Para quando Passos a deslocar-se num carro eléctrico?

Custa a acreditar, mas parece que o Governo aproveitou a cimeira no Paraguai para vender computadores Magalhães. Mas ao contrário de Sócrates, que implementou o programa e-escolinha e que acreditava nos seus benefícios, Passos suspendeu-o. A direita nunca lhe reconheceu qualquer mérito, muito pelo contrário. Portanto, que raio de argumentos terão usado para os venderem aos mexicanos? Não são bons para nós, mas são bons para os outros? E a empresa que os produz e exporta, e que era acusada de todo o tipo de trafulhices envolvendo o anterior Governo, já merece ser promovida nas cimeiras em que o actual Governo participa? Perguntas que ficam sem resposta porque a comunicação social, vá lá saber-se porquê, deixou de se interessar pelo assunto. Tal como não está muito interessada em dar-nos notícias sobre a visita de três dias de Paulo Portas à Venezuela. Será que houve eleições neste País e nós não soubemos de nada? Não era este País que era governado por um ditador com quem as pessoas sérias da direita jamais fariam qualquer tipo de negócio?

Good food for good thought

“Transparency”
Six times as popular in the business press as it was in 2002; about one in 40 press releases claim it. It’s taking over “honesty” and “integrity,” maybe because you can claim transparency without any suggestion you’re doing something that improves anyone’s life. Note: The glass industry uses “transparency” in marketing less than the average, but the audit industry uses it ten times as often. Draw your own conclusions.

The 7 Iconic, Transparent, Empowering Business Buzzwords That Need To Die

Blogger’s Digest

Uma selecção das melhores opiniões da semana, traduzidas para português corrente. Esta semana, versão (ligeiramente) reduzida. Andam muito caladinhos, sabe-se lá porquê.

***

Rui Crull Tabosa, Corta-fitas
Há um palacete a ser usado como gabinete de recreio pelo ex-presidente Jorge Sampaio. Tem direito a staff e tudo. Triste destino de um edifício mandado construir como estúdio de pintura para a mulher de um monarca, ser usado como gabinete de recreio. Maldita República.

***

Filipa Correia Pinto, Senatus
Agora que a direita está no poder, acho mal andar esse sururu com os ordenados, assessores, viagens e mordomias dos politicos. É desagradável, mesquinho, e mina a confiança dos cidadãos nos nossos – nossos – politicos e nas nossas – nossas – instituições. Está na altura de enterrar esse tema. Bem fundo.

***

Eduardo F., Estado Sentido
Estive a ler um ensaio sobre o jornalismo do José Manuel Fernandes. Conta uma historieta* que confirma os meus preconceitos sobre os media e o estado, ou seja, que os jornalistas são uns vendidos a quem tem poder. Logo, partindo dessa historieta* chego à conclusão que o melhor é não ter informação pública, só privada. É isto.

*Nota do tradutor:  a historieta é falsa, como não podia deixar de ser, e o JMF foi buscá-la provavelmente aqui. Nunca desilude, este JMF.

***

Henrique Raposo, Expresso
Sócrates! Finalmente o Sócrates! Raaaaaahhh… Rrnhaaaaaaah… rrrrrrrrr….. Bancarrota!….. Rhaaaa…. Rhauuuu… Rrnhaaaaah….. Paris!…. Rrnhaaaaaaah… Rhaaaau… rrrrrrrrr….. Armani!….. rrrrrrrrrr….. Rnaharnaaaah…. Coitadinho do Seguro, gosto tanto dele, o que lhe estão a fazer! Maldito Sócrates!

