“É fundamental obter consensos com sentido de responsabilidade”, declarou. Segundo o Presidente, o programa de assistência financeira a Portugal é uma “oportunidade única” para fazer “mudanças substantivas e efectivas” no funcionamento da justiça. Cavaco defendeu que a justiça pode dar um “contributo inadiável” para a situação actual, através das reformas estruturais consagradas no memorando com a troika.
Arquivo mensal: Janeiro 2012
Lonergan, pensamento continental
Bernard Lonergan é o mais famoso dos filósofos de quem ninguém ouviu falar. Para alguns, agora activistas na sua divulgação, será o mais importante filósofo do século XX, por ser o mais completo no âmbito das suas reflexões. Isso significaria que nem Heidegger, nem Wittgenstein, nem Sartre, nem Russell, nem Adorno, nem paletes de outros nomes conseguiriam superar a visão do padre jesuíta canadiano falecido em 1984. Não espanta, pois, que em Portugal seja na Universidade Católica que se encontram os maiores especialistas nacionais neste autor, à cabeça dos quais encontramos Mendo Henriques.
Acontece que Lonergan foi também um economista, e o que deixou pensado tem neste momento máxima actualidade: Lonergan’s ‘Circulation Analysis’ Provides Hope for World Economies
Ocasião perfeita para aproveitar a borla oferecida pelos amigos portugueses de Lonergan e passar hora e meia de uma quinta-feira a descobrir este continente desconhecido.
Pequeno guião para dois actores
John: então, já estás a crescer?
Pedro: reformas estruturais, competitividade, produtividade, reduzir o défice, retomar a confiança, reduzir o peso do estado da economia, austeridade, vontade férrea, leis laborais, privatizar, liberalizar, libertar, cortar, compromissos, concertação, honestidade, consenso, descolar, esforço, muito esforço, sacrifícios, caramba, sacrifícios, os que forem necessários.
John: a tua vida familiar não me interessa. já estás a crescer ou não?
Pedro: bom, não. antes pelo contrário.
John: pois.
Mesmo com os cavaquistas, não devia valer tudo
Ser cavaquista já deve ser tramado, aquele peso todo na cachimónia ao acordar e a má-disposição ao longo do dia, mais os problemas para adormecer, mas ser cavaquista e ainda levar ralhetes do Marcelo e do Marques Mendes não se deseja nem ao pior inimigo. Provavelmente, até será uma violação dos direitos humanos, coitaditos.
Nunca me enganaste
Vinte Linhas 726
Ruslam Botiev – na Sá da Costa a amar Portugal e Fernando Pessoa
Por um destes fins de tarde que anunciam o frio de Janeiro nas dobradiças do sol de Inverno que nos engana a todos, descobri Ruslam Botiev, o pintor mongol, à porta da Livraria Sá da Costa. «Bom dia Portugal!» – foi a nossa mútua saudação pois é o título de um dos seus quadros a revisitar a cidade de Lisboa como quem a olha de Almada no comboio.
Conheci o pintor mongol Ruslam Botiev há muitos anos, estava ele todas as manhãs de Domingo debaixo do Elevador de Santa Justa. Quando chovia lá se arrecadava ele e os seus quadros nas portas do Montepio Geral ou da Livraria Portugal – se a chuva era fraca. Mais tarde passou para as escadas da Basílica dos Mártires onde já tinha mais público e um maior espaço para fugir da chuva. Que a chuva batida a vento é inimiga dos pintores.
Carvalho da Silva acaba de perder o apoio de uma legião de fanáticos vermelhos
«Fizemos um percurso extraordinário» em indicadores como a saúde, o ensino e a protecção social, afirmou, reforçando que «o progresso da sociedade foi extraordinário em poucas décadas”.
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Os iluminados que nos impingiram Alegre contra Cavaco, e que conseguiram o memorável feito de contribuir para a reeleição desta vergonha nacional, andam já a lançar a candidatura de Carvalho da Silva a Belém. Este, contemplando feliz essa glória monista, apontou logo o discurso ao centro, dizendo o que nunca disse como dirigente sindical ao longo de 25 anos: que os imperialistas e corruptos que nos foram explorando até que fizeram umas coisas extraordinariamente boas na saúde, no ensino e na protecção social, pelo menos. E, se puxarem por ele, facilmente distribuirá elogios por outros sectores, pois, que diabo, a realidade aí está que não o deixa mentir.
