Hoje: Arraial Pride

ARRAIAL PRIDE :: 30 junho :: 16.00 – 04.00 :: Terreiro do Paço

É o maior e mais participado evento LGBT a nível nacional.

Está integrado no programa oficial das Festas de Lisboa e é organizado pela Associação ILGA Portugal, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, desde 1997.

À semelhança do que acontece nas principais capitais europeias, o Arraial Pride e uma celebração da diversidade e da igualdade que coloca Lisboa no roteiro dos principais destinos turísticos LGBT. Inserido nos circuitos EuroPride e WorIdPride, é uma festa ao ar livre, de acesso gratuito, aberto a todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual ou identidade de género. O calor do verão é invadido pelas cores, pela música, pelo convívio inclusivo e pela atmosfera familiar e amigável.
Na praça mais importante e central de Lisboa, o divertimento impera e a homofobia não entra.

No Pride Village, pensado para estar, conviver, mostrar, brincar e jogar, encontras artesãs e artesãos, associações de intervenção social e muitos outros serviços e surpresas – para além de variadas animações que não podes perder, no Welcome Center, onde a festa começa, e no ILGA Lounge, com vári@s Djs convidad@s: SENHOR COMENDADOR E SUA SOBRINHA (DJ SET) :: ANTÓNIO ALMADA GUERRA (DJ SET)

No PALCO – a maior pista de dança da cidade! – teremos:

Nomi Ruiz (Jessica 6) DJ set & Live vocals
Nuno Galopim (Dj Set)
Conga Club (Dj Set)
DMA – Disco My Ass (João V. Boas e Vítor d´Andrade Dj Set) & Guests

E muito mais!

Aqui

Take five

1. Acho extremamente condenáveis comportamentos como aquele de que foi vítima hoje, na Covilhão, o ministro da Economia. Uma coisa é organizar manifestações – as quais têm, evidentemente, um lado emotivo que leva a cometer frequentemente excessos de linguagem, sem que daí venha mal ao mundo – e outra coisa é realizar atos de ataque pessoal, sequestro e intimidação fisica, que são inaceitáveis, quaisquer que sejam as circunstâncias.

2. Esses atos não são próprios de democratas, são mais próprios de fascistas – o que não deixa de ser irónico, quando normalmente são as vítimas que são apodadas de fascistas e os fascistas que se arvoram em democratas.

3. Quem organiza manifestações tem o dever moral e político de procurar enquadrá-las nos termos próprios do movimento social e do protesto democrático. Quem, pelo contrário, instiga os manifestantes – como foi o caso hoje dos dirigentes da União de Sindicatos – é duplamente irresponsável.

4. A meu ver, estes critérios de apreciação não variam com a identidade do governo e dos governantes em funções.

5. Mas não deixa de ser verdade que PSD e o CDS, que colaboraram ativamente na criação do clima que levou, em 2007-2009, inclusivamente à intimidação física de pessoas cujo crime era participarem em reuniões do Partido Socialista, ajudaram a fazer a cama em que agora estão deitados.

Augusto Santos Silva

Coisas que os extremistas não explicam: há sempre um centro

Enquanto Sergio Ramos se deslocava para a marcação da grande penalidade, Patrício podia ter tido o seguinte raciocínio: este cabrão não vai repetir o charuto do penalti falhado contra o Bayern, pelo que o mais certo é a bola ser colocada algures no centro. Porquê? Porque se se confirmasse que Ramos iria controlar a força de modo a garantir que acertava na baliza, a opção de rematar para o meio do alvo seria a que maior probabilidade de sucesso teria. Patrício não foi por esta via intelectual, preferindo apostar tudo na sorte: escolheu um lado ao calhas e mandou-se para lá ainda antes da bola partir. Caso se tivesse limitado a ficar parado, a bola teria ido parar às suas mãos ao ralenti.

