O que foi? O que é? E o que ainda poderá ser?

Depois de ler o José Albergaria – Da inutilidade dos votos – fui transportado para uma reflexão recorrente: que leva a que Sócrates seja odiado com intensidade igual, e através dos mesmos ataques de carácter, pela direita e pela extrema-esquerda? Que liga alguns dos maiores patrões, alguns dos mais poderosos jornalistas e alguns dos mais ubíquos comentadores a uma leva de mentecaptos, trafulhas e miseráveis? Se aplicássemos à situação uma análise marxista, veríamos que neste enquadramento histórico diferentes forças se unem para defenderem os mesmos interesses. É a lógica da dialéctica na conquista do Poder que o revela. Tanto para PSD e CDS, como para BE e PCP, o que está em causa é afastar Sócrates. Quando isso acontecer, juram, um mar de rosas inundará a política nacional e o PS voltará a ser um partido com o qual se pode falar, conviver, negociar. Curiosa unanimidade… e curiosa repetição da lengalenga que já vendia o mesmo peixe podre na promessa de que ao acabar a maioria absoluta do PS o País entraria nos eixos, a democracia regressaria ao Parlamento. Foi a desgraça que se viu.

Quando cruzamos este ódio concentrado num indivíduo com os quase 40 anos de regime pós-25 de Abril, com as suas castas, as suas dinastias, as suas corporações, os seus territórios de influência, os seus tecidos económicos e financeiros, as suas inércias, os seus vícios, o retrato ganha súbita nitidez. Algo muito forte assustou muito os muito poderosos. À direita e na extrema-esquerda. O que foi?

É uma questão para cientistas políticos, claro, mas também para historiadores, sociólogos e até antropólogos. É uma questão para mim e para ti.

Um par de víboras

Nestes preliminares da dança das cadeiras, vai ser interessante ver quem é que é atacado com a receita “Cavaco Silva” e quem é poupado.. Por receita “Cavaco Silva” refiro-me ao armamento pesado, como aquele que o grupo de Sócrates usou contra Cavaco já por duas vezes. Uma vez, contra Cavaco e Manuela Ferreira Leite, a história do e-mail do jornalista do Público sobre a sua fonte de Belém, que, com a colaboração do Diário de Noticias, foi usado para fragilizar o Presidente e Manuela Ferreira Leite, como vítima colateral. A outra é a história do BPN e da casa do Algarve. Isto é preparado com tempo, e usado no momento certo.

Ora, eu tenho a certeza que também há do mesmo armamento contra Passos Coelho e os seus próximos e não tenho dúvidas que a casa de Sócrates, actuando como sempre actuou by proxy, o usará se for preciso. Se não o usar ou é ou porque não é preciso, ou é porque, bem vistas as coisas, o PS sempre esperará um governo de bloco central ou qualquer forma de entendimento, e evitará uma política de terra queimada. Mas esta gente não brinca em serviço. Se se modera, é só porque pensa ganhar alguma coisa com a moderação.

Pacheco, 10 de Fevereiro

Sócrates não quer sair do poder. Quer ser primeiro-ministro. Para isso precisa de eleições. Mas não de umas eleições quaisquer. Desde a tomada de posse de Cavaco que resolveu fazer tudo mas absolutamente tudo para que possa sair do governo como vítima. Depois virão as eleições e aí a vida de Passos Coelho será vasculhada de cima a baixo. Alguma coisa o gabinete do costume há-de arranjar. No PS o que para lá anda de oposição cala-se mais uma vez. No dia em que nos virmos livres de Sócrates e da sua gente perceberemos que mesmo com crise o mundo é um lugar bem mais respirável.

Helena Matos, 11 de Março

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Pacheco Pereira e Helena Matos são cópias um do outro em vários aspectos, até no mau português. Ganham o pão na indústria da política-espectáculo, promovem assassinatos de carácter, apelam ao ódio e chafurdam em todas as campanhas sujas dirigidas aos adversários que transformam em párias. Ei-los aqui a projectar nos outros o que na realidade são como inveterados caluniadores.

