda a desafiar o Bundesbank e Merkel em defesa da própria Itália, aguarda o resultado das pressões, demográficas e diplomáticas e outras (apoio de Hollande), que lhe pouparão a humilhação da vinda da tenebrosa Troika (sim, só alucinados como Passos, Mira Amaral ou Gaspar a veem como uma brisa retemperadora com poderes redentores). O que é certo é que não só as yields pedidas pela compra de dívida espanhola, embora altas, deixaram de subir, como também Mario Draghi já ousou publicar anteontem no jornal alemão Die Zeit um artigo expondo claramente e sem temor os seus pontos de vista, discordantes dos do Banco Central alemão, sobre o papel do BCE na atual crise. Não deixando de lembrar, como convém, os benefícios para a própria Alemanha de uma mudança na estrutura do euro (“A new architecture for the euro area is desirable to create sustained prosperity for all euro area countries, and especially for Germany. The root of Germany’s success is its deep integration into the European and world economies. To continue to prosper, Germany needs to remain an anchor of a strong currency, at the centre of a zone of monetary stability and in a dynamic and competitive euro area economy. Only a stronger economic and monetary union can provide this.”), Draghi defende, entre as linhas, a intervenção do BCE nos mercados da dívida de modo a aliviar a pressão sobre alguns países, embora apelide a medida de excecional. Lembra os objetivos de paz e prosperidade que estão na origem do projeto europeu. Aponta os defeitos da criação de uma moeda sem Estado e a sua relação com o desejo de soberania dos diversos países e, desejando embora uma maior integração económica, entende não ser altura para decisões forçadas de federalismo, como parece pretender Angela Merkel com a ideia de um novo Tratado, nem, ao invés, um recuo ou abandono do projeto europeu com a exclusão de certos países. Eis o excerto final: “Yet it should be understood that fulfilling our mandate sometimes requires us to go beyond standard monetary policy tools. When markets are fragmented or influenced by irrational fears, our monetary policy signals do not reach citizens evenly across the euro area. We have to fix such blockages to ensure a single monetary policy and therefore price stability for all euro area citizens. This may at times require exceptional measures. But this is our responsibility as the central bank of the euro area as a whole.
(…) The banknotes that we issue bear the European flag and are a powerful symbol of European identity.
Those who want to go back to the past misunderstand the significance of the euro. Those who claim only a full federation can be sustainable set the bar too high. What we need is a gradual and structured effort to complete EMU. This would finally give the euro the stable foundations it deserves. It would fully achieve the ultimate goals for which the Union and the euro were founded: stability, prosperity and peace. We know this is what the people in Europe, and in Germany, aspire to.”

Um passo importante para o isolamento da Alemanha na sua ortodoxia austeritária e para a revisão do papel do BCE? É cedo para o sabermos, mas o desafio está lançado. E, hoje, já o presidente do banco central alemão ameaça demitir-se com fundamento nas discordâncias.(Este senhor, Weidmann, é o que considerou há dias que o programa de compra de dívida pública pelo BCE poderá ser “viciante como uma droga”).
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A situação de Manta Rota

António Borges explicou que está tão “otimista” em relação ao programa de ajustamento financeiro assinado com os credores internacionais e ao futuro da economia portuguesa porque, “em primeiro lugar, a situação de bancarrota desapareceu” e, ao contrário do que acontecia há um ano, o país já não vive “exclusivamente” do crédito externo.

Fonte

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Há algo de muito meritório, talvez heróico, no dizer-se que um país sujeito a um programa de assistência financeira, onde os credores ditam a parte fundamental das políticas e todas as metas económicas a atingir sob pena de fecharem a torneira, já não vive “exclusivamente” do crédito externo. A frase é tão extraordinária que apela a uma interpretação mais lata, quiçá remetendo para o sentido conotativo onde Borges estaria a reconhecer que, agora sim e ao contrário do anterior, o Governo português já não tem qualquer crédito externo (nem interno, mas não sejamos demasiado exigentes com o senhor).

