Do actual não queremos saber, por o adivinharmos e por a figura não se dar ao respeito, mas o que pensam os três anteriores Presidentes da República, os quais estão vivos e lúcidos somando 30 anos como supremos magistrados da Nação, da perseguição política do sindicato dos juízes contra cidadãos escolhidos apenas e só por estarem associados a um certo Governo?
Arquivo mensal: Março 2012
Como dar bom uso a um museu poeirento
Com a genuína pop-art. E assim se enche um museu com a geração que cresceu nos anos 70 e 80, e com um mar de miúdos que, por uma vez, não vão apenas arrastados em visitas de estudo escolares. Para além do sorriso deliciado dos velhos funcionários, para quem estas enchentes são claramente novidade. Uma exposição, antes de mais, de gente feliz. Não percam.
Ontem disse que o faria. Está feito. E o Código do Trabalho amigo dos fortes foi aprovado na generalidade. Dia triste.
Laboratório de Ideias – sessões oficiosas
Ideias testadas nesta sessão:
– Francisco Assis entrou na lista de alvos a abater.
– Há uma seita no PS.
– Apelar à unidade do PS é amordaçar o partido, prolongar a falta de pluralismo e debate interno do socratismo.
– Soares é mais um daqueles tansos a quem Sócrates fez a cabeça.
– Os dirigentes e militantes socialistas, nos últimos 6 anos, não passaram de cães-de-fila do socratismo tirânico.
– Os casos lançados contra Sócrates e contra governantes socialistas provam, sem necessidade de desfecho judicial ou mera análise, a razão que assiste aos acusadores.
– Os socráticos preparam-se para acabar com o PS.
– Manuel Maria Carrilho continua sem tempo para oficializar a sua participação no Laboratório de Ideias para o qual foi convidado por António José Seguro.
Vinte Linhas 754
Aviso à EMEL – o Joel Neto já não mora no Bairro Alto
Os agentes da EMEL continuam a imobilizar e multar as viaturas de residentes no Bairro Alto com dispositivo EMEL mas estacionadas num espaço que a EMEL considera proibido. É a Travessa de S. Pedro onde existe a todo o seu comprimento um muro do Instituto de S. Pedro de Alcântara. Além de se tratar de um muro sem portas nem janelas, sabe-se que as freiras fazem a sua vida pela Rua Luísa Todi. Só por maldade, estupidez e má-fé a EMEL não considera este espaço do muro para servir de estacionamento. Aqui, onde já existem quatro lugares, poderiam ser atribuídos os oito lugares que nos roubaram com o estaleiro de obras na Travessa da Boa Hora. Quando eu era membro da Assembleia de Freguesia ouvi um pobre dizer, entre a basófia e a burrice, que estes oito lugares punham em causa a segurança do Bairro. A referência ao Joel Neto tem a ver com ele ter tido a coragem de, num artigo no Diário de Notícias, colocar o dedo na ferida e, depois de saberem que ele morava na Travessa de São Pedro, este arruamento passou a sofrer, por parte da EMEL, repetidas expedições punitivas. Como ainda não sabem que ele, cansado de viver aqui, cansado das multas, se foi embora para outro bairro da cidade, aqui estou eu a dar a novidade. E já agora um pedido: deixem-nos em paz, preocupem-se antes com quem, como ontem deixou entre as 22 horas e as 24 horas um automóvel a impedir a saída do Bairro Alto, bastaria uma ambulância querer passar para a Rua da Rosa e já não podia. Isso é que é importante como seria importante a EMEL juntar-se à Junta de Freguesia e à AMBA para discutir, rua a rua, travessa a travessa, todo o trânsito do Bairro Alto. Para emendarem a burla no documento da EMEL em Novembro de 2002: «Os moradores poderão estacionar livremente com o uso dos identificadores da EMEL».
Este Teixeira dos Santos
Segundo o jornal i, Teixeira dos Santos afirmou, em conferência no Porto, na universidade onde é professor, o seguinte: “Compreendo a Alemanha, devo dizer, porque a Alemanha tem a perceção de que ao fim do dia serão eles que terão que pagar, mas quer garantias. Temos de perguntar não o que é que a Alemanha nos tem que dar, mas o que é que nós temos que dar aos alemães”.
