Pendurados em Alvalade

No seguimento da violência no estádio do Sporting, onde adeptos do clube agrediram a polícia depois de terem tentado agredir jogadores do Benfica e demais auxiliares no campo, a SAD emitiu este comunicado. É um texto abjecto, que toma o partido dos que violaram a lei atacando os que a queriam defender. E, ao não vir assinado, vincula todos os elementos dos corpos dirigentes do clube ao seu teor.

Algures na Internet, esse mesmo comunicado foi reproduzido, tendo acolhido os dois comentários supra. Não sabemos quem os escreveu. Não sabemos o nome de registo civil, a idade, o género, a morada, a profissão, as habilitações escolares. Não sabemos se estavam sob o efeito de medicamentos, álcool ou estupefacientes quando escreveram. Não sabemos se estão em depressão, sofrem de paranóia ou esquizofrenia. Não sabemos se escreveram num registo irónico, ou de pastiche, ou de provocação infantil. Não sabemos se se arrependeram dias, horas, minutos ou segundos depois de os terem enviado. Não sabemos se estas duas almas não fazem mal a uma mosca, nunca fizeram nem farão. Não sabemos se são dois indivíduos ou o mesmo. Mas sabemos isto: o registo é psicopata e está lógica e moralmente suportado pelo comunicado do Sporting.

Nenhum candidato à presidência leonina, que eu tivesse ouvido ou lido, emitiu opinião acerca dos incidentes ou do comunicado. A superior violência contra o clube, logo contra a sociedade, está neste deserto de carácter daqueles que pretendem ter o privilégio de inscrever o seu nome na história do Sporting Clube de Portugal.

Tudo na mesma

Depois de uma semana desligada do mundo graças a uma infecção pulmonar, a primeira coisa que me é atirada à cara, após um passeio de 3 minutos pela bloga, é o espírito que anima os guerrilheiros faz-de-conta da direita portuguesa; qual revoluções, qual quê? Qual gente a morrer por um país melhor? Nada.

Como em todos os assuntos, também neste, a comoção dos pequenotes está em tentar aproveitar a evidência do horror destes ditadores-a-toda-a-hora-na-TV para meter lá Sócrates a dar-lhes o braço, numa confusão intencional, fingindo que não sabem o que é a diplomacia, até porque os seus líderes, que deram as mãos, como todos, no exercício da diplomacia económica, a estes gajos de que se fala na televisão já ensinaram bem a tabuada aos aldrabões de serviço.

Diz que é o futuro da direita.

Good food for good thought

“Huge excesses in asset prices and leverage ratios had built up in the financial system in the run-up to the crisis. But conventional economic theory led Federal Reserve chairmen Alan Greenspan and Ben Bernanke and other key regulators to believe that markets were nearly perfect and that they need not even look for excess in the system; they thought they could be asleep at the wheel. Had they been on guard and acted to dampen the excesses when they arose, the crisis would have been less severe or perhaps been avoided all together,” Goldberg says.

Well before the crisis struck, the authors warned of the fatal flaw in contemporary economics: the presumption that market outcomes can be explained as if the future followed mechanically from the past. Puzzlingly, the underlying belief that nothing genuinely new ever happens – that any change and its consequences can be fully foreseen – has survived even the crisis.

Professor: Current Economic Theory Made Global Financial Crisis Virtually Inevitable

David Mourão-Ferreira tal e qual na Avenida de Berna

Dia vinte e quatro de Fevereiro
Faria hoje oitenta e quatro anos
Memória duma secreta viagem
Seu filho tal e qual o que ele era
No anfiteatro das dissertações
Os mestrados e doutoramentos
Carreiras triunfantes de sucesso

O teatro do Mundo não é no Salitre
Está aqui na sala, livros e discursos
Canções a três vozes pelas mulheres
São romeiros e almocreves a passar
Orações ditas em silêncio numa casa
Como o poema que se cria devagar
Trazer de novo à luz tempo perdido

Fado de Coimbra à viola e à guitarra
Adeus ó vila de Fornos para começar
As Quadras do Aleixo logo a seguir
Homenagem a esta memória em livro
Também a uma memória na caneta
Nas prosas dessas Quatro Estações
Nos versos da ambulância na noite

