Um livro por semana 269

«Fonte das Escadinhas» de Adelina Soares

Esta narrativa de 184 páginas parte da vida de Maria (n.1921) e alcança o seu amplo sentido, logo inscrito na capa, de «homenagem a uma geração.» A heroína da história poderia repetir uma quadra divulgada nos livros escolares do tempo: «Quem teve a grande desgraça/De não aprender a ler/Só sabe o que se passa/No lugar onde estiver». Daí o fascínio de Maria pelas viagens. Seja à Ericiera («já tinha visto o mar de longe mas nunca estivera na praia») seja ao Parque Mayer onde funcionam quatro teatros: «ABC, Maria Vitória, Variedades e Capitólio». Mas o assunto analfabetismo não é só pessoal («uma mistura de revolta, desilusão e profunda tristeza») mas também geral: «a culpa é do país miserável onde vivemos onde só os ricos podem ir à escola, percebes?»

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Fiscalização preventiva do Orçamento de Estado: claro que não, o Presidente ainda se chama Cavaco

A previsibilidade de Cavaco no que toca à forma como exerce – ou não exerce – os seus poderes é caso para estudo.
Temos um PR que, tendo à sua disposição o veto político de diplomas e o seu envio, em fiscalização preventiva, para o TC, actua com espectacular consistência em desvio de poder.
O veto político tem um significado, tal como o pedido de fiscalização tem o seu.
Cavaco não quer saber da lógica do sistema, nunca quis, toda a gente se lembra desse uso qual arma de guerra que o senhor faz de cada faculdade que a CRP lhe confere.
Seria normal que Cavaco suscitasse a fiscalização preventiva do Orçamento de Estado (OE) depois de se ter pronunciado publicamente sobre a sua inconstitucionalidade, por exemplo afirmando que as medidas previstas para os funcionários públicos e para os pensionistas “violam claramente o princípio da equidade fiscal”?
Não, não seria normal, seria um dever, um poder/dever.
Saberá também Cavaco, pelas vozes que o aconselham, que há outras normas a merecerem um juízo antecipado, como as que violam os princípios constitucionais das autonomias regional, autárquica e universitária.
Saberá também Cavaco que o TC está muito menos condicionado para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de normas orçamentais que ainda não estão em vigor, ainda não foram objecto do fatídico anúncio nacional e internacional da respectiva entrada em vigor, com a consequente animação dos “mercados” e com as expectativas da TROIKA consolidadas.
Saberá por isso Cavaco que passou a bola para os Deputados, que só podem requerer a fiscalização sucessiva, de um OE já em execução, com muito menos hipóteses de um juízo totalmente descomprometido por parte do TC.
Alguém esperava outra coisa? Eu não. O Presidente-Rei Cavaco Silva usou mensagens políticas de ataque ao Governo anterior abaixo do ridículo em vez de dar voz ao TC; o Presidente-Rei Cavaco Silva em vez de vetar politicamente certos diplomas promulgou-os, mas com menagens apoplécticas às 20h explicando o seu espanto por o diploma y não ter sido aprovado por unanimidade – essa coisa estranha da democracia; o Presidente-Rei Cavaco Silva antes de receber diplomas, para tomar uma decisão, estando os mesmos em plena discussão na AR, escolheu esse momento para receber associações representativas de interesses em causa nos ditos diplomas.
Cavaco conhece os seus poderes?
Conhece, pois. Por isso mesmo os distorce, por isso mesmo, nesta nova fase de governo de direita sem o líder que ele escolheria, dá recados à porta de qualquer evento, diz mesmo que o OE é inconstitucional, mas encontra o equilíbrio na sua inconsequência, garantido que na Rua do Século juiz algum ratificará, ou não, preventivamente, os recados de inquilino de Belém.
Perde o país, coisa que (não) lhe ocorre.