“Isto vai passar por um “contexto de maior condicionalidade”, ou seja: “Acho que os países não podem fazer os orçamentos a seu bel-prazer.”
“Se quisermos – disse isso imensas vezes – que a Europa partilhe o risco soberano temos que partilhar com eles as nossas decisões e não podemos pensar que eles estão aí para ajudar e nós não temos que justificar as medidas e as opções de política”.
Disse ainda que “No próximo dia 06 de abril se comemora um ano desde que deu “um empurrão para que Portugal pudesse superar as dificuldades com que se tem confrontado”, quando foi anunciado que tinha sido feito o pedido de ajuda à Comissão Europeia e que “visa não só um ajustamento orçamental importante, mas também uma agenda de reformas indispensável“.
Tudo certo, mais ou menos, ou talvez não, estas afirmações do antigo ministro das Finanças de Sócrates, além de simplistas ou simplórias, explicam bastantes coisas. Desde o diferendo pressentido com Sócrates em torno do pedido de empréstimo até ao recente convite para a PT.
Quanto à primeira parte das afirmações, de a Alemanha querer garantias e de os Estados-Membros terem de abdicar aos poucos de uma parte da sua soberania, claro, claríssimo, se o objetivo for a maior integração europeia; mas essa é uma parte da questão, no contexto desta crise. Teixeira dos Santos não devia ignorar que a outra parte da questão, o que a Alemanha também ganhou durante anos com os incentivos ao consumo dados pelos seus bancos, e pelos seus políticos, inclusivamente quando reunidos em Bruxelas, aos países periféricos, e que, só por si, devia impedir qualquer discurso em torno do “viver acima das nossas possibilidades” ou da teoria do pecado, da pieguice ou da preguiça, deveria igualmente pesar na balança, interessar-nos e ter sido usada (e provavelmente foi, por Sócrates) como argumento para contrariar/evitar a imposição de uma asfixia súbita, concentrada e violenta à nossa economia. Isto, evidentemente, sem prejuízo de um regresso gradual à solvência, como não podia deixar de ser intenção de Sócrates. O recurso à Troika tinha custos avultados para o país, como, aliás, infelizmente, se confirma, ainda por cima com executores destes, apologistas da expiação conducente à redenção.
Quanto ao “empurrão”, agradeço ter-nos confirmado as nossas suspeitas. A minha perspetiva, no entanto, tende a dar absoluta razão ao antigo primeiro-ministro: se, obtido o apoio da Alemanha, do BCE e da CE, como foi o caso com o PEC 4, nos tivéssemos mantido à tona de água nesta borrasca, a par da Espanha e da Itália, fazendo gradualmente as reformas necessárias, sem termos de bater no fundo e condenar milhares à miséria ou à emigração, teríamos sobrevivido e com alguma dignidade. Ouvir Teixeira dos Santos confessar que, também ele, contribuiu para a tomada do poder pelo bando de aldrabões que agora nos governa não é agradável. Deixa até um sabor amargo.
Código do Trabalho: votar contra ou não negar a tantos uma voz
Neste momento há mais de um milhão de desempregados à procura de uma coisa que se chama “emprego”. Depois, há outro número monstruoso de pessoas que, sem liberdade, sem poder, “tem” essa coisa que se chama “emprego”. Isso: “emprego” ou “trabalho”, palavras que na nossa cultura laboral têm, por pouco tempo, um significante.
Estamos a percorrer um caminho, que não se reduz ao Código de Trabalho, mas ao diploma que permitiu mais uma renovação por 180 dias dos contratos a termo ou à diminuição do prazo do subsídio de desemprego, com uma marca ideológica clara.
Um dos resultados deste pacote calculado pela direita é a corrida aos baixos salários, prontamente oferecidos por patrões que poderiam oferecer mais, mas que sabem que uma indignidade será “aceite”, por exemplo porque o prazo do subsídio de desemprego do futuro trabalhador está a terminar.
O CT “cumpre o memorando”, dizem, donde a “disciplina de voto”.
O CT não aproveita garantias do memorando e vai – para não variar – para além do memorando, não no sentido de proteger a parte mais fraca no contrato de trabalho, mas para ajudar a fragilizar ainda mais a parte mais frágil.
Disciplina de voto?
