Palavras que desaparecem

Tutela. Tutela quer dizer alguma coisa. Ou queria. Quem não se lembra de ver uma ponte cair e, de seguida, o Ministro das Obras Públicas a demitir-se?
Tutela vem associada a responsabilidade política. Quem a tem pode não lhe ver imputada qualquer culpa concreta ou acusação criminal, mas é responsável. Politicamente.
Ontem, Passos Coelho, o responsável máximo pelos serviços de informação, sem capacidade de delegação, foi à AR defender-se sob a capa da defesa exclusiva de um seu Ministro, de resto pronto para sair do debate para a primeira Comissão.
Relvas, sim. Mas pelos pingos da chuva passa o PM, a quem um Secretário-Geral do PSD nunca (???!!!) transmitiu o facto de ter recebido mensagens e mails obscenos do espião do momento.
Relvas, sim. Mas na concentração do ataque e na defesa num círculo unipessoal chamado Relvas fica de fora quem não demite o dito Ministro, quem não demite o SG dos serviços de informação, quem nada, mas nada de nada faz no exercício dos seus impolutos poderes de tutela.
Porquê esta psicótica proteção de um Ministro e de um Sistema corrompido quando tudo nos levou a uma questão, verdadeiramente, de podridão do regime?
Não sei. Mas se o o pedido do espião de levantamento do segredo de estado for deferido, talvez estas e muitas outras questões fiquem respondidas.
Da pior maneira.

Bush no México trama Relvas

Há coisas que não lembram ao diabo. Mas Miguel Relvas lembrou-se perfeitamente de um “clipping” de Silva Carvalho sobre a visita de George W. Bush ao México. Tão prontamente que, na primeira audição, o deu como exemplo de notícia inócua e desinteressante, igual a tantas outras com que lhe inundavam a caixa de mensagens contra sua vontade.
A notícia em si nada tem de grave nem de comprometedor para Miguel Relvas. Mas, o facto de se lembrar de ter recebido uma notícia de 2007 depois de ter afirmado ter travado conhecimento com Silva Carvalho apenas em 2010 suscita imediatamente algumas questões: por um lado, mostra que um “clipping” com esse teor lhe foi mesmo enviado, caso contrário não o mencionaria (não inventou em plena Comissão de Inquérito um acontecimento verídico relativo ao antigo presidente norte-americano). Por outro lado, passa automaticamente a ser legítimo perguntar, como era intenção da jornalista do Público, se a relação com Silva Carvalho afinal não data de bem antes de 2010. Se assim for, quereremos saber tudo, pois os últimos anos poderão ser revisitados e interpretados a uma luz bem diferente. Acresce que é quase inevitável pensarmos na ingenuidade de Sócrates ao querer ser generoso com os seus adversários: lembro-me que na EDP manteve Mexia, na Caixa, Faria de Oliveira, no Banco de Portugal e em plena guerra política substituiu Constâncio por Carlos Costa, na CMVM manteve Carlos Tavares e no SIED, pelos vistos, colocara uma pessoa que liderava uma equipa de colaboradores ao serviço (desde sempre ou a partir de uma dada altura) de Miguel Relvas e depois da Ongoing. Céus. Afinal a culpa é mesmo do Sócrates… Não leu devidamente os livros de John Le Carré.

Duas notas para destacar uns debates de ontem na televisão. Luís Delgado, na SIC-N, e Campos Ferreira, na RTP Informação, defenderam Relvas com unhas e dentes, Delgado perdendo completamente o sentido da objetividade por força da amizade com o ministro e Campos Ferreira vociferando no estúdio sem deixar falar mais ninguém, arriscando uma apoplexia no meio de mais um ataque de partidarite aguda. Contra a parcialidade de Luís Delgado, o jornalista Filipe Santos Costa manteve uma admirável segurança e clareza ao enumerar as contradições e omissões do ministro. Já antes, num outro canal, um outro jornalista, de que não me recordo o nome, chamara a atenção para o facto de Miguel Relvas ter ido, de imprevisto e com grande pressa, depor na Parlamento após o debate quinzenal, não por ter sido acometido por um ataque de transparência e disponibilidade, mas porque, simplesmente, a revista Visão sairia hoje com a notícia dos seus encontros com Silva Carvalho e convinha controlar os danos antes disso. Um berbicacho sem fim à vista para o Governo, politicamente nas mãos de Relvas.