Este bambino d’oro está optimista porque a situação de bancarrota desapareceu. É uma excelente notícia, até a minha vizinha do 4º andar concordará. Mas que situação é essa de que o laranjal tanto fala, de que o laranjal só fala? Do que se sabe publicamente, a bancarrota aludida pertence à mesma categoria do Bigfoot, do Abominável Homem das Neves, do Monstro do Lago Ness e da responsabilização pela Inventona de Belém. São seres de que milhões de pessoas falam, de que milhares garantem a existência, de que centenas reclamam ter provas e a que dezenas (ou nenhuma, no caso da Inventona de Belém) dedicaram vidas de investigação. Pura e simplesmente, a bancarrota não aconteceu, apesar dos esforços titânicos nesse sentido feitos pelo PSD, CDS, BE, PCP, Presidente da República, sindicatos vários, super-patrões, patrões de imprensa, jornalistas honésticos e o todo da gente séria.

O que existe é a situação de Manta Rota. Consiste num primeiro-ministro populista e estúrdio, nado e criado nos corredores partidários oligárquicos, o qual papagueia o que lhe mandam dizer soberbo de ignorância e bazófia, sendo um fulano cujo braço-direito no Governo e na carreira é o mefítico Relvas.

União a três oficializada

Duas mulheres e um homem que viviam juntos na mesma casa há três anos formalizaram a sua união civil num cartório do estado de São Paulo, no Brasil – lê-se aqui.

A notária defendeu o direito a reconhecer as três pessoas como uma família, mas a advogada Regina Beatriz Silva, presidente da Comissão dos Direitos da Família Brasileira, disse à BBC que a decisão é “um absurdo e totalmente ilegal”. E adiantou: “Isto é algo completamente inaceitável que vai contra os valores morais brasileiros”.

Então e a Santíssima Trindade?

 

Branco é, galinha o põe

O bispo de Angra deu directrizes de voto aos católicos:

O bispo de Angra, D. António de Sousa Braga, divulgou uma nota pastoral onde destaca a importância do voto, apelando aos católicos que votem “segundo os princípios da doutrina social da Igreja” nas eleições regionais de Outubro nos Açores. […] D. António de Sousa Braga salienta que “não há partidos de Igreja ou da Igreja”, mas refere que “o Magistério assinala critérios e directrizes para cada um votar, em consciência, segundo os princípios da doutrina social da Igreja”. […] A promoção dos direitos humanos e a defesa e proteção da instituição familiar, “fundada na complementaridade homem-mulher”, assim como o “respeito incondicional pela vida humana em todas as suas etapas e a proteção dos mais débeis” são alguns dos critérios que os eleitores cristãos devem ter em consideração.

(Açoriano Oriental, 29 de Agosto de 2012).

Os católicos açorianos devem pois votar nos partidos que defendem a família fundada na complementaridade homem-mulher e que condenam a interrupção voluntária da gravidez. Ou seja, os católicos açorianos devem votar nos partidos da direita.

Os bispos do Continente costumam dizer algo muito semelhante, pelo mesmo modo sinuoso e divinatório.

Mas porque será que a Igreja Católica se põe sempre com estas fosquinhas, com estes ademanes, com estas adivinhas de cacaracá, e não diz abertamente aos católicos para votarem na direita?

Novíssimos provérbios – Edições Crato

A preguiça é a mãe de todos os ofícios

Deus dá o chumbo conforme a vocação

Há mar e mar, há ser doutor e vadiar

Aluno pequenino, ou canalizador ou dançarino

Junta-te aos bons e serás como eles; junta-te aos maus e vais para o ensino profissional

Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de formação

Mal por mal, antes uma turma de maus alunos do que o hospital

Não adianta chorar sobre o leite derramado, a menos que sejas um cábula, estejas a estudar para leiteiro e tenhas tropeçado num balde cheio de sumo de vaca