De facto, não ter onde cair morto é mesmo um atraso de vida.
Cavaquistas Anónimos
Vinte Linhas 725
Os contos mínimos de Zetho Cunha Gonçalves
Na passagem do ano de 2011 para 2012 houve duas pessoas que me ajudaram a eliminar as respostas ao lixo humano que às vezes aqui aparece a querer chatear no Blog. Um foi o José Vilela a quem, em assuntos de BD, alguns patetas tentam provocar mas ele, mesmo instado por alguém, recusa-se a responder porque (diz ele) se responder fica ao mesmo nível baixo dos provocadores. Outro foi o Zetho Cunha Gonçalves que situou este problema num dos seus contos mínimos intitulado «Final de contenda». Por ser mínimo é mesmo curto e diz assim: «Recuso a justa, por o cavalo adversário não ter as ferraduras bem afinadas.»
Um texto escrito nas vésperas da golpada que nos arruinou
Parece que as coisas se perspectivam mais ou menos assim, para alguns dirigentes do PSD: Portugal é forçado a pedir apoio maciço externo, reconhecendo de uma vez por todas que as taxas de juro da divida pública são incomportáveis. Imediatamente o Presidente da República convoca eleições, que o PS vai perder e o PSD vai ganhar, quem sabe até com maioria absoluta. Haverá lugares para “boys” e “girls” que estão fora do poder há anos. E o principal problema de Portugal, isto é, o facto de termos um governo liderado por José Sócrates, ficará resolvido. Vamos todos à nossa vida renovados, com o sol a brilhar e os horizontes largos. A cereja em cima do bolo será que o PSD poderá enquanto governo responsabilizar o PS, a Angela Merkel, a Comissão Europeia, ou o Jean-Claude Trichet, à vez, por tudo o que de medidas de austeridade tiverem que ser tomadas durante toda a legislatura.
Infelizmente, esta atitude tão “blasé” do PSD em relação à inevitabilidade da ajuda externa é contrária aos interesses do País. A ideia de que uma intervenção externa igual à da Grécia e Irlanda pode ser benéfica para Portugal já foi desconstruída várias vezes. Desde logo, pelo que está a acontecer naqueles dois países: desde que solicitaram ajuda as taxas de juro associadas às suas dívidas públicas não desceram. Pelo contrário. Actualmente os mercados estão interessados em testar a solidez do euro. O que está em causa é a própria sobrevivência da moeda única.
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Impressionar sem passado, brilhar sem presente, seduzir sem futuro
Women Feel Pain More Intensely Than Men Do
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People Lie More When Texting
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Believing the Impossible and Conspiracy Theories
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Feeling Left Out? Being Ignored Hurts, Even By A Stranger
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Mind Over Matter: Patients’ Perceptions of Illness Make a Difference
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Post-Racial Society? Not Yet: Poll Shows ‘Stark Racial Divide’ Still Exists in America
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Physician’s Weight May Influence Obesity Diagnosis and Care
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Sex No More Strenuous than Golf
Inépcia política total
Repare-se bem no que diz Seguro sobre o programa imposto à Madeira:
“É “um acordo entre familiares do PSD, que aplica àquela região autónoma a mesma receita do Continente, isto é, empobrecer”, disse o líder socialista, acrescentando que a Madeira “vai ser duplamente prejudicada” com esta opção.”
Ou seja, começando por dizer que é tudo em família, o que nos prepara para uma conclusão de que os madeirenses sairiam beneficiados para lá do razoável, Seguro surpreende-nos depois dizendo que se trata de uma família, sim, mas, desafiando toda a lógica, uma que gosta de empobrecer, que terá aparentemente feito uma espécie de pacto de empobrecimento (!), concluindo estranhamente que a Madeira vai ser duplamente prejudicada. Enfim, um quadro em que Jardim ou não existe ou não encaixa.
Seguro prova mais uma vez que perspicácia política é coisa de que, já tendo ouvido falar, não possui. Para efeitos políticos, toda a população do continente concorda que se imponha um programa duro à Região Autónoma da Madeira. Mais: dificilmente aceitaríamos que Jardim manhosamente “se safasse” com os seus esquemas habituais e ameaças separatistas. Em suma, o governo marca aqui um ponto aos olhos dos eleitores do continente. Quem não vê isto, é burro.