Dependemos do bom jornalismo, o que arriscar dar provas de isenção, para esclarecer todo este caso, que suscita muitas interrogações. Entretanto, gostaria de saber se a investigação do Público ficou ou não suspensa após as ameaças de Miguel Relvas. Percebeu-se que a Direção exercia um grande controlo nesta matéria. A história da visita de Bush ao México tem mais importância do que possa parecer.

Só lhe faltam as asas

Diz o pobrezinho do Relvas que tem direito ao bom nome, que tem família e amigos. Pois tem, mas há cerca de um ano esta pobre vítima teve o descaramento de dizer que “se fosse parente do engenheiro Sócrates escondia que era parente dele”, o que diz bem da besta que agora se vitimiza. E como argumento a favor da sua inocência remeteu para a Justiça, diz ele que “se tivesse extravasado as suas competências, o seu nome apareceria no despacho de acusação do Ministério Público”. Portanto, a Justiça funciona lindamente, mas deve ser recente esta competência da Justiça, é que Sócrates também nunca foi acusado de nada o que não impediu o partido deste verdadeiro anjo de o tratar como um autêntico criminoso, ainda com menos direitos que os criminosos comuns.

E foi isto que foi fazer ao Parlamento. Mas diga-se em abono da verdade que quem o permitiu foram os deputados da oposição que aparentemente gostam mais de se ouvir a si próprios do que aos inquiridos. Ao fazerem 300 perguntas de uma vez, à mistura com outras tantas considerações, permitem que o inquirido não responda a coisa nenhuma e fale do que bem entender. Eles lá sabem, mas depois não se queixem das perguntas que ficam por responder.

Caminho relvado

Como se pode ver ou rever, a partir do minuto 22, António Costa surpreendeu a minha preciosa ingenuidade ao comentar o caso Relvas com estas declarações:

– Que não estava em Portugal na semana do acontecimento da denúncia dos telefonemas de Relvas para o Público.
– Que estávamos perante declarações contraditórias.
– Que a directora do Público tinha desvalorizado o incidente num primeiro momento.
– Que existiria um conflito dentro do jornal entre a Direcção e a Redacção.
– Que existem duas versões quanto aos factos, ambas legítimas até prova em contrário.
– Que Relvas pode ter sido mal interpretado, podendo haver um empolamento de algo inócuo.
– Que não conhece Relvas o suficiente para desconfiar da sua palavra, mas que o conhece o suficiente para confiar na sua palavra.
– Que a suspeita sobre Relvas é ridícula à luz da propalada ameaça sobre a vida privada da jornalista, porque isso contradiz a tal imagem de Ministro super-poderoso que os atacantes de Relvas alimentam.
– Que a sua mãe era jornalista no salazarismo e ela nunca se amedrontou.
– Que a ERC vai resolver isto sem nada ficar esclarecido e ponto final.
– Que não vale a pena falar mais sobre este caso de um ridículo atroz.
– Que não é possível chegar à verdade neste caso, pois para isso era preciso ir para tribunal e interrogar exaustivamente os intervenientes.

Que raio é isto? Isto é a mais peremptória lavagem de Relvas de todas as que apareceram desde que a bronca rebentou. Costa começa por usar a ironia com o fito de pintar a opinião do Pacheco como exagerada e sem relação com a realidade, depois reclama conhecer menos do caso do que qualquer outro na conversa ou na audiência, de imediato avança para uma descrição formal do episódio onde enfatiza a falta de credibilidade da acusação e a credibilidade do acusado, e termina em cavalgada heróica dando o peito contra as lanças dos ridículos que perseguem Relvas.

O choque que estas declarações me causaram não está no seu teor. Que Costa pense exactamente isto é para o lado em que durmo melhor, mesmo que o tenha passado a ver como um estranho. O choque vem é do desaparecimento do político. Como é que lhe foi possível ignorar a gravidade da ameaça à jornalista? Pior: como é que ele se permite desconstruir e desvalorizar a indignação que a chantagem, precisamente pelo sórdido donde nasce e que procura espalhar, provoca em qualquer cidadão que ainda encontre uma cara para lavar pela manhã? Mesmo que estivesse decidido a caminhar no fio da navalha, num registo de imparcialidade, equidistância e cega justiça exemplares, teria de representar em igualdade intelectual o lado daqueles que acreditam ser Relvas uma figura que ofende o Estado e a comunidade. Precisamente por não o saber, por nada saber, o futuro secretário-geral do PS estava obrigado a defender a cidade – preferiu defender uma erva daninha.