(Ahhhh, porra, que bem que isto soube! Ando a tentar compensar a falta que me faz com o Paulo Campos, mas tenho de admitir que não é a mesma coisa…)

Impressionar no desemprego, brilhar na falência, seduzir na miséria

Generation X Report: Survey Paints a Surprisingly Positive Portrait
.
Conservatives Are More Squeamish than Liberals
.
Want to Resist Temptation? Thinking Might Not Always Help You, Study Suggests
.
Peer Pressure in Preschool Children: Children as Young as 4 Years of Age Conform Their Public Opinion to the Majority
.
Government considers ‘right to know’ on domestic abuse
.
Harsh Discipline Fosters Dishonesty In Young Children
.
Subjects Move Virtual Chopper With Thoughts
.
Sexism and Gender Inequality
.
Study Links Unemployment, Mental-Health Problems

O Público errou

Segundo se depreende da notícia de capa do jornal Público de hoje, José Sócrates deveria estar proibido de falar com os seus amigos sobre a situação política do país. Também deveria estar proibido de conversar com políticos “tout court”. Qualquer conversa é imediatamente interpretada como pressão ou, no caso de políticos europeus, como minagem do trabalho do actual executivo.
Ora, eu, que não contacto de forma alguma com José Sócrates, se entender, e entendo, que o próximo orçamento deve merecer o voto contra do PS, estarei, levando mais longe a linha de raciocínio da jornalista, sob a influência da “pressão” de Sócrates. O que é ridículo.
Mais: Seguro que, segundo refere a jornalista, jantou com Sócrates (nada indica que a tal tenha sido obrigado), terá violado com isso alguma lei deontológica ao não ter falado apenas da diferença de clima entre Paris e Lisboa. O mesmo vale para hipotéticas conversas telefónicas com membros do anterior governo. A conversa com Seguro, é claro, levou de imediato a jornalista a afirmar que Seguro “resiste” ao hipotético desejo de Sócrates. O Público devia evitar cair no ridículo, se não mesmo aceitar servir de veículo a pressões eventualmente “relvistas” (ou “seguristas”?), essas sim evidentes com a publicação de tal título, sobre o sentido de voto da bancada do PS.
É pena que não evite. Há no mesmo jornal, por exemplo, uma excelente reportagem sobre o trabalho de um assistente social num bairro pobre do Porto, de cuja leitura é impossível não concluir da importância da educação, da cultura e do acesso ao conhecimento na transformação para melhor das camadas mais desprovidas e iletradas da nossa sociedade. Com vantagens para todos, até do ponto de vista económico. Daqui a alguns anos se perceberá como cortar cegamente no ensino público, nomeadamente na educação de adultos, e em certas ajudas sociais se paga muito mais caro do que os milhares de euros que agora se pouparão.

A arte da guerra

Uma das coisas mais espantosas sobre este desastroso OE é o facto de, na sua discussão e aprovação, estar a ser jogado o futuro político de António José Seguro. Portanto, ou vota a favor e se co-responsabiliza com Passos, ou vota contra e vai a reboque de Cavaco, visto agora como o “defensor dos cidadãos” e o verdadeiro líder da oposição, ou abstém-se e é visto como oportunista político incapaz de tomar uma posição perante o mais gravoso orçamento que há memória.

Bem jogado, Einstein.

PS – Estou muito curioso sobre o que o Presidente lhe terá dito nos seus encontros. Deixa-me adivinhar: exigiu “sentido de responsabilidade” (i.e. a aprovação do OE) antes dele próprio se demarcar claramente, não foi?

Vinte Linhas 680

South Bank – o preconceito não tem idade e continua hoje

Num recente desabafo da minha filha mais velha sobre a frase de um paspalhão empregado de um Banco («Nós não temos agências do outro lado!») se percebe a permanência do preconceito das pessoas do lado Norte contra o lado Sul da cidade de Londres.

No tempo de William Shakespeare (n.1564) o Teatro The Globe (demolido em 1644) estava situado do outro lado da cidade e tinha uma bandeira que era içada quando havia espectáculo. As pessoas interessadas viam a bandeira e alugavam botes para irem ao teatro. Os puritanos odiavam o Teatro como forma de arte (talvez porque o Teatro punha em causa as suas certezas) e se tudo dependesse deles o Teatro acabava. Eles mandavam no Parlamento que fica do outro lado e não queriam teatros naquela margem do Tamisa. Hoje existe uma reprodução muito fidedigna do original e organizam-se visitas guiadas ao novo The Globe, bem perto da catedral de Southwark e do mercado Borough Market.

