Mais transparente não há, de facto

De Espanha, como já vem sendo hábito, o primeiro-ministro informou-nos hoje que

«os problemas detectados na Madeira entraram “no desvio de dois mil milhões” identificado pelo Executivo.

“Não existe nenhuma notícia nova. Portanto, no processo que foi detectado de desvio de cerca de 2.000 mil milhões de euros no primeiro semestre conta-se cerca de 500 milhões de euros com origem em duas operações na Madeira”»

Fonte
Lê-se ainda que

mal esse desvio foi detectado foi colmatado por medidas de reforço do programa português”. “Na sequência desse exercício, a troika mostrou-se satisfeita pela transparência com que o processo ocorreu e pelas medidas que visam colmatá-lo”.

Fonte

Ou seja, o desvio era conhecido há muito, lançou-se um imposto extraordinário para, em grande parte, pagar as dívidas da Madeira, sem nunca as mencionar, deixando-se no ar a ideia – falsa, como se comprova – de que se tratava de prevenir. Sinceridade e transparência total, portanto.

E mais: “pela transparência com que o processo ocorreu?” Só pode estar a brincar. A Troika disse mesmo isso?
Apenas hoje foi tornado público este desvio “colossal” nas contas madeirenses! O governo andou a encobrir Alberto João, ao mesmo tempo que lançava suspeitas sobre o governo anterior. Se a Troika considera este processo transparente, o que quererá dizer transparência na Europa central?

A era dos ciborgues

(Via Sullivan)

Como o intrigante documentário acima procura demonstrar, não deverá demorar muito tempo, talvez pouco mais que uma década, até a tecnologia prostética avançada começar a produzir membros artificiais superiores aos nossos. O estado da tecnologia e investigação, e os resultados, são surpreendentes já hoje. O que dará origem a fascinantes debates éticos sobre se será lícito, por exemplo, pedir a um médico que ampute pernas ou braços saudáveis para os substituir por máquinas mais eficientes, mais fortes ou mais rápidas. Em primeiro lugar, e estou a pôr-me a adivinhar, ao nível dos militares. Um dia, cada vez mais perto, teremos que discutir a outro nível uma velha questão: o que é um ser humano?

Mas essa questão, sem que tenhamos dado por ela, já existe hoje ao nível do cérebro. O que nos separa do mundo imaginado por William Gibson são apenas alguns detalhes. Estamos hoje rodeados de informação. Literalmente rodeados, já que são raros os sítios habitados que não estejam cobertos por redes digitais de telemóvel e de wi-fi, sendo apenas necessário um pequeno aparelho para lhes aceder, e com isso a quase todo o conhecimento humano. Estejas onde estiveres, tens acesso rápido a uma imensidão de dados – conhecimentos, notícias, trivialidades, imagens, mapas, videos, musica. Eu, pelo menos, já a trato como uma extensão natural do meu próprio cérebro. Não me lembro de alguma coisa, quem realizou este filme, quem escreveu aquele livro, e em que data? Click, click, click, está relembrada em segundos. Estou perdido numa estrada secundária no meio da serra? Não, não estou, o telemóvel e o Google sabem exactamente onde estou e como sair dali. O Valupi usa uma palavra que não conheço (o que acontece com frequência) ou uma referência grega (ainda mais frequente)? Click, click, clik, tenho as bases necessárias para pelo menos entender qual o sentido da frase, e ler mais se me interessar. E utilizar os meus recém-adquiridos conhecimentos para tentar comentar alguma coisa, participar numa discussão que me estaria vedada há uns meros anos atrás.  Enquanto o carro está no túnel de lavagem.

Isto faz de mim possivelmente uma fraude, no sentido em que passo por mais culto do que realmente sou sem ajuda externa. Sem a prótese electrónica que o meu cérebro utiliza cada vez com mais frequência, mais naturalmente. Mas entendo a internet como o meu disco rígido pessoal, a minha colecção de neurónios exteriores, sempre presentes desde que haja bateria. O resto, o que entendo por inteligência, é capacidade de processamento de toda essa informação numa linha de pensamento coerente, e mesmo aí temos exemplos quase ilimitados de gente muito acima do nosso nível que todos os dias demonstram online como se faz. Cultos já todos podemos ser sem grande esforço, quase instantaneamente. Sábios é apenas uma questão de aprendizagem. Cada vez mais rápida com ajuda de máquinas, como um bom ciborgue.