Enquanto Bruno Alves caminhava de cabeça baixa para a marcação da grande penalidade, Nani podia ter ido ao seu encontro não para o fragilizar ainda mais marcando na sua vez mas para lhe dar este conselho: “Ouve, meu cabrão, estás todo borrado e o mais certo é falhares se tentares atirar para um dos lados, por isso aponta ao centro porque o Casillas vai mandar-se para um dos postes à maluca.” Bruno Alves não teve esta ajuda do voluntarioso colega, pelo que resolveu disparar em força para uma das extremidades. O sorte foi-lhe madrasta, castigando o risco. Caso tivesse aplicado a mesma força num remate em frente, a bola talvez não tivesse defesa possível graças à velocidade e ao acordo dos deuses esféricos.

Moral da história? Risco por risco, arriscar ao centro é o menos arriscado.

Este homem passou pela cimeira?

É o que se chama estar na horta e não ver as couves (de Bruxelas):

«Reiterando a vontade de “preservar o país de assistência” mais prolongada e novos condicionalismos e medidas de austeridade, sobre as quais voltou a dizer não querer “especular”, o primeiro-ministro sublinhou, contudo, que “se a realidade mostrar que há condições que mudam o suficiente” para que seja necessária uma outra leitura , esta será analisada.
“Temos de utilizar toda a margem orçamental que ainda temos para evitar que os portugueses tenham de observar medidas adicionais que tivessem de ser adoptadas para garantir estas metas”, sustentou ainda Pedro Passos Coelho.»

Além de não se perceber nada (enfim, percebe-se que está metido numa alhada com o fracasso clamoroso das suas políticas e a impossibilidade de o confessar), Passos já levava a trela para Bruxelas e, à saída da cimeira, mantinha-a, o que significa que ele, sim, não percebeu nada do que se lá passou.

Até que enfim temos um primeiro-ministro que responde a tudo o que lhe perguntam

Sócrates era acusado de não responder às questões que lhe eram colocadas pela oposição nos debates quinzenais. Chegou a tal ponto que mesmo que respondesse a tudinho, no fim, para a oposição e para um batalhão de comentadores, era como se não tivesse respondido a nada. O que teria acontecido se alguma vez se tivesse recusado a responder a perguntas por não respeitarem o tema do debate? A gritaria seria tanta que ainda hoje o episódio seria lembrado e esfregado na cara dos socialistas. Agora é normal o primeiro-ministro fazer a triste figura que fez ontem no Parlamento, que incluiu queixinhas à Presidente da Assembleia e tudo. Já ninguém acusa ninguém de ser arrogante e daquele comportamento se dever ao facto do Governo ter maioria, por exemplo. Ainda por cima, a pergunta de Seguro não me parece nada despropositada numa discussão sobre assuntos europeus, nem sei por que razão Seguro não lhe disse isso mesmo. É até muito provável que, durante o Conselho Europeu, alguém lhe faça a mesma pergunta e queira saber o que está a falhar. Digo eu, porque para os senhores da troika está tudo a correr lindamente. É caso para perguntar o que terá de acontecer à economia portuguesa para que os senhores deixem de fazer de conta que tudo corre como previsto.

Ainda só passou um ano e o primeiro-ministro já se mostra maçado como se estivesse no fim do segundo mandato. Portanto, para a próxima, é favor os senhores deputados enviarem para o seu gabinete uma listinha com todas as perguntas, de preferência na véspera do debate, para não o apanharem de surpresa.

Um povo aberrante?*

“The leaders of Italy and Spain, — the third and fourth largest economies in the euro zone — are demanding relief from the high costs of servicing their debt. Yields on Spanish 10-year bonds are now almost at 7 percent — a level considered unsustainable — and interest rates on Italy’s bonds are not much lower. Monti and Rajoy complain that their countries can not cope with such high yields for much longer. They want the euro rescue fund, the European Stability Mechanism (ESM), to buy up their bonds in order to push down the market rates.”

“Merkel, however, feels that her partners have not yet reached their limit.”

Ah, o drama das taxas! Sócrates tentou fazer o que Monti e Rajoy estão agora a tentar, com as armas que tinha, basicamente conversas/discussões/persuasão. Perante taxas de rendibilidade insustentáveis, pressionar no sentido de uma solução vinda da Europa é e era a única saída para quem está acorrentado ao euro. Teria, eventualmente, sido ouvido e ajudado. Mas, por cá, houve quem entendesse ser melhor mandar a casa abaixo e culpar o herói. Grandes génios.