Isabel trouxe aqui a voz da Terra
No fim os pastéis, bolos, cavacas
Vinho tinto do Dão e de Lafões
Na festa dos que este livro juntou
Voz da terra era também o comboio
Que o poeta nos trazia do Alentejo
Nas vozes dos ceifeiros a madrugar

Impressionar no emprego, seduzir em festas e brilhar nos jantares

Left is Mean but Right is Meaner, Says New Study of Political Discourse

A Culture of Satire Is Transforming Politics Across Diverse Media

Internet Kiosks Help Reduce Infant Mortality Rates

Higher Levels of Social Activity Decrease the Risk of Developing Disability in Old Age

Strong Link Found Between Victimization, Substance Abuse

‘Social Vaccine’ Protects Women’s Interest in Science

Paper Urges Physicians to Assess Practices for Care of LGBT Patients

Endurance Exercise Prevents Premature Aging

Speaking Foreign Languages May Help Protect Your Memory

Um livro por semana 221

«Lisboa – Livro de bordo» de José Cardoso Pires

Livro ideal para trazer Lisboa no bolso, não por acaso o seu subtítulo refere «vozes, olhares, memorações» pois são 77 páginas de memórias de um escritor apaixonado por Lisboa – desde sempre e para sempre. Outro escritor, Fernando Assis Pacheco, escreveu num poema: «Se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa» e, já antes, Cecília Meireles tinha advertido que «até o cavalo de D. José vai ficando verde, comido de mar».

Para JCP há na cidade um travo natural que será talvez um resto dos antigos pregões de rua e esse travo, que é a cor da voz, «sente-se no fado que vem do bairro e nas entrelinhas de Alexandre O´ Neill». E continua: «Devia estar também em Cesário Verde que, apesar de raro entre os raros que tiveram a sua Lisboa e um olhar único sobre ela, recebeu como castigo um busto envergonhado num jardim de quatro palmos». Para concluir: «É possível definir Lisboa como um símbolo. Como a Praga de Kafka, como a Dublin de Joyce ou a Buenos Aires de Borges. Mas, mais do que as cidades, é sempre um bairro ou um lugar que caracterizam essa definição e a fidelidade tantas vezes inconsciente que lhe dedicamos. O Chiado, neste caso.» Para conhecer a cidade não há fórmulas, apenas sugestões, como deixar para trás a Praça das Flores, a árvore-mãe do Príncipe Real, ir ao pavilhão de vidro da Tapada da Ajuda, olhar o rio das traseiras do Limoeiro, atravessar Lisboa no Aqueduto das Águas Livres, ver Marvila ou o Poço do Bispo e, por fim, ir ao Cais do Ginjal para assistir do outro lado do rio «ao descair da luz sobre a cidade». Muitos os caminhos para uma única paixão.

(Editora: Dom Quixote, Capa: Miguel Imbiriba)

Agre-cultura

O nosso amigo vasco alves sugere este texto da Isabel Stilwell: A parva da Geração Parva. É uma prosa que se limita a reproduzir os ditames do bom senso.

E eu sugiro a leitura dos comentários, com 1461 à hora em que escrevo, onde encontramos uma opinião pública entusiasmada com esta nova forma de participação cívica pela escrita sem entraves ou riscos. É só de lamentar que o jornal não tenha um decisor que compreenda a liberdade de expressão. Se tivesse, não censuraria qualquer comentário por ser insultuoso ou usar vernáculo – tal como não lhe passaria pela cabeça impedir os bebés de gatinhar sob o pretexto de ser uma forma animalesca de locomoção.

O agricultor não pode apressar o crescimento da semente. A liberdade demora, e põe à prova a paciência, antes de nos dar frutos abundantes, deliciosos.