O rendado aberto da lei das rendas

A demissão do Estado, ou a “democratização da economia”, parece ter começado em grande com as novas disposições em matéria de arrendamento, mas, estranhamente, numa lógica muito pouco liberal. Não existe o sacrossanto mercado neste caso concreto da actualização das rendas mais antigas. Senhorio e inquilino são encarregados de “democratizar a economia”, tendo o privilégio de dar aplicação ao novel conceito engendrado pelo governo.
O princípio subjacente ao que foi anunciado é o de que são os senhorios e os inquilinos quem deve regularizar, entre si, a actualização da renda. O valor de mercado do imóvel não entra em momento algum da peça, nem li ainda em lado nenhum o que se prevê para o problema muito presente, premente e concomitante das obras de renovação.
Caso concreto: um inquilino paga actualmente 50€ por uma habitação antiga, com boa área, mas degradada. O senhorio poderia propor-lhe, por achar justo para cobrir eventuais despesas com obras, 300€ mensais. Sabe, porém, que, se o inquilino não aceitar, ao pô-lo na rua, terá de pagar-lhe uma indemnização de 18 000€ (e por alminha de quem?). Muitos proprietários possuem não só um, mas vários fogos em situação semelhante, o que obrigaria a multiplicar 18 000 por X. Por isso, antes de propor 300, o proprietário pensa nas consequências e propõe apenas 150. Se o inquilino aceitar, duvido muito que o senhorio aceite fazer obras (e o que diz a lei quanto a isso?). Se não aceitar, o senhorio poupa umas coroas na indemnização e o inquilino vai à procura de outra casa, imaginamos que por 100€, ou pelos mesmos 50€, muito mais pequena ou muito mais longe. Mas nada disto continua a ter em conta o valor real de mercado da habitação em causa. Porquê?

Os que beneficiem de rendas antigas e não provarem a sua incapacidade financeira, vão ter em breve a sua renda atualizada“, lê-se no jornal. E os que provarem essa incapacidade? O senhorio mantém-lhes a renda? Aumenta, e o Estado paga a diferença? Ou o senhorio vai negociar a renda com o Estado?

Por que razão tem sido difícil, até agora, mexer na lei da actualização das rendas? Porque grande parte do ónus caberia ao Estado – pessoas idosas, com baixos rendimentos, são quem habita os prédios mais antigos e, em caso de aumento substancial das rendas, seria o Estado a sustentar o diferencial, ou o novo alojamento dos despejados, para não ser acusado de desumanidade e de práticas anti-constitucionais, uma vez que os proprietários, e bem, entendem não ser responsáveis pelo congelamento das rendas, sendo antes suas vítimas, sentindo-se até, na maioria dos casos, reféns dos inquilinos. Além disso, a denúncia do contrato por parte do senhorio, mesmo que fosse para requalificação do imóvel ou a sua venda, contra a vontade do inquilino, esbarrava sistematicamente com processos morosos e a tradicional lentidão da justiça.

Sem contestar que a lei do arrendamento urbano precisava de uma valente reforma, aliás já prevista pelo anterior governo, as novas disposições parecem-me algo bizarras, do tipo “entendam-se!”, que estamos com pressa. Estou curiosa quanto à sua aceitação pelos proprietários e prevejo uma avalanche de processos no novo Gabinete do Arrendamento.

Bute escolher a bacorada do ano

Este ano agora findo foi vintage para a recolha de bacoradas. Após um esforço titânico, consegui reduzir o lote a 25. Significa que menos de 250 não faria sequer justiça à produção registada, e que à volta de 2 500 citações seria a quantidade mínima para termos uma perspectiva aproximada do conjunto. Eis o que a elite política pensa da nossa inteligência.


O funeral do Faraó

Rodeado por uma multidão de escravos num choro compulsivo sem lágrimas, sob um céu de chumbo e um frio cortante adequados à tristeza da ocasião, eis o cortejo fúnebre do líder de um dos últimos paraísos dos trabalhadores, mostrando ao mundo como se enterra uma divindade. Foi levado à sua penúltima morada por um Lincoln Continental de 1976. Belo carro. Algures no céu por cima do Michigan, Henry Ford esboça, sem dúvida, um sorriso.

Pós-verbalismo

Jantar com 20 pessoas. Média de idades de 30 e poucos anos. Depois da paparoca, metade do grupo fica a tirar fotografias entre si, a outra metade agarrada aos telemóveis a jogar.

Não se trata de decadência porque a decadência seria sempre mais interessante.

Coisas boas

Tiago Barbosa Ribeiro está de volta às lides blogosféricas com O Portugal Futuro. É mais uma fonte de inteligência política à esquerda que agora recomeça a actividade sob os teleológicos auspícios de Ruy Belo.

Pedro Lains inova na blogosfera nacional ao aderir ao crowd funding. Tendo em conta que esta é uma voz especializada em economia onde vigora a honestidade intelectual, há uma altíssima probabilidade de que o dinheiro angariado seja revertido em benefício da comunidade. Claro, se ainda der para ele comprar um Porshe, também não virá daí grande mal para as finanças públicas, disso podemos ter a certeza.