Continuar a lerVinte Linhas 680

Contradições propositadas dirigidas ao povo alegadamente iletrado

Passos Coelho (e os membros do seu Governo por si) sabem que é difícil convencer as pessoas de que há qualquer racionalidade num conjunto de medidas (OE) que são um salto para o abismo mas, também, e sobretudo, a concretização do sonho ideológico de espatifar o Estado.
Passos Coelho travou uma guerra sem regras.
É um político amoral.
“Chocado” com o PECIV, que continha medidas de austeridade, mas com conta, peso e medida, e um programa de apoio ao crescimento da economia, gritou “nem mais um imposto” e abraçou-se à extrema-esquerda para fazer melhor.
Durante a campanha, disse o que todos ouvimos, mas, neste momento, o que mais impressiona recordar é a crítica feita a Sócrates, por parte dos analistas atentos, no debate com PC, a respeito da descida da TSU. Aquele Passos tinha explicado tão bem, mas tão bem, como baixar a TSU sem as consequências disparatadas apontadas pelo então PM em gestão.
Impressiona ainda, para efeitos desta certeza de que estamos perante um político amoral, recordar Passos Coelho clamar que dele nunca ouviriam dizer não conhecer a situação “actual”.
Ele conheci-a, sabia como dar a volta à crise que era culpa de Sócrates (a crise internacional parava em Espanha), sabia ao detalhe onde cortar a despesa, sabia que não aumentaria impostos, sabia que nunca tocaria nos subsídios de natal e de férias. Era, enfim, um sábio.
Só pensando nos funcionários públicos, que sofrerão uma estucada quatro vezes superior ao exigido pelo memorando da TROIKA, Passos (ou os seus) já disse que essa gente ganha mais do que os trabalhadores privados.
É uma tirada simplória, irrealista e ofensiva.
Depois, disse que a medida era provisória.
Depois disse que talvez no futuro os subsídios desses sanguessugas talvez venham a ser distribuídos pelos 12 meses (Pode ser que assim “aprendam” a gerir o dinheiro que ganham, esses despesistas?).
É isto. Passos passeia de contradição em contradição, é todo ele uma contradição, fala de um OE a partir de “desvios” descobertos – “que ninguém diga que eu não conheço a situação actual” -, mentindo, e de boca fechada, quando lhe mostram as contas certinhas.
Independentemente de juízos de inconstitucionalidade que algumas das medidas desta direita possam sofrer, Passos Coelho só deixará de ser um político amoral quando disser claramente que este OE é assim porque ele quer e não porque descobriu buracos já desmentidos; Passos Coelho só deixará de ser um político amoral quando assumir que este OE encerra uma via política que tem um cunho ideológico evidente.
Se o fizer, direi que o que já sabia foi verbalizado e não atirado ao passado ou aos tugas que viveram que nem uns malucos durante anos e anos “acima das suas possibilidades”.
O plano de destruição do Estado como o conhecemos, começando pela culpabilização dos funcionários públicos, é trágico. Mas seria bom que o responsável pelo plano assumisse a sua paternidade.

Um livro por semana 259

«Crónicas da lucidez – Novas farpas» de Joaquim Carreira Tapadinhas

«Quem escreve crónica de jornal aspira sempre a lugar na estante» – sendo um lugar-comum do jornalismo, esta frase aplica-se também às crónicas deste autor, antes publicadas nos jornais «Gazeta do Sul», «Região de Pegões» e «Nova Gazeta». O jornal é frágil e efémero; o livro fica e permanece. Em ambos, o mais importante são as palavras: «A palavra é o veículo mais importante nas relações humanas. Elas exprimem tudo. Elas desmascaram o homem. Elas fazem história».

Seja para um olhar genérico («Sem indústria, sem agricultura, sem aproveitamento do mar, não se augura uma rápida recuperação do país») seja para uma memória pessoal: «Logo após o 25 de Abril fui presidente da Câmara Municipal do Montijo. Não tinha assessores nem secretárias, redigia os meus próprios discursos». Essa memória pessoal permite-lhe criticar o que se passou no Congresso da Comunicações em 28-11-2010: «O ministro das Obras Públicas e o secretário desse ministério leram, cada um a seu tempo, o mesmo discurso, um na abertura e o outro no fecho do evento».