No entanto, há algo de muito estranho no que tiveram a ousadia de escrever e assinar. Ambos dão como certo que alguém ligado a Sócrates iria difamar Passos Coelho. O Pacheco, mestre da suprema canalhice, chega ao ponto de dizer que Sócrates é culpado mesmo que o ataque a Passos não seja feito, pois tal ausência de matéria de facto apenas significaria que não tinha sido necessário avançar com o plano ou que outros interesses teriam levado à retracção. O que afirma não deixa qualquer dúvida a respeito de uma qualquer informação que ele sabe, ou imagina, estar na posse do PS. E não há qualquer dúvida porque, tanto no caso do email divulgado pelo DN, como no caso da Coelha, estamos a lidar com documentação cuja existência foi comprovada:

Ora, eu tenho a certeza que também há do mesmo armamento contra Passos Coelho e os seus próximos e não tenho dúvidas que a casa de Sócrates, actuando como sempre actuou by proxy, o usará se for preciso.

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Teoria do clique

PSD e CDS vão para estes últimos dias de campanha com o conforto das sondagens. Elas dizem que Portugal vai mesmo ficar nas mãos de Cavaco, Passos, Portas e Nobre, mais uma legião de ressabiados. E isto depois de tudo o que fizeram e mostraram serem capazes – e incapazes – de fazer. Com um bocadinho de ranço, o CDS, partido de um só homem, até conseguirá arrebanhar mais votos do que PCP e BE juntos, os partidos dos sindicatos e dos professores, o que seria um castigo perfeito para o facto dos imbecis terem feito do PS o seu inimigo principal.

Quem volta a estar preocupado é o Relvas. É que não é à toa que ele se tornou no braço direito de Passos. Há por ali muita ciência do clique.

Notícias algo importantes

European leaders are negotiating a deal that would lead to unprecedented outside intervention in the Greek economy, including international involvement in tax collection and privatisation of state assets, in exchange for new bail-out loans for Athens.

No FT, via CNN

 

Soube-se, entretanto, que só na quinta e sexta-feiras da semana passada, os gregos levantaram €1,5 mil milhões dos bancos. O montante levantado em maio já totaliza €4 mil milhões. Em abril haviam saído dos bancos €2 mil milhões.

(…)

As forças à esquerda do governo, o KKE (partido comunista) e o SYRIZA (coligação esquerdista), bem como os sindicatos apostam no agravamento da situação estando previstas uma concentração popular a 4 de junho na praça central de Atenas e uma nova greve geral a 21 de junho.

(…)

Há, também, discordâncias sobre o plano de privatizações que, segundo Juergen Stark, membro da direcção do Banco Central Europeu, poderá valer €300 mil milhões, 6 vezes mais do que o planeado oficialmente. A primeira vaga deste plano abrange as participações do estado nos portos estratégicos gregos, aeroportos, caminhos de ferro, companhias de águas de Tessalónica e Atenas, hipódromos, empresas de telecomunicações e o banco postal. Um dos pontos difíceis de concretizar é a privatização das ilhas.

 

A Grécia pretende criar um fundo soberano com todos estes activos, mas em Bruxelas fala-se da criação de uma agência independente similar à que na Alemanha tratou da privatização dos ativos da parte leste do país depois da unificação. O comissário Olli Rehn confirmou hoje ao jornal alemão Der Spiegel essa sugestão de implementar o modelo alemão, colocada na semana passada pelo presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker. Além disso, Bruxelas pretende um envolvimento efetivo neste plano.

No Expresso

 

Não olhem agora, mas enquanto discutimos alegremente a frota de automóveis do PS e as enxadas de Passos, esta Europa está a desfazer-se perante os nossos olhos. Não sei o que é que passa nas cabeças dos líderes europeus, e não sou grande defensor dos gregos, mas isto soa-me demasiado a uma invasão de um pais soberano através de chantagem económica. A acreditar nas notícias, os gregos enfrentam uma escolha entre o colapso económico já a acontecer ou a perda de soberania forçada para os países credores. Até ao fim-de-semana, há muitas hipóteses de o governo grego se vir obrigado a congelar as contas bancárias para estancar a hemorragia. Tudo isto tresanda a desespero e desorientação, e está a tomar um rumo muito perigoso. Os exércitos de países soberanos costumam ter algumas objecções a este tipo de coisas. Impossível na Europa do Sec. XXI? Espero sinceramente que sim, vamos tentar ser optimistas, mas só o facto de se falar abertamente nessa hipótese já é preocupante.