É adequado lembrar que nem Monti nem Rajoy comungam de ideias próximas do socialismo ou da social-democracia. No entanto, sentem os problemas dos seus países e não veem vantagem nenhuma, nenhuma mesmo, em contrair empréstimos com Troikas e quejandos, muito menos nas condições já conhecidas e no contexto atual. Só mesmo esta conjugação portuguesa de leviandade + sede do pote + experimentalismo faz de nós uma exceção. Que demonstra ser uma aberração.

Aliás, em matéria de aberração:
“One reason why Merkel is so inflexible is that the two houses of the German parliament, the Bundestag and Bundesrat, are due to vote on the ESM and the fiscal pact on Friday afternoon. Merkel is unable to make further concessions in Brussels before these measures are approved, otherwise it could jeopardize the two-thirds majority that she needs to get the legislation through parliament. In the view of those who were hoping for significant progress in Brussels, the timing of the summit is therefore very unfortunate.

Other European leaders are also under intense pressure at home. Italian Prime Minister Monti desperately needs demonstrable results, because the Italian election campaign begins after the summer break and Monti’s predecessor, Silvio Berlusconi, is lurking in the background, apparently plotting his political comeback. Dutch Prime Minister Rutte is opposed to transferring any more power to Brussels, because he is threatened by a rise in left-wing and right-wing euroskeptic populism ahead of elections in September. Meanwhile British Prime Minister David Cameron has already made it clear that Britain will not support the European-level bank supervision proposed by Van Rompuy in his master plan.”

Os líderes já referidos da Itália e da Espanha, além de gostarem dos seus países, sentem também a pressão da população e agem condicionados pelas questões internas (li algures que Monti se demitirá). Não são muito diferentes de Merkel nessa matéria. Todo o seu comportamento, seja na Holanda, na Finlândia, na França, na Grécia, e por aí fora, é ditado principalmente pela situação interna. Os holandeses temem a ascensão dos extremistas de extrema-direita e de extrema-esquerda e a impossibilidade de coligações ao centro, outros temem os populistas, outros temem mais a extrema-direita, os alemães temem o Parlamento e a própria coligação, além do Tribunal Constitucional. E nós? Estes anormais que nos governam não têm ninguém a quem temer! Somos de facto uma aberração.

*Possivelmente um PS aberrante e um PCP ainda mais aberrante.

Pró-social, pró-família e pró-natalidade, era isso não era? Era.

O CDS-PP está contra as mudanças nos apoios às grávidas e abonos de família e insiste na revogação destas medidas que considera serem «anti-sociais».

Para Pedro Mota Soares, as novas medidas de apoio às famílias e grávidas são «anti-sociais, anti-família e anti-natalidade».

Partido das famílias, em Novembro de 2010

 

Os subsídios de Natal e de férias vão deixar de ser considerados no cálculo dos apoios à maternidade, passando a considerar-se apenas as remunerações auferidas mensalmente durante o período da gravidez.

Com esta alteração, apesar de a fórmula de cálculo se tornar mais equitativa, haverá casos de cortes significativos nos apoios a receber, mas não só na maternidade. Também os subsídios destinados à gravidez de risco, à interrupção da gravidez, à adopção e ao apoio de filhos deficientes serão estimados de acordo com estas novas regras, que entram em vigor a partir de segunda-feira.

Partido das famílias, em Junho de 2012

“Dream on”

A Alemanha joga amanhã contra a Itália e poderá sair do Euro. Mas poderá também sair do euro.

A cimeira vai dar em nada.

Entrevista de George Soros ao Der Spiegel online.

Análise de Jean Quatremer no Libération.

Eis a disposição com que Angela Merkel se apresentará na cimeira europeia de amanhã, depois de já ter dito que considera as propostas de Van Rompuy, Juncker e Barroso desproporcionadas:
“Enquanto for viva, não haverá mutualização da dívida dos Estados da zona euro”, disse ela ao grupo parlamentar liberal, seus parceiros de coligação. Ao que estes lhe responderam: «Esperamos que viva por muitos e bons anos».