Portuguesinhos valentes

Um outro aspecto, prenhe de ensinamentos, do ciclo Sócrates diz respeito à facilidade com que era atacado com a maior violência. Fizeram-se acusações alucinadas, literalmente, tendo sido comparado com Saddam, Drácula e Hitler. Mas para além deste frenesim demencial dos oligarcas, o propósito foi sempre o de insinuar, quando não caluniar e recorrendo a magistrados e jornalistas, que Sócrates era criminoso. Criminoso no presente e criminoso no passado; portanto, criminoso no futuro. Quem estivesse com ele, criminoso seria, por actos ou omissões. Esta foi a estratégia de Belém, cujo nome de código era uma jura de vingança: Política de Verdade.

Mas a violência antipolítica não foi só apanágio das figuras gradas da direita partidária, ou da extrema-esquerda que alinhou com ela, também se estendeu para dentro do próprio PS. Alegre, Carrilho, Neto, Ana Gomes, Narciso Miranda, Seguro e muitos outros, em diferentes momentos e em diferentes modos, deram igualmente expressão a este propósito de sugerir que Sócrates não se limitava a ter um projecto e valores que eles recusavam, havia mais. Havia um mal terrível, uma ameaça fatal. Sócrates era um tirano que tinha conseguido amordaçar o PS, acabando com a liberdade. A única solução era o seu derrube, não valia sequer a pena entrar em diálogo com ele.

Por fim, foi criado um ambiente de histerismo colectivo, de que as manifestações de professores são o mais paradigmático exemplo, em que a celebração do ódio não tinha qualquer reserva ou receio, antes aparecia como catarse politicamente correcta. Direita e esquerda uniam-se contra um inimigo comum, havia festa nas ruas e ânimo nas almas.

A singela conclusão é esta: quando o povo se sabe respeitado pelas instituições e protegido pelas autoridades, sente-se à-vontade para amaldiçoar os governantes num berreiro sem fim; quando o povo se sabe ameaçado pelas instituições e perseguido pelas autoridades, cala-se tremendo de medo.

Com Sócrates, registe-se para a posteridade da nossa cidadania, os portugueses foram uns valentões. Sinal de um certo tempo de plena confiança no Estado de direito.

Vinte Linhas 655

Vila Franca de Xira – Marieta e as outras miúdas da nossa turma

Esta fotografia a preto e branco explica bem como o tempo passou por nós – destruidor de sonhos, relógio de horas que nos ferem, lugar onde nunca mais vamos estar de novo juntos. Em 1966 a Marieta era, na nossa turma da Escola Comercial e Industrial de Vila Franca, uma voz sempre alta, diferente, feliz. A fotografia, como é óbvio, não regista sons mas eu tenho essa memória, de alegria nos corredores da nossa Escola, guardada num recanto da alma. Era um som puro, inesperado, motivador para todos os parceiros dessa fotografia hoje histórica. Lembro bem o Arnaldo, o Paplikas, a Gui, a Edite, uma moça cujo nome não recordo mas a mãe tinha discos gravados que passavam na Rádio, era a fadista Maria Passos.

Continuar a lerVinte Linhas 655

Método altamente científico no Ministério da Educação

Se bem me lembro, as ideias de Nuno Crato para a educação, antes de ser ministro, assentavam em três pilares: fazer implodir o Ministério da Educação, ou seja, eliminar (ou seria substituir?) a maior parte dos seus funcionários, reduzindo-lhes a influência perniciosa (sendo verdade que o PCP tomou de assalto despudoradamente este ministério depois do 25 de Abril), rever de alto a baixo os programas de ensino e impor maior rigor na avaliação dos alunos.