Cínico e, como sempre, malcriado

Uns eram piegas, outros agora são histéricos. Relvas e Borges decidiram interromper ou, sabe-se lá, dar por concluído o estudo da operação “prenda de Natal”, acreditando terem chegado a uma brilhante solução que quiseram de imediato partilhar com os portugueses. Passos Coelho manda António Borges revelar publicamente, com o desconhecimento do seu próprio parceiro de coligação, a proposta “interessante e atraente” de concessão do serviço público de rádio e televisão a um privado, e, perante as legítimas reações adversas de pessoas esclarecidas num Estado democrático, acusa-as de histerismo e de precipitação, dada a inexistência de uma decisão? Se não sabem o que vão fazer, porque falam?

Vejamos então o que seriam reações não histéricas.

1. “Ótima ideia. Só peca por tardia. Que interessam as regiões, as comuniddades internacionais e a cultura portuguesa?” (Mário Soares)

2. “Totalmente legítima e constitucional. Parece-me uma matéria muitíssimo bem estudada em todas as suas implicações”. (Adriano Moreira)

3. “Há toda a legitimidade em atribuir ao novo concessionário as contribuições para o setor audiovisual, assim como um rendimento garantido. A nós, chegam-nos perfeitamente as receitas da publicidade, que, aliás, não importamos de dividir com a concorrência nesta época de pujança económica”. (Pinto Balsemão)

4. “Sim, concordamos. O nosso empenho no saneamento da empresa não produziu quaisquer resultados. Somos incompetentes. Sabíamos que a manutenção do serviço público nas mãos do Estado só faria sentido com prejuízos.” (Administração da RTP)

5. “O doutor António Borges fez bem em substituir-se a Miguel Relvas. O ministro tem que ser poupado a mais insultos. Já sofreu o suficiente e injustamente.” (Miguel Sousa Tavares)

6. “Não temos dúvidas de que o senhor presidente da República está informado e subscreve a proposta, caso contrário não teria sido verbalizada. Ele sempre foi contra a existência de canais públicos”. (Partidos da oposição)

7. “O doutor António Borges é a pessoa mais habilitada para transmitir as decisões do Governo. Não é ministro, mas ganha mais do que qualquer deles. Essa é a garantia de que sabe o que anda a fazer.” (António Pedro Vasconcelos)

Não disseram isto. São histéricos. Que tal indignados ou tão só incomodados com os vossos esquemas, radicalismo e, hoje mesmo, cinismo?

O seu a seu dono

Mesmo que o Governo tivesse tido a intenção de nos pôr a falar da RTP para não falarmos do fiasco das contas públicas, intento esse logo à partida desmiolado pois resultou num acrescento de fragilidade e descrédito para Relvas e para o Executivo, a verdade é só uma: não se fala mais dos números da execução orçamental porque a oposição não quer. Já não queria antes de Borges ter lançado o barro à parede e continuou a não querer até hoje, com os troikanos regressados ao burgo. Aliás, a oposição tolera indiferente a presença de Relvas no Governo e os insultos do Primeiro-Ministro aos portugueses.

Uma das grandezas da democracia está no papel decisivo das oposições para a qualidade da governação. Pelos vistos, a nossa oposição está ao nível do nosso Governo.