Temos elite, mas onde está o escol?

Mais duas figuras intimamente ligadas a Sócrates aparecem a defender Relvas, Maria de Lurdes Rodrigues e Proença de Carvalho. Estarão a fazê-lo pelas melhores razões, dando lições de decência e civismo por contraste homérico com o que sofreram no passado, e continuam a sofrer no presente, por se terem cumprido livres ao lado de quem nunca abandonaram, fosse por vínculo político ou profissional.

Contudo? Com tudo o que dizem não falam do essencial: é impossível defender Relvas sem com isso ofender a inteligência alheia. E isto para começar, pois as ofensas não se ficam pelo domínio da lógica. Tanto no que diz respeito ao caso dos serviços de informação, onde Relvas mentiu abertamente e um adjunto seu teve de se demitir, como no caso com o Público, onde é o próprio Relvas a validar a versão do jornal, há uma leitura moral e política que não está dependente dos processos formais de apuramento dos acontecimentos. Se a ideia for, inclusive para o PS, a de manter Relvas no Governo, pois nem esse propósito imuniza os responsáveis políticos face às consequências éticas do espectáculo das últimas semanas. Portanto, quem bota faladura sobre os casos está concomitantemente a comprometer-se pessoalmente nos episódios, pois é obrigado a julgá-los do ponto de vista do espaço público.

Não foi Balsemão quem obrigou Relvas a telefonar para a Leonete Botelho. Não foram 32 minutos para responder a perguntas que o fizerem perder a cabeça ao telefone. Não foram perguntas que declarou serem irrelevantes acerca de situações que garantiu serem lícitas que lhe despertaram a gana de ameaçar com boicotes de ministros e publicação de informações pessoais de uma jornalista na Internet. Isto não tem defesa, e ele nem sequer se defende, anda é a ser defendido por aqueles de quem menos se esperava tal cumplicidade.

Se a nossa elite não está à altura dos mínimos de respeito que Portugal merece, talvez o melhor seja ficarem calados.

Já se pode voltar ao optimismo sem medo de passar por mentiroso e louco, decreta o Marcelino

Isto é de subir aos postes e apalpar o cu às lâmpadas. No DN descobriu-se no finalzinho de Maio de 2012 o que se andou a fazer desde 2005. As gozações com a política comercial de Sócrates, o achincalho permanente da confiança exibida pelos governantes ao tempo na capacidade da economia nacional em inovar e produzir, o consolo sádico em ver o País a ser afundado só para trocar a cor do poder, o histerismo venenoso que se enfurecia e negava qualquer sucesso que pudesse ser associado a socialistas, dão agora lugar ao discurso contra as lamúrias e modorra dos indígenas. Bem sabemos que o Marcelino nunca assumiu publicamente esta retórica decadente e demente, mas o seu estilo “português suave” fez força na mesmíssima direcção.

A verdade crua dos números diz-nos que essa presença vinha em crescendo nos anos de 2006 e 2007, estagnou, em 2008, e levou um enorme tombo, arrastada pelo colapso do comércio internacional, em 2009, para voltar com redobrada força, desde janeiro de 2010, a projetar os bens e serviços portugueses em cada vez mais mercados estrangeiros, com ganhos de quotas de mercado em vários continentes e crescimentos anuais de dois dígitos.

O processo é muito anterior ao desembarque da troika no Rossio e resulta de um investimento persistente e sustentado do Governo e das associações empresariais, que semearam negócios no Magrebe, no Golfo, na América do Norte e do Sul, em África e na Ásia, cujos frutos começam agora a tornar-se tão visíveis, que até o FT os vê.

Não há, pois, razão para derrotismos ou desânimos. O que faz falta é resiliência e persistência, qualidades que, ao contrário dos seus mais míticos antepassados, não constituem o forte da alma dos lusitanos modernos.

Isto está a ficar um nadinha mais claro, está

Falando de coisas importantes: quando e por quem é que terá sido produzido o dossier das secretas sobre Ricardo Costa, que hoje foi revelado? Não terá sido aí por alturas da publicação pelo Expresso das cartas de Cavaco e filha a Oliveira e Costa dando “ordem de venda” das acções da SLN?