Nesta questão da Madeira, se Seguro não tem uma posição claramente entendível (conhecendo-o, admito que ande ali a navegar entre defender o povo madeirense – que, convém lembrar, sempre votou maciçamente em Jardim e, mesmo conhecendo as falcatruas e as inevitáveis consequências em 2011, continuou a votar nele em peso – e acusar o PSD de alguma coisa), melhor seria que se calasse. Mas, se lhe pedem que fale, ao menos que refira as vigarices continuadas de Jardim e o interesse dos madeirenses em arredá-lo do poder; ou a conivência e proteção de que beneficiou até ser reeleito. Tudo o que for além disto só pode dar asneira.
Para além do facto, não despiciendo, de estar implicitamente a fazer comparações inaceitáveis entre a dívida da Madeira e a do continente, a confundir deliberadamente ou por estupidez as razões de ambas e a branquear no fundo Jardim e o seu desrespeito grave pela lei (cerca de 7000 milhões de euros ocultados da contabilidade, a quase totalidade dos quais vai ser paga por nós). A dívida astronómica da Madeira (ocultada, ocultada) não tem absolutamente nada que ver com a crise de 2008, nem com a resposta ao encerramento de empresas nem com o apoio aos desempregados, como no continente, que, aliás, foi autorizado a desrespeitar os limites do défice e a aumentar a dívida pela própria União Europeia. No continente, todas as contas públicas eram acompanhadas pelas instâncias europeias, sendo impossível ocultações. Seguro não pode ignorá-lo. Esta sua postura ambígua e populista é totalmente descredibilizadora e sobretudo politicamente ineficaz.
Jardim e o PSD formam, de facto, uma família, mas uma família política em que leviandades e fraudes e vigarices de toda a espécie não escasseiam. Este é o ponto.
Seguro quer fazer promessas e dar exemplos, a política pode esperar
O secretário-geral do PS, António José Seguro, anunciou hoje que o site do seu partido vai registar todas as promessas que for fazendo enquanto líder da oposição.
“Faço-o para que fique claro a exigência que coloco quando apresento uma promessa”, disse o líder socialista, sublinhando que é preciso “dar exemplos para reconciliar as pessoas com a política”.
Bem haja elle, como eu o comprehendo agora…
Embora eu seja republicano, penso que em materia de ortographia nunca deveriamos ter abandonado a do tempo da Monarchia, egual á que estou usando agora. Fernando Pessoa deu o exemplo, mantendo-se fiel a ella até á morte e recusando-se a acceitar a reforma de 1911. Bem haja elle, como eu o comprehendo agora… Continuou a escrever abysmo, mysterio, mystico, epocha, psychologia, cahir, sahir, fallar, comprehender, affirmar, applicar-se-ha, admittir-se-hia, intellectual, egreja, catholico, attitude, immoral, sciencia, portuguez, inglez, trez, nullo, theoria, theorico, commum, communista, sociaes, taes, anarchista, addição, espirito, phenomeno, Catharina, Alvaro, Sylvia, Ruy, Russia, Italia, etc.
Os inglezes, esses atrazados, mantiveram até hoje as mesmas regras de transliteração da etymologia grecco-latina e dão-se bem com ellas. O mundo inteiro as usa hoje e, apparentemente, gosta de usal-as.
Para “simplificar”, a reforma republicana de 1911 cortou umas tantas consoantes, mas criou montes de accentos. Qual a vantagem d’isso? E alguem teve difficuldade em entender o que aqui vae?
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Oferta do nosso amigo Júlio
Vinte Linhas 724
António Carmo – As três laranjas do Chiado para Bruxelas
Todos os sabemos – se a literatura é uma homenagem à literatura, toda a arte é um tributo à arte anterior no mundo e no tempo. Serge Prokofiev (1891-1953) é muito mais do que o autor da ópera «O amor das três laranjas», baseada numa fábula de Gozzi, escritor do século XVIII e do que o autor da música de filmes como «Ivan, o terrível» ou «Alexandre Nevski».
A sua vida repartiu-se por Londres, Chicago, Paris, Berlim e Bruxelas; isso fez com que só em 1927 regressasse à URSS tornando-se cidadão soviético em 1937. A sua morte passou quase despercebida porque nesse mesmo dia (5 de Março de 1953) morreu Estaline.