Uma dos melhores pedaços de cinema que vi este ano foi-me oferecido pelo O Homem Que Sabia Demasiado, aqui: “Soy Cuba”

Vinte Linhas 710

Dos semáforos de Telheiras e dos outros sentimentos

Numa das avenidas de Telheiras, uma tarde destas, um longo e agressivo apito logo seguido de uma forte buzinadela atacam um homem negro, meio perdido na cidade e a atravessar fora das passadeiras. Há um anacronismo na cena que parece saída de um filme de Charlot. O africano atravessa a avenida onde lhe parece mais a jeito. No seu país não há semáforos, é tudo a direito. É uma questão cultural; ele não despreza uma realidade que não conhece.

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Quem é que ganhou com o chumbo do PEC IV?

Claramente, o acontecimento que marca a vida política, e a vida do País, durante o ano é a situação de resgate em que caímos. Foi um momento particularmente dramático para o País, como se vê. Creio que nem tudo foi feito para o poder ter evitado, mas creio que foi sem dúvida o acontecimento que marcará a história portuguesa durante os próximos anos ainda. E creio que as lições que todos devemos tirar da situação em que ficámos nos devem também servir para não prolongarmos esta situação indefinidamente. E é preciso que o País se mobilize, justamente nesta fase crítica, para que rapidamente se restabeleça uma situação de normalidade do ponto de vista do financiamento da economia, do Estado, das famílias, que é o problema mais sério com que a sociedade portuguesa se confronta nos próximos anos.

Luís Amado, 23 de Dezembro

*

Uma das formas de manipulação mais comum, porque mais eficaz, consiste em enviar mensagens contraditórias ao mesmo tempo. Por exemplo, alegar que se violenta alguém por amor quando o amor é o critério que evitaria a violência ou a repararia. Defender que a liberdade pode ser perigosa quando é a ausência de liberdade a causa dos maiores perigos. Ou dizer que terceiros são os responsáveis pelas nossas acções negativas, porque nos incomodaram ou não apoiaram, quando isso implica que também outros teriam então de ser responsáveis pelas nossas acções positivas, assim nos anulando como seres com autonomia. O objectivo da contradição é a confusão mental e a subjugação aos interesses de outrem, funcionado pelo desvio da atenção dos elementos racionais numa dada situação para que sejam substituídos pelos mais cegos instintos de filiação e segurança. Quando uma pessoa que habita com outra – seja por anterior escolha de ambos ou laço familiar – justifica o seu comportamento narcísico, ou ameaçador, ou destrutivo, ou tudo isto junto, com um suposto profundo sentimento de afecto pela vítima, está a exercer uma insidiosa agressão que depende da manutenção da perversão semântica para se suster operativa.

O anterior Governo foi alvo de várias campanhas negras, ataques cujo único propósito era a difamação e não a comparação com políticas alternativas, uma delas que tinha em Luís Amado – mas cujo alcance atingia os restantes membros do Governo e do PS sem excepção – o nome ideal para este tipo de manipulação onde a contradição é intencionalmente cultivada como táctica. Depois das eleições de 2009, não sendo possível ao PS estabelecer qualquer acordo com os imbecis do BE e do PCP, a direita partidária apenas tinha de conter a fúria dos seus barões mais ressabiados e garantir a reeleição de Cavaco antes de se lançar no assalto final. Até lá, tratava-se de manter o Governo sob pressão máxima, sugerindo que a qualquer momento cairia. Isso foi feito através das coligações negativas, através das comissões de inquérito parlamentar, através das violações do segredo de justiça numa continuada exploração da golpada de Aveiro, através da ocupação do espaço mediático por sectários e fanáticos da direita e da esquerda, através dos apelos à intervenção do FMI feitos tanto em Portugal como no estrangeiro, e através do confronto aberto que o Presidente da República manteve sempre que foi fazendo declarações. No auge desta estratégia, assistimos a uma farsa na aprovação do Orçamento para 2011, o qual o PSD sabia jamais deixar que se executasse, e assistimos ao supino gozo debochado que consistia em sugerir uma possível coligação de bloco central, ou um Governo de salvação nacional, desde que o PS decapitasse a sua liderança e colocasse lá aqueles que os ranhosos aprovassem: os nomes mais falados iam de António Costa a Francisco Assis, mas o preferido era Luís Amado.