Vinte Linhas 621

Lisboa «Convida» mas sem nenhum cuidado na escrita

A Revista Lisboa «Convida» referente ao «Bairro Alto – Príncipe Real» com o nº 15 e com data de Maio contém um horripilante artigo sobre o Jardim do Príncipe Real. Começa logo com uma mensagem aparentemente sem destinatário («Malandro que é malandro muda de esquina») mas não se refere em concreto aos que na Câmara Municipal de Lisboa, agindo como uma quadrilha selvagem, abateram 64 árvores e mudaram o pavimento, colocando no lugar do antigo um saibro com pó de vidro que irrita as gargantas de quem aqui passa. A Câmara não deixou instalar ali uma caixa de gelados por razões de estética – não é a mesma estética das árvores abatidas e do saibro com pó de vidro. É outra estética.

Chama-lhe o artigo «oásis alfacinha» mas a verdade é outra – trata-se de um deserto. Mais à frente diz que «manteve a sua essência» – com menos 64 árvores não mantém coisa nenhuma; com pó de vidro e saibro nos velhos passeios só piorou.

Depois chamar «velhotes a jogar à batota» em vez de «idosos a jogar às cartas» mostra algum desdém e mostra também que a autora do texto não sabe (sequer) que os idosos com reformas tão baixas não podem «jogar à batota». Batota é outra coisa.

Depois diz que os arrumadores roubam «emprego» aos parquímetros mas não é emprego – é dinheiro. Um parquímetro é uma máquina, não pode ter emprego.

Quanto ao chamado «cipreste» centenário do Jardim do Príncipe Real tenho quase a certeza que é um cedro mas isso pouco importa… Quando um artigo ignora as 64 árvores abatidas e o pó de vidro que se vê à frente do nariz – não há nada a fazer.

Uma nova terapia

A Fernanda escreveu a respeito do caso de absolvição do psiquiatra que violou uma paciente, estando esta a sofrer de depressão e no último mês da gravidez. O parecer da Relação do Porto chocou a sociedade de alto a baixo – a decisão não é só incompreensível e absurda, é também aviltante. Eduarda Maria de Pinto e Lobo e José Manuel da Silva Castela Rio foram os juízes que assim decidiram, José Manuel Baião Papão declarou-se vencido.

Este último, na sua Declaração de Voto, aponta o seguinte:

Acresce que a aparentemente fruste resistência da assistente é inteiramente compatível com o estado de fragilização em que então se encontrava, decorrente da sua doença depressiva e do seu avançado estado de gravidez.

Não se concede que este tipo de resistência concordante com uma tal fragilização pudesse ter sido interpretada erradamente como “consentimento” pelo médico psiquiatra assistente da ofendida, que acompanhava a sua doença e as preocupações da mesma relacionadas com a gravidez, desde há vários meses.

A questão de saber se a vítima resistiu de forma juridicamente válida é o busílis neste processo, o bizantino ponto que está na origem da divergência interpretativa. E o que Baião Papão deixou lavrado chega e sobra para olharmos para os seus colegas de Tribunal com um sentimento que mistura incredulidade e gana de ir buscar alcatrão e penas. Para que a indignação não passe e permita que sejamos capazes de confrontar os juízes com os seus erros, fiquemos com este excerto do interrogatório que dá conta do quadro mental, e respectivas perversões deontológicas e cognitivas inerentes, na relação entre o violador e a vítima:

Adv. do arguido: D. C…, vamos àquele episódio do pénis na boca. A Srª. estava sentada, o Dr. introduziu-lhe o pénis na boca. O Dr. disse-lhe que era uma nova terapia. Isso foi antes ou depois de lhe introduzir o pénis na boca?

Assist: Depois.

No fabuloso mundo da asfixia democrática

Se Marcelo Rebelo de Sousa fosse apoiante do PS (ou tivesse outro nome, como António Vitorino, por exemplo) seria alvo de incessantes ataques de ódio. A televisão que o quisesse contratar passaria a automático antro de sinistros elementos do Gabinete de Sócrates. O seu isolado protagonismo seria evidência espectacular dos tentáculos desse centro secreto (onde precisamente se utilizam técnicas dos serviços secretos, como o Pacheco teve a extraordinária coragem de revelar e nós, em sua homenagem, devemos fazer o extraordinário esforço de repetir) que amordaça Portugal e impõe um regime de terror. Assim, como é apoiante do PSD, reina a paz e a tranquilidade entre a boa, séria e superiormente honrada gente da direita. Os socialistas, pacholas como sempre, não se importam, até apreciam as capacidades histriónicas de mais um Professor social-democrata.