Uma notícia, três evidências
A seguinte notícia recolheu 5 comentários:
Afinal não havia desvio colossal na despesa em 2011
Trata-se apenas da mais importante prova da estratégia de continuada mentira que o PSD e o CDS seguiram na preparação para o derrube do anterior Governo, na campanha eleitoral e mesmo depois de terem conquistado o poder. Vinda da UTAO, um grupo de técnicos independentes, a informação confirma que a execução orçamental de 2011 ia no caminho certo da redução das despesas quando se interrompeu por uma crise política que foi catastrófica para as receitas.
Eis a evidência: caso o actual Presidente da República – que se pavoneia como mestre de Economia e Finanças, e que, portanto, saberia melhor do que ninguém quais seriam as consequências de ir para eleições naquele tempo e naquelas circunstâncias – tivesse algum tipo de respeito por Portugal e pelos portugueses, jamais teria patrocinado o derrube do Governo no pior momento para os nossos interesses, antes teria feito das tripas coração de forma a promover uma solução que permitisse atravessar a tempestade europeia nas melhores condições possíveis. Cavaco teria realmente cumprido com a sua palavra, tantas vezes repetida, em vez de a violar literalmente na primeira oportunidade.
E eis outra evidência: caso os actuais políticos que lideram o PSD e o CDS tivessem algum tipo de respeito a Portugal e aos portugueses, pediriam desculpa pelos colossais prejuízos causados pela sua colossal cobiça.
Finalmente, eis a última evidência: fazer política neste país, para o bem ou para o mal, passa por compreender o humilhante fenómeno de apenas se encontrarem 5 comentários nesta notícia e 500 ou 1000 numa outra qualquer que permita a orgia populista dos assassinatos de carácter apontados a políticos seleccionados.
Vinte Linhas 723
A primeira redacção a sério do menino Tomás
«Escrever é revelar o pensamento» – isto se lia num dos livros obrigatórios da quarta classe do meu tempo, lá por idos Abril e Julho de 1961. E concretizava a ideia: «Se o pensamento for turvo e confuso a escrita também será turva e confusa». Não é o caso em apreço, longe disso.
Lembro este texto antigo ao ler o recente trabalho do meu neto Tomás a quem a professora da primeira classe solicitou uma redacção com cinco frases dando especial atenção às maiúsculas e aos pontos finais. O resultado foi este: 1- Eu gosto do Horrid Henry. 2- O meu bebé é pequeno. 3- Eu amo o meu bebé. 4- O bebé Lucas tem os dedos pequenos. 5- Ele gosta de amachucar papel. (Falta explicar que o Horrid Henry é uma colecção de livros muito popular em Londres e não só).
Merecemos este castigo, lá isso é verdade
Tivesse um Governo de Sócrates, ou tão-só do PS fosse quem fosse o primeiro-ministro, intentado acabar com os feriados de 5 de Outubro e de 1 de Dezembro, assistiríamos fatalmente a uma explosão de violência emocional desvairada que de imediato inundaria a comunicação social com túnicas rasgadas, juras de vingança, martírios públicos para defender a Nação. À esquerda, esse Governo seria visto como o braço armado do imperialismo mundial a esmagar a memória proletária e antifascista inscrita no 5 de Outubro. À direita, esse Governo seria visto como o punho de ferro dos internacionalistas maçónicos, comunistas e ateus, apagando a mais valiosa memória da independência nacional. Grupos de guerrilheiros comunas ocupariam a Praça do Município para lá dormirem, tomarem banho e aprovarem estatutos revolucionários enquanto a extrema-direita ficaria no sobe e desce da Avenida da Liberdade impedindo a circulação automóvel e perseguindo os estrangeiros, de preferência os mais torrados. Os patriotas de pacotilha que andaram nos últimos anos a dizer mal de tudo o que dissesse bem de Portugal, exactamente iguais no fel sejam de direita ou de esquerda, estão agora com o rabo enfiado entre as bambas pernas como inveterados hipócritas que são.
Tem supina razão a Fernanda ao pedir explicações aos seus concidadãos para o absurdo da manutenção em estatuto de igualdade dos feriados do Estado com os da Igreja dentro desse mesmo Estado. Que o Estado conceda privilégios à Igreja por via de acordo que um qualquer momento histórico justifique, será bondoso na sua abstracção. Que em 2012 se invoque esse acordo para moldar uma decisão política que apenas compete ao Estado e aos representantes eleitos, é sofisma. Com que causas, para que efeitos, cada um que tire as suas conclusões. O que não podemos é fingir que na asinina abolição dos feriados não está também em causa uma questão de regime.
