Canção para uma voz

Ouvi agora a tua voz dentro dos fios
Não como voz mas como instrumento
Da velha música das pedras e dos rios
Da tua infância, memória no momento

Se a tua orquestra viesse nos jornais
A tua voz dominava o naipe criado
Entre as madeiras, cordas e metais
Ia a cantar melodias por todo o lado

Com os pianos e violas e concertinas
Num apoio à tua voz lá na sua altura
No coro do teu colégio das meninas
Na Beira Alta a memória à procura

Toda a força do timbre que resiste
No som da tua voz hoje telefonada
Vai encher de luz esta tarde triste
E o poema vai chegar à madrugada

Meu vício desde o início

Greater closeness with the partner was associated with activity reflecting reward and motivation (in the VTA and substantia nigra), as well as human awareness (middle insula and anterior cingulate cortex); relationship length was significantly associated with activity of the ventral and dorsal striatum, similar to individuals who yearn for a deceased loved one or experience cocaine-induced high, thus linking attachment bonds with addiction-related properties; and sexual frequency was positively associated with activity of the posterior hippocampus, in an area found in studies of hunger and craving, as well as for obsession and early-stage love.

in Imaging Study Shows Love Can Last

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No problemo, eu traduzo: este parágrafo informa o leitor curioso acerca do carácter viciante do amor, uma autêntica cocaína (potencialmente mais dispendiosa e sujeita a perigosíssimas impurezas), e de como ele leva os amantes a terem tanta, ou mais, tesão como aquela que tinham quando se apaixonaram, independentemente da duração desse amor.

Tudo conhecimentos a que os poetas chegaram com enorme avanço sobre os cientistas:

Egiptologia

Quero dirigir uma palavra aos jovens portugueses. Lutem pelo vosso futuro, vocês são a geração da mobilidade, do Erasmus e das redes sociais. Não fiquem parados. Lutem por uma nova forma de fazer política. Mais transparência e fundamentação nas decisões, mais ética, mais respeito pela dignidade das pessoas. Menos espectáculo e mais verdade no discurso. Podem contar comigo.

Cavaco

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Se o primeiro discurso de Cavaco na noite eleitoral foi uma vergonha, o segundo foi chocante. Pelo meio, os comentadores tentavam entender o que tinha passado pela cabeça do homem para ter continuado a atacar os adversários mesmo depois de ter sido reeleito e esperavam que ainda fosse a tempo de dar uma palavra de concórdia e pacificação ao País. Acontece que o segundo discurso não foi só ainda mais persecutório, foi também desvairado e violento. No final, havia um sentimento de inaudita incredulidade; ninguém teria sido capaz de imaginar nada sequer parecido, quanto mais ter ainda de o comentar sabendo-se que se estava perante o actual e futuro Presidente da República.

Entre as várias infâmias proferidas por Cavaco, a maior de todas é esta invocação dos jovens somente para continuar a espalhar o seu fel. É o cúmulo da sonsice. O tal que patrocinou e alimentou uma golpada eleitoral, e que é cúmplice moral e directo beneficiário da golpada do BPN, vem dizer aos jovens para exigirem mais transparência, mais ética e mais respeito pela dignidade das pessoas – metas para as quais anuncia poderem contar com o mesmo que as ofende e despreza sem o mais leve sinal de remorso.

Estamos perante um grau de hipocrisia que merece uma pirâmide 10 vezes maior do que a de Gizé para lhe fazer homenagem.