A ver se eu percebo: amanhã o Governo faz uma proposta de lei sobre um ponto do memorando a qual tem 2 preceitos que concretizam o memorando e 100 que inovam no caminho do liberalismo histérico em que a direita anda animada. Estou sujeita a disciplina de voto? É matéria de “compromisso eleitoral do PS”?
Felizmente, independentemente do sentido de voto, vários Deputados concordaram com esta interpretação.
Mas a questão mais importante é outra: os tais milhões, desempregados e precários, não têm muita coisa.
Convinha não negar-lhes uma voz.
Vox populism
É uma experiência esmagadora, deprimente, ouvir a “voz do povo”. Constata-se que não tem o mínimo sentido crítico acerca do que a bendita comunicação social divulga, seja por iliteracia pura e simples, seja por falta de informação, seja por tendencialmente acreditar no que dizem “os que sabem”, que são os senhores dos telejornais e jornais. O assalto aos meios de comunicação foi o golpe de mestre da Direita. Por isso não é de estranhar que o povo mantenha elevadas as intenções de voto no gang que se apossou das instituições da República, apesar de sentir que está a ser arrastado para o empobrecimento calculado e forçado. Aceita, resignado, o retorno à miséria de muitos e fausto de alguns senhores. É uma resignação entranhada, que vem desde a instauração da ditadura da Santa Inquisição. Cinco séculos de cerviz cangada fizeram mirrar a dignidade humana do povo luso. Três breves décadas de alvoroço parecem não ter sido mais que um raio de luz, um relâmpago na noite escura da secular servidão.
Quem ouviu a última e deprimente emissão do “prós e contras”, se tinha dúvidas acerca do miserabilismo enraizado na alma lusa, deixou de as ter. Foi a lição de uma meia dúzia de totós e filhos da mamã e da mãe, explicando direitinho como nunca deveriamos ter, sequer, sonhado deixar aquela “vidinha” de antes do 25 de Abril, pobrezinha, de terceira e quarta classe (agora retomou-se sintomaticamente o antigo “exame”- “aquilo é que era aprender!”). Diziam, apluandindo-se uns aos outros, que é preciso torcer o pepino aos meninos que “querem tudo”. E lá vinha o grande pedagogo Herman José a dizer quanto teve de penar para o pai lhe dar um carro em segunda mão e o Milton, outra sumidade pedagógica, a contar que fora trabalhar para as obras com treze anos (!!!) para comprar os ténis caros que o pai lhe recusava.
Aquilo só visto, meus amigos. Era a alma lusa, velha de quinhentos anos, saudosa da sua ainda mais antiga e mísera servidão. Merece bem o mísero professor e presidente que elegeu e reelegeu.
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Oferta do nosso amigo Mário
Vinte Linhas 753
Smart Box – uma caixinha de surpresas geográficas
Gozei em excelente companhia na semana passada uma oferta feita no Natal de 2011 através de uma caixinha com o título simpático de Smart Box. Até aqui tudo bem. Foram quase 24 horas de encantamento num espaço cujo nome dá logo a entender do que se trata – Casal da Eira Branca. A eira serve de terraço panorâmico abrindo o nosso olhar para um vale onde passa uma ribeira e onde chegam os sons das tarefas da agricultura. O casal (lugar) chama-se Infantes e fica na freguesia de Salir de Matos (Caldas da Rainha). Além da eira, espaço de lazer onde outrora foi ponto de trabalho de malhar e joeirar, o conjunto dispõe de jardim, piscina, biblioteca, bar com Internet e sala de estar. Em suma – uma maravilha, um carregador de baterias humanas num espaço sossegado mas bem perto das praias da Foz do Arelho e São Martinho do Porto sem esquecer os diversos encantos da cidade de Caldas da Rainha.
Aspirina marada
O castigo como salvação, paradigmas da portugalidade
Ouvindo o Fórum TSF, por exemplo entre tantos outros exemplos, deparamos com múltiplos testemunhos de pessoas a repetirem o discurso da culpa, da necessidade do sofrimento através da austeridade, da cura moral pelo corte de serviços públicos e de rendimentos, do exorcismo pátrio na diabolização de um indivíduo.