Afinal o passado e o futuro estão mais ligados do que parece: «É necessário ter presente que os velhos são os grandes órfãos. Com o abandono a que muitos estão votados, não só pela família como pela sociedade em geral, não têm pais nem filhos, nem netos nem interesse social. Salvo raras excepções, os velhos não têm ninguém. E isto também explica, em parte, o mundo em que vivemos.»

(Edição: Chiado Editora, Capa: Vítor Duarte, Coordenação: Joana Segura)

Política com final feliz

A primeira edição do Orçamento Participativo em Cascais entrou agora na última fase: votação. Em Lisboa, a quarta edição foi concluída recentemente, tendo logo depois sido anunciados os projectos vencedores. Saltou-se de 11 mil votos em 2010 para 18 mil em 2011 na Ulisseia. A popularidade da iniciativa disparou e, se continuar, não demorará muito a atingir os 100 mil registos. E tudo aqui brilha ao mais alto nível de eficácia cidadã, desde a metodologia da escolha dos projectos à ubiquidade da possibilidade de participação, passando pela informação disponibilizada antes, durante e depois da votação. Para quem se envolve na escolha de um projecto apenas na fase final, sem mais gasto de tempo do que aquele resultante da consulta da lista dos finalistas no todo ou em parte, o destino é o prazer: prazer de descobrir as ideias em disputa para melhorar a qualidade de vida na cidade, prazer de encontrar a sua proposta favorita e prazer de conhecer os sonhos que se irão concretizar e juntar-se aos já inaugurados ou em construção. Ganha-se sempre, mesmo quando se perde, porque se tem a certeza de irmos todos aproveitar com os investimentos a fazer, sejam eles quais forem.

Mas é nas fases de elaboração, apresentação e selecção das propostas finalistas que a iniciativa se revela como uma escola de cidadania de vasto alcance, permitindo a qualquer munícipe uma experiência plena do que é a essência da política: o encontro dialogante e volitivo com os vizinhos, o sentimento de se pertencer a uma comunidade maior do que os problemas individuais. Por razões de disponibilidade, são os reformados e os estudantes aqueles que mais podem participar nas sessões nas Juntas de Freguesia. E serão também estes dois grupos os que reúnem mais energia e sapiência para renovarem os espaços urbanos, pois os vivem com uma intensidade que escapa aos que se fecham nas carroças e nas gaiolas durante o dia até chegar a hora de se fecharem em casa. Ora, se conseguirmos aumentar a frequência do convívio entre reformados e estudantes com vista ao bem comum, algo de profundamente vital estará a acontecer no espaço público. As consequências da união de esforços em projectos locais entre pessoas de vária escolaridade, idade, ideologia, experiência e tipos de vida tem profundas consequências para o amadurecimento político da sociedade portuguesa.

Os Orçamentos Participativos mostram que não podemos invocar qualquer desculpa para o absentismo cívico. Só não participa quem não quiser. E isso é o que podemos dizer a respeito de outras instâncias da intervenção pública, em que o cidadão abdica espontaneamente de um conjunto formidável de direitos que lhe garantem voz e espaço de acção. O discurso contra os políticos e contra a política é papagueado pelos mais mentalmente frágeis e pelos mais moralmente perversos. O que pretendem, inconscientes os primeiros e canalhas os segundos, é a continuação do afastamento dos cidadãos da sua fonte primeira de poder: a liberdade para serem autores da cidade onde habitam, onde se realizam. Só nos irão derrotar se deixarmos, somos nós que daremos um final infeliz ou feliz a este mistério de estarmos juntos.

Good food for good thought

The Republican-Democratic debate over income tax rates and the size of government has been long on rhetoric but short on data. What does published research say about what different economic groups do with savings from income-tax cuts? Will the economy slow if Washington cancels tax cuts on millionaires and billionaires?