Vinte Linhas 580

Ouve-se alguma «Música no coração» em Alfama

A ideia geral que todos nós temos da Áustria ou do império Austro-Húngaro resume-se a meia dúzia de nomes e de figuras. Na escrita Franz Kafka, Stefan Zweig e Sigmund Freud – embora o terceiro seja mais do que autor de livros. No cinema Romy Schneider e Arnold Schwarzenegger, na pintura Gustav Klimt e no mundo dos automóveis Ferdinand Porsche. Do lado da música temos W.A. Mozart na dita clássica e Falco (Hanz Hölzel) na dita popular – único artista no nº 1 do Hit Parade americano com uma canção de língua não inglesa – o célebre «Rock me Amadeus». Mas não pode ficar esquecida a senhora baronesa Maria Augusta von Trapp cuja vida e canções deram origem ao filme «The sound of music» entre nós traduzido por «Música no coração» enquanto no Brasil passava como «A monja rebelde». Descobri em plena Alfama um espaço (Rua de São João da Praça, 95) onde se respira o ambiente dos cafés de Viena. Abre às 11 da manhã talvez para os magníficos bolos à fatia já estarem prontos à chegada do primeiro cliente. O espaço é enorme, a decoração é acolhedora, a disposição das mesas sugere o encontro. Há mesas grandes, médias e pequenas assim se adaptando aos grupos e seu tamanho. As fatias de bolo são uma tentação perigosa para quem não pode comer doces e o uísque servido em doses generosas e nada caras. Para quem goste de descobrir a gastronomia do velho império austro-húngaro, as duas senhoras são excelentes cicerones. São mesmo muito simpáticas. Os arcos em pedra lembram uma igreja mas a liturgia aqui é outra. E a oração também. Ou seja – ligar numa refeição dois mundos separados no que é uma maneira bonita de não estar só.

Como são bonitos os portugueses

Trata-se de um formato produzido em vários países, cuja versão portuguesa foi lançada na RTP em Junho passado. O conceito é o da apresentação turística de uma cidade, mas com a originalidade de convidarem imigrantes do país onde se exibe o programa para servirem de guias amadores. Ao mesmo tempo que falam da cidade, contam a sua história.

O exemplo que trago, apesar de estar em condições visuais muito deficientes, permite apreciar o grande talento com que se faz esta série, e, acima de tudo, o excepcional casting. As pessoas escolhidas parece que nasceram para fazer televisão tal a naturalidade, fluência e boa onda com que falam do que está fora ou dentro de si. Algo completamente atípico para o português que nunca saiu da terrinha. Mas também os exemplos de vida mostrados são apelativos, até aspiracionais – e não por razões meramente monetárias (que não se referem), mas por ficarmos com a impressão de que estão todos a fazerem o que querem, que se estão a realizar. Não têm qualquer comparação com a imagem estereotipada do emigrante português, polarizada entre as figuras do rústico analfabeto que vai para a construção civil e o filho-família que vai para uma carreira de topo. Estes estão no meio, e são do nosso meio.

O Pedro Caleiro é a simpatia em pessoa. A Bárbara Neves é uma sósia da Catarina Furtado, mas mais descontraída e natural, por isso ainda mais agradável. O João Pamplona é a portugalidade no seu melhor. A Alexandra Cruz é uma queque com quem apetece passar férias, almoçar, jantar e tomar o pequeno-almoço. E o João Friezas é um cromo prototípico que merecia um programa inteiro sobre a sua pessoa – a star is born.

Não sei se sabes, mas alguns dos seres humanos mais bonitos do mundo têm trinta e tal anos e são portugueses.

Segunda parte

Um livro por semana 217

«História da Vida Privada em Portugal – – A Idade Moderna»

Partindo do clássico «História da vida privada» de Georges Duby (1985), temos o segundo volume da série dirigido por José Mattoso e coordenado por Nuno Gonçalo Monteiro. Conceitos como indivíduo, propriedade, religião ou Estado existem hoje mas já tiveram outros sentidos no passado. A propósito das deslocações á igreja vejamos que em 1730 uma descrição de Lisboa refere que é vulgar haver simples mercadores com capela em casa e missa privada «a fim de não darem a suas mulheres e filhas o único pretexto que podem ter para pôr o pé na rua». No território português (Ilhas atlânticas e Brasil), homens e mulheres ficavam em lugares separados no interior das igrejas. Às mulheres cabia a nave. Quando algumas optavam por outro local, os visitadores tratavam de repor a ordem. Um estrangeiro notou que em 1730 «elas fazem namoro na igreja por sinais e ali passam bilhetinhos de amor. Estes sinais fazem-se de parte a parte, de uma maneira subtil e tão prudente que, um estranho, sem conhecimento deste costume, juraria que os dois dialogantes não haviam trocado uma palavra». As próprias crianças que ajudavam à missa (acólitos) eram portadoras de bilhetinhos.