Pelo léxico, a sintaxe, o pathos, não andaremos longe se os retratarmos como pertencentes a uma classe média baixa ou baixíssima. Talvez alguns sejam factualmente pobres. Mas querem juntar-se ao cortejo, sentir o poder de, nem que seja por uns instantes, darem um sentido ao absurdo da sua vida ou das vidas que os cercam, das vidas que os ameaçam por serem o que são na sua desgraça. Talvez alguns até sejam votantes da esquerda pura e verdadeira, mas também aí foram sendo constantemente avisados de que habitavam num território entregue a criminosos e que só pela grande expiação colectiva se conseguiria alcançar a terra prometida.
Perante isto, a soberba de Passos-Relvas ganha a sua perfeita definição. E somos confrontados com a pior das misérias: as vítimas transformadas na sombra dos carrascos.
Do canal do Panamá à cena da alta prestação
Com o alargamento do canal do Panamá, não diz Passos Coelho, mas pensa, “vão vir charters de” navios de grande porte largar no porto de Sines mercadorias destinadas ao continente europeu. Pode ser. Nunca se sabe. Tal como deus, o mar é grande e Le Havre e Roterdão, possivelmente, já eram. Mas alguém me diga se faz algum sentido construir uma linha ferroviária “de alta prestação”, que também exige fundos avultados como o TGV, exclusivamente para o transporte de mercadorias internacionais que ainda não existem e não prever o transporte de passageiros/turistas/profissionais vários, estes existentes, bem vivos e normalmente com pressa, numa linha de alta velocidade? Voltamos à imagem de nós, humanos, ficarmos “a ver passar os comboios”?
Além disso, existem alguns estudos que indiquem a disponibilidade das companhias de navegação internacionais para abdicarem das suas rotas habituais de destino europeu, encurtando-as para uma intermodalidade em Sines? A linha interdita a passageiros não será um enorme risco, criado apenas para contrariar decisões do Governo anterior e tentar cumprir a martelo uma promessa eleitoral?
“O primeiro-ministro disse ontem esperar que a ligação ferroviária de mercadorias entre Sines e Badajoz possa estar concluída até 2014. Depois de o Tribunal de Contas (TC) ter decidido não conceder o visto ao contrato de construção da linha de alta velocidade e de o Governo ter deixado cair defi nitivamente este projecto, o objectivo é concretizar a nova obra antes que ocorra o alargamento do Canal do Panamá, igualmente previsto para daqui a dois anos.
[…]
A linha de alta prestação para mercadorias é um projecto há muito defendido pelo Governo e que ganhou força com o chumbo do TC.”
Fonte: Público
Pergunto-me ainda se esse mítico porto de Sines não iria, no apogeu do seu desenvolvimento, destruir completamente uma boa parte de uma das zonas mais bonitas da nossa costa, causando a sua inevitável ampliação e o seu movimento um enorme prejuízo ambiental e turístico.
Prémio Ranho 2012
O líder parlamentar do PSD acusou o PS de «falta de coragem» em «assumir posições impopulares» e de estar contra medidas que «inscreveu no memorando», afirmando que os socialistas vivem «uma liderança bicéfala» no Rato e em Paris.
Discursando no XXXIV Congresso do PSD, Luís Montenegro fez uma longa intervenção de críticas cerradas à atual liderança do PS, acusando-a de «não cumprir a palavra que deu», de ter «vergonha das suas causas», de estar «contra tudo e contra todos» e ser «pobre e mal agradecida» em áreas como a educação, a administração local ou a saúde.
No entanto, o líder parlamentar do PSD considerou que «há uma atenuante» para estas críticas. «A vida não está fácil no interior do PS, o PS é hoje um partido com duas lideranças, lamentavelmente com duas lideranças, o PS tem uma liderança oficial, com sede no Largo do Rato, e tem depois uma liderança que é mais ou menos clandestina, que parece que não mexe mas mexe, que vem desde Paris com ventos e telefonemas», afirmou.
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Montenegro é uma figura que aprecio sobremaneira. Representa o protótipo do político PSD: advogado, carreirista, pândego. Está sempre a sorrir, anunciando ao mundo que a vida lhe corre bem e tenderá a correr cada vez melhor. A sua mensagem calada é a de que a política não passa de um jogo, e bem básico por sinal. Tão básico que até ele o consegue jogar com imperturbável descontracção. Vive agora o seu momento de maior projecção, tendo a magna responsabilidade de chefiar a bancada.
