Pegando neste extraordinário texto da Isabel Moreira, onde num breve parágrafo explica de forma sucinta a obra feita pelo PS nestes últimos 6 anos, não posso deixar de notar uma coisa com espanto: José Sócrates é um péssimo candidato. Não sabe inspirar. Não sabe sorrir nem tem sentido de humor. O seu uso da ironia é sofrível. É muito mau nos soundbites, nas respostas ao minuto, é mau a lidar com os media e os jornalistas, que o detestam, não aproveita de maneira imediata e eficaz as imbecilidades dos outros candidatos. E são tantas. Não sabe relacionar-se com os eleitores, não lhes fala ao coração, nem por um momento sabe passar a imagem que é um de nós. Não consegue esconder a arrogância e a impaciência, já temi pelo pescoço de vários entrevistadores depois de perguntas imbecis. Ah, se o deixassem…
Resumindo, não se sabe vender. Ganhou a primeira maioria por clara falta de comparência do adversário, mas contra o Santana Lopes depois daquela desastrada governação se calhar até o Jaime Gama, esse poço de entusiasmo, ganhava. No fim de 4 anos das maiores e mais corajosas reformas que este país já viu, enfrentando as corporações que todos os eleitores dizem que devem ser enfrentadas, tendo posto o défice abaixo dos 3% pela primeira vez, investindo em industrias de futuro, pondo o nosso pais como exemplo em jornais internacionais, depois de tudo isso, esteve a um passo de perder as eleições contra uma contabilista rancorosa de um lado e um pastor da IURD de outro, sendo salvo pela desastrosa inventona do génio de Belém no último minuto e pela absoluta falta de jeito da protegida de Pacheco Pereira, ainda pior do que ele como candidata. Mas perdeu a maioria, expondo-se a um desgaste que é ainda capaz de lhe ser fatal. A ele e a nós.
O que Sócrates tem felizmente a seu favor é sobretudo uma coisa: é um excelente governante. O melhor que esta democracia já viu, incluindo (mas não restrito a) todos os outros. A lidar com politicas e números concretos, com resultados palpáveis, com visão de futuro e respectiva concretização, ninguém o bate. Mas ninguém. É se calhar por por isso que já nem sequer tentam, dando origem às estratégias de calúnias, insinuações e mentiras que, da direita à esquerda, os seus adversários se vêm obrigados a recorrer. Pela politica, pela governação, pelos números, pelos resultados não vão lá. Sócrates trucida-os, como se consegue ver nos debates parlamentares que, num gesto de crueldade gratuita, tornou quinzenais. Chega a ser penosa a demonstração de menoridade intelectual e politica que faz de quem o defronta nessa arena. Não admira que a Manuela não o queira lá sequer na oposição. Havia de ser bonito.
Mas nas campanhas, no meio do povo, lidando com os casos, falando para o país? Um desastre, penso eu. Combativo sim, ninguém lhe tira isso. Mas pergunto-me se essa combatividade não é fruto dessa dificuldade em comunicar. Porque com o currículo feito, com a obra realizada, com as reformas postas em marcha, caramba, não devia ser necessário tanto esforço. Paulo Portas, se chegasse a metade do que Sócrates fez, tinha já avenidas com o seu nome. Até no Barreiro.
O que não deixa de ter um lado positivo, pensando bem: ninguém vota no homem pelo seu magnetismo pessoal ou pelo charme, pelo que duas vitórias depois e à beira de uma terceira – ou pelo menos a vender cara a pele – no meio de uma crise gigantesca, muitos eleitores sabem apreciar antes de mais os resultados da governação e a competência. Quando todos nos querem, e mea culpa aqui, vender a ideia que a politica moderna é feita de soudbites e imagem, não deixa de ser reconfortante. Mas José, porra, se te gabasses um bocadinho mais da tua obra em vez de te entreter a demolir as propostas dos outros, morrias?