E o famoso dossier sobre Rui Paulo Figueiredo? Não terá vindo na mesma época da mesma fonte, Silva Carvalho, o amiguinho que trata por tu o Relvas e lhe dá palpites para as chefias do SIS?

Já não sabem quem é o Rui Paulo Figueiredo? Cito o famoso email de Alvarez para Tolentino, que pôs a nu a inventona cavaquina-limiana das escutas de Belém:

“Depois [Fernando Lima] entregou-me um dossier sobre um Rui Paulo da Silva Figueiredo que é adjunto jurídico do PM [José Sócrates], trabalha para o MAI, já passou pelos gabinetes de diversos ministros e, segundo o Fernando Lima, terá tentado entrar para o SIS mas chumbou.”

Já agora, quem terá chumbado o Figueiredo e porquê? Silva Carvalho deve saber.

Muito mais importante: qual terá sido o papel de Silva Carvalho nas campanhas de assassinato de Sócrates?

Hoje sabemos, por causa duma vulgar viagem de George W Bush ao México em 2007, que Silva Carvalho já “trabalhava” para Relvas (e para Belém?) bem antes da inventona das escutas.

Isto está a ficar um nadinha mais claro, está. Esperemos os desenvolvimentos.

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Oferta do nosso amigo Júlio

Um livro por semana 288

«África – frente e verso» de Urbano Bettencourt

Autor de 6 volumes de ensaio e de 9 livros de poesia e narrativa, Urbano Bettencourt (n. 1949) assina neste seu 16º título uma revisitação de África onde cumpriu uma comissão de serviço entre 1972 e 1974. O título propõe uma dupla inscrição mas nem no Natal o poema sugere alegria: «sem nozes nem lâmpadas / sem presépio nem padres finalmente / o natal escorre de saudade pelos olhos do soldado / agarrado à breda remuniciada.»

O tom geral é a raiz de mágoa, título do primeiro livro do autor em 1972: «o Pedro morreu com 22 anos, tinha x metros de altura, pesava n quilos, a mina arrancou-lhe as pernas, procurei os restos e reuni-os debaixo de um mangueiro, (…) eu bebi whisky puro toda a tarde.» A alma e o corpo ocupam lugares diferentes: «Do corpo jamais se soube o que foi feito (…) mas a alma, essa mesma que foi enterrada junto ao poilão, é que continua multiplicada e enorme por dentro das noites a assombrar as bolanhas e as florestas, os riso e os poços.»

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Precisas de ajuda para apanhar o gajo, Pacheco?

Na Comissão de Inquérito sobre a tentativa de José Sócrates de controlar a TVI, tive ocasião de ver como uma parte significativa da nossa elite política, social e económica mentiu com todos os dentes que tinha para proteger um Primeiro-ministro então “amigo” e também para proteger os seus negócios, presentes e futuros. No final do inquérito, Passos Coelho interveio pessoalmente para proteger Sócrates de conclusões que denunciavam as suas mentiras e o seu papel, e mesmo o BE e o PCP actuaram para evitar as consequências plenas de se verificar que o Primeiro-ministro mentira ao Parlamento. Nenhum quis colocar Sócrates perante as suas responsabilidades e isso por uma razão fundamental: todos pensavam que os portugueses não “compreenderiam” que o Primeiro-ministro pudesse cair porque conduzira através dos seus homens de mão uma operação para controlar uma estação televisiva que tinha noticiários hostis e fazia mossa ao governo. E, deste ponto de vista, tinham razão.

Os jornalistas, por sua vez, salvo raras excepções, é muita indignação e lábia, mas rapidamente se deixam envolver nos “lados” da politização do caso e nas tricas entre jornais e entre eles próprios. Ainda há um pequeno número de órfãos de Sócrates nos jornais, que hoje protestam contra Relvas, indiferentes às sucessivas tentativas de Sócrates de manipular a comunicação social, muitas com êxito.