Para já, o que me é dado observar é um ministro aos zigue-zagues, que traçou como estratégia inicial a conquista das boas graças dos sindicatos, convencido de que havia que ultrapassar esse “obstáculo”, mostrando-se demasiado temente e receoso da contestação, com isso aparentando ter perdido o Norte, acreditando nós que o tinha. Se exceptuarmos, como medidas tomadas, o aumento de horas lectivas para o português e a matemática e a reintrodução de mais alguns exames, o que se vê é a ausência de qualquer referência a conteúdos programáticos e o esquecimento total do aumento de rigor.

Na avaliação dos docentes, matéria por excelência (na cabeça do ministro) para vencer o dito obstáculo sindical, tem sido grande a desorientação. Se, há duas semanas, ficavam de fora os docentes dos escalões mais elevados, medida muito contestada por oportunista, hoje lê-se que afinal vão ser avaliados. Tratar-se-á de uma reviravolta que teve em conta as críticas, denotando grande insegurança e falta de rumo, ou de uma manobra estudada?

Aguardo com expectativa os desenvolvimentos. O anúncio da exclusão da avaliação de um terço dos docentes e as subsequentes críticas podem ter servido para permitir a alguns virem para os jornais e televisões dizer que não, não concordam com facilitismos, e que sim, gostariam imenso de ser avaliados… O que é meio caminho andado para a ausência de contestação.

Seja como for, com a excessiva reverência aos sindicatos, anda-se a perder tempo na educação e a não consolidar, ou mesmo a desbaratar, o muito que já foi feito, quando os resultados das recentes eleições poderiam servir de âncora a medidas positivas, como a continuidade de uma avaliação séria dos docentes e uma maior autonomia das escolas. Ora, esta opção de Crato surpreende, porque, se há coisa para que os resultados eleitorais têm servido é, aliás, para o governo acelerar todo um rol de medidas, essas sim gravosas, altamente contestáveis ou simplesmente erradas.

g point

De facto é estranho que não haja excepções ao direito de voto, que pessoas dependentes de outros para tomar decisões simples no seu dia-a-dia, ou pessoas cujo comportamento levou a que estejam isoladas, por muitos anos, da sociedade mantenham intacto o seu direito a decidirem quem tem melhores condições para nos governar. Ainda é mais estranho se pensarmos que o direito ao voto em associações, clubes e afins, e até nos próprios partidos, implica condições e deveres que não se exigem ao eleitor, em quase todas é necessário preencher vários requisitos entre os quais, por exemplo, ter as quotas em dia. Imagine-se o que seria se um político se lembrasse de propor como condição para exercer o direito de voto ter os impostos em dia. Caía o Carmo e a Trindade. Já para não falar na dose de coragem necessária para lançar a discussão.

E, apesar de manifestarem alguma preocupação com os valores da abstenção (só no dia das eleições, no dia seguinte já ninguém fala disso), não parecem muito incomodados com a ignorância e o desinteresse pela política, só isso explica que na Escola, onde tanto se investe na formação dos futuros cidadãos, a formação política dos alunos não tenha lugar. A única coisa que ouvem sobre política aos professores são desabafos contra todos os governos, pouco abonatórios para os políticos e a política em geral, que passa facilmente por uma actividade quase marginal, no pior sentido, que só interessa a gente que não interessa. Se se juntar a isto o tratamento que a comunicação social dá ao tema, privilegiando quase sempre a politiquice em vez da discussão séria, estamos conversados. É pena. Mas como tudo evolui, e a democracia não tem sido excepção, talvez num futuro próximo este debate se torne inevitável e os políticos deixem de se preocupar exclusivamente com a quantidade de votos e pensem no que ganharíamos todos com o acréscimo de qualidade dos mesmos.
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Oferta da nossa amiga guida