Most experts agree that tax cuts can stimulate a weak economy over the short term through increased consumption and investment, provided the money flows to people who are more likely to spend than save. Past observation has shown that because lower-income people often live paycheck to paycheck, they are more likely than the wealthy to spend. Yet “our research suggests that hasn’t been true for the past decade,” says economist Joel Slemrod of the University of Michigan at Ann Arbor. Because the last few tax cuts have followed financial crises, poorer people may have used the extra income to increase their cushion by building up assets or paying down debt. But the rich haven’t been spending freely either. Last year a study by Moody’s Analytics suggested that the 2001 and 2003 tax cuts spurred the wealthy to significantly increase their savings as well.

What should the administration do to design a better economic shot in the arm? One finding on which researchers seem to agree is that consumers respond more vigorously to policies thought to be long-lasting. Therefore, Slemrod says, one farsighted action may plausibly help the economy: convincing the general public that the federal government is committed to getting its fiscal house in order.

Low Taxes, High Rhetoric: What Consumers Really Do with Their Tax Cuts

Deixem as pessoas empobrecer em paz

Todos os dias lemos notícias sobre os problemas que os bancos enfrentam, sobre a dificuldade de se financiarem, a impossibilidade de concederem crédito às famílias e às empresas, a necessidade de se recapitalizarem. Por isso, notícias como esta fazem alguma confusão. Então, os bancos estão assim tão mal e andam a oferecer taxas de juro altíssimas pelos depósitos, ao ponto de terem de levar um valente puxão de orelhas do Banco de Portugal?
Além disso, parece que os banqueiros não têm prestado atenção ao que diz o primeiro-ministro e ainda não perceberam que o objectivo do Governo é o empobrecimento dos portugueses. De todos os portugueses. Ora, com as taxas de juro que oferecem torna-se muito difícil cumprir essa meta. Já para não dizer que assim é muito provável que uma parte da população continue a viver acima das possibilidades…

Vinte Linhas 679

Memória de uma cantiga na Feira de Rio Maior

Acaba de sair o livro «Cultura Popular em Almeirim» de Álvaro Pina Rodrigues, uma edição da «Cosmos» na colecção «Raízes», dirigida por Aurélio Lopes.

Numa primeira leitura ainda não sistemática e organizada, saltou-me à vista um capítulo intitulado «Romances profanos cantados» no qual descobri um texto cuja memória guardo dos tempos da Feira de Rio Maior, onde comecei a ir lá pelos idos de 1956. Era vulgar os cegos cantarem e venderem às pessoas na Feira uns folhetos com cantigas sobre casos de violência que aconteciam no hoje chamado Portugal profundo.

Aqui fica a reprodução do arranque de «Há um rapaz na Portela»:

«Há um rapaz na Portela / Que enganou uma menina / Levava o retrato dela / Gravado na concertina

Gravado na concertina / Gravado no violão / Levava o retrato dela / Amélia da Conceição»

Nesse tempo o termo «enganada» tinha um sentido e uma consequência: as raparigas ditas enganadas só acabavam por casar (quando casavam) com rapazes livres da tropa. Os pais das outras raparigas das aldeias sentenciavam sobre os «livres» – «Se eles o livraram algum defeito lhe acharam!»

Passados tantos anos ainda hoje me lembro dessa cantiga de Feira cantada pelos cegos. Mas ainda hoje me estranha a forma como a mesma terminava:

«Se me queres escrever / Dou-te a minha direcção / Benfica do Ribatejo / Amélia da Conceição.»

Talvez a moral da história esteja aqui – um amor perdido não é um amor morto.

Praxe e praxis

Malhar nas praxes é actividade sazonal coeva da época da castanha. Foi o que fez, e recordou, há dias a Shyznogud – “barbárie consentida, a boçalidade celebrada e a estupidez oficializada” – deixando apontamentos que assino por baixo e ligações para outros textos sintonizados na batida.