Pois este passarão foi para o congresso no propósito de rivalizar com Menezes na corrida para o Prémio Ranho 2012. E embora os resultados só venham a ser conhecidos no final do ano, há uma alta probabilidade de já ter garantido a vitória. É que o seu material, no que ao ranho diz respeito, parece imbatível. Montenegro resolveu atacar o PS e Seguro recorrendo ao que o Correio da Manhã publicou há poucas semanas, onde demos por nós a descobrir que alguém em Paris tinha violado a privacidade de Sócrates, ou assim se alegava, escutando o que ele dizia ao telefone. Ficámos com um dos mais altos momentos do jornalismo franco-atirador – seja qual for o ponto de vista deontológico, moral, ético, ou tão-somente lógico – mas essa peça estava destinada a um voo ainda mais alto: ser usada num congresso partidário social-democrata, pelo líder parlamentar, para insultar o maior partido da oposição.
A sarjeta que é o Correio da Manhã faz as delícias da elite do PSD. E se eles se permitem esta exibição pública da sua decadência, o que não se passará nos bastidores? Até onde chegará a sua violência? A pulsão caluniosa sistemática e sórdida exibida tanto pela arraia-miúda como pelas figuras gradas do PSD deveria ser suficiente para terem menos intenções de voto do que o PNR. Todavia, estamos em Portugal e a oligarquia conhece este país de ginjeira.
Lamentação da mondadeira de arroz
Ontem fui à criminosa
Não há nada que se esconda
Maioral de voz raivosa
Mandou-me para a monda.
Vou passar o dia inteiro
Com os pés na água fria
Chegam as febres primeiro
Logo se afasta a alegria.
No pátio que é nosso mundo
Nunca chega a Primavera
Há um silêncio profundo
Todos ficamos à espera.
Os filhos, noras e família
A mulher que vive ao lado
São para ele a mobília
Do querer descontrolado.
Onde ninguém tem vontade
Própria, nascida em raiz
Nem sonho de liberdade
Fora do que o maioral diz.
Na Senhora de Alcamé
Procissão, bênção do gado
Todo o mistério da fé
Continua indecifrado.
Teimosia milenar
Resiste num tempo lento
Aquilo que vou cantar
É levado pelo vento.
Uma (perigosa) conspiração de estúpidos
Vamos ser muito francos com o que o futuro nos reserva. Vai haver julgamentos políticos de antigos ministros, sob disfarce de “judiciais”? Vai. Vai haver uma acusação, ou várias sucessivas, contra José Sócrates? Vai. Vamos assistir ao julgamento deste, e a um nível de circo mediático maior que a Casa Pia? Vamos. Para quem tinha ainda dúvidas, creio que o triste espetáculo proporcionado no congresso do PSD se encarregou de as dissipar. O alvo ficou perfeitamente assinalado, assim como os objectivos: destruir o PS, sobretudo um PS que ousou, nos últimos anos, lutar contra interesses que se julgavam, e se julgam, acima de tudo e todos. Ou “independentes”, como gostam de se denominar. E, para isso, destruir José Sócrates e quem o acompanhou, mesmo agora, é essencial. Corroer a memória de uma governação que os ameaçou como nunca antes, para que não volte.
O que ouvi e li do congresso foi de uma violência creio que inédita na história da democracia pós-PREC. Pelo menos da minha democracia. É fácil ridicularizar todas as afirmações tontas, espantar-se com a total falta de ideias, indignar-se com o desprezo absoluto das regras de civismo e ética, ficar de boca aberta perante a hipocrisia de quem aplaude Jardim e, no discurso a seguir, ataca quem “levou o país à bancarrota”. É muito fácil fazer tudo isso. Menos fácil está a ser outra coisa: lidar com as consequências reais desta estratégia continuada de demonização de um partido, de uma governação, e sobretudo de um primeiro-ministro.
Agora, fui um dos que pensou que uma vez derrotado politicamente, com jogo sujo ou não, Sócrates iria lentamente desaparecer do espaço público, substituído pelos adversários do momento na contínua luta política, numa saudável regeneração. Até escrevi um post bem-humorado sobre a falta que este iria fazer a muita gente. Estava enganado, admito, redondamente enganado. Todos os governos juram que não deitarão as culpas para o anterior, e todos o fazem inevitavelmente, durante algum tempo. O governo de Passos não é excepção, tal como não foi o de Sócrates. Mas isto que estamos a assistir é um animal completamente diferente. É um esforço deliberado para não os deixar cair no esquecimento, para maximizar o efeito de culpabilização muito para além do habitual. E essa estratégia, aplicada sem limites, só conduz a um resultado: o julgamento e tentativa de prisão de antigos governantes por motivos políticos, e a aniquilação via judicial de um partido adversário.