Pacheco

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Que diria o Pacheco Pereira se o Pacheco Pereira tivesse tempo e disposição para dizer coisas a respeito do Pacheco Pereira? Talvez daqui por 10 ou 15 anos o saibamos, numa autobiografia mais do que merecida. Entretanto, temos à disposição a facúndia pela qual ganha a vida e rivaliza com Marcelo no topo da cadeia alimentar das estrelas da política-espectáculo. Tal como Marcelo, Pacheco é bífido, ora julgando os políticos como observador, ora indo para a política julgar os observadores. Este exemplo acima, o seu papel no caso Sócrates-TVI, é paradigmático da duplicidade que lhe permite jogar com as brancas e com as pretas ao mesmo tempo e ainda ter lata para se queixar da inclinação do tabuleiro.

Comecemos por lhe dar razão. É altamente provável que Sócrates quisesse “controlar a TVI” e acabar com o “Jornal de Sexta”, entre outras malfeitorias. E isso pela mais lógica das razões: por ser lógico querer defender-se e/ou atacar os adversários. A TVI do casal Moniz era uma entidade com uma agenda política de destruição do Governo e do PS com recurso a difamações e calúnias sistemáticas. Igualmente provável é ele ter verbalizado isso mesmo, ou parecido, com os seus amigos e/ou colaboradores mais próximos. Acresce que a área do PS não tem nenhum patrão de imprensa, estando o panorama mediático português quase todo nas mãos da direita ou coisa pior. E, para cúmulo, a exploração do caso Freeport era especialmente penosa para a vida pessoal e política de Sócrates, sendo um dos principais factores de desgaste num ciclo já profundamente condicionado pela crise de 2008/9 e o conflito com os professores. Logo, passar-lhe pela mona a fantasia, ou a cobiça, de se ver livre dos mastins de Queluz é algo que o bom senso popular carimba como normal.

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É hoje: basta aparecer na Faculdade (laica) de Direito da Universidade de Lisboa

Seminário Outros Protagonistas – “Familiarizando-nos com as famílias no plural”
Data: 29 de Maio de 2012

Local: Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Todos os inscritos receberão um certificado de participação.

Programa:

16h45 . Coro Regina Coeli
17h00 . SESSÃO DE ABERTURA
Prof. Doutor Eduardo Vera-Cruz Pinto – Director da FDUL
Prof. Doutor Pedro Romano Martinez – Presidente do Conselho Científico da FDUL
Prof. Doutor José Manuel Pavão – Vice-Presidente da Confederação Nacional das Associações de Família
17h20 . 1.º PAINEL: RECOMEÇOS
MODERADORA Juíza Desembargadora Teresa Féria de Almeida
1. O DIREITO DE FAMÍLIA NA ACTUALIDADE: TÊM A PALAVRA “OS OUTROS”
Prof. Doutor Carlos Pamplona Corte-Real – FDUL
2. OS MEUS, OS TEUS E OS NOSSOS
Prof. Doutora Isabel Santa Bárbara Narciso – Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa
3. FAMÍLIA EM RUPTURA E FAMÍLIAS SUBSTITUTAS
Prof. Doutora Evani Zambon Marques da Silva – PUC-SP
18h20 . DEBATE
18H35 . 2.º PAINEL: REGRESSOS?
MODERADORA Dra. Fátima Duarte – Presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género
1. OS MAIAS REVISITADOS: O INCESTO COMO LIMITE AO DIREITO DE CONSTITUIR FAMÍLIA.
NOVA JURISPRUDÊNCIA DO TRIBUNAL EUROPEU DOS DIREITOS DO HOMEM
Prof. Doutor Jorge Reis Novais – FDUL
2. CASAMENTOS HOMOAFECTIVOS, PROCRIAÇÃO MEDICAMENTE ASSISTIDA E ADOPÇÃO
Mestre Isabel Mayer Moreira – Deputada da AR
3. TUDO AO MOLHO E FÉ EM DEUS: ANÁLISE ECONÓMICA DA POLIGAMIA
Prof. Doutora Rute Saraiva – FDUL
19h35 . DEBATE
19H50 – SESSÃO DE ENCERRAMENTO
Prof. Doutor Eduardo Vera-Cruz Pinto – Director da FDUL
Prof. Doutor Carlos Pamplona Corte-Real – FDUL

As três janelas do fotógrafo Manuel Neto

Aconteceu uma vida anterior

Quando alguém se despediu

Nas três janelas desta casa.

Houve um primo na Índia

Um tio esteve nos Açores

E o pai foi para Cabo Verde.

O outro tio não foi para Macau

Mas até essa dúvida militar

Teve nas janelas testemunhas.