Vinte Linhas 654

Desde 9-9-66 ou afinal 45 anos passaram num instante

«Você vai tirar uma chapa ao Chile!» – foi esta a frase que abriu o meu primeiro dia de trabalho no BPA na Rua do Ouro nº110. Recém-chegado a Lisboa, depois de ter vivido em Santa Catarina, Montijo e Vila Franca de Xira, sabia lá eu onde era o Chile, afinal Praça do Chile, onde se tiravam as chapas dos tuberculosos. Sem chapa não se podia trabalhar. Lá fui no eléctrico 24 (Chile-Carmo) na segunda-feira a seguir. Nesse tempo trabalhava-se nos Bancos ao sábado até à uma da tarde. Eu ganhava 900 escudos por mês e pagava 7$50 pelo almoço na cantina da Rua dos Sapateiros. O elevador de S. Justa custava $20, a viagem do Rato ao Carmo era $70 e valia a pena descer das Amoreiras para o Rato para poupar $30. Um jornal custava 1$00 tal como um selo dos CTT. Se recordo os eléctricos desse tempo é porque hoje existem apenas o 12, o 28 e o 15 que já não tem nada a ver – é mais um comboio pequeno a circular em linhas de eléctrico. O meu mundo de 1966 tem desaparecido aos poucos. Os sonhos foram torpedeados, as aspirações foram pisadas, os votos mais puros foram rasgados por trambolhos que se foram chegando à frente e falam em nome de todos nós. Nesse ano a expressão «todos nós» estava na berra por causa da equipa dos «Magriços» que fez gato-sapato dos adversários em Inglaterra e só não ganhou o campeonato porque estava escrito – foi preciso até um golo fantasma para os ingleses ganharem à Alemanha Ocidental. Eu tinha 15 anos e comecei a trabalhar em 1966. Ainda hoje trabalho e desconto, pago os meus impostos. Vou pagar em Setembro quase mil euros de acerto mas todos os meses desconto 135 euros à cabeça do talão de ordenado. Pois é, 45 anos passam num instante. A aguarela de Oleg Basyuk é a saudação aos meus netos Tomás, Lucas e Pedro que merecem um futuro mais feliz, justo e digno.

Good food for good thought

Researchers found that respondents who felt positively toward the Tea Party movement held the following primary cultural and political dispositions more often than other voters did:

• Authoritarianism: respondents believe that obedience by children is more important than creativity, and that deference to authority is an important value.
• Libertarianism: respondents believe there should not be regulations or limitations on expressions such as clothing, television shows, and musical lyrics.
• Fear of change/ontological insecurity: respondents sense that things are changing too fast or too much.
• Nativism: respondents hold negative attitudes toward immigrants and immigration.

Study Reveals Cultural Characteristics of the Tea Party Movement

Cineterapia


Angèle et Tony_Alix Delaporte

Quando se começa um filme com uma francesa a prostituir-se com um chinês, encostada a uma parede exterior num arrabalde qualquer da Normandia, e recebendo como pagamento um boneco Action Man falsificado, para onde se pode ir a seguir? The only way is up, baby.

Estamos frente à primeira longa-metragem de Alix Dalaport, conhecida em França pelos seus trabalhos televisivos. Ela quis filmar na terra onde nasceu, quis filmar as pessoas com quem cresceu. E quis filmar um rosto.

Citando de cor Agustina Bessa-Luís, para alguns homens, o rosto de uma mulher é o seu destino. Assim com esta obra, cujo destino é a viagem ao rosto da protagonista. Rosto esse que vemos a dilatar-se, numa espiral de silêncios e iluminações, até ao ponto em que refulge em êxtase.

É, mais uma vez, a história da Bela Adormecida. Com cheiro a peixe, sabor a sal e batida pelo vento frio que vem do mar.

Plano de confiança

Cortar nas despesas do estado, ou seja, pôr o estado a injectar muito menos dinheiro na economia. Aumentar os impostos para reduzir o défice, retirando ainda mais dinheiro da economia. No fundo, tanto o estado como os cidadãos gastam menos, ou seja, compram menos produtos às empresas, que produzem menos e precisam de menos gente. No final, se tudo correr bem, teremos um estado menos endividado – as famosas “contas públicas em ordem” – à custa de uma enorme recessão e desemprego galopantes que essas medidas provocam, mas pronto a crescer devido à “confiança” que as tais contas públicas controladas provocam. Os mercados e agentes económicos olharão para nós e pensarão: “Estes tipos não só não crescem como estão em recessão, não há dinheiro a circular na economia, não investem por falta de fundos, têm um quinto da população de desemprego, mas têm um défice controlado graças a impostos altíssimos. Toca a baixar os juros e a emprestar, que isto é certinho.