(Em alemão no Die Welt: “Eine gesamtschuldnerische Haftung, also auch Euro-Bonds, werde es nicht geben solange ich lebe. Einige liberale Abgeordnete riefen spontan in den Fraktionssaal: Wir wünschen Ihnen ein langes Leben!”)

Isto só pode acabar mal. Outra vez.

Ricardo e os sacanas

Sobre Ricardo Rodrigues, vamos aos factos, primeiro a quente: o deputado, confrontado com uma insinuação canalha de envolvimento num caso de pedofilia, teve uma reacção intempestiva que, para muitos, eu incluído, foi até bastante contida. A tentação de pegar nos gravadores, atirá-los às trombas dos dois trastes que tentavam, na própria cara do deputado, colar-lhe uma das piores difamações que hoje existe, e correr com eles à pancada do gabinete seria para muitos irresistível, e se calhar até lhe mereceria maior respeito por parte daquelas almas simples que hoje gritam “ladrão”. Quem não sente não é filho de boa gente, segundo dizem.

Dito isto, ou melhor, tirando isto do peito, vamos aos factos, agora a frio: o deputado, confrontado por dois jornalistas com perguntas que não lhe agradavam, resolveu usar os meios que entendeu usar de modo a tentar impedi-los de fazer o seu trabalho, ou seja, tomou acções cujo objectivo era impedi-los de publicar uma história.

E na minha opinião,  entre as duas interpretações dos factos, por muito compreensível que nos seja a primeira, a segunda é a que tem maior peso. É a que em último caso vale. E vale pelo mesmo princípio que vale a igual protecção da lei para todos  – o princípio que diz que uma lei que protege os facínoras é a maior garantia que protegerá também os que não o são. Neste caso em particular, o mesmo se aplica aos jornalistas. Por muito desagradáveis e insultuosas que tivessem sido as perguntas, eles têm o direito de as fazer sem que esteja em causa a realização do seu trabalho, até porque mesmo estando num caso extremo de perguntas ofensivas à honra, elas não são em princípio diferentes de outras perguntas que também podem ter essa interpretação. É por estar garantido que um jornalista sem escrúpulos possa fazer esse tipo de perguntas a Ricardo Rodrigues que está igualmente garantido que outro jornalista mais idóneo possa fazer perguntas sobre submarinos a Paulo Portas. Num caso, a pergunta pressupõe pedofilia, no outro pressupõe corrupção. Ambas podem ser consideradas ofensivas pelos visados. Vamos deixar então a um critério pessoal dos visados se os jornalistas podem ou não publicar uma história? Não me parece. Caso se sinta ofendido no seu bom nome e reputação por uma publicação, há tribunais para isso mesmo. Caso considere as perguntas ofensivas ao extremo, ou sinta que lhe estão a preparar uma armadilha, pode apenas recusar-se a responder, ou abandonar a entrevista. Não pode é confiscar as ferramentas de trabalho, tal como não poderia fechar os jornalistas na cave até prometerem não publicar, ou ameaçá-los de difamação como fez Relvas.

Logo, se agiu irreflectidamente, a quente, até pode ter toda a minha compreensão, já que estar naquela posição não é fácil. Mas um deputado tem de ser, até pelo exemplo, um dos garantes do funcionamento da democracia, incluindo o regular e livre funcionamento da imprensa, por muito desagradável que esta possa ser. Uma das funções de um deputado é a de comunicar com os eleitores através de uma imprensa livre de condicionamentos, tal como uma das funções de um jornalista é fazer perguntas incómodas. Que alguns abusem, e certamente abusam, não cabe ao deputado julgar sumariamente. Cabe aos tribunais se o visado entender. E sendo assim, o deputado falhou numa das suas funções essenciais. Foi provocado, certamente, mas caiu na provocação e falhou. E isso tem de ter consequências para além da simples demissão de algumas funções. Porque se um deputado impede um jornalista de fazer o seu trabalho, até pode ter toda a razão do mundo. Mas abre um precedente para todos os outros. sobretudo os menos honestos e os que têm realmente alguma coisa a esconder. Se o justo faz, porque não fará o pecador?