Vinte Linhas 593

A voz da Terra de Manhouce na Avenida de Berna

Isabel Silvestre não é apenas a voz «na qual se ouve o marulhar das águas maternas da origem» (Natália Correia) mas também a autora do livro «Memória de um Povo» (Edição Círculo de Leitores) que foi apresentado no passado dia 24-2-2011 no auditório da Universidade Nova. Ana Paula Guimarães deu o pontapé de saída recordando as suas palavras para a primeira edição deste livro de Isabel Silvestre em 1992. Guilhermina Gomes sublinhou que a sua editora é também e principalmente um Círculo de Afectos. David Ferreira apresentou o livro fazendo a curiosa abordagem de um citadino impenitente ao mundo das histórias, romances, quadras, adivinhas, provérbios, pragas, expressões, modos de falar, rezas, contos e lengalengas de Manhouce. Giacometti, Lopes Graça e Armando Leça estudaram o folclore desta terra aberta ao mar e ao céu, entre o litoral e o interior. Terra de passagem para almocreves e romeiros.

Mas como a Festa contém sempre um ponto de excesso, seguiu-se um encontro musical que só acabou às 20h 30m. Com Alexandrino Matos ao piano, Isabel Silvestre apresentou o Grupo de Manhouce com quem cantou e encantou a três vozes: Sandra, Leny, Custódia, Rita, Ana e Maria do Céu. Ouviu-se na Avenida de Berna o timbre da voz da Terra desde o primeiro («Lá vem o Maio») ao último tema que foi «Eito fora».

Seguiu-se um grupo de fados de Coimbra (antigos estudantes) integrando três solistas, duas guitarras e duas violas. Depois de três clássicos («Vila de Fornos», «Senhora partem tão tristes» e «Balada do Aleixo») foi cantado o «Cantar emigrante» de Rosália de Castro e José Nizza. Por fim uma bela guitarrada em variações do Fado Hilário.

Deslarguem-me

Aconteceu-me uma coisa incrível nesta quinta-feira. Estava a arrumar carros ao pé do Galeto, para fazer uns trocos e jantar por lá, quando me surgem à frente, esbaforidos, a Fátima Rolo Duarte e o maradona. Tinham vindo a correr da Almedina, no Atrium Saldanha, onde abandonaram uma selecta assistência reunida para os ver e ouvir. Queriam à força cumprimentar-me, pedir conselhos e sacar autógrafos. O costume. Mas como é que souberam que eu estava ali àquela hora, perguntei fingindo-me da geração Deolinda. Disseram que tinham recebido a informação do jmf1957, via Twitter. Consta que este gajo é um agente secreto famoso pelos seus contactos nas casas de pasto da Capital, está sempre à escuta. Felizmente, não tive de suportar a presença do casalinho por muito tempo, o que seria fatal para a minha recolha de fundos, pois a Carla Quevedo apareceu nem 5 minutos tinham passado. Agarrou uma orelha a cada e abalou com eles de volta para a converseta.

Já não há anonimato como antigamente, é o que vos digo.

Ai Jesus

O Benfica, no começo da época, esteve quase a queimar o principal guarda-redes e a despedir o treinador campeão. Agora, comandam o campeonato da auto-estima com mil pontos de avanço.

Qual é a lição? Nenhuma. E essa é que é a lição.

Cu à mostra no Face Oculta

Neste processo, o presidente do STJ recebeu – desde 5/Agosto/2009 e até finais de Novembro/2010, ou seja, no espaço de quase um ano e 4 meses – seis tranches de escutas (repito, seis tranches de escutas) num trajecto curioso de envio às pinguinhas de escutas que se situavam, no entanto, no mesmo período temporal; algo que, só por si, coloca problemas e perguntas óbvias que qualquer mente humana levantará, nomeadamente em termos investigatórios.