Este é o plano, não é? Não me parece grande coisa.

Os putos

Entre o fado e a política, Carlos do Carmo chama ao 25 de Abril, “uma data bonita” – “Foi um clarão que traz consigo a esperança de ver resgatar a dignidade de um povo e de acreditar que juntos íamos fazer qualquer coisa”. Mas a realidade desiludiu-o: “Foi essa a esperança que tive e na qual acreditei durante alguns anos, até ver que a política é uma coisa muito delicada”.

Tanto que hoje não se revê no País. E explica: “Vou tão somente falar de uma pessoa: Aníbal Cavaco Silva. Que foi primeiro-ministro deste país quando entraram vagões de dinheiro e nunca o ouvi dizer ‘Este dinheiro tem que ser pago’! Quando era primeiro-ministro, a nossa agricultura foi vendida a pataco, as nossas pescas foram vendidas a pataco, a nossa indústria quase desapareceu (…) É tão fácil bater em Guterres, em Santana Lopes, em Durão Barroso ou em Sócrates. Não quero centrar-me numa pessoa e dizer ‘Eis aqui o bode expiatório disto tudo’, pretendo é alertar os portugueses que têm esta tendência para ter um paizinho, só que precisamos é de ter um paizinho sério. E merecemos mais do que este homem, que foi primeiro-ministro e que é Presidente da República!”

Fonte

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Para além da soberba hipocrisia e deboche constitucional, que marcam a passagem de Cavaco por Belém, um dos aspectos mais extraordinários ligado à sua figura é o apoio que tem recebido do PCP e BE. Vejamos.

Aquando da comissão de inquérito parlamentar ao caso BPN, os deputados bloquistas e comunistas tentaram superar os deputados social-democratas e centristas na fúria com que apontaram todas as armas contra o Banco de Portugal. Porquê? Porque estava lá um socialista. Fazer de Constâncio o culpado moral da roubalheira de milhares de milhões, assim alinhando com a sórdida estratégia da direita, era tudo o que os imbecis pretendiam. Portugal que se fodesse.

Aquando da Inventona de Belém, na prática a tentativa de um golpe de Estado através da comunicação social, os esquerdalhos ficaram entre o entusiasmados e o divertidos. Para eles, acontecesse o que acontecesse, havia sempre ganho. Em especial, estavam muito agradados com a possibilidade de sacarem ainda mais votos ao PS. Portugal que se fodesse.

Aquando da moção de censura de Cavaco no discurso da tomada de posse, algo que nenhum presidente anterior teria tido estômago para fazer e não se acredita que algum no futuro volte a repetir, PCP e BE comportaram-se como se tivessem metido Marx na gaveta e de seguida pegassem fogo à casa toda. Só assim se explica a cumplicidade activa com um plano que dependia da sua cegueira para interromper a legislatura e entregar o Governo ao PSD e CDS. A verdade era que os comunas preferiam mil vezes a direita conspiradora e anti-patriótica no poder ao PS. Portugal que se fodesse.

Contudo, há alguma beleza poética nisto de ver uma figura tão política e intelectualmente miserável como Cavaco papar ao pequeno-almoço os rubros proprietários do povo e da História. São como os putos cantados pelo Carlos do Carmo, sentadinhos ao colo do pai, mas com a fatal diferença de não ser com este que aprendem a ser homens.

Saudação a Joan Sutherland

O nosso neto comum Thomas Francisco Sutherland está um homenzinho.

Dá gosto vê-lo, garboso, feliz e sorridente na fotografia de final de ano lectivo na Booklands School de Blackheath Park em Londres.