O Valupi já tinha referido isso no seu magistral “Estudos Socráticos“, mas o motivo do ódio não me convence. O ódio ( ou, na linguagem populista rasca da gente séria, a “indignação”) é apenas uma ferramenta desta estratégia, a cortina de fumo para esconder motivos bastante mais prosaicos. No caso do PSD, trata-se de tentar direccionar toda a insatisfação para um bode expiatório, e reescrever a história da crise de modo a que toda a culpa recaia sobre este, para assim justificar o desastre que se não só se adivinha, mas já está a ser concretizado. Já que não há pão, nem vai haver, pois que haja circo e ímpios atirados aos leões.
Juntam-se a estes a magistratura, também com um motivo prosaico: defender os seus privilégios, poder, e a sua posição inatacável na sociedade, desafiados por Sócrates, de maneira a que não haja quem queira repetir a graça no futuro. Para isso, utilizar a regra clássica dos senhores feudais: fazer um exemplo do prevaricador e de quem o acompanhava. Se a imagem da justiça se degradar ainda mais é, como o afirmo há muito tempo, para o lado que dormem melhor. Se és inatacável, para que é que te vais preocupar com a imagem? O poder é que interessa.
A terceira lança é uma imprensa muito fragilizada, dominada por grupos económicos cuja lógica de existir sempre esteve ligada às benesses do poder, e cujo conceito de jornalismo é apenas de um braço armado numa estratégia maior. Seguem e promovem, naturalmente, a narrativa que lhes interessa no momento. Utilitarismo puro. Caso Passos desafiasse esses interesses, a secção laranja do DN desaparecia numa semana e o CM começava a interessar-se pelo passado empresarial dos membros do governo, como Relvas bem sabe.
Para completar a tempestade perfeita, junta-se por ultimo um líder do PS fraco, calado, sem personalidade, e que não tem nenhum tipo de vocação para o combate aberto. Um apaziguador em tempo de guerra, o nosso Chamberlain de trazer por casa responde aos ferozes ataques com tímidas posições não só confirmam a “vergonha” que pretendem colar ao PS, como deixa o terreno perfeitamente aberto a que todas as outras forças adversárias definam sozinhas o que foi a anterior governação, e pior, quem é o PS agora. “Acabem com os Socráticos”, berram-lhe, o que o deixa num dilema: defendo-os e fragilizo a minha posição, ou calo-me? Acho que sabemos a resposta.
E, desgraçadamente, acho que sabemos o que aí vem. Gente desesperada é perigosa, e na total falta de ideias e esperança, o desespero é tudo o que têm. Sócrates que se prepare, isto não vai ser bonito.
Sim, chegou-se a isto: dia 7 de Abril, o combate pela “família” que só há uma é a nossa e mais nenhuma
COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS DA EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
FAMILIARIS CONSORTIO17 ABRIL2012 – sublinhem o título magnífico
9h00 – Registo/Receção aos participantes
9h15 – Coro da Universidade de Lisboa*
SESSÃO DA MANHÃ
9h30 – ABERTURA
Sua Eminência o Cardeal Ennio Antonelli, Presidente do Pontifício Conselho para a Família
Sua Eminência o Cardeal D. Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo
S. E. Reverendíssima Monsenhor D. Rino Passigato, Núncio Apostólico em Lisboa
Sua Eminência o Cardeal D. José da Cruz Policarpo, Patriarca de Lisboa
(aqui)
Sim, temos uma Faculdade de Direito pública num Estado laico a comemorar os 30 anos de uma Exortação Apostólica de uma determinada confissão.
Sim, temos essa Faculdade a fazê-lo tomando uma posição à partida, desde logo pelo tema que dá mote à discussão, mas também pelo painel convidado, que não permite uma discussão plural, aberta à realidade do mundo vivencial e jurídico em que se coloca a questão.
Sim, tudo isto é moldado num ambiente que anima uns quantos que não supotam não serem colonizados como “modos de ser”.
