Acusar o PS de ter governado 13 dos últimos 16 anos é diferente de constatar que o PSD foi incapaz de merecer ser Governo em 13 dos últimos 16 anos?
Arquivo mensal: Março 2011
A vida é um sopro
Organizem-se, cambada de imbecis
Uma das melhores alterações que podiam acontecer na política nacional era a concretização da desejada – por um número de eleitores que talvez seja expressivo, pedem-se estudos – coligação entre o BE e o PCP (estou a recorrer ao critério alfabético para ordenar a sequência, calma, mas também podia ser pelo último resultado eleitoral). Se estes dois partidos conseguissem acordar num projecto comum, quer concorressem coligados ou separados, algo de novo talvez aparecesse no regime pós-25 de Novembro: as pazes da esquerda fanática com a democracia.
Vinte Linhas 604
Uma certa memória do Montijo naqueles tempos de 1957
Quando em 1957 fui viver para o Montijo estranhei tudo – a começar pela água que saia quente das torneiras. Embora perto de Lisboa a verdade é que, num certo sentido, ali já começa o Alentejo. As galeras carregadas de cortiça vinham de Pegões e passavam à nossa porta na Rua Sacadura Cabral a caminho do cais. As camionetas que iam para Lisboa com mercadorias e produtos, tinham que passar por Alcochete para chegarem ao Porto Alto onde atravessavam o Tejo a caminho de Vila Franca de Xira. Não havia ponte em Almada que só surgiu em 1966. A praça principal do Montijo que hoje descobri numa velha edição das selecções da Gazeta do Sul recorda-me esse tempo da minha escola primária. A praça tinha a igreja matriz à direita e o posto da Polícia de Viação e Trânsito à esquerda. Ao centro havia o coreto – inevitável numa terra com duas filarmónicas que eram a Imparcial e a Democrática. Uma fundada em 1 de Dezembro e outra a 2 de Janeiro. Automóveis 5 e pessoas 9; dito de outra maneira – o espaço sobejava. Aos domingos à noite esperava-se com ansiedade a chegada dos jornais de Lisboa com os resumos dos jogos dessa tarde: as duas páginas do meio incluíam classificações e relatos breves dos encontros com a menção especial «directo pelo telefone». Nas festas de São Pedro, no pino do Verão, apareciam os bombos e os zés pereiras: os homens saíam de dentro daqueles bonecos enormes a suar e não havia lenço que chegasse para enxugar o rosto. À esquerda da foto ficava a escola primária e as canções das meninas: «Fui lavar ao Rio Lima / Cheguei lá sem o sabão / Lavei a roupa com rosas / Ficou-me o cheiro na mão». Em 1957 era assim na minha escola.
“A campanha eleitoral vai ser extremamente dura”…
…avisa Passos Coelho no site do PSD. Fico impressionada com o advérbio, mas apenas numa primeira leitura, porque entendo que para argumentos fracos são necessárias palavras fortes. Passos Coelho anda há dias e dias a tentar desfazer-se das suas palavras e das palavras daqueles que escolhe para seus conselheiros, como António Carrapatoso, à frente do Movimento “Mais Sociedade”.
A atrapalhação não surpreende, porque vem de quem lidera um Partido sem norte, um Partido que aprova e desaprova um curso de medidas essenciais para o país com o único e singelo argumento do amuo. Ajudado por um Cavaco mudo e fazer zaping em casa, Passos Coelho chumbou o PEC IV, totalmente responsável por todos os outros e pelos Orçamento vigente e anterior, e agora tem esta eloquente palavra a dizer ao povo:
O farsola*
Eu nunca estive no Governo. Portanto, qualquer português hoje percebe que, se a verdade da situação portuguesa é menos agradável do que desejaríamos, não foi por o PSD ter faltado em apoio a este Governo. Eu direi até que o PSD esperou demasiado tempo e deu demasiadas oportunidades ao Governo para que ele cumprisse com uma política económica que estivesse ao nível daquilo que eram as necessidades do país. Mas isso acabou.
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Pela boca do seu presidente, ficámos a saber que o PSD foi irresponsável quando esperou demasiado tempo para derrubar um Governo que não servia os interesses do País, tendo-se finalmente decidido a fazer o que entretanto tinha deixado de ter sentido ser feito, por causa dos sucessivos apoios dados ao Governo, logo na pior altura imaginável para os interesses desse mesmo país e da Europa.