Os hoje chamados «santos populares» propiciavam em 1799 que «as mulheres aproveitam o ensejo e, livres de toda a suspeita, vão encontrar seus amigos, conversar com eles alegremente, mostram seus encantos em pleno dia, ostentam novas modas e murmuram das pessoas mais em evidência». E conclui: «Às vezes havia até bailes entre homens e mulheres».

(Edição: Círculo de Leitores – Temas e Debates, Design: Leonor Antunes, Coordenação: Nuno Gonçalo Monteiro, Direcção: José Mattoso)

Vos estis sal terrae

*

Para além da escrita relevante, acutilante e entusiasmante, que é a sua marca, qualquer livro com palavras da Fernanda é também muito útil para chatear aqueles que nos aborrecem. Por exemplo, aquele ranhoso que até calha ser nosso cunhado, que em todos os jantares de família insiste em repetir o que papou no Sol ou no Correio da Manhã, assim perturbando a saudável deglutição das entradas e postres. Por exemplo, aquele imbecil que até calha ser nosso primo, que vai para os casamentos e baptizados atiçar a luta de classes e espalhar o seu ódio à burguesia, assim estragando a festa à tia e ao avô. Por exemplo, aquele pulha que até calha ser nosso colega de trabalho, que se vangloria de fugir aos impostos, enganar os incautos e desprezar os políticos, assim promovendo o cinismo à sua volta. Por exemplo, aquele bandalho que vemos na televisão a envenenar a democracia, que se toma como uma sumidade moral mas que não passa de um farrapo de gente, assim usando o seu poder para perverter a opinião pública.

Para todos eles, o envio deste livro – mesmo que nunca venha a ser compreendido ou sequer lido – é um sermão que enche de gozo a quem o dá.

Vinte Linhas 579

Sete perspectivas de Mulher em Pintura

Cinco pintoras e dois pintores estão presentes com seus trabalhos na All Arts Gallery na Rua da Misericórdia 30 (ao Chiado) até 15-2-2011 de terça a sábado das 10 às 19 horas. Os seus nomes são: Ada Breedveld, Ana Cristina Dias, Françoise Collandre, Lluisa Jover, Teresa Viotti, Jorge Valdivia e López Herrera.

Sobre as mulheres Óscar Wilde escreveu uma frase que ainda hoje resiste ao tempo e à sua erosão: «As mulheres foram feitas para serem amadas; não para serem compreendidas».

O quadro da esquerda assinado por Françoise Collandre mostra essa mulher misteriosa, nos limites da casa e sempre à espera de ser amada – não de ser compreendida.

Mas, por sua vez, a mulher-gata de Ana Cristina Dias lembra as palavras de Heywood: «A mulher tem nove vidas como o gato».

Seja no espaço fechado do lar, seja no espaço aberto da Natureza, as mulheres destes quadros lembram a ideia de A. Houssaye – «As mulheres nada sabem; adivinham tudo».

Ou, por outras palavras, o que um dia Alexandre Dumas (filho) escreveu: «As mulheres não pensam em nada ou pensam em outra coisa».

Quando pode parecer exagerada uma aproximação entre a mulher e o gato como nos quadros de Ana Cristina Dias, basta lembrar que ambos (gato e mulher) caem de pé e que, como um dia afirmou G. Vapereau, «Só aos gatos é dado combinar os prazeres da sociedade com o encanto da independência». Mas Houssaye tinha avisado «Só os que não conhecem as mulheres é que dizem mal delas». Já agora: não percam a exposição…

Segredos mal guardados das presidenciais

Cavaco deixou assustados os seus mais fiéis apoiantes.

Passos deixou assustada a sua oposição interna.

Portas entregou o ouro ao bandido.

Louçã partiu um dos pés de barro.

O PCP continuará a tentar ser Presidente da República.

Nobre não resistiria mentalmente a mais uma semana de campanha.

Coelho começou o ataque ao poder no arquipélago pela conquista dos selvagens.

Sócrates foi o único vencedor.

A propósito do dia internacional do Holocausto

Estava a ver as terríveis imagens do post da Palmira, bem documentadas por quem perguntou em título de livro “Se isto é um homem?”, quando me lembrei do que sempre me lembra o mais terrífico acontecimento que consigo encontrar na minha memória histórica. Li muita coisa sobre o Nazismo, li relatos históricos e li o que fica nos homens que ficaram; uma literatura que nos diz da possibilidade humana, da impossibilidade dela, da dor por dentro, do sabor da comida que não chega, do sentir exacto da carne dos pés a saltarem na neve dos campos de concentração, da lógica da sobrevivência que mata muitas conivências impossíveis.