Ao lado de uma das professoras, o seu sorriso luminoso ultrapassa os centímetros quadrados da fotografia. São 30 meninos e meninas da pré-primária e ele está integrado, cria bom ambiente na aula, é bom aluno e bom colega. O relatório final assim o confirma.

Está um homenzinho o nosso neto comum, caríssima Joan Sutherland.

Que pena o outro avô já não estar entre nós. Alistair deveria gostar muito de o ver sorrir na ponta esquerda da fotografia. Do lado oposto está uma menina que também é alta. Em linguagem popular são «dois pares de jarras» embora o correcto fosse «um para de jarras» pois são dois miúdos e não quatro.

É um pouco de nós que se prolonga neste neto comum da fotografia que está um homenzinho. Penso no meu avô que era músico e fazia tonéis, na minha mãe que contava histórias e cantava canções para a mãe do Thomas, penso na vossa gente que veio lá dos frios de Inverness na Escócia para York na Inglaterra, penso numa avó que teimava em ver na escola o hoje avô Alistair de kilt, penso em tudo ao mesmo tempo e não vejo lugar para tanta comoção derramada num texto tão breve.

O nosso neto comum está um homenzinho. O tempo voa. As lágrimas são teimosas.

Quando o Domingos lá for para o Porto, onde será muito feliz, contratem este Steve Kean, please

Simon Vukcevic completou o processo de transferência para o Blackburn Rovers, da liga inglesa, e assinou contrato por três anos. O montenegrino deixa desta forma o Sporting, após quatro anos marcados por frequentes polémicas em Alvalade, recebendo o clube leonino cerca de 2,3 milhões de euros.

A transferência foi já comentada pelo treinador Steve Kean, o qual revelou que para Vukcevic se tornar opção falta apenas a necessária licença de trabalho. «Ele deve voltar amanhã para Inglaterra e trazer já a papelada necessária. Se treinar quinta e sexta-feira, então pode estar pronto para o jogo com o Everton.»

De resto, o treinador do Blackburn desfez-se em elogios a Vukcevic. «É um jogador excitante que tanto pode jogar na direita como na esquerda. Ele é um rapaz muito focado, leva o futebol muito a sério. Gosta de puxar pelos adeptos, gosta de ser o jogador que faz a diferença e ganha os jogos», referiu.

Fonte

Impressionar no emprego, brilhar nos jantares, seduzir em festas

Laughter Has Positive Impact On Vascular Function
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Science Grad Students Who Teach Write Better Proposals
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Molars Say Cooking Is Almost 2 Million Years Old
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Older Adults Are Better at Decision-Making Than Young Adults
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Anger Gives You a Creative Boost
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Handsome Annual Reports Cause Investors to Value Company Higher
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Is Marriage Good for The Heart?
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A Lifetime of Physical Activity Yields Measurable Benefits as We Age
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Feeding the Five Thousand — Or Was It Three? Researchers Claim Most Crowd Estimations Are Unreliable
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Large Weight Gains Most Likely For Men After Divorce, Women After Marriage
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Study Finds Shifting Domestic Roles for Men Who Lost Jobs in Current Recession
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Sexual Satisfaction Tied to Overall ‘Successful Aging’ as Reported by Women Age 60 to 89
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Older Brains Benefit From Learning By Trial And Error
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Could New Drug Cure Nearly Any Viral Infection? Technology Shows Promise Against Common Cold, Influenza and Other Ailments, Researchers Say
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When It Comes to Pursuing Your Goals, Let Your Unconscious Be Your Guide
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Lower Income Individuals Have 50% Higher Risk Of Heart Disease

Acabar com o passe social??

Se isto for verdade, não está na hora da revolução? De uma qualquer. Este governo passou-se.

Duvido muito que haja algum país no mundo onde existam transportes colectivos em que não seja possível a um cidadão qualquer, rico, pobre ou remediado, comprar um título de transporte válido por um mês, com vantagem em relação a quem compra um bilhete por viagem.