Para responder à pertinente pergunta acima do Paulo Pedroso, não, não tenho a certeza que não faria o mesmo, ou até pior. Mas, porque teria falhado numa das minhas funções essenciais, haveria que sofrer as consequências. De preferência, de minha livre vontade.

O cachecol da Chéquia

Scolari fez muito bem a Portugal, trazendo uma arrogância que era benéfica para elevar os níveis de testosterona necessários ao esforço físico e ambição ganhadora. Mas também fez muito mal, e nesse mal todo o pior foi esta expressão que não se cansou de repetir:

Meio a zero chega.

Eis o apanágio da vitória pela vitória, não importando como, não se responsabilizando pelo espectáculo. Parece a exaltação das mais altas virtudes guerreiras, a garantia da entrega total em campo e da concentração máxima no objectivo supremo, mas não passa da expressão do erotismo dos fracos – o qual não suporta perder, assim permanecendo em perda e acabando perdido. Os fins a justificarem os meios, a fonte de todas as imoralidades desde que há consciência moral neste planeta subsumida numa singela frase do devoto da Nossa Senhora de Caravaggio.

Esta ideologia falaciosamente utilitarista, retoricamente pragmática, leva depois os oráculos da indústria futeboleira nacionalista a festejarem as incidências que sugiram debilidades dos adversários. Se fulano leva um amarelo que o obrigue a ficar de fora no próximo jogo ou se beltrano se lesiona, se o relvado prejudica o estilo deles ou favorece o nosso, soltam-se alívios e júbilos. Fica no ar a ideia de que para estes valentes quanto maior for a ajuda do destino melhor, num horizonte de realização onde o ideal seria nem jogar por o avião da selecção estrangeira se ter despenhado nas montanhas e tal levar à nossa vitória pela falta de comparência da equipa contrária.

O futebol é importante não por ser futebol mas por lhe darmos importância. Damos todos, gostemos ou não, porque a sua presença é ubíqua na sociedade e na comunidade; isto é, o futebol recolhe atenção mediática máxima, por um lado, e o futebol é uma moeda de câmbio interpessoal que permite estabelecer relações identitárias com indivíduos estranhos às nossas redes sociais de proximidade. Sendo assim, e assim é, termos visto a Selecção a comportar-se de acordo com a anedota do Juca Chaves a respeito dos escuteiros – “Você sabe o que são os escuteiros? Os escuteiros são um grupo de meninos vestidos de imbecil, comandados por um imbecil vestido de menino.” – afecta-nos culturalmente. A recusa em falar com a imprensa porque dois maduros tinham dito uns disparates é coisa de putos mimados e a boca do cachecol da Chéquia é de carroceiro depois de virar um garrafão de tinto.

Sim, daqui a um bocadinho podemos dar por nós a ver o Paulo Bento como o herói que derrotou a armada espanhola e levou o povo para uma catarse histérica. Há precisamente 50% de probabilidades de ser assim, nem mais e nem menos. Mas se não for, se arrumarmos as malas, irei ter contigo ao aeroporto, Paulinho, de cachecol da Chéquia ao pescoço, para te aplaudir e aclamar. É que o futebol não passa de mais uma metáfora do mistério que nos une no essencial: ninguém acaba derrotado quando venceu o medo de perder.

Os únicos socialistas bons são os socialistas condenados

Finalmente começaram a condenar socialistas. O primeiro foi Ricardo Rodrigues, o papa-gravadores de S. Bento. Este espécimen de corrupto fez gala em deixar-se filmar quando se passou dos carretos em frente a jornalistas. O resultado foi um duplo crime: atentado à liberdade de imprensa e atentado à liberdade de informação, agravados pelos danos abdominais causados em toda a Redacção e Direcção da Sábado, que ainda hoje andam a rir à gargalhada com o desvario do açoriano. Se existisse justiça neste mundo, mandavam-lhe um cheque gordinho como recompensa pelos aumentos de vendas e de publicidade que tanto crime junto conseguiu arranjar para a revista.