Homens por acaso vivos, para sempre mortos, mas com força para dizerem de si num poema, numa prosa, numa música.

Lemos, vemos, soletramos, ouvimos, mas não somos o outro, é impossível, há sempre uma distância que nos rouba o tu enquanto faz de nós analistas. Mas fazemos o que é possível e lemos e vemos e soletramos e ouvimos.

E também choramos.

Há um momento em que nos perguntamos duas coisas: como foi possível? Seria possível outra vez?

É a esta segunda pergunta que a generalidade dos Autores, como Primo Levi, citado pela Palmira, responde que sim. Daí a preocupação de não esquecer ou, para usar o conceito utilíssimo de José Gil, de inscrição.

Não devemos esquecer. Nunca. E devemos saber da história toda e depois das histórias que nos chegarem, como a de uma menina muito pequena levada para um campo e, ainda criança, 4 anos depois, na libertação, ao amparar a queda de seu pai emocionado sobre o seu corpo magrinho, ouviu um soldado alemão perguntar-lhe: – é teu pai? Disse que sim, a chorar de alegria, e uma bala atravessou a cabeça do pai.

Não esquecer, contar, uma e outra vez. Repudiar as comparações absurdas com regimes detestáveis, comparações assentes no quem mais matou.

Aqui há um elemento pouco discutido: nunca existiu até hoje um sistema político todo ele cientificamente apoiado num sistema jurídico de perfeição matemática com o fito de aniquilar uma etnia inteira. Isto nunca aconteceu.

Como é que foi possível? Diria isto: lei a lei. O sistema poderia ser lei, adaptação, lei, adaptação. Hitler chega ao poder e aprova centenas e centenas de leis e de regulamentos. É como as malhas de uma camisola, um sistema em construção, sabiamente, tijolo a tijolo, sempre com eles na exclusão a cada lei ditada. As pessoas que vivem como destinatárias desta chuva miudinha de leis e de regulamentos, aderem aos mesmos, ao que os mesmos querem dizer, isto é: eles não são pessoas.

Eis o horror de um sistema jurídico construído para a desumanização total de um grupo, com eficácia, o grupo que certo dia começa a sair das cidades em filas, com bandas nos braços, sabe-se lá para onde.

Um dia soube-se, desde logo pelos milhares de cartas dos soldados alemães enviados para as famílias, mas já seria de espantar que fossem para parte incerta. Acontece que já não eram pessoas, nem para os seus vizinhos, nem para os guardas que os tiraram dos seus lugares nem para quem materialmente os dizimou.

Penso que este horror não se repetirá por causa das especificidades que apontei.

Mas há sempre monstruosidades que podem acontecer.

E mesmo que assim não fosse, ainda que houvesse a garantia de nem mais uma perseguição na história, porque aconteceu, não esquecer, contar, uma e outra vez, ler, ver, soletrar, ouvir, fazendo o possível para chegar ao outro, lendo, vendo, soletrando.

E também chorando

Da importância de se estar entre aqueles que deram um sinal à sociedade e ao mundo com a aprovação do CPMS

No Uganda, a prática de actos homossexuais é crime e punida até 14 anos de prisão. Toda a gente se lembra das discussões em torno de uma eventual introdução da pena de morte.

Hoje lemos esta monstruosa notícia: um activista dos direitos homossexuais no Uganda, que fora identificado como gay por um jornal local, foi assassinado em casa, perto de Kampala, num crime que se suspeita ter motivos homofóbicos.

Chegámos à Madeira

Mais do que a percentagem nas eleições, para a qual há fáceis explicações, é esta entrevista que consagra José Manuel Coelho como a maior revelação da política nacional dos últimos anos. O seu discurso está estruturado e fundamentado, reina o princípio de realidade (mesmo que a derrapar nas curvas) e tem já pronta uma estratégia eficaz para pressionar PCP, BE e PS na Madeira. Aliás, ficamos até perplexos por ser necessário aparecer uma figura tão marginal para ouvirmos uma crítica a Jardim com esta radicalidade.