Entretanto, houve um pequeno tumulto nesta modorra. Pedro Mota Soares apareceu desasado a lembrar que Marcelo é Conselheiro de Estado nomeado pelo Presidente da República, o que o deveria obrigar, por uma vez – neste último domingo antes da eleições -, a ser isento. E ser isento, para esta peculiar cabeça, passava por não atacar um partido que tinha apoiado Cavaco. Caso Marcelo apelasse ao voto útil no PSD, explicou com o apoio de Portas, estaria acto contínuo a atacar o CDS. Naco de pensamento mais primário do que este não me recordo de encontrar na memória recente.

É assim a nossa direita. Um coio de hipócritas que enche a boca com a responsabilidade, contenção, equidade e imparcialidade se vê os seus interesses ameaçados, e desbunda privada e alarvemente quando consegue favorecimentos que acha serem seus por direito natural.

O intragável

Pegando neste extraordinário texto da Isabel Moreira, onde num breve parágrafo explica de forma sucinta a obra feita pelo PS nestes últimos 6 anos, não posso deixar de notar uma coisa com espanto: José Sócrates é um péssimo candidato. Não sabe inspirar. Não sabe sorrir nem tem sentido de humor. O seu uso da ironia é sofrível. É muito mau nos soundbites, nas respostas ao minuto, é mau a lidar com os media e os jornalistas, que o detestam, não aproveita de maneira imediata e eficaz as imbecilidades dos outros candidatos. E são tantas. Não sabe relacionar-se com os eleitores, não lhes fala ao coração, nem por um momento sabe passar a imagem que é um de nós. Não consegue esconder a arrogância e a impaciência, já temi pelo pescoço de vários entrevistadores depois de perguntas imbecis. Ah, se o deixassem…

Resumindo, não se sabe vender. Ganhou a primeira maioria por clara falta de comparência do adversário, mas contra o Santana Lopes depois daquela desastrada governação se calhar até o Jaime Gama, esse poço de entusiasmo, ganhava. No fim de 4 anos das maiores e mais corajosas reformas que este país já viu, enfrentando as corporações que todos os eleitores dizem que devem ser enfrentadas, tendo posto o défice abaixo dos 3% pela primeira vez, investindo em industrias de futuro, pondo o nosso pais como exemplo em jornais internacionais, depois de tudo isso, esteve a um passo de perder as eleições contra uma contabilista rancorosa de um lado e um pastor da IURD de outro, sendo salvo pela desastrosa inventona do génio de Belém no último minuto e pela absoluta falta de jeito da protegida de Pacheco Pereira, ainda pior do que ele como candidata. Mas perdeu a maioria, expondo-se a um desgaste que é ainda capaz de lhe ser fatal. A ele e a nós.

O que Sócrates tem felizmente a seu favor é sobretudo uma coisa: é um excelente governante. O melhor que esta democracia já viu, incluindo (mas não restrito a) todos os outros. A lidar com politicas e números concretos, com resultados palpáveis, com visão de futuro e respectiva concretização, ninguém o bate. Mas ninguém. É se calhar por por isso que já nem sequer tentam, dando origem às estratégias de calúnias, insinuações e mentiras que, da direita à esquerda, os seus adversários se vêm obrigados a recorrer. Pela politica, pela governação, pelos números, pelos resultados não vão lá. Sócrates trucida-os, como se consegue ver nos debates parlamentares que, num gesto de crueldade gratuita, tornou quinzenais. Chega a ser penosa a demonstração de menoridade intelectual e politica que faz de quem o defronta nessa arena. Não admira que a Manuela não o queira lá sequer na oposição. Havia de ser bonito.

Mas nas campanhas, no meio do povo, lidando com os casos, falando para o país? Um desastre, penso eu. Combativo sim, ninguém lhe tira isso. Mas pergunto-me se essa combatividade não é fruto dessa dificuldade em comunicar. Porque com o currículo feito, com a obra realizada, com as reformas postas em marcha, caramba, não devia ser necessário tanto esforço. Paulo Portas, se chegasse a metade do que Sócrates fez, tinha já avenidas com o seu nome. Até no Barreiro.

O que não deixa de ter um lado positivo, pensando bem: ninguém vota no homem pelo seu magnetismo pessoal ou pelo charme, pelo que duas vitórias depois e à beira de uma terceira – ou pelo menos a vender cara a pele – no meio de uma crise gigantesca, muitos eleitores sabem apreciar antes de mais os resultados da governação e a competência. Quando todos nos querem, e mea culpa aqui, vender a ideia que a politica moderna é feita de soudbites e imagem, não deixa de ser reconfortante. Mas José, porra, se te gabasses um bocadinho mais da tua obra em vez de te entreter a demolir as propostas dos outros, morrias?