Asfixia democrática? Nada disso

O que se passa com a RTP compara inevitavelmente com a TVI. Neste caso, foi preciso montar uma operação de escutas ilegítimas para apanhar registos privados de Sócrates, os quais foram utilizados para um ataque judicial, político e mediático. Essa manobra foi explorada para fins eleitorais, e tinha como finalidade conseguir que o Ministério Público acusasse Sócrates e o levasse a tribunal. Seria o seu fim político e uma reedição do caso Casa Pia quanto à decapitação da liderança política do PS. Como não se conseguiu amedrontar o Procurador-Geral da República e o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Belém e Lapa lançaram calúnias sucessivas através dos jornalistas engajados de forma a condicionarem as eleições de 2009, passando depois a ocupar a Assembleia da República durante meses com um circo que nos deu a ver o Crespo a tratar os deputados como se estivesse na Feira de Carcavelos e a Moura Guedes a berrar que o Rei de Espanha podia ser muito bom a caçar elefantes mas que nem ele a conseguia abater. O tema da “asfixia democrática” – lançado por Paulo Rangel no discurso do 25 de Abril de 2007 na Assembleia e tendo usado originalmente a expressão “claustrofobia democrática” para se referir à nomeação de Pina Moura para a Prisa (o Pina Moura, esse tentáculo socrático!) – teve no Pacheco o seu Galahad, passando este infeliz a cronometrar o telejornal da hora de almoço da RTP à procura do Santo Graal nesses segundos perdidos ou acrescentados nas peças emitidas acerca do Governo e da oposição, diferenças que podiam ser invisíveis aos olhos do vulgo mas que provavam o poder e alcance da asfixia, garantiu vezes sem conta sem se rir. Acabou fechado numa saleta da Assembleia da República a chafurdar na privacidade de um concidadão que odiava. Fontes anónimas garantem que o Pacheco ainda hoje guarda num frasco uma meia que conseguiu gamar ao mafarrico e que treina regularmente os seus cães da Marmeleira para quando chegar o dia da caçada final. Também teve graça descobrir através do magnifico trabalho das comissões de inquérito parlamentar, e ao arrepio das atoardas dos ranhosos alvares, que o Correio da Manhã foi o jornal que recebeu mais publicidade do Estado em 2009, seguindo-se o Público e o DN, algo que nem com um petroleiro cheio de cola Araldite dava para colar à campanha negra da “asfixia democrática”. Moral desta escabrosa história: um negócio que nunca aconteceu, a que se juntaram centenas de notícias baseadas em escutas que não deviam ter acontecido, gerou acontecimentos nunca antes vistos de baixa política e degradação do regime.

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Lembra-te

Culture is the by-product of consistent behavior. Change your behavior and you change your culture. Directives, announcements, declarations, missions statements – that’s all crap. SAYING something doesn’t change culture. The only thing that changes culture are repeated, consistent actions.

Fonte

Duas perguntas

Fanatismo, sectarismo, distorções morais, dissonâncias cognitivas e um sem-número de outros fenómenos mentais congéneres são características antropológicas inevitáveis na política, correspondendo à matriz tribal de onde só há pouquíssimo tempo histórico começámos a sair – e só nalgumas partes do Planeta. Observam-se por todo o lado, em todos os quadrantes ideológicos e partidários, seja cá na terrinha ou nesse mundão afora. Mas há uma imensa minoria que pede mais à política. Pede, por exemplo, que os políticos tratem os cidadãos como se acreditassem que os tais cidadãos são inteligentes.

Tomando a inteligência como critério supremo, e assim limitando ou até idealmente anulando o tribalismo, podemos olhar para a situação política nacional e fazer estas duas mui inteligentes perguntas:

– Chumbar o PEC 4 foi a melhor decisão para os interesses da maior parte dos portugueses?

– Este Governo está a executar o Memorando da melhor forma?

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O regabofe da avaliação: que se lixem as fundações

A notícia que o Júlio refere tem uma parte que precisa de ser lida do princípio ao fim. É o retrato fiel da qualidade dos tipos que nos desgovernam:

Côa avaliada por lapso?