A avó rezou o terço todos os dias

E desmaiou no sol da missa campal

Quando o padre falou nos soldados.

Mas tudo isso foi muito antes do fim

Quando nesta casa se começou

A saber qual a gramática da ruína.

Depois todas as rendas se rasgaram

Como as redes da praia apodrecem

No canto das areias e do silêncio.

Aos poucos todos partiram de casa

Levando a vida fechada em malas

E sem tempo para dizer adeus.

A chuva fez o resto com o vento

E ninguém percebe a vida antiga

O frémito das vozes e dos dias.

Nesta casa só as janelas dizem

O inventário do tempo passado

E o balanço dos dias do presente.

A parede perdeu a sua pele antiga

Do tempo em que a casa respirou

E a vida era dizer adeus nas janelas.

Uma mão cheia de nada

O PS de Seguro gabou-se de ter obtido uma importante vitória ao conseguir aprovar a já famosa “adenda ao tratado orçamental”. E obteve sim senhor, tendo em conta que ganhou pelo menos uma parte do ciclo noticioso agora entretido com o affair Relvas. Resta saber o que é que foi, exactamente, aprovado, que documento é esse que, segundo Seguro e Zorrinho, constituem agora a “regra de ouro” (quiçá “de platina“) para o futuro “crescimento” de Portugal. Que terá, naturalmente, que agradecer reconhecido ao PS quando o “crescimento” chegar.

E o que foi aprovado foi, essencialmente, isto (bolds meus, rasurado aquilo que não foi aprovado):

 I. Recomendar ao Governo que, em nome de Portugal, proponha e apoie medidas de natureza institucional e políticas que vinculem juridicamente os Estados Membros da União Europeia e que conformem uma agenda de crescimento e de criação de emprego na União Europeia, designadamente através da aprovação de um ato adicional ou de um tratado complementar ao tratado sobre estabilidade, coordenação e governação na união económica e monetária.

E uns excertos dessas medidas:

a) Reforço dos mecanismos de governação económica, baseada no princípio da legitimidade democrática, implicando uma maior intervenção dos parlamentos nacionais e europeu, e no aprofundamento do método comunitário de tomada de decisão

(…)

e) Criação de um Eurogrupo social que se encarregue da coordenação das políticas de emprego e sociais dos Estados da zona euro, de modo a preservar e dinamizar o modelo social europeu;

(…)

h) Construção de um sólido sistema de supervisão bancária a nível europeu e definição de um regime jurídico que imponha a separação entre bancos comerciais e bancos de investimento.

(…)

a) Tomar em conta o papel do investimento e do crescimento nos esforços de redução da dívida pública;

(…)

d) Em articulação com as alíneas anteriores, reforço da capitalização  e lançamento de obrigações pelo Banco Europeu de Investimento (BEI), aumentando a capacidade de financiamento de projetos de investimento nas áreas referidas;

e) No quadro das políticas já existentes, implementação de programas e políticas específicas de crescimento e de criação de emprego, mobilizando para isso, se necessário, novos recursos, para os Estados Membros sob assistência financeira externa;

(…)

g) Garantir que as perspetivas financeiras 2014-2020 mantenham o reforço da coesão económica e social como prioridade fundamental, a par da implementação dos objetivos reforçados, nos termos das alíneas anteriores, da estratégia Europa 2020; com vista à negociação, deve ser promovido um amplo debate nacional sobre aquelas perspetivas financeiras;

etc. etc. O documento completo pode ser lido aqui (PDF), as alterações propostas pelos partidos do governo aqui.

Boas intenções, sem dúvida. Até nos lembrarmos que foi por estas boas intenções, estas “recomendações ao governo” (não-vinculativas, ou seja, o governo está perfeitamente à vontade para as ignorar) que o PS assinou sem piar muito e em tempo recorde, o tratado orçamental (PDF) que, esse sim, nos vincula com objectivos bem concretos, e que retira grande parte das competências dos parlamentos nacionais em termos de orçamento para os entregar a um “conselho de governadores” com poderes, basicamente, ilimitados para países em incumprimento. Ou seja, por uma mão cheia de nada, nem sequer a menção das Eurobonds, este PS aprovou a entrega de uma mão cheia de tudo. Nós assinamos, e em compensação vocês, se vos apetecer e só se vos apetecer, vão defender umas balelas lá na UE que não aborreçam muito a Alemanha. Se não o fizerem, já podemos berrar mais um bocadinho, fazer outra “ruptura democrática”. Foi, em resumo, isto que foi aprovado. É esta a “vitória”.