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Cineterapia


Jodaeiye Nader az Simin_Asghar Farhadi

Num documentário da produção de Persepolis, a felicíssima adaptação do romance em banda desenhada com o mesmo título, Marjane Satrapi explica que a linguagem gráfica permitiria realçar a universalidade da história, e histórias, que tinha para contar. Segundo a autora, e co-realizadora, era importante fugir da visão folclórica que mostrasse os iranianos como seres exóticos, destituídos de pontos de identificação para o público ocidental, perigo que antevia na utilização da fotografia. Também a opção pelo preto e branco favorecia a homogeneidade de uma narrativa com algumas cenas fantasistas e oníricas, disse na explicitação do intento hermenêutico e estético de apuramento do olhar humanista que percorre toda a obra de lés a lés e de alto a baixo.

Vem esta citação como introdução a contrario do que precisamente acontece no filme – igualmente de um iraniano e tendo o Irão como cenário – que em português responde pelo nome Uma Separação. Enquanto no exercício de Satrapi a exclusão dos elementos superficialmente realistas liga-nos de imediato à realidade das personagens, a qual é a nossa tanto no que tem de essencial como até no que tem de acidental, no exercício de Farhadi o caminho é diametralmente oposto: é a superfície da realidade que reclama atenção, acabando por se erigir como protagonista. A verdade das personagens está à vista sem mediações, enfrenta-nos, confronta-nos, abraça-nos, insulta-nos. Não há qualquer fuga porque para onde formos não só vamos encontrar essa realidade como vamos também levá-la connosco, o que resulta numa espiral onde a realidade é cada vez mais densa, mais esmagadoramente presente. E assim surge, com rigor geométrico, o veículo que leva o espectador a abandonar todos os particularismos ficcionados para atingir uma contemplação de realismo universalista paralela à de Persepolis: somos nós que estamos ali naquele Teerão onde nunca fomos e que nunca vimos – aquela separação é nossa, é a nossa.

Este é o filme do ano, Farhadi é um grande mestre, e a meio da projecção já dá vontade de nos levantarmos e bater palmas, bater em tachos e panelas, lançar urros e cartolas pelo ar, tamanho o virtuosismo com que somos levados sem uma falha para dentro daquele mundo. Um mundo atravessado por um vendaval de mentiras e cegueiras. E que termina com a milenar lição sapiencial: o que nos separa é um espaço vazio, uma porta aberta.

Façamos justiça pelas nossas próprias cabeças

Dono de pastelaria detido 16 vezes em três meses

Se não existir uma qualquer autoridade que investigue este caso, que até pode ser um corpo de bombeiros ou grupo de escuteiros que ambos têm fardas, este país deve ser evacuado e servir de lixeira para o resto do Mundo.

Ordem propõe expulsão de psiquiatra que fez sexo com doente deprimida e grávida

Se o entesoado psiquiatra não for expulso, todos os médicos serão cúmplices do crime que a Justiça deixou impune.

Impressionar com confiança, brilhar em confiança, seduzir à confiança

The Ability To Love Takes Root In Earliest Infancy
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Social Media in Protests: Study Finds ‘Recruiters’ and ‘Spreaders’
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How Monday Can Help You Stick to Your New Year’s Resolutions
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Resolve to Age Well by Keeping Physically Fit
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Sleep Disorders Common Among Police Officers
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It’s Good to be Good: Dr. Stephen Post on the Scientific Evidence
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Bees Appear to Experience Moods

Balada da Calçada do Combro ou o «28» de Oleg Basyuk

A Rua de todos os dias
Onde eu ia quatro vezes
E as noites mais sombrias
Demoravam como meses

Polícia à porta da Escola
A proteger as meninas
O amor era uma esmola
Pedida noutras esquinas

Poço dos Negros abaixo
Em cima era o Calhariz
Na memória que eu acho
Tudo é escuro e infeliz

Havia a guerra e o medo
Estava perto a inspecção
Um poema era segredo
Na Escola Veiga Beirão

Ao sábado até à uma
O trabalho continua
A bica de alta espuma
Espera por mim na rua

Manhã de segunda-feira
Vinte e oito na pendura
Uma vida verdadeira
Não se vive em ditadura

Nos cafés ao fim do dia
Os boatos são notícias
Falar é uma teimosia
À paisana são polícias

«Suplemento literário»
Quinta-feira nos jornais
Via o tempo ao contrário
Onde os sonhos eram reais

Passam já quarenta anos
Sobre mim sobre a calçada
Fora estes mitos urbanos
Parece que não houve nada

Excepto talvez a ternura
Que se gastou em excesso
A calçada é uma gravura
Mas virada do avesso

Onde até eu sou presente
Na multidão disfarçado
Estou no lugar da frente
Assim vou a todo o lado

Numa porta de Livraria
Vi Bocage em imagem
Na paragem da alegria
Acabou esta viagem

Cu-municação sucial

Subscrevo o que Vieira diz sobre a cu-municação sucial.