Mais desmiolado do que isto, tanto o aparvalhado partido como o seu atarantado presidente, não é possível. É que nem o Luís Filipe Menezes seria tão farsola.
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* Direitos de autor para Miguel Portas
Amicus Gil, sed magis amica sapientia
José Gil tem direito ao sofrimento. Nesta entrevista, volta a mostrar-se fragilizado e perdido. Para descrever as ocorrências da política nacional, oferta uma explicação que o expõe a ele, não à realidade supostamente reflectida: o psicologismo das relações de casal. A matriz da conjugalidade, no seu glorioso simplismo, será o que enforma a dinâmica partidária, diz-nos o estimado professor.
Os afectos são a dimensão mais importante na política, mais importante do que a economia. E como supremo exemplo desta nobelizável ideia, José Gil despeja o seu ódio contra Sócrates. Ele quer o PS sem esse tirano à frente, pois a sociedade está toda asfixiada pela sua presença. Ai Jesus se volta a ganhar eleições, será o fim da pouca liberdade que resta. O professor pode não ter medo de existir, mas a existência aparece-lhe agora envolta no manto da catástrofe.
Por três vezes José Gil quantificou o número de indivíduos na manifestação de 12 de Março, a qual, numa afectuosa estimativa, reuniu entre 300 mil a ignotas centenas de milhares de pessoas. O seu exaltado gosto pela ficção deve ser tido especialmente em conta quando precisarmos de confundir este emocionado professor com um filósofo.
Vinte Linhas 603
Fernando Pessoa – loja de esponjas com armazém anexo
Ofereceram-me hoje o calendário agenda/diário de 2011 com Fernando Pessoa na capa. Uma edição «Arte Periférica e 19 de Abril»; veja-se em www.jfd19deabril.com
A célebre foto do poeta da «Mensagem» denominada «em flagrante delitro» com a conhecida fragata dos Estabelecimentos Abel Pereira da Fonseca, foi em tempo para mim comentada pelo senhor Moitinho de Almeida. As circunstâncias fizeram com que em 1982 eu fosse abordado pelo poeta Joaquim Pessoa para um encontro com o senhor Napoleão Palma, director do jornal «Poetas e Trovadores». Nas reuniões sucessivas para relançar o jornal, conhecemos o descendente do patrão Vasques que obviamente não se chamava Vasques, tal como o António do escritório não se chamava António. Luís Pedro Moitinho de Almeida recordava-se bem de ser muito pequeno e de ir para o escritório do pai. De vez em quando o senhor Fernando Pessoa levantava-se e dizia: «Vou ao Abel!». Depois punha o chapéu e saía. Um dia o jovem comentou: «O senhor é uma esponja!» Logo o poeta respondeu: «Menino! Uma esponja não! Uma loja de esponjas com armazém anexo!» Um aspecto curioso desse tempo de 1982 tem a ver com a agência ANOP onde deixei elementos sobre e reestruturação do jornal «Poetas e Trovadores». Nos jornais do dia seguinte não foi referido o nome do poeta J. O. Travanca Rego. Quando, através de um jornalista amigo, quis saber a razão de tal «esquecimento» soube que o copy desk terá comentado para alguém em voz alta: «O nome é esquisito e além disso não é conhecido!» Ou seja ele também pensava que ser conhecido é o mesmo que ser importante…
Digam lá
Pilatos de mãos encardidas
“Não sou comentador nem analista político. Um presidente da república nunca o deve ser. Sou totalmente isento e imparcial em relação às forças políticas e nunca entrarei no debate, na disputa dos partidos”, disse, escudando-se a comentar o apelo feito hoje por Mário Soares para que tente evitar eleições.
Cavaco reduzindo Mário Soares a um vulgar comentador, entre outras barbaridades
Pois é, Dr. Mário Soares
Hoje, a não perder
Iniciação ao estudo da Cultura Clássica
Almocei ao lado de três universitários. 20 anos. Falavam de política. Um deles dizia que gostava do Sócrates. Por uma razão qualquer que já esqueci. Outro dizia que não gostava do Passos Coelho, por uma razão qualquer que nem fixei. Os três estavam de acordo em que uma carreira política de topo implica ficar sujeito aos mais baixos ataques, parecendo-lhes absurdo que alguém aceitasse tal funesto destino.