Por um acaso laboral, tenho a possibilidade de atravessar diariamente a pé (quando não chove muito) a Católica, o Estádio Universitário (Medicina), a Alameda da Universidade (Direito, Letras, Psicologia e Ciências da Educação), a Faculdade de Ciências e parte do Campo Grande (Lusófona). Isso permite-me observar com zoológica atenção os tétricos espectáculos que se estendem ininterruptamente de Setembro a Maio (pelo menos) nesta vasta reserva académica que ainda inclui nas cercanias o ISCTE, Farmácia e Medicina Dentária. Já muitos disseram o que havia para dizer, e nem sequer os aspectos das supostas humilhações e culto do machismo, do anacronismo e da aculturação, são os que mais relevo. Por um lado, nem tudo o que parece é, e os rituais implicam um acordo quanto à sua convenção lúdica e teatralidade, pelo que partem de um consentimento e oferecem um sentido colectivo. Essa experiência não pode ser descrita a priori como humilhante, frequentemente sendo até desejada e festejada pelos caloiros. Por outro lado, as extrapolações críticas de cariz ideológico e/ou moralistas, absolutamente legítimas e eventualmente úteis, são já convencionais de tanto serem repetidas. Acresce que existe a altíssima probabilidade de vários daqueles mais entusiasmados na maldição das praxes poderem ter participado nelas com alarve gozo, ou jamais perdido uma caloria com a questão, in illo tempore. Mas como frisa a Shyznogud, e outros, o século está maduro para se passar à intervenção política e pedagógica por parte das direcções académicas docentes e discentes, ajudando os alunos universitários a compreender as vantagens de se libertarem das formas menores, quando não degradantes, de socialização. Haverá, seguramente, outras soluções para se conseguir embebedar caloiros com vista ao aproveitamento dos seus recursos sexuais sem os obrigar às figurinhas tristes.

O que mais me impressiona nas praxes é o fenómeno da crescente fetichização do traje académico, movimento que vem dos finais dos anos 80 e da massificação do ensino superior ao longo dos anos 90. Deixando de lado a gargalhada de se andar por Lisboa, Évora e Faro em Setembro com farpelas preparadas para o Inverno coimbrão, a uniformidade do vestuário está involuntariamente a representar a uniformidade do pensamento. O assomo étnico-corporativista que se exibe como farda é a negação mesma da libertinagem criativa e criadora que está na essência da vocação intelectual que inventou a Civilização. Em vez de se exibirem únicos e diversos, os nossos trajados querem é repetir-se na exaltação do conservadorismo mais anti-universitário que é possível conceber. Haja alguém que lhes explique essa relação que antecede todo o pensamento científico, sem a qual qualquer actividade cognitiva gerará apenas opinião: é pelo particular que se chega ao universal.

Foi você que votou nestes senhores?

«O Governo perdeu a confiança dos portugueses e, sem confiança, o Governo está ferido de morte. Portugal precisa de confiança, precisa de verdade e precisa de transparência», disse o deputado e vice-presidente do grupo parlamentar do PSD.

«O PSD tem, por isso, o dever patriótico de, com seriedade e com serenidade, travar este caminho errado e sem futuro do Governo socialista. O PS governou 13 dos últimos 16 anos em Portugal. Os resultados estão à vista. O Governo que nos trouxe para esta crise não é definitivamente parte da solução», acrescentou.

Segundo Luís Montenegro, «Portugal precisa de cumprir os seus objectivos orçamentais», mas de outra forma: «O caminho passa por ter coragem de cortar mais na máquina do Estado e não impor mais sacrifícios inúteis aos portugueses.»

23 de Março de 2011

Gente feliz, sem lágrimas

Arrastados na enxurrada de medidas que visam tornar-nos mais pobres, é sempre reconfortante constatar, quando se levanta a cabeça, que alguém anda contente. Assim:

Paulo Portas – Realizado o sonho da sua vida, ser ministro, é vê-lo a viajar por todo o lado numa actividade que, se não é, parece totalmente autónoma do governo e cujos resultados práticos não se vislumbram. Mas anda feliz.

Passos Coelho – Queria tanto ser primeiro-ministro e dar cabo do Estado e dos serviços públicos, tendo para isso construído uma narrativa de mentiras como nunca visto, que hoje deve sentir-se muito próximo de realizado. Qualquer outra solução para a crise que não o desmantelamento dos serviços, a oferta, em fatias, do sector público ao privado e a redução dos salários deixá-lo-ia altamente frustrado. Por isso, a bem da sua felicidade, esperemos que a crise se mantenha, ou mesmo que se agrave. Ele bem segreda à Merkel.