Também chamo a atenção para o modo como termina a entrevista, onde o jornalista, perante uma justíssima acusação, tem uma reacção corporativa e paternalista. O jornalista, obviamente, fez ali de palhaço.

Atacar o Defensor

Neste vídeo, a partir do minuto 4.30, Defensor de Moura alega que, aquando da sua declaração na noite eleitoral, foi impedido pelos jornalistas de explicitar o que pretendia dizer com aquilo de não felicitar Cavaco pela sua reeleição. E o que pretendia ter dito, afinal, não era o que acabou por dizer mas exactamente o seu contrário, pois, naturalmente e tal, é das normas democráticas felicitar o vencedor, e terá sido só por intempestiva falta de tempo, e calma, que não o conseguiu fazer, devendo-se culpar os jornalistas pelo insucesso da comunicação, prontos e esqueçam lá isso. E neste vídeo, a partir do minuto 1.20, vemos a famigerada declaração, onde com toda a calma – e tempo, que o exigiu aos jornalistas – diz, num tom de voz audível e aprazível, não felicitar Cavaco, tendo ainda o cuidado de explicar porquê com algum detalhe.

Estamos perante uma desilusão, tecnicamente falando, pois fora criada uma ilusão de frontalidade e coerência, agora desmentida pelo próprio. Entretanto, o João Pedro da Costa abriu uma fértil discussão quanto ao juízo moral a fazer do antigo Defensor de Moura, efémero mas bravo desbocado, a qual me deixou a pensar em algo que nunca antes tinha ocupado o meu bestunto: a fascinante problemática das felicitações aos adversários políticos. E o cerne da questão está aqui: que se está a fazer ao felicitar alguém? Independentemente das inúmeras respostas que obteríamos num inquérito, tantas quantos os participantes, o seu ponto em comum teria de ser algo como isto: felicitar é reconhecer a bondade de um dado evento passado e de um dado evento futuro, ambos representados na pessoa que se felicita. Ou seja, ao felicitarmos estamos a declarar que nos submetemos à liberdade de outrem, no que à esfera do estatuto alcançado concerne. Assim, quando um político derrotado envia felicitações ao político vencedor, o primeiro está, acto contínuo e sem carência de sinceridade ou estima, a reconhecer publicamente que a vitória do segundo é fundamentalmente boa. Boa para os dois.
Continuar a lerAtacar o Defensor

Vinte Linhas 578

Nem tudo o que a Enciclopédia Larousse afirma é verdade

Durante muitos anos habituei-me, no local de trabalho, a ouvir esta frase: «Se vem na Enciclopédia Larousse é verdade». Outro livro que todos aceitavam era o Banker´s Almanak que tinha todas as moradas, telefones e telexes de todas as agências de todos os Bancos do Mundo. A ficha da Enciclopédia Larousse sobre Cármen Miranda contém um erro crasso: refere a data de 1914 como a sua data do nascimento quando na verdade Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em 9-2-1909. E não em Marco de Canavezes mas sim em Várzea de Ovelha.

A origem do erro só pode ser uma: quando chegou aos Estados Unidos da América em 1939 com 30 anos de idade os rapazes dos escritórios do senhor Greneker resolveram inventar uma nova biografia. Nessa nova história contada na primeira pessoa a origem da família passou a ser Lisboa por ser a capital e não a região do Porto. Seu pai deixou de ser barbeiro e passou de caixeiro-viajante em Lisboa a próspero atacadista e exportador de frutas no Rio – isso estava relacionado com as frutas no turbante da Cármen. Mudaram a data de nascimento para 1914 e ela descrevia-se como uma «moça de convento» que «gostava de cantar» e enfrentou uma séria oposição dos seus pais para se tornar cantora. Referia também que no Brasil «as pessoas de boa família não se misturavam socialmente com os artistas» mas no seu caso isso era mentira pois ela tinha livre-trânsito entre as melhores famílias e até namorava rapazes saídos dessas famílias como Mário Cunha. Pronto fiquemos por aqui. Nem tudo o que aparece na Enciclopédia Larousse é para ser tomado a sério. Neste caso são cinco anos a menos.