Quem se segue? A lista é infindável. Por exemplo, Vítor Constâncio e Teixeira dos Santos. O primeiro, porque fechou os olhos ao que se passava no BPN e, portanto, o cavaquistão não teve outro remédio senão gamar o máximo que pôde enquanto deu. O segundo, porque resolveu nacionalizar o banco em ordem a proteger Oliveira e Costa, Dias Loureiro e Cavaco, grandes amigos desse Governo socialista que fez com que o Estado pagasse a conta do colossal saque. Por exemplo, Guterres. Este corrupto queria quatro submarinos, tendo sido a bravura de Paulo Portas a conseguir reduzir a encomenda para dois. Assim, Portas abateu para metade a corrupção nessa negociata, embora Guterres deva ir a julgamento pela intenção de comprar os quatro cilindros; que é para aprender e se dar um exemplo à navegação em águas profundas. E que dizer de Paulo Campos? Foram só 700 milhões que meteu no bolso, ou no bolso das empresas amigas, o que vai dar ao mesmíssimo mesmo. E Lurdes Rodrigues? Ninguém se esqueceu dos 500 milhões em obras ilegais, logo a pedirem julgamento e implacável castigo. E Sócrates, o supra-sumo do crime, a mente diabólica que dominou este país recorrendo a técnicas dos serviços secretos e muita macumba? Como sabe quem leia o Correio da Manhã (e todos lemos, essa é que é essa), este mânfio empachou 300 milhões já devidamente colocados nos offshores de primos e tios, fora o que tinha recebido em envelopes castanhos de ingleses extrovertidos.

Há mais socialistas a merecer tribunal e cadeia. Vejam-se os casos de Santos Silva, Pedro Silva Pereira ou Vieira da Silva, por exemplo. Tanto apelido igual, ainda por cima judaico, não levanta logo uma suspeita com odor a enxofre? Não se conhece ponta por onde lhes pegar, mas basta olhar para aquelas carinhas que não enganam ninguém para tomarmos alarmada consciência do perigo que representam para a sociedade. E se começam a falar, então, é uma experiência insuportável, atroz. As cadeias de alta segurança fizeram-se exactamente para protegerem a gente séria de gente daquela laia.

O DIAP de Lisboa anda a investigar as despesas feitas pelo segundo Governo de Sócrates, após queixa da Associação Sindical dos Juízes Portugueses. Também Carlos Barbosa, em nome do ACP, entregou uma participação criminal contra Mário Lino e António Mendonça. Vamos ter esperança de que o Ministério Público despache as investigações com máxima celeridade porque há muito xuxa para meter no xilindró de modo a que em Portugal acabe esta pouca-vergonha de se ver a oligarquia aos papéis durante tanto tempo. Comunistas e bloquistas também estarão dispostos a ajudar a metê-los na ramona pelas razões que eles apregoam diariamente.

Temos de limpar este país de vez. É desta.

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PS (et pour cause) – Já agora: esse tal de Jacinto Leite Capelo Rego, que andou a fazer umas maroscas na contabilidade do CDS, não será mais um militante socialista?

Passos Coelho e a bola de cristal

Passos Coelho voltou hoje a informar-nos que não tem nenhuma bola de cristal, que não pode prever o futuro. Mas parece-me que não é bem assim. O que se passa é que a bola de cristal antes de 5 de Junho do ano passado funcionava na perfeição, o que permitia ao então candidato a primeiro-ministro ver o futuro com clareza, aposto que era na bola que via as gorduras do Estado a desaparecerem, os juros da dívida a descerem, o rating do País a subir, etc. Depois das eleições, tudo mudou, a maldita bola passou a ter dias, ou minutos. É que Passos Coelho consegue dizer na mesma entrevista que não consegue prever o futuro, e na frase seguinte mostrar-se absolutamente seguro que estamos no caminho certo, que 2012 é sem dúvida o pior ano para os portugueses e que o fim da crise já está à vista! Num momento há “riscos e incertezas” que, aliás, parecem ser exclusivos deste Governo, nos anteriores não havia nada disso, e, no momento seguinte, pelo contrário, a visão de um futuro risonho e a certeza de estarmos a um passinho da felicidade. A culpa só pode ser da bola.

Como é, portugueses?