Cavaco Silva – Feliz por ter corrido com Sócrates que, em 2009, ousou ganhar as eleições à sua amiga Manuela. Feliz por ter sido reeleito. Feliz por ter os da sua cor no governo e feliz por ver os seus amigos do BPN a safarem-se com a máxima serenidade e a conivência da imprensa.

Seguro – O homem anda feliz porque o seu actual estatuto lhe permite reunir com imensa gente – desde a CIP às organizações sindicais, o PR e o PM e, no estrangeiro, com Zapatero, Delors, Hollande, Barroso, PE, enfim um privilégio! De volta à Assembleia, enche de vez em quando o peito, afina a goela e mostra-se indignado, mas, cá para mim, nem sabe bem porquê.

Vinte Linhas 678

O horóscopo de Delfos em 1973

Corria o ano de 1973 no jornal «República», tempo de guerra colonial e de censura mesmo ali ao lado na Rua da Misericórdia. Cansado de ler notícias com suicidas «caídos» das pontes, recém-nascidos «esquecidos» em vários lugares, revólveres a dispararem sozinhos, casais detidos por um beijo num jardim, o jornalista Eduardo Valente da Fonseca resolveu esquivar-se à censura oficial deixando de enviar o Horóscopo – tal como as palavras cruzadas ou os discursos de Américo Tomás.

Teve o apoio de José Magalhães Godinho, Raúl Rego, Álvaro Guerra, Álvaro Belo Marques, Victor Direito, Mário Mesquita, Jaime Gama, Afonso Praça, Fernando Cascais, Fernando Assis Pacheco, Figueiredo Filipe, Carlos Albino, José Alcambar, Miguel Serrano, José Manuel Barroso, Antónia de Sousa, Helena Marques, Gonçalves André, Pedro Foyos e outros companheiros.

Vejamos apenas um exemplo do que a censura não viu e depois já era tarde:

«ARIES – Quanto mais se oculta a verdade mais poder ela tem quando se sabe. TAURUS – Com Deus, Pátria e Família não se faz chá de tília. GEMINI – Políticos prolixos, pró lixo… CANCER – Não há governante amado por um Povo dominado. LEO – Encontrarás por aí muitos cartazes que já não colam… VIRGO – A governar desgovernados, é o que vês para mal dos teus pecados. LIBRA – O teu voto está votado à sucata… SCORPIUS – Quem é democrata não escapa… SAGITARIUS – Não tenhas dúvidas de que, de facto, conversa não enche barriga… CAPRICORNIUS – Não ver publicidade é meia felicidade. AQUARIUS – De governantes como dantes não te espantes… PISCIS – Os endireitas das direitas endireitarão? Não e não».

Recuperado e divulgado por José do Carmo Francisco

Good food for good thought

In the weeks since his death, Jobs has been compared to Einstein and Edison. Maybe so. But the problem with using his interpersonal style as a management role model is that the rest of us, to parrot Apple advertising, will assuredly blow it. In business, the control freak boss—the emblematic Jobs model—is a recipe for unintentionally delivering your best employees as new hires to your closest competitors.

Millions of people have to manage others, and this challenge doesn’t necessarily bring out the best in us. A 2005 article by two psychologists from the University of Surrey, “Disordered Personalities at Work,” found that senior British executives were more likely to demonstrate histrionic personality disorder (grandiosity and lack of empathy among other traits) than criminal psychiatric patients at Broadmoor Special Hospital in Berkshire, England, and they were equally likely to show narcissistic (perfectionism and a dictatorial bent) and compulsive tendencies. Is it that this type of person is attracted to the job or the workplace encourages this type of behavior? Who knows? But entreating subordinates to “insanely great” levels of performance, to quote Jobs’s hyperbolic rhetoric, is more likely to initiate a collective bargaining drive than produce the next iPad.

Steve Jobs: A Genius, Yes; A Role Model for the Rest of Us, No Way