Ágora agora

A democracia ateniense compreendia um universo sociológico estimado em 400 mil habitantes, dos quais se calcula que só à volta de 40 mil, mais 10 ou menos 10 mil, tivessem poder político – isto é, fossem considerados cidadãos. Para tal, teriam de ser homens atenienses; o que excluía as mulheres, os estrangeiros e seus filhos, e os escravos. Será o equivalente, comparando o incomparável, ao número de eleitores da freguesia de Benfica em Lisboa.

Para além do baixo número de cidadãos, também a cultura era muito mais simples e uniformizada do que a das democracias modernas, com o seu aumento incomensurável de informação e de paradigmas intelectuais e morais. Finalmente, os problemas de gestão nesta escala populacional, nesta tipologia étnica e nesta economia pré-industrial são completamente distintos, porque muito menos complexos, do que aqueles que enfrentamos na contemporaneidade.

Por estas razões, uma das características mais radicais da democracia grega podia funcionar com plena eficácia: o sorteio como método de escolha de alguns governantes. O risco de assimetrias graves no desempenho era baixíssimo, dados os mínimos denominadores comuns quanto aos conhecimentos e aos valores. Em resultado, o conceito de democracia realizava-se de uma forma que para nós se tornou impossível. Na nossa época, dependemos de especialistas para a enorme maioria das funções governativas.

Todavia, atribuímos o direito de voto a todo e qualquer indivíduo que tenha nacionalidade e maioridade reconhecidas. Quer dizer que basta ter 18 anos, mesmo que nem sequer se saiba o que é um parlamento, para ter literalmente voto em matéria de escolha de governantes. Isto é absurdo. Mas não é menos absurdo do que aceitar votos de alguém que pode ter 44 anos e ser um psicopata. Ou ter 81 e estar senil. Na urna, tal como o dinheiro romano das latrinas, os votos não têm cheiro nem autoria. São a expressão abstracta do colectivo concreto, para o melhor e para o pior.

Esta caótica misturada de idades, experiências de vida, estados mentais, ignorâncias, ilusões, esperanças e sabedorias – em cujas mãos depositamos a legitimidade e o destino político da comunidade – precisa de algo mais do que retóricas partidárias e eleitorais: precisa de quem a ame.

Vinte Linhas 653

Dissertação para uma paisagem junto ao mar

Os ceifeiros partiram ontem à noite depois de terem guardado o cereal nas tulhas do celeiro da quinta e recebido o salário combinado com o feitor. Estamos em Bari: em frente o sossego da luz do Adriático e ao longe adivinha-se um lugar da Croácia. Tudo nos indica que estamos no Sul. Sabemos que na cidade as lojas, as repartições e a Universidade fecham das doze às quatro da tarde porque a África está perto e não se aguenta o calor. Mas são as piçarras na casa onde vive o caseiro que explicam o lugar. Tal como no Alentejo ou na Andaluzia, as piçarras estão presentes nas casas debruçadas sobre o limite da terra.

O quadro organiza-se entre o azul do fundo, duas árvores grandes à direita e à esquerda e quatro árvores azuis a marcarem o limiar da propriedade. Os telhados vermelhos e as janelas deixam pressentir o rumor da vida de todos os dias, o intervalo entre sementeira e colheita, os ranchos que chegam de longe trazidos por manageiros antigos, capazes todos eles ainda hoje de levantarem da terra as cantigas de trabalho que reflectem os rituais da merenda e do cigarro a meio da tarde.

O pintor não inclui barcos de pesca nem de recreio no fundo da paisagem. O mar, o presumido Mar Adriático, é apenas uma referência na geografia organizada deste óleo. É a terra que vale mais, no seu ritual de ciclos a partir das estações do ano, chuva e calor, neblina e secura, nas adegas repletas de tonéis antigos, um vinho branco finíssimo que os fabricantes de espumante não desdenhariam nas suas fábricas na cidade. Os ceifeiros partiram ontem à noite e não ficaram no quadro. A vida pressente-se embora não se desenhe explícita entre a linha azul do mar e o caminho sinuoso até às piçarras da primeira casa grande da quinta.