Um livro por semana 235

«Baleia à vista» de Carlos Lobão

Quarta edição deste livro com 24 textos – 18 em prosa e 6 em verso. São bem variados os autores desde o Príncipe do Mónaco em 1895 («ofereci-lhes a oportunidade de sermos nós a rebocar o cachalote até ao local para onde o queriam conduzir») a Raul Brandão: «Duma que vi morta no Cais do Pico tinham retirado trinta quilos de massa escura, âmbar, que valia muitos contos de réis. Por toda a parte vasilhas ensebadas, barris de óleo, montões de ossos, resíduos de lenha e toucinho branco cortado em bocados».

Há prosa mas também poesia como Vítor Rui Dores («A Baleia é o boi do mar / Que tombou na agonia / Rema, rema, é só remar / Já findou o negro dia / Quem plantou sonhos nas águas? / Quem do arpão fez seu pão? / Quem sofreu tamanhas mágoas / Em vendavais de emoção?») ou Manuel Alegre: «Eu vi os barcos parados prisioneiros / na sede de um museu. E os arpões / pendurados. E gravadas / em dentes de baleia as passadas navegações / das velhas baleeiras.»

Também havia lutas entre vigias, trancadores, baleeiros e esquartejadores de cachalotes: «Lutava-se. Uma luta renhida, feroz, heróica. Lutavam: espantavam baleias uns aos outros, chegava a haver abalroamentos, vociferavam-se pragaredos de encampação que reboavam sobre o mar, às vezes tudo ficava em águas de bacalhau, o molestado a aguardar, paciente e silencioso, a oportunidade da desforra, às vezes tudo ia parar na Delegação Marítima e no tribunal». A última baleia foi caçada nos mares açorianos em 1987 nas Lajes do Pico mas as memórias não se perdem e continuam.

(Edição: Clube de Filatelia O Ilhéu – Escola Secundária Manuel de Arriaga, Texto da contracapa: Herman Melville)

São Caetano, you have a problem

Pedro Passos Coelho vai-me desculpar, mais uma vez digo, eu não ando à procura de um outro primeiro-ministro, eu ando à procura que o engenheiro Sócrates saia de primeiro-ministro.

Manela

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No mesmo dia, Passos arroja-se aos pés de Cavaco e deixa-se espezinhar por Ferreira Leite. A predisposição deste homem para aguentar, ou preferir, ser humilhado começa a despertar um novo interesse acerca da sua pessoa. Ele aparenta ser capaz de tudo dizer e de tudo ouvir, numa fatal pulsão para agradar que o leva a andar à nora sempre que lhe aparecem figuras gradas, ou a imprensa, à frente.

O Miguel chamou a atenção para um vídeo que é imperdível. Não se trata de algo humorístico, como é da praxe em campanha, mas de algo perturbador. Passos pega-se com uma mulher que o critica, e mostra, pelo verbo e pelo corpo, uma agressividade que arrisco dizer nunca antes vimos a candidatos políticos de pequenos partidos, quanto mais a um candidato a primeiro-ministro. Este episódio de antagonismo e despique de bate-boca com populares não é um caso isolado, tornando ainda mais significativo o que se registou.

Marcelino ensina como se faz

A rubrica Gente que Conta, da autoria de João Marcelino na TSF, chamou Rui Vilar e António Saraiva para dizerem de sua justiça em período de campanha. Numa incrível coincidência, ambos comungavam no mesmo diagnóstico: Sócrates tinha pedido a ajuda externa tarde demais. E numa ainda mais incrível coincidência, em ambas as situações Marcelino não os questionou acerca das consequências do derrube do Governo ou da censura europeia (Barroso, instituições económicas e financeiras, Merkel) ao chumbo do PEC 4. António foi ainda mais longe, alinhando na crítica às Novas Oportunidades e promovendo o slogan de campanha do PSD perante o agrado do Marcelino.

Os destaques destas entrevistas são depois replicados na comunicação social e entram como elementos de campanha. E é assim que elas se fazem em Portugal quando o jornalismo supostamente de referência ambiciona ter influência eleitoral: de pantufas.