Este diálogo remete, por contraposição, para aquelas ocasiões em que Sócrates declara sentir-se honrado com a possibilidade de servir o País, particularmente em tempos tão gravosos e desafiantes. Os cínicos, fatalmente broncos, não entendem a linguagem da honra, por isso rebolam-se na indiferença ou no escárnio quando ouvem esses testemunhos.
Se o exercício da governação numa democracia é penosamente desgastante e provavelmente ingrato, a gestão das crises exige capacidades que poucos terão. Se perguntássemos a todos os portugueses maiores de 18 anos pelo seu interesse em fazer parte do Governo, a resposta seria baixíssima face ao total da população. E desses que se afoitassem, a maior parte desistiria assim que percebesse no que se estava a meter. Finalmente, raros seriam os que aguentariam a constante pressão e a dificuldade nas decisões.
Muito mal estaríamos se apenas Sócrates tivesse talento para chefiar um Governo em terríveis apuros, mas muito mal estamos ao não admitir que precisamos daquilo que ele já provou ter numa abundância sem rival conhecido até agora.
Souto de Moura rules
Menos moralismo, mais judo
A Revista da Ordem dos Médicos de Março inclui dois textos de crítica aos disparates do improvável William H. Clode – cortesia da Shyznogud. Um deles é da Ana Matos Pires, já anteriormente publicado.
Ora, estamos perante um exemplo da indubitável vantagem de se ter permitido um erro. O erro é a publicação na dita revista de um texto de péssima literatura. E a vantagem consiste na resposta que gerou, os dois protestos indignados que foram publicado no local do crime. Esta lógica pode aplicar-se a muitos outros meios, canais e situações em que alguns sentem a tentação de impedir os erros a todo o custo, o que os leva a apelar à censura ou à limitação da liberdade de expressão, quando o que nos faz falta é a correcção do erro e/ou o castigo do seu autor.
Nesta episódio, os homossexuais saíram dignificados em consequência da ridicularização do ataque a que foram sujeitos numa prosa maluca. E não se trata de supor que eles precisavam desta história para alguma coisa, trata-se é de reconhecer que qualquer cidadão precisa do exemplo dado pela intervenção da Ana e do João Ribeiro.
Bancar o bobo
PSD e FENPROF, o que ainda falta destruir
Mário Nogueira alertou que “caiu o Governo, mas não caíram” todas as medidas do executivo, pelo que a luta dos professores prossegue, havendo muita preocupação com aquilo que em Setembro poderá provocar desemprego com a redução de docentes nas escolas.
Quanto às eleições que se antevêm para finais de maio ou princípios de junho, o secretário-geral da FENPROF salientou que estas devem ser vistas como uma “janela de oportunidade” para alterar a política que está a ser seguida.
Questionado sobre se estava surpreendido com o sentido de voto do PSD sexta-feira no Assembleia da República, Mário Nogueira considerou que os sociais-democratas tiveram nos últimos três meses tempo para se aperceberem da inutilidade do atual regime de avaliação, apontando também o trabalho que a estrutura sindical fez junto dos grupos parlamentares acerca desta questão.
A oposição está com uma espécie de TPM
Não me lembro da última vez que vi a oposição reunida levantar-se para infringir a Constituição com um sorriso na cara. O Governo quase em gestão, as eleições à porta e eis o primeiro acto eleitoral: revogação do decreto-regulamentar que define as regras da avaliação de desempenho dos professores e definição do início de negociações entre o Governo e os sindicatos de professores para a definição de um novo modelo.
Lê-se isto e, para além do oportunismo político, a meio do processo de avaliação, para além de mais uma cambalhota espectacular do PSD, não podemos deixar de ter vergonha de uma oposição inteira que, em mais de três décadas, ainda não aprendeu isto: não é normal que a AR revogue regulamentos administrativos e que dê ordens ao Governo em matéria administrativa. Chama-se separação de poderes.
Perguntas simples
Sábias palavras
Anthropological and sociological research on the nature of hope shows again and again that hope cannot be reduced to either action or non-action. It is neither active nor passive. In confronting uncertainty, hope demands that we at least temporarily give up our constant quest for information, knowledge and certainty. It then gives us a moment of rest that our mind desperately needs for further thought and action.