Don’t fuck with Mr. Zero

A prestação do Ministro da Administração Interna, nesta terça-feira no Parlamento, foi insuficiente. Para além da abertura do inquérito, que é o mínimo dos mínimos, a sua mudez – 48 horas passadas e muitas declarações feitas pelos responsáveis dos serviços em causa depois – acrescenta descredibilização governamental ao episódio.

Estamos perante uma situação onde não é possível invocar factores desresponsabilizadores, apesar de alguns poderem ser legítimos (como a incúria cívica de quem não tratou de saber qual era o seu número de eleitor antes da eleição). Do que se percebe vendo de fora, há duas falhas inadmissíveis: (i) um sistema informático desadequado ao fluxo que seria previsível num cenário de picos de pedidos e (ii) a ausência de um aviso individual com a informação respectiva ou uma campanha pública que tivesse alertado para a necessidade de acautelar a aquisição do novo número para aqueles que tinham mudado para o Cartão de Cidadão.

Não é só a oposição que tem toda a razão em malhar nos responsáveis governamentais, é a comunidade inteira. Podia ter acontecido uma catástrofe eleitoral, caso a segunda volta tivesse sido alcançada ou evitada por uma pequena margem. Provavelmente, as eleições teriam de ser impugnadas, e tudo o que se seguisse seria imprevisível e desgraçado.

Esta questão é de tal ordem fundamental para o funcionamento das instituições do Estado que até o visionamento deste bandalho – que vai para a televisão largar com perfídia uma insinuação conspirativa contra o Governo, sendo ele conselheiro de Estado – tem de ser suportado sem um vagido de protesto.

O que andam a fumar no Cachimbo?

Um homónimo de um antigo presidente do Benfica, que não conheço de lado algum e a quem nunca me tinha referido até hoje, usou um texto meu para fazer uma graça contra Sócrates. É simpatia que agradeço. Contudo, ele sentiu a necessidade de informar a audiência que, concomitantemente, achava banal o material por si aproveitado. Ora, concordo muito com ele. É que eu ignoro qual seja a sua definição de banalidade, e qual a percentagem de textos escritos em blogues que este perito literário considera banais, mas não ignoro que eu teria muita dificuldade em encontrar algo escrito por mim que não considerasse banal. E desconfio que a situação não vai melhorar.

Já o que ele escreveu me parece tudo menos banal. Na verdade, acho-o extraordinário; dado que só existem duas razões que expliquem a reunião daquelas palavras num composto que se quer lógico: ou não consegue identificar um uso básico da ironia ou só pretende ser lido por quem sofra de iliteracia. E até parece que o estou a ver, feliz da vida a escolher uma imagem curtida para ilustrar a pilhéria, assolado por explosões neuronais de auto-satisfação por ter apanhado – e com tanta facilidade! – um xuxa no ritual diário de adoração do grande líder. Assustador.

Em Dezembro passado, tinha sido um outro colega de blogue a passar pela mesma figura; e exactamente nas mesmas condições: nunca dele tinha falado, não me nomeia e só disse parvoeira da grossa. E em Maio de 2009 ainda outro colega usando o mesmo protocolo, num duvidoso exercício de humor que não saiu do registo pastiche. Para completar o ramalhete, este blogue acolhe o sinistro Paulo Pinto Mascarenhas, uma mente brilhante que desenvolveu a teoria de que o Valupi era (ou ainda é, sei lá…) o Rogério da Costa Pereira, entre outras maravilhas saídas da sua alucinada cabeça.

Pelo que vos deixo este conselho: o que quer que seja que andem a fumar, não o façam antes de escrever.

A garlopa de Cesário em Janeiro

Também eu gostava de ficar na oficina
A escolher as ferramentas da herança
Uma plaina é uma garlopa pequenina
Uma enxó é quando o desbaste avança

Na asa ou punho a minha mão fechada
Conduz a ferramenta o som duma canção
Também distingo uma garlopa calçada
No seu rasto guarnecido a chapa de latão

Também vejo o pó da poesia na madeira
O guilherme com a sua pouca espessura
Pode ajudar-me a aplainar esta canseira
No rasto convexo as mechas e a abertura

As aparas caem no chão da nossa vida
A garlopa alisa estas tábuas de Janeiro
No poema ouço uma voz meio sumida
Do meu avô que foi poeta e carpinteiro