Ele queixa-se que procura um artigo de há meses sobre o poder de Balsemão, mas não o encontra. Pudera!

A súcia merdiática tem escapado sistematicamente ao escrutínio da opinião pública, salvo os resmungos da praxe.

A história da comunicação social não teve entre nós origens auspiciosas, é certo. O salazarismo foi seguido de estatização, espécie de modelo soviético em democracia, condenado à extinção.

Desde o tempo de Cavaco, o público português habituou-se por indiferença e impotência a aturar complacentemente os inúmeros aldrabões e mixordeiros que têm pululado na comunicação social. Em compensação, o público habituou-se também a estar sempre de pé atrás. As enxurradas de notícias desmentidas, as conspirações desmontadas, as campanhas com rabo de fora habituaram-no a relativizar o valor da mercadoria adulterada. Certas histórias escabrosas que milagrosamente vieram à tona (p. ex. o caso das escutas) enojaram-no e revoltaram-no. Mas de cada vez que esse mesmo público se senta em frente ao televisor ou abre as páginas de um jornal, opera-se inadvertidamente o milagre da fé renovada. O paciente distende por momentos as suas prevenções e defesas, transformando-se imperceptivelmente numa criança benévola e crédula. A inoculação acrítica da informação marada pode durar apenas uns segundos ou minutos, mas deixa resíduos tóxicos.

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De facto, é melhor continuar em passeio algures pelo fundo dos oceanos

Temos então o CDS-PP preocupado com o Estado social?

Sempre esteve! Há uma grande diferença entre um partido democrata-cristão e, se quiser, nessa matéria, um partido puramente liberal. A esquerda passou o Verão a falar no Estado social e neste Orçamento dá-lhe uma machadada que devia envergonhar o engenheiro Sócrates. Eu já o disse uma vez e repito-o: o engenheiro Sócrates prepara-se para tirar o abono de família a pessoas com 629 euros de rendimento. O abono de família foi criado em 1942 e até o dr. Salazar o pagava, veja bem onde chegámos! Há 750 mil pessoas que têm para viver todos os meses 240 euros ou menos – são os pensionistas. Foram congeladas essas pensões a eito! A única coisa inevitável é reduzir a despesa pública – como reduzir a despesa pública, aí é que há diferenças entre nós!

Vai fazer essa discussão na especialidade?

Com certeza! Uma coisa de que as pessoas podem ter a certeza absoluta: o CDS não agravará um cêntimo o défice!

E vai cortar onde? Já não pode cortar nos submarinos.

Posso cortar em inúmeros sítios, como vamos demonstrar. Vamos fazer propostas selectivas e as nossas três preocupações, por exemplo na área social, são: o IVA das instituições sociais para obras sociais, creches, lares, etc. Bom, isso vai a caminho… Apesar de tudo, o Governo começou a ceder – o CDS fez bem em levantar a questão. Permitir que as pensões mínimas, rurais e sociais, que são pensões de 246 euros, de 230 e de 189, não fiquem congeladas, tenham pelo menos uma actualização com a inflação, e a questão do abono de família pelo menos no quarto escalão, ou seja, de famílias de rendimentos baixos e modestos. O CDS identificou 14 rubricas em que, com esforço, profissionalismo e rigor, é possível reduzir a despesa. Dou-lhe um pequeno exemplo que toda a gente entende: o Estado prepara-se para gastar 47 milhões de euros em publicidade, que muitas vezes é propaganda. Prepara-se para gastar 33 milhões de euros em eventos e seminários e continua a ter uma despesa, apesar do esforço que já foi feito, consideravelmente alta em estadas e deslocações. Basta tocar nestas três rubricas e não precisa de congelar pensões mínimas, sociais ou rurais. Queria era que ficasse claro isto!

Portas, Novembro de 2010

A sombra de Deus

Um dia, aí por 1983, na principal rua de Algés, um senhor desconhecido e vindo não se sabe de onde, segurou, súbito e enérgico, o meu filho Filipe pelo seu pequeno kispo azul e, assim, o salvou de morrer esmagado por um Mercedes Benz. Eu estava do outro lado da rua, a mãe e as tias estavam distraídas e atravessar a rua mais movimentada de Algés não era para ele um problema. Mas podia ter sido se esse misterioso senhor não tivesse sido rápido e eficaz. Ainda hoje penso no que lhe gostaria de dizer. Por isso lhe chamo hoje ainda, quase trinta anos depois, a sombra de Deus.

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