Noronha do Nascimento

Vinte Linhas 592

Todos nascemos benfiquistas mas…

Esta expressão (Todos nascemos benfiquistas mas…) é o título feliz de um livro de Joel Neto e lembrei-me dela ao ler a crónica de José Manuel Delgado sobre o SCP em A BOLA de ontem dia 22-2-2011. A propósito da «crise» do Sporting, este jornalista (foi jogador dos leões mas parece ter esquecido tudo o que lhe ensinaram) escreve na mesma crónica duas «bojardas». A saber: refere um derby em 1907 e diz que o SCP disputa o campeonato nacional desde 1934/35. É tudo mentira. Primeiro: o Sport Lisboa e Benfica foi fundado em 1908 por fusão de um grupo de Belém (1904) e outro grupo de Benfica (1906). É dessa fusão que o emblema abarca a roda da bicicleta e a bola mas em 1907 não houve qualquer derby pois ainda não existia o SLB. Segundo: em 1934/35 disputou-se uma prova experimental e privada na qual os clubes entravam por convite. Não foi um campeonato (nem podia ser) porque o Campeonato de Portugal, em disputa desde 1921 era o único que atribuía o título de campeão em Portugal. A Liga foi apenas uma prova destinada a experimentar um torneio por pontos mas, como é óbvio, nem o vencedor ganhou o título de campeão (exclusivo do Campeonato) nem o último classificado desceu para a segunda divisão (que não existia). O Campeonato Nacional só começou na época de 1938/39 mas o facto de o SLB ter ganho três da quatro Ligas disputadas entre 1934 e 1938 fez com que muitos «historiadores» tentem apagar o Campeonato de Portugal como se nesses anos ele não tivesse sido disputado. No meu tempo nunca me obrigaram a escrever mentiras e julgo que hoje o código se mantém. Fui um felizardo. Todos nascemos benfiquistas mas depois alguns crescem.

Sim, asfixiante

José Alberto Carvalho e Judite de Sousa na TVI

Não temos de nos limitar à dimensão política para ficarmos curiosos acerca do fenómeno: o PS não tem qualquer território demarcado na comunicação social. A TVI do casal Moniz era uma FOX, a SIC é um antro do PSD, o Público continua à espera da oportunidade para completar a vingança por causa da OPA da PT e é um vazadouro de Belém, o Expresso é a SIC que é o PSD, o DN adora Passos Coelho e está farto de Sócrates, o Sol e o Correio da Manhã perseguem e tentam abater tudo o que for socialista. A Renascença é a Renascença. Quanto à RTP, quando não está num rigoroso equilíbrio de representatividade democrática que até obrigou o Pacheco a andar de cronómetro a medir a secundagem das notícias no Jornal da Tarde, permite-se também personagens como Judite de Sousa, abertamente tendenciosa a favor do PSD. A Antena 1 viu uma campanha publicitária à estação censurada num daqueles delírios que uniu comunas e reaças a pedirem sangue, ai dela se mijar fora do penico. E a TSF dá voz a todos – pelo que todos podem escolher o ângulo crítico que preferirem para a descreverem – cumprindo-se na procura de um jornalismo radiofónico de excelência.

Não existem outros órgãos com poder de influência.

Chamem a polícia

Acontece com as crises de regime, porque são espectáculos globais em directo, o mesmo que acontece com a utilização dos computadores: de cada vez que ficam mais rápidos, reduz-se a nossa tolerância à demora com que obedecem aos comandos. Acabamos por sentir a mesma impaciência, ou até uma maior do que a anterior, pois estamos convencidos de que é desta que vamos ter direito à instantaneidade.

O fluxo da atenção concentrado nas imagens e estímulos afectivos que consumimos acriticamente, cuja lógica mediática é a manutenção da ansiedade ou a glorificação do putativo vencedor, distorce os factos: não os que observamos no ecrã, mas aqueles que nos rodeiam. Os mortos e feridos do nosso quotidiano, na violência doméstica ou na estrada, não nos incomodam, muito menos nos comprometemos com alguma tentativa de solução, prevenção ou consolo. Já a exibição televisiva ou relatada da força contra os justos, ou aqueles que escolhemos como vítimas, convoca a nossa indignação e alarme. Queremos ser parte desse espectáculo na exacta medida em que tal participação for impossível. É um género, gostamos do que nos faz sentir a nosso respeito.

Na Líbia não há praças rituais nem romarias. Segundo a crescente sintonia dos testemunhos, há guerra civil. É provável que não seja a última que o Mundo vai produzir, mas esta em poucos dias já gerou um consenso que até Khadafi aceitaria se conseguisse acalmar: têm de ser os Estados Unidos a resolver o assunto – e milhares de milhões preparam-se para aplaudir a execução do bandido, morto em legítima defesa pelas forças da ordem.