Não vai haver eleições para já, mas a associação recreativa que nos governa e que gravita em torno de uma espécie de professor Pardal das Finanças, está a colocar-nos em sérios apuros. Gorado o seu único plano, é tempo de outros assumirem posições claras e alternativas quanto ao futuro do país, com vista a dele tomarem conta. Do que observo, há quatro em cima da mesa.

Primeira – Posição do Governo. Mantemo-nos no euro. Cumprem-se à risca os ditames da Troika, usando-se mesmo uma fórmula mais ousada para demonstrar empenho e saber. Crença de que, quanto mais depressa e profundamente empobrecermos, mais depressa deixaremos de ser pobres. Se a situação se aproximar de níveis sem regresso (horizonte atual), nenhuma alteração se reivindica, para não incomodar quem tão generosamente nos recompensará depois. Espera-se que a Alemanha ajude, pelos nossos lindos olhos. Se a situação piorar indefinidamente, espera-se que a Alemanha e a Troika ajudem indefinidamente. Não será assim. Não só a Alemanha não ajuda indefinidamente, porque sabe fazer contas e nunca viu beleza especial nos nossos olhos, aliás nem reparou que os temos, como há outros países em apuros, e são cada vez mais e maiores, ameaçando a própria existência da moeda única. Assim a Alemanha veja que já recuperou o suficiente dos empréstimos ao sul e … “aufwiedersehen”. Perspetivas: negras a curto, médio e longo prazos. Possível sentimento da população: pertencer a um clube de ricos para sermos os limpa-chaminés não se justifica. Acabaremos fora do euro ou seus escravos.

Segunda – Posição do atual PS. Mantemo-nos no euro. Cumpre-se em geral o acordado inicialmente com a Troika, procurando não matar totalmente a atividade económica (talvez agora já seja tarde). A situação não é famosa, as previsões também não; convicção de que só melhorará com uma renegociação das condições do acordo. Forte aposta numa mudança de rumo da liderança europeia, que, no entanto, demora a produzir efeitos concretos. Aqui a hipótese bifurca-se: ou a Troika aceita rever o acordo (os prazos, os montantes, algumas medidas, etc.) e faz-se nova tentativa – perspetivas: cinzentas, mas com boas abertas a médio prazo; ou a Troika e sobretudo a Alemanha não aceita renegociações (como parece estar a dizer à Grécia), mantém o rumo atual e impõe mais medidas de austeridade até não restar no retângulo homem e mulher sobre pedra, uns porque morreram, outros porque fugiram. Perspetivas: regresso à Idade Média.

Terceira – Posição, imagino, de parte do PS e eventualmente do Bloco. Declaramos a nossa vontade de nos mantermos no euro, mas ameaçamos sair, caso não nos sejam dadas melhores condições para cumprirmos os nossos compromissos. Aposta no receio e na impreparação da Alemanha para resistir ao efeito sistémico. Das duas, uma: ou essas condições são-nos dadas e repete-se o que já foi dito mais atrás, ou não nos são dadas e saímos do euro. Grande caos inicial, enorme fúria da Alemanha (confessemos que nos daria gozo), consequências para a Europa imprevisíveis (com dados da hora atual), mas… regresso à nossa moeda e à nossa independência, e recuperação da economia provavelmente assegurada (ao contrário do cenário “euro-acorrentados”). Não seríamos os únicos na Europa. Perspetivas: negras e agitadas no imediato, cinzentas logo a seguir, com um rosa a espreitar, apenas ensombrado pelo que entretanto se passar na restante Europa, da qual fazemos geograficamente parte (conflitos sérios não estão excluídos).

Quarta – Posição potencialmente existente, mas sem defensores claros. Comunicamos desde já que o euro não nos interessa nestas condições e saímos, assumindo o nosso destino, tendo de recorrer igualmente ao FMI, mas agora com moeda própria passível de desvalorização. Possibilidade de acordos de financiamento com BRICs e outros, que exigirão contrapartidas também. Abandono do clube Euro, no qual, para todos os efeitos, já ocupávamos uma posição totalmente irrelevante, subalterna e em afundamento.
Não arrisco dizer que é esta a posição do PCP. Do que conhecemos deste partido que não seja a função de agitação, sobretudo contra o PS, nenhuma posição é aceitável se não forem eles – o povo e os trabalhadores – a assumir o poder “contra o grande capital”, sendo que todas são aceitáveis desde que assumam o poder. A sigla BRIC para o PCP seria, no entanto, BRICCC, pois incluiria a Coreia do Norte e Cuba, países que, estranhamente, não são emergentes, mas submergentes.