A direita partidária tem sempre uma acusação pronta contra os socialistas onde estes aparecem como déspotas de um Estado tentacular, opressores dos exaltados indivíduos e suas privacidades. Contudo, têm vindo dessa mesma direita as experiências mais radicais de engenharia social, como aconteceu com o genial plano de um Governo de Cavaco para levar o povo a ficar a bronzear-se na praia até às 11 da noite e a mandar os filhos para a escola nas horas mais frias e escuras da madrugada. Tudo ao serviço do horário de trabalho da alta finança, o ecossistema destes senhores. Ou como acontece agora com a fúria para o desmantelamento e redução dos serviços sociais do Estado, pretendendo substituir a obrigação pública enquanto direito pelo assistencialismo privado como esmola.
Neste caso dos feriados, a retórica é toda ela moralista, fazendo parte da vilania de se considerar Portugal como um país de preguiçosos e esbanjadores a precisar de castigo, a precisar de trabalhar mais e de ganhar menos. A precisar de aprender a comportar-se. E quem melhor do que a gente séria para nos dar essas lições?
Não é preciso ser um Einstein para aplicar a teoria da relatividade
O elogio de @czorrinho
Nem tudo são desastres no soporífero consulado de Seguro. Uma das poucas vantagens de ter um líder apagado é que notamos melhor quem está à sua volta, pessoas que normalmente viveriam na sombra de um líder carismático sem se notabilizarem para o exterior, mas que têm nestes periodos a sua oportunidade de exibirem algum brilho. É o caso de Carlos Zorrinho. A sua escolha para líder parlamentar, para quem como eu não está dentro das lógicas internas do PS, é algo misteriosa. Não lhe noto nenhuns dotes oratórios especiais, não aparenta a combatividade necessária para o lugar, as suas críticas ao governo, presidente e adversários políticos são, devido à praga do politicamente correcto e “sereno”, de uma inconsequência atroz, e a gestão do grupo parlamentar do PS fica, enfim, um pouco abaixo do nível de José Mourinho. Ou de Paulo Bento. Ou de Carlos Queiroz. E depois há, ahem, isto:
Finalmente temos um acordo. Um mau acordo. Um acordo que garante um empobrecimento consentido do País mas um acordo necessário. Viva portanto o acordo.
Perceberam? Eu também não. Talvez perceba quando parar de rir.
Convido-vos no entanto a descobrir outra faceta. Esqueçam as entrevistas aos media, as colunas de opinião no Correio da Manhã ( a sério, não havia outro? ), ignorem tudo isso e dêem um salto ao twitter, onde o nosso homem na liderança da bancada é um comentador entusiasta de futebol, onde apresenta e defende as iniciativas do PS, divulga notícias, comenta programas e politica, e se envolve em frequentes polémicas com os restantes frequentadores do mais famoso espaço de insta-bitaites. E, mais importante, onde apanha forte e feio sem nunca se escusar a responder. Há políticos, muitos, para quem as redes sociais são apenas outro meio de divulgar sound-bites e propaganda. Não é, definitivamente, o caso de @czorrinho. Nota-se ali um genuíno gosto em interagir com os restantes cidadãos e procurar as suas opiniões, em utilizar a sua recém-adquirida notoriedade não para ego pessoal mas para defender as suas ideias e procurar, através desta interacção, aperfeiçoá-las. Mesmo que, como no caso do vendaval à volta do projecto-lei 118 (#pl118 no twitter) ou da PMA, esteja a defender o indefensável. Mas defende-o o melhor que sabe, directamente aos cidadãos que o questionam, criticam, algumas vezes hostilizam. E independentemente da opinião que se tenha da performance politica de Carlos Zorrinho, isto revela, para mim pelo menos, que tem aquilo que é essencial, que constitui a base: um intenso respeito pelos seus eleitores e pelo lugar privilegiado que estes lhe confiaram, e uma vontade genuína de o demonstrar na prática. Há muitos aspectos onde o cidadão preocupado pode e deve exigir mais, muito mais, de Carlos Zorrinho. Neste, no entanto, está perfeito.