Impressionar no emprego, seduzir em festas, brilhar nos jantares

Pretty Shoes Can Lead to Ugly Foot Problems for Women
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Female Rappers Brag about Being Sexy but Keep Mum about Their Domestic Skills
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Whites Believe They Are Victims of Racism More Often Than Blacks, Study Suggests
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Intuitions Regarding Geometry Are Universal, Study Suggests
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Child pageants bad for mental health
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New Imaging Method Allows Scientists to Identify Specific Mental States
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Violence Doesn’t Add To Children’s Enjoyment Of TV Shows, Movies, New Study Finds
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Drug May Help Overwrite Bad Memories
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The Creative Power of Thinking Outside Yourself
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What Makes an Image Memorable?
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New Studies Reveal Stunning Evidence that Cell Phone Radiation Damages DNA, Brain and Sperm
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A Digital Diet: Drop (Calls, Texting, Web) and Give Me 28 (Days of Peace)
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‘Sleep On It’ Is Sound, Science-Based Advice
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Lunch? Have a Large Fruit Salad Please!
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Good Vibrations: U.S. Consumer Web Site Aims to Enhance Sex Toy Safety
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Cultured Men Are Happier and Healthier, Study Finds

Aflições

Eu, pessoalmente, dada a atitude do engenheiro Sócrates, dado aquilo que ele diz, nem tranquila fico se ele ficar na oposição, porque acho que ele na oposição vai ser tão pernicioso para o país quanto na liderança do país, porque vai fazer a maior das afrontas a tudo aquilo que vá ser feito para cumprir o acordo que ele próprio assinou.

Manela

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Esta senhora não ficará tranquila enquanto Sócrates não for corrido da política nacional. Resta saber se também fica aflita quando sai à rua sabendo que o mafarrico tem carta de condução.

Mastigações

Líder do PSD diz que “não vai perder mais tempo” a responsabilizar Sócrates pela actual situação.

Falando depois a militantes e apoiantes num almoço em Amares (distrito de Braga), ensaiou aquilo que apresentou como um novo discurso para a recta final da campanha. “Não vou perder mais tempo a chamar a atenção para as responsabilidades que o Governo tem nesta situação. Agora o que nós precisamos é de dar uma nova esperança ao país.”

Almoço

No comício, Pedro Passos Coelho dramatizou o resultado das eleições de 5 de Junho e advertiu que, “se tudo continuar como está” e o PS de José Sócrates continuar a Governar, Portugal pode seguir o exemplo da Grécia no prazo de seis meses.

“Se continuarmos como estamos hoje, em meio ano estaremos como a Grécia que está hoje”, afirmou o líder do PSD no jantar em que deixou vários elogios à sua ex-adversária na corrida à liderança.

Jantar

Assombrações

Este estudo – Eleitores fantasma podem dar vitória à direita – foi olimpicamente ignorado, ou diminuído, pela direita. Contudo, se o resultado apontasse para uma perversão eleitoral que favorecesse o PS, estaríamos perante o principal caso da campanha. Teríamos direito a declarações do Presidente da República, audiências várias com Conselheiros de Estado muito preocupados e afrontados, os jornalistas não mais largariam o assunto e ele seria omnipresente das sete da matina à meia-noite em tudo o que fosse bloco noticioso e opinativo. Provar-se-ia, se ainda outras provas fossem precisas, que Sócrates era um super-criminoso, capaz das mais diabólicas manigâncias para se manter no poder e dominar o Estado. O bom povo do PSD e do CDS estaria na rua, uns cortando estradas em Rio Maior e revistando automóveis à procura de propaganda do PS para queimar, outros indo para o Marquês de Pombal acampar com os seus sacos-cama de marca e abastadas provisões de perfume e água-de-colónia, de modo a darem uma lição aos piolhosos no Rossio.

Também teria graça perguntar aos direitolas como que eles explicam o fenómeno do PS estar a oferecer a vitória ao PSD. Seria algo que Hitler, Saddam ou Drácula fizessem calhando ficarem na mesma situação? Receio que estas interrogações não venham a encontrar resposta em tempo útil.