É bom que a Faculdade pública num Estado laico convide parceiros privados para intervir e proporcionar aquilo que se faz nesse tipo de instituições: chama-se debate. Convidou a Confederação Nacional das Associações de Família.
Isto merece uma denúncia.
Exactissimamente
“Power is nothing without control”*
Menos mal que os socialistas mais próximos da direção de Seguro começam a compreender que não vão longe com a elegância no trato face às vilanias do PSD. Afirmam agora que, depois daquele congresso acusatório do fim de semana, nada será como dantes. Aguardemos para ver. Ou Seguro toma as agressões como ataques ao partido e reage em conformidade ou é esmagado; antes de mais, e como se tem visto, pelo exército adversário, arrastando consigo o partido, ou, senão, certo e sabido, pelas próprias hostes, fartas de hesitações e contemporizações.
A confraria dos raivosos anti-socráticos que se reúne daquela maneira tem um dos expoentes máximos numa criatura de peso chamada Carlos Abreu Amorim. Quem, ontem, no que era suposto ser um frente a frente com Marcos Perestrelo, do PS, resistiu mais de dois minutos a escutar o bulímico deputado laranja na RTP Informação (Grande Jornal, segunda parte, a partir do minuto 23), na expectativa de ouvir o que teria a replicar o seu civilizado e cordato interlocutor, pôde constatar, a par da incontinência verbal aguda de que sofre Amorim e que a moderadora até ao fim não controlou, o espírito vingativo totalmente alucinado que se apoderou do campo laranja e que transparece a cada momento pelas bocas de primários como este ou Menezes e ao qual dão execução ministros como Álvaro e Crato com as suas patrocinadas comissões de inquérito, mais o sindicato dos juízes.
Para esta gente desvairada, não chega o PS ter perdido as eleições. Sem que, racionalmente, ninguém consiga perceber porquê, querem mais. Fosse Amorim um imperador persa do século VI (difícil, devido, nomeadamente, aos óculos) e mataria Sócrates e os seus ministros dando-lhes a beber ouro fundido num cerimonial sádico, envolto em cânticos triunfais ou apocalípticos e concluído em grande orgia e fornicação. Definitivamente, não se enxergam. Estão de tal maneira possuídos que se esquecem do século e do continente onde vivem, a democracia lhes passa ao lado e só desejam ver todo o país num clamor de ódio, gritando vitupérios e brandindo facas na direção de Paris. Calma. E controlo. Mil e quatrocentos anos têm de ter feito alguma diferença.
*De um anúncio a uma marca de ténis pneus muito conhecida
Impressionar nas greves, brilhar nos congressos, seduzir em Braga
Holding a Gun Makes You Think Others Are Too, New Research Shows
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Classical Music Slows Mice Transplant Rejection
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Poverty Leads To Poor Health – But Not For Everyone
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Snacking On Raisins May Offer a Heart-Healthy Way to Lower Blood Pressure
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A New Take on the Games People Play in Their Relationships
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Meditation Fights Cancer and Promotes Longevity
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Media, Politics, and Democracy: In the Election Season
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Beer and Bling in Iron Age Europe
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‘Coregasm’ or Orgasm With Exercise Is Real, Says Kinsey Study
Vinte Linhas 752
João Cabral de Melo Neto – «a vida que levo sob o efeito permanente de aspirina»
O livro é organizado, apresentado e anotado por Flora Süssekind, editado pela Nova Fonteira e Casa de Rui Barbosa e chama-se «Correspondência de Cabral com Bandeira e Drummond». Aqui se juntam cartas, bilhetes, telegramas, poemas e cartões trocados entre João Cabral de Melo Neto (1920-1999) com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Manuel Bandeira (1886-1968). Neles se descobre por exemplo como Mário Calábria foi responsável em 1952 pela denúncia de João Cabral de Melo Neto como comunista o que levaria o poeta a ser desligado do Itamarati, só conseguindo a reintegração dois anos depois. Tudo porque Cabral solicitou a Paulo Cotrim Rodrigues Pereira um artigo para a revista do Partido Trabalhista Inglês. O mesmo Cabral escreveu em 1951 a Manuel Bandeira «porque da Europa é que pude descobrir como o Brasil é pobre e miserável. Isto é: depois de ver o que é a miséria europeia acho que é preciso inventar outra palavra para a nossa, cem vezes mais forte.»