Seguro acusou recentemente o primeiro-ministro de ser “subserviente a Ângela Merkel“. Lamento dizê-lo, mas nesse aspecto não me parece que esteja sozinho. Até porque não sei o que é pior, se o subserviente, se o que deixa passar a subserviência em nome do “consenso” e da “responsabilidade”.

Afinal, eles bem sabiam o que vinha a caminho

Os contornos multiformes do caso Relvas, a ter como protagonista um ministro socialista, dariam origem a um pandemónio. De imediato o Aníbal, a direita, a esquerda, os sindicatos, as ordens, a sociedade civil, os fogareiros, os clubes do tapperware, os grupos de escuteiros, e qualquer macaco capaz de juntar um adjectivo a um substantivo, saltariam alucinados de indignação para o espaço público. Basta recordar o que se disse e escreveu nos episódios dos corninhos infantilóides do Pinho ou no desvairo pateta e hilariante do Ricardo Rodrigues ao fanar os gravadores dos jornalistas em frente às câmaras. Estes dois casos, um deles levando à imediata demissão e seu prejuízo político, o outro ao custo político da continuação em funções, não têm qualquer comparação com o que já está estabelecido no tribunal das evidências a respeito de Relvas, pois a temática das secretas e da chantagem para cima de jornalistas é de um outro e inaudito campeonato. Assim, não havendo ninguém do PS para abater, reina o civismo, o sentido de Estado, o protocolo de esperar pelas averiguações e demais minudências. Temos até disponibilidade para apreciar o espectáculo imperdível de ver aqueles infelizes que aparecem a defender o indefensável, autênticos farrapos que teriam sido dos mais assanhados e furibundos caso o alvo não fosse laranja e sim cor-de-rosa.

Criar pânico na população, instigar ao clima de permanente histerismo foi instrumental e decisivo para o desgaste e abate de Sócrates. Correia de Campos, que entrou no Ministério da Saúde sabendo o que lhe iria acontecer inevitavelmente mais cedo ou mais tarde, caiu porque de repente até algumas figuras gradas do PS alimentavam a irracionalidade contra si e contra o Governo. Estes fenómenos tinham diferentes causas, desde a permanente desconfiança face ao poder até à dificuldade de aceitar mudanças de cultura, passando pela eficácia mediática na construção das percepções, imagens e sentidos. Mas à volta de Sócrates o histerismo igualmente nascia do seu carisma, da sua força que vencia e, por isso, que ia subindo a parada do desafio para os seus opositores. Tal destino humilhou a gente séria, impotente e corroída por uma endógena decadência intelectual. Não tinham generais nem guerreiros à altura, mas tinham veneno. Abundante, inesgotável veneno.

Centenas de milhares de desempregados atrás, no tempo em que seria impossível admitir que algum Governo se atreveria a cortar subsídios à má-fila, quanto mais defender a pobreza como meta ideológica, e os sinais de uma economia a modernizar-se iam aparecendo com consistência apesar das conjunturas de crise sucessivas, o dia-a-dia era preenchido com a legião de clones do Medina Carreira que garantia estarmos a caminhar para o abismo em passo de corrida, que estávamos a ser governados por incompetentes, criminosos e loucos. Honra lhes seja feita, finalmente acertaram em cheio.

Vinte Linhas 790

Os 153 peixes de São Pedro

No Mar de Tiberíades ainda hoje se pescam esses peixes, os chamados desde sempre «peixes de São Pedro» que parecem vivos nas fotografias. Diz o Evangelho segundo São João que o grupo de Pedro não pescou nada numa noite e que, de manhã, Jesus lhes perguntou: «Rapazes, tendes aí alguma coisa para comer?»

Como não tinham nada, Jesus mandou que lançassem a rede para a direita da barca. Pouco tempo depois a rede veio cheia com 153 enormes peixes e, mesmo assim, não se rompeu. Ao saltarem para terra os pescadores viram umas brasas vivas com um só peixe e ao lado um pão. Então Jesus disse: «Vinde e comei!»

Continuar a lerVinte Linhas 790