Balada da Rua do Ouro

(a Vítor Salgado com um abraço)

Rua do Ouro, comprida
Trazia câmbios, papéis
Era o princípio de vida
Ganhava trinta mil réis

Agências de navegação
Fretes, confusão tamanha
Facturas em liquidação
O sisal para a Alemanha

Ano de sessenta e seis
Polícia a cada esquina
No Natal os bolos-reis
Eram festa pequenina

Agência Havas, notícias
Jornais de amor e mágoa
Na Boa Hora polícias
Tinham o carro da água

Rua do Ouro onde eu ia
Trabalhar até à uma
No sábado sem alegria
Sonhar a branca espuma

Numa praia de Cascais
Na estação, fim da linha
Adeus vida, nunca mais
Te posso chamar minha

Eram Bancos e Banqueiros
Cambistas e correctores
Central da Baixa, parceiros
Reúnem-se os informadores

«É sério e cumpridor
Nada consta em desabono»
Desconta a letra ao senhor
O homem anda sem sono.

O furão de Belém e o Coelho da Lapa

“Tendo um semanário publicado hoje o título “Cavaco contra Governo reduzido a 10 ministros”, aliás sem correspondência com o corpo da notícia, o Presidente da República desmente categoricamente qualquer tomada de posição, que lhe seja atribuída, relativamente à dimensão ou estrutura de um futuro governo e reafirma a sua rigorosa imparcialidade no que respeita à campanha eleitoral em curso.”

Diz que é uma espécie de Presidente da República

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Passos foi rápido a dizer que será tudo o que o Professor quiser que seja – ingénuo, vira-casacas, palhaço – pelo que Belém tentou sacudir a água do capote estando o trabalhinho feito; assim tratando o País como se não vivesse por cá ninguém com mais de 10 anos de idade.

Mas este comunicado é fixolas. Porque nos recorda das outras ocasiões – tantas, ui! – em que a imprensa lhe atribuiu opiniões e estados de alma a respeito do PS, do Governo e de Sócrates sem que ele tivesse manifestado o mais leve protesto ou incómodo. Haverá um padrão qualquer nos seus silêncios selectivos, claro, porque estamos a falar de um ilustre estadista que age com o mais elevado sentido de responsabilidade, mas agora não me consigo lembrar se esses seus critérios que alimentam calúnias e conspirações estão mais ligados a esta invocada rigorosa imparcialidade ou à celebérrima magistratura activa e de influência.

Teoria do clique

Miguel Relvas voltou a animar com esta sondagem, depois do sofrimento da anterior que apontava para um imparável crescimento do PSD em direcção à maioria absoluta. Eram notícias funestas para o inventor da Teoria do Clique, a tese de que a probabilidade do PSD ganhar as eleições aumenta sempre que o PS se aproxima nas sondagens. Felizmente, graças à excelente coordenação entre Passos e a sua já lendária incompetência política, as coisas voltam a compor-se positivamente para os social-democratas.

É continuarem, meus senhores. Têm mais uma semaninha para mostrarem as vossas habilidades na dificílima arte de descer nas sondagens quando se é levado ao colo pela comunicação social e onde o adversário era suposto estar abaixo dos 20% ou metido nos calabouços da Judiciária.

Querem tudo, contribuem com nada

Numa democracia, as oposições exercem um poder complementar ao do Governo. Fiscalizam-no, criticam-no, corrigem-no, melhoram-no. Ou não. Essa responsabilidade atinge o seu máximo quando o Governo é minoritário. Tudo o que um Governo minoritário faz é consequência da sua viabilização parlamentar – para o bem e para o mal.

O que nos leva para o papel que PCP e BE têm tido neste quadro de necessidade de ajuda externa e, ainda mais importante, para o seu papel a seguir às eleições de 2009. À proposta do PS para coligações ou acordos, eis o que estes partidos tinham para dizer:

Quanto à possibilidade do PCP vir a fazer entendimentos com o PS, que venceu as eleições, mas apenas com uma maioria relativa, Jerónimo de Sousa impôs como condição a “mudança de políticas”.

“Sem uma ruptura e uma mudança de política é ilusório estar a discutir entendimentos, o entendimento faz-se em torno de coisas concretas”, frisou.

“O Bloco de Esquerda, considerando o mandato que recebeu dos eleitores para a constituição de uma esquerda de alternativa e para trazer ao Parlamento propostas que enfrentem o núcleo decisivo da crise económica e seus efeitos sociais, e pelas diferenças óbvias em relação às grandes escolhas que o Governo e o PS têm feito ao longo do tempo, [conclui que] não há condições para qualquer forma de coligação”, disse Louçã, após reunião de duas horas com Sócrates, no Palácio de São Bento.

Continuar a lerQuerem tudo, contribuem com nada