Se a Fundação Paula Rego lamenta o “vexame” causado pela classificação negativa, não é a única descontente com os danos de imagem que esta avaliação do Ministério das finanças pode ter causado. Fernando Real, presidente do conselho de administração da Fundação do Côa, responsável pela gestão do Parque Arqueológico e do Museu do Côa, também não ficou propriamente satisfeito quando viu que a instituição a que preside aparecia referida na imprensa local como “a pior fundação do distrito da Guarda”. Na verdade, a acreditar no relatório, não é apenas a pior da Guarda, é quase a pior de todo o país, com uns míseros dez pontos. Que, refira-se, foram todos obtidos no parâmetro “pertinência”, já que em eficácia e sustentabilidade levou com dois rotundos zeros. Um juízo surpreendentemente severo, que poderá ter resultado de uma interpretação equívoca das respostas enviadas por Fernando Real. A história chega quase a ser divertida e conta-se em poucas palavras. Quando o presidente da Fundação do Côa recebeu o questionário, com a indicação de que a resposta era obrigatória sob pena de uma eventual extinção – aviso que a Gulbenkian, por exemplo, também terá recebido -, achou melhor responder, ainda que estivesse consciente de que não teria muito a dizer sobre os números da fundação relativos aos anos 2008-2010, período a que esta avaliação diz respeito, pela razão singela de que a instituição só veio a ser criada em 2011. Foi já, de resto, o actual secretário de Estado da Cultura, Fancisco José Viegas, a dar posse ao respectivo conselho de administração, que só veria aprovado o seu primeiro orçamento em Junho deste ano, há coisa de dois meses.

Real tentou, por isso, responder “não se aplica” onde essa era a única resposta aplicável, mas, infelizmente, explica, onde eram solicitados números, o questionário electrónico só aceitava mesmo algarismos. Decidiu, então, optar por responder com zeros, que os responsáveis pelo tratamento de dados terão aparentemente assumido no seu significado matemático literal, mesmo quando esta interpretação era manifestamente inverosímil. Lembrando que, “logo no início da ficha, estava a data da criação”, deixando claro que a fundação ainda não existia no triénio que o inquérito se propunha avaliar, Real considera que “o erro é tão evidente e grosseiro, que é de admitir que tenha havido um lapso”.

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Demissão, já!

Mais um episódio da escabrosa saga da avaliação das fundações pelo governo Coelho/Relvas. A pontuação marada que pôs a fundação de Paula Rego (tal como a Gulbenkian) muito abaixo da fundação mafiosa de Alberto João, afinal é resultante de um erro crasso de contas! De contas de somar, valha-nos a senhora de Fátima! Deram-lhe 40 pontos, mas pelos seus próprios critérios, aliás muito discutíveis, deveriam ter dado 55. A filha da pintora denunciou-o hoje aqui.

É o descrédito completo e definitivo da operação fundações. Demitam-se já os idiotas e cabotinos do governo responsáveis por semelhante desconchavo!

Não fadado para a função, no mínimo

Dizer que causa estranheza, ou mesmo vergonha, a reação de António José Seguro ao anúncio da concessão a privados da RTP/RDP é mentir. Por demasiadas vezes o líder do principal partido da oposição mostrou que reações frouxas, canhestras e inconsequentes são o seu forte, passe o paradoxo. Nenhum rasgo de brilhantismo, contundência, simples clareza ou clarividência é já de esperar daquela boca ao fim de mais de um ano de afabilidade, segundo o próprio, “responsável”.

Começar por dizer, em festa na Madeira, que, quando for poder, o PS renacionaliza a RTP, já de si uma patetice sem jeito, e só mais adiante apelar ao veto do Presidente Cavaco é de uma falta de talento e de preparação lamentável. Seguro anda a Leste e desconhece que há um Norte. Ninguém também parece querer mostrar-lho e o homem está tristemente entregue a si próprio. O conformismo de tais declarações é duplo: primeiro, dá a decisão por tomada e depois, por obra de algum espírito santo de orelha ou de um assomo de memória da lição mal estudada, apela ao veto (“Eu espero que essa proposta não passe no crivo do senhor Presidente da República.”), mas arranjando logo maneira de integrar novo conformismo ao ressalvar “Mas, se passar, quando o PS for governo voltará a existir um serviço público de televisão“. Homem, como? Cria um de raiz? Entra na guerra jurídica da anulação do contrato de concessão, previsivelmente bem blindado? Ah, talvez só preveja ser primeiro-ministro daqui a 20 anos.

O que nos leva a perguntar como seria um líder da oposição que tivesse estabelecido um pacto secreto com o atual primeiro-ministro de não oposição parecendo oposição. A resposta parece-me óbvia.