“A verdadeira revolução foi a entrada na CEE”
(Maria Teixeira Alves)
“Não deu pelas comemorações porque não passou na Avenida da Liberdade nem no Rossio, onde apesar da chuva por vezes intensa encontrava cravos, milhares de pessoas, cravos, chaimites, cravos e música. Ah, e cravos, já disse?
Quanto ao resto, de facto não ter memória é uma coisa chata. Mas pior do que isso é fazer por esquecer. Pois não acredito que não saiba, ainda que só tenha aprendido mais tarde, que havia uma série de traços do Portugal anterior a 74 cujo desaparecimento no dia 25 de Abril se pode considerar revolucionário: uma ditadura, censura, uma ditadura, ausência de eleições, uma ditadura, guerra colonial, uma ditadura, polícia política, uma ditadura, repressão sobre os estudantes, uma ditadura, ausência de direitos laborais sérios, uma ditadura, inexistência de sindicatos livres, uma ditadura, isolamento internacional, uma ditadura, inexistência de serviços de saúde universais e uma taxa de mortalidade infantil medieval, uma ditadura, analfabetismo galopante, uma ditadura… E, é verdade, já me esquecia, uma ditadura…
Se calhar para si era só um senhor com programas de televisão cinzentos como o regime. Para muitos era a prisão, a devassa da vida privada, os ossos partidos, a miséria de não ter pão e a negação da dignidade elementar. Acabar com isso, revolucionário? Concerteza que não.
Aposto uma sardinhada em como não vai publicar o comentário. Mas mesmo ficando só entre nós, espero poder ter pelo menos motivado uma necessidade de pensar duas vezes antes de voltar a insultar quem foi libertado a 25 de Abril de 74. Para os carcereiros e seus amigos é que, de facto, a diferença se calhar foi pouco notória”.
Pedro Delgado Alves
PS: Diz que ser uma ditadura também não facilitava entrar na CEE, já que se fala nisso. Aparentemente o folclore ajudou qualquer coisinha.