As três últimas posições, para vingarem, exigiriam a proximidade de eleições, mas nada impede os partidos de assumirem a sua defesa mais cedo, e em função do evoluir da situação, por uma questão de clareza perante os eleitores. É claro que qualquer das três exige líderes fortes, convictos e convincentes, caso contrário o discurso do medo em que assenta a primeira posição levará a melhor. E, no entanto, os resultados do rumo seguido estão bem à vista de todos.

Arrelvados

O que se está a passar com Relvas não encontra paralelo em nada conhecido até hoje na política nacional recente ou arcaica. Recapitulemos:

– O braço direito de Passos, seu amigo íntimo de longa data, cultor de uma atitude de ofensas abjectas, secretário-geral de um partido que reclamou ser o detentor exclusivo da verdade acusando dois Governos de mentir por sistema e um primeiro-ministro de ser corrupto, é agora Ministro dos Assuntos Parlamentares, coordenador político do Governo, responsável pela tutela da comunicação social e mais umas largas coisas.

– Esta figura central da presente governação foi apanhada a mentir ao Parlamento a respeito da sua relação com Silva Carvalho, foi apanhada a fazer ameaças e chantagens a jornalistas e a um jornal e foi apanhada a fazer tráfico de influências. Por “ser apanhada” entenda-se a existência de factos e testemunhos nesse sentido que são públicos, os quais surgem verosímeis pelas fontes e contextos de denúncia e os quais ela não contesta judicialmente.

Pergunta fatal: como é que é possível que continue em funções no Governo, e mesmo no PSD? É precisamente esse fenómeno que não tem outro caso similar ao qual se possa comparar. Do lado social-democrata, o encobrimento é total. O Primeiro-Ministro nega o espectáculo e varre para debaixo do tapete as sucessivas obscenidades. Diário de Notícias, Correio da Manhã, Sol, TSF, entre outros órgãos de informação, chegam ao ponto de nem sequer noticiarem as declarações de Helena Roseta. Isto, à falta de melhor expressão, é “asfixia democrática” já em estado terminal. Se há imprensa que se permita ignorar uma acusação do calibre daquela que foi feita, seja para pedir explicações a Relvas ou para desconstruir a suspeita, então é favor devolverem todas as carteiras de jornalista que tenham em seu poder. E do lado da oposição vem o marasmo, cinicamente resumido nesta rábula de Morais Sarmento:

Morais Sarmento – ex-ministro no Governo de Durão Barroso (2002-2004), onde aliás deteve uma das tutelas agora com Relvas, a da comunicação social – elogiou o PS por não ter pedido a demissão do ministro adjunto. Uma postura “responsável”, afirmou.

Sarmento está a reconhecer que jamais, em tempo algum, o PSD deixaria de exigir a cabeça de um governante socialista apanhado num festival degradante como aquele que Relvas ofereceu ao País de rajada. Aliás, para a São Caetano qualquer político socialista deveria ir entregar-se voluntariamente na esquadra mais próxima e confessar os seus crimes. O PSD sabe que esses crimes existem em acto ou intenção, só que ainda não teve tempo de mandar o Pacheco de volta à saleta das escutas recolher mais provas avassaladoras.

Eis o nosso problema essencial, o nosso desafio sem fuga possível. Já não temos um Presidente da República que seja o garante da Constituição e uma salvaguarda do Estado de direito, pelo que nada há a esperar dali. A Justiça está politizada e o actual poder ministerial quer aumentar essa perversão. Os partidos estão reféns das suas lógicas sectárias, sendo manifestos a fadiga moral e o esgotamento intelectual da elite parlamentar. E os senadores do regime estão calados perante a desonra das instituições. Quer-se dizer: Relvas simboliza a impotência